quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

aparelho da resistência - 15

foto Max Voloshin, 1911
Tomaram logo e com espaço:
tomaram fontes e montanhas,

tomaram o carvão e o aço.
Nosso cristal, nossas entranhas.
Tomaram trevos e campinas,
tomaram o norte e o oeste,
tomaram mel, tomaram minas,
tomaram o sul e o leste.
Tomaram Vary e Tatry.
Tomaram o perto e o distante,
tomaram mais que o horizonte:
a luta pela terra pátria.
Tomaram balas e espingardas,
tomaram cal e gente viva.
Porém enquanto houver saliva
todo o país está em armas.

Tomaram..., da poeta russa Marina Tzvietaieva (1892-1941), publicado no livro Versos à Tchecoslováquia, 1939, traduzido no Brasil por Augusto de Campos em 2011.
Marina inspirou-se num cenário de destruição e resistência para escrever o poema acima: o fim da guerra civil na Espanha e a subida do fascismo franquista, o nazismo e a invasão a Tchecoslováquia.

dois iluminados

André Amaro, cearense, mora em Brasília. Ator, cineasta, jornalista, tem um programa na Rádio Câmara, “Trilha das Artes”.
Marta Aurélia, cearense, mora em Fortaleza. Cantora, atriz, jornalista, uma das mais belas vozes não somente no canto, igualmente como radialista.

O talento múltiplo em cada um. A multiplicidade da arte nesses dois grandes artistas.
Eles se encontraram recentemente em Brasília, onde Marta divulga seu novo disco, Acesa, e palmilhou a trilha no programa do conterrâneo.
Há encontros que viram um acontecimento.

minha pré-animação pra pré-carnaval


um guerrilheiro em Berlim

“Triste do país que faz dos seus artistas os inimigos do povo. É um discurso muito característico do fascismo. Os artistas que historicamente são pessoas ligadas ao pensamento mais progressista, são os primeiros a serem atacados como os inimigos”
- Wagner Moura em entrevista ao canal do jornal Brasil de Fato, sobre os ataques que sofre desde as filmagens de Marighella, sua estreia na direção.
O filme foi selecionado para o 69º Festival de Berlim, de 7 a 17 de fevereiro, e mesmo fora da competição oficial, será exibido ao lado dos títulos concorrentes.
Baseado no livro Marighella - O Guerrilheiro Que Incendiou o Mundo, do jornalista Mário Magalhães, lançado em 2012, o filme conta a vida do militante comunista, deputado federal constituinte e fundador do maior grupo armado de oposição à ditadura militar - a Ação Libertadora Nacional -, morto em 1969 em São Paulo, durante uma operação comandada pelo delegado Sergio Fleury.
Wagner Moura lança, corajosa e necessariamente, o primeiro filme na contramão do ano I da Era Tosca que se instala no Brasil em 2019.

anti cinza

306 Sul, Brasília
A partir dos ventiladores industriais na parede, os toques digitais do grafite.
As cores reverberam, desfazendo a feia fumaça que apaga estrelas.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

o termo saudade

Hoje no Dia da Saudade, um ano e nove meses que na parede da memória é o quadro que dói mais...

escrever é melhor que sonhar

“Eu não sonho. Ou não lembro dos sonhos, mas minha literatura está cheia deles; imagino. Um amigo psiquiatra me disse: ‘Escreve, não precisa sonhar'”
- Haruki Murakami, autor de irresistíveis sonhos acordados como Tokio blues, Dance, dance, dance, O incolor Tsukuro Tazaki e seus anos de peregrinação, em entrevista ao El País.

dobro o canto

Poema do meu próximo livro, Poesia Provisória, incluído no capítulo Explorar as Tardes, musicado pelo querido Parahyba de Medeiros, que deu aos versos craseados uma dimensão gitana, a contração dos acordes que se largam dos sertões dos Inhamuns, passa como um menestrel pelas ruas, revoltas e paixões urbanas e resiste estrada a fora dentro de cada um de mãos dadas.
Gratidão, parceiro.
Editora Radiadora, Fortaleza, Ceará
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Concepção de capa: Décio Braúna
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio Correa Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Revisão: Nirton Venancio e Alan Mendonça
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica, Fortaleza

Lançamento: Livraria Lamarca, Fortaleza
15 de fevereiro de 2019, 19h
Em março, Brasília
abril, São Paulo
maio, Rio de Janeiro

