terça-feira, 30 de abril de 2019

silêncio no samba

foto Igor Bigone
No dia 19 deste mês uma postagem no Instagram da filha de Beth Carvalho, Luana, despedindo de sua babá, a quem considerava como segunda mãe, confundiu internautas que divulgaram a morte da cantora. "E lá se vai a mulher que me criou. Amor eterno, obrigada por tudo“, dizia o post.
Mas hoje a notícia não é engano, e partiu a artista exemplo de personalidade engajada nos movimentos sociais, políticos e culturais do país. Filha de militante cassado e perseguido pela ditadura militar, Beth fazia da música sua vida, da vida sua guia na arte.
Para a madrinha do samba, um minuto de silêncio com suas canções em nossa roda de samba. O bom samba é uma forma de oração.

o mar de Caymmi

Uma canção de Caymmi, quando quebra na praia, é bonita, é bonita...
105 anos do pescador de belas canções...

o tempo da barbárie

“Trogloditas, traficantes, neonazistas, farsantes: barbárie, devastação. / O rinoceronte é mais decente do que essa gente demente do Ocidente tão cristão”.
- Belchior em Bahiuno, faixa do disco homônimo de 1993, musicada por Francisco Casaverde.
Em 10 de setembro de 1993 o jornal Correio Braziliense publicou uma entrevista com Belchior em página inteira no Caderno Dois. O cantor e compositor cearense veio à Capital Federal para o show de lançamento do disco, na Sala Martins Pena do Teatro Nacional.
Itamar Franco estava há um ano na Presidência da República, depois do afastamento do abjeto Collor. Na entrevista, concedida ao jornalista Irlan Rocha Lima, Belchior, em resposta sobre a realidade nacional daquele momento, disse que “A confusão é geral, mas acredito que, antes de tudo, precisa-se restaurar a cidadania. Há um fosso intransponível entre as elites, sejam elas políticas, governamentais e empresariais, e o povo. A resolução das questões estruturais do País passa pela política, mas os políticos que estão aí são incapazes, incompetentes para essa tarefa.”
Sem imaginar como estaria o Brasil 26 anos depois, e muito menos querendo ser “o profeta do terror que a Laranja Mecânica anuncia”, como diz a letra de Alucinação, 1976, a análise de Belchior cabe bem, e infelizmente, nestes tempos milicianos, neste agora Ano I da Era Tosca, quando há perigo institucionalizado na esquina, quando o comando do país está entregue a um outro tipo alucinado, quando não é mais tão “difícil saber o que acontecerá”, como alertava em Não leve flores, 1976. Ou nos surpreendemos, sim, quando um fato absurdo supera o do dia anterior. A força fazendo “o mal que a força sempre faz”, como apontava o compositor em Galos, noites e quintais, escrita logo após a escuridão que se instalou com o Golpe de 64, gravada no disco Coração selvagem, 1977.
Bahiuno é o último disco autoral de Belchior. Além de Casaverde, entre as 16 canções, parcerias com Jorge Mello, Graco Braz, Caio Braz, João Bosco, João Mourão e Eduardo Larbanois. É um álbum conceitual, forte em referências históricas que se contextualizam em questões contemporâneas de barbárie social, de ontem, de hoje, e quisera nunca mais. O neologismo do título une o nordestinado baiano com o huno da Ásia Central. Ambos são migrantes, fugitivos de vidas secas em buscas de outros campos e invernada. Migrantes como o rinoceronte, um bahiuno no reino português. "O que pesa no Norte (...) cai no Sul, grande cidade", como registra em Fotografia 3x4, também de 1977.
Na contracapa o cantor colocou a imagem do animal a que se refere no final da letra. A ilustração é do pintor alemão Albrecht Dürer, um dos mais importantes do Renascimento Nórdico, século 16. Belchior fez referência ao primeiro rinoceronte que chegou a Europa, desembarcado em Portugal vindo da Índia, presente do sultão Muzafar II. Até então, o bicho era criatura lendária para os europeus, incluída nos bestiários com os unicórnios.
Como em toda a obra do compositor, Bahiuno apresenta letras de beleza única, literárias e filosóficas, trazem na densidade discursiva uma dimensão política, uma compreensão e reflexão do mundo com seus perigos e esperanças, resiliente, insistindo em lembrar que o novo sempre vem.
Dois anos hoje que Belchior ficou encantado como uma nova invenção, e nós aqui, enquanto houver espaço, corpo e algum modo de dizer #elenão, nós cantamos, cantaremos.
O rinoceronte é mais decente do que essa gente demente.

