segunda-feira, 28 de agosto de 2017

a lua é minha e é sua

Depois de parcerias com Calé Alencar, Ricardo Augusto, Mona Gadelha, Lucio Ricardo, Nelson Araya, Bernardo Neto, Diassis Martins, Roberto Mendes, meu encontro com Parahyba de Medeiros num reggae-xote suave...


"O sarau da Cia. Bate Palmas aposta na festa e na alegria como força transformadora, incentivadora do abraço, do encontro, da criação individual e coletiva, da produção e fruição da poesia. Alegria que gera o encontro, que por sua vez gera a transformação. Alegria como um bem social, como produção de vida, como força revolucionária. Queremos ser alegres. Temos direito à alegria!" (Cia. Bate Palmas)


Gravação no Sarau Palmeira das Artes, 20/5/2017, Fortaleza-CE
Imagens/Vídeo: Bete Augusta
Edição: Parahyba de Medeiros

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Catarina II da Rússia e Dom Rodriguinho II

o aviãozinho que não pode dizer o seu nome


domingo, 27 de agosto de 2017

assim descaminha a humanidade

Há 158 anos, numa tarde de 27 de agosto, o empresário norte-americano Edwin Laurentine Drake, conhecido como "Coronel Drake", fez jorrar o líquido negro das entranhas de 23 metros de profundidade. Ele construiu a primeira torre de petróleo do mundo, na região centro-atlântico da Pensilvânia, hoje um dos estados mais industrializados e urbanizados dos EUA.
Naqueles meados do século 19, o posteriormente chamado "ouro negro" era apenas um mero, mas bem-vindo, combustível para acender lamparinas. Não demorou muito, quase nada no tempo, para o precioso líquido ser destilado com mais precisão e produzir carburantes como querosene e etc e tal. O resto é história. Bem sabemos. E bebemos diariamente o óleo nosso de cada dia em que morremos. Até isopor é derivado de petróleo.

A cena abaixo é de Giant, de George Stevens, rodado em 1955, no Brasil adequadamente intitulado Assim caminha a humanidade.
Baseado em um romance pouco reconhecido de Edna Ferbes, o filme é ambientado no Texas, no começo dos anos 20, e narra a história de várias gerações de uma mesma família, tendo como pano de fundo as mudanças de um país com a descoberta e consolidação do tal “ouro negro”.
Costurado com a conflituosa relação amorosa entre três personagens, vividos por Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean, a narrativa consegue de forma magnífica mostrar a "involução" do ser humano em analogia com o que seria "evolução" e progresso com o advento do petróleo.
A produção, por outro lado, foi divulgada como um legado contra a intolerância racial, por pontuar essa contenda entre alguns personagens. Mas o filme – quando Hollywood fazia Cinema mesmo -, vai muito além disso.
Giant não trata somente das divergências raciais: avança na dissecação desse rebanho humano que segue nas relações amorosas, familiares, nas disputas econômicas, sem medir esforços e dispostos a desconhecer valores de grandeza do combustível que jorra do coração das pessoas.
Algo como cada um por si e Deus (ou o diabo) contra todos – parafraseando a frase de Mário de Andrade, usada em Macunaíma, e aproveitada como título original no filme de Werner Herzog, O enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott), 1974.
Assim caminha a humanidade, foi o último filme de James Dean. É a sua melhor atuação, entre os três em que trabalhou, Juventude transviada (Rebel without cause), de Nicholas Ray, e Vidas amargas (East of Eden), de Elia Kazan.
O belo, carismático e mítico ator faleceu aos 24 anos, quando Giant ainda estava sendo montado. James Dean não viu até que ponto a humanidade descaminhou.

o dom do samba

foto Mariana Beltrame
“O samba é meu dom / Aprendi bater samba ao compasso do meu coração...”
Assim se apresenta o cantor, compositor e grande baterista Wilson das Neves, em O samba é o meu dom, faixa de abertura de O som sagrado de Wilson das Neves, 1996, o sexto dos dez discos autorais em 50 anos dedicados à música brasileira.
Das Neves entregou a melodia a outro gênio, o letrista, aliás, o poeta Paulo Cesar Pinheiro, que lhe devolveu a belíssima composição em que exalta “o samba de pé no chão”, a paixão pela escola Império Serrano, o Brasil de Sinhô, Jamelão, Ataulfo Alves, Donga... o Brasil bandeiro do próprio Wilson das Neves, a elegância do samba que se foi ontem aos 81 anos.
Luiz se foi um dia desses com sua melodia... ainda tentando entender em que absurdo de ano que estamos... e agora o mestre Wilson silencia seu batuque, descompassa de saudade o coração do nosso samba.

