sábado, 31 de dezembro de 2011

dois mil e doze!

"A vida vem em ondas, como um mar..." 

FELIZ ANO NOVO, DE NOVO!

o filme

 
"Mãe e filha", segundo longa do cineasta cearense Petrus Cariry,  foi o melhor filme que assisti em 2011. Ainda não lançado no circuito comercial, o belo trabalho foi apresentado em vários festivais nacionais e internacionais, ganhando merecidos prêmios em diversas categorias. 

Petrus é de uma geração de cineastas ousados, que não fazem concessões e vão na contramão da mesmice, como Erik Rocha, Cláudio Assis, Karim Aïnouz... Mas, sem desmerecer de forma alguma o talento desses e de outros poucos, Petrus é o mais autêntico. Sempre digo que ele não faz filmes: faz Cinema.

Algumas observações do Olhar

o disco

“Que isso fique entre nós”, do paulista Robson Pélico, ou somente Pélico, foi o melhor disco de 2011. Inquietou-me e me confortou com suas letras certeiras, sua musicalidade longe da mesmice "pop”. Ele tem outro cd, de 2008, “O último dia de um homem sem juízo", mais guitarra, mais gritante. Mas esse segundo é O disco.

Pélico é um Luspicínio redivivo, um Roberto meio bossa-nova, meio rock-and-roll. Pélico vai direto nos corações sofridos, nas relações findas, e não se desespera: fotografa com sua voz grave e ao mesmo tempo delicada o que às vezes escondemos, o que nem sempre relevamos, e ele nos revela com sua enorme gratidão poética. 

Em 2012 ele precisa se estender mais em shows além da "cena paulista". Aguardo, aguardamos você, Pélico, Brasil a fora! Que isso não fique só entre nós.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

você ainda é uma garotinha

Era tarde de um sábado de dezembro, há dez anos. Cheguei em casa e encontrei Cris chorando diante da tv acompanhando a notícia sobre Cássia Eller. E não acreditei, ou não quis acreditar, como sempre acontece quando nos deparamos com a morte de um artista. Como a arte é eterna, queremos sempre nos iludir que seus criadores sejam igualmente para sempre.

Quando vim morar em Brasília, já conhecia e gostava da música da Cássia, mas confesso que realmente passei a ouvir e gostar da Cássia junto juntinho com Cris, ainda no vinilzão , o que tem “Por enquanto”, do Renato Russo, em que ela está chutando lata na contracapa, e nos tempos dos shows soltos e aconchegantes do Bom Demais, na 706 Norte.

Valeu, Cássia, pela sua música! Você ainda é uma garotinha. 
Valeu, Cris, por ser minha musa! Você continua minha garotinha.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

então foi Natal

Passei esses dias natalinos no interior de Minas, no sertão verde roseano. Não tão "sem rádio sem notícia das terras civilizadas": de algum lugar vinha o mantra da Simone lembrando "então é Natal"...

Em 1995 a cantora Simone gravou um cd com doze faixas só com temas natalinos. É um disco cheio de versões de clássicos como o de Irving Berlin, "White Christmas" e "Silent Nights" de F. Gruber, respectivamente "Natal branco" e "Noite feliz", além do "Jesus Cristo" de Roberto Carlos e "Boas Festas", do grande Assis Valente.

Mas o que ficaria mesmo marcado é a terrível versão de "Happy xamas/Was is over", de John Lennon e sua Yoko Ono, feita por Cláudio Rabello, por aqui intitulado "Então é Natal". Todos conhecem. Trilha sonora de shopping e principalmente de supermercados enquanto se escolhe o peru mais em conta pra ceia.
Essa música não para de tocar. O disco vendeu mais de um milhão de cópias, e garanto que não contribuí pra essa cifra.

A música do ex-beatle é sobre a guerra do Vietnã, e usa o Natal como uma representação de final de ano, quando todos se mostram alegres e cordatos (o "espírito natalino"!), mas, na verdade, fica a pergunta que não quer calar: "And what have you done?". Pensa-se no aspecto comercial, no religioso, mas não na essência da mensagem de resistência pacífica daquele Cristianismo com o qual John, mesmo sendo ateu, se identificava. Versões como essa "Então é Natal", pela falta de conhecimento da língua inglesa e até mesmo por falta de talento, é um verdadeiro esquartejamento poético das obras. 

E essa versão "simonética" já roda há tantos natais que eu achava que fosse bem antes de 1995.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

o inventor de palavras


Tenho uma dificuldade enorme de escrever poemas dedicados à pessoas,  locais, acontecimentos, datas - que dirá "poemas encomendados"... É o que diz o Drummond, em seu claríssimo "Procura da poesia".

Às vezes me descuido e cometo alguns versos em devotamento, em consagração. Na verdade, me desculpo justificando o afeto em que se encerra às pessoas queridas.

Hoje é aniversário do poeta Manoel de Barros, 95 anos. Assim como Drumond, Bandeira, Gullar, Pessoa, Whitman, Régio, Cecília, Quintana... devo muito a ele, pela poesia que me invade a vida. Esse poeta, nascido à beira do rio Corumbá, sabe como pouquíssimos reinventar as palavras, dar significado tão profundo às insignificâncias do dia a dia. Seus livros devem estar sempre ali, ao alcance da mão, para uma releitura, como primeiros socorros quando nos perdemos em devaneios desnecessários no nosso cotidiano.

O cineasta Pedro Cezar fez um belíssimo documentário, "Só dez por cento é mentira", lançado ano passado, onde encontramos uma espécie de "biografia inventada" do poeta matogrossense. O "inventada" é mais uma das saudáveis brincadeiras do poeta com as palavras. O filme é narrado com depoimentos de leitores, familiares, leitura de poemas, e conversas do próprio poeta, o que nos deixa mais cativados pela grandeza em sua simplicidade. 

