quarta-feira, 30 de maio de 2018

desgosto


...e eu não posso cantar como convém...

“Por onde passou, Belchior não deixou dissenso, conflito ou vergonha. Os embates moralistas em torno de sua renúncia à vida social vão continuar por muitos anos, mas a transfusão de seu sangue criativo irriga gerações diferentes de artistas e é impossível detê-la: alimenta tanto os anêmicos da realidade quanto os vampiros da transitoriedade. ”
- Jotabê Medeiros, jornalista, autor da biografia Belchior – Apenas um rapaz latino-americano, 2017.
O trecho, na segunda página da Apresentação, resume o pensamento e intenção do livro, que teve pesquisa iniciada logo após o desaparecimento do cantor.
Há um ano e um mês hoje que seu sangue criativo continua irrigando gerações. Há treze meses que ele não morreu.

terça-feira, 29 de maio de 2018

o vento

Do livro Feita para iletrados, de Karine Tavares, 2015

insensato mundo

©Laerte

parentada



Um casal de idosos convida a grande família para a ceia natalina. Casa cheia, gritos das crianças, conversas em voz alta, segredos, fofocas, presentinhos, risos... Uma felicidade!
Na mesa da ceia, a matriarca anuncia a indigesta decisão que o casal está velho para continuar vivendo sozinho, e decidiram que vão morar com um dos filhos ou filhas. Pronto! A festa da sagrada família vira uma batalha com fios dourados de ovos e spaghetti a bolonhesa entre todos, cada um tentando se livrar da incômoda responsabilidade.
Esse é o enredo do ótimo filme de humor ácido Parente é serpente, produção italiana de 1992, dirigida por Mario Monicelli.
O título é também apropriado e atualizável a outro Parente, o Pedro, que quer vender de vez a Petrobras a grupos internacionais, e atendendo a interesses cretinos, reduziu a produção de combustível para importar diesel e gasolina mais cara, enfiando na goela abaixo do consumidor brasileiro a nova política dragoniana dos compradores. E o tal Parente, entre jantares e entrevistas cínicas, tenta se livrar da incômoda responsabilidade.

segunda-feira, 28 de maio de 2018

segunda-feira, 21 de maio de 2018

nunca te vi, sempre te amei

Ela nasceu no Rio Grande do Norte e morava desde os pequenos 11 anos em Curitiba. Ela era formada em Letras. Ela era pesquisadora da obra de Osman Lins. Ela publicou ótimos livros de poesia. Ela escrevia poemas belos e sofridos. Ela conversava comigo, contigo, com quem ouvisse seus versos. Ela auscultava o coração do leitor. Ela tinha livros de contos. Ela escreveu uma peça de teatro. Ela tinha um blog que não atualizava há dois anos. Ela não tinha Facebook. Ela teve sua obra publicada no México. Ela coordenou o projeto Translações: Literatura em Trânsito. Ela participava do Coletivo Escritoras Suicidas. Ela indagou num poema “correr para onde, se é dentro o labirinto? ”. Ela decidiu não se tratar de um câncer no intestino. Ela tinha 49 anos. Ela tinha um nome diferente, Assionara Souza. Ela também se chamava Nara. Ela faleceu hoje de madrugada. Seu corpo será cremado. Seus livros, não. Ela poderá ser esquecida. Sua poesia será sempre lembrada.
Ela tem um verso que (agora) diz: “Não mais escrevo poemas, meu bem / Sentir e dizer o que sinto / É tudo o que sei e faço”. Ela tem outro verso que agora digo: “Lembrei do quanto amo teu abraço mar em torno da ilha de minha tristeza”.
Eu nunca a vi, sempre a amei no abraço de seus poemas.

domingo, 20 de maio de 2018

é você que ama o passado...