o samba no cinema

O compositor, cantor e grande baterista Wilson das Neves, falecido ontem aos 81 anos, continuará eterno também do cinema. O cineasta mineiro Cristiano Abud prepara o documentário O samba é meu dom, sobre a vida e obra do artista.
O longa teve as filmagens iniciadas em 2009, e durante quatro anos a equipe rodou mais de 30 horas de imagens com entrevistas, shows, material de arquivo, acompanhando o sempre bem-humorado e elegante Wilson das Neves em diversas situações e locais, em casa, nos palcos, na Marquês de Sapucaí, ao lado de parceiros de canções e trabalho, como Chico Buarque.



Selecionado para programa Rumos 2015-2016, do Itaú Cultural, o cineasta finaliza o filme para ganhar novos rumos ainda este ano.

Como dizia o bordão do compositor, “Ó sorte” da música brasileira ter um Wilson das Neves!

o tema do enredo vai ser a cidade partida

Paulo César Pinheiro mais que um dos maiores letristas da música brasileira, é um grande poeta que sabe com uma beleza cativante unir suas palavras à melodia de nossos compositores. São mais de duas mil canções com mais de 120 parceiros.
Neste domingo vespertino de samba e saudade, uma de suas obras-primas gravada em um disco já clássico, e muito adequadamente intitulado O Som Sagrado de Wilson das Neves, de 1996.
No vídeo abaixo, o encontro de duas gerações, que se espelham e reverberam o talento de nossa música em todos os gêneros: das Neves e o rapper Emicida, dividindo na mesma cadência o compasso do samba e do coração, dissecando a geografia atualizada da letra que alerta para o dia em que o morro descer e não for carnaval. Melhor é o poder devolver à esse povo a alegria, lembra.

botetim de ocorrência


sábado, 26 de agosto de 2017

o sopro do pássaro

foto Alberto Jonquiéres, 1967
No ótimo conto O perseguidor, de Julio Cortázar, publicado em 1958, na coletânea As armas secretas, o personagem Johnny é um dos maiores saxofonistas do mundo, criando um estilo de jazz que não se consegue definir com clareza, tocando o coração de todos com sua música. O outro lado do homem é um Johnny extremamente perturbado, viciado em drogas, perde seu saxofone no metrô de Paris, e se desespera por não ter como comprar outro para o show que fora contratado na capital.
O conto foi diretamente inspirado no músico americano Charles Parker. Cortázar, que hoje faria 103 anos, era fã de jazz e apaixonado pela música de Bird, assim apelidado o saxofonista, título do filme biográfico dirigido por Clint Eastwood em 1988, com a atuação perfeita de Forest Whitaker.
O escritor argentino surpreendia quando improvisava com o trompete. Não à toa a narrativa da prosa de Cortázar tem elementos rítmicos de música. Ele aspirava na literatura a liberdade criativa do jazz.
foto Alberto Jonquiéres, 1967

quarta-feira, 23 de agosto de 2017

vogais e consoantes

Morre dono da OAS que ia delatar membros do STJ e STF.

Como bem ironizou Zeca Ferreira sobre o que diriam os arquitetos do golpe, "tem que ser alguém que infarte antes de delatar".

Nelson desde menino

"Sou um menino que vê o amor pelo buraco da fechadura. Nunca fui outra coisa. Nasci menino, hei de morrer menino. E o buraco da fechadura é, realmente, a minha ótica de ficcionista. Sou (e sempre fui) um anjo pornográfico (desde menino)."


Há 105 anos nascia Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo. Sua peça Vestido de Noiva, de 1943, com a direção ousada de Zbigniew Ziembiński, trouxe uma renovação nunca vista no teatro brasileiro.



Implacável cronista da mediocridade pequeno burguesa, Nelson tinha um humor ferino em suas frases geniais. Polêmico, íntegro em seus pensamentos, ele veio para chacoalhar a obviedade ululante.

sábado, 19 de agosto de 2017

o ator

O grande Amâncio Fregolente disse uma vez em entrevista que se morresse no palco, durante uma peça, quem morreria seria o personagem e não ele, tamanha era sua entrega numa atuação. De formação teatral rodrigueana, largou a medicina aos 33 anos para se dedicar a mais de cem papeis no cinema e no tablado.
Hoje, Dia do Ator, a minha mais profunda admiração a todos que vivem outros seres humanos em seu trabalho. Extrair de si outra vida numa interpretação tem o mesmo significado de um parto, de dar à luz, de insistir na esperança, de reverberar a pulsação.
Em 1979 Fregolente participava da comédia musical Amante latino, de Pedro Carlos Rovai, contracenando com Anselmo Vasconcelos, Monique Lafond, Sidney Magal, Elke Maravilha... Sentiu-se mal nas filmagens e faleceu de infarto, aos 66 anos, justamente o dobro da idade de quando começou. Ou seja, faleceu seu personagem, justamente o duplo de si.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

era de Aquário

"Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música", assim foi anunciado o maior evento da música popular, o Woodstock, que começou em 14 de agosto de 1969, na cidade de Bethel, estado de Nova York.
Uma multidão de mais 400 mil pessoas com o dedo em V, cabelo ao vento, gente jovem reunida, e o cartaz de mais de trinta músicos... Jimi Hendriz, Janis Joplin, Richie Havens, Arlo Guthrie, Joan Baez, Santana, Creedence Clearwater Revival, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Johnny Winter, Crosby, Stills, Nash & Young, entre outros.
Muitos recusaram os convites, pelos mais variados motivos. Dos Beatles, dizem que John Lennon exigiu que tocasse com ele a Plastic Ono Band; Led Zeppelin achou que seria apenas mais uma banda se apresentando; o inocente empresário do Jethro Tull argumentou que teria muita droga e sexo; The Doors não foi porque falaram que Jim Morrison estava inseguro diante tanta gente; o filho de Bob Dylan adoeceu poucos dias antes...
Woodstock ficou marcado como um retrato comportamental, exemplificou a era hippie e a contracultura do final dos anos 1960 e começo de 70. E isso não é pouco.

24 quadros por segundo

Em um preciosismo trabalho de edição, vários personagens de filmes ícones do cinema contemporâneo se encontram no mesmo lugar. Fora do tempo. Fora da lógica. Dentro do tempo. Dentro da lógica. Cinema!


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

cara, crachá

“A minha relação com Deus sempre foi uma relação muito íntima. Eu nunca tive Deus separado de mim. Eu e Deus, não existe religião aqui”, disse o ator Paulo Silvino, em entrevista em 2012.
Famoso por seus papeis humorísticos em programas de televisão, Paulo ficou no imaginário popular como o porteiro Severino e o bordão “Cara, crachá”, do Zorra total.
Ele se foi hoje, aos 79 anos. Íntimo de Deus, o querido comediante está bem acolhido, não precisou mostrar crachá. Fica nossa cara de saudade...

no meio do calçadão

No meio do calçadão tinha o Drummond
tinha o Drummond no meio do calçadão
tem o Drummond

no meio da minha vida tem o Drummond...

Nunca me esquecerei de que naquele 17 de agosto, há 30 anos, você partiu de vez pra Itabira.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

subindo aos céus

De acordo com a crença Cristã, Maria mãe de Jesus teria morrido enquanto dormia em 15 de agosto de 43 d.C. “Acordou” quando estava sendo levada aos céus por anjos. Essa subidinha ao paraíso é chamada de “assunção” porque Maria só teve acesso à casa do Pai depois de morta e ressuscitada, ao contrário do Filho, que com seu próprio poder e sacrifício com esta humanidade ingrata teve acesso ao Paraíso ainda vivo.
Entre Mãe e Filho há essa diferença para o Catolicismo: Ascensão de Nosso Senhor e Assunção de Nossa Senhora.
Em Fortaleza, capital cearense, o Forte de Nossa Senhora de Assunção remonta à época da segunda invasão dos holandeses ao Brasil. A primitiva estrutura de longas e altas paredes brancas foi erguida por eles em meados do século 17, estrategicamente ao lado rio Pajeú que vai bater no meio mar.
A Coroa Portuguesa que já estava por aqui há mais tempo, tinha ultrapassado a fase de estágio probatório, digamos, ergueu suas armas e expulsou os holandeses, apossando-se do forte e denominando-o Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, possivelmente por ter em Portugal, mais precisamente na província de Trás-os-Montes e Alto Douro, uma grande devoção à Virgem Maria, onde hoje é feriado. Na capital cearense também. 
E os bares estão cheios desde ontem, véspera de acordar tarde.

Acima, pintura Assunção da Virgem, 1616, do alemão barroco Peter Paul Rubens. Atualmente a obra está no Museu Real de Belas-Artes, Bélgica.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

a alma do cinema

“Não são as imagens que fazem um filme, mas a alma das imagens”
A frase é de Abel Gance (1889-1981), cineasta francês.
Mais do que um pioneiro, foi um visionário na história do cinema. Criou a Polyvision, sistema embrionário de projeção de filmes que viria a se chamar Cinerama, que consiste em tela tríplice. Graças a esse recurso ele exibiu seu clássico Napoleón, rodado durante quatro anos, com três câmeras simultâneas, principalmente as sequências abertas de batalhas.
Na exibição foram usados três projetores separados que jogavam em cada tela cenas que se interligavam, dando a sensação volumosa de realidade. Isso em 1926!


Três anos depois Abel lançou o som estereofônico.
Considerado um lírico do cinema, Abel Gance atravessou duas guerras com o olho na câmera. Utilizou a tecnologia a favor da temática histórica e de uma dramaturgia impressionista, características que se pode comprovar numa filmografia de mais de vinte títulos.
O citado Napoleón, sua obra-prima, foi remontado e revisto na década de 30 e 70. Em 1979, o cineasta Francis Coppola relançou o filme com uma nova cópia e trilha sonora criada por seu pai, Carmine Coppola.
Abel sabia o que dizia, pois captava a alma das imagens.

tanque vazio, saco cheio!


o deserto de cada dia

Metrô lotado. Braços e corações pendurados no balanço subterrâneo. Todos ilhados em seus smartfones, iPhones... O vagão é um deserto pulsante.

sábado, 12 de agosto de 2017

o silêncio

“Nenhum som teme o silêncio que o extingue. E não existe silêncio que não seja prenhe de som.”
Passa-se a vida inteira não para compreender, mas para sentir a grande música experimental e poética de John Cage.
Acima, o compositor e teórico musical fotografado por Henning Loehner, um ano antes de seu silêncio, em 12 de agosto de 1992.

ser

"Poesia não é para compreender,
mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.”

- Manoel de Barros, do livro "Gramática expositiva do chão: poesia quase toda", p. 212, 1990

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

a Bahia tem um jeito...*

A bandeira do Estado da Bahia foi criada pelo médico Diocleciano Ramos, em 1889. Fortemente inspirada nas cores norte-americanas, tem um triângulo evocativo ao símbolo maçônico.
Projeto recente da Associação Desportiva dos Arremessadores de Ovos propõe substituir e atualizar o aplicativo do desenho triangular por um oval, tornando-se, assim, mais representativo ao jeito de ser do povo baiano...

* Caetano Veloso em "Terra", 1978.

o mundo de Robin

Robin Williams aos 31 anos, em uma cena de O mundo segundo Garp (The world according to Garp), de George Roy Hill, 1982.
O ator se foi aos 63, há três anos hoje.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

flauta progressiva

O moço roqueiro acima é o escocês Ian Anderson, flautista maluco beleza do Jethro Tull, em show lá nos anos 70.
A banda inglesa, formada em 1967 e que durou até 2011, incorporou ao rock progressivo elementos do folk, jazz, hard rock e da música clássica. Inesquecível a combinação com rock que Anderson fez de Bourrée em E menor, peça para alaúde de Johann Sebastian Bach, gravada no segundo disco de estúdio, Stand Up, 1969.
Na foto abaixo, o músico completando 70 anos hoje. Vão-se os cabelos, fica a flauta.

doriatrix reloated


domingo, 6 de agosto de 2017

sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada...*

Há exatos 72 anos, às 8h15 do dia 6 agosto, a bomba "Little boy" foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, matando instantaneamente mais de cem mil pessoas.
O local de 350 mil habitantes tinha um porto militar insignificante. Não havia necessidade para o ato. O Japão já estava derrotado, sem condições para a continuidade da guerra, com fábricas militares destruídas.
* Vinicius de Moraes em Rosa de Hiroshima, publicado em Antologia Poética, 1954.