terça-feira, 31 de outubro de 2017

cometa Drummond

“No ar frio, o céu dourado baