segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

"erro de digitação"


A Folha de S. Paulo de hoje, 17/12/2007, segunda-feira, traz um contundente artigo de Paulo Cesar de Araújo sobre a adulteração que os advogados do rei fizeram do conteúdo do livro "Roberto Carlos em detalhes".

Não posso e não devo me calar
Paulo César de Araújo

Foi um "erro de digitação". Essa foi a resposta que o advogado de Roberto Carlos forneceu à Folha ao ser indagado sobre a denúncia de adulteração do conteúdo do livro "Roberto Carlos em Detalhes" na queixa-crime que seu escritório enviou à Justiça contra mim. Recapitulando: no livro, digo que na jovem guarda havia uma "combinação de sexo, garotas e playboys". Pois na página 16 da queixa-crime essa frase é citada com a troca da palavra "garotas" por "drogas" e, em seguida, os advogados escreveram: "(...) e por aí vai o querelante, misturando sexo grupal com homicídio, consumo de drogas com corrupção de menores e bestialismo".

Ressalte-se que não apenas naquele documento como também em entrevistas o advogado Marco Antônio Campos tem atribuído ao livro frases que não escrevi. À revista "Aplauso", por exemplo, ele afirmou que no livro está dito que Roberto "era assíduo freqüentador da cobertura de Carlos Imperial, onde as festinhas eram regadas a todos os tipos de drogas", e que, "uma vez, uma menor foi estuprada e morta numa dessas festas".

Ocorre que o livro não fala em drogas ou homicídios na casa de Imperial e muito menos associa Roberto Carlos a isso. Narra, sim, um escândalo que abalou a jovem guarda em 1966, com Imperial e outros artistas acusados de se envolver com garotas menores. No texto, enfatizo que aquilo não atingiu Roberto Carlos. Qualquer um pode confirmar isso no livro, do fim da página 306 até a página 311. Basta ler!

É lamentável que Roberto Carlos tenha entrado na Justiça sem ao menos ter lido a sua biografia. "Fizemos um resumo para ele", confessa Campos. Se o resumo que o advogado fez ao cantor foi o mesmo que está na queixa-crime e propaga em entrevistas, está finalmente explicado por que Roberto Carlos ficou tão furioso com um livro que engrandece a sua vida e a sua arte. E agora também finalmente sabemos a que ele estava se referindo quando, na primeira manifestação contra o livro, disse em entrevista coletiva que nele haveria "coisas não verdadeiras". Ou seja, diante de toda a imprensa brasileira, um dos maiores artistas do país desqualifica o trabalho de um profissional apenas baseado num resumo adulterado que lhe foi fornecido por colaboradores.

Campos fala agora em "erro de digitação". Roberto Carlos, assim como o presidente Lula, provavelmente vai dizer que nada sabia. E, aí, estamos conversados? Não, não estamos. Como bem afirmou Paulo Coelho meses atrás em artigo aqui mesmo na Folha, o que está em jogo nessa polêmica não é apenas o meu livro, não é apenas o meu caso. É a liberdade de expressão no Brasil, direito adquirido depois de longa luta contra a ditadura. Porque, se valer para outras figuras públicas o que está valendo para Roberto Carlos, ninguém mais poderá escrever a história deste país.

Várias personalidades que já leram "Roberto Carlos em Detalhes", como Caetano Veloso, Nelson Motta e Ruy Castro, declararam que se trata de um livro carinhoso e positivo para o cantor. Em recente entrevista à "Veja", o renomado jurista Saulo Ramos afirmou que o livro "é uma biografia perfeita. Não tem um ataque moral contra o Roberto. Ele me consultou e eu o aconselhei a não tomar nenhuma providência. Recusei a causa, e ele procurou outros advogados".

Será que todas essas pessoas estão erradas e apenas os advogados que o cantor procurou estão certos? É óbvio que esses advogados estão fazendo o papel deles, mas daí a tergiversar no processo, adulterar o conteúdo da obra para induzir a Justiça a erro vai uma grande diferença. E, diante disso, não posso e não devo me calar.

Pois foi baseado no conteúdo dessa queixa-crime que o juiz Tércio Pires, do Fórum Criminal da Barra Funda (SP), julgou que o livro cometia grande ofensa à honra de Roberto Carlos. Acreditando nisso, por duas vezes esse juiz ameaçou mandar fechar a editora Planeta durante aquela fatídica audiência, em 27 de abril. Sentindo-se coagida, a editora decidiu aceitar o acordo, me deixando abandonado. Resultado: o livro foi proibido, 10.700 exemplares do estoque foram apreendidos, e outros tantos, recolhidos das livrarias e entregues a Roberto Carlos para serem destruídos. É uma violência cultural sem precedentes em países sob vigência do Estado democrático de Direito.

Para o cantor, esse imbróglio trouxe desgaste de imagem e nenhum sentido prático, pois o conteúdo do livro está na internet. Além disso, o tempo ficou cada vez menor e até agora ele não conseguiu aprontar um novo álbum ou lançar uma ou duas novas músicas - fato que não acontecia desde que gravou seu primeiro disco, há 48 anos! Portanto, 2007 ficará marcado na história de Roberto Carlos como o ano em que ele não lançou nenhum novo CD, mas, ao contrário, tirou de circulação a sua biografia.

sábado, 15 de dezembro de 2007

o escultor de monumentos

Palácios das Artes, São Paulo. Obra de Oscar Niemeyer. Foto Nelson Kon


"A vida é mais importante que a arquitetura"


"Continuarei trabalhando enquanto viver, porque esse é o meu compromisso com a vida"


"A curva me atraía. A curva livre e sensual que a nova técnica sugeria e as velhas igrejas barrocas lembravam"


"Não acredito em arquitetura social em país capitalista. Nela existe a intenção perversa de amortecer reivindicações"


"Sou pessoa simples, aberta para a vida, apta a aceitar todas as mudanças que os tempos estabelecem"


"Os governantes que me convocaram sabiam da minha posição, pensavam que era equivocada e eu deles pensava o mesmo"


"Como é fácil para nós brasileiros invadir o mundo da imaginação. Nosso passado é modesto e tudo nos permite realizar"


"Não sei por que a minha arquitetura esteve na área dos grandes edifícios públicos. E, como eles nem sempre correspondem a razões sociais justas, tento fazê-los belos. Com isso os mais pobres param ao vê-los. É o que, como arquiteto, lhes posso oferecer"


"A arquitetura é um problema de sensibilidade"


"Tento utilizar minha notoriedade para fazer avançar as idéias"


"Eu faço a arquitetura que me agrada, ligada às minhas raízes e o meu país"


"Fazer arquitetura é criar beleza"


"Na arquitetura, a intuição tem um papel tão fundamental quanto o conhecimento"


"Quando sabemos demais, quando suportamos o peso do passado, somos prisioneiros de uma série de princípios, de apriorismos"


"A imaginação e espontaneidade são para mim a fonte da arquitetura"

"Sou aberto às emoções que vêm de fora, ao espetáculo da beleza: o pôr-do-sol no mar, a floresta tropical úmida e generosa, a luminosidade do céu, as mulheres"

"Hoje, como ontem, preciso trabalhar"

Parabéns, Oscar Niemeyer, pelos seus 100 anos de vida!

domingo, 9 de dezembro de 2007

visões do paraíso


Se Borges imaginava o paraíso como uma livraria (e tomara que seja mesmo!), o nosso grande poeta Murilo Mendes desejava que fosse um museu (tomara que seja também!). Em sua antologia de prosa "Transístor", que reúne textos de 1931 a 1974, o poeta mineiro manifesta sua aspiração de éden e até cita o colega argentino:

"Jorge Luis Borges figura o paraíso sob a forma de uma biblioteca, imagem que eu subscreveria desde início da minha adolescência. Também posso antever qualquer paraíso sob as espécies de um museu; hoje cito a National Gallery que forma com os outros museus e coleções de arte londrinos um espaço de universalidade, uma sucessão serial de paraísos."

