segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Rita de Sampa

“Nascer no 31 de dezembro é sacanagem. Levo um ano literalmente nas costas para fazer aniversário e ouvir: ‘hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier’. Quando criança, o que me consolava era o ditadinho ‘os últimos serão os primeiros’, até que um primo engraçadinho riu na minha cara: ‘Sim, os primeiros a chegar por último!’”
- Rita Lee em Uma autobiografia, 2016.
71 anos da ovelha negra.

feliz ano velho



Há quatro anos o poeta cearense Mário Gomes foi poetar noutras dimensões. Mesmo que seu coração tenha parado numa cama de hospital, foi na rampa do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, que ele subiu, sumiu, e sua imagem se cristalizou num final de tarde.
Ninguém mais o despoetizará.

domingo, 30 de dezembro de 2018

in the heart of woman

Patti Smith, cantora, compositora, poeta, escritora, 72 anos hoje.
Com seu disco de estreia, Horses, 1975, deu largada ao movimento punk com o canto feminino, a postura da mulher no comportamento do rock, o intelecto das canções nos movimentos políticos. Suas letras contestam, discordam, avançam na via contrária das setas estabelecidas.

na parede da memória

foto Mário Luis Thompson
“Vamos sair pela rua da Consolação,
dormir no parque, em plena quarta-feira,
e sonhar com o domingo em nosso coração... ”

- versos da canção Passeio, de Belchior, gravada em seu primeiro disco, 1974.
30 de abril de 2017, um domingo. 
30 de dezembro de 2018, outro domingo.

Há 88 domingos que Belchior não morreu.

sábado, 29 de dezembro de 2018

os discos de 1973

foto Ana Flávia Camarotti
“Artistas reunidos por esses laços do destino que não compreendemos muito bem, mas que deixam sempre o rastro de uma misteriosa conspiração a favor da beleza.”
Trecho do texto O Pessoal do Ceará e a Minha Praia Lírica, da cantora e compositora Mona Gadelha, sobre o disco Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, lançado em 1973, pela então Continental, onde reúne composições de Ednardo, Ricardo Bezerra, Fagner, Rodger Rogério, Dedé Evangelista, Tânia Araújo, Augusto Pontes, e a clássica Dono dos seus olhos, de Humberto Teixeira, inserida como canção referencial. Com interpretações de Ednardo, Rodger e Teti, é um disco seminal para o que veio se denominar Pessoal do Ceará.
A descrição analítica e afetiva de Mona faz parte do livro organizado pelo jornalista carioca Célio Albuquerque, “1973 – O Ano Que Reinventou a MPB”, de 2013, onde reúne mais de 50 resenhas, assinadas por jornalistas, cantores, compositores, críticos, sobre discos importantes lançados naquele período, que dentro de uma estética, gênero e ousadia musical, inovaram um perfil da música brasileira em plena ditadura Médici.
O projeto ampliou-se para um programa de televisão com exibição no Canal Brasil, MPB 73 – O Ano da Reinvenção, avançando mais na pesquisa e observações apresentadas no livro. Com apresentação de Fernando Mansur, os programas trazem os autores dos textos e também convidados.
Mona Gadelha fala no Episódio 10, que será apresentado hoje, 29, às 21h30, com reprises amanhã, ao meio-dia, e segunda-feira, 17h.

meias três quartos

17 anos sem a garotinha desbocada que não se enquadrava na mesmice da música 'prapular' brasileira.

vale quanto tem

Trecho da fala do personagem Ethan, em O Inverno de Nossa Desesperança, que John Steinberg publicou em 1961.
O livro explora os conflitos internos e o desencanto do protagonista, que vive o dilema de violar seu código moral para ganhar dinheiro e conquistar a admiração familiar.
Steinberg com uma destreza cirúrgica, faz uma dissecação na hipocrisia da sociedade contemporânea, que classifica os valores humanos pela conta bancária. O livro é recheado de diálogos precisos, como "o dinheiro não transforma as doenças, apenas os sintomas."
Autor de outras obras-primas, Vinhas da Ira, Pérola, Homens e Ratos, Desesperança"deu a Steinberg o Prêmio Nobel em 1962, reafirmando como um dos maiores escritores do século XX.
O título é uma referência à peça Ricardo III, de Shakespeare.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