segunda-feira, 29 de abril de 2019

nem tudo é verdade

Está sendo replicada em páginas do Facebook, uma carta creditada à cantora Maria Bethania ao ex-presidente Lula. Publicada originalmente no jornal virtual Piauí Hoje, edição de 28/4/2019, o texto, intitulado “Lula, eu não solto a sua mão”, é de autoria de Maria Betânia Silva, professora de Direito, aposentada. Rapidamente colocaram um H no nome e soltaram na internet com foto da cantora. Logo ela, extremamente discreta quanto a sua vida pessoal e posições políticas.
Em tempos de fake news que elege até presidente e seus milicianos, é prudente confirmar à exaustão o que é postado nas redes sociais.
Clarice Lispector, Fernando Pessoa, William Shakespeare, Pablo Neruda, Mário Quintana, Martha Medeiros, Bruna Lombardi, Arnaldo Jabor, Luis Fernando Veríssimo, Jorge Luis Borges, são algumas das “vítimas” notórias de textos apócrifos.
No caso do poeta argentino (foto), a ele é constantemente atribuído o poema Instantes, também intitulado Momentos ("se eu pudesse viver novamente a minha vida / na próxima trataria de cometer mais erros..."). Isso nunca foi dele! Nem nunca será, por mais que desatentos insistam. O estilo literário de Borges é outro, provocador, culto, avassalador, polêmico. Os versos do poema são bonitos, sim, otimistas, mas não é a literatura de Borges. Por mais contraditório que ele tenha sido, jamais se trairia em nenhum momento, nos últimos instantes. Ele nunca se arrependeu de nada.
O poema é de autoria de Nadine Stair, americana, e confirmado pela viúva do escritor, Maria Kordama. Não, Borges, não. Logo ele que dizia: "só aquilo que se foi é o que nos pertence."

estações musicais

A partir de La La Land – Cantando estações (La La Land), de Damien Chazelle, 2016, analiso o gênero musical como o mais icônico do cinema norte-americano, ao lado do western.
O texto completo está na minha coluna mensal, Lanterna Mágica, no site Filipe Catto em Foco, organizado por Klaudia Alvarez.

pelos muros do país

Setor Comercial Sul, Brasília

começaria tudo outra vez

Na manhã de 29 de abril de 1991 o carro de Gonzaguinha bate de frente com um caminhão, em uma estrada no Paraná, ao regressar de uma apresentação na cidade Pato Branco. Ele se dirigia para Foz do Iguaçu, de lá iria de avião para Florianópolis, onde tinha um show agendado.
A súbita morte do cantor, aos 45 anos, deixou um vazio na música brasileira, insubstituível como tudo que é uma só vez na vida.
Um dos mais fortes contestadores do regime militar, o cantor tem em sua obra o exemplo de resistência e poética nas canções.
Nestes tempos ameaçadores e milicianos em que vivemos, com certeza ele bradaria "a gente quer viver numa nação / a gente quer é ser um cidadão".

domingo, 28 de abril de 2019

o tempo andou mexendo com a gente...

Leo Mackellene, da banda Trovador Eletrônico, no show ontem no PollGreen Irish Pub, Sobral, CE, lembrando os dois anos que Belchior não morreu.

por conta própria

Da capa criada pelo arquiteto, desenhista e compositor Fausto Nilo, passando pela epígrafe de Luigi Pirandello, mergulhando no prefácio sinestésico do escritor Carlos Emílio C. Lima, o meu livro Poesia provisória reúne uma produção de mais de vinte anos de versos guardados e reescritos, dividindo as páginas em quatro partes com temas sobre o ser-poeta, Explorar as tardes, o existencial, Reconstruir as nuvens, o verbo amar, Coração sitiado e o fazer-poesia, Página em branco, capítulo final que simetricamente liga-se ao primeiro, numa proposta conceitual de que a poesia é urgente, mas o poema não tem pressa.
Publicado de forma independente, o livro encontra-se à venda:
- Livraria Lamarca, Fortaleza, Av. da Universidade, 2475 
- Livraria Pensar, Sobral, CE, North Shopping Sobral 
- Embaixada da Cachaça, Fortaleza, Rua João Brígido, 1245
- Editora Radiadora / Alan Mendonça, 85-999442220, também 
   whatsApp
- Diretamente com o autor pelo e-mail nirtonvenancio@gmail.com

conversei com os amigos ao redor de minha mesa...