Então, como às vezes me descuido e cometo versos declarando-me a quem amo, eis aqui o que escrevi ao Manoel, há alguns anos, e coloquei no meu livro "Poesia provisória".

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Seu Luiz é pop

foto Arquivo NV
Hoje Luiz Gonzaga faria 99 anos. Os cadernos cês dos jornais estão tecendo homenagens, chamando-o de “pop”. Pop de popular, ou seja lá o que isso signifique, o velho Lua sempre foi um dos meus ídolos. 
Não cresci ouvindo João Gilberto, Chet Baker e Leonard Cohen, santíssima trindade, entre tantas outras, que venero e escuto quase diariamente. Cresci ouvindo Gonzagão, Roberto Carlos, Reginaldo Rossi... e até mesmo antes dos Beatles, as versões enviesadas de Renato e Seus Blues Caps. Eu fui Jovem Guarda: Tropicália depois. Eu ouvia Cego Aderaldo: Robert Johnson, Muddy Waters, John Lee Hooker tiveram que esperar a rabeca terminar o ronco no meu sertão.
Esses músicos igualmente ótimos, a gente conhece depois, quando se sai dos bairros periféricos, vai-se morar num apartamentozinho melhor e passa-se no vestibular. Por um tempo sentia-se vergonha de gostar de baião, cantar “Detalhes” pra amada amante, e de ouvido pegava-se carona no radinho da empregada dizendo pro garçon que “no bar todo mundo é igual”... Eu nunca dei a mínima pra isso, nunca me importei com o que achavam ou perdiam. Assumia meus erros, pecados e vícios.
Uma vez um amigo, nos final dos anos 70, apertou o play do meu toca-fitas CCE e ao ouvir o Rei cantando “Cavalgada” passou o resto da tarde curtindo com a minha cara. Mandei-o embora cantar “Amor de índio”, do Beto Guedes, que ele achava o máximo – e eu também.
Luiz "Lua" Gonzaga sempre foi ídolo a altura de todos outros que hoje são "cult”. A primeira vez que assisti a um show do Gonzagão me emocionei tanto quanto ao ver e ouvir B. B. King. Entre o Rio São Francisco e o Rio Mississipi a distância é a mesma em que navega meu coração.
A benção, seu Luiz!

a luz dos olhos teus

 foto Arquivo Pessoal
Hoje é dia de Santa Luzia. A imagem dessa Santa é uma das mais fortes lembranças da minha infância, em Crateús, interior do Ceará, onde nasci e fui criado

Minha tia era devota e na parede do quarto onde eu dormia, era a primeira imagem que via ao acordar: batia um facho de luz que vinha de alguma telha quebrada. Nada mais sintomático: a jovem santa siciliana é protetora dos olhos, da visão, da luz. 
 
A minha impressão era que a Santa me abençoava a manhã, com a oferenda do par de olhos na bandeja.
 
Casa desfeita, parentes idos, herdei esse quadro e a saudade. Coloquei-o na cenografia dos meus dois primeiros curtas-metragens. Afinal, cinema precisa de luz.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

a estética da cosmética

"A prisão estética em que o jornalismo da Globo está envolvido é tão grande, que eu não vejo forma alguma de fazer um trabalho bem feito: não há condição, porque há um problema não só político, é um problema estético. Isso eu acho uma coisa grave. Quero dizer que a censura estética é mais grave do que a censura política, e é terrível que as pessoas não se apercebam disso!"

Cineasta Eduardo Coutinho, em entrevista em 2003, atualissimo nestes tempos de "viuvez" de Fátima Bernardes. 

Coutinho, juntamente com outros cineastas, João Batista de Andrade e Paulo Gil Soares, dirigiram de 1975 a 1984, programas para o Globo Repórter. As imagens eram captadas em 16mm, tinham uma linguagem muito própria do cinema e uma surpreendente liberdade editorial.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

na trilha de Nino

Video enviado pelo artista plástico e cartunista João Alberto Lupin para minha página no Facebook. O conterrâneo Lupin sempre me "provoca" com essas ótimas postagens de cinema.

Nino Rotta é um dos meus preferidos compositores de trilha sonora para cinema. Ele traduziu muito bem em música as imagens de Visconti, Monicelli, Coppola, Dmytryk, Zeffirelli... mas foi com Federico Fellini que ele fez a mais perfeita tradução. 

É dificil assistir Fellini sem Nino Rotta. Como ouvir Nino Rotta dá vontade de ver Fellini.

Aqui trechos de temas dos filmes "A estrada da vida", "Amarcord", "Os palhaços", "Oito e meio", de Fellini, e "O poderoso chefão", de Coppola, executados com arranjos do jovem maestro Roberto Molinelli, numa apresentação no Teatro Manzoni, Bologna, Itália, ano passado.

Valeu Lupin! Valeu Nino!

domingo, 4 de dezembro de 2011

doutor futebol

Nunca fui ligado em futebol. Não entendo nada de futebol. Sou um torcedor bissexto: de quatro em quatro anos me entusiasmo um pouco pra assistir aos jogos da seleção brasileira no campeonato mundial. 