a voz das palavras

foto Edward Kaprov, 2015
Em 2002 o historiador egípcio-britânico Eric Hobsbawn, falecido em 2012, lançou Tempos interessantes – Uma vida no século XX, uma autobiografia onde o autor faz um painel do século passado, colocando-se como personagem observador analítico de um tempo, através de sua vivência familiar e intelectual.
Esse tipo de relato biográfico busca o entendimento da história. Alguns anos depois, mais precisamente em 2007, o escritor, ativista e pacifista israelense Amós Oz, escreveu a autobiografia Um conto de amor e trevas com narrativa semelhante, onde 120 anos de memória de sua família, com suas dores, vitórias e paradoxos, alinham-se à turbulenta história de seu país.
Celebridades materializam-se em personagens autênticos, de David Ben-Gurion, um dos fundadores do estado de Israel, ao lendário líder das organizações clandestinas e primeiro-ministro Menahem Begin, passando pela grandeza da poesia hebraica moderna.
Amós Oz, um dos responsáveis pelo movimento Paz Agora, em que advogava pela solução de dois estados Israelense-Palestino, faleceu hoje aos 79 anos. Um vazio na literatura, e neste momento quando, mesmo acusado de “traidor” por Israel, Oz mantinha-se contra invadir territórios e bombardear civis em nome do que o país chama de “seu Deus”. Humanista, dizia que sua qualificação para discutir política era ter ouvido para palavras, e que “eu ergo minha voz e grito sempre para combater uma linguagem corrompida.”
Todos seus livros são apaixonantes, admiráveis, como A caixa preta, 1987, Pantera no porão, 1999, o último, de 2014, Judas, onde através do amor entre um jovem estudante e uma bela e misteriosa garota, questiona as guerras e a fundação do estado de Israel.
Mas a citada autobiografia possivelmente tenha a densidade mais definida e reflexiva de sua obra. A atriz Natalie Portman estreou na direção, em 2015, com o tocante De amor e trevas, baseado no livro. A diretora surpreende com a literalidade narrativa do compromisso de Amós Oz com as palavras, com a história.
Livro e filme traduzem bem o sobrenome que o escritor adotou: força e coragem, o significado de Oz em hebraico.
foto Edward Kaprov, 2015

aparelho da resistência - 13

“Não serei o poeta de um mundo caduco. 
Também não cantarei o mundo futuro. 
Estou preso à vida e olho meus companheiros. 
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. 
Entre eles, considero a enorme realidade. 
O presente é tão grande, não nos afastemos. 
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Trecho de Mãos dadas, de Carlos Drummond de Andrade, publicado no livro O sentimento do mundo, 1940

pelos muros do país


Conic - Setor Comercial Sul - Brasília, DF

fechado para balanço

 
Trecho do Artigo de Eliane Brum, escritora, repórter e documentarista, para El País, 27/10/ 2018.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

se lembra do jardim, ó maninha?

Míúcha, a irmã mais velha de Chico Buarque, com quem dividiu memórias da infância no dueto Maninha, se foi para outros jardins neste final de tarde de quinta-feira. É agora estrela salpicada de canções.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

alegoria dos mutilados


Há exatos dez anos, o repórter fotográfico Clóvis Miranda recebeu o Prêmio Esso de Fotografia com o trabalho Martírio no presídio. Publicada no jornal A Crítica, de Manaus, a foto feita durante a rebelião no Instituto Penal Antônio Trindade, na capital amazonense, mostra um dos detentos no momento em que era removido, depois de torturado.
Impactante, a imagem, como uma espécie de “sinestesia fotográfica”, lembra a bíblica e icônica cena de Cristo sendo retirado da cruz.

