quinta-feira, 25 de maio de 2017

a lenda do blues

Há uma lenda que o bluesman Sonny Boy Williamson II morreu enquanto dormia, em 25 de maio de 1965.
A história de Williamson é cheia de mistérios, contradições e hipóteses nos seus 52 anos de vida, a partir da data de nascimento.
Na biografia Don't Start Me Talkin, escrita por William E. Donoghue, 1997, encontramos várias histórias curiosas que fizeram do gaitista, compositor e cantor uma lenda do blues, literalmente.
Sonny, que supostamente fora batizado Aleck "Rice" Miller, passou a usar vários nomes... Willie Williamson, Willie Miller, Little Boy Blue, The Goat, Footsie, até assumir como ficou definitivamente conhecido, retirado de Sonny Boy Williamson, outro tocador de harmônica, morto em 1948. O Sonny II teria adotado o nome para encobrir sua fuga da penitenciária de Angola. E nunca se soube por qual acusação estivera atrás das grades. Especulou-se que fora pelo simples roubo de uma mula.
Entre tantas outras histórias, o músico teria presenciado a morte por envenenamento do notório Robert Johnson, aquele que fizera um pacto com o diabo numa encruzilhada.

O importante é que Sonny Williamson II deixou clássicos da história do blues nativo, e mexeu com a cabeça de músicos como Eric Clapton, Jimmy Page, Mick Jagger...

terça-feira, 23 de maio de 2017

Moore, Roger Moore

“By the time I'm out the door / you tear me down like Roger Moore”, dizia Amy Winehouse na canção You know I'm no good, gravada no disco Back to black, 2006.
Ao citar seu ator preferido na letra, a cantora faz uma analogia como é que fica o coração dela depois de uma briga com o namorado - uma referência sampleada entre a bravura do agente James Bond e o encanto do intérprete.
O britânico Roger Moore foi o mais simpático da franquia 007, o agente secreto fictício do serviço de espionagem britânico MI-6, criado pelo escritor Ian Fleming em 1953.
Quando substituiu Sean Connery em 1973, em Com 007 viva e deixe morrer (Live and let die), de Guy Hamilton, Moore moldou o personagem totalmente ao avesso do ator escocês, que delineou ao seu papel uma postura com dicção teatral, shakespeariana. Nos sete filmes em que viveu James Bond, Roger Moore deu um perfil sarcástico, irônico, bem humorado, fanfarrão, sem perder a elegância e o carisma, tanto do protagonista quanto do artista. Criador e criatura mais do que se confundiam, convergiam.
Sean Connery se desvinculou o necessário para fortalecer dezenas de outros papéis no cinema, como, por exemplo, o frade franciscano em O nome da rosa (Le nom de la rose), de Jean-Jacques Annaud, 1986. Roger Moore não teve trabalhos relevantes depois de 007 - Na mira dos assassinos, sua despedida do personagem, em 1985. Ficou como o “eterno 007". E não se importava com isso. Divertia-se quando o chamavam James Bond nas ruas, nos hotéis, nos aeroportos.
O ator se foi definitivamente hoje, aos 89 anos, para outras missões mais distantes...

segunda-feira, 22 de maio de 2017

o cd do Vinil

“Kid Vinil, quando é que tu vai gravar cd?”, perguntava Zeca Baleiro na música Kid Vinil, em seu álbum de estreia Por onde andará Stephen Fry?, 1997 – um disco cheio de interrogações.
O que parece uma brincadeira direcionada ao amigo, o cantor, compositor, produtor e apresentador de televisão Kid Vinil, que se foi no último dia 19, aos 62 anos, a letra do artista maranhense discorria vários questionamentos naquele final dos anos 90, quando a tecnologia começava a tomar proporções rápidas nos costumes de todos nós.
Baleiro ironiza para interpelar e refletir uma falsa realidade, “acessando a internet / você chega ao coração / da humanidade inteira / sem tirar os pés do chão...”, desconstrói uma ilusão com uma afirmação, “milhares de megabytes / abatendo a solidão / com a graça de Bill Gates”, aponta uma servidão quando denota onipotência, “se homem já foi à lua / vai pegar o sol com a mão / basta comprar um pc / e aprender o abc da informatização...”
E a menção a Kid Vinil entra no refrão justamente para legitimar a força, digamos, analógica de sentimentos que devem estar acima de todo atrativo que possa nos subjugar. “Tecnologia existe / pra salvar o homem do fim”, diz a letra logo no início.
Antônio Carlos Senefonte, o Kid Vinil, tem uma importância para o rock brasileiro que merece ser mais divulgada, vai além dos sucessos rockabilly que lhe tornou conhecido, Tic tic nervoso e Sou boy.
Precisamente nos anos 80, naquele momento das inquietações de uma juventude no punk rock, ele produziu shows, discos, programas de rádio e televisão, revelou bandas underground, criou e tocou em bandas, como Verminose, Magazine, Kid Vinil e Os Heróis Do Brasil.
A tenacidade de Vinil se estende em trabalhos surpreendentes: foi ele quem produziu o primeiro disco da violeira Helena Meireles, através da gravadora independente Trama, em 1994, que deu projeção na mídia àquela senhora pantaneira de 70 anos. Em 1998, produziu no Brasil o álbum Com defeito de fabricação, de Tom Zé, "redescoberto" e lançado por David Byrne nos Estados Unidos, mas com dificuldades de gravadora em sua terra.
O afeto em que se encerra no coração de vinil do Kid, fez com que a tecnologia exista a favor do mesmo abraço para todos, chegar à humanidade inteira tirando os pés do chão.
E ele gravou, sim, CDs: Na Honestidade, em 2002, com a banda Magazine, em 2010 na formação Kid Vinil Xperience, Time was.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vênus para sempre