Mas tenho admiração enorme por alguns jogadores: Garrincha, Tostão e Sócrates. O dr. Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira se foi hoje para outros campeonatos.

sábado, 3 de dezembro de 2011

o futuro em flashback

"Hiroshima, mon amour", Alain Resnais inovando o cinema em 1959, em direção ao futuro no mais perfeito uso narrativo de flashbacks.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

o "lobinho" Keith

O baixista Keith Richards, quem diria, foi escoteiro. E gostava. Em seus relatos de sexo, drogas e rolling stones, na autobiografia "Vida", ele diz que foi uma das melhores coisas que lhe aconteceu quando criança, no começo dos anos 50, e se tornou membro de uma tal Patrulha do Castor da Sétima Tropa de Escoteiros. Leu todos os livros de Robert Baden-Powell, o tenente-coronel do exército britânico fundador do escotismo, e para o músico era importante a disciplina para aprender as habilidades de sobrevivência. Keith tinha até uma barraca no quintal, onde passava horas comendo batata crua, como "dever de casa".

Certa noite, muitas pedras roladas depois, já definitivamente um "bad old man", estava sozinho num quarto de hotel em turnê dos Stones, e assistia pela televisão uma cerimônia sobre o 100º aniversário do Movimento Escoteiro. Automaticamente, atento e respeitoso, perfilou-se diante da tv, e com os três dedos na testa fez a saudação oficial dos escoteiros: "Líder da Patrulha do Castor, Sétima Tropa de Dardford, senhor!" 

Ele achava que deveria se apresentar.

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

fale com ele

 A atriz Elena Anaya e Pedro Almódovar. Foto El Deseo S.A

 “A pele que habito” (La piel que habito), de Pedro Almodóvar, é um filme inquietante, bem realizado, mas o menos Almodóvar do grande cineasta espanhol. Onde estão as cores de Almodóvar?  Onde está o temperamento exuberante, o clima viçoso, o vigor e a pulsação que tanto marcam e traçam seus personagens? 

A construção de imagens e narrativa frias, a ambientação clean, tudo é condizente, fiel e exato com a história de um personagem, um cirurgião plástico, que busca a perfeição da imagem e grafismo do corpo humano, e como um Moderno Prometeu, um Victor Frankenstein high tech, ou uma releitura de Mary Shelley com “o médico e a bela que era o belo”, usa suas habilidades como um princípio supremo para atender e saciar algo extremamente pessoal, um sentimento de vingança. Até aí, tudo bem. É um roteiro, é uma boa trama, é um filme que já se viu – inclusive. Um filme interessante que poderia ser assinado por um desses bem pagos cineastas de estúdio que dirigiu Antonio Banderas em seu “exílio” hollywoodiano. Banderas não filmava com Almodóvar desde “Ata-me”, de 1990, e volta justamente em um filme delineado como um melodrama gélido, que mantém a mais remota distância  de “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela”, “Volver”...  

É difícil não apontar referências da autenticidade de um artista como Almodóvar, que sabe tão bem ir do drama ao riso, do chique ao kitsch, sem perder o tom, o escárnio e a poesia. Eu não consigo aceitar essa “subversão” do cineasta com sua filmografia tão genuína e legítima com os temas que aborda. As relações de poder (dominação sádica), as mutações sexuais (ela é ele), as perversões (submissão masoquista), são proposições nessa nova película que Almodóvar habita. Mas aqui ele não se reinventa: se ausenta. A cena final ilustra bem isso. A mãe desconhece o filho Vicente no corpo de Vera, e não fala com ele.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

e o palhaço, o que é?

A primeira lembrança que se pode ter ao assistir o filme O palhaço, de Selton Mello, é justamente Os palhaços, que Federico Fellini realizou em 1970. Mas a citação, por analogia ou semelhança, para por aí. O diretor italiano fez então um quase documentário, originalmente para a televisão, indo pelo mundo com sua equipe atrás dos palhaços do passado, dos clowns que lhe marcaram.


Selton Mello diz que se inspirou no personagem de Renato Aragão, o trapalhão Didi Mocó, para escrever o roteiro do seu segundo longa-metragem. Pode ser um ponto de partida pessoal, mas as referências desse belo filme são muitos personagens clowns que o cinema versou, de Buster Keaton a Jacques Tati, passando, claro, pelo Carlitos de Charles Chaplin, como menção primitiva, e até mesmo conceitual. A modelagem do personagem concebido por Selton Mello se faz, na verdade, do que caracterizou a alma que o genial Chaplin dissecou em sua mais conhecida criação: a solidão do palhaço. A solidão que humaniza, a desesperança que questiona, a tristeza que não mata – nem morre. No filme em comentário, podemos encontrar um pouco de cada um desses clowns que o cinema, ao longo da sua história e matinês, guardou em nossa memória afetiva. E com todas essas prováveis alusões, magnificamente o palhaço Pangaré de Selton Mello, tem vida própria, tem sua solidão pessoal e intransferível.


Na história, um circo mambembe – não à toa chamado Esperança – caminha atrás de sua platéia pelo interior do Brasil, mais exatamente pelo sertão roseano de Minas Gerais. A paisagem é atemporal e em cada cidadezinha, o circo levanta sua lona e repete as mesmas piadas nos espetáculos, trazendo o riso, o encantamento e os trocados dos moradores. Estão lá alguns dos elementos que compõem um grupo teatral volante em condições precárias: o anão, a mulher gorda, os músicos desafinados, os mágicos fajutos, a bailarina sedutora... e, claro, o palhaço, no caso, dois. Paulo José, na pele, ou maquiagem, do palhaço Puro Sangue, mantém uma química contínua como pai de Pangaré. E Pangaré é o triste Benjamin. E o filme é Benjamin.  Os enquadramentos estáticos do personagem, a demora necessária de planos no rosto abatido de Benjamin, é o melhor da pulsação narrativa que o diretor imprimiu ao seu trabalho.  A razão do filme está justamente nesses momentos. A alma do filme está nesses enquadramentos. “O palhaço” tem uma concepção minimalista. E, por essência, cada gesto, cada extensão de silêncio, se define na imagem. E se há a palavra, ela faz parte do silêncio que a imagem apresenta.