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

o aniversariante do dia


a história de José

“Olhe o que foi, meu bom José / se apaixonar pela donzela / dentre todas a mais bela / de toda a sua Galileia...”
Trecho de José, versão de Nara Leão da música do egípcio-francês Georges Moustaki, disco Le Métèque, 1969.
A letra faz uma espécie de clamor pela sina do bom carpinteiro ter a responsa de ser pai do Salvador, o rebento sagrado que “andou com estranhas ideias / que fizeram chorar Maria...” A letra ainda questiona o vacilo de José, pois ele poderia “casar com Débora ou com Sara / nada disso acontecia / mas você foi amar Maria...”. Há uma leitura no subtexto que o filho não era dele, e sim do Espírito Santo. José foi o primeiro “pai de aluguel”.
No Brasil a música ficou conhecida no pouco conhecido primeiro álbum solo de Rita Lee, quando ainda estava nos Mutantes, Build up, 1970, produzido por Arnaldo Baptista e Rogério Duprat.
A interpretação da futura ovelha negra da música brasileira é singela, de uma candura que remete hoje à voz minimalista da amapaense Fernanda Takai. A música entrou no disco por insistência de Rita Lee, contrariando os produtores que consideravam que “pegava mal roqueristicamente falando.”
Build up, disputado como raridade no mercado cult dos vinis, é aquele em que a cantora está com franja e fazendo um leve biquinho de menina aborrecida.
Pintura São José, o Carpinteiro, de Georges de La Tour, 1640, atualmente no Museu do Louvre.

a história de Jesus

foto Pupi Avat
“E não sei bem se por ironia ou se por amor / resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor...
Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz / me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus...”
- Chico Buarque em Minha história, gravada no disco Construção, 1971, versão de Gesù bambino, de Lucio Dalla classificada em 3° lugar no Festival de San Remo daquele ano.
Mesmo com o prêmio, ou também por isso, o autor foi censurado. A Itália vivia um tempo de turbulência sócio-política desde o começo dos anos 60, indo até final da década de 80, período que ficou conhecido como Anni di Piombo (Anos de Chumbo).
O cantor foi acusado de desrespeitoso por tratar de um tema que fala de uma mãe solteira e tem um filhinho a quem se chamava Jesus. Foi obrigado a mudar o título. Dalla colocou a data de seu nascimento, 4/3/1943. Mais direto, impossível.
No Brasil, a versão literal de Chico Buarque passou despercebida dos censores de plantão da ditadura Médici. Os néscios controladores desconheciam o que aconteceu com a canção italiana.

a história de Maria

A atriz Myriem Roussel no cartaz de Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard, 1985. Maria grávida de José. Bendito é o fruto em Vosso ventre.
Ao transportar a história bíblica para a era moderna, o filme é uma visão polêmica do cineasta sobre a virgindade, gravidez, concepção divina, indo na contramão de todas as referências e cânones religiosos.
Foi proibido no Brasil durante o governo Sarney. Diz a lenda midiática que a interdição foi um pedido de Roberto Carlos diretamente à então primeira dama.
O ‘rei’ deve ter dito depois: “je vous salue, Marly Sarney”.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

os invisíveis


chega!

Em 1995 a cantora Simone gravou o CD 25 de dezembro com doze faixas com temas natalinos. É um disco cheio de versões de clássicos como de Irving Berlin, White Christmas e Silent Nights de F. Gruber, respectivamente Natal branco e Noite feliz, além de Jesus Cristo, de Roberto e Erasmo Carlos, e Boas Festas, do grande Assis Valente.
Mas o que ficaria mesmo marcada é a indefectível versão de Happy xamas/Was is over, de John Lennon e Yoko Ono, cometida por Cláudio Rabello, por aqui intitulada Então é Natal, trilha sonora de shoppings e supermercados nesta época de Menino Jesus e presépios piscando lampadinhas led.

São 23 anos ad nauseam.
O disco vendeu mais de um milhão de cópias, chegou ao mp3 e todas as plataformas digitais.
A música do ex-Beatle é sobre a guerra do Vietnã, e usa o Natal como uma representação de final de ano, quando todos se mostram alegres e cordatos (o tal "espírito natalino"!), mas, na verdade, fica a pergunta que não quer calar em um dos versos, "and what have you done?".
Pensa-se no aspecto comercial, molda-se um adestramento religioso, mas não a essência da mensagem de resistência pacífica daquele Cristianismo com o qual John, mesmo sendo ateu, se identificava.
O título do disco de Simone, além de referenciar o homenageado que nasceu há mais de dois mil anos, a cada dezembro é um presente da cantora para ela mesma: amanhã completa 69 anos.
(O audio original é de "A felicidade não se compra / It's a Wonderful Life", de Frank Capra, 1946, um dos clássicos filmes natalinos hollywoodianos.
Na cena, a personagem de Dona Reed, depois de uma discussão com o namorado interpretado por James Stewart, quebra o disco que havia colocado para recebê-lo naquela noite.
Há vários natais que o recorte da cena virou meme nas redes sociais.
Acima, uma cópia remasterizada e colorizada)

