sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

então é Natal


Em 1995 a cantora Simone gravou um cd com doze faixas só com temas natalinos. É um disco cheio de versões de clássicos como o de Irving Berlin, "White Christmas" e "Silent Nights" de F. Gruber, respectivamente "Natal branco" e "Noite feliz", além do "Jesus Cristo" de Roberto Carlos e "Boas Festas", do grande Assis Valente.

Mas o que ficaria mesmo marcado, como um chiclete nos ouvidos, é a terrível versão de "Happy xamas/Was is over", de John Lennon e sua Yoko Ono, feita por Cláudio Rabello, por aqui intitulado "Então é Natal". Quem não conhece? Trilha sonora de shopping e principalmente de supermercados nesta época de Menino Jesus. Essa música não para de tocar.
O disco vendeu mais de um milhão de cópias, e garanto que não contribuí pra essa cifra.


Acho a música difícil de aguentar até com John Lennon. Ou talvez porque a sonoridade dessa versão já contaminou a original.

A música do ex-beatle é sobre a guerra do Vietnã, e usa o Natal como uma representação de final de ano, quando todos se mostram alegres e cordatos (o "espírito natalino"!), mas, na verdade, fica a pergunta que não quer calar: "And what have you done?". Pensa-se no aspecto comercial, no religioso, mas não na essência da mensagem de resistência pacífica daquele Cristianismo com o qual John, mesmo sendo ateu, se identificava. Versões como essa "Então é Natal", pela falta de conhecimento da língua inglesa e até mesmo por falta de talento, é um verdadeiro esquartejamento poético das obras.

E essa versão "simonética" já roda há tantos natais que eu achava que fosse bem antes de 1995.

quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

tire o seu sorriso do caminho

 foto Cinesthesia

Willie é um desocupado, mora num pequeno apartamento em Nova York. Um dia recebe a visita inesperada de uma prima, vinda da Hungria. Eles não se dão muito bem e, assolados pelo tédio, resolvem ir visitar uma tia deles em Cleveland.

Dizendo assim, parece banal, quase um fiapo de roteiro. Mas não é: "Stranger than Paradise", 1984, é um dos melhores filmes de Jim Jarmusch, cinema na contramão de "roliúde". 

Os longos planos, o minimalismo dos gestos, o silêncio da desesperança, a atmosfera cool, os pontos de desencontros... a narrativa faz de Jarmusch um Antonioni pós-beatnick.

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

maiores abandonados

 foto Carlos Teles
 
Hoje lendo sobre os 103 anos do lúcido Oscar Niemeyer, desejo que todos os nossos velhos tenham a atenção merecida. 
Mas não é assim que acontece. A sociedade capitalista, como bem refletia duramente Walter Benjamin, desarma o velho mobilizando mecanismos pelos quais oprime a velhice, destrói os apoios da memória e substitui a lembrança pela história oficial celebrativa.

a aparência do ser

 
 foto AB Svensk Filmindustri

"Pensa que não entendo? O inútil sonho de ser. Não parecer, mas ser. Estar alerta em todos os momentos. A luta: o que você é com os outros e o que você realmente é. Um sentimento de vertigem e a constante fome de finalmente ser exposta. Ser vista por dentro, cortada, até mesmo eliminada. Cada tom de voz uma mentira. Cada gesto, falso. Cada sorriso uma careta. Cometer suicídio? Nem pensar. Você não faz coisas deste gênero. Mas pode se recusar a se mover e ficar em silêncio. Então, pelo menos, não está mentindo. Você pode se fechar, se fechar para o mundo. Então, não tem que interpretar papéis, fazer caras, gestos falsos. Acreditaria que sim, mas a realidade é diabólica. Seu esconderijo não é a prova d’água. A vida engana em todos os aspectos. Você é forçada a reagir. Ninguém pergunta se é real ou não, se é sincera ou mentirosa. Isso só é importante no teatro. Talvez nem nele. Entendo porque não fala, porque não se movimenta. Sua apatia se tornou um papel fantástico. Entendo e admiro você. Acho que deveria representar esse papel até o fim, até que não seja mais interessante. Então pode esquecer como esquece seus papéis.”
 
Esta é a principal fala do filme "Persona", que Ingmar Bergman dirigiu em 1966. A enfermeira que não por acaso se chama Alma dá uma espécie de diagnóstico a Elisabeth, uma atriz de teatro, que durante a apresentação da peça "Electra", de Eurípedes, fica muda, e assim passa a viver, em silêncio diante de tudo, em atos comezinhos, em gestos minimalistas, sem nenhuma doença visível.

O sueco Bergman é o mais implacável dissecador da alma humana. Poucos cineastas conseguiram adentrar com a câmera os mais secretos sentimentos que encantam e perturbam o homem em suas relações afetivas.

Os seus personagens não escapam de sondagem psicológica, seus roteiros não se livram de acepção filosófica.

Em "Persona", Liv Ullman e Bibi Andersson entregam-se às suas personagens de forma anímica, uma retratando na outra o que seria o ser e a aparência. E no cinema de Bergman as aparências não enganam.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Seu Luiz é pop

foto Arquivo NV

Hoje Luiz Gonzaga faria 98 anos. Os cadernos cês dos jornais estão tecendo homenagens, chamando-o de “pop”. Pop de popular, ou seja lá o que isso signifique, o velho Lua sempre foi um dos meus ídolos. 