Mendes estava em Londres quando escreveu este texto, e faz parte do então inédito "Carta geográfica", em que registra de forma bastante original seus olhares por cidades por onde passava. Estão lá impressões curiosas e únicas sobre Grécia, Salzburgo, Bruxelas, Paris, New York, e outras viagens. Escrito entre 1965 e 1967, "Carta" é uma das grandes obras dentro da antologia "Transístor", que foi editado pela Nova Fronteira em 1980. Não sei se houve uma reedição desse livro indispensável em que mostra a prosa poética de um dos maiores nomes da literatura brasileira.

Voltando ao passeio pelo museu, Mendes fundamenta seus anseios de paraíso:

"Claro que numa cidade interessam-me de perto a rua, a circulação e a parolagem do povo, os costumes, mil aspectos da vida miúda cotidiana. Mas o museu não é para mim coisa de menor interesse, observação e prazer. Sou o passeante moderno dos museus: percorro quilômetros de quadros, estátuas, desenhos, documentos etnográficos, folclóricos; proponho-me ora acavalar, ora distinguir os diversos ciclos de cultura, consultar uma outra versão da história indicada pela diversidade de ambientes, classes, tipos, indumentária, a variedade dos estilos da obra de arte, instintiva, ritual, gratuita, inserida num contexto religioso, econômico, político; totalizando uma informação que nos ilumina os caminhos do tempo, desde as incerteza do começo até a plenitude do dia atual e o pressentimento do futuro."

É muito prazeroso ler um relato que esmiuça tão bem uma maneira de observância do mundo, da vida. E quando Mendes chega diante do que aceitaria de bom grado a imagem do seu lugar de delícias, é primoroso o texto, a leitura, e a nossa condição interativa:

"Mas hoje na National Gallery, deixando de lado tantos inumeráveis prodígios, quero aludir a um só quadro, 'O casamento dos Arnolfini', de Van Eyck, que me transmite em grau máximo a idéia da coisa perfeita, situada no plano de convergência da realidade e do sonho. Admiro não só a grandeza isolada do artista mas ainda o contexto político-econômico-cultural que permitiu a criação desta obra, situada entre um quarto e o cosmo; marcando, com o retábulo do 'Agneau Mystique', um período novo na história da pintura."

Essa famosa obra, um óleo sobre tela do belga Jan Van Eyck, é de 1434. E o que desperta curiosidade, espanto, admiração, tudo de maravilhoso, é o reflexo do espelho ao fundo, entre o casal. Vejam:



Ao longo desse tempo, várias teorias foram apontadas para esse detalhe no quadro. Uma delas - e é a que prefiro - diz que o pintor se retratou na cerimônia. Geovanni Arnolfini, um rico comerciante de uma região da Bélgica, teria casado em segredo com Geovanna, e que poucos testemunharam o acontecimento. Van Eyck seria um dos presentes. Por isso está escrito no quadro, em latim, "van Eyck esteve aqui".

Independente das hipóteses sobre o registro, o interessante nessa obra é o conceito de pespectiva da imagem: o espelho em segundo plano que reflete um outro plano, uma forma de mostrar o que aparentemente está invisível. Obra-prima! Dá para ver o reflexo de olhares profundos como o de Murilo Mendes.

Dedico esta postagem ao amigo Carlos Reichenbach, um admirador do poeta.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

sábado, 1 de dezembro de 2007

detalhes de uma biografia

foto Divulgação

Um amigo de Curitiba me lembra por e-mail que hoje, 1º de dezembro, completa exatamente um ano do lançamento do livro "Roberto Carlos em detalhes" , de Paulo Cesar de Araújo (foto). E, por coincidência, exatamente hoje o cantor grava seu especial de televisão – numa inconsciente comemoração.

Ao longo desses doze meses muito se falou sobre esse livro que se transformou em um dos mais polêmicos da história do Brasil. Alguns artistas e colunistas comentaram a obra, como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Paulo Coelho, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony, Elio Gaspari e Nelson Motta, todos defendendo o livro, indignados com a proibição imposta pelo biografado, o que dá a dimensão do absurdo do caso. Até mesmo o jurista Saulo Ramos, que foi advogado do Rei, definiu o trabalho de Paulo César, em recente entrevista, como uma "biografia perfeita".

Sempre fui admirador de Roberto Carlos, e creio que não existe na música popular brasileira um nome mais significativo, que tenha atravessado quarenta anos fiel a si e a seu público.

O livro de Paulo César de Araújo é uma obra-prima. Sou um leitor compulsivo de biografias. E de todas que li essa foi a mais completa, comovente e de incontestável qualidade literária. Apesar de ser uma biografia não autorizada, não há uma linha sequer que vulgarize fatos, calunie ou atinja a honra do personagem. Foram 15 anos de pesquisa, trabalho e paixão. Divididos em essenciais capítulos, o livro faz entender toda a complexidade do homem simples que se tornou o maior ídolo do país. E exatamente pelo valor da abordagem, "Roberto Carlos em detalhes" é um livro que passa pela história da música brasileira: o rádio, a bossa-nova, o rock, a televisão, e todos os nomes importantes que se entrelaçam nesses gêneros e ciclos.

Mas o Rei emburrou, literalmente. Embruteceu, empacou, amuou-se. Decaiu, retrocedeu, recrudesceu. Equivocado e mal assessorado, moveu ação judicial contra o escritor. Ganhou a causa, e em abril passado a justiça mandou tirar o livro de circulação. Foi estampada nos jornais uma foto de um caminhão recolhendo as caixas com os exemplares que estavam no estoque na Editora Planeta. A cena é repulsiva. O caminhão seguiu para um depósito na cidade de Santo André, São Paulo. Dizem que o Rei mandou queimar os 11 mil exemplares. Ou numa solução mais "leve", reciclados em toneladas de papel. Uma coisa ou outra, procuro agora um adjetivo maior que "repulsivo", que escrevi acima. É uma contradição para quem ao longo da carreira cantou o amor, a paz e a tolerância. Apesar de toda a repercussão negativa do episódio, o livro é um best-seller, e virou raridade. Graças à internet, está disponível em download em alguns blogues indignados. Isso o Rei não conseguiu impedir com sua atitude inquisitória.

Paulo César Araújo disse que apesar do ocorrido não nutre ressentimentos pelo cantor, e crê que a questão passa pela legislação brasileira. Tudo bem, é muito nobre de sua parte, caro Paulo César, mas desde a sentença que não consigo escutar Roberto Carlos. Fico com o livro.

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

o brilho de uma atriz


Numa cena de "Chega de saudade", longa de Lais Bodanzky exibido no 40º Festival de Brasília, o personagem de Leonardo Villar lembra de sua falecida esposa, ainda presente em sua vida. A cena é rápida, a imagem da mulher aparece em primeiríssimo plano, tonalidade escurecida, e suficientemente forte, marcante. Lembrei-me de algum filme de Ingmar Bergman, pelo clima e dramaticidade da aparição da personagem.

O comovente para mim foi rever a atriz Selma Egrei no papel da falecida. Devo ter assistido a quase todos os seus filmes. E uma imagem sua que sempre me vem à cabeça é a do cartaz acima, de "O desejo", dirigido por Walter Hugo Khouri, que não à toa era chamado de "Bergman dos trópicos", pelos seus temas introspectivos e dissecador dos conflitos humanos. Nesse filme de 1975, o marido quarentão (Fernando Amaral) morre e sua mulher (Lilian Lemertz, outra grande atriz) e uma amiga (Selma) relembram-se do personagem. Tudo se passa na densidade de um apartamento, com todas as angústias a que elas se acham com o direito.

A atriz paulistana trabalhou com os mais variados diretores do cinema brasileiro na década de 70, principalmente no período da chamada pornochanchada. Belíssima, de rosto enigmático, Selma viveu seus personagens com a força determinante de uma grande intérprete.

Nos últimos dez anos ela tem se dedicado muito ao teatro. Antes de começar no cinema, se não me engano em "Cordélia, Cordélia", de Rodolfo Nanni, em 1971, e nesse mesmo ano, "Paraíso perdido", de Carlos Reichenbach, formou-se na Escola de Arte Dramática de São Paulo.


No começo deste ano atuou de forma brilhante na peça "O relato íntimo de Madame Shakespeare" (foto, contracenando com Maria Manoela), um belo texto de Robert Nye, adaptado e dirigido por Emilio De Biasi. Só li elogios à atuação de Selma Egrei, que entrou na produção substituindo Norma Bengell.

Vi agora na ficha de "O signo da cidade", novo filme digirido por Carlos Alberto Riccelli, o nome de Selma Egrei no elenco. Deve ser um trabalho depois de "Chega de saudade", e espero com um papel maior. Mas se for uma rápida aparição também será ótimo vê-la mais uma vez, afinal estrelas têm pontas.

O filme do Riccelli será apresentado no 9º Festival Internacional de Cinema de Brasília, que começa hoje.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

na contradança da premiação

Maria Flor e Stepan Nercessian em "Chega de saudade", de Lais Bordanzky. Foto Beatriz Lefévre

Uma das características dos filmes do cineasta italiano Damiano Damiani, principalmente os da década de 60, são os finais surpreendentes e desconcertantes. Até fiz essa referência ao belo filme de Carlos Reichenbach, "Falsa loura", que concorreu no 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

Agora aplico essa comparação, de forma adversa, ao resultado do Festival de Brasília. Que premiação mais surpreendente e desconcertante, para não dizer decepcionante, principalmente na categoria de longa-metragem!

Premiar "Cleópatra", de Júlio Bressane, com seis candangos, entre eles, o de melhor filme, é subestimar demais filmes impactantes como "Falsa loura" e "Chega de saudade", de Lais Bodanzky, que pelo menos recebeu melhor direção, roteiro e júri popular. Mas ter que engolir Alessandra Negrini como melhor atriz desse festival, quando todo o elenco feminino (Beth Farias, Maria Flor, Conceição Senna, Cássia Kiss, Tônia Carrero, Marly Marley, Miriam Mehler, Clarisse Abujamra) do filme da Lais merecia o prêmio! Ou até mesmo as atrizes que de maneira coesa e apaixonante fazem as operárias em "Falsa loura". Djin Sganzerla foi justamente gratificada com a estatueta de atriz coadjuvante por sua brilhante atuação no filme do Carlão. Mas foi a única premiação! E outras categorias relevantes que estão lá no filme, como a fotografia de Jacob Solitrenik? De novo Walter Carvalho, premiado agora com "Cleópatra"! Antes fosse por "Chega de saudade", pelo qual também concorria.

Um dos atores mais injustiçados nessa esdrúxula premiação foi Stepan Nercessian, que juntamente com o veterano Leonardo Villar mereciam ser reconhecidos nas categorias de melhor ator. O filme de Lais Bodanzky tem um grande elenco, não há um personagem principal, todos têm atuações marcantes com seus papéis. Seria o caso de premiar coletivamente as categorias ator e atriz. Mas o júri é soberano, como se diz, e achou que Eucir de Souza e Milhen Cortaz se destacaram mais no filme de José Eduardo Belmonte, "Meu mundo em perigo", respectivamente como melhor ator e coadjuvante.

A direção de arte, o som e a trilha sonora dos filmes do Carlão e da Lais Bodanzky são bem melhores do que os de "Cleópatra", que ganhou nas três categorias.

A montagem de Paulo Sacramento em "Chega de saudade" foi outra injustiça. Não se compara ao trabalho técnico de Ricardo Miranda no documentário "Anabasys", de Paloma Rocha e Joel Pizzini. Sacramento editou com perfeição um filme difícil pelo grande número de músicas e personagens que se entrelaçam.

Nos filmes de curtas-metragens pelo menos reconheceram a qualidade de "Trópico das cabras", de Fernando Coimbra, que recebeu os Candangos de melhor filme, melhor atriz (Larissa Salgado) e fotografia (Lula Carvalho). Não seria demais ganhar ainda em roteiro e direção, que foram para os pernambucanos Camilo Cavalcanti, por "O presidente dos Estados Unidos", e o Leonardo Lacca, que dirigiu "Décimo segundo".

Numa das falas de Júlio César, na pele de Miguel Falabella no filme de Bressane, ele diz que "uma coisa é ser amado, outra é ser o amado". Se o júri escolheu "Cleópatra" como o amado por eles nessa 40ª edição do Festival de Brasília, vamos respeitar, o que não significa concordar. Pelo menos o público presente ontem na Sala Villa-Lobos que vaiou longa e duramente o anúncio da premiação final não concorda.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

idéias curtas


Não faço a menor ideía de qual será o resultado hoje do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Parafraseando os comentaristas de futebol, cabeça de júri é uma caixinha de surpresa.

Desde que acompanho o festival brasiliense esta foi a pior safra em filmes curtas-metragens 35mm. Os rodados em 16mm há muito tempo deixei de assisti-los, não somente pelo horário em que são apresentados, deslocados do cine Brasília e com sessões vespertinas, quanto pela qualidade artística dos trabalhos igualmente deslocada. Aliás, por que ainda se filma em 16mm?! Ou se faz logo em digital ou em 35. Uma opção estética?

Voltando aos curtas deste certame. Lamentável a escolha do júri de seleção, quando se sabe de tantos outros filmes que ficaram de fora, e comprovadamente melhores, como bem atesta a Mostra Brasília, programação do festival onde são apresentados os filmes inscritos, curtas e longas, que ficaram de fora da competição, e acontece sempre nas tardes de sábado e domingo. Concorrem apenas ao Prêmio da Câmara Legislativa. Curtas como “Dia de visita”, de André Luiz da Cunha, “Dona Custódia”, de Adriana Vasconcelos, e "Cinema engenho", de Dácia Ibiapina, são de longe bem melhores dos que esses filmes da mostra oficial.

Na quinta-feira vaiaram um filme de Pernambuco, “Décimo segundo”, dirigido por Leonardo Lacca. Tudo bem, o filme aparentemente tem um fiapo de roteiro, e numa leitura apressada vem do nada e segue para lugar nenhum, mas não é nada disso, e há na gênese desse trabalho uma linguagem de cinema, um plano-seqüência muito bem definido, com silêncios muito bem construídos, e a presença do sempre ótimo Irandhir Santos, ator que ganhou o prêmio de co-adjuvante ano passado com “Baixio das bestas”, de Cláudio Assis, fez no início deste ano o Quaderna na minissérie “Pedra do reino”, de Luiz Fernando Carvalho. Irandhir tem presença marcante noutro filme, o quase bom “Amigos de risco”, de Daniel Bandeira, longa que abriu o festival.