“Belchior não é mesmo uma figura fácil de decifrar. Nunca foi. Talvez, por isso mesmo, não haveria de sair de cena sem provocar alucinações e muitas dúvidas. Ao longo de quatro meses, o Verso ouviu amigos que conviveram com o cantor antes e durante a reclusão. O episódio continua presente, direta ou indiretamente, como pano de fundo das homenagens e recordações que as pessoas mais próximas ao cantor sobralense preparam para reverenciá-lo.”
Trecho da matéria publicada na edição de hoje do jornal Diário do Nordeste, Fortaleza, sobre os livros escritos recentemente que abordam o autoexílio do cantor cearense.
As publicações são assinadas por amigos que conviveram com Belchior. José Gomes Duarte, poeta e escritor potiguar residente em Florianópolis, professor da UFSC, lançou recentemente, de forma independente, Cancioneiro Belchior, onde mostra as primeiras versões de letras escritas na máquina de escrever, além de farta documentação fotográfica e alguns segredos do cantor.
O radialista gaúcho Dogival Duarte foi o primeiro anfitrião de Belchior na cidade Santa Cruz do Sul, hospedou-o por um ano em meio, e finaliza o livro que não considera uma biografia, e sim, como afirma, “um relato afetivo e pessoal sobre a estada do cantor em sua casa e de outros amigos."
O advogado capixaba Estevão Zizzi e a irmã do compositor, a socióloga Angela Belchior, lançam até o final do ano o primeiro volume de uma biografia, com documentos inéditos e entrevistas.
Belchior dizia que a eternidade é o tédio dos deuses. Mas ele, eterno na história da música brasileira, é tema inesgotável. E a perenidade se solidifica pelo tempo em que os enigmas não são decifrados. Belchior é eterno no coração de quem lhe quer bem.
No próximo dia 30, dois anos que ele não morreu.

um brinde aos cachaceiros

Samuel Brandão e Adelrui são dois talentosos cantores e compositores da nova cena musical cearense.
Tive a oportunidade de acompanhar as primeiras doses de cantorias pelos bares de Fortaleza, de 2015 para cá. Foi na calçada do Abaete Boteco que o saudável reggae-xote "Um monte de bixo réi e um litro de cachaça" começou a ser ritmado e envolver a todos.
Não à toa a banda chama-se Duas Doses de Música e Os Tiragosto, e tem composições autorais prontas para repertório de um disco.
Eles estão no projeto do meu documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B.
Abaixo, o teaser de suas apresentações pelas cachaçarias...

sexta-feira, 26 de abril de 2019

Belchior e os trovadores


“A Trovador Eletrônico não é uma banda cearense de rock; somos uma banda de rock cearense. E esse rótulo já diz da influência que recebemos do Pessoal do Ceará, músicos e poetas. Nosso trabalho autoral fala de amor, das suas possibilidades e impossibilidades, das suas várias desconstruções e reconstruções; a vida e a morte dos amores possíveis e dos inventados.”
Assim se definem Leo Mackellene, Fernando Madeira, Anderson Freitas, Kelvin Mota e Robson Emanuel, componentes da banda de Sobral, Ceará, iniciada em 2016.
O conterrâneo Belchior foi e é a grande inspiração, o estímulo para a formação do grupo, que tem o nome em referência ao título da composição Canção de Gesta de Um Trovador Eletrônico, parceria com Jorge Mello, gravada no disco Cenas do Próximo Capítulo, 1984.
A Trovador interpreta canções de Belchior com originalidade. A autenticidade na leitura do vasto repertório recebeu elogios do rapaz latino americano, lá de longe, do exilio voluntário, ao assistir os vídeos de shows no YouTube. Essas informações estão na entrevista com a banda para o meu documentário Pessoal do Ceará – Lado A Lado B.
Trovador Eletrônico tem composições próprias e está no Estúdio Mangaio Cultural, em Tianguá, CE, finalizando as gravações do primeiro disco, Álbum preto. Com produção de Fernando Catatau (Cidadão Instigado) e Carlos Gadelha (Jardim das Horas, Los Porongas e Unit), a previsão de lançamento é junho próximo.
Até lá as canções de gesta serão reverenciadas no show no PollGreen Irish Pub, Sobral, lembrando os dois anos que Belchior não morreu.

carta de recomendação

foto Walter Firmo, 1975
Ô Antonico,
vou lhe pedir um favor
que só depende da sua boa vontade:

É necessário uma viração pro Nestor
que está vivendo em grande dificuldade.
Ele está mesmo dançando na corda bamba
ele é aquele que na escola de samba
toca cuíca, toca surdo e tamborim
faça por ele como se fosse por mim.
Até muamba já fizeram pro rapaz
porque no samba ninguém faz o que ele faz
mas hei de vê-lo bem feliz, se Deus quiser
e agradeço pelo que você fizer.