A trilha sonora remete a alguns clássicos do neorrealismo. A fotografia de uma beleza crua e ao mesmo tempo poética, ilumina uma paisagem rural e humana que lembra as andanças de trupes na geografia sérvia.  As atuações especiais de Moacir Franco, Jorge Loredo, Tonico Pereira e o comediante Ferrugem, respectivamente como o delegado, o contador de piadas, o mecânico e o funcionário do cartório, dão ao filme o brilho que o diretor soube muito bem pontuar.


Selton Mello estreou em 2008 em longa com Feliz Natal, um filme denso e de direção segura.  E agora reforça sua sensibilidade, e, sobretudo, sua personalidade como diretor.


Um filme singular na recente safra do cinema brasileiro. É isso o que “O palhaço” é.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

evoé, jovem artista!

Criolo é um dos grandes talentos do rap paulista. Seu segundo disco, "Nó na orelha", lançado este ano, merece ser ouvido com atenção. As letras discursivas que caracteriza o gênero, com suas inquietações e denúncia social, têm poesia e bons arranjos seguindo o canto. 

O rapper de 35 anos compôs uma ótima versão de "Cálice", de Chico Buarque, e está na internet.


Dá pra notar a emoção do rapaz. Mais emocionante foi ele ver o próprio Chico homenageá-lo cantando trechos da versão, citando-o em seu show em Belo Horizonte.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

o nome do cinema

Este ano o cineasta norte-americano Nicholas Ray bateria a claquete de um século de existência. Dos vinte longas que dirigiu todos têm o que se pode chamar de humanismo ardente em seus personagens, principalmente quando retrata períodos marcantes, como foi em "Juventude transviada", de 1955, que projetou para o mundo o símbolo de uma época: James Dean.

Diferente da maneira operística dos belos westerns de John Ford, Ray caminhou pelo velho oeste ousando na narrativa não-linear, como em "Quem foi Jesse James" e o intrigante "Johnny Guitar".

"Sangue sobre a neve", "O Rei dos reis", "Cinzas que queimam", "Paixão de bravo"... alguns dos filmes imperdíveis que me vêm à memória agora, verdadeiras aulas de cinema, obras de um cineasta que brigava com os estúdios para fazer filmes autorais, de uma cinematografia própria. Por um longo tempo, Nicholas Ray foi "esquecido" pelos críticos de seu país. Foi a moçada de olhar atento do Cahiers de Cinéma que o descobriu como o mais importante cineasta do pós-guerra. Não foi à toa que Jean-Luc Godard imprimiu o termo "O Cinema é Nicholas Ray".

E este é o título da mostra que o CCBB apresenta com todos os seus filmes, em apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, iniciada no começo deste mês indo até 4 de dezembro.

No próximo sábado, 12, a viúva do cineasta, Susan Ray, estará em Brasília para um seminário e a exibição de "We can't go home again", versão de 2011 do filme realizado em 1973 em conjunto com alunos no período em Ray lecionou numa universidade em Nova Iorque.

É muito bom o bom cinema.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

a Tara de Irma La Douce

O amigo João Alberto Lupin mandou essa foto para o meu mural no Facebook. De imediato achei que fosse Shirley MacLaine em uma cena de "Irma La Douce", clássico comédia romântica que Billy Wilder dirigiu em 1963. Na verdade, é a Tara Satana, atriz e dançarina  nipo-americana, que faleceu há pouco tempo, com mais de 70 anos. 

"Irma La Douce" foi seu primeiro filme, onde fez uma pequena participação, mas se destacava por sua aparência exótica. Seu filme mais famoso, e que lhe deu projeção mundial foi "Fast, pussycat! kill! kill!", de Russ Meyey, uma sátira pop rodada em 1965, que mistura violência, escracho e denúncia social. 

 
Tara Satana também ganhou notoriedade por ter sido namorada de Elvis Presley.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Crtl + Alt

"Escola de Brasília vai exigir tablet e banir livro de papel", diz a manchete do Correio Braziliense de hoje. 

Na lista de material de um colégio local, 16 livros didáticos serão substituídos por versões digitais. Sou um entusiasta de adventos tecnológicos, mas não estou convencido da necessidade dessa nova ferramenta pedagógica. Banir o livro de papel?! Parafraseando Lobato, um país se fazendo com robôs e tablets?!

domingo, 6 de novembro de 2011

Rio de Janeiro, gosto de você...

foto: Nirton Venancio
Metade do Pão é de Açucar. A outra metade também.

foto Enzo Venancio
Jesus Cristo, eu estou aqui!


foto Nirton Venancio
No meio do calçadão tinha o Drummond. Tinha o Drummond no meio do calçadão.


foto Nirton Venancio
E o sol veio chegando... do Leme ao Pontal.


foto Nirton Venancio 
 1º de novembro, Dia de Todos os Santos. Pisando no chão sagrado da cidade de São Sebastião.


  foto Cristina Pereira
O Rio de Janeiro continua lindo, de qualquer ângulo, mesmo com chuva.

sábado, 22 de outubro de 2011

primavera no velho oeste

Saddam Hussein, Osama Bin Laden, Muamar Kadafi. Longe de mim apoiá-los. Mas desperta reflexão a história deles, principalmente o fim de cada um, que se assemelha entre si. Por um longo tempo foram parceiros dos Estados Unidos, que lhes deram toda atenção, enquanto economica e estrategicamente interessava à Casa Branca o que extraía de seus países. Ao governo americano pouco lhe importava o que esses tiranos faziam com seus povos. Hussein e Bin Laden já tiveram boas relações com o mundo ocidental cristão, capitalista e dito democrático antes de serem representantes do "eixo do mal". Kadafi vinha se aproximando dessa diplomacia, tentando iludir e restaurar relações, até apertou a mão de Barak Obama na reunião do G-8. Jogo de mentiras de todos os lados.