Não cresci ouvindo João Gilberto, Chet Baker e Leonard Cohen, santíssima trindade, entre tantas outras, que venero e escuto quase diariamente. Cresci ouvindo Gonzagão, Roberto Carlos, Reginaldo Rossi... e até mesmo antes dos Beatles, as versões enviesadas de Renato e Seus Blues Caps. Eu fui Jovem Guarda: Tropicália depois. Eu ouvia Cego Aderaldo: Robert Johnson, Muddy Waters, John Lee Hooker tiveram que esperar a rabeca terminar o ronco no meu sertão. 

Esses músicos igualmente ótimos, a gente conhece depois, quando se sai dos bairros periféricos, vai-se morar num apartamentozinho melhor e passa-se no vestibular. Por um tempo sentia-se vergonha de gostar de baião, cantar “Detalhes” pra amada amante, e de ouvido pegava-se carona no radinho da empregada dizendo pro garçon que “no bar todo mundo é igual”... Eu nunca dei a mínima pra isso, nunca me importei com o que achavam ou perdiam. Assumia meus erros, pecados e vícios.

Uma vez um amigo, nos final dos anos 70, apertou o play do meu toca-fitas CCE e ao ouvir o Rei cantando “Cavalgada” passou o resto da tarde curtindo com a minha cara. Mandei-o embora cantar “Amor de índio”, do Beto Guedes, que ele achava o máximo – e eu também.

Luiz "Lua" Gonzaga sempre foi ídolo a altura de todos outros que hoje são "cult”. A primeira vez que assisti a um show do Gonzagão me emocionei tanto quanto ao ver e ouvir B. B. King. Entre o Rio São Francisco e o Rio Mississipi a distância é a mesma em que navega meu coração.

A benção, seu Luiz!

a luz dos olhos teus

 reprodução Arquivo Pessoal

Hoje é dia de Santa Luzia. A imagem dessa Santa é uma das mais fortes lembranças da minha infância, em Crateús, interior do Ceará, onde nasci e fui criado
Minha tia era devota e na parede do quarto onde eu dormia, era a primeira imagem que via ao acordar: batia um facho de luz que vinha de alguma telha quebrada. Nada mais sintomático: a jovem santa siciliana é protetora dos olhos, da visão, da luz. 
A minha impressão era que a Santa me abençoava a manhã, com a oferenda do par de olhos na bandeja.
Casa desfeita, parentes idos, herdei esse quadro e a saudade. Coloquei-o na cenografia dos meus dois primeiros curtas-metragens. Afinal, cinema precisa de luz.

sábado, 11 de dezembro de 2010

o anjo torto de Vila Isabel

 foto Arquivo NV

NOEL de Medeiros ROSA viveu apenas 26 anos, de boemia e poesia. Hoje faria 100 anos. Bem que poderia estar aqui, apesar deste mundão que não lhe merecia. Bem que poderia estar, como está Dona Canô, Niemeyer... Mas Noel foi um dândi tresloucado, um irreverente no começo de um século reverencioso aos bons costumes do lugar. Do jeito que atravessava a noite e curtia a vida, não alcançaria estes mitológicos 2000 anos depois de Cristo.

Quando li "Noel Rosa: uma biografia", de João Máximo e Carlos Didier, em 1990, nunca tinha me deparado com um artista tão - como chamamos hoje - politicamente incorreto. Só lendo pra ver as presepadas que o magrelo fazia. E com suprema inteligência.

Noel é uma de minhas paixões. Um outsider, um anjo torto - turma que adoro, e que tem muito mais a dizer dos que andam em linha reta. 

A benção, Noel.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

ela dançando à beira do vulcão

 foto RKO Radio Pictures
 
Na Itália pós-Segunda Guerra uma jovem lituana casa-se com um rude pescador, que a leva para viver na sua ilha natal aos pés de um vulcão, Stromboli. E este é o título do filme, acrescido de "Terra di Dio", dirigido por Roberto Rosselini, em 1949, um dos melhores exemplares do cinema neo-realista. A fotografia crua, os enquadramentos simétricos, a beleza nórdica de Ingrid Bergman sob o sol insular.

O músico brasileiro Alvin L., numa homenagem ao cerne poético que o filme e a personagem exprimem, compôs a bela canção "Stromboli", que Marina Lima gravou em 93: "E ela dançando à beira do abismo, e ela dançando à beira do vulcão..."

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

ensaio sobre a cequeira


Em Brasília, o filme sobre o amor entre o escritor Saramago e a jornalista espanhola Del Río, "José e Pilar", foi jogado na pior sala de cinema, Arco Íris Liberty, que apesar desse nome pomposo, é minúscula, cadeiras desconfortáveis, tela rente à primeira fila, odor insuportável de mofo e esquecimento. 
Para completar o descaso, em dois únicos horários noturnos, num shopping decadente e inseguro.

24 quadros por segundo

 
 ScanFoto/AFP/Getty

"Para mim, filmar é uma ilusão planejada nos mínimos detalhes."