"Belchior", em bom português, é uma profissão, mercador de objetos velhos e usados, como bem explica o verbete do Dicionário Aurélio. Aquela pessoa que compra de tudo, que vende de tudo.
O senhor aí da foto é Joaquim da Cunha, que veio de sua terra natal em Portugal para viver em Porto Alegre, e montou essa casa de comércio, que existiu por 50 anos. Muito querido na capital gaúcha, "seu" Joaquim faleceu em 1995, aos 100 anos, e deixou muita saudade a uma vasta freguesia. Sua loja, que chegou a ser um local de curiosidade, vendia de soda cáustica a televisores, de veneno para ratos a pilhas para rádio, de moedas antigas a tinta para canetas... quem entrava lá ficava encantado com tantas coisas empilhadas, instrumentos musicais, bússola, pregos antigos oxidados, sinos, leque, quadros, lampiões, louças, serrotes, câmeras fotográficas...
Uns diziam que ambiente abarrotado dos mais inusitados objetos, tinha odor de mofo, outros sentiam o aroma dos tempos idos.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Vênus para sempre

Acima, O nascimento de Vênus, têmpera sobre madeira, belíssima pintura do renascentista Sandro Botticelli, exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença.
O cinema e outras manifestações artísticas reproduziram a cena da deusa Vênus, emergindo esplendorosa de uma concha, sendo levada à margem pelo sopro de Zéfiro, que representa o vento que vem do oeste.

Como uma deusa-sereia, Ursula Andress surge fascinante do mar em uma cena de 007 contra o Satânico Dr No (Dr. No), de Terence Young, 1962.
Com mais precisão, a cena foi retratada em As aventuras do Barão Munchausen (The adventures of Baron Munchausen), de Terry Gilliam, 1989, personificada em outra deusa blonde e diáfana, a atriz Uma Thurman pré-Kill Bill no papel de Vênus.
No filme holandês A excêntrica família de Antonia (Antonia), de Marleen Gorris, 1995, uma das personagens é vista como Vênus, remetendo ao significado da pintura.
O desenho animado Os Simpsons fez uma referência direta ao quadro, em um episódio nos anos 90, quando um personagem, no delírio, vê a colega de trabalho por quem se apaixona.
Muitas capas de revistas de moda fizeram alusões à cena de Botticelli, com modelos famosas e biquínis de grifes.
A musa pop cameloa da música dance eletrônica, Lady Gaga, é confessadamente uma admiradora da obra. Em seu disco Artpop, de 2013, a capa utiliza em recursos estilizados a estampa de O nascimento de Vênus, como sampleando a pintura clássica. No clipe promocional do álbum, com (não à toa) o single Vênus, a cantora com os longos cabelos em cascata como da deusa, usa um provocante biquíni de concha.
Até na moeda de 10 centavos do Euro, Vênus aparece impressa em suave relevo. Mas é minimizar demais: a referência merece valor muito maior de circulação hoje nos 508 anos da morte do pintor.

cometa poesia

“No ar frio, o céu dourado baixou ao vale, tornando irreais os contornos dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saímos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo.”
Assim registrou em seu diário o pequeno Carlos aos 7 anos de idade, quando e como viu deslumbrado o cometa Halley passar nos céus mineiros de Itabira, em 18 de maio de 1910.
Tempos depois, Carlos, já Drummond de Andrade, publicou em seu belíssimo livro de crônica A Bolsa & a Vida, o texto O Fim do Mundosobre essa lembrança que marcou a infância.
Na foto abaixo, o cometa riscando o céu andino de Arequipa, cidade peruana. Deveria ter acabado de passar no sertão verde de Itabira, e o menino Drummond já no seu caderninho-diário, "protocolando" o poema que ficou em seus olhos.

quinta-feira, 17 de maio de 2018

placebo

Adjetivo.
Etimologia: do latim “placere”, que significa "agradarei" no sentido ilusório.
Significado: algo que não tem efeito prático, que é aplicado para ludibriar. Tratamento inerte, que pode ser na forma de um fármaco, e que apresenta efeitos terapêuticos devido aos efeitos fisiológicos da crença do paciente de que está sendo tratado.
Exemplos:
“Podemos crer que esse velho-novo governo Temer é senão um placebo tarja-preta, para os leigos e desavisados, um remedinho de mentira, pra conter uma crise politico-jurídico-econômica e midiática sem precedentes e de verdade.” (Ricardo Fonseca, publicitário).
“Temer é uma espécie de genérico, ou melhor, placebo, uma substância inócua e inerte apresentada como tendo efeitos curativos!" (Ivana Bentes, jornalista).
Sinônimos: falso, mentiroso, inventado, simulado, improcedente, charlatão, embusteiro, farsante, hipócrita, ardiloso, artificial, pseudo, postiço, desleal, enganador, traidor, Temer.
Antônimos: eficiente, habilitado, válido, eficaz, verdadeiro, a banda inglesa glam rock Placebo.