Outro curta que foi recebido com frieza foi “Um ridículo em Amsterdã”, produção paulista, de Diego Gozze, um exercício de metalinguagem. A proposta é interessante, há momentos em que o diretor consegue confundir a platéia apresentando um falso documentário dentro do filme, o ator principal convence. E mesmo apontando uma e outra falhas, "Amsterdã" e "Décimo" ainda são melhores do que o irregular documentário “Tarabatara”, da paulista Júlia Zakia, sobre um acampamento de ciganos no sertão de Alagoas, ou o pretencioso “Enciclopédia do inusitado e do irracional”, (DF), de Cibele Amaral. Ou a demonstração inequívoca de não-cinema, "Eu personagem", (DF), de Zepedro Gollo, exibido ontem.

Um curta do festival que merece atenção é “Trópico das cabras”, do cineasta paulista Fernando Coimbra. Ali, sim, há um diálogo profundo com o cinema. Ali o cinema acontece. Ali tem um diretor por trás da câmera. Planos belíssimos, com um silêncio dos filmes de Antonioni. A imagem fala no enquadramento preciso, no desfoque terminante, na ausência de falas. Um roteiro simples e sincero para um tema ousado, com a magnitude do cinema na sua raiz. E uma atriz de estranha beleza, que tem um rosto de personagem grega que se imprime nas retinas até dos menos atentos, a brasiliense Larissa Salgado. A fotografia tátil de Lula Carvalho é outro destaque nessa obra-prima em curta-metragem.

Então, vejamos hoje à noite o que o júri pensa sobre cinema.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

quando a vida não imita a arte

André Luiz da Cunha, nas filmagens de "Dia de visita". Foto Start Filmes

Parecia tudo certo para o grande dia. A dona-de-casa Sônia de Sousa Faustino, 56 anos, tinha comprado o vestido para ir ao Cine Brasília ontem à tarde. Iria conferir a estréia do documentário "Dia de visita", que reconta em 25 minutos os últimos 15 anos de sua vida, dedicados a atender e evangelizar os presos da penitenciária Papuda. Mas Sônia nem chegou a estrear o vestido. Na tarde de sábado, foi atropelada e morta na calçada de sua casa, em Ceilândia, cidade-satélite do Distrito Federal.

O mais grave no caso é que não foi um acidente. Welerson Sousa, condenado por homicídios e roubos e em regime de condicional, também morador de Ceilândia, atropelou Sônia, quando na verdade tinha intenção de matar o filho dela, Pedro, que lhe devia uns meses de aluguel da casa onde morava com a mãe.

Dirigido pelo cineasta brasiliense André Luis da Cunha o documentário conta a história de Sônia e sua dedicação aos presos. Ela começou a trabalhar como voluntária na penitenciária Papuda em 1992, quando o filho Pedro foi condenado a 12 anos por participar de um latrocínio. Sônia começou a visitar, além do filho, outros presos. Passou a ser uma mãe para todos.

Ontem o público que acompanha o 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro chegou cedo e formou grandes filas no cine, onde as pessoas disputavam espaço no chão. A Mostra Brasília acontece todos os anos, aos sábados e domingos à tarde. Filmes da cidade que não são selecionados para a mostra competitiva integram a programação.

Ao apresentar o seu filme, André, muito triste e com voz embargada, anunciou que o documentário, um pouco longo, não poderia ser menor, por tratar de uma pessoa grandiosa.

fonte Correio Braziliense

sábado, 24 de novembro de 2007

olhos livres

foto Dezenove Som e Imagem

Carlos Reichenbach está redescobrindo o cinema. Viva a internet! Viva o cinema livre, que ele baixa em seu computador! Um trabalho de prospecção, atrás de pepitas esquecidas pelo cinemão comercial, relegadas ao culto de pequenos grupos. “Minha visão de cinema, aos 62 anos, mudou.” O popular Carlão é filho e neto de editores. Sempre teve livros ao alcance da mão. Assim forjou sua cultura. Alimentou-se de ideário anarquista na juventude, pensadores como o revolucionário Sergei Nechaiev. “A noção de propriedade é nefasta”, discursa. “Propriedade autoral, então, não existe. Uma vez que um filme ou obra de arte foi mostrado ao público, é público. Não há por que impedir o acesso de filmes pela internet, filmes que já esgotaram sua vida comercial.”

Enquanto Reichenbach conversa na sala, seu computador fica ligado, baixando "Hienas", filme do senegalês Djibril Diop Mambéty. Está redescobrindo o cinema, em particular o africano e o italiano dos anos 1960, 1970. Encontra-se mergulhado na cinematografia de Damiano Damiani, autor de "Só resta esquecer" e "Confissões de um comissário de polícia ao procurador geral da república" (ambos de 1971). “Ele foi o cineasta dos finais desconcertantes. Qualquer pessoa incomodada com o poder, naquele tempo de regime militar, saía do cinema com a cabeça modificada. Era dinamite pura”, atesta, brilhando os olhos de subversão. “E cadê esse cinema hoje?”, provoca.

Cadê, Carlão? Não está no chamado “cinema de arte”, que chega chancelado pelos principais festivais europeus. Autores como Wong Kar-Wai, Michael Haneke e Lars Von Trier são dispensados num aceno de mão. “Isso é perfumaria, cinema de fetiche.” Está mais interessado nos filmes pequenos, no cinema de gênero e na tevê norte-americana, onde vê espaço para roteiros e idéias livres.


Trecho de uma ótima entrevista que o ótimo jornalista Bernardo Scartezini fez com o grande cineasta Carlos Reichenbach, no Correio Braziliense de hoje. Sou empolgado com esses dois caras. O primeiro escreve de uma maneira como pouco se vê no jornalismo brasileiro, tem um texto criativo, foge da mesmice que predomina nas páginas dos cadernos de culturas. O segundo é um poeta da imagem, um dissecador da alma, o mais sensível dos diretores de cinema no Brasil, além de um conhecedor profundo da cinematografia mundial, em particular um admirador do neo-realismo italiano - o que me faz ficar mais empolgado com o Carlão. Conversar com ele sobre cinema é tão prazeroso quando assistir aos seus filmes. Carlão é uma dessas pessoas que nos faz acreditar que a humanidade tem jeito.

Seu novo filme, "Falsa loura", concorre hoje no 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

intuito da curiosidade

foto Divulgação

"Minha curiosidade é ver os filmes em competição. Não me sinto em posição diferente ou melhor em relação a ninguém. São pessoas empenhadas em fazer cinema. Conheço o perfil dessas produções, já que todas carregam a marca de seus realizadores. Vou com o intuito da curiosidade."

Do cineasta Júlio Bressane, que apresenta hoje no 40º Festival de Brasília o seu novo filme, "Cleópatra", uma curiosa versão sobre a rainha grega do Egito. No papel principal, Alessandra Negrini. Em se tratando de Bressane, com seu cinema autoral, não haverá concessão da parte dele, nem unanimidade da platéia.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

o momento de um filme

foto Divulgação

“Cada momento de um filme tem de ser o mais verdadeiro e autêntico do mundo. O momento vai acontecendo, você não o constrói. Falo aqui contigo e não sei o que vai acontecer, vai acontecendo, às vezes titubeio, às vezes não sei o que estou falando, às vezes dá um branco... A vida é um pouco assim. E é esse fluxo que dá humanidade ao filme. Se você está no fluxo, se está dentro da essência, nada vai estar errado. Pode estar chovendo ou não, o ator pode estar com vontade de rir ou não, porque não importa, a essência da cena estará preservada. É isso que vai dar a dinâmica, a naturalidade. É um risco. Às vezes, não dá certo. Mas é maravilhoso quando dá certo.”