Ingmar Bergman, na foto, de 1957, durante as filmagens de "Persona"

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

outras palavras

foto images.uncy.org

"Se os animais falassem, não seria conosco que iriam bater papo."

Millôr Fernandes

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

o cinema desconhecido

 
 foto Marcel Hartman

"Os filmes de Hollywood deseducam o público. Pior: eles mudam os conceitos do público. Hollywood faz o público pensar que todo filme deve ter artistas famosos, cenários grandiosos, efeitos especiais. Nos anos 1970, Hollywood produzia bons filmes, mas depois passou a criar para o mercado, com ideias que se repetem para ganhar dinheiro. Aí aparecem 'Superman 1,2,3', 'Homem-aranha 1 e 2'. Isso tudo deforma o público. Os mais novos, então, já crescem nesse ambiente de superficialidade. Esses filmes divulgam um estilo de vida: ganhar dinheiro, fazer sucesso. A qualidade de vida das pessoas não é o mais importante. Por isso tenho muito medo quando vejo o governo de um país financiamento filmes hollywoodianos."

Lúcida reflexão do cineasta malaio Tsai Ming-Liang, em passagem pelo Brasil, acompanhando a mostra "O homem do tempo", promovida pelo Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), com apresentação de seus principais filmes, entre eles os ótimos "O rio" (He liu), "O buraco" (Dong), o recente "O sabor da melancia" (Tian bian yi duo yun), e mais curtas, médias, filmes para TV e documentários sobre esse "diferente" diretor.

Tsai é conhecido (ou desconhecido) pelos seus filmes lentos, sem nenhuma música, roteiros que não seguem tramas convencionais. Há momentos que lembram Michelangelo Antonioni, não por acaso uma de suas referências. Ele manifesta sempre sua admiração por Francois Truffaut, especificamente "Os incompreendidos" (Les 400 coups), de 1959.

Não troco um segundo de take de Ming-Liang por uma bobagem tridimensional como "Avatar", uma tolice tríplice como "Comer, rezar, amar", uma viagem infanto-xamanista como "Harry Potter".

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

cinema sem palavras

 filme Divulgação
A história de uma amizade sem duelo de palavras, é o que diz a sinopse do excelente curta-metragem "A mula teimosa e o controle remoto", produção paulista dirigida por Hélio Villela Nunes.

O filme não tem diálogos, e diz muito mais do que outros veborrágicos que tagarelaram na tela do Festival de Brasília.

De longe, o melhor curta exibido na mostra competitiva. O juri, pelo menos, reconheceu a atuação impecável dos dois garotos, Ícaro Teixeira e Vinny Azar, e dividiu o prêmio de Melhor Ator 

Salva-se o bom senso da premiação paralela: Canal Brasil e Crítica deram o prêmio de Melhor Filme.

o cinema ignorado

 fotos VideoFilmes

Lamentavelmente o filme de Eryk Rocha, "Transeunte" foi ignorado pelo "juri oficial" do Festival de Brasília. Único longa concorrente que é Cinema na essência, não ganhou o prêmio principal. Somente Melhor Ator, o veterano Fernando Bezerra (foto acima) e um prêmio técnico, de som. Menos mal. Mas o filme é mais, caminha muito mais além 

Eryk Rocha

O juri decidiu por um outro filme que "privilegia produções ousadas e inventivas e consagra o trabalho de um estreante". Mas festival não é baile de debutante.

terça-feira, 30 de novembro de 2010

cara de Cinema

 Fernando Bezerra em "Transeunte". Foto VideoFilmes

"O cinema está muito falado", disse o cineasta Eryk Rocha, diretor de "Transeunte", único longa com cara e alma de Cinema nessa edição veborrágica-digital do Festival de Brasília.

histórias de bastidores


Quando eu estava rodando o curta O último dia de sol, em Baturité, interior do Ceará, o cara que fazia o making of, estreando e entusiasmado na função de registrar os bastidores de uma filmagem, não deixava escapar nada. A equipe foi fazer uma locação na região serrana e quando fomos assistir às imagens só tinham cenas de uma belíssima cachoeira. 
 
Acho que ele quis traduzir, literalmente, a definição do mestre Humberto Mauro, que dizia: "cinema é cachoeira".

tela árida


 43º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro: muitos filmes, pouco Cinema.

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Carlão homenageado

 foto Divulgação
 
Festival de Cinema de Brasília começando hoje, com homenagem merecedíssima a um dos maiores cineastas brasileiros, Carlos Reichenbach. Será exibido, em cópia restaurada, um dos seus melhores filmes, "Lilian M., relatório confidencial", de 1974, na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional.

Amanhã começa a maratona de filmes concorrentes, no cine Brasília.

domingo, 21 de novembro de 2010

whisky, soda e rock and roll

video
 
Bem antes do House Music Yolanda Be Cool e o DJ DCUP colocarem o som no paredão, remixando o que já era um remix analógico de crítica aos costumes americanos pós Segunda Guerra, o italiano Renato Carosone, nos inquietos anos 60, já mandava ver com whisky, soda e rock and roll.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

a luz no fim do tubo

 
Pesquisadores americanos revelaram que a luz da televisão "produz alterações no hipocampo, uma das principais estruturas do cérebro, que desempenha um papel fundamental nos transtornos depressivos", ou seja, causa depressão. 