quarta-feira, 16 de maio de 2018

de volta a Juazeiro

O resgaste de um dos filmes mais importantes na história do cinema cearense. O escritor e pesquisador Raymundo Netto faz, através de livro e documentário, uma viagem detalhadíssima à produção de Padre Cícero, de Helder Martins, 1975, esmiuçando e analisando de forma elegante, precisa e afetiva os fatos, os artistas, elementos vitais que deram corpo e alma ao filme, apontando suas complexidades e ousadias.
Um trabalho de fôlego que merece aplauso, reconhecimento, incentivo. Com o lançamento da Coleção Memória do Audiovisual Cearense, da Fundação Demócrito Rocha, que o projeto prossiga, se desdobre em outras produções, como Homem de papel, de Carlos Coimbra, 1976.
Hoje no Centro Cultural Banco do Nordeste, Fortaleza, exibição do documentário.
Dia 24 de junho, lançamento do livro durante o Festival Vida & Arte no Centro de Eventos do Ceará.

beat acelerado

Trecho de On the road, 1957. Kerouac escreveu em ritmo ininterrupto em três semanas, numa pequena máquina de escrever com folhas de papel manteiga emendadas pra não perder tempo em trocá-las...
Ele mudou as coisas.

terça-feira, 15 de maio de 2018

o cinema de Roberto Farias

foto Fabio Seixo
Em 2015, o cineasta e produtor Roberto Farias foi o grande homenageado no 14º Grande Prêmio do Cinema Brasileiro, evento organizado anualmente pela Academia Brasileira de Cinema, que tem votação dos profissionais da área para aqueles que se destacaram em cada categoria.
No começo da década de 60, Farias dirigiu um dos mais importantes filmes da história do cinema brasileiro, Assalto ao trem pagador, com roteiro de Luiz Carlos Barreto e Alinor Azevedo, com narrativa próxima à estética neorrealista, baseado no roubo ao comboio da Estrada de Ferro Central do Brasil.

Sem desconsiderar a relevância dos seus primeiros filmes, o trabalho pelo qual é sempre lembrado é o drama de ficção histórica Pra frente, Brasil, sobre o período de repressão da ditadura Médici, corajosamente realizado quando Figueiredo foi presidente, 1982. Baseado em argumento do irmão Reginaldo Faria e de Paulo Mendonça, o roteiro descia aos porões do regime militar com audácia surpreendente, desafiando a censura e colocando à prova a abertura política na área cultural. No ano "milagroso" de 1970 o Brasil inteiro torcia com a seleção de futebol no México, enquanto prisioneiros políticos eram torturados e inocentes vítimas de arbitrariedade. Todos esses acontecimentos são vistos no filme pela ótica de uma família quando um dos seus integrantes, um pacato trabalhador da classe média, é confundido com um ativista político e "desaparece".
Afastado dos sets de filmagens desde final dos anos 80, e dedicado à televisão nos anos 90, Roberto Farias é o cineasta que, como bem apontou o crítico Inácio Araújo, ilumina a complexidade e contradições do cinema brasileiro, fazendo sua trajetória desde a chanchada (Rico ri à toa”, Um candango na Belacap), passando pelo policial (Assalto..., Cidade ameaçada), pela comédia (Toda donzela tem um pai que é uma fera), a aventura musical (a trilogia com Roberto Carlos), o documentário (O fabuloso Fittipaldi), e logo após o engajado Pra frente, Brasil, a comédia-paródia, Os Trapalhões no Auto da Compadecida, seu último filme, e o mais sofisticado da franquia do quarteto trapalhão.
Complexidade também quando durante o governo Geisel, assumiu a direção da Embrafilme. A mesma Embrafilme que financiou Pra frente, Brasil e gerou a demissão de Celso Amorim, então diretor do órgão.
Roberto Farias faleceu ontem, aos 86 anos, abatido pela complexidade de um câncer.