aparelho da resistência - 12

foto Luis Magán
                                               a trini

Defender a alegria como uma trincheira
defendê-la do escândalo e da rotina
da miséria e dos miseráveis
das ausências transitórias
e das definitivas

defender a alegria como um princípio
defendê-la do pasmo e dos pesadelos
dos neutros e dos nêutrons
das doces infâmias
e dos graves diagnósticos

defender a alegria como uma bandeira
defendê-la do raio e da melancolia
dos ingênuos e dos canalhas
da retórica e das paradas cardíacas
das endemias e das academias

defender a alegria como um destino
defendê-la do fogo e dos bombeiros
dos suicidas e dos homicidas
das férias e do cansaço
da obrigação de estar alegres

defender a alegria como uma certeza
defendê-la da ferrugem e da sujeira
da famosa pátina do tempo
do relento e do oportunismo
dos proxenetas do riso

defender a alegria como um direito
defendê-la de deus e do inverno
das maiúsculas e da morte
dos sobrenomes e das lástimas
do azar
e também da alegria.

Defesa da Alegria, do poeta uruguaio Mario Benedetti (1920-2009), publicado no livro Cotidianas", 1979.
foto Luis Magán

e o que você fez?

Um jovem casal com o casamento em crise, um pai cheio de ressentimentos vivendo com uma mulher em perturbado estado alcoólico, garotos saídos da adolescência em permanente conflito e cobranças, carentes de afeto... E um homem de meia idade, sobrevivido de um passado complicado, empregado de um ferro-velho, tentando refazer sua vida. Ele chega a esse seu núcleo familiar em plena noite de Natal, e o que seria uma confraternização, mostra-se um desfilar de escamações. Troca de mágoas, queixas, dissabores em vez de troca de presentes. À mesa, um cardápio de pesares, compunções e desconsolos dá lugar à tradicional ceia de boas festas. Não há o ritual de amigos secretos, e sim, de inimigos íntimos.

Com esses personagens, situações e ambientações, desenvolve-se o roteiro de um filme denso, sombrio e verdadeiro: Feliz Natal, longa-metragem de estreia como diretor do ator Selton Mello, em 2008.
A construção narrativa é claramente influenciada por cineastas “contraventores” dos bons costumes de filmes que não fazem concessão à mesmice, não compactuam com o lugar-comum de um cinema dopante, como fazem a argentina Lucrecia Martel e os norte-americanos Paul Thomas Anderson e John Cassavetes. Selton Mello segura firme na direção, demonstra o mesmo talento que tem à frente das câmeras, anuncia-se como um cineasta que não vai usar o seu nome, talento e reputação com filmecos de dramaturgia televisiva, o que se confirmou com os ótimos O palhaço, 2011, e O filme da minha vida, 2017.
Feliz Natal, com destaque para as atuações de Darlene Glória e Lúcio Mauro, ganhou apenas um prêmio em festivais, o de fotografia para Lula Carvalho, em Paulínia, e não teve grandes números em bilheteria. Apesar do reconhecimento da crítica, é um filme lamentavelmente subestimado, errônea e apressadamente visto como uma exposição da condição humana sem saída, através da célula familiar, quando é exatamente a sinceridade do discurso que se propõe à reflexão, e que estejamos sempre atentos. Essa é a função sagrada da arte: espelharmo-nos para nos repararmos. A arte não condena, esmiúça nossas vísceras para que continuemos juntos, talhando e aprimorando nossa convivência neste mistério chamado vida.
Selton Mello ambienta seu filme justamente no contexto de uma noite onde a hipocrisia tem seu formato mais acabado, descrevendo uma conjuntura do cerne familiar como personificação de todas as relações humanas. Afinal, as grandes guerras começam entre quatro paredes, entre marido e mulher, entre irmãos, entre amigos. O amor também.

domingo, 23 de dezembro de 2018

aparelho da resistência - 11

foto Bernardo Costa
Quem não estiver seriamente preocupado e perplexo
não está bem informado.

- Disseram na Câmara, de Francisco Alvim, incluído na coletânea 50 Poemas de Revolta, organização Alice Sant'anna, Companhia das Letras, 2017.

sertão de Canindé

foto © Edson Belarmino, distrito de Campos, Canindé, CE
Ai, ai, que bom
Que bom, que bom que é
Uma estrada e uma cabocla
Com a gente andando a pé...