- Samba Antonico, de Ismael Silva, 1950.
O compositor niteroiense, criado desde criança no bairro Estácio de Sá, Rio de Janeiro, sempre desconversou quando lhe perguntavam se a letra é autobiográfica.
Na verdade, Ismael, que faleceu em 1978 aos 72 anos, passou sérias dificuldades financeiras por quase vinte anos, no anonimato. Até 1930, vivia bem, vendia seus sambas para Francisco Alves e Mário Reis, várias parcerias com Noel Rosa, além de ser gravado por Silvio Caldas, Carmen Miranda e Aurora Miranda. Criou, a partir de um bloco carnavalesco no Estácio, a primeira escola de samba carioca, a Deixa Falar, em 1928. O rompimento com Chico Alves, a morte de dois grandes amigos parceiros de boemia e composições, desilusões amorosas, a prisão em flagrante, por três anos, por tentativa de homicídio, deixaram Ismael pra baixo. Ao sair da cadeia, vai morar de favor na casa da irmã e se isola da vida artística.
Somente em 1950 Ismael levanta-se, procura os antigos companheiros de música. Antonico é a primeira composição dessa fase de retorno. Por isso, nos versos os contornos de uma situação a procura de trabalho. Muitos historiadores registram que Pixinguinha, por volta de 1939, ao ver o estado de penúria do colega, escreve uma carta ao amigo musicólogo Mozart de Araújo, relata as qualidades como sambista e finaliza dizendo “Espero que o que puder fazer pelo Ismael seja como se fosse por mim.”
O autor grava a música em 1953, mas foi graças à interpretação do cantor Alcides Gerardi, dois anos antes, que Antonico estoura nas rádios e vende milhares de discos. E seguem dezenas de outras composições do sempre elegante Ismael, nos anos 50 e 60, nas vozes de famosos como Dolores Duran, Ataulfo Alves, Donga, Aracy de Almeida, no violão de Baden Powel, na flauta do missivista solidário Pixinguinha...
Ismael regrava sua emblemática composição em 1973. Foi nessa década que cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Elza Soares, o grupo MPB-4, reverenciaram o compositor em shows, cantando seus sambas. É de Gal Costa a gravação mais conhecida de Antonico, no show Fa-tal - Gal a todo vapor, em 1971, no Teatro Ruth Escobar, São Paulo, que praticamente apresentou Ismael para as novas gerações.
Com ou sem o alter ego “Nestor” da letra, ou a boa vontade do “Antonico” na pessoa de Mozart, Ismael Silva deu a volta por cima porque desde que o samba é samba ninguém faz o que ele faz.

quinta-feira, 25 de abril de 2019

no céu de Portugal é pleno abril

Mande um cheirinho de alegrim para mim...
* o título da postagem é uma paráfrase a um verso da canção "Terral", de Ednardo.

fim de mês

"Dois problemas se misturam:
a verdade do Universo,
a prestação que vai vencer..."

- Trecho de Eu também vou reclamar, de Raul Seixas e Paulo Coelho, gravada no disco Há dez mil anos atrás, 1976

quarta-feira, 24 de abril de 2019

a luz de Dona Edina


Por mais de 30 anos a produtora Edina Fugii esteve à frente da gerência dos Estúdios Quanta, São Paulo, o maior complexo de locações do Brasil para o setor de audiovisual.
Mas a figura afetiva e maternal de Dona Edina conquistou a simpatia dos realizadores do cinema nacional, principalmente os cineastas iniciantes na produção de seus curtas-metragens. Dona Edina não parecia uma executiva de uma empresa para os jovens. Ela atendia e facilitava tudo de produção, muitas vezes como patrocínio, ou locando a preços possíveis o que fosse necessário, de equipamentos de luz e de câmera a empréstimo dos providenciais banquinhos três-tabela.
Em 2010 Dona Edina criou sua Origami Cultural e Audiovisual, dando assessoria executiva e desenvolvendo projetos nas áreas de cinema, teatro, TV, artes plásticas, literatura, exposições, música. Sua presença nos festivais de cinema continuava como uma marca registrada, um símbolo da força feminina no cinema nacional.
Dona Edina partiu nesta manhã de quarta-feira para outros sets, aos 72 anos. Desde janeiro lutava para desproduzir um câncer que nunca se deseja em um roteiro da vida.
Tenho imensa gratidão a Dona Edina que apoiou meus primeiros curtas, nas décadas de 80 e 90. Nos intervalos de filmagens, sempre que eu sentava naquelas cadeiras de diretor, cedida pela Quanta, lembrava dela. Sentindo-me cineasta, agradecia, “obrigado, Dona Edina.”

o poeta e a chuva

CHUVA
hoje chove muito, muito,
e parece que estão lavando o mundo.
meu vizinho do lado contempla a chuva
e pensa em escrever uma carta de amor
uma carta à mulher que vive com ele
e cozinha para ele e lava a roupa para ele e faz amor com ele
e parece sua sombra
meu vizinho nunca diz palavras de amor à mulher
entra em casa pela janela e não pela porta
por uma porta se entra em muitos lugares
no trabalho, no quartel, no cárcere,
em todos os edifícios do mundo
mas não no mundo
nem numa mulher / nem na alma
quer dizer / nessa caixa ou nave ou chuva que chamamos assim
como hoje / que chove muito
e me custa escrever a palavra amor
porque o amor é uma coisa e a palavra amor é outra coisa
e somente a alma sabe onde os dois se encontram
e quando / e como
mas o que pode a alma explicar?
por isso meu vizinho tem tormentas na boca
palavras que naufragam
palavras que não sabem que há sol porque nascem e morrem na mesma noite em que amou
e deixam cartas no pensamento que ele nunca escreverá
como o silêncio que há entre duas rosas
ou como eu / que escrevo palavras para voltar
ao meu vizinho que contempla a chuva/ 
à chuva / ao meu coração desterrado.