José Eduardo Belmonte, cineasta brasiliense que está na mostra competitiva do 40º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Seu terceiro longa-metragem, "Meu mundo em perigo" será exibido hoje.

terça-feira, 20 de novembro de 2007

alma das cores

"Voe", acrílico sobre tela

O artista plástico cearense Dim está com um novo site. Simples, bonito e prático, a página tem as cores e a alma do seu belo trabalho. Imagens de peças, quadros, depoimentos e reproduções de matérias de jornais, apresentam a vida desse artista que tem como um de suas principais características, a criação de peças inspiradas em brinquedos.

Tive a honra de dirigir um documentário sobre sua trajetória artística, registrando o desenvolvimento do seu processo criativo e abordando sua infância e adolescência na cidade de Camocim, a 400 quilômetros de Fortaleza. O filme, um curta-metragem captado em suporte digital, está em fase de finalização, e será transferido para película 35mm.

Em dezembro Dim fará uma exposição em Brasília com seus trabalhos mais recentes.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

a Terra em 2054

"Cansado dos repetitivos temas abordados em produções cinematográficas cearenses, como seca, pobreza, política e cangaço, o diretor Daniel Abreu estréia, em dezembro, o primeiro longa-metragem de ficção científica do Ceará, intitulado de 'Centopeia'.

O filme conta, através do olhar de um fazendeiro e uma astronauta, a história do evento de extinção mais severo que ocorrerá na Terra em 2054, que resultará na morte de aproximadamente 97% de todas as espécies do planeta. A extinção provocará uma mudança drástica em toda a fauna e marcará o início da segunda fase de evolução do ser humano."

Trecho da matéria no jornal O Povo, de Fortaleza, na edição de hoje. Texto completo aqui.

domingo, 4 de novembro de 2007

domingo, 28 de outubro de 2007

Binoche sem proibições


"Eu fui convencida por uma jovem equipe que quer mudar a 'Playboy' como falar do corpo de uma maneira diferente, em lhe dar alma. Nós temos uma tendência de separar o corpo do espírito, o corpo das emoções. Nós colocamos o prazer à parte. De certa maneira, reivindicar este tipo de corpo na páginas da revista é um ato militante".


Esse tipo de justificativa sempre aparece quando uma personalidade é convidada e aceita posar nua para uma revista. Trocando um e outro termos, a conversa é a mesma. O que acredito mesmo é que pesou a contrapropo$$$ta da editora. Ou uma vaidade natural de quem se despe. Ou as duas razões ao mesmo tempo ali e agora. Lembro-me de uma entrevista da cantora Marina Lima no programa da Marília Gabriela dizendo que tirou a roupa para Playboy, em 1999, aos 44 anos, não somente pela grana, mas para dar uma melhorada na sua auto-estima.

E com um aninho a menos do que nossa fullgás cantora à época, a atriz francesa Juliette Binoche, estará desfeita de qualquer tipo de figurino nas páginas da edição francesa da Playboy. A revista chega às bancas (de lá!) na próxima terça-feira. Soube por um amigo que há muita gente reservando um exemplar, mas, com certeza, sem o alvoroço que aconteceu recentemente numa banca do Congresso Nacional (brasileiro!), quando os marmanjos engravatados estavam curiosos para ver as curvas que só o Renan Calheiros conhecia.

Mas estamos falando de Juliette Binoche, uma das melhores atrizes no cinema contemporâneo, que fez o depoimento acima. São outras curvas, são outras poses, serão outros olhares sobre as fotos. Ela tem seu encanto, tem uma beleza secreta, uma lânguida sensualidade. Desperta curiosidade vê-la como não se viu nos filmes e compartilhar desse "ato militante" que ela propõe...

sábado, 27 de outubro de 2007

último apelo



Reproduzo a carta aberta do cineasta paraibano Lúcio Vilar:

"Sou diretor do documentário (em digital) 'O menino e a bagaceira', vencedor de mais de uma dezena de prêmios nos mais importantes festivais de cinema e vídeo do país, e que resgatou do limbo e do esquecimento o ator Sávio Rolim, intérprete do personagem 'Carlinhos' no antológico filme 'Menino de Engenho' (Walter Lima Jr.), rodado na Paraíba em 1965.

Pois bem, ano passado ganhamos dois troféus Calungas no CinePE, com prêmio em serviço da Link Digital de 15 minutos de Transfer, um sonho que já alimentávamos desde o início da estréia do doc. Hoje, corremos o risco de o prêmio 'caducar' e perdermos a possibilidade de o Transfer ser realizado por não dispormos de cerca de pouco mais de R$ 15.000,00 para as despesas com as fases do processo que são terceirizadas pela Link, que por sua vez já teve a generosidade de prorrogar a validade do prêmio até esse mês de outubro que caminha para seu fim.

Conclamo laboratórios e empresas da área que tenham interesse em se associar como co-produtores dessa empreitada (afinal, falta tão pouco em relação ao custo global de um Transfer) a abraçarem a causa que, em sua essência, trata da memória do cinema brasileiro e que continua na ordem do dia.

Atenciosamente,
Lúcio Vilar
Meus contatos (83) 3216-7144/3224 -4136/88522938
Acima, os atores Margarida Cardoso e Sávio Rolim, numa das cenas mais marcantes do filme "Menino de engenho", e Sávio Rolim em foto do ano passado publicada no portal Paraíba.com, quando noticiava o seu desaparecimento da pensão onde morava.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

o resto é silêncio

Paulo Autran ( 1922 - 2007)

"HAMLET: Morro, Horácio; o veneno me domina já quase todo o espírito; não posso viver para saber o que nos chega da Inglaterra. Contudo, profetizo que há de ser escolhido Fortimbras. Meu voto moribundo é também dele. Dize-lhe isso e lhe conta mais ou menos quanto ora aconteceu... O resto é silêncio.

(Morre.)

HORÁCIO: Um nobre coração que assim se parte. Boa noite, meu bom príncipe. Que os anjos com seu
canto ao repouso te acompanhem. E esse tambor agora?"

Trecho da Cena II, Ato Quinto, de "Hamlet," de William Shakespeare.
O príncipe dinamarquês foi um dos poucos personagens do dramaturgo inglês que o nosso grande Paulo Autran não interpretou. Mas são inesquecíveis suas atuações vivendo "Rei Lear" e "Otelo", assim como o grande Harpagon de "O avarento", de Molière, sua despedida nos palcos.
Inesquecível também o dr. Porfírio Diaz, o líder de direita que ele interpretou no filme "Terra em transe", de Glauber Rocha, em 1967. Sua última participação no cinema foi em "O passado", novo filme de Hector Babenco, que será lançado na próxima semana.
Paulo Autran não fez Hamlet, assim como não fez Romeu. Mas era um ator tão completo que parecia incorporar em si todos esses grandes personagens.

domingo, 7 de outubro de 2007

o dono da voz


Até quem sabe a voz do dono
Gostava do dono da voz
Casal igual a nós, de entrega e de abandono
De guerra e paz, contras e prós
Fizeram bodas de acetato - de fato
Assim como os nossos avós
O dono prensa a voz, a voz resulta um prato
Que gira para todos nós
O dono andava com outras doses
A voz era de um dono só
Deus deu ao dono os dentes
Deus deu ao dono as nozes
Às vozes Deus só deu seu dó
Porém a voz ficou cansada após
Cem anos fazendo a santa
Sonhou se desatar de tantos nós
Nas cordas de outra garganta
A louca escorregava nos lençóis
Chegou a sonhar amantes
E, rouca, regalar os seus bemóis
Em troca de alguns brilhantes
Enfim a voz firmou contrato
E foi morar com novo algoz
Queria se prensar, queria ser um prato
Girar e se esquecer, veloz
Foi revelada na assembléia - atéia
Aquela situação atroz
A voz foi infiel, trocando de traquéia
E o dono foi perdendo a voz
E o dono foi perdendo a linha que tinha
E foi perdendo a luz e além
E disse: minha voz, se vós não sereis minha
Vós não sereis de mais ninguém.