Essas pesquisas... O que causa depressão braba é a programação, caros cientistas.

Eu não padeço desse mal. Meu aparelho de tv é meramente um monitor pra assistir filmes em dvd.

terça-feira, 16 de novembro de 2010

comme la vague résolue


foto João Lima

Jane Birkin, eternamente bela, eternamente musa.
Impossível não lembrar de Serge Gainsbourg.

Uma pequena entrevista com ela:http://bit.ly/chJJMK

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

mais uma bomba

                                       Alpino

O extremista George 'War' Bush lançou esta semana sua biografia, "Decision points", focando principalmente o período na Casa Branca, como o todo-poderoso do planeta. 

Para quem se divertia lançando bombas, o livro deve ser mais uma.  Ele se diz com a "consciência tranquila", e justifica as torturas como técnica de "salvar vidas". A biografia do bélico deveria se chamar "Make war, dont love". Em entrevista, a "Bush de Blair" disse que depois que vender o livro "voltará para o subterrâneo".

Como um rato e outros bichos escrotos, ele sabe o seu lugar.

segunda-feira, 8 de novembro de 2010

I will go, go, go

foto Arquivo NV

Acabo de ouvir pelo rádio confirmação de Amy Winehouse no Brasil, começando turnê dia 8 de janeiro em Florianópolis, seguindo para Rio de Janeiro, São Paulo e Recife.

Claro que eu vou!

a volta ao mundo em uma canção

Sem música a existência seria feia, incompleta, um equívoco. Eu me arrepio, eu me emociono, com esse clipe.

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

calendário

 Dia Um, de Edith Derdyk

Quarta-feira com cara de segunda... como se a terça tivesse sido num domingo que não existiu. Moldamos os dias, noites e eclipses pelo que se habitua a fazer e pelo que deixou de acontecer.

Hoje é o despertar do que começamos, com a tarde que continuamos e o descanso que nos anoitece.

É uma invenção, uma abstração para organizar o que há de concreto.

terça-feira, 2 de novembro de 2010

as invasões bárbaras

 foto Fabiano Barreto

O lixo jogado no mar e nos rios do mundo todo viaja silencioso em águas profundas e invade a costa do Brasil. 

O pesquisador baiano Fabiano Barreto, da ONG Global Garbage, encontrou produtos originados em mais de setenta países. São caixas de leite, feijões enlatados, latas de extrato de tomate, embalagens de produtos de limpeza, garrafas de vinho, uísque...

Estados Unidos é o que mais manda essa sujeira, com 15% da sujeira.

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

não fui eu!

 foto Arquivo NV

Um grande equívoco que circula na internet, há muito tempo, é o poema atribuído a Jorge Luis Borges, "Instantes", que já vi também intitulado como "Momentos" ("se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros..."). Isso nunca foi dele! O estilo literário de Borges é outro, provocador, culto, avassalador, polêmico. Os versos do poema são até bonitos, otimistas, mas não é a literatura de Borges. Por mais contraditório que ele tenha sido, jamais se trairia em nenhum momento, nos últimos instantes. Ele nunca se arrependeu de nada.

É como se Saramago tivesse escrito "Diário de um mago", "O alquimista", e outros folhetins com métodos duvidosos de aprimoramento pessoal. O poema é de autoria de Nadine Stair, americana, e confirmado pela viúva do escritor argentino, Maria Kordama.

Não, Borges, não. Logo ele que dizia: "só aquilo que se foi é o que nos pertence."

terça-feira, 19 de outubro de 2010

um filme para não esquecer


"Qual o contrário do amor? O ódio? Muito óbvio. O contrário do amor é a perplexidade. E essa perplexidade só acaba com a volta de quem lhe deixou."

Essa de é uma das falas de "Como esquecer", primeiro longa de ficção de Malu De Martino, um dos mais inteligentes roteiros brasileiros que vi ultimamente, baseado no romance homônimo de Myriam Campello, autora  de outro ótimo livro, "Jogo de damas", lançado recentemente.

Em "Como esquecer", que estreou semana passada, nada sobra, nada falta. É impressionante a concisão narrativa, o ritmo dramático sem apelo, o desenvolvimento da ação sem artifícios, o desfecho em conjunção com o começo.

Ana Paula Arósio numa excelente - e surpreendente - interpretação, imprime elegância e substância à sua personagem Júlia, uma professora de literatura inglesa, que tenta esquecer o amor que se foi sem ao menos dizer adeus, a enigmática Antonia, que o espectador não vê, imagina pelas imagens de um video que as duas fizeram numa viagem a Londres. Há um pouco da literatura de Virginia Woolf na postura da personagem de Arósio. Há um pouco do espírito martirizado dos romances de Emily Brontë, escritora citada ao longo do filme, através de "O morro dos ventos uivantes".

Malu revela-se uma cineasta de extrema sensibilidade ao adentrar na complexidade das relações humanas, a partir do tratamento afetivo  do universo feminino, como pouco se viu no cinema brasileiro. Não é o amor lésbico a bandeira do filme: é o amor como sentimento predisposto ao ser humano, com suas promessas e armadilhas. Não é somente o abandono de uma mulher pela outra: é a condição em que uma pessoa é passível, com seu encanto e desesperança. Não é somente a relação carnal entre seres do mesmo sexo: é a sensualidade que independe de opostos, com sua volúpia e sentidos. Não à toa, a Júlia à deriva com saudades e lembranças diz "o esquecimento só se completa quando passa pelo corpo."

