sábado, 30 de setembro de 2017

Alfredo no paraíso

De tantos bons filmes que o Philippe Noiret fez, alguns são marcantes: O velho fuzil, drama baseado no massacre de Oradour-sur-Glane na Segunda Guerra, de Robert Enrico; o polêmico A comilança, que trata do suicídio por glutonaria e causou escândalo em Cannes em 1973, uma espécie de fábula de humor negro dirigida por Marco Ferreri; O carteiro e o poeta, de Michael Redford, em que vive Pablo Neruda...
Mas o ator será eternamente lembrado como o Alfredo, projecionista de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, que nunca saiu da cabeça do menino Totó (Salvatore Cascio), assim como o personagem jamais será esquecido pelo público, por sua memorável atuação.
Noiret terminou de escrever a autobiografia, Mémoire cavalière, pouco antes de ir para outros "paradisos", em 2006. Hoje ele faria 87 anos em nosso cinema.

e eu não posso cantar como convém

“Por onde passou, Belchior não deixou dissenso, conflito ou vergonha. Os embates moralistas em torno de sua renúncia à vida social vão continuar por muitos anos, mas a transfusão de seu sangue criativo irriga gerações diferentes de artistas e é impossível detê-la: alimenta tanto os anêmicos da realidade quanto os vampiros da transitoriedade. ”
- Jotabê Medeiros, jornalista, autor da biografia Belchior – Apenas um rapaz latino-americano. O trecho, na segunda página da Apresentação, resume o pensamento e intenção do livro, que teve pesquisa iniciada logo após o desaparecimento do cantor.
Hoje cinco meses que seu sangue criativo continua irrigando gerações. Cinco meses que ele não morreu.
Neste link, uma ótima análise da biografia, assinada por Josely Teixeira, estudiosa da obra de Belchior.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

massagem

Elizabeth Taylor fotografada por Daniel Angli, Paris, 1971

"Um miau massageia o coração." 

- Stuart McMillan, fotógrafo



Salvatores

"como eu não sei rezar / só queria mostrar / meu olhar, meu olhar, meu olhar..."

- Renato Teixeira em Romaria, 1978

Salvatore Cascio no papel Salvatore Di Vita, o pequeno devoto da sétima arte no templo de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, 1988.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

vale tudo

"Tira essa escada daí / essa escada é pra ficar aqui fora / eu vou chamar o síndico / Tim Maia! Tim Maia! / Tim Maia! Tim Maia!...
- Jorge Benjor em W Brasil, disco Acústico MTV, 2002.

E o Condomínio Brasil faria uma grande festa hoje pelos 75 anos do síndico.

civilização felina

foto Yulia M

"A veneração dos egípcios pelos gatos não era nem tola nem infantil. Por meio do gato, o Egito definiu e refinou sua complexa estética." 

- Camille Paglia, ensaísta e crítica de arte


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

o batera

Dez entre dez bateristas consideram John Bonham, do Led Zeppelin, um dos melhores de todos os tempos na história do rock, numa admiração que se confunde com devoção, pela sua inovação, originalidade e velocidade técnica.
Hoje faz 36 anos que o batera se foi, aos 32. De certa forma, Led Zeppelin também.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

homens choram


poesia em Alphaville

“Todas as coisas se movem. Devemos avançar para viver. Ir direto para aquilo que você ama. Eu fui para você sem pausa para a luz. Se sorrir, é para invadir melhor. Os raios de seus braços perfuram o nevoeiro.”
As falas do filme Alphaville, que Jean-Luc Godard dirigiu em 1965 foram escritas pelo poeta Paul Éluard. Assim se explica um dos mais belos roteiros do cinema, com diálogos precisos narrados como versos pelos personagens.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

ler e ser

“Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”
Admirável pensamento do mestre Paulo Freire, no raciocínio da simplicidade de uma fábula.
Nascido há 96 anos hoje, o sociólogo e pedagogo brasileiro nos mostrou as uvas e que não estariam verdes.

evoé, Daniel Medina!

Na Roma antiga as sacerdotistas que cultuavam Baco proferiam o grito de evocação "Evoé!". Por extensão e ao longo do tempo é também um grito de felicidade, de alegria, que expressa entusiasmo e exaltação ao belo.
O título do disco de estreia do cantor e compositor Daniel Medina é justamente esse brado: a beleza da música. Talento da nova cena musical cearense, o artista reúne no álbum dez canções autorais, com auxilio luxuoso dos conterrâneos Juruviara, Gero Camilo e do paulista Marcelo Jeneci, em três faixas.
Um disco primoroso!
Como ele canta na ótima Nós ao vivo, sua música "vai à rua, vai à Roma / testa as portas, faz a festa"