Em 1980, sucessivos desentendimentos com a gravadora Ariola fizeram Chico Buarque buscar outro selo, a Polygram. O compositor, no entanto, se viu meio encrencado no último dia de gravação de seu novo disco: a Ariola fora vendida exatamente para a nova gravadora de Chico. A confusão deu origem à bem-humorada canção "A voz do dono e o dono da voz", última faixa do lado A do lp "Almanaque", de 1982.

O bolachão é um dos melhores de Chico na década de 80. Ganhei de presente de minha irmã e não parava de ouvir. Tem lá "Vitrines", "Ela é dançarina", "O meu guri", "Tanto amar"... A criação da capa, contra-capa e encarte do disco, assinada por Elifas Andreato, já é uma obra-prima à parte: desenhos, ilustrações que remetem aos velhos almanaques em forma de livrinhos que tratavam de vários assuntos, como datas festivas, feriados, luas, eclipses, horóscopo, pensamentos, trechos de literatura, poesias, anedotas, charadas, palavras cruzadas, e coisas como datas certas para o plantio.

Indicações úteis ou não, foi na capa do lp que descobri, numa reprodução de calendário, que nasci no dia São Faustino, e que a representação do meu signo, Aquário, a de um jovem com uma ânfora, é a figura de Ganímedes, um príncipe de tal perfeição e beleza que mereceu a atenção dos imortais. Poxa! Era agrado demais.

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

carta de intenção

foto KinoOtok

"O roteiro me ajuda a buscar o significado da cena. Mas, na hora em que encontro o significado, vira uma carta de intenção que ofereço à equipe para todo mundo falar a mesma língua. Porque senão fica muita abstração e não consigo trabalhar com esse nível de abstração: de filmar no papel e impor uma verdade no set. Faço filme com a equipe, com o elenco."


(Beto Brant, diretor de "Matadores", "Ação entre amigos", "O invasor", "Crime delicado" e "Cão sem dono")

terça-feira, 2 de outubro de 2007

dança comigo?

foto Miramax/Divulgação

Um homem entediado se inscreve em um curso de dança de salão, após se encantar com uma professora. Não dá mais pra ficar entediado dançando com Jennifer Lopez um tango eletrônico do Gotan Project ... A cena é do filme "Dança comigo?" (Shall we dance?), do americano Peter Chelsom, de 2004, refilmagem de uma produção japonesa com o mesmo título, dirigida por Masayuki Suo, em 1996.

sexta-feira, 28 de setembro de 2007

tantos hermanos

Luciano Supervielle e os músicos do Bajofondo Tango Club. Foto Divulgação

De uns três anos pra cá venho ouvindo uns discos que não me cansam. Pelo contrário, quanto mais ouço mais neles me hospedo. Uma dessas moradas é o cd, aliás, os dois álbuns do grupo franco-argentino Gotan Project, "La revancha del tango" e "Lunatico". Em junho passado eles estiveram aqui em Brasília, e ao ar livre na Concha Acústica, fizeram um show inesquecível para um público imenso e hipnotizado com a mistura do tango com o eletrônico.

Ontem foi a vez do grupo uruguaio Bajofondo Tango Club, encerrando a programação do Mercosul Musical, um bem bolado projeto do cantor e compositor Paulinho Moska, patrocinado pelo Centro Cultural Banco do Brasil. O show, dividido com o excelente músico gaúcho Vitor Ramil, é anunciado com o nome do pianista Luciano Supervielle. Mas é o Bajofondo, pois estão lá no palco o contra-baixista Gabriel Casacuberta, o exímio Martin Ferres no seu bandoneon, e o argentino Javier Luis Casalla vibrando no violino. O Bajofondo, segue a mesma linha do Gotan, assim como o portenho Tanghetto, grupos que estão colocando o tango no século 21 de uma maneira alegre e inovadora.

Supervielle tem 31 anos, e no Bajofondo, além de arranjador, é autor de quase todas as composições. Um DJ que com seus scratches sabe muito bem misturar os estilos dançantes do hip hop e a ancestralidade dramática do tango. Um bom exemplo é faixa "Miles de Pasajeros", do cd "Supervielle.

Sobre o show, é um desses para se ver e rever. O idealizador e mestre de cerimônia Moska, com sua simpatia e voz afinada, abre o show cantando "Elegia", música de Péricles Cavalcanti com letra de Augusto de Campos, que ficou conhecida na interpretação de Caetano Veloso. Mas o grande momento de Moska no palco é a sua versão de "Carlos Gardel", de David Nasser e Herivelto Martins imortalizada na voz de Nelson Gonçalves. E isso com o arranjo de Luciano Supervielle!

foto Ana Ruth

Vitor Ramil é uma das raridades da música brasileira. Sempre lembrado como o irmão da dupla Kleiton & Kledir ("deu pra ti / baixo astral / vou pra Porto Alegre, tchau!"). Mas o cara tá muito mais além dessa relação consaguínea. Não exatamente melhor que os irmãos. É diferente. Seus discos merecem uma melhor divulgação. No começo dos anos 80, Gal Costa em seu lp "Fantasia" gravou a lindíssima "Estrela, estrela". Última faixa do lado B. E estourou nas paradas, como se dizia. E Vitor Ramil começou a aparecer. Contando já são sete bons discos, oito com o lançado neste ano, "Satolep Sambatown", um álbum duo com percussionista (ou pandeirista?) Marcos Suzano, que também está brilhando nesse show mercosul. Ramil é tão bom músico quanto escritor. Vale uma olhada no site dele pra se inteirar das coisas sem haver engano. Livros, textos esparsos, prefácios - a literatura de um músico.

Luciano Supervielle, Vitor Ramil, Paulinho Moska, Marcos Suzano... Jorge Drexler e Arnaldo Antunes, Kevin Johansen e Paula Toller, Pedro Aznar e Celso Fonseca, todos esses que estiveram nas semanas anteriores por aqui, provam a riqueza musical de nossa música latina. Nosotros brasileños nos distanciamos por causa da língua portuguesa, mas a alma é uma só nessa diversidade de ritmos no sul das Américas.

quinta-feira, 27 de setembro de 2007

domingo, 23 de setembro de 2007

o canto de Madeleine Peyroux

foto Cole Thompson

Não adianta, por mais que se esforce em evitar a comparação, o timbre de voz da cantora franco-americana Madeleine Peyroux lembra muito Billie Holiday. Se alguém passasse por uma loja e ouvisse o cd "Dreamland", com certeza acharia que se tratasse de um álbum inédito da diva do jazz. Nesse primeiro disco, de 1996, Madeleine parece reencarnar Billie, da primeira à última das doze faixas. É um disco cool, e mesmo recheado de canções antigas, há um jeito novo de interpretar vários standarts do blues, do jazz e também do country.

Madeleine Peyroux sumiu por quase dez anos, e em 2004 lançou igualmente ótimo "Careless love". Em algumas faixas dá para esquecer a semelhança com Billie, e ver que sua voz marcante na combinação da modernidade e clássicos da canção mundial, faz de Madeleine uma cantora única, sem malabarismos vocais.

E é exatamente esse seu estilo low profile que não combina em shows para grandes platéias, embora ela mereça a audição e aplausos de muitos. Assisti ao seu show ontem, sábado, no Centro de Convenções em Brasília, numa sala de concerto com capacidade para mil pessoas. Lotado! Um show inesquecível, raro, mas que ganharia um perfil mais perfect world (parafraseando o título do seu terceiro disco, do ano passado) se fosse apresentado numa sala menor, onde o público ficasse mais próximo. O jazz e jeito de Madeleine cantar combinam mais com espaços aconchegantes.