Alegro-me quando assisto a um filme tão bem feito. É o bom cinema, para não esquecer.

sábado, 16 de outubro de 2010

nem todos verão

Mais uma vez, a cada ano, escrevo aqui sobre o chatíssimo horário de verão. Há quem goste desse horário fictício. Eu não vejo vantagem, é tudo muito incômodo, e na escuridão em que acordo não enxergo a economia que o governo diz fazer a cada ano. R$ 4 bilhões, afirma o Ministério das Minas e Energia, valor que corresponde a investimentos necessários pra construção de uma usina hidrelétrica de médio porte.

Numa boa, eu gostaria muito de contribuir pra essa economia de megawatts, mas os bilhões aí poupados não têm correspondência com uma parcela na minha conta de luz. Ano passado nesse período forçado, de segunda a sexta, acendi abajur ao lado da cama, lâmpada do banheiro, do corredor, da cozinha... o que fosse pra iluminar o meu caminho de manhã cedo.

Por isso não entendo por onde se pratica essa economia com a adoção de um horário que desregula o cotidiano de milhares de pessoas, principalmente as crianças. Há umas justificativas de ordem técnica, como "redução que representa cerca de 50% da capacidade energética adicionada anualmente ao sistema de geração de energia elétrica"... Deu pra entender?

Hoje à meia-noite, moradores das regiões Centro-Oeste, Sul e Sudeste adiantarão  os relógios em uma hora. Amanhã o domingo amanhecerá tomate e anoitecerá mamão. Vocês que moram nas outras regiões da refazenda Brasil, não têm ideia que a chatice do recolhimento dessa hora é justamente o significado da palavra temporão.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

álbum de família

 foto Arquivo NV
 
O cineasta Roberto Rosselini, a atriz Ingrid Bergman e filhos.
A foto é de meados dos anos 50. Casados, comprometidos, Rosselini e Ingrid tiveram um caso durante as filmagens de "Stromboli", em 1948. Não se abalaram com o escândalo na Itália conservadora pós-guerra, divorciaram-se dos respectivos cônjuges traídos e juntaram os cetins.
Uma das meninas (gêmeas) é a atriz Isabella Rosselini.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

você que me diz a verdade com frases abertas


 foto Roach Studio

A amizade não exclui a sinceridade. Uma define a outra.

Amigo é quando a pessoa passa a existir dentro de você.

Se eu não posso falar dos seus defeitos, amigo, posso desconfiar quando você fala das minhas virtudes.
Se confrontar ideias é sinônimo de belicismo e dizer verdades a um amigo é decretar separação, é necessário repensar as amizades, e não recuar ideias e verdades.

Jean Cocteau dizia que "existem verdades que a gente só pode dizer depois de ter conquistado o direito de dizê-las." Eu achava que tinha conquistado esse direito com um amigo, ou "amigo".

Desde criança, quando comecei a assistir  "O gordo e o magro" não era somente a graça, o humor doce, ingênuo, que me fixava aos dois comediantes. O que igualmente me fascinava era o sentimento de amizade entre eles. Mesmo se eu lesse em alguma revista de cinema que os atores Oliver Hardy e Stan Laurel haviam brigado nos bastidores de filmagem, eu relevava, pois a pureza e a sinceridade na relação de amigos que eles passavam na tela eram maior que a realidade ou fofocas. Mas eu nunca soube de brigas da dupla. Eram amigos inseparáveis. 

Na biografia autorizada "Mr. Laurel and Mr. Hardy: An Affectionate Biography" escrita por John McCabe em 1961, há relatos de extrema sinceridade entre eles, um apontando os defeitos do outro, um dizendo o que achava que o outro precisava mudar. A amizade não se restringia a uma idealização dos personagens.

Quando Oliver (o gordo) adoeceu, em 1955, de um infarto, Stan ficou profundamente abatido, e no ano seguinte sofreu o que hoje chamamos de AVC. Recuperou-se, mas ficou novamente arrasado com a morte do amigo, em 1957. O Magro nunca mais se recuperou da tristeza. Parou de trabalhar e viveu até os 74 anos em um hotel na cidade de Santa Mônica, EUA, falecendo de um ataque cardíaco, em 1965.

À parte a consternação nos momentos finais dessa relação, o que é comovente é o carinho, o respeito, a tolerância, o desprendimento de orgulho pessoal que uniam dois amigos. 

Essas reflexões acima, e a lembrança dos simpáticos Hardy e Laurel, vieram-me nestes dias por conta de uma decepção que tive com uma pessoa a quem considerava um grande amigo. Mas agradeço a essa pessoa pelo aprendizado. Continuo com o respeito, admiração pelo seu trabalho e  o caráter virtuoso que ele também tem. Mas amizade não é um sentimento de afeição unilateral. É simétrico.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

a certeza na frente, a história na mão

 
 
"O problema é que você quer falar com Geraldo Vandré. E Geraldo Vandré não existe mais, foi um pseudônimo que usei até 1968." 