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

"I want to be alone"

foto Cecil Beaton, Plaza Hotel, 1946.
A atriz Greta Garbo disse a frase acima numa cena de O Grande Hotel, clássico filme pós-depressão americana, de 1932, dirigido por Edmund Goulding.
A sentença marcou sua própria vida, ao retirar-se do cinema de uma vez por todas, nove anos depois, logo após filmar Duas vezes meu (Two-faced woman), de George Cukor. As críticas negativas ao filme abalara a estima da atriz, que já se sentia desiludida com o mundo pelos horrores da Segunda Guerra.
Greta nunca se casou, não teve filhos, não escreveu livro, e não se sabe se plantou alguma árvore. Também nunca ganhou um Oscar, pelo menos quando foi indicada várias vezes. A Academia com sua mania de tardia "mea culpa", deu a estatueta especial em 1954, celebrando o conjunto de sua obra. A atriz desdenhou a premiação, não compareceu à cerimônia. Já estava reclusa com seu cigarro no gigantesco apartamento da rua 52, em East Side, Nova York, onde faleceu aos 84 anos, de pneumonia.
Hoje ela faria 112 anos de solidão.

o brado retumbante

foto Pedro Ventura
Logo após o comovente monólogo do ator Matheus Nachtergaele na abertura do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, sexta-feira passada, cobrindo-se de terra vermelha e evocando os trabalhadores candangos que construíram e povoaram a cidade, o seu grito "Fora Temer!" em alto e bom som, reverbera em toda a plateia todas as noites, todas as sessões, todas as vozes.

domingo, 17 de setembro de 2017

o poder das imagens

Exímio leitor de imagens, o fotógrafo e professor Miguel Freire, dirige a atenção no livro Fotografia Getuliana para a produção foto-cinematográfica brasileira do período do Estado Novo, identificando em seus produtos traços que, no mínimo, apontam para uma vontade de aproximar-se do tratamento estético conferido a peças de propaganda política, na Alemanha do 3º Reich.
O livro foca o papel das imagens na composição da retórica do poder, isto é, na construção de suas narrativas, por extensão enfocando também ao papel da arte na sociedade.
O exame rigoroso das fontes primárias, aliado ao vasto conhecimento teórico e prático do campo da fotografia que Miguel Freire acumulou ao longo de sua trajetória, faz de Fotografia Getuliana uma leitura indispensável para os estudiosos da história da fotografia e do jornalismo cinematográfico brasileiros. Sua importância, entretanto, ultrapassa tais limites disciplinares, contribuindo para o aprofundamento da reflexão sobre o próprio estatuto da imagem na modernidade e sobre as relações entre vanguardas, tecnologia e política.
- Vera Lúcia Follain de Figueiredo

Lançamento hoje, às 19h, no cine Brasília, dentro da programação do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

sábado, 16 de setembro de 2017

50 quadros por segundo

Depois da abertura ontem para convidados, com a homenagem a Nelson Pereira dos Santos, o comovente monólogo de Matheus Nachtergaele ("50 anos são outros 500!"), anúncio da construção do pólo Parque Audiovisual de Brasília, exibição do longa Não devore meu coração, de Felipe Bragança, começam hoje as mostras competitivas do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo do país.
Na tela do tradicional cine Brasília, filmes inéditos e retrospectivas, equipes enormes de curtas no palco, diretor que não veio e é representado pela montadora, discursos e agradecimentos intermináveis, discursos rapidinhos "espero-que-gostem-do-filme", reclamações, polêmicas, aplausos, vaias a políticos presentes, “fora Temer!” em alto e bom som, atores de filmes que estão em novelas e os cinegrafistas das TVs correndo atrás junto com os caçadores de selfies com seus iPhones e smartphones, plateia de todos as tribos, das roupinhas de grifes às tatuagens descoladas, muvucas laterais nas tendas high tech cheias de anunciantes, cervejas long neck e sanduíches com preços abusivos, pegações, ficantes, casais separados que se reencontram, gente linda, gente chata, desesperados atrás de convites pra festas com DJs da hora, entra-e-sai no hall do hotel, convidados exibindo credencial como se fosse medalha, convidado reclamando que não recebeu credencial, salão do café da manhã lotado com cineastas consagrados e curtas-metragistas desconhecidos estreando o seu décimo filme digital, oficinas com quem sabe ministrar oficinas, workshop que é a mesma coisa de oficina ministrado por quem não sabe nem de uma coisa nem de outra, perfomances sem-ver-nem-pra-quê, debates que começam atrasados porque os participantes ainda estão no café, homenageados sem nenhum motivo, homenageados tardiamente, premiações injustas, premiações certíssimas...
O Festival de Brasília é maravilhosamente histórico e histérico.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

lugar bonito

foto Bob Wolfeson
"Na minha memória - tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos."