As manifestações realizadas com objetivo de questionar os regimes autoritários e centralizadores que ocorrem em diversos países do Oriente Médio é mais um script pensado em Hollywood, intitulado Primavera Árabe. 

Os videos que estão no ar com as cenas da captura e morte de Kadafi têm a logística norte-americana: peça sem importância nesse tabuleiro, que os "rebeldes" trucidem, que povo se revolte e faça justiça com as próprias mãos e armas financiadas pela Otan. Como bem analisou o colunista político Mauro Santayana, o que vem acontecendo é uma forte advertência aos países árabes que têm sido vassalos fiéis de Washington. Os príncipes da Arábia Saudita que se cuidem. O Paquistão, ao que parece, já está com suas barbas no molho. 

O cowboy e boina-verde John Wayne sempre atira primeiro e pergunta depois. Quando pergunta.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

domingo, 16 de outubro de 2011

detalhe

Tem-se a majestade de um elefante para se admirar, e fica-se preocupado no detalhe se a unha dele está pintada. É assim que se desenvolvem as futilidades.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

terça-feira, 11 de outubro de 2011

civilização posterior

"Depois de Atenas, após a Renascença, estamos agora entrando na civilização do traseiro."

Do visionário Jean-Luc Godard, em seu filme "Pierrot le fou" (no Brasil, "O demônio das onze horas"), de 1965! 

Lembrei-me desse "vaticínio" do cineasta depois que li há pouco sobre um tal concurso Miss Bumbum Brasil, pela internet. As candidatas representando seus respectivos estados, todas com perfil de "heróinas" BBB, por razões óbvias são apresentadas de costas. Precisam mostrar o que e com que pensam.

cinema em cartaz


Começa hoje no cine Brasília a mostra CCBB em Cartaz, com 15 filmes inéditos nas telas da cidade.

O filme de abertura é "Riscado", premiado nos festivais de Gramado e Rio, dirigido por Gustavo Pizzi, que estará presente para um debate após a sessão.

Os filmes da mostra foram bem selecionados. Imperdíveis. Agende-se para o bom cinema e risque a programação imbecil das salas nos shoppings. 

A entrada é franca.

valeu, Marceleza!


"Todos reconhecem a importância dele no rock e nunca o chamaram pra nada disso quando estava vivo. E outra: gringos com metade do tempo de carreira e de qualidade duvidosa iriam se apresentar no palco principal. Tô completamente fora desse troço! Não preciso disso." 

Reação do roqueiro Marcelo Nova ao ser convidado pelos organizadores da "micarê" Rock in Rio para homenagear Raul Seixas juntamente com outros artistas em palco secundário do evento. Fez bem.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

outras telas

 cena de "Protetor", de Marek Najbrt
Olha-se a programação de cinema na cidade e, com exceção de um ou outro filme, não tem nada que se aproveite. A mesmice de sempre. O cinemão se recicla em bobagens. Os filmes estão cada vez mais parecidos com video games e novelas.

Aqui em Brasília a saída é o circuito alternativo. O CCBB apresenta a Mostra de Cinema Tcheco, composta de quase vinte títulos inéditos, representativos da cinematografia daquele país. Estão lá filmes de cineastas como Miloš Forman, Jirí Menzel e Jan Sverák.

Na sequência, Mostra de Cinema Coreano. Kim Ki-Duk está na lista, com o ótimo "Primavera, Verão, Outono, Inverno e ... Primavera".

Na próxima semana, o cine Brasília exibe a segunda edição da mostra que apresenta longas nacionais e internacionais contemporâneos, todos inéditos na cidade. Entre os quinze anunciados, o aguardado "Belair", de Bruno Safadi e Noa Bressane, e o polêmico "Melancholia", de Lars Von Trier.

Cinema não é só pipoca.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Jaborandy

 foto Divulgação 2º Fest Cine Maracanaú

Meu primeiro encontro com o ator Cláudio Jaborandy foi em 1998, quando ele interpretou o Ascenso no filme "Oropa, França e Bahia", de Glauber Filho, onde fiz assistência de direção. Já tinha visto o Jabô num pequeno papel em "Iremos a Beirute", outra produção cearense, dirigida por Marcus Moura um ano antes. De imediato falei pro Glauber, depois de uma reunião pra leitura do roteiro: "explora esse cara, ele bom demais". E não deu outra!

 foto William Lima

Tenho acompanhado a carreira do meu conterrâneo com a admiração de quem se magnetiza pela arte em estado puro. Jaborandy brilha em todos os filmes em que participa, seja em papéis principais, como em "Latitute Zero", de Toni Ventura, ou em aparição de destaque, como em "Céu de Suely", de outro cearense danado de bom, Karin Aïnouz. Pelas minhas contas, são dez filmes até agora. E ainda se "aventura" em televisão, atuando em novelas, onde, como se sabe, é um espaço limitado e corrido onde o ator não pode mostrar todo o seu potencial, mas que funciona bem como veículo pra um conhecimento maior do público.

Pena que, por compromissos dele à epoca, não pode fazer um dos personagens no meu filme "O último dia de sol", em 99. Mas já lhe disse que ele não me escapa e estará no meu próximo trabalho.