É o que diz Geraldo Pedrosa de Araújo Dias, 75 anos no último dia 12, quando o procuram. O mitológico autor de "Pra não dizer que não falei de flores" continua recluso em um pequeno apartamento em São Paulo, arrodeado de livros e um violão.

sábado, 25 de setembro de 2010

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

data venia a nós o vosso voto

 Lézio

Esses togados do STF são uns engraçadinhos... Passam 11 horas discursando polidamente, expondo complexos preceitos jurídicos para justificar seus votos a favor ou contra ou muito pelo contrário da aplicação da Ficha Limpa, para tudo terminar no empate e no impasse e começarem a bater boca como se estivessem num boteco, uma excelência ironizando a outra.

Diante do 5 a 5 que não virava 6, a ministra Ellen Gracie, em sua elegância pétrea, sugeriu que encerrassem o batibarba e fossem todos para casa dormir.

Ora, data a venia!

quinta-feira, 23 de setembro de 2010

dois pra lá, dois pra cá

 
 
Quanto maior o sentimento de antipatia que se tem por uma pessoa, maior o vínculo que se mantém  com ela. O mesmo ocorre com a simpatia. Só que de forma prazerosa.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

nem toda sombra na parede é cinema

 O testamento de Dr. Mabuse, de Fritz Lang, 1932

Um amigo disse-me que não vê filmes no computador. No máximo, em dvd. Eu vejo. Não é uma rima, mas é uma solução. Há uma semana estou revendo a filmografia de Fritz Lang; antes fiz o mesmo com a de Yasujiro Ozu, depois passo pra Tarkovski. Revisitando o Cinema. Não há a mais remota possibilidade de assistir a esses filmes no circuito comercial. Provavelmente - e olhe lá! - em alguma mostra promovida por embaixadas, pelo menos seria assim aqui em Brasília.

Claro que seria bem melhor ver o bom cinema nos telões das grandes salas. Mas onde estão essas salas? Nos multiplexes? A "assepsia"  dessas saletas de shopping  começa na frieza da bilheteria, que separa o funcionário do espectador por um espesso vidro e "comunica-se" por um microfone high tech. Não há calor humano nem nesse momento. E se o filme em cartaz for um 3D a sua "aproximação" com os personagens é uma grande mentira, enganação. O tridimensional entra pelo primeiro coração através de uma boa história, um bom roteiro, uma boa direção, e elenco de atores, não de astros.

Não troco duas horas de um avatar por um plano silencioso de Tarkovski, uma câmera-tadame de Ozu, um ângulo expressionista de Lang, uma sequência humanista de De Sica, um take onírico de Fellini, uma câmera delirante de Glauber, um duelo ao por do sol de Sergio Leone, um susto de Hitchcock, uma parábola segundo Pasolini, uma verdade-mentira de Orson Welles, um Monument Valley de John Ford, um samurai de Kurosawa,  um contra-plano de Antonioni, uma dissecação n'alma de Bergman, um caso de amor de Truffaut... mesmo na telinha no meu computador, chupando drops de anis...

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

ora (direis) ouvir estrelas

 
Hoje o planeta Júpiter está "apenas" 592 milhões quilômetros de distância da Terra. É o ponto mais luminoso depois da lua na escuridão sobre nossas cabeças. O fenômeno ocorre a cada 13 anos, portanto, somente em 2022 estarão novamente "juntinhos".
Para os cientistas que vasculham o universo o acontecimento é de muita importância.

E eu aqui na minha temporalidade não vejo o que isso afeta na minha segunda-feira.

sábado, 18 de setembro de 2010

quem te viu, quem tv

 
Há 60 anos Assis Chateaubriand espalhou por São Paulo 200 aparelhos receptores de sinal de tv. Pode-se dizer que a televisão brasileira nascia naquela data. 
Hoje são mais 60 milhões de aparelhos multifacetados por este Brasil varonil.
Do indiozinho símbolo da TV Tupi ao plim-plim global, a programação televisiva piorou bastante.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

o papa não é pop

 caricatura Alisson

O ultraconservador Joseph Alois Ratzinger, mais conhecido como Papa Bento XVI, está na Grã-Bretanha para visita e salamaleques monárquicos de quatro dias, mesmo com protestos programados por parte da população.

O chefe da Igreja Católica celebrará duas missas, e os fiéis interessados pagarão 25 libras (algo em torno de 30 euros) para assistí-las - cada uma! O ingresso dá direito a um cd e livro de orações, e terão a "oportunidade" de ouvir Susan Boyle cantar.

Templo é dinheiro. De qualquer igreja.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

terça-feira, 14 de setembro de 2010

o poeta narrador

  foto Arquivo NV

Para o cineasta francês Claude Chabrol, falecido domingo, aos 80 anos, existem dois tipos de cineastas: o narrador e o poeta.
Ele explica melhor aqui.

