quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

em seu colo e neste bar...

A frase estampada no poste é título do livro de Diego Moraes, nascido há 33 anos em Amazonas. É uma espécie (em extinção) de “Bukowski manauara”, por sua escrita dilacerada e bêbada.
Lançada há dois anos, a sexta publicação desse poeta que prefere ser marginal nas frestas (e não festas) literárias, é uma miscelânea de escritos, contos, poemas e aforismos. A referência ao cantor e compositor cearense se deu porque “a música dele me acompanhou por um tempo em fundos de bares escuros. Embalou uma época da minha vida que julguei sem esperança. Sem amor. A voz dele me bastava.”
O canto de Diego Moraes é torto feito faca cortando a nossa carne.
Dez meses hoje que Belchior toca no bar vazio de nosso coração. Dez meses de uma saudade bissexta.

domingo, 25 de fevereiro de 2018

o Conde do Planalto

Arte-colagem: TT Catalão
O escritor inglês David Glover em seu livro Vampires, mummies, and liberals: Bram Stoker and the politics of popular fiction, 1996, diz que a reinvenção do mito do vampiro na era moderna não ocorreu sem uma certa dimensão política.
Em sua análise, o aristocrático Conde Drácula, sozinho no seu castelo com serviçais dementes, surgindo apenas durante a noite para alimentar-se dos seus súditos, é simbólico da natureza parasitária do Ancien Régime – referindo-se ao sistema social e político aristocrático que foi estabelecido na França dos séculos 15 a 18, com regime centralizado e absolutista em que o poder era concentrado nas mãos do rei.
Qualquer semelhança com o vampiro neoliberal do enredo da Paraíso do Tuiuti tem tudo a ver.

sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

a geografia afetiva de Eugênio Leandro

Um merecido e oportuno artigo sobre um dos mais talentosos artistas cearense, Eugênio Leandro. Publicado nO Povo (CE) de hoje, a jornalista e professora Lilian Martins faz um apanhado analítico e afetivo do trabalho do compositor, cantor e escritor, através de seus discos, livros e shows.

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

teus "zoi" clareia o roçado...

Flor da paisagem, primeiro disco da cantora Amelinha, 41 anos este mês de seu lançamento.
As composições de Ednardo, Fagner, Abel Silva, Petrúcio Maia, Brandão, Luiz Gonzaga, Zé Dantas, Ricardo Torres, Pepe, Beto Mello, a parceria na canção-titulo de Fausto Nilo e Robertinho de Recife...
A capa com a singela foto de Mauricio Albano, feita numa casinha à beira da estrada para Aquiraz, Ceará, a plantinha que ele improvisou ali na hora numa latinha de óleo Pageú... A contracapa com a foto de seu irmão José Albano, uma frondosa mangueira com o cheiro da brisa da praia de Sabiaguaba.
Um disco com a voz da fina flor da música cearense.
Um canto que faz da distância uma paisagem.

intervenção em Brasília


caminhar

"A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu nunca deixe de caminhar."
- Recorrendo a Eduardo Galeano, nestes temerosos tempos distópicos.

o melindroso


terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

cinema de montagem

"Os montadores atravessaram com os olhos uma estrada de 49 quilômetros de imagens."
- Sergei Eisenstein, sobre o filme Outubro (Октябрь), 1928, codirigido por Grigori Aleksandrov.
Com sua teoria embrionária de montagem intelectual, a genialidade do cineasta disseca as relações entre religiões e fanatismo político, e discorre de forma precisa o intenso processo revolucionário da Rússia desde 1917 até a tomada do poder pelos bolcheviques.
Os 149 minutos originais na tela foram resultado de um ano na mesa de montagem, com o diretor orientando Esfir Tobak na moviola.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

enredo de uma cidade partida

Em 1996 o grande letrista da música brasileira Paulo César Pinheiro escreveu O dia em que o morro descer e não for carnaval, musicada e gravada pelo saudoso Wilson das Neves.
A composição é muito sintomática nestes tempos intervencionistas, depois que uma faixa foi estampada dizendo que morro vai descer e não for carnaval.
No vídeo abaixo, o encontro de duas gerações, que se espelham e reverberam o talento de nossa música em todos os gêneros: das Neves e o rapper Emicida, dividindo na mesma cadência o compasso do samba e do coração, dissecando a geografia atualizada da letra.

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

vai passar nessa avenida um samba popular...



TUIUTI !!!