20 anos em 2...


domingo, 13 de maio de 2018

o fim e o começo

foto Vavá Ribeiro
"Do vazio se ouve melhor", dizia o cineasta Eduardo Coutinho.
Sua máxima explica bem o conceito de seu cinema, a maneira como concebia seus maravilhosos documentários, e explica a grande falta que ele nos faz com o vazio de sua presença física.
Coutinho, um cabra que não estava marcado pra morrer daquele jeito, há quatro anos, faria hoje 85.
foto Vavá Ribeiro

mãe é muito


mãe


sábado, 12 de maio de 2018

o brasileiro Antônio Cândido

foto Letícia Moreira/Folhapress, 2011
"Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida."
- Antônio Cândido, sociólogo, um dos grandes estudiosos da nossa literatura, o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, em 2005, um dos mais importantes da América Latina. Livre e lúcido pensador do Brasil.
Cândido partiu há um ano, aos 98. Foi tecer outras vidas noutros tempos.

matriz do samba

"Não sei quando volto, mas não estou triste."
Dois anos antes de falecer, em 2008, o cantor Jamelão assim se despediu em uma entrevista.
O grande intérprete dos sambas-enredo da Mangueira estava com a saúde abalada, era diabético e hipertenso. Ainda tinha o vozeirão, sua marca registrada em canções dor-de-cotovelo, como a clássica Matriz ou filial, de Lúcio Cardim, mas sem forças para se apresentar em shows.
Bom se pudesse estar aqui hoje, para comemorar os seus 105 anos de nascimento. Sabemos que não volta, por isso ficamos tristes.

sexta-feira, 11 de maio de 2018

be all right

Na filosofia rastafári, o corpo é um templo intocável, que não se pode alterar, modificar. Uma das características desse pensamento são as barbas crescidas, os dreadlocks.
Bob Marley sofria de câncer de pele, que se desenvolveu fortemente sob uma unha infeccionada, no final dos anos 70. Segundo os médicos à época, se amputasse o dedo do pé, as chances seriam positivas de a doença ser curada. O cantor, além de seguir fielmente a doutrina, teria se negado a perder o dedo, embora tenha muito se divulgado que ele se preocupava que a cirurgia o fizesse parar de dançar e afetasse sua carreira, no auge de popularidade e reconhecimento. Preferiu um tratamento alternativo, com um médico naturalista alemão.
Mas em 1981, a doença avançou de uma forma incontrolável. O câncer se alastrou pelo estômago, pulmões, chegando ao cérebro. Marley morreu aos 32 anos, em sua casa na Jamaica, consolando a própria mãe, dizendo-lhe "mommy, no cry. I'm going ahead to prepare a place."
37 anos hoje que ele se foi. Ainda ouvimos o wailer nos consolar:
"my feet is my only carriage / so I've got to push on through... / but while I'm gone / I mean: everythings gonna be all right!"

quinta-feira, 10 de maio de 2018

fogo medieval

Thomas Mann, Heinrich Mann, Walter Benjamin, Bertold Brecht, Lion Robert Musil, Erich Maria Remarque, Joseph Roth, Sigmund Freud, Albert Einstein, Karl Marx, Heinrich Heine, Ricarda Huch… esses foram alguns dos escritores que tiveram seus livros queimados de 10 de maio a 21 de junho do ano de 1933, em várias praças públicas de várias cidades alemãs, a mando da besta fera Adolf Hitler, que acabara de chegar ao poder.
Tudo que fosse crítico ou desviasse do pensamento imposto pelo infame regime nazista foi destruído. Em alemão esse período foi denominado “Bücherverbrennung”, literalmente “queima de livros”.
Nobel de Literatura em 1929, Thomas Mann, que já tinha escrito obras magníficas como Os BuddenbrooksMorte em VenezaA montanha mágica, foi embora para a Suíça, e de lá para os Estados Unidos. Mas logo foi perseguido pelo macartismo, e retornou à uma cidade próxima de Zurique, em 1952, onde ficou até falecer, três anos depois.
Histórias como essas de Mann, aconteceram com vários outros intelectuais que sofreram as agruras do regime dantesco e foram banidos de sua pátria.
Não há nenhuma relação direta manifestada, mas o romance distópico de ficção científica de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, publicado em 1953,  levado ao cinema por François Truffaut em 1966, trata de um tema análogo, ambientado em uma América hedonista e anti-intelectual que perdeu totalmente o controle, e todos os livros são queimados e o pensamento crítico suprimido.
Acima, Memorial no chão de uma das praças, em Frankfurt.