O poema, tocante, profundo como chuva na alma, é de Juan Gelman, uma das principais vozes da poesia latino-americana, em seu livro Isso, lançado no Brasil pela Editora UnB em 2004.
Nascido na Argentina, está para eles como Drummond para nós.
O poeta foi uma das vítimas da cruel ditadura militar na década de 70, obrigado a abandonar seu país. Em 1976, seu filho Marcelo e a mulher, grávida, desapareceram. Somente em 1989 o pai encontrou os restos mortais do filho. Em 2000, após uma busca de décadas, pôde encontrar sua neta, que tinha então 23 anos.
Juan faleceu na cidade do México, no começo de 2014, aos 83 anos. Partiu na chuva, sem encontrar os restos mortais de sua nora, Claudia.

terça-feira, 23 de abril de 2019

mais gratificante

"Leitura finalizada✔️❤️ 117 páginas de pura excelência poética ❤️ No dia mundial do livro e direitos do autor venho relatar como estou fascinada pela forma como estes poemas foram criados. Obrigada pelo presente, Valdi Ferreira Lima, e obrigada por compartilhar seu talento e dom com as pessoas: Nirton Venancio 👏🏾👏🏾👏🏾👏🏾

Indico demais essa leitura. Quem tiver interesse, o livro está disponível para compra na livraria Pensar, no Sobral Shopping 😊📖"

- Beatriz Neves, estudante, Sobral, CE

É um sentimento enorme de gratidão receber uma mensagem dessa no Dia Mundial do Livro. Beatriz é uma jovem estudante do Ensino Médio, tem 17 anos, leitora voraz, pesquisadora. Há dias que são esperanças, que nem sempre a juventude é só bela e adormecida. Está acordada e atenta com a beleza do coração.

gratificante

Beatriz Neves, uma jovem estudante da cidade Sobral, CE, que no Instagram assina como @aureasnows, sempre posta poemas do meu livro Poesia provisória, lançado em fevereiro deste ano. É gratificante chegar em versos aos corações das pessoas. Há dias que são esperanças.
A quem interessar possa, o livro encontra-se na Livraria Pensar, Sobral, em Fortaleza, Livraria Lamarca.

Santo Guerreiro

"Eu estou feliz porque eu também / sou da sua companhia..."
- Jorge Benjor em Jorge de Capadócia, gravada no disco Solta o pavão, 1975
Imagem de São Jorge em azulejo no Morro da Providência, Gamboa, RJ, 2011
Autor: ® Cesar Duarte

ah, se tu soubesses como sou tão carinhoso...

Em novembro de 1957 o cantor e trompetista Louis Armstrong esteve no Brasil para uma turnê com shows em São Paulo e Rio de Janeiro, então Capital Federal. Foi recebido pelo presidente Juscelino Kubitschek, encontrou-se com o ator Grande Otelo, os cantores e compositores Dorival Caymmi, Elizeth Cardoso, Lamartine Babo, Fernando Lobo, foi homenageado com um banquete no Palácio Laranjeiras, onde cantou acompanhado por Sivuca... mas foi o maestro, flautista, saxofonista, compositor Pixinguinha que o músico norte-americano mais a afinou amizade.
A clássica foto abaixo, um flagrante histórico de Luis Edgardi, da revista O Cruzeiro, simboliza bem o dia em que o jazz e o chorinho se encontraram.
Hoje é aniversário de nascimento de Pixinguinha, data escolhida para comemorar o Dia Nacional do Choro, gênero que mescla princípios da música africana e europeia, como a polca, e expressa uma melancolia resultante dos elementos e modulações de sons plangentes.
Naqueles meados do século 19, quando o já denominado choro entra na nossa cena musical, era tocado por instrumentistas de bandas militares, e, principalmente, por operários da indústria têxtil e funcionários públicos. Pixinguinha trabalhava nos Correios, e tornou-se o maior compositor do gênero, apresentando-se nos cabarés da Lapa e teatros de revista, acompanhando cantores como Mário Reis e Francisco Alves, e participou de vários grupos instrumentais como Caxangá, Oito Batutas e o regional de Benedito Lacerda.
Quando compôs Carinhoso, em 1917, Pixinguinha foi criticado por ser influenciado pela forma sincopada do jazz. Ele não se incomodou com o tom dessas observações, sabia que a variedade melódica, harmônica e rítmica de cada um dos gêneros tinha origem na cultura popular, na fascinante criatividade das comunidades negras.
Pixinguinha e Armstrong devem ter conversado muito sobre isso no encontro nos jardins do Palácio do Catete, onde a foto foi feita.

segunda-feira, 22 de abril de 2019

dois livros

quando 

ela
dobrou 
a
esquina


(do guardanapo)
e enxugou uma quase lágrima
entendi
que

(quase)
fui feliz
para sempre.