O Nascimento de Vênus, têmpera sobre madeira, belíssima pintura sobre madeira, do renascentista Sandro Botticelli, exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença.
O cinema e outras manifestações artísticas reproduziram a cena da deusa Vênus, emergindo esplendorosa de uma concha, sendo levada à margem pelo sopro de Zéfiro, que representa o vento que vem do oeste.
Como uma deusa-sereia, Ursula Andress surge fascinante do mar em uma cena de 007 contra o Satânico Dr No (Dr. No), de Terence Young, 1962.
Com mais precisão, a cena foi retratada em As aventuras do Barão Munchausen (The adventures of Baron Munchausen), de Terry Gilliam, 1989, personificada em outra deusa blonde e diáfana, a atriz Uma Thurman pré-Kill Bill no papel de Vênus.
No filme holandês A excêntrica família de Antonia (Antonia), de Marleen Gorris, 1995, uma das personagens é vista como Vênus, remetendo ao significado da pintura.
O desenho animado Os Simpsons fez uma referência direta ao quadro, em um episódio nos anos 90, quando um personagem, no delírio, vê a colega de trabalho por quem se apaixona.
Muitas capas de revistas de moda fizeram alusões à cena de Botticelli, com modelos famosas e biquínis de grifes.
A musa pop cameloa da música dance eletrônica, Lady Gaga, é confessadamente uma admiradora da obra. Em seu disco Artpop, de 2013, a capa utiliza em recursos estilizados a estampa de O nascimento de Vênus, como sampleando a pintura clássica. No clipe promocional do álbum, com (não à toa) o single Vênus, a cantora com os longos cabelos em cascata como da deusa, usa um provocante biquíni de concha.
Até na moeda de 10 centavos do Euro, Vênus aparece impressa em suave relevo. Mas é minimizar demais: a referência merece valor muito maior de circulação hoje nos 507 anos da morte do pintor.

terça-feira, 16 de maio de 2017

like a Bob Dylan

51 anos hoje do lançamento de um dos melhores discos de Bob Dylan, Bonde on Blonde, que completa a trilogia de álbuns de rock que o pardo de Minnesota gravou, começando com Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965.
As canções e as letras discursivas definem bem a mistura única do visionário e do coloquial que Mr. Zinnemman se tornou ao longo de sua carreira.

sábado, 13 de maio de 2017

a voz do Brasil

Em uma festa de réveillon nos anos 50, na casa do diretor da Rádio Nacional, vários convidados fizeram fila para cumprimentar Getúlio Vargas.
Ao aproximar-se uma jovem cantora em início de carreira, o Presidente apertando-lhe a mão disse: "menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti".
A partir dessa data, Angela Maria, que hoje completa 88 anos, ficou conhecida como "A Sapoti", uma fruta tão doce quanto a voz da cantora, que em primeiro momento ela entendeu como "jabuti" e não gostou.
Episódios como esse estão na ótima biografia Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil, do jornalista e pesquisador Rodrigo Faour, lançada em 2015.
Com um texto preciso e elegante, o livro narra a trajetória da artista, revelando momentos difíceis como a decaída e pobreza nos anos 60, quando teve todo seu patrimônio financeiro usurpado pelos empresários, maridos, namorados, falsos amigos.

in a romantic mist

Duas excelentes obras sobre o grande trompetista e cantor de jazz Chet Baker: a biografia No fundo de um sonho - A longa noite de Chet Baker, escrita pelo jornalista James Gavin, publicada em 2002, e Let's Get Lost, documentário dirigido por Bruce Weber.
São referências definitivas sobre Baker. Nas páginas de um, nas imagens do outro, se se conhece a música do ícone do jazz cool, impossível não se emocionar com os relatos, os depoimentos, as entrevistas.
No filme, concluído um ano antes de sua morte, completando hoje 29 anos, o diretor grava longos planos de um Baker mais introspectivo do que se sabia. O seu olhar distante, o mergulho em suas dores. A câmera parece não estar ali. O cineasta e o músico eram amigos, e isso rendeu a intimidade necessária para extrair a mais verdadeira fala, o mais sincero silêncio.
Baker caiu-flutuou-levitou de uma janela de hotel em Amsterdan. Como diz a letra de sua canção Let's Get Lost: "in a romantic mist..."

sexta-feira, 12 de maio de 2017

olhos livres do cinema

“Papai, o que é cinema?”, pergunta a filha Bebel ao pai cineasta, enquadrando a pequena câmera digital. 
“Cinema...” inicia a resposta para de imediato reticenciar em “não sei... não sei... não sei...”

O diálogo nos minutos iniciais do longa-metragem Um filme de cinema, de Thiago B. Mendonça (2017), reverbera-se ao contar a aventura de uma criança na feitura de um filme como tarefa escolar. A garota também não sabe o que é cinema, ainda, mas tem a intuição que o próprio pai não percebe: uma câmera na mão e uma ideia no coração, parafraseando enviezadamente a máxima cinemanovista. Assim nasceu o cinema, perseguindo a realidade enquanto a recorta retangularmente.

- Trecho de algumas observações ao longa, no catálogo da IX Mostra Outros Cinemas, Caixa Cultural Fortaleza, de 10 a 14 de maio.
Site com mais informações sobre o evento: http://migre.me/wBtU9

o brasileiro Antonio Cândido

"Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida."
- Antônio Cândido, sociólogo, um dos grandes estudiosos da nossa literatura, o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, em 2005, um dos mais importantes da América Latina, livre e lúcido pensador. Um brasileiro.
Cândido partiu hoje aos 98 anos. Tecer outras vidas noutros tempos.