Leitura dos poemas: Shirlene Holanda, Ivonilo Praciano
Apresentação de poemas musicados: Mona Gadelha, Lucio Ricardo, Calé Alencar, Parahyba de Medeiros, Bernardo Neto

os acusadores

“Alguém certamente havia caluniado Josef K., pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”
Frase que começa o livro O processo, de Franz Kafka, escrito em 1920, lançado em 1925, um ano após a morte do autor.
Ambientado em uma atmosfera claustrofóbica, burocrática e absurda, narra a angustiante história de um rapaz que na manhã do seu aniversário é surpreendido por dois guardas, encarregados de levá-lo por ser alvo de um processo, de crime não especificado.
A essência narrativa da obra é de uma atualidade impressionante: a realidade fascistoide dentro de uma irrealidade que beira a loucura, as surpresas sequenciais incoerentes atualizam o aplicativo, de Moro a Lesbos, sem conformidade com parâmetros de uma sociedade moderna.
Acima, Anthony Perkins em uma cena do filme homônimo, dirigido por Orson Welles em 1962.

saudade que chega

"Quando se parte de um lugar
sem querer
parte-se um pouco de tudo
fica-se um pouco por lá..."

- versos da cancão Conterrâneos, de Clodo, Climério e Clésio, gravada no disco de 1991.
Muito apropriada para hoje, Dia da Saudade. A vida toda é saudade.

desobediência civil

Há mais de 40 anos Belchior dava o recado sobre o peso que nos fere as costas.
Há um ano e nove meses hoje que ele está encantado como uma nova invenção.

Artigo 120


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

uma rosa para Elifas

foto Klaudia Alvarez
Meu caro Elifas Andreato, ao lhe abraçar em plena tarde de domingo passado na Casa das Rosas, na avenida Paulista, deu-me vontade de lhe ofertar aquelas flores que você desenhou nas mãos de Pixinguinha, e pediria a algum músico ali presente para tocar ao piano Uma Rosa para Pixinguinha, a valsa que Radamés Gnattali compôs em 1964.
Tudo para embalar o apreço que lhe tenho como artista plástico, o maior designer gráfico e autor de mais 300 belas capas de discos da música brasileira. Tudo pra lhe dizer nesse 'hábraço' vespertino como sou tão carinhoso e muito e muito que lhe quero bem, amigo.

poesia para cantar no futuro*

"Musicais poemas, poemas-desejos, espumados, cantados de proa, num gesto de agudo brinde às navegantes estrelas, sintéticos saborosos goles do mais brandido e brando infinito. Cada um desses cadenciamados poemas espera suas declamações extra-mallarmaicas incas aramaicas. Todas as palavras que aqui não são meramente utilizadas, são elas mesmas que se escolhem para chegar. Pousam as aves palavras mais preciosamente intensas nos ramos trêmulos invisíveis dos versos. Recitam-se em sopro silencioso sopro de escrita que escuta este esmero fléxil de micro flautas no azul sem limites da alma. São poemas inteligentemente felizes em seu sintético nada frágil esmerar. São axiomas de trampolins. Agem, pois as palavras só desse modo dispostas é que flutuam em estado de magia. Poesia."

- Trecho do prefácio do escritor Carlos Emílio C. Lima (foto acima) para o meu livro Poesia Provisória.

Mais do que um prefácio, o caro amigo siriaraense, com seu talento e beleza de cachoeira de palavras, faz um manifesto afetivo. Uma honra ter você, observador de olhar atlântico, endossando esses "cadenciamados poemas".

Editora Radiadora, Fortaleza, Ceará
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Concepção de capa: Décio Braúna
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima 
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Revisão: Nirton Venancio e Alan Mendonça
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica, Fortaleza

Lançamento: Livraria Lamarca, Fortaleza
15 de fevereiro de 2019, 19h
março, Brasília
abril, São Paulo
maio, Rio de Janeiro

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

o menino que nós amamos

Há 75 anos o cantor, compositor, ator e físico Rodger Rogério continua um menino no chão sagrado do seu coração.
Parabéns pelo seu dia todos os dias!
Na ponta do lápis, vou repetir o que tu já sabes: NÓS TE AMAMOS!

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

exílio


é impossível ser feliz sozinho

foto Evandro Teixeira
Chico Buarque, Tom Jobim e Vinícius de Moraes, sobre umas mesas nos fundos de uma churrascaria no Rio de Janeiro. Era aniversário do "poetinha", outubro de 1979, e assim de papo pro ar celebraram a data.
E hoje seriam os 92 Tons de Jobim.

dentro de mais um minuto estaremos no Galeão...