O vampiro do Jaburu se escondendo do pássaro Tuiuti...


Paraíso do Tuiuti expõe o inferno do temeroso


peito inflado

Tuiuti, a ave símbolo do Pantanal, também conhecida como tuiuguaçú, tuinim, tuim-de-papo-vermelho, jubiru... e jaburu! Cada denominação especifica uma região onde é encontrada e alguma característica física. O jaburu, por exemplo, em tupi-guarani é uma alusão ao modo de andar da ave, “da que é inchada”. O jaburu é, digamos, um tuiuti equivocado, um genérico, que é de fato, mas não de direito. Um empombado.
Qualquer semelhança não é mera coincidência.

na arcada principal, secreto mal...*

Atualizando o aplicativo do verso.

*Fausto Nilo em Postal de amor, 1975.

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

eternamente jovem

Em 1949 Nicholas Ray dirigiu o ótimo drama noir O crime não compensa (Knock on any door), estrelado adequadamente pelo cara de mármore Humphrey Bogart. Mas é o personagem de John Derek, um jovem desajustado, o mais marcante no filme, e a certa altura de uma cena diz “Live fast, die young, leave a good-looking corpse”, arriscando aqui uma tradução livre, “Viva rápido, morra jovem e deixe um cadáver bonito”.
Seis anos depois, Ray volta ao tema no clássico Juventude transviada (Rebel without a cause), com James Dean papel do jovem problemático Jim Stark. Provavelmente, o diretor deve ter lembrado a frase para o ator, que a tomou para si, sempre repetindo em entrevistas, a ponto de ser creditada de sua autoria.
James Dean não disse mas incorporou literalmente o sentido, pois vivia intensamente na velocidade dos dias, e morreu jovem, a 135 km por hora no seu Porsche 550.
O “good-looking corpse” de 24 anos hoje faria 87.

quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

o compositor do tempo

“Sou muito feliz, porque o dia de amanhã passou ontem lá em casa, e me falou que eu esqueci de colocar o futuro na geladeira e ficou passado. E a última vez que eu me vi foi ontem, mas eu fiquei presente esperando o passado passar pra me dizer boa noite”.
A reflexão no tempo é de José Ramos Santos, compositor conhecido como Zeca Bahia, publicada em uma entrevista no jornal Gazeta do Oete, há quatro anos. É autor de várias pérolas do cancioneiro popular brasileiro, como Porto solidão, parceria com Antonio Ginco, eternizada pela interpretação de Jessé em 1980, primeiro lugar no Festival MPB Shell, e Ave coração, com Clodo Ferreira, gravada por Fagner no disco Beleza, 1979.

Zeca se foi ontem para outros portos, por insuficiência renal aguda, deixando mais solidão no cenário de compositores talentosos de nossa música. Tinha 67 anos, e há tempos morava em sua terra natal, Bom Jesus da Lapa, a uns 700 km da Salvador. Era servidor da prefeitura, e com bom humor dizia que não era rico nem pobre, que a música com Jessé lhe deu “aposentadoria eterna”.
Separado, o compositor morava com dois cachorros, em um pequeno sobrado, onde recebia os amigos criando um ambiente de criação, debates e celebrações.
Além do emprego municipal, Zeca dividia, ou melhor, compartilhava seu tempo, com visita aos filhos, eventuais shows e muita boemia pelos bares de sua Lapa.
O passado, o presente e o futuro lhe dão boa noite e bom dia, Zeca.

sábado, 3 de fevereiro de 2018

meu treinamento de fuga dos dias de carnaval...


o coração de populus

A professora e pesquisadora Josy Teixeira faz uma excelente e lúcida análise da música Populus, de Belchior, lançada em seu terceiro disco, Coração selvagem, 1977.
Composta no período brabo da ditadura militar, Josy disseca a letra verso por verso, e contextualiza a visão aguçada e crítica do compositor cearense, na simetria do tempo dos anos de chumbo ao episódio grotesco, debochante e cruel do presidente placebo num programa de televisão defendendo a "deforma" da Previdência.
Texto completo na página Discos e Discursos.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

quando fevereiro chegar...

Februus, deus dos mortos, da purificação na mitologia etrusca.
Deus dos rituais purificatórios nas cidades, dos sacrifícios como limpeza d'alma.
"A chama continua no ar / o fogo vai deixar semente / a gente ri, a gente chora..."
- Fausto Nilo em Chorando e cantando,1996