domingo, 6 de maio de 2018

o inconformista

"Esta honra só posso aceitar em nome de todos os inconformistas. Podem ser livres, mas não se consideram únicos nem se veem como os melhores".
Agradecimento do cineasta Orson Welles, ao agradecer a tardia homenagem do Instituto do Cinema Americano, em 1975.
Hoje um século e três anos de nascimento de vida inconformista.
Acima, o gênio fotografado por Victor Skrebneski em seu estúdio, Los Angeles, 1970.

sábado, 5 de maio de 2018

a estrela Dalva

Elis Regina disse numa entrevista, no final dos anos 70, que um dia as pessoas vão descobrir que Dalva de Oliveira é a nossa Billie Holiday...
Tanto Billie quanto Dalva e Elis foram únicas, grandiosas, divas.
Perry Ribeiro, filho da cantora, lançou em 2006 Minhas duas estrelas - Uma vida com meus pais Dalva de Oliveira e Herivelto Martins. O livro, de forma sincera e corajosa, relata detalhes perturbadores da vida do casal.
Hoje faz um século e um ano de seu nascimento. Dalva se foi precocemente aos 55.
Todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão… 
Eu passarinho!

- Mário Quintana, Poeminha do contra, publicado no livro Prosa e verso, 1978.

Em 1985 a fotógrafa Liane Neves aproximou-se do poeta e iniciou-se uma longa amizade. Passou a registrar o seu cotidiano em Porto Alegre, pelas ruas onde gostava de andar, pela ponte do Guaíba, na bucólica e histórica Travessa dos Venezianos, onde fez a foto acima, em 1986. Quintana a chamava de "minha sombra luminosa".

Depois que Quintana faleceu, em 1994, Liane doou todo acervo fotográfico para a Associação dos Amigos da Casa de Cultura Mário Quintana. Em 2004 publicou A Porto Alegre de Mario Quintana, com as fotos dos lugares onde poeta eternizou em seus versos.
24 anos hoje sem o passarinho naquelas ruas...

saudades do cigano

"Eu tenho saudades da nossa canção / saudades de roça e sertão / bom mesmo é ter um caminhão / meu amor..."
- Chico Buarque

Lembrando José Wilker em um dos melhores papeis no cinema, o Lorde Cigano de Bye, bye, Brasil, de Cacá Diegues, 1979.
Dois anos que nosso Lorde pegou o caminhão pra outros sertões...

o rosto do palhaço

O mais famoso palhaço brasileiro, Carequinha, sempre dizia em entrevistas que queria ser enterrado com o rosto pintado, pois assim alegraria os mortos.
Doze anos hoje que ele foi para outros picadeiros, aos 90. A família não atendeu ao seu pedido. Mas permitiu que fosse vestido com as roupas coloridas de seu personagem.
Seguiu com o rosto de George Savalla Gomes, seu nome verdadeiro.