Jaborandy é um dos homenageados no 2º Fest Cine Maracanaú, que começou ontem em Fortaleza e segue até dia 9.

Parabéns aos organizadores do evento pelo justo reconhecimento.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

mais dos mesmos

 Edgard Navarro e Luiz Paulino dos Santos em "O homem que não dormia", de Navarro.

A premiação das principais categorias do 44º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro cai no óbvio ululante. Conservador, o juri deixou passar batido filmes ousados e desobedientes como "O homem que não dormia", de Edgard Navarro (apenas com o troféu de ator-coadjuvante, Ramon Vane), o literalmente pop, pela temática popular, "Vou rifar meu coração", de Ana Rieper, e um dos curtas mais corajosos que vi recentemente, "A casa da Vó Neyde", do paulista Caio Cavechini.

Fora o do Navarro, os outros dois não ganharam sequer uma menção. Até o público, através da votação nas urnas, deixou-se levar pelos bonitinhos televisivos na tela do cine Brasília e elegeu maciçamente os mesmos de sempre, quando se esperava que a acolhida calorosa na noite de exibição do filme de Ana Rieper o consagrasse como favorito.

domingo, 2 de outubro de 2011

Navarro, o super-outro

"O homem que não dormia", longa de Edgard Navarro exibido sexta-feira no Festival de Brasília, não faz concessões e nem está preocupado se desafina o coro dos contentes. O baiano faz parte dos pensantes cineastas autênticos, ou de autênticos cineastas pensantes, ou de cineastas pensantes autênticos, tanto faz: a ordem dos detratores não vai alterar o produto na tela. Se o nosso cinema atual tivesse mais cineastas como Navarro, Cláudio Assis, Petrus Cariry, Karin Aïnouz, Eric Rocha, e outros raros, cada um com seu olhar original, a estampa seria menos contemplativa.

O cinema dessa turma não choca. O que choca é a mesmice de um cinema agora edulcorado numa dramaturgia televisiva.

Diga aí, Edgard Navarro: "Eu rigorosamente digo que não coloquei nada para chocar. Já estou chocado há muito tempo."

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

o passado hoje

Filmes sobre os anos de chumbo no Brasil me interessam. O tema já rendeu o meu curta "O último dia sol" e é referência no roteiro de um próximo, "Estranhas coincidências".

No Festival de Brasília me tocou muito "Ser tão cinzento", curta exibido no primeiro dia de competição, que Henrique Dantas fez sobre o cineasta Olney São Paulo e seu belíssimo "Manhã cinzenta", curta proibido pela ditatura no final da década de 60, na sequência de horrores com a decretação do AI-5.

Olney morreu jovem, aos 41 anos, de câncer no pulmão, mas o laudo verdadeiro foi consequência do que sofreu na prisão quando foi detido pelos militares no final de 69 por conta de seu filme, que teve os negativos e as cópias recolhidas. O cineasta também foi recolhido para local ignorado. Foi torturado, pegou pneumonia, quando liberado foi direto para o hospital.

O filme de Henrique Dantas é primoroso em resgatar e homenagear um brasileiro a quem Glauber Rocha chamava de "mártir do cinema brasileiro". Como disse a cineasta Tata Amaral, "é curativo ir ao passado". As novas gerações, principalmente, precisam saber a história do Brasil que as escolas não lembram. 

E é justamente de Tata Amaral que espero assistir a um bom filme: "Hoje" que será exibido (o trocadilho é inevitável) hoje na mostra competitiva de longa no Festival. O filme aborda o drama de uma ex-militante política e suas agruras sobre o ex-compaheiro desaparecido há duas décadas. Apostando hoje no passado.

mãe e filha vão ao cinema

Hoje, às 17h30, será exibido no cine Brasília uma das melhores e mais ousadas produções nacionais nas últimas décadas: "Mãe e filha", de Petrus Cariry.

O filme faz parte da programação do 44º Festival de Brasília, dentro da Mostra Panorama Brasil, e espantosamente ficou de fora da mostra competitiva, enquanto outras "coisas" em que não se pode apostar muito e tem "atores" de novelinhas no elenco, estão lá na disputa pelo candango

Quem assistir ao filme do Petrus vai dar cara e mergulhar em Cinema na sua mais completa tradução.

Sou um entusiasta e não deixo passar batido o que é bom: http://bit.ly/n2EbpP

terça-feira, 27 de setembro de 2011

rock in Brasilia

Desde que acompanho o Festival de Brasília do Cinema Brasileiro a noite de abertura de ontem foi uma das mais emocionantes. A exibição do filme convidado, "Rock Brasilia, a era de ouro", de Vladimir Carvalho, magnetizou a plateia que lotava a enorme sala Villa-Lobos do Teatro Nacional

O documentário é um recorte da história do rock no Brasil que se fez na Capital no fim dos anos 70 e começo dos 80. Centrado nas principais bandas que nasceram na cidade, Legião Urbana, Capital Inicial e Plebe Rude, o filme traz depoimentos dos integrantes e imagens de época pouco conhecidas. Contando a história daqueles jovens do Planalto Central, Vladimir faz uma comovente "arquelogia" de uma geração de adolescentes que fazia música com "o vento forte, seco e sujo em cantos de concreto", uma forma de romper o isolamento cultural da cidade. 

E numa colagem com versos do Drumond e Renato Russo, o que senti após a exibição é que uma flor furou o asfalto, o tédio e se fez música urbana pelo resto do país.

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

tire o seu sorriso do caminho...