De tantos fragmentos que Caio Fernando Abreu escreveu em sua vasta literatura, esse acima me toca pela concisão poética e pela lucidez e racionalidade ao mesmo tempo.

O autor gaúcho, que escreveu livros de contos, novelas, romances, peças de teatro, traduções (é dele a versão do clássico A Arte da Guerra, de Sun Tzu), tinha exatamente esse laconismo e exatidão na escrita, sem necessariamente ser minimalista. Usava as palavras no espaço certo, sem precisar se estender em sinônimos para total compreensão.

Viveu em período brabo de ditadura militar, foi um dos primeiros a escrever abertamente sobre sexo numa visão dramática, e assumiu sem rodeios sua homossexualidade. Hoje quando faria 69 anos, com certeza estaria com o coração marcado, congestionado de indignação ao ver as portas do Santander Cultural de sua Porto Alegre cerradas pelo obscurantismo em pleno século 21, censurando a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira.

O escritor se foi com apenas 47 e ocupa um ocupa um lugar bonito em nossa lembrança, na literatura brasileira. Onde estiver.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

outro 11 de setembro

Hoje , 45 anos do assassinato de Salvador Allende, no Palácio de La Moneda cercado e bombardeado pelas tropas do fascista Augusto Pinochet, com apoio total do governo norte-americano, sob os aplausos de Nixon.
A data é um marco no terrorismo de estado.

obscurantismo não Queermuseu

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

o samurai do cinema

"Pegue meu eu, subtraia dele filmes e o resultado será zero", dizia Akira Kurosawa.
Parafraseando o mestre japonês, subtraia da cinematografia mundial os seus filmes e o Cinema ficaria perto de zero.
Assim como Yasujiro Ozu dissecava de forma minimalista os sentimentos humanos, Kurosawa simetricamente fazia o mesmo com seus belíssimos filmes de narrativa operística, épica.
Hoje, 19 anos subtraídos de sua presença.

you are here

Roger Waters, 74 anos derrubando muros, construindo pontes com música.

idade mídia


la caducidad del paraiso

Poema do cantante, guitarrista e compositor espanhol Marwan, em seu ótimo livro La triste historia de tu cuerpo sobre el mío, 2011.

o mala


lua aberta sobre o cerrado.

foto Ed Alves, Brasília, DF

domingo, 3 de setembro de 2017

um homem e o seu tempo

A biografia de Belchior por Jotabê Medeiros. O livro de Jotabê por Josely Teixeira.

morando na filosofia

Entrevista com o jornalista Jotabê Medeiros, autor da biografia Belchior - Apenas um rapaz latino-americano, lançada esta semana.
Acima, em foto de Ingrid Trindade, Belchior no exílio voluntário em Passa Sete, RS, 2013.

um homem e o seu tempo

A biografia de Belchior por Jotabê Medeiros.
O livro de Jotabê por Josely Teixeira.

morando na filosofia

Entrevista com o jornalista Jotabê Medeiros, autor da biografia Belchior - Apenas um rapaz latino-americano, lançada esta semana.
Belchior no exílio voluntário em Passa Sete, RS, 2013. Foto: Ingrid Trindade.

mais uma saudade

A grande educadora cearense Luiza de Teodoro partiu nesta manhã de domingo, aos 86 anos, em Fortaleza.
Mais uma saudade para se conviver. Recorro a outro mestre, Manuel Bandeira, para parafrasear e celebrar a sua lembrança, sua ausência, sua presença por toda vida, e traduzir a minha ternura mais funda, mais cotidiana. Inventei, agora, por exemplo, o verbo “teadorar”, que no seu caso, é transitivo por sua beleza: teadoro, Teodoro.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

sol de primavera

foto Luis Carlos Bill
Em Crateús, nas brenhas secas dos Inhamus cearense, primavera era uma estação de trem distante, muito distante, tão distante que nem existia. Que diria outono, que nem aparecia. 
As duas estações de outras cidades a léguas tiranas do sertão, só marcavam nas folhinhas do calendário na parede... e meus olhos retirantes imaginavam o trem nas trilhas.

Na via férrea que cortava o meu fim de mundo, o trem só trazia vagões com a fumaça do verão, e do último, bem lá atrás, jorravam as águas do inverno que transbordavam meu açude no quintal, subiam o verde da roça, e banhavam meu sorriso na bica na calçada.
Abaixo da linha do equador do meu peito, a primavera sempre existiu. Seguida do inverno, a estação reflorescia os ladrilhos ainda molhados. Assim como o outono no coração do menino... e as folhas que caiam das árvores onde brincava de esconde-esconde. O tempo sempre me encontrava.
© Do meu livro Trem da memória - um poema