Em 1999, uma lei federal alterou a denominação do aeroporto do Rio de Janeiro em homenagem ao compositor Tom Jobim, falecido em 1994.
A ideia foi do pesquisador e crítico musical Ricardo Cravo Albin, que junto ao Congresso Nacional, coordenou uma comissão de notáveis formada por Chico Buarque, Oscar Niemeyer, João Ubaldo Ribeiro, Antônio Cândido, Antônio Houaiss e Edu Lobo.
A emblemática canção Samba do avião, que cita o aeroporto, foi composta por Tom Jobim para o filme Copacabana Palace, coprodução franco-ítalo-brasileira, de 1962, dirigido por Steno.
Naquele ano do lançamento do filme, ao lado de Vinicius de Moraes e João Gilberto, Tom cantou pela primeira vez a composição em um show no famoso restaurante Au Bon Gourmet, em Copacabana. O grupo Os Cariocas, que acompanhava a apresentação, fez a primeira gravação em disco.
O jornalista e biógrafo Ruy Castro em A onda que se ergueu no mar, 2001, diz que naquela noite foi “o show de bossa nova para acabar com todos os shows de bossa nova", tamanha a importância e singularidade do encontro. Além de Samba do avião, pérolas do nosso cancioneiro magnetizaram a plateia, como as parcerias com Vinicius, Só danço samba e Garota de Ipanema.
E que ironia ter um aeroporto com seu nome: Tom tinha pavor de viajar de avião! A letra é uma criativa forma de relatar os momentos de fobia que o maestro sentia dentro de uma aeronave. Disfarçando o temor e ansiedade de chegar logo em terra firme, Tom narra e exalta as belezas da cidade maravilhosa, “estou morrendo de saudades / Rio, seu mar / praia sem fim”, e aliviava-se ao ver de longe o “Cristo Redentor / braços abertos sobre a Guanabara”, enquanto o avião lá em cima balançava as asas para a aterrissagem, imaginava a morena lá em baixo “com seu corpo todo a balançar”. Dá pra imaginar o sorriso de conforto de Tom Jobim quando ouve a aeromoça anunciar “aperte o cinto, vamos chegar”...
A canção termina como a chegada de um pássaro feliz, “água brilhando, olha a pista chegando / e vamos nós / pousar...”
Hoje 92 anos de nascimento do nosso maestro soberano.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

amigos a gente encontra... - 06

foto Maira Sales
Em 1980 a cantora, compositora e jornalista Mona Gadelha lançou o livro Contagem Depressiva feito artesanalmente, na raça, ilustrações de Mino, com impressão gráfica rústica, rascante feito um rock, e uma tiragem limitada como uma estrela que risca o céu e temos que fazer um pedido.
Inspirado num verso do poeta niteroiense Ricardo dos Anjos, o trocadilho do título provoca reflexões, ou inflexões, existenciais. Bem característico de uma certa época de inquietações em nossas vidas. Os desassossegos aos poucos entram no prumo ou sucumbimos de vez. Os oito contos confessionais na contagem dessa moça bonita, narrados em primeira pessoa como um blues pulsante, dissecam amores, desamores, esperanças... “afinal que situação existe entre a solidão e o desespero?”, pergunta a uma certa altura e queda.
Eu que via Mona encantar nos shows, eu que ouvia Mona cantar no disco Massafeira, eu que reouvia Mona como uma Patti Smith no calor de Fortaleza, depois do livro estampei e admirei Monamusa na cena musical cearense.
A história do rock, do blues e das canções cearenses não passa por ela: está nela. Nos anos 70, 80, as emoções perigosas de quem fazia música na contramão dos bons costumes do lugar, tinham em Mona a postura e o comportamento feminino de quem pinta com talento e ousadia a cor do sonho que a música traz. Do compacto simples de 1985 que falava de um tédio ancestral e perguntava se o céu era azul, aos seis discos cds que mapeiam com canções os sentimentos mais ternos, é muito mais que uma discografia ao longo desse tempo, é uma geografia afetiva na música brasileira.
E na contagem crescente do tempo nos tornamos amigos, um ali colado no coração do outro, um ali confidenciando suas dores nos momentos mais precisos, um ali somando esperanças no futuro mais urgente. E o meu encanto com o livro de 1980 tem simetricamente o enlevo três décadas depois, quando gravou meu poema Ventania, musicado por Ricardo Augusto, no disco Cidade blues rock nas ruas, em 2013. A interpretação deu uma outra dimensão aos versos. A gravação tatuou sonoramente a afeição, a estima, o apreço que nos une.
O vento forte da vida nos mantém nessa praia lírica da amizade, Mona. Meu coração lhe abraça.

com sangue nas veias

“Na Porto Alegre dos anos 30, um rapaz era noivo da mulata Inah e, apesar de apaixonado por ela, hesitava em trocar a boemia pelo casamento. Inah esperou três anos. Quando se convenceu que o rapaz não tomaria uma atitude, foi à luta. Dias depois, ele a viu na rua da Praia, pendurada no braço de um homem – com quem se casaria. O rapaz desesperou-se, teve ganas de matar ou morrer. Mas acalmou-se e fez do sofrimento um samba-canção.”
- Ruy Castro em A noite do meu bem, publicado em 2015
O rapaz de menos de vinte anos era Lupicínio Rodrigues, e Nervos de aço o samba-canção que narrava a sua primeira grande desilusão, o seu desejo de morte ou de dor.
Gravado somente em 1947, na voz de Francisco Alves, se tornou um clássico no repertório não somente do autor, como na história do cancioneiro brasileiro.
O compositor construiu sua obra com mais de 150 canções, sempre relatando paixões, abandonos, casos e desapontamentos seus na maioria, e também dos amigos da boemia, como um cronista musical dos desencantos amorosos.
Lupicínio criou o termo “dor-de-cotovelo”, como o tipo de música que define os amantes bebendo suas dores com os braços apoiados em um balcão de bar.
Há outras ótimas interpretações da emblemática Nervos de aço, como a de Jamelão, gravada no disco Jamelão interpreta Lupicínio Rodrigues, em 1972.
A canção ficou mais conhecida para as novas gerações com a versão de Paulinho da Viola, com a faixa-título do vinilzão lançado em 1973.
Abaixo, o mestre Lupicínio pelo traço de outro mestre: o cartunista e jornalista paraense J.Bosco.

noves fora nada


assim falou Dalí

Em sua biografia As Confissões Inconfessáveis, o genial pintor catalão Salvador Dalí discorre em uma narrativa vulcânica histórias hilariantes, fatos inimagináveis, opiniões desavergonhadas sobre amigos, parentes, amores, arte, religião... São 20 densos e inquietos capítulos ironicamente intitulados como se fossem prescrições de aprimoramento pessoal a partir de como viveu, e não é nada disso ao mesmo tempo que é tudo e muito mais. A impressão que se tem na leitura é a de rápidas e ininterruptas pinceladas numa tela.
Lançado em 1973, quando ele tinha 69 anos, o “receituário” dos capítulos vai desde Como conviver com a morte, que abre o livro, passa por Como se livrar do próprio pai, Como descobrir a própria genialidade, Como orar a Deus sem acreditar Nele... e entre outras inconfissões nada surreais, finaliza com Como Dalí pensa na imortalidade.
Se Nietzsche o tivesse conhecido, teria se perturbado com a sensação de encontrar seu Zaratustra no paroxismo do delírio lúcido de Salvador Dalí.
Um livro que só poderia ser filmado por Buñuel, depois de muitos tratamentos de um roteiro feito por Carrière.
Hoje completam 30 anos que o pintor iniciou sua imortalidade.

nada com nada


não deve ser reproduzido

"Seja você mesmo. Todas as outras personalidades já têm dono."
- Do livro Oscar Wilde Para Inquietos, de Allan Percy, 2011, um pequeno manual que reúne 99 aforismos do dramaturgo, escritor e poeta irlandês.
Poderia ser uma legenda para a enigmática pintura do surrealista René Magritte, La réproduction interdite, de 1937, hoje exposta no Museu Boijmans Van Beuningen, em Roterdã , Holanda.
Por muito tempo achava-se que o retratado seria Edgar Alan Poe, pelo seu livro A Narração de Arthur Gordon Pym, à direita do quadro, um romance sobre aventuras náuticas, publicação atípica na literatura do “poeta louco americano”, como dizia Belchior.
Para esclarecer e acabar com as dúvidas, estudiosos da obra Magritte descobriram tratar-se do banqueiro Edward James, que olhava uma outra pintura do pintor belga numa exposição.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

dentro do samba-canção

No final de tarde do dia 22 de janeiro 1977, ao voltar do casamento do filho, dirigindo a toda velocidade sobre a ponte Rio-Niterói, a cantora Maysa faleceu ao bater o carro em uma mureta, quando tentava desviar de outro veículo.
Ela estava já há uns cinco anos num autoexílio em sua casa em Maricá, tentando se libertar de umas encucações, pois como diz Ruy Castro num capitulo do livro A noite do meu bem, 2015, "ninguém parecia viver dentro de um samba-canção como Maysa".
Acima, a cantora em um show na boate Number One, RJ, 1972.

segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

se todos vocês iguais a vocês

Drummond, Vinicius, Bandeira, Quintana e Paulo Mendes Campos, fotografados por Moacir Gomes, na casa de Rubem Braga, Rio de Janeiro, 1966. Eles foram lá para conversar com um hóspede igualmente ilustre, Pablo Neruda.
Olho imantado essa foto como se olha uma imagem sacra.

de volta ao futuro



foto: Portfolio Mondadori, 1948
O escritor inglês George Orwell, nascido na Índia, faleceu com apenas 46 anos, de tuberculose, em 21 de janeiro de 1950. Foi poupado de assistir pelo telão da telinha a vulgarização que fizeram com o personagem mais significativo da sua literatura, Big Brother, o Grande Irmão, um ser fictício do clássico e distópico romance 1984, que retrata o cotidiano de um regime político totalitário e repressivo.
Publicado em 1949, a certa altura lê-se que “Big Brother is watching you”, algo como "o Grande Irmão está te observando", o que conota a vigilância invasiva frequente de uma sociedade oligárquica coletivista. O livro é assustador.
Orwell mais do que um futurista, foi um vaticinador. O mundo em que vivemos é exatamente o que está no romance, ou pior, por ser dissimulado. A antítese da utopia, onde a tecnologia é utilizada como ferramenta de controle, usada pelo Estado, instituições e corporações.
Um programa de televisão de extrema imbecilidade como BBB, é a metalinguagem caricatural desse poder midiático, que transforma espectadores em néscios operantes para o nada, dopados e incapazes da reflexão e discernimento para tudo.
Orwell não imaginaria que sua teoria de um futuro avassalador chegasse a tanto.

viagem ao cinema

Em 2014, o trabalho final de avaliação que passei para os alunos do módulo Fundamentos das Artes Audiovisuais, do curso de Laboratório de Produção do Centec, Fortaleza, foi a realização de um vídeo resumindo o que foi apresentado nas aulas naquele período.
A turma mexeu empolgada os neurônios, e a elaboração coletiva e criativa do roteiro indicava reconstruir, como paródia, algumas cenas pontuais de clássicos da história do cinema: um jovem saltando num skate as escadarias do Centro Cultural Dragão do Mar remeteria ao O Encouraçado Potemkin, de Eisenstein; um pequeno ator subindo num caixote para montar o cavalo faria referência a baixa estatura de Alan Ladd em Os brutos também amam, de George Stevens; um cadáver num baú velho numa festa lembraria Festim diabólico, de Hitchcock; uma infanta espanhola com sotaque português numa jangada faria referência ao filme Carlota Joaquina, de Carla Camurati; uma nordestina arretada daria luz no meio da praça a um grandalhão, em homenagem a Macunaíma, de Joaquim Pedro de Andrade, e, por último, um aviãozinho de papel arremessado em direção à sorridente paisagem lunar faria uma alusão ao clássico de Georges Méliès, “Viagem à Lua”.
O diretor de arte e editor Klebson Alberto (foto acima) desenhou com perfeição a imagem do icônico filme de 1902. Uma bela homenagem ao prolífero criador de efeitos especiais no nascedouro do cinema.
Méliès, um ilusionista de teatro e múltiplo prestidigitador, criou naqueles primitivos tempos da cinematografia, as técnicas de stop-motion, a câmera rápida, as dissoluções de imagem, o storyboard, a manipulação com técnica para a ilusão do movimento, surgindo uma nova realidade para chegar aos olhos da plateia e encantar os corações.
Assim como nos Irmãos Lumière, a linguagem cinematográfica tem a paternidade no DNA de Méliès, diretor, ator, cenógrafo, fabricante de brinquedos, figurinista, um multimídia na arqueologia da sétima arte. Hoje completam 76 anos que o cineasta francês fez sua viagem definitiva para Lua, que até relembrou e celebrou ontem sua chegada por lá com um eclipse.

domingo, 20 de janeiro de 2019

eu me lembro

Fantástico, onírico, nostálgico e memorialístico, Federico Fellini concebeu em Amarcord, 1973, um dos mais fortes libelos cinematográficos contra o fascismo. Autobiográfico, o cineasta ambienta seu delírio e expurgação nos anos 30 da Itália devastada pela figura pústula de Mussolini, pela moral repressora e destrutiva.
Na história, o personagem Titta é o alter ego do diretor. Mas todos os personagens que lhe rodeiam e habitam o passado nessa depuração de revogação nostálgica, são Fellinis. Mesmo não tendo tragédias sérias na família, o cineasta tomou posição e dizia que o fascismo aprisionou os italianos em uma adolescência perpétua de pesadelos, pelos tempos opressivos que viveram. O cinema lhe acolheu para espantar os fantasmas.
‘Amarcord’ é uma referência à tradução fonética das palavras "mi recordo" usada em Rimini, província da região de Emilia-Romagna, onde Fellini nasceu há 99 anos hoje.

valeu a pena!

"Se eu vivesse numa sociedade, numa cidade, numa cultura que investisse mais em educação..."
Trecho da entrevista de Marcelo Yuka ao programa Conversa com Bial, 12 de junho de 2018.

paz sem medo

Numa noite de novembro de 2000, Marcello Yuka, o baterista e um dos fundadores da banda O Rappa, ao impedir um assalto a uma mulher no bairro da Tijuca, Rio, foi alvejado por vários tiros. Um atingiu a vértebra torácica e lhe deixou paraplégico. Nove anos depois, próximo ao mesmo local, foi assaltado com socos e pontapés e teve o aparelho celular roubado. Sexta-feira passada, dia 18, o músico faleceu vitima de infecção generalizada, estava hospitalizado desde o começo do mês. Faleceu, numa dessas ironias cruéis, três dias depois do novo governo assinar decreto que facilita a posse de armas.
Yuka foi um ativista da não violência, do desarmamento, lutava por igualdade e justiça, e seu enfrentamento por consciência social ia além do discurso, principalmente depois que ficou em cadeira de rodas.
De cada um dos três discos em que participou na banda, no mínimo sete de doze faixas são letras de sua autoria. O forte cunho social e ideológico que caracteriza O Rappa, numa mescla de rock, reggae e rap, tem em Marcelo Yuka o seu idealizador, mesmo depois de sua saída em 2002, por, segundo consta, divergências conceituais e discussões por dinheiro com o restante dos músicos. Continuou seu ativismo com outra banda, F.UR.T.O, 2005, sua vida relatada no documentário No caminho das setas, de Daniela Broitman, 2012, uma espécie de certidão biográfica no livro Não se preocupe comigo, 2014, e um sintomático comunicado no álbum solo Canções para depois do ódio, 2017.
As letras de Yuka eram, ou melhor, continuam sendo de uma beleza poética na denúncia social como pouco se viu nas composições da música brasileira nesses últimos vinte anos. Essa imponência e encanto marcam-se a partir dos títulos das canções, como Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, incluída no primeiro disco da banda, 1994. Lado B Lado A, terceiro álbum, gravado em 1999, é o mais consistente em letras e belamente melódico, envolvente, orgânico no sentido em que todas as faixas compõem um manifesto pela paz e justiça social. Minha alma (A paz que eu não quero), é ao mesmo tempo compêndio e resumo conceitual do disco.
Yuka tinha apenas 53 anos até antes de ontem. Sua obra continuará. Seus versos se propagarão pela memória e permanência. Recados tão conscientes, atentos e fortes, continuarão, como o aviso "a carne mais barata do mercado é a carne negra", brado retumbante de Elza Soares, ao cantar sua letra A carne, no disco Do cóccix até o pescoço, 2002.

alto mar

foto Picfair Photography, Dalibor, Croacia
"Um barco está seguro no porto. Mas os barcos não são construídos para isso."
- John A. Shedd (1859-1928), escritor norte-americano, em seu livro Sal do meu sótão, aforismos,1928.

o menino Rodger

O cantor, compositor, ator e físico Rodger Rogério, completa 75 anos no próximo dia 28. Hoje, no show no Cineteatro São Luiz, Fortaleza, cantores de várias gerações celebram com ele o aniversário. É tão querido que até dezembro terá sempre algum evento parabenizando Rodger por existir entre nós.
Na ponta do lápis, vou repetir o que tu já sabes: nós te amamos!

sábado, 19 de janeiro de 2019

nós que nos amávamos tanto

Dois dos maiores cineastas italianos encontram-se no filme Que estranho chamar-se Federico (Che strano chiamarsi Federico), 2013, uma mistura de documentário e ficção, que Ettore Scola dirigiu sobre Fellini, falecido em 1993.
O diretor repassa 50 anos de amizade entre eles, com uma narrativa com dramatizações, cenas de arquivo, a voz do cineasta em gravações caseiras, formando um arco afetuoso da trajetória e do universo onírico felliniano.
Foi o último filme de Ettore Scola. Há três anos ele seguiu para outros sets para reencontrar Fellini.

deusa ferida



“Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais. ”

- Trecho de O Corvo, clássico de Edgar Allan Poe, 210 anos de seu nascimento hoje. Publicado pela primeira vez em 1845, no periódico New York Evening Mirror, a tradução do poema no Brasil é de Milton Amado.
O poeta louco americano, como dizia Belchior, discorre em linguagem ultrarromântica, a tristeza pela perda de sua amada Leonora. A ave misteriosa simboliza o mau agouro, a acepção negativa, e pousa sobre o busto da deusa grega Palas, ferida mortalmente por Atenas.
Um salto no tempo: a belíssima estátua A Justiça, do artista plástico mineiro Alfredo Ceschiatti, em Brasília, em frente ao STF, é a representação feminina do poder e da verdade. A deusa de olhos vendados e alma aberta. A força e a coragem, a ordem e a regra. E nestes tempos toscos sobre nossa pátria mãe gentil, corvos soberbos pousam suas patas asquerosas sobre o busto da imparcialidade.
A simetria do tempo: os versos de um poema que atravessa a história e atualiza o aplicativo do lamento, da dor, da indignação.

os apóstolos do cinema

Acima, criativa e ousada paródia da imagem de A Última Ceia, afresco de Leonardo Da Vinci, do século 15.
Segundo as Escrituras do Catolicismo, o quadro representa a última refeição que Cristo dividiu com seus apóstolos em Jerusalém antes de sua crucificação.
Na colagem criada pelo site de cinema Film Kafası, da Turquia, que serve de capa da página, vários cineastas pousam de apóstolos, referenciando o Mestre anfitrião, representado (olha só!) pelo vanguardista e polêmico Jean-Luc Godard.
Legendando os convidados, da esquerda para a direita: F. W. Murnau (Bartolomeu), Krzysztof Kieślowski (Tiago Menor), Glauber Rocha (André), Lars Von Trier, Ingmar Bergman (Judas Escariotes), Serguei Eisenstein (Pedro), um que não identifiquei (João), Godard (Cristo), Billy Wilder, Federico Fellini (Tiago Maior), David Lynch (Tomé), Orson Welles (Felipe), Stanley Kubrick, Andrei Tarkovski (Mateus), Alfred Hitchcock (Judas Tadeu) e Akira Kurosawa (Simão).
Nessa versão da foto, Trier, Wilder e Kubrick pousam de apóstolos que não existem no clássico original renascentista. O cinema sempre com seus extras.

a pimentinha



Elis Regina esbanjando talento aos 11 anos, em um programa na Rádio Farroupilha, Porto Alegre, 1956.
Hoje completam 36 anos que ela fez a transversal do tempo.

a bossa

A adolescente capixaba Nara Leão nas areias escaldantes de Copacabana, anos 50.
Hoje ela faria 76 anos.

the pearl

foto Marjorie Alette
Janis Joplin aos 19 anos, em Austin, Texas, 1962.
Hoje ela faria 75.

o Haiti é aqui?

Em 12 de janeiro de 2010 um terremoto iniciado a 25 km da capital do Haiti, Porto Príncipe, propagou-se em mais de trinta réplicas sismológicas pelo país, causando a morte de 100 a 200 mil pessoas, segundo informações oficiais à época.
Dezenas de edifícios históricos, como o Palácio Presidencial, o Parlamento, a Catedral de Notre-Dame de Port-au-Prince, além de todos os hospitais, foram destruídos ou gravemente danificados.
Mesmo com a tragédia, a rotina dos transatlânticos de luxo não foi alterada. A menos de 100 quilômetros da área devastada, dos cadáveres, do desespero, da fome, 3100 passageiros do Independence of the Seas se esbaldavam em conforto, comida e sol.

muito além

“Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado, e disse à minha alma: 'Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?'
E minha alma disse: 'Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.’”

- Walt Whitman, em As folhas da relva, publicado em 1855. A ‘magnum opus’ do maior poeta norte-americano teve várias edições. Inicialmente, o autor bancou sozinho a tiragem, investiu do seu salário de empregado de um jornal. Whitman não considerava seu livro concluído.
A vida não parava de lhe dar motivos para desfolhar a relva e escrever. Escrever e se fazer presente em trabalhos voluntários nas ruas, nos hospitais, nos asilos, nas embarcações como marinheiro. Foram praticamente quatro décadas preparando o livro e convivendo com mendigos, prostitutas, operários, pessoas que compartilhavam as dores e esperança. O poeta esteve na trincheira da Guerra da Secessão, e na batalha entre o norte industrializado e abolicionista e o sul aristocrata, latifundiário e escravagista.
Whitman escreveu sobre a liberdade. E não por acaso é o criador do verso livre. Sua alma libertária se cristalizava na escrita desacorrentada da métrica acadêmica. E pela ousadia, lucidez em ver, sentir e falar sobre a odisseia do homem simples, Whitman chegou a ter sua obra acusada de esquisita, bizarra e até obscena, a ponto de um crítico descerebrado sugerir açoite em praça pública como punição.
Ao final da nona e última edição do livro, em 1892, já no leito de morte, Whitman chegou a 382 poemas.
As folhas da relva é uma espécie de bíblia da poesia norte-americana. Um livro de fôlego, épico, sobre o ser humano em busca de respostas e caminhos. Uma vez concluído e alcançado o objetivo do poeta, prosseguimos no caminho dele.
Acima, o autor fotografado por George Collins Cox, em 1887. Cox, um dos retratistas pioneiros, sempre esteve por perto de Whitman, e notabilizou-se pelas belas imagens que expressavam a consistência da alma do poeta. Seu acervo foi restaurado em 1979, e digitalizado na Library of Congress's Prints and Photographs. A poesia da imagem também indo mais além.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

para que destilar terceiras intenções?

“Que só eu que podia
dentro da tua orelha fria
dizer segredos de liquidificador”


- Cazuza em Codinome Beija-Flor, composição em parceria com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias, gravada em seu primeiro disco solo Exagerado, 1985, e várias outras boas 20 interpretações diferentes, como a de Luiz Melodia, Cássia Eller, Cauby Peixoto...
Na biografia do cantor “Só as mães são felizes”, 1997, escrita por sua mãe, Lucinha Araújo, e pela jornalista Regina Echeverria, diz que a letra foi escrita quando Cazuza estava no Hospital São Lucas, em Copacabana, se tratando de uma pneumonia. Deitado na cama ele observava beija-flores na janela, que “inspiraram o meu filho a criar uma de suas mais delicadas e belas canções”, lembra Lucinha, na página 92.
"
Codinome..., uma balada acústica, acompanhada por piano e violinos, meio bossa-nova e nada ‘roquenroll’, encanta pela doçura da intimidade narrada na letra, quando se ama em segredo, de um esconderijo no peito. Os exagerados também amam e sabem zelar seu bem-querer com a mais profunda ternura.
O trecho acima gerou muitas especulações, entre análises que se pretendiam acadêmicas a abobrinhas especulativas em revistas semanais. Apenas esse pedaço letra gerou mais curiosidade do que toda caleidoscópica W Brasil, de Jorge Benjor, e a viagem de bacáceo do Açaí de Djavan.
Até que em 1989, em um especial da TV Globo, quando Cazuza se preparava para cantar em dueto com Simone, explicou que os versos se referiam àquele momento em que a pessoa diz palavras apaixonadas no ouvidinho da outra. E exemplificou com a própria língua com movimentos circulares o que a expressão metaforiza. Pronto. Simples assim. E liquidificador nem é letal.

lixo pelo tubo



"Meu Deus, como fui fazer novela por tantos anos? Para ganhar dinheiro! E me sentia meio prostituído. Acho que um dos grandes males que a humanidade teve, aqui no Brasil, foi a invenção da televisão. A televisão deseducou, fez uma lavagem cerebral em todo mundo... Os valores morais ficaram sendo o da televisão."
Em 2011, já aos 80 anos de idade e 46 de televisão, recluso em seu sítio em Guaratinguetá, SP, é que 'caiu a ficha' do ator Walmor Chagas.
Dois anos depois, deu um ponto final à sua vida de maneira extrema e lamentável, não exatamente pelos motivos que discorreu no texto acima, mas por conflito com a doença e a velhice.

versos em alto mar

Em 1938, o jovem de 24 anos Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes, o futuro 'poetinha', ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford.
Em setembro daquele ano, a bordo do navio Highland Patriot, escreveu o belamente dolorido Soneto da separação, motivado pela saudade da namorada Tati, que se tornaria sua primeira esposa.
Os versos partem de uma ausência, e não de uma ausência que nos parte quando tudo, “de repente, não mais que de repente”, se faz “triste o que se fez amante”.
Mas por licença poética, e desespero de causa mesmo, se conjuga nas duas ausências... quando se faz “da vida uma aventura errante”. Pronto.