..................................
Anelar
Vão-se as musas.
Ficam os poemas.

...................................
O primeiro poema está no livro Cinema dos fósseis de Alan Mendonça, o segundo, no meu, "Poesia provisória", ambos lançados recentemente pela Editora Radiadora.
Os livros encontram-se à venda nas
Livraria Lamarca, Fortaleza
LIvraria Pensar, Sobral

São publicações feitas com recursos próprios.

Brasília e sua arquitetura de cidade-autorama

Acima, um dos trabalhos da exposição Brasília Retrofuturista, do artista gráfico Thiago Freitas, que une recortes do Arquivo Público do DF a colagens de personagens e cenários de ficção científica.
Brasília foi feita para impressionar os arqueólogos do futuro.

pelos muros do país

Esplanada dos Ministérios, Via S2, Brasília

domingo, 21 de abril de 2019

foi traído e não traiu jamais...

“Um radical entre moderados, um franco entre dissimulados, ele defendia – publicamente e em qualquer lugar (de bordéis a residências de ricos mercadores) – uma revolução que tornasse Minas Gerais independente de Portugal. ‘Era pena’ dizia o alferes, ‘que uns países tão ricos como estes [as Minas Gerais] estivessem reduzidos à maior miséria, só porque a Europa, como esponja, lhe estivesse chupando toda a substância’”.
- Trecho do livro Boa Ventura! A corrida do ouro no Brasil (1697-1810), do jornalista e escritor Lucas Figueiredo, pag. 295, lançado em 2011. Com uma pesquisa de precisão cirúrgica na história do Brasil, o autor relata como nossas riquezas minerais foram roubadas e pulverizadas para a Europa pela Coroa Portuguesa durante o Império.
Antes, condutor de tropas de animais, transportador de mercadorias, minerador, mercador ambulante, Joaquim José da Silva Xavier ficou mais conhecido pela profissão de dentista amador, Tiradentes, mesmo tendo como estabilidade a única profissão que lhe deu certo, a de alferes, uma espécie de patente abaixo da de tenente, na cavalaria de Dragões Reais, a força militar atuante na Capitania de Minas Gerais e subordinada à Coroa.
Tiradentes tem destaque importante no livro de Figueiredo justamente por relatar sua revolta contra o Visconde de Barbacena, nomeado Governador da Capitania, que representava a constante retirada das riquezas da região por meio de impostos excessivos, 20%, o que ficou chamado “o quinto”, equivalente ao total extraído.
Em meados do século 18, a extração do ouro caiu, mas o imposto não! O déspota de Barbacena imponha castigos físicos aos mineradores que se recusavam a pagar o absurdo. E mais: aqueles que não podiam, foram obrigados pela Coroa a cobrirem com partes de suas posses, o que tivessem de valor, para continuar os 20%. Foi o estopim para Tiradentes partir para a luta, reunir uma turma bacana de revoltados, como os poetas Cláudio Manuel da Costa e Tomás Antônio Gonzaga, e conspirar para derrubar o governo do Visconde.
Mas no meio das ruas de Vila Rica, tinha uma pedra na Inconfidência Mineira: o traíra José Silvério dos Reis, que entregou os companheiros. Assim como Judas, foi um dos notórios pioneiros da delação premiada. Silvério faz parte de uma linhagem de almas sebosas, parido no ninho de presigárgulas, esse gambá de Tróia, como disse o compositor Aldir Blanc sobre Temer.
Tiradentes foi o único da turma inconfidente que recebeu pena de morte, pela forca. E a mando da barbárie da Coroa Portuguesa, decapitado e esquartejado, “para que os súditos nunca se esquecessem da lição”, como denuncia Lucas Figueiredo no livro citado.
Ironicamente, foi Castelo Branco, o primeiro presidente do Regime Militar, que um ano após do Golpe de 64, sancionou a lei que instituiu o dia 21 de abril como feriado nacional, em referência a Tiradentes como Patrono da Nação Brasileira.
O marechal quis dar um ar republicano.
Abaixo, reprodução do quadro óleo sobre tela de Leopoldino de Faria, do século 19, que estava exposto no Museu Histórico Nacional, RJ, retratando a Resposta de Tiradentes à comutação da pena de morte dos Inconfidentes
O título da postagem é um verso de Exaltação à Tiradentes, de autoria de Mano Décio da Viola, Estanislau Silva e Penteado,1949.

o imortal


“O cinema brasileiro foi elevado a uma categoria semelhante à da literatura, que é a mais tradicional das formas de identidade da nossa cultura.”

O cineasta Nelson Pereira dos Santos, explicando sua eleição à Academia Brasileira de Letras, em 2006, ocupando a cadeira nº 7, na vaga deixada pelo embaixador Sérgio Corrêa da Costa, cujo patrono é Castro Alves. Foi o primeiro cineasta brasileiro a se tornar membro da Academia.