O show teve como base esse seu último disco, que tem uma ótima versão de "The heart of saturday night", de Tom Waits, e uma mais ainda original interpretação de "Everybody's talkin", conhecida na voz de Harry Nilson, na trilha do filme "Perdidos na noite" (Midnight cowboy ), de 1969, dirigido por John Schlesinger. Madeleine canta ainda "Smile", que Charles Chaplin compôs para seu filme "Tempos modernos" (Modern times), em 1936.

Pena que não incluiu nada de disco "Got you on my mind", que gravou em 2004 com o gaitista de blues William Galison. Fica para o próximo show, num cantinho mais apropriado.

sábado, 22 de setembro de 2007

olhos de artista

Rodin fotografado por Robert Descharmes

"É só uma questão de ver. Não há dúvida de que, copiando, um homem medíocre jamais fará uma obra de arte - é que, na realidade, ele olha sem ver. Apesar de notar cada detalhe minuciosamente, o resultado será monótono e sem caráter. A profissão de artista, porém, não é para os medíocres, e mesmo os melhores conselhos não lhes dariam talento.O artista, ao contrário, - o que quer dizer que seu olho, enxertado em seu coração, lê em profundidade no seio da Natureza.
Eis porque o artista deveria acreditar apenas em seus olhos."

Sábias palavras do escultor francês Auguste Rodin (1870-1917), no indispensável "A arte", livro em que ele conversa com o crítico e artista plástico Paul Gsell, publicado pela Nova Fronteira, em 1990.

Dedico esse belo texto ao artista plástico Dim, que foi tema do documentário que dirigi recentemente. Estivemos juntos durante esta semana aqui em Brasília, para viabilizar a finalização do filme, e como sempre, o convívio com ele é inquietamente empolgante. Impossível não sentir a pulsação da vida, da alegria, e do eterno menino estando ao seu lado.

Dim pegou o livro de Rodin na minha estante e leu com a intimidade de quem encontra habitantes da sua cidade, amigos na mesma viagem, seres do mesmo planeta.

Dim acredita apenas em seus olhos.

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

brincadeira da vida

cena do documentário "Dim". Foto Rubens Venancio

"A brincadeira sempre foi minha inspiração, nunca deixei de brincar, sou ainda menino que tudo observa com admiração. Canalizo este brincar e observar em meu trabalho, e a brincadeira da vida se estende nele. O mais sério da vida é o brincar, levar a vida a sério é considerar seriamente que o objetivo maior da vida é a felicidade. Se com meus brinquedos as crianças aprendem isso, então aprendem a projetar seriamente o que realmente importa. O espaço público é lugar que possibilita convivialidade, fundamental à saúde emocional de crianças e adultos. Para existir é necessário que o poder público faça seu papel na criação e manutenção de equipamentos e as populações façam a sua parte com o zelo, o sentimento de pertencimento e a disposição do conviver. "

Trecho da entrevista com o artista plástico Dim, no suplemento semanal People, do jornal O Povo, de Fortaleza. Fala do seu trabalho e do documentário que terminamos de realizar.

sábado, 15 de setembro de 2007

corte final

Rui Ferreira, Nirton Venancio e Dim. Foto Ricardo Baptista / Cabessa Imagens

Há uma semana terminanos de montar o documentário "Dim". De lá pra cá vejo, revejo o filme. O que faltou? O que poderia ter melhorado?

O primeiro a ser convidado a assistir a essa primeiríssima cópia foi o próprio Dim, claro. Ansiosismo, e com todo o direito. E eu, apreensivo, com os meus motivos. É meu primeiro documentário, depois de dirigir somente ficção e alguns ensaios em super-8 lá nos anos 80. E o assunto do filme é sobre o trabalho artístico e a vida de um amigo. Quem pensa que por existir a amizade fica mais fácil o desenrolar nas filmagens, está enganado. Há momentos que é preciso um distanciamento estratégico. Flagrar o personagem como se o visor da câmera fosse o buraco de uma fechadura, onde se pudesse espreitar a intimidade de quem já se conhece - e que o outro não perceba isso.

Bem, o filme está lata. Ou melhor, na fita digital. Falta passar para o 35mm, fazer a novidade do transfer. Outra etapa, correria enquanto se inscreve o filme nos próximos festivais.

Ah! o Dim gostou do filme, sim! Depois da primeira visão, um silêncio, um estranhamento. Disse ele que foi difícil assistir ao filme ao lado do diretor e do montador. Mais tarde, viu sozinho, com a mulher Ângela, e derramou-se em recompensada alegria e saudável vaidade. Perdeu a conta das vezes que reviu o filme. Que se reviu. E a cada vez, novas leituras, novas descobertas.

E o que faltou e o que poderia ser melhorado dá sempre um outro filme. Um filme não esgota a história de um homem.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Mário Carneiro

foto Divulgação

Nesta segunda-feira, quando finalizo a edição do documentário "Dim", recebo a notícia da morte de Mário Carneiro, um dos nossos maiores fotógrafos de cinema.

As artes brasileiras ficaram um pouco menores na noite de ontem com o falecimento de Mário, aos 77 anos, de câncer. Foi um mestre da imagem: além de fotógrafo (destaco entre tantas maravilhas, "O padre e a moça", de Joaquim Pedro de Andrade), foi também pintor, gravurista, roteirista, montador e cineasta ("Gordos e magros", de 1977, seu único longa como diretor).

Mário parece ter roteirizado o momento de sua morte para ter ao lado as três mulheres da sua vida: a atual Heliana Carneiro e as ex Marília Carneiro (que iria viajar hoje) e Marília Alvim (que chegou ontem de viagem).

Em 2005 ganhou o prêmio de fotografia no 37º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com o filme "500 almas", de Joel Pizzini.

terça-feira, 28 de agosto de 2007

é tudo cinema

filmagem do documentário "Dim", em Pindoretama, Ceará. Foto Rubens Venancio

"...sabemos que documentários podem ser tão complexos quanto filmes de ficção, mas essas complexidades quase nunca afloram quando estamos lidando com críticos ou diretores de ficção. A questão que prevalece nunca é o filme em si – isto é, a gramática do filme, a forma como diz o que pretende dizer – mas o tema: ‘Sobre o quê é o seu filme?’ ou, pior, ‘Qual é a mensagem do seu filme?’ Ora, nós não somos os Correios. Se fazemos documentários, é porque acreditamos em cinema, não em telegramas."

Trecho de um texto do cineasta João Moreira Salles, que participou recentemente do Seminário Flaherty, em Nova York, tradicional encontro internacional de documentaristas.

Eu, que sou um convicto diretor de ficção, e acabei de dirigir o meu primeiro documentário, estou passando pelo mesmo tipo de "interrogatório".

O texto na íntegra está no blog do crítico Carlos Alberto Matos, aqui.

sábado, 25 de agosto de 2007

seguindo a trilha

Egberto, vocalista da banda Sanatos. Foto Nirton Venancio

Um dos melhores momentos na montagem de um filme é quando se coloca a trilha sonora. Primeiro os diálogos, chega o som ambiente, depois os efeitos sonoros, e lá vem a música fechando sempre solenente um trabalho audiovisual.

Desde que nasceu o cinema sempre quis falar. Lá nos primórdios quando eram exibidos os filmes mudos, um pianista estava sempre ao pé da tela, acompanhando as imagens, compondo a trilha ao vivo, de acordo com o que acontecia na história. O cinema não era tão mudo assim.

