terça-feira, 30 de junho de 2015

lado a lado

"Às vezes te odeio por quase um segundo...depois te amo mais", cantou Jupiter a Vênus... ou vice-versa.

Os dois planetas aproveitaram que hoje o dia tem um segundo a mais, e se encostaram ali na imensidão do Universo, sem cerimônia, diante nossos olhos.

(Herbert Viana não imaginaria que a letra de sua canção, gravada no LP Bora Bora, dos Paralamas, em 1988, serviria de serenata para os planetas enamorados)

a nave vai à montanha

"Precisamos dos poetas para dar coerência aos sonhos", disse o personagem principal de Os gigantes da montanha, peça inacabada do grande dramaturgo italiano Luigi Pirandello.

A fábula narra a chegada de uma companhia teatral decadente a uma vila isolada do mundo, cheia de encantos, governada por um mago. No início de 2013, assisti no Teatro Plínio Marcos (Funarte), aqui em Brasília, a uma belíssima montagem do Grupo Galpão, de Minas Gerais, sob direção de Gabriel Villela. Pirandello ficaria realizado se tivesse visto a encenação, pela forma como o ato final, originalmente inconcluso, ganhou solução a partir de indicações que o autor deixou nas entrelinhas.

Como resume a frase acima, a peça discute o lugar da arte e da poesia num mundo dominado pelo pragmatismo e pela técnica. O Grupo Galpão discorreu no palco que a poesia mais do que remove, comove a montanha.

E para ilustrar esta postagem, uma cena do filme E la nave va, de outro visionário, Federico Fellini, que soube muito bem dar coerência aos sonhos.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

a vez de Pedro, a voz de Paulo

Na liturgia católica, Pedro e Paulo são considerados como exemplos de apóstolos fiéis a Cristo.

Hoje é celebrada a festa em homenagem aos dois santos. A escolha da data é muito remota, não se sabe se foi marcada pelo dia da morte de um deles, ou se pelo traslado de seus restos de um local para outro.
Na tradição do Cristianismo, a remoção dos restos mortais e dos objetos pertencentes aos santos, era um ritual que se estendia por horas, com procissões e vigílias madrugada a dentro.

Não à toa, hoje no Vaticano o Papa entrega aos bispos e arcebispos o símbolo primário do cargo. Pedro foi o primeiro a ocupar o trono onde está o argentino Francisco, e ficou com a tiara de Sumo Pontífice por 37 anos.

Nas Igrejas Ortodoxas a data é também lembrada e festejada com a celebração de Jejum dos Apóstolos.

Independente de minha crença, sempre tive curiosidade pelos rituais, liturgias e cerimônias das religiões. Ao longo dos séculos, esses movimentos ecumênicos foram marcados por alterações, adaptações, o que faz o mundo moderno confundir religião com fé.

No Brasil, seguimos o costume de comemorar com festas, bandeirinhas, comidas típicas, danças. E, sobretudo, com as chamadas "simpatias", como casar ou alcançar graças mais difíceis. Durante o mês, apelou-se para Santo Antônio, São João... Agora é com Pedro. Paulo continua na dele, é o biógrafo do Cristianismo.

(A reprodução da imagem acima é um grafite do século IV, encontrado em uma catacumba romana onde supostamente estavam os dois Santos)

domingo, 28 de junho de 2015

somewhere over the rainbow


No começo da madrugada de 28 de junho de 1969, oito policiais, alguns deles à paisana, entraram no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, e aos gritos anunciaram que estavam tomando o lugar, ocupando o território, com a violência característica da arbitrariedade e preconceito. Predominante gay, o local era constantemente alvo de batidas policiais.

O ataque daquela noite, porém, teve repercussão inesperada e histórica. Motins reverberaram seguidamente entre os frequentadores, como reação às represálias, à discriminação e cerceamento da liberdade.

Os protestos desencadeados culminaram com a marcha ocorrida no dia 1º de julho de 1970. O evento tornou-se precursor das atuais Paradas do Orgulho Gay. É muito interessante, ótimo e sintomático que a decisão da Suprema Corte dos EUA em legalizar o casamento entre homossexuais em todo o país, tenha acontecido em datas próximas neste mês.