Para mim ele foi os dois tipos. Filmes como "Os sete pecados capitais", "Mulheres fáceis", "Os primos", e tantos outros, provam isso. Chabrol, um dos criadores da Nouvelle Vague, foi o mais feroz crítico da burguesia francesa, dissecando-a no sentido histórico, analisando-a como comportamento gradativo e doente do ser humano.  A hipocrisia e o ridículo de seus personagens eram o retrato fiel de uma sociedade que ele combatia, nas comédias e nos dramas, de maneira corrosiva, áspera, e muitas vezes com deboche. Mas tudo com uma bela narrativa poética.

sábado, 11 de setembro de 2010

é tudo verdade


 - O que você estava fazendo no momento dos ataques às Torres Gêmeas?

Eu estava em casa, lendo "Orson Welles no Ceará", de Firmino Holanda. Minha mulher me ligou dizendo apavorada "liga a tv!". Deixei Orson Welles nos mares bravios alencarinos, continuando o ainda inacabado "It's all true",marcado por uma tragédia nas filmagens: a morte de Jacaré, líder político dos jangadeiros, no início dos anos 40. 

Deixei de lado o cidadão Kane e fui ao seu país, acompanhar ao vivo outra tragédia que mudaria definitivamente o século XX para este em que estamos vivendo sob o domínio do medo, sob a incontrolável ganância de quem detém o poder em seus botões, tempo de partidos, de homens partidos, como diria Drummond.

Meu filho tinha quatro anos e me agarrei a ele como quem se abraça à esperança, como quem suplica a paz. Ele assistia às torres caindo com o mesmo interesse que assistia aos desenhos dos super-heróis americanos. Não entendia bem o meu pavor e eu entendi bem a sua inocência.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

manobras de Brasília

 foto O Globo
 
Ontem, às 6h30, o holandês Duncan Zuur driblou a segurança e fez manobras radicais com um wakeboard no espelho dágua do Congresso Nacional. 

Essa, sim, é uma manobra politicamente correta.

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

o século passado a limpo


"Se quisermos compreender o mundo do qual acabamos de emergir, precisamos ter em mente o poder das idéias."

Do historiador e escritor inglês Tony Judt, um dos maiores pensadores de todos os tempos, em seu livro "Reflexões sobre um século esquecido - 1901-2000", um conjunto de ensaios, recentemente lançado no Brasil.

O autor faleceu há um mês, depois de dois anos resistindo à terrível doença neurodegenerativa progressiva, a mesma do físico Stephen Hawking.

Outro livro muito bom de Tony Judt é "Pós-Guerra - Uma história da Europa desde 1945", de 2006.

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

a celebração dos balcãs

 
 foto Divulgação

O festival Cena Contemporânea, em Brasília, que começou dia 25 de agosto,  encerrou ontem à noite de forma apotéotica, magnífica!  A apresentação do músico servo-bósnio Goran Bregovic e sua Orquestra Para Casamentos e Funerais, na área externa do Museu Nacional da República, foi um dos espetáculos mais emocionantes a que assisti. Impossível agora calcular a quantidade enorme do público presente, todos em estado de êxtase com a música envolvente desse grande artista.
Foram duas horas de show. O bis foi outro show à parte. Goran e seus músicos não conseguiam sair do palco, "presos" aos aplausos e gritos da platéia.

Goran, autor de trilhas dos filmes de Emir Kusturica, como "Arizona dreams" e  "Underground", sempre foi um dos músicos mais populares do seu país, desde sua banda Botão Branco, lá pelos anos 70.

Graças a ele, a música balcânica foi apresentada ao mundo e influenciou muita gente boa, como os americanos do Beirut, os brasileiros André Abujamra e Móveis Colonias de Acaju e muitos DJs. Ele mescla de forma brilhante a sonoridade da música folclórica balcânica com acordes modernos. Sua orquestra é composta pelo volume de metais ciganos, vozes tradicionais da Bulgária, percursão típica da região montanhosa, cordas e um elegante coro masculino proveniente das igrejas ortodoxas e cristãs. Esse saboroso encontro profano da loucura cigana com o erutido religioso é que caracteriza a singularidade da música de Goran.

domingo, 29 de agosto de 2010

Duffy

foto Divulgação/A&M

A mídia equivocada dos tablóides de música está chamando a cantora galesa Duffy como "a nova Amy Winehouse". Não acho. Amy é única e incomparável, pelo seu talento como compositora e cantora, pelo seu comportamento na contramão da mesmice pop e retrô. É como se Amy, depois de sua explosão com ótimo álbum "Back to black" e escândalos regados a muitas doses e pitadas de veneno anti-monotonia, não vislumbrasse breves ousadias e um próximo terceiro disco pra arrebentar. Amy ainda vai aprontar muito, antes de ficar se banhando mais vezes numa praia do Caribe.

Aimee Anne Duffy, 26 anos, até evita comparações com Amy e decidiu usar apenas o sobrenome como nome artístico. Tem igualmente uma voz soul, mas com outro timbre e um estilo indie. Suas letras não refletem um tom autobiográfico como as canções de Amy. O disco de estréia, "Rockferry", lançado no Brasil no começo deste ano, é ótimo de se ouvir e dançar, puxado pelo single "Mercy". Duffy é talentosa, tem voz e luz próprias, não precisa de comparações, nem de substituir ninguém. Com seus modelitos sessentistas e sensualidade de boa menina, tem o seu espaço nos ipods da vida.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

o diretor e a cabeça a prêmio

 

"Estou passando por um momento terrível, uma semana muito angustiante. Não sei onde meu filme vai ser exibido, não sei se ele vai conseguir chegar ao público, não sei se vai ser abandonado no primeiro fim de semana. É muito triste.