o olho do poeta

"Quem quer que controle a mídia, as imagens, controla a cultura", dizia o poeta Allen Ginsberg, falecido há 21 anos neste dia 5.
O beat sabia o que dizia, era um louco por fotografia.
Assim como fazia belíssimos e inquietantes poemas, compunha fotos com uma certa ousadia e experimentalismos, a partir mesmo de autorretratos - o que hoje vulgarizou-se como selfies.
Muitos da sua geração que pegaram a estrada, como Jack Kerouac, William Burroughs, Neal Cassady, Gregory Corso, pousaram ou foram flagrados pela lente da sua máquina preferida, um Leica M7 35mm. Estão no livro Beat memories, lançado em 2000, com toda obra fotográfica do poeta.
Muito bom se hoje quem controlasse a mídia, as imagens, fossem esses loucos como Ginsberg.

sexta-feira, 4 de maio de 2018

o anjo torto de Vila Isabel

"Sou do sereno poeta muito soturno..."
O compositor Noel Rosa faleceu na noite de 4 de maio de 1937, em sua casa, enquanto comemorava o aniversário de uma amiga vizinha. Viveu apenas (e intensamente) 26 anos, de boemia e poesia.
Foi um dândi enviesado, um irreverente com suprema inteligência, no começo de um século reverencioso aos bons costumes do lugar. Do jeito que atravessava a noite e curtia a vida, não alcançaria muito tempo à frente.
"Noel Rosa: Uma Biografia", de João Máximo e Carlos Didier, lançada em 1990 e logo recolhida pelas sobrinhas herdeiras do compositor, é o mais completo relato da vida do artista.
O livro foi proibido através de ações judiciais, alegando desrespeito à vida privada da família, possivelmente por mencionar os suicídios da avó e do pai de Noel.
O texto é primoroso, com a elegância que o biografado merece.

terça-feira, 1 de maio de 2018

o descaso em chamas

"Por um ano fui quase vizinho desse prédio, passava aí na frente vários dias da semana. Era colorido, vibrante, paradoxal e insano - como a nossa cidade. Sua morte, nascida do descaso e do desprezo, é também a nossa morte como cidadãos. Estamos todos do lado de fora, como os moradores desse prédio estão agora - mas nos esquecemos, enganados pelo nosso conforto. Sim, a culpa pelo incêndio é do Estado - e portanto de todos nós. Quero lembrar dessa esquina assim, louca e colorida e habitada, como na arte (acima) do amigo Carca Rah."
- Ronaldo Bressane, jornalista, sobre o Edifício Wilton Paes de Almeida, 24 andares, no centro da capital paulista, que incendiou e desabou nesta madrugada de 1º de maio.
Abandonado, mais de 50 famílias pobres ocupavam o prédio há anos, de forma necessária e irregular. Eram "paus de arara, passistas, flagelados, pingentes, balconistas, palhaços, marcianos, canibais, lírios pirados", como diria a letra de O Rancho da Goiabada, de Aldir Blanc.
Projetado em 1961, tombado como patrimônio histórico em 1992, foi prédio da Polícia Federal de 1980 a 2002, e do INSS até 2010, e desde então largado ao descaso das autoridades incompetentes.
As famílias que lá moravam não tinham outro teto. Tinham passado e nenhum futuro. Tinham onde habitar a pobreza, tinham um endereço, mas não tinham um lar. Viviam dormindo de olhos abertos / à sombra da alegoria dos faraós embalsamados, retomando à letra musicada por João Bosco.

vida de gado

Realizado em 1925, A greve (Stachka), de Serguei Eisenstein, é o mais importante filme sobre a força da classe trabalhadora como organização. Narra uma rebelião dos operários de uma fábrica na Rússia pré-revolucionária do início do século passado. Com enredo ficcional e uma estrutura surpreendentemente documental, ainda na era do cinema mudo, o filme expressa o poder de massa, de coletivismo sobre o individualismo institucionalizado.
A obra também é marcada como um dos mais importantes filmes sobre o que se desenvolveu como linguagem cinematográfica, mais precisamente a respeito dos conceitos de montagem.
Eisenstein criou em A greve o recurso narrativo “cross-curting”, técnica de corte entre ações paralelas, estabelecendo tramas em diferentes locais ou situações, mas que têm significados conotativos na simultaneidade do enredo.
Nesse clássico imprescindível, a cena de repressão contra a greve nas ruas com outra de gado sendo abatido em um matadouro, provocam no espectador o impacto, o incômodo, a reflexão.