"Os filmes de Spielberg são todos capitalistas ou, pelo menos, pequenos burgueses, todos acreditam em Deus e têm os mesmos valores: politicamente eu acho isso realmente desastroso e desprezível. Com isso, não quero dizer que Spielberg seja um facista, mas apenas que ele não pensa politicamente: ele considera a América como uma espécie de sonho, como um ideal. É atitude como essa que determina o declínio de um país."

Pensamento lúcido do cineasta Jim Jarmusch. 

Gosto de Spielberg, de alguns filmes de Spielberg, como "Encurralado", "Império do sol", "A lista de Schindler". Mas gosto mais, muito mais de Jim Jarmusch, de todos os seus filmes. Identifico-me mais com esse estranho no paraíso do cinema do que com o paraíso que o cinema de Spielberg idealiza.

o anjo torto de Itapemirim

Quando ele nasceu, um anjo torto, desses que vivem nas sombras disse, “vai, Sérgio, ser gauche na vida”.  Parafraseando os versos do clássico poema de Drummond, que inspirou o nome do projeto “Anjos Tortos – A MPB gauche na vida”, em apresentações no CCBB Brasília, alegro-me em dizer que o show de ontem foi o melhor dos três apresentados. Redimo-me, reparo-me, pois, como suspeitei em postagem anterior aqui, não via muito sentido na escolha do violeiro Eugenio Avelino, o Xangai, para homenagear Sérgio Sampaio, um dos mais geniais e esquecidos compositores da música brasileira. Recuperei-me do desastre que foi o show constrangedor de Jorge Mautner “cantando” Raul Seixas.  E já não tinha me entusiasmado muito com Max de Castro homenageando o pai, Simonal.

Surpreendente o show de Xangai. Com a afinadíssima viola e sozinho no palco, com sua belíssima e singular voz de canário, ele dominou e conquistou a platéia em uma hora e meia de show, cantando algumas músicas suas, muitas do Sérgio Sampaio, e contando “causos”, quando os dois moraram juntos no Rio de Janeiro. O show foi surpreendente porque realmente eu não via alguma relação musical entre os dois. Mas que nada! Tem sim! Tem porque ele com sensibilidade e a amizade que os uniu, adquiriu a essência e significado da música que Sérgio fazia. O canto agreste do baiano soube muito bem incorporar a fúria modernista do capixaba.

Sérgio Sampaio, de certa forma, foi ofuscado pelo próprio sucesso de “Eu quero é botar o meu bloco na rua”, involuntariamente lançada como uma moderna marcha-rancho de carnaval, em 1973, e por outro lado, sem muito interesse da mídia que o via como um magrelo esquisito, largado na vala comum dos malditos.  Suas letras são geniais, sua música vai do chorinho, passa pelo samba e vai ao rock sem perder o tom, bastante avançado naqueles ainda repressivos anos 70. Compôs uma belíssima música, “Meu pobre blues”, especialmente para seu ídolo e conterrâneo Roberto Carlos, que com aquelas esquisitices azuladas dele não deu a mínima. Mas esse blues enviesado foi um sucesso na voz de uma cantora paulista que surgia, gravada em seu primeiro LP, em 1973: Zizi Possi.

Zeca Baleiro, um dos seus admiradores, produziu em 2006, num digníssimo resgaste, o cd “Cru”, com gravações originais de Sérgio, algumas inéditas e precariamente em cassete. E outros compositores da nova geração estão nessa descoberta do tesouro da nossa música.

Assisti a um dos últimos show dele, aqui em Brasília, em 1993,  no bar Feitiço Mineiro. Autografou meu vinilzão e, não sei por que, na hora me deu vontade de cantar pra ele sua própria música “Tem que acontecer”...

Sérgio Sampaio, anos-luz à frente de muitos, nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da música brasileira.

Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.

terça-feira, 20 de setembro de 2011

ispique inglish?

No metrô de Brasília, uma voz feminina metálica e asséptica anuncia as paradas nas estações em português e inglês. Por que isso?! Porque estamos na capital da República e o "turismo" também anda de metropolitano? Nunca vi um gringo naqueles vagões. Porque a Copa vem aí? Ou porque brasileirinho adora e acha chique tudo em inglês? 

É risível aquela moça anunciando a próxima estação "Guariroba station".

segunda-feira, 19 de setembro de 2011

toca Raul!

E vi que deu em nada. O grande Jorge Mautner decepcionou invocando o nosso roqueiro maior Raul Seixas. Cantou, aliás, esforçou-se em cantar três músicas do homenageado e foi frustrante. Constrangedor ver um artista como Mautner errando as letras de "Metamorfose ambulante" e "Mosca na sopa" e desafinando sem alcançar a altura das músicas. Marcelo Nova faria melhor.

A ideia do projeto em homenagear esses anjos "gauches" da nossa música é excelente, mas a curadoria não acertou em algumas escolhas dos artistas convidados para a releitura desses músicos geniais. Semana passada Max de Castro reverenciou seu pai Wilson Simonal, quando o outro filho, Wilson Simoninha, tem muito mais a ver com o swing de samba e soul que o saudoso "rei da pilantragem" fazia.

E nesta semana um dos mais marginalizados e sacaneados compositores da música brasileira, o capixaba Sérgio Sampaio, será homenageado em show pelo baiano Xangai. Por que a escolha?! Porque eles eram compadres quando o cantor morava em Salvador recuperando-se de uma fase braba na vida. Pois é. Musicalmente, não consigo ver relação do violeiro das estampas de Eucalol com a poética e fúria modernista do cantor que queria botar seu bloco na rua. 