Hoje foi um sábado inteiro com a Banda Sanatos no estúdio ProÁudio, em Fortaleza, para a gravação da trilha sonora do documentário "Dim". Os cinco garotos de Camocim chegaram na madrugada e mandaram ver a versão heavy metal de "Menina linda", clássico da chamada música brega nos anos 80, de autoria do maranhense Raimundo Soldado, uma espécie de Chuck Berry dos Inhamus, pelo seu visual black de jaqueta e cabelo lambido com gumex.

Egberto no vocal, Vinicius e Herbete nas guitarras, Marcão no baixo e Jeison na batera, fizeram uma releitura da música com bastante originalidade. Captaram a essência do que a direção do filme pediu. Os riffis do som servirão de trilha em algumas passagens do documentário. Soldado com sua voz terá vez numa das cenas, marca presença com o espaço e o tempo merecidos, quando o artista plástico Dim fala de suas lembranças de adolescente em Camocim, e via e ouvia os conjuntos (isso mesmo, conjuntos!) tocando a música do jeito deles. "Menina linda" com um atualizado figurinho groove metal une esses dois tempos. O sentimento é o mesmo, o que muda é a forma de expressá-lo.

terça-feira, 21 de agosto de 2007

o rio que corre

foto Rubens Venancio

Um filme não é um rio que corre com regularidade. Pode haver quedas, cascatas, correntezas.

Palavras do mestre Jean-Claude Carrière, roteirista francês, autor de várias obras-primas dirigidas por Buñuel, Louis Malle, Jacques Deray, Volker Scholöndorf, Peter Brook, Andrejz Wajda, Marco Ferreri, Godard...

Na ilha de edição do documentário "Dim", reflito sobre o rio de imagens na minha frente, que não corre mesmo com regularidade. E o segredo está no ritmo que se cria, na alternância entre essas quedas, cascatas, correntezas...

domingo, 19 de agosto de 2007

sábado com Maurício

o fotógrafo Maurício Albano com sua filha Marisol. Foto acervo pessoal

"O tempo não é o mesmo sobre os aviões e os pássaros: / nas asas de um é tudo muito rápido / nas asas do outro é tudo muito livre", diz uns versos meus rabiscados no livro "Poesia provisória". E foi essa sensação de liberdade que senti ontem ao rever o meu amigo Maurício Albano, um dos maiores fotógrafos brasileiros. É tudo muito livre sobre ele e o seu trabalho.

Não via o Maurício há algum tempo. Ontem à tarde, num descanso pós-filmagens, fomos eu, Dim, Ângela e Fátima Façanha para um café com tapioca em sua casa. E uma cachacinha branca que ele foi pegar na bodega mais próxima, correndo no seu velho jeep feito um Fred Flintstone. Figuraça! Precisávamos brindar esse reencontro.

Maurício mora na mesma casa-sítio-estúdio que construiu já faz tempo às margens da Lagoa Redonda, um bairro hoje nem tanto afastado de Fortaleza. Ali vive, ali trabalha, ali planta, ali criou seus filhos, e não tem mesmo porque sair do paraíso para um apartamento na beira-mar.

Na minha adolescência em Fortaleza, Maurício era meu ídolo. E continua sendo. Com o acréscimo luxuoso de ser meu amigo. Em 1988 o convidei para fazer stil no meu primeiro curta-metragem, "Um cotidiano perdido no tempo". O que tinha do que se faz de inatingível nos ídolos, ele próprio desfez no convívio das filmagens, revelando-se com sua rolleflex, digamos poeticamente assim, uma pessoa de extrema sabedoria e simplicidade, características próprias dos grandes homens, destes que fazem a gente manter a crença na humanidade.
Eu tinha, então, na minha equipe, um dos papas da fotografia no Ceará, e passaria a ter uma pessoa rara no meu seletivo grupo de amigos - aqueles com quem tenho o prazer de beber uma cachacinha numa tarde de sábado. Conversamos sobre cinema, fotografia, artes plásticas, projetos. Contamos histórias, piadas, mentiras, verdades. Filosofamos, desfilosofamos. Uma tarde de risadas, abraços e afetos.

sábado, 18 de agosto de 2007

o mesmo ar

equipe do filme "Dim", sob a luz de Pindoretama. Foto Rubens Venancio

"... a cada reencarnancão por mais bem vividas que tenham sido as anteriores, o encarnado pode até pensar que já compreende muita coisa, mas, quando fica velho, vê que não compreende quase nada, precisa voltar sabe-se lá quantas vezes - Deus não tem pressa nenhuma, para Ele tudo é ontem, hoje e amanhã, só quem vive dentro do tempo somos nós. Para ficar apenas num exemplo, quem compreende os mangues, todas as suas plantas, todos os seus mosquitos, todas as suas mutucas, todas as suas locas, todos os seus siris, sururus, caranguejos e aratus? Ninguém, por mais escolado. E assim, tudo mais, das pedras enterradas aos bichos voadores, o que se conta sempre podendo ser verdade ou mentira, nada se logrando provar com prova provada mesmo.

Mas alguma coisa sempre se sabe, tirado mais daquilo que se sente do que daquilo que se vê. Por exemplo, sinta o ar."


Trecho do livro "Miséria e grandeza do amor de Benedita", do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro, que estou lendo nos intervalos da montagem do documentário-ficção "Dim".

Volto ao cinema a cada filme sem nunca largá-lo enquanto espero a próxima tomada. E vejo que cada cena na vida e no set é um eterno aprendizado que vai fazendo sentido à vida. Achego-me cada vez mais às pessoas que amo, que já conheço e residem aqui no peito; encontro outras novas que se tornam do meu convívio, e vão também se aproximando, e passamos a respirar o mesmo ar em volta.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

próxima tomada

Depois de duas semanas no "som!", "câmera!", "ação!", as filmagens do documentário-ficção "Dim" deu o último take. Foi concluída a captação de imagens, que é menos dolorosa e até mesmo mais prazerosa do que a captação de recursos, de financiamento para a produção.

Sempre que termina esse período de filmagens, fica um vazio em cada um da equipe, uma saudade saudável do espaço no set em que todos conviviam. Mas o filme não acaba. Muito pelo contrário, recomeça, outras tomadas se aproximam. Parte-se para uma nova etapa, um novo ciclo quando outras pessoas se juntarão àquelas que continuam.

De minha parte, ficarei mais próximo do montador Rui Ferreira, em Fortaleza, por umas duas semanas, no mínimo. E entrelaçando esses dias, a gravação da trilha sonora com a banda Sanatos, de Camocim, e encontros constantes com o Dim, esse personagem tão autêntico que com sua energia sempre positiva, contagiou toda a equipe no calor das filmagens em Pindoretama.

o diretor Nirton Venancio e o artista plástico Dim


Nirton Venancio e o diretor de fotografia Roberto Iuri


Roberto Iuri, o assistente produção Adelmar Filho, o assistente de fotografia Alex Meira, a cozinheira dona Luiza, o motorista Magno, Nirton Venancio, Dim, a presidente de honra do Instituto Amor ao Campo Fátima Façanha e o técnico de som Fernando Cavalcanti. Agachados, a diretora de produção e esposa do Dim, Ângela Madeiro e os filhos Risa e Ud


Por trás das lentes destas fotos, Rubens Venancio

domingo, 12 de agosto de 2007

pais do cinema

Hoje, dia dos pais, flagrantes dos pais no set de filmagem do documentário-ficção "Dim", em Pindoretama, Ceará.

o diretor de fotografia Roberto Iuri, que ainda não é pai, e o cineasta Nirton Venancio, pai de Enzo e Manuela

o artista plástico Dim, pai de Risa e Ud


o técnico de som Fernando Cavalcanti, pai de Arthur e Gabriel


fotos de Rubens Venancio, sobrinho, mas como se fosse filho de Nirton