O desabafo é do ator, e agora diretor, Marco Ricca, durante o lançamento do seu primeiro filme, o ótimo "Cabeça a prêmio", baseado no livro homônimo de Marçal Aquino.

Assisti ao filme acompanhado de minha doce cara metade, num shopping em Brasília. Quando entramos, o funcionário que pegou os ingressos avisou pelo rádio ao projecionista "entraram duas pessoas". E para nós, com "exclusividade", o filme foi exibido. Curiosamente, passaram dois trailers de filmes nacionais, "Tropa de Elite 2" e "Nosso Lar", que com certeza não terão sessões apenas para duas cabeças a prêmio: o violento e realista que dá sequência a uma das maiores bilheterias do cinema brasileiro,  e o outro que dá continuidade a uma linha de produções de temática espírita, iniciada com "Bezerra de Menezes".

Assistir a um filme com a sala vazia, dá uma certo "conforto" de não ser incomodado pelo cara do lado que não desliga o celular, ou pelo casal que conversa como se estivesse vendo novela. Mas é um conforto que não me agrada, ao contrário, entristece. Principalmente quando é um filme brasileiro. Assim como o diretor do filme, gosto de ver a sala cheia, todos de olho na tela. Marco Ricca, que já filmou aqui com João Batista de Andrade, e tem uma ligação afetiva com a cidade, diz que seu filme "lembra muito a luz de Brasília, é amarelada, tem a imensidão do céu, a terra vermelha, a poeira", e acha que "o filme vai pegar em Brasília". Não sei como está sendo a bilheteria nas outras cinco salas onde "Cabeça" foi lançado na sexta-feira passada. Torço para que os espectadores se multipliquem e o filme pegue como o cineasta deseja e o bom cinema merece.

 fotos Ricca Produções

"Cabeça a prêmio" tem uma narrativa seca, precisa, quase minimalista, o que foi um desafio para um diretor estreante, pois a história de certa forma requer ação, um determinado suspense. É um triller com traição, assassinatos, fugas, ambientado numa paisagem desértica, entre o pantanal e o cerrado, entre cidades pequenas e fronteiriças, entre bons nos lugares errados e maus em lugares piores. A trama se desenvolve em três núcleos, tendo como ponto centralizador uma família de poderosos percuaristas metida com negócios ilicítos. A dissolução dessa estrutura "próspera" começa com o envolvimento da filha  do patriarca com o piloto de avião que lhe presta serviços perigosos. Uma dupla de matadores personifica o conflito e a violência. O grande mérito do roteiro e direção segura de Marco Ricca é a narrativa concentrada em planos cuidadosamente elaborados, em câmeras paradas e enquadramentos que incorporam o mundo interior dos personagens, e consequentemente a reflexão do drama em que estão envolvidos. Não há movimento histérico de câmeras na mão, e sim o desenho preciso do deslocamento que acompanha os personagens dentro de uma ação que eles constroem. A narrativa é seca na composição, mas grandiosa na observação, simétrica na relação ação-personagem.

O livro de Marçal Aquino, lançado em 2003, é muito mais complexo, com muito mais dramas, personagens e entrelaçamentos. A adaptação para o cinema foi corajosa e perfeita em saber condensar em menos de duas horas angústias e tragédias interiores. É inevitável a lembrança de Beto Brant de "Matadores" e "O invasor", este protagonizado por Ricca, e também extraídos da literatura policial de Aquino.  Apenas lembrança: o diretor colocou em "Cabeça a prêmio" sua marca, sua maneira particular de contar uma história. E escolheu o elenco adequado para cada papel: Alice Braga, Fulvio Stefanini, o uruguaio Daniel Hendler, Otávio Muller, Cassiano Gabus Mendes, Via Negromonte, Ana Braga, e até mesmo Eduardo Moscovis, que se esforça para demonstar o assassino silencioso e atormentado.

domingo, 22 de agosto de 2010

assim seja

   Padrasto Nosso

Elvis Presley que estais no céu
muito escutado seja Bill Haley
venha a nós o Chuck Berry
seja feito som à vontade
assim como Hendrix, Sex Pistols e Rolling Stones.
Rock and roll que a cada dia melhora
escutai sempre Clapton e Neil Young
assim como Pink Floyd e David Bowie
Muddy Waters e The Monkeys.
E não nos deixar cair o volume do som
quando ouvirdes Black Sabath
mas livrai-nos do axé.
Amém!

Pedro Saulo de Souza, poeta brasiliense, em seu livro "Turnê de sentidos"

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

manhã de quinta

foto Riztam Telve

Mortal que sou, não posso ignorar nem escapar do tempo. Fui ontem, sou hoje, mas não "tenho" futuro: sou futuro.

É perigoso eu dizer "sou o que tenho". Isso me dá a sensação de que preciso de ter mais, mais, mais...
Sou o que sou.

Cultivar mágoa é como tomar veneno e esperar que o outro morra.

Os pioneiros tendem a ser ignorados no começo.

Esta manhã de quinta-feira é parcela de minha eternidade. Não haverá outra igual. Eu lapido o meu tempo.