Renato Russo lançou em 1994 o seu primeiro disco solo, intitulado “The Stonewall Celebration Concert”, em comemoração aos 25 anos dos motins. Com 21 belíssimas canções em inglês, de clássicos de Irvin Berlin e Leonard Berstein ao pop-folk da alemã-britânica Tanita Tikaram, passando por Bob Dylan, Madonna e Billy Joe, o disco é precioso pelo repertório e pontuação ao histórico acontecimento. Bem melhor do que o filme “Stonewall”, dirigido por Nigel Finch, de 1995.

sábado, 27 de junho de 2015

qualquer amor

Um dos maiores livros da Literatura Brasileira, de um dos nossos maiores escritores.

João estaria completando hoje 107 anos.

Ele dizia, através do personagem Riobaldo, que "só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”

duas guerras

As Duas Guerras de Vlado Herzog, livro de Audálio Dantas, lançado em 2013. Imprescindível para conhecer a trajetória do jornalista Vladimir Herzog, desde a fuga do nazismo à sua morte no DOI-Codi, quando foi "suicidado" em 1975.

Vlado tinha apenas 38 anos. Hoje ele faria 78.

segunda-feira, 15 de junho de 2015

sonhos

"Nós somos feitos da mesma matéria dos sonhos."

- William Shakespeare, através de Próspero, em A tempestade, 1610

Lady Ella

Ella Fitzgerald, fotografada pelo grande Phil Stern, década de 50.

Hoje, 19 anos sem a "First Lady of Song", a voz e a elegância do jazz.

domingo, 14 de junho de 2015

a libertadora

Assim como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrison, Brian Jones, Kurt Cobain, Amy Winehouse, Noel Rosa, nossa musa maior, Leila Diniz, também morreu aos 27 anos, em 14 de junho de 1972.

Tão jovem, tão bela, tão autêntica, e muito à frente do seu tempo, Leila é a definição exata do poeta Carlos Drummond de Andrade: "Sem discurso nem requerimento, ela soltou as mulheres de vinte anos presas ao tronco de uma especial escravidão."

a leste do Éden


foto Daniel Mordzinski
O poeta argentino Jorge Luis Borges dizia que sempre imaginou o Paraíso como uma espécie de livraria.

Hoje faz 29 anos que ele foi até ao Éden ver como está a repercussão de seus livros.

no palco e nas ruas

"Tem som no microfone?
Vocês são iguais sabem a quem? Àqueles que foram na 'Roda Viva' e espancaram os atores! Vocês não diferem em nada deles, vocês não diferem em nada. E por falar nisso, viva Cacilda Becker! Viva Cacilda Becker!"

Assim esbravejou Caetano Veloso, na final paulista do Festival Internacional da Canção, em 1968, quando sua música É proibido proibir foi recebida com vaia pelo público.

A primeira-dama dos palcos brasileiros é citada no trecho do discurso por ter, corajosamente, participado e tomado a frente da comissão de artistas que foi à residência do então governador Abreu Sodré, exigir providências sobre o ataque ao Teatro Galpão.

Hoje, 46 anos sem essa grande atriz nos palcos e nas ruas.
E por falar nisso, viva Cacilda Becker!

o último solo

A "indesejada das gentes", como dizia Manuel Bandeira, sempre nos surpreende com sua pontualidade... Nunca aceitamos, nunca queremos o mais certo e inevitável acontecimento a que estamos destinados.

Evitei escrever sobre a partida do compositor Fernando Brant, dia 12, saindo da estação ali no Clube da Esquina para outra travessia... Embarcou em um trenzinho pelas montanhas de Minas... até sumir e continuar em nossos corações de estudante, como diz uma das canções da turma...

E o último solo ontem do guitarrista pernambucano Ivinho, aos 68 anos, não me fez segurar a furtiva lágrima desta postagem.
Debilitado e sofrendo muito no hospital, sabendo da brevidade de suas horas, o músico suspirou uma frase tocante: "Meu colírio são as lágrimas", diante parentes e amigos.

Antes de se internar em consequência de uma hemorragia digestiva, Ivinho estava muito contente com a volta de Ave Sangria, legendária banda da década de 70 em Recife, uma das mais representativas do rock psicodélico da época.

Ivinho participou da banda que acompanhava Alceu Valença, no início da carreira do conterrâneo. Mas seu talento precisava ser mostrado um pouco mais.

