segunda-feira, 27 de fevereiro de 2006

filmes dos anos 70

"A noite americana" (La nuite americaine), 1974, de Francois Truffaut. Foto Les Films du Carrosse

O CinUSP Paulo Emílio, São Paulo, dedica o mês de março a um de seus mais bem sucedidos projetos dos últimos anos, a série Para Gostar de Cinema, que chega em 2006 à sua terceira edição fazendo uma retrospectiva de filmes dos anos 70. São apenas seis filmes, portanto, seria improvável representar aqui todos os gêneros, estéticas e estilos cinematográficos que marcaram essa década na história do cinema. A seleção, portanto, não tem como objetivo abranger toda essa diversidade. Tampouco se poderia limitar a exibir filmes que se consagraram de tal maneira que foram revistos muitas vezes nas décadas seguintes. Filmes como a série “O Poderoso Chefão” ( The godfather), 1972, de Francis Ford Coppola, e “Taxi driver” (Taxi driver), 1976, de Martin Scorsese.

O objetivo da mostra, por outro lado, é instigar o espectador a conhecer filmes que não sejam suficientemente conhecidos, e que possam desenvolver um novo olhar e uma nova leitura dos anos 70, marcados no Brasil e no mundo por governos de repressão; ao mesmo tempo, a juventude daqueles tempos buscava por novos meios de expressão. Isto fica claro em “Os Doces Bárbaros”, 1976, de Jom Tob Azulay, documentário brasileiro que registra uma turnê musical na qual os músicos Gil, Caetano, Gal e Bethânia propõem através da música e da dança uma postura libertária contrária ao pensamento conservador da direita militar, e contrária ainda às posturas oposicionistas tomadas pela esquerda.

Também foi a década em que o cinema colocou pela primeira vez o sexo no centro da narrativa fílmica. No Brasil, as pornochanchadas tomaram em grande escala as salas de cinemas do país, com enredos cômicos entremeados por cenas de sexo entre homens viris e algumas das mais belas mulheres brasileiras. Eram filmes produzidos de maneira rápida e barata, que chegaram a representar 70% da produção nacional no período.

Teria sido possível escolher alguma pornochanchada nacional para exibição nesta mostra, mas o que isto teria a acrescentar em tempos de profunda banalização sexual na TV, em que detalhes ditos “ginecológicos” são explorados pelas câmeras? Por que não retomar a temática sexual com um dos filmes mais controversos e explícitos da Trilogia da Vida de Pier Paolo Pasolini, “Mil e uma noites”, (Il fiori delle mille e una notte), de 1974, que propunha, então, uma visão radicalmente diferente do sexo no cinema?

São questões como estas levantadas acima que permeiam a seleção desses filmes, buscando ainda alguns diálogos possíveis entre eles. Por isso ainda, o filme de Pasolini é acompanhado na mesma semana por “A Marquesa d’O” (La Marquise d'O), 1976, que, com o bom humor e o estilo ímpar de Eric Rohmer, investiga a partir de um conto do século XVII o mistério da gravidez de uma mulher casta.

Completam a mostra outros dois filmes europeus de dois grandes diretores da década de 60: François Truffaut, precursor da Nouvelle Vague, é representado por seu “A Noite Americana”, (La nuite americaine), 1974, uma ode à arte de fazer cinema, e “O Passageiro – Profissão: Repórter” (The passenger), 1975, de Michelangelo Antonioni, uma obra-prima em si mesma, pela riqueza de recursos cinematográficos. E há ainda o filme de Arnaldo Jabor, “Toda nudez será castigada”, um grande sucesso da década em que o cinema nacional esteve mais próximo do público brasileiro, com filmes ao mesmo tempo populares e de grande qualidade.

Com o fim de aprofundar a análise desses filmes, acompanham suas sinopses textos de ensaístas, críticos e cineastas que procuram destacar ao espectador algumas das mais significativas qualidades de cada obra, justificando por que elas devem ser vistas. No mês em que a comunidade USP se renova com a chegada de novos alunos, a série Para Gostar de Cinema espera conquistar novos públicos para o CinUSP Paulo Emílio, espaço cultural tão valioso para a Universidade, mas espera ainda despertar dentro de seus já habituais espectadores, através dos textos apresentados e dos filmes em si, um novo olhar e uma nova maneira de se relacionar com o cinema.



O texto acima é do catálogo de apresentação que está sendo preparado para a Mostra. A seleção de filmes está ótima, e, claro, pelo número reduzido dos títulos selecionados não dá para abranger todos as tendências e estéticas que marcaram a época. Mas, é lamentável a ausência de um filme nacional do gênero que se denominou pornochanchada. A explicação dada explica, mas não justifica. Qualquer filme produzido na chamada Boca do Lixo representaria muito bem a "visão radicalmente diferente do sexo no cinema" que se fazia no Brasil naquele período.

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