Trecho da música Estrada de Canindé, de Humberto Teixeira e Luiz Gonzaga, gravada no disco O torrado/Estrada de Canindé, 1949.

sábado, 22 de dezembro de 2018

I'll sing you a song

Os sete minutos de Joe Cocker no filme Woodstock, de Michael Wadleigh, cantando With a little help from my friends, é um dos momentos mais marcantes do documentário sobre os três emblemáticos dias de paz, música e amor.
O vozeirão do cantor britânico, com essa mesma canção dos seus conterrâneos Beatles, do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, 1967, marcou igualmente pela abertura da série americana Anos Incríveis (The Wonder Years), que a TV Cultura exibia nos anos 90.
Joe Cocker, com sua voz gutural, sua performance energética, e seu tipo de anti-herói viking, era doce na mesma proporção quando falava de canções, de sua vida, de sua infância na Inglaterra, e como conseguiu superar os problemas com álcool e drogas nos anos 70.
Quatro anos hoje que ele partiu para outros Woodstocks.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

postal de amor



"Eu todo cheiroso a Lancaster e você a Chanel..."
- Reginaldo Rossi, em A raposa e as uvas, gravada no disco homônimo, 1982.
O chamado "rei do brega" imitava Elvis Presley em Recife no começo dos anos 60, influenciado pelos Beatles criou The Silver Jets e abria os shows de Roberto Carlos na época da Jovem Guarda.
Mas foram as canções de apelo popular, diretas na veia dos excluídos pela mulher amada, que fizeram a marca e notoriedade do cantor, em quase quarenta discos, principalmente nos anos 70 e 80.
Depois de um tempo afastado do que se chamava "hit parade", o retorno nos anos 2000 veio com tudo, trazendo o sucesso de 1987, Garçom, aquela canção que reverencia o santo paciente, que ouvia e consolava no confessionário do balcão de bar os bebuns apaixonados, os maiores abandonados, os chatos reincidentes.
A música além de ser trilha de uma novela na Record, foi regravada por cantores que deram uma aura "cult" na interpretação, como Otto, no álbum Reginaldo Rossi - Um Tributo, 1999, e Filipe Catto, no disco Fôlego, de 2011, que chegou a cantar no palco do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e Coral Lírico, na comemoração dos 45 anos da Fundação Clóvis Salgado, em 2015.
Reginaldo teria adorado ver e ouvir seu garçom em ambiente tão requintado, numa interpretação afinadíssima de Filipe Catto. Mas o cantor faleceu em 20 dezembro de 2013, aos 69 anos.
E no clima de requinte, Reginaldo merece esse postal francês dos anos 20, todo cheiroso a Lancaster.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

olhos que inspiram

Uma senhora de noventa e nove anos em um ônibus, a caminho de casa onde ninguém a aguarda. Ela tem olhos azuis, belos e inalterados, de onde ilumina ainda sua juventude. Seu chapéu revela o bom gosto de antes e sempre. Para descer do coletivo, é lento e torturante. Mas ela tem belos e inalterados olhos azuis que dizem o que ela queria ser quando crescer: sempre jovem.
É o que diz a letra de Blue eyes unchanged, canção da cantora, compositora e instrumentista canadense Michelle Gurovith, gravada em seu disco de 2014, Lets Part In Style.
Filha de imigrantes russos, a autora tem como marca em suas composições a cadência minimalista, que alguns críticos costumam rotular de “slowcore”, uma fusão do indie rock, rock alternativo, e outras nomenclaturas que muitas vezes colocam o trabalho autoral num subgênero. Michelle Gurovith é muito mais na cena musical contemporânea, mais autêntica do que essas classificações. A voz grave que conduz uma interpretação suavemente recitada, evoca influência do compatriota Leonard Cohen, um pouco de Serge Gainsbourg, uns arranjos inspirados no búlgaro Todor Kobakov e nas trilhas de Francis Lai e Nino Rota. Essas citações não tiram a genuinidade da cantora, que tem seis ótimos discos e turnês lotadas por onde passa.
O relevante e acentuado em suas letras é a observação do cotidiano, o flagrante e a reflexão do tempo nos transeuntes solitários, o irrefutável anônimo onde nos espelhamos com suas dores e esperança, a história que consegue captar em segundos sobre olhos azuis inalterados, como fez com a senhora que lhe deu inspiração em um ônibus em Toronto.
No vídeo, colagem de duas apresentações na Europa.