Na sequência, até 2 de outubro no CCBB, Chico César homenageia o pessoal e intransferível Torquato Neto, Jads Macalé embarca no vapor barato que fez com Wally Salomão, e Anelis Assumpção pede as benções de seu pai Itamar Assumpção.

quinta-feira, 15 de setembro de 2011

mãe e filha do cinema

 fotos Iluminura Filmes
Vacas que pastam. Vacas que passam. Vacas que mastigam o tempo. O tempo é o sólido personagem de “Mãe e filha”, segundo longa-metragem de Petrus Cariry.  As vacas, que num segundo de percepção podemos fazer uma analogia ao cinema de Apichatpong Weerasethakul, ouso tranquilamente dizer que o cearense Petrus é bem mais um talhador do tempo no cinema do que o cineasta tailandês.  E trago agora a referência de Andrei Takovski e seu cinema esculpindo o tempo. Petrus sabe igualmente com maestria o movimento do cinzel na tela, desde seu primeiro longa, “O grão”, desde seus primeiros grãos germinados nos curtas-metragens.

Depois de uma longa separação, mãe e filha se encontram no sertão, entre ruínas e lembranças. O destino da filha nega o sonho da mãe. O passado é um círculo que aprisiona os vivos e os mortos. A filha quer romper, mas as sombras espreitam – é o que diz a sinopse.  E quando se mergulha nos 80 minutos do filme, vê-se que até no resumo em que o cineasta abrevia a história, ele consegue proporcionar o tempo nas palavras certas. “Mãe e filha” é somente isso e muito mais. 

O tempo que se alonga nos planos da filha pelo corredor da casa é o mesmo tempo da mãe caminhando pelas ruas da cidade deserta.  O tempo que se molha na chuva é o mesmo tempo que se queima nas velas que iluminam a solidão da casa e o silêncio das pessoas. O tempo metálico que range no cata-vento que puxa a água do ventre seco do sertão, é o mesmo tempo do dolorido cacarejo final da galinha sangrada pela velha mãe. O tempo aparentemente estático nas fotos antigas dos familiares é o mesmo tempo dos vaqueiros parados logo após o batismo do menino morto. O tempo das luzes que entram pelas frestas das portas e janelas, pelas réstias dos telhados, é o mesmo tempo dos raios de sol cortados pelas lâminas do cata-vento. O tempo que a filha reclama da ausência do pai em sua vida, é o mesmo tempo em que não se sabe do pai do rebento morto. O tempo em que a filha pergunta incerta para mãe se acredita em Deus é o mesmo tempo em que a mãe responde incerta em seu politeísmo “qual Deus?”. O tempo em que a avó batiza o netinho morto na pia encardida é a mesma pia do tempo amarelado em que a filha molda o barro que destinará ao filho. O tempo em que o menino se chama Antonio é o mesmo Antonio que se denomina o avô que se foi há tempos. O tempo que a avó pergunta pra filha “como está” o menino morto, é o mesmo tempo em que ela trata a “indesejada das gentes” como vida. O tempo que a filha sobe numa cadeira para afagar as estátuas santas num armário, é o mesmo tempo que a avó lava e acaricia o corpo da criança morta.  O tempo que a filha junta cacos na igreja, é o mesmo tempo em que ela une e desune os pedaços da fé em ruínas. O tempo em que num belíssimo plano a imagem da avó surge num espelho como um fantasma, é o mesmo tempo em que a filha volta evanescente para casa depois de muitas estações. O celular que a filha tenta ligar e não funciona, é o mesmo tempo moderno que está no passado inútil na camiseta com a estampa de Marylin Monroe.

Em “Mãe e filha” o cineasta Petrus Cariry supera-se sem delimitar-se (ao mesmo tempo) com relação ao longa anterior. Fica difícil apreciar lúcida e criticamente um filme sem observar elementos de outro, porque o diretor não faz filmes: faz Cinema.  Nada falta no centro de “Mãe e filha”, como nada sobra pelas laterais dos enquadramentos. O domínio narrativo no filme tem a precisão de quem sabe recortar o espaço e moldar o tempo com o equilíbrio da razão e a harmonia do coração – ou o contrário, se a destreza é a mesma.

Não há a chamada química entre as atrizes Zezita Matos e Juliana Carvalho: há uma alquimia na interpretação das duas, respectivamente a mãe Laura e a filha Maria de Fátima.  Uma vez o diretor mencionou que seu plano preferido no filme é o da rede em que a avó embala o corpo do neto, numa belíssima composição fotográfica de contraluz na porta da casa.  Eu tentei escolher um de tantos que me agradam, inclusive o citado, e me perdi em vários, e me encontrei no filme por inteiro.  A beleza e grandiosidade dos planos estão em consonância no filme completo, tanto é que parece ser encenação na própria história a inclusão do quadro “Ophelia”, de John Everett Millais.  A obra mais famosa do pintor inglês, do século 19, retrata romanticamente a imagem idealizada da mulher trágica: o amor de Hamlet que se suicida, flutua num lago, de semblante petrificado, emoldurada por uma vegetação melancólica. O clima renascentista da pintura entra no sertão metafísico de Petrus em composição simbólica de forte ressonância com o que se viu em sequências anteriores. E com o que virá.

Um filme bom nunca termina: ele continua pulsando em nossos olhos, encantando e provocando. Depois da fortíssima cena da mãe enterrando o filho, ela anda pela estrada de volta a algum lugar no futuro de si mesma. Solta os cabelos como para libertar-se de alguma expiação. E segue. Com sua mochila nas costas e Marilyn na camisa, a câmera a acompanha pelo chão sagrado.  E depara-se com os quatro vaqueiros (do apocalipse?) barrando-lhe a estrada. E ela dispara em confronto. Escurece a tela. O filme acaba aí, mas não termina lá.