À época Nelson era autor de um único livro, Três vezes Rio, onde reúne os roteiros dos filmes Rio 40º, de 1954, sua estreia em longa, Rio Zona Norte, 1957, e O amuleto de Ogum, 1974. Entusiasmado com a "imortalidade", preparou uma série de livros com roteiros filmados...

O cineasta partiu para outros sets há exatamente um ano, aos 89... O cinema em lágrimas. A tenda sem milagres. A vida mais seca.

E numa curiosa simetria do tempo, Nelson, antes de vestir o fardão, lançou o filme "Brasília 18%" no dia 21 de abril daquele ano, por ocasião do aniversário da Capital.

Foi seu último trabalho de ficção, e narra uma história de amor tendo como pano de fundo uma situação da política nacional. A porcentagem do título não se refere a algum acordo de propina, ou coisa parecida, e se fosse faria sentido, levando em conta a ambientação do enredo naqueles tempos de mensalão... O título remete à umidade relativa do ar, que no meio do ano, fica bastante abaixo do normal em Brasília.

E mais coincidência: foi 18º longa do cineasta.


sábado, 20 de abril de 2019

o cheiro da película

O cheiro da película no chassi, o barulho das engrenagens movendo o negativo, o peso da câmera... Não há digital que supere essa magia!
Na foto acima, a equipe de fotografia do meu primeiro curta-metragem, 35mm, Um cotidiano perdido no tempo, 1988, prêmio de produção e distribuição da então Embrafilme, rodado em Crateús, CE:
- Carlito Almeida, chefe eletricista
- Rachel Gadelha, continuísta
- Claudio Heitor, 1º assistente de câmera
- Ronaldo Nunes, diretor de fotografia
Sentados
- Joe Pimentel, 2º assistente de câmera
- Marcos Guilherme, 3º assistente de câmera

Como se não bastasse o auxílio luxuoso da trupe, a foto foi feita pelo mago da fotografia cearense, o buda nagô zen de Sabiaguaba, Maurício Albano.
É começar abençoado no cinema.
O curta recebeu os prêmios:
- Troféu Tatu de Ouro de melhor filme, Troféu Tatu de Bronze de melhor fotografia e Menção Honrosa da Organização Católica Internacional de Cinema (OCIC) na 17ª Jornada Internacional de Cinema e Vídeo da Bahia
- Troféu Guarnicê, melhor curta-metragem e Menção Honrosa, da OCIC, na 11ª Jornada de Cinema e Vídeo do Maranhão
- Margarida de Prata, melhor curta-metragem de 1988, pela Conferência Nacional dos Bispos dos Brasil – CNBB
- representante brasileiro no 35º Internationale Westdeutsche Kurzfilmtage Oberhausen, Alemanha; 10º Festival del Nuevo Cine Latino-americano, Cuba; Simpósio de Cinema e Video de Montreal, Canadá; 4º Festival Internacional de Cine, Viña del Mar, Chile.

o chão sagrado da música cearense

O clássico disco Chão sagrado, de Téti e Rodger, foi disponibilizado esta semana às plataformas de streaming.
Lançado em 1974, um ano depois de Meu corpo minha embalagem todo gasto da viagem, o seminal álbum do que se denominou Pessoal do Ceará, o disco é uma obra-prima do cancioneiro brasileiro. Das doze faixas, com exceção de Siá Mariquinha, de Luiz Assunção e Evenor Pontes, e Risada do diabo, de Petrúcio Maia, as composições são de autoria de Rodger Rogério, em parcerias com Fausto Nilo, Dedé Evangelista, Brandão, Pepe e Belchior (a faixa título).
O Nordeste pop, poético e rascante.

Jesus de Pasolini

"Ainda parece irônico que o melhor filme sobre Jesus Cristo, segundo o próprio Vaticano, seja uma obra da década de 60, realizada por um cineasta ateu e comunista. Em 1964, ao ler na íntegra o evangelho de Mateus, Pier Paolo Pasolini abandonou todos os outros projetos para recontar a história do homem que fundaria uma das mais importantes doutrinas de todos os tempos. Todas as falas de seu terceiro longa-metragem foram retiradas ipsis litteris do evangelho homônimo, em um trabalho de grande reverência ao texto original. O italiano dedicou seu filme ao papa João XXIII e, com ele, venceu o Prêmio Especial do Júri do Festival de Veneza do mesmo ano. 'O Evangelho Segundo São Mateus' é um marco no cinema de Pasolini e na própria história da sétima arte, alterando a sintaxe cinematográfica para dar conta da grandiosidade do homem e da eternidade do mito."
Trecho de uma das melhores análises sobre O evangelho segundo São Mateus (Il vangelo secondo Matteo), 1964.
Escrito por Marcelo Sobrinho no site Plano Crítico, o artigo analisa a interpretação e decodificação precisa, social e política, que o cineasta faz do tema, ao contrário de todo tipo de leitura das produções que mitificam e edulcoram a "maior história de todos os tempos".

uns 200 anos de cinema...

foto Nely Rosa
A partir do dedo em L a minha esquerda: Glauber Paiva Filho (cineasta), Valmi Paiva (cenógrafo), Tibico Brasil (fotógrafo, cineasta), Joe Pimentel (diretor de fotografia, cineasta).
Bar Domínio Público, Fortaleza, anos 90

o homem que amou o Brasil

"Doutora, estou com uma vontade de dar uma aula, a senhora me traz uma criança pra eu dar a aula?“.
O antropólogo Darcy Ribeiro fez esse pedido no hospital, pouco antes de morrer, em 1997.
Ali no leito, deu aula a uma criança de 9 anos. Falou sobre o Brasil, sobre a importância de respeitar todas as culturas. Falou sobre escolas e sambódromos. Era o testamento que ele queria deixar.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

dia do índio Galdino

Na madrugada de 20 de abril de 1997, cinco jovens de classe média alta de Brasília atearam fogo no índio pataxó Galdino Jesus dos Santos, que dormia num ponto de ônibus. Os burguesinhos alcoolizados e dementes acharam que o homem era mendigo, e disseram que pretendiam fazer “apenas uma brincadeira”, como se isso fosse "menos grave". O índio teve 95% do corpo queimado e faleceu horas depois no hospital.
Galdino voltava das comemorações do Dia do Índio, foi à Capital com outros sete líderes para pedirem pela recuperação de Caramuru-Paraguaçu, sul da Bahia, que são terras indígenas sagradas em conflito com fazendeiros. Chegou muito tarde dessas reuniões, cansado, com fome e sono, e a dona de uma pensão no início da avenida W3 Sul não o deixou entrar.
Em 2001 os quatro criminosos maiores de idade receberam pena de 14 anos de prisão. Conseguiram alguns privilégios, como o direito de sair da cadeia para trabalhar e, desde 2004, 10 anos antes do previsto, estão em liberdade. Já foram vistos passeando em shoppings, filas de cinema, festas... O único menor de idade, na época com 17 anos, ficou apenas três meses detido numa instituição para menores infratores.
Hoje, 19 de abril, Dia do Índio. De todos os Galdinos.

luzes de Siegbert

"Um índio preservado em pleno corpo físico / em todo sólido, todo gás e todo líquido / em átomos, palavras, alma, cor / em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico...”
- Caetano Veloso em Um índio, gravada no disco Bicho, 1977.
Acima, um dos trabalhos de colagem do artista plástico cearense Siegbert Franklin (1957-2011), criado no começo dos anos 80, para a exposição Luzes do Equador, em Fortaleza, da qual realizei uma projeção audiovisual para a abertura do evento, na Casa de Cultura Raimundo Cela.
Em 1999, a exposição voltou em releitura ampliada na Galeria de Arte da Unicamp, SP, com imagens resgatadas e filtradas com recurso de computador.
Além de brilhar na pintura, Siegbert foi compositor, componente da lendária banda Perfume Azul, ao lado de Lucio Ricardo, Ronald de Carvalho, Milton Rodrigues, Nélio... e juntamente com Mona Gadelha faz parte da história do rock e do blues e canções da cena musical cearense.
Siegbert sempre esteve à frente do tempo, num ponto equidistante entre o Atlântico e Pacífico.

Cristo reloaded



Rodado em Roma, a caríssima produção norte-americana A Paixão de Cristo (The Passion of the Christ), de Mel Gibson, 2004, é uma das mais criticadas sobre o tema. O diretor abordou de forma implacável as doze últimas horas de Cristo. Nunca o Salvador foi tão açoitado no cinema. O Nazareno percorre seu calvário desde a agonia após a reunião ministerial com seus apóstolos na Última Ceia até a Ressurreição, debaixo de chibata e insultos pelas ruas. Nem os flashbacks quando criança ao lado de sua mãe Maria aliviam o espectador.
Mel Gibson radicalizou também na concepção do filme, que é falado em aramaico. O preciosismo quase sádico da crucificação demorou duas semanas de filmagens, com dezenas de repetição de takes e cuidados de continuidade.
Há quem devaneie teses cabalísticas nas coincidências de produção do filme, como as mesmas iniciais dos nomes do personagem e intérprete, assim como a mesma idade. E após se livrar dos pregos na cruz, Jim Cavaziel, o ator que pegaram pra Cristo, achando que acabara o seu martírio, num temporal repentino nas locações foi atingido por um raio juntamente com o assistente de Gibson. Nada de grave aconteceu a ambos.
Na foto acima, o diretor, suponho, informa ao ator que o ocorrido não foi efeito especial, apenas um aviso dos céus para capricharem na próxima cena, a da ressurreição.