je ne regrette rien

foto Jean Philippe Carbonier, 1957
Edith Piaf interpretava e vivia cada palavra que cantava. Derramava seu coração em cada nota.
Non, je ne regrette rien, letra belíssima de Michel Vaucaire, musicada por Charles Dumont, é a gravação ícone da cantora, de 1960, e, sem dúvida, a canção que melhor exprime seu jeito de amar, viver e de ir embora.
Hoje 102 anos de seu nascimento, sem arrependimentos, mesmo ao contrário do que dizia em outra canção marcante, “je vois la vie en rose...”, mesmo e apesar dos poucos e intensos 47 anos idos.

elogio ao poeta

Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas). 
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado. 
Sou fraco para elogios.

― Manoel de Barros, trecho do poema Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo, publicado no livro homônimo, 2001.
Hoje 102 anos significantes de seu nascimento.

compasso de espera

Certa vez, alguém parabenizou Marcello Mastroianni pelos seus 40 anos de cinema.
- 40?! Não. De cinema mesmo, só foram uns 5. Os outros 35 eu passei esperando para filmar... - esclareceu o grande ator, 22 anos hoje que se foi para outros sets.
Acima, Mastroianni no intervalo de Oito e meio (Otto e mezzo), de Federico Fellini, 1963.

terça-feira, 18 de dezembro de 2018

aparelho da resistência - 10

foto Karime Xavier

quando você viu na tv
aquelas pessoas em fila na chuva
à noite numa estrada

na fronteira de um país que não as deseja

e quando você viu as bombas
caírem sobre cidades distantes
com aquelas casas e ruas
tão sujas e tão diferentes

e quando você viu a polícia
na praça do país estrangeiro
partir pra cima de manifestantes
com bombas de gás lacrimogêneo

não pensou duas vezes
nem trocou o canal
e foi pegar comida
na geladeira

não reparou o que vinha
que era só uma questão de tempo
não interpretou como sinal a notícia
não precisou estocar mantimentos

agora a colher cai da boca
e o barulho de bomba é ali fora
e a polícia parte pra cima dos teus afetos
munida de espadas, sobre cavalos.

Porto Alegre, 2016, de Angélica Freitas, incluído na coletânea 50 Poemas de Revolta, organização Alice Sant'anna, Companhia das Letras, 2017.

arte e poder

"Os interesses do Estado e das artes raramente coincidem"
Fala do filme Francofonia, de Alexander Sukorov, 2015, um exemplar de considerações sobre arte e poder em uma fluente narrativa de documentário e ficção.

Os temas que se entrelaçam nas relações humanas e artísticas, da política e da história, da bestialidade das guerras e da eternidade da arte, têm o Museu de Louvre como guarda e detentor simbólico da civilização.
Uma oportuna reflexão para hoje quando se comemora o Dia do Museólogo.
No dia 2 de setembro passado um incêndio destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Rio de Janeiro. Fundado por Dom João VI no começo do século 19, os três andares abrigavam 200 anos de história. Documentos da época do Império, fósseis; coleções de minerais, artefatos greco-romanos e a maior coleção egípcia da América Latina viraram cinzas. A memória da geologia, botânica, zoologia e arqueologia. É o retrato do descaso do Brasil atual.
Acima, os atores do filme de Sukorov, Louis-Do de Lencquesaing e Benjamin Utzerath, respectivamente o diretor do Louvre, Jacques Jaujard, e Conde Wolf-Metternich, general da ocupação nazista em Paris.

Keith rock and roll

A figura emblemática do estilo musical surgido nos EUA no final dos anos 40, de uma lista bastante seletiva, é o guitarrista Keith Richards, pela musicalidade, comportamento e todos os etc e tais...
Hoje ele completa 75 anos de pedras rolantes.
Acima, a guitarra La Pirata, projetada especialmente para o aniversariante pela Teye Master Guitars.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

cinema em transe

foto Danilo Verpa
Em Bang bang, de Andrea Tonacci, 1970, um cineasta durante a realização de um filme enfrenta diversas e bizarras situações. A realidade dentro de uma ficção e a ficção em conflito com a realidade.
Essa é a síntese do cinema de Tonacci, desde seu primeiro curta-metragem, Olho por olho, de 1966, seguido do média Blá-blá-blá, até o belíssimo Já visto jamais visto, 2014, seu último e sintomático trabalho no qual o cineasta revisita suas memórias com registros inéditos de imagens de família, viagens, projetos inacabados...
Italiano radicado no Brasil, o cineasta é o mais importante nome do que se denominou Cinema Marginal Brasileiro, movimento que se desenvolveu nos anos 70, que seguia uma linha em contraponto ao Cinema Novo pulsante da década de 60, mas que apontava em comum aspectos, fragmentos e passagens relevantes, como um cinema feito com baixo orçamento, a estrutura autoral e personagens exasperados à beira do extremo. Um cinema que se juntava às vertentes pensantes e entrava em transe na terra do sol contra a mesmice.
Aos 72 anos, Andrea Tonacci faleceu em dezembro de 2016 depois de uma luta contra um câncer.
2016, o ano que vivemos em perigo, e parece não acabar mais de tanta noticia ruim de lá pra cá. Um ano visto jamais visto.

sodade...

Oito anos sem o canto perfumado da cabo-verdiana Cesária Évora. Oito anos sem seu canto criolo, a caminho longe para São Tomé.

domingo, 16 de dezembro de 2018

resistência da memória

“Estou convencido que a memória tem a força da gravidade. Ela sempre nos atrai. Os que têm memória são capazes de viver no frágil tempo presente. Os que não a tem, não vivem em nenhuma parte.”
- Patricio Guzman, cineasta chileno, em seu filme Nostalgia da luz (Nostalgia de la luz), de 2010, documentário sobre os assassinados pelo regime de Pinochet.

No alto do deserto de San Pedro de Atacama, ao lado do imenso observatório onde astrônomos pesquisam pontinhos nas galáxias em busca de vida extraterrestre, mulheres catam pedacinhos de ossos de seus parentes enterrados pela ditadura.
Uma simetria precisa, simbólica e reflexiva de duas realidades.

luar no Porto

A cantora e compositora Mona Gadelha coordena o Laboratório de Música do Porto Iracema das Artes, em Fortaleza, onde a atriz Alice Braga esteve recentemente participando do Pitching de Roteiros do Laboratório de Cinema do Centro de Narrativas Audiovisuais.
Na fotografia, as belezas de duas meias luas: uma lua inteira brilhando.

The New York Company - Downtown

intervenção urbana em estêncil: Banksy
Nem um poema sai
sobre esses prédios
sobre essas nuvens

cúmplices do cimento
e o espírito gelado desses homens.

Nas tubulações a fumaça
não aquece nem disfarça
o mergulho raso nesses dias
à beira do Hudson
do World Trade Center
dos sanduíches no Sacks
e as comidas empacotadas com a alma.

A ilusão esvoaça
nessa Babel de rostos:
chineses
japoneses
mexicanos
alemães
(americanos)
- em princípio reunidos -
não se veem,
são peças de um cenário
dividido
no leitmotiv da pressa
no que não mastigam da existência
sempre “later", "in a hurry"
e a máscara da ordem
"don't worry"

Polícias, buildings, papers, 
removables notes,
Wall Street na mão
24 horas à disposição dos chefes
em qualquer cordial setor
das agências de banco
nos cafés onde o amor 
é o último a chegar
e permanece
- ferida em aberto –
para o fim da vida.

Também em Nova Ioque
queremos ser felizes pelo avesso.
Mas felicidade a esse preço
eu agradeço.

- Suzana Vargas, poeta e escritora gaúcha, professora de Teoria Literária na UFRJ, em seu livro Caderno de Outuno e outros poemas, 1997.

the walking dead

Desde 2015 uma empresa norte-americana chamada Human Resurrection Trough Artificial Intelligence-HUMAI, trabalha em um projeto para ressuscitar seres humanos com o uso de inteligência artificial no não tão longe ano de 2045.
Não, não é roteiro de mais um desses filmes em multiplexes de shoppings.

Os caras estão gastando uma grana alta com a ideia. Eles planejam usar criogenia, que é um ramo da físico-química para congelar cadáver, e dessa forma armazenar o cérebro com suas memórias após a morte.
Muitos serão chamados. Poucos os e$colhido$.