O disco abaixo é o seu primeiro trabalho solo, gravado ao vivo no Montreux International Jazz Festival, 1978. Há quem diga que Gilberto Gil foi o primeiro brasileiro a se apresentar no festival suíço... O baiano estava lá, e seu show também virou disco. Mas Gil apresentou-se com sua banda, formada por músicos como Pepeu Gomes e Djalma Correia. Ivinho foi o primeiro artista do Brasil a tocar sua sozinho no imenso palco do concorrido festival.

Brant e Ivinho: Recife encontra-se com Minas noutras esquinas.

sábado, 13 de junho de 2015

Largo de São Carlos, bairro Chiado, Lisboa.



o Pessoa

"E lágrima nos olhos de ler o Pessoa..."
- Belchior, em "Retrato 3x4"

Pessoas

             "Gosto de ver o Pessoa na pessoa..."
                - Caetano Veloso, em "Língua"
A casa onde viveu Fernando Pessoa seus últimos quinzes anos, foi transformada em museu.

Localizada no bairro Campo de Ourique, em Lisboa, o poeta, que hoje faz 127 anos de nascimento, vagueia com seus heterônimos em três andares do tempo.

o inesquecível

Fernando Pessoa dizia que tudo o que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível.

Na paisagem urbana das ruas de Lisboa, o poeta, que hoje completa 127 anos de nascimento, atravessa as paredes do inesquecível.

os argonautas

          "Navigare necesse; vivere non est necesse"

O general romano Pompeu, por volta do século 70 a.C., disse essa frase aos seus marinheiros, que amedrontados, se recusavam viajar durante a guerra.

Naqueles tempos os riscos de navegação eram tão grandes quanto a extensão dos mares. A pirataria atemorizava tanto quanto as tempestades.

Mas Roma precisava se recuperar de uma grave crise de abastecimento, necessitava transportar trigo de outras províncias. Enfrentar os oceanos e seus perigos era necessário.

Fernando Pessoa, que hoje faz 127 anos de nascimento, era um apaixonado pela tradição dos mares. E tomou emprestado a frase, como mote, como inspiração, para escrever o poema "Navegar é preciso".

E assim o poeta, navega, discorre o poema em alegorias, pela necessidade de criar, de arriscar, em vez de viver recolhido diante às incertezas: "não conto gozar a minha vida; / nem em gozá-la penso. / Só quero torná-la grande, / ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo."

domingo, 7 de junho de 2015

homem de palavra

Paulo Leminski manteve sua palavra. Há 26 anos ele partiu para outros contratos.

Gauguin na Guanabara

Self-portrait, 1893
167 anos de nascimento do pintor Paul Gauguin, aquele que "amou a luz da Baía de Guanabara"...

Nara

A adolescente capixaba Nara Leão, nas areias escaldantes de Copacabana, anos 50.

Há 26 anos a musa da Bossa Nova deixou o Posto 4, na avenida Atlântida.

a fala insiste

"A voz resiste. A fala insiste: você me ouvirá.
A voz resiste. A fala insiste: quem viver verá."

sexta-feira, 5 de junho de 2015

detalhes de um amigo de fé, irmão camarada



Em 2009, o cantor e compositor Erasmo Carlos, que hoje está fazendo 74 anos, lançou a autobiografia Minha fama de mau. O Tremendão prefere dizer que é um livro de memórias em que evoca histórias divertidas ao longo de sua carreira musical de 50 anos. Dá no mesmo. O livro não tem o apuro literário de um Lira Neto, de um Fernando Morais, de um Ruy Castro, mas é sincero em sua simplicidade de "minha vida é um livro aberto".

O título faz referência a uma das faixas de um dos seus melhores discos, A pescaria, lançado em 1965, vinilzão em que tem participações de Renato e Seus Blues Caps e Lafayete. Nesse disco tem a famosa Festa de arromba e algumas versões de rocks cinquentistas, como de Chuck Berry.

Mesmo que o Tremendão, com sua cabeça de homem e coração de menino, tente não ir fundo nos relatos, sempre tem algo novo para se conhecer de sua trajetória, o seu olhar, o seu ponto de vista sobre pessoas e fatos.

Pelo menos ele teve a franqueza de conversar com os fãs através de um livro, dizendo a verdade com frases abertas, ao contrário do parceiro de tantos caminhos e tantas jornadas, Roberto Carlos, que mandou tocar fogo na sua biografia, escrita por Paulo César de Araújo. Roberto é uma brasa, mora!

rock Tremendão

"Ouço tudo, tudo me chama a atenção. Mas nada nunca mais me tirou do sério. As únicas coisas que me fizeram isso foram 'Rock around the clock', com Bill Haley & his Comets, porque nunca tinha ouvido uma coisa assim, e 'Sgt,. Pepper's', dos Beatles, que mudaram tudo. O resto é evolução do que já existe."

Olha aí o Tremendão Erasmo Carlos falando certo, certíssimo! Desde as despreocupadas tardes de domingo da Jovem Guarda, que o grandalhão roqueiro tijucano diz coisa com coisa, sim.

Erasmo, que faz hoje 74 anos, era o badboy daquela turma, ao contrário do parceiro Roberto, com seu eterno ar de moço bom.

Pose pra capa de disco ou não, Erasmo se manteve autêntico, com boas letras, boas melodias, e sobreviveu ao natural apagão do iê-iê-iê, com bons discos nas décadas de 70 a 90, com um e outro não tão inspirados. Carlos, Erasmo, de 1971 é um álbum essencial, assim como "Banda dos contentes", seis anos depois. São quase 30 discos de 1965, quando lançou o aparentemente ingênuo A pescaria, até esse recente, Rock 'n' roll, lançado em 2009.

Produzido por Liminha e com 12 faixas em parceria com Nelson Motta, Nando Reis e Chico Amaral, o disco não é rigorosamente roquenrou do começo ao fim, como sugere o título. Mas tem nas canções a essência do rock, em sua tempestade e calmaria. Gostei das letras, da criatividade com simplicidade que costuram os versos.

Como ele mesmo confessa na ótima Cover ("eu sou meu cover, cover de mim"), o disco é exatamente autêntico por ser evolução do que existe.

quinta-feira, 4 de junho de 2015

musa underground

- Eve, essa garota é fantástica.
- É Yasmine Hamdan, libanesa.
- Sei que ela será muito famosa.
- Deus, espero que não. Ela é muito boa para isso.

O diálogo é do filme Amantes eternos (Only lovers left alive), de Jim Jarmusch, 2013, quando o personagem de Tom Hiddleston vê e ouve, ao lado de Tilda Swinton, o canto pop árabe de Yasmine, em um pub em Beirute. 

O cineasta dirigiu o clipe e inseriu na sequência final do filme. 

A cantora de 39 anos, casada com ator e diretor Elia Suleiman, mora na França, e suas músicas reescrevem a herança musical árabe, usando vários dialetos de sua língua nativa. 

Com cinco bons discos, Yasmine Hamdam é uma raridade no mundo da música contemporânea, quando a indústria fonográfica costuma corromper e converter valores culturais, em nome de um alcance de popularidade equivocada.

A bela cantora é considerada um ícone da música underground em todo o mundo árabe. Vida eterna para ela, como a dos personagens vampiros do filme de Jarmursh.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

do outro lado da montanha

foto Christian Coiny
"Há uma forma de literatura em que o 'eu' não existe.
Onde estamos mergulhados no desconhecido, do outro lado da montanha.
Gostaríamos de poder voltar para casa e dizer 'eu'. Ou mesmo 'nós', porque uma mulher espera lá, por nós.
Vamos chamá-la de Penélope.

A viagem é longa, talvez sem fim, continuamente perigosa.
Cruzamos com todos os tipos de criaturas. Inclusive sereias.

Vocês reconheceram Ulisses e a Odisseia?

Para voltar para casa Ulisses navega de ilha para ilha, em um mundo perigoso e incerto. 

O preceito de James Joyce para escrever com sucesso foi: 'silêncio', 'exílio' e 'astúcia'.

- E o amor, onde fica?
- O amor não tinha sido inventado ainda."

Philippe Djian, na novela Incidences, 2010, através do personagem Marc.

happy birthday to you, Mrs. Monroe...



Marilyn aos 29 anos faria hoje 89.

48 anos do Sgt. Pimenta


Oitavo disco de estúdio dos Beatles, o lançamento de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band no dia 1º de junho de 1967, estourou de imediato nas paradas de sucesso, como se dizia à época. Esse maravilhoso álbum duplo é considerado uma evolução histórica no progresso da música pop.


Estão lá canções que guardo na minha memória afetiva: With a little help from my friends (gosto da voz de Ringo), Lucy in the sky with diamonds (inigualável a voz de Lennon) Within you without you (etérea a voz de Harrison), Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Paul McCartney é a voz dos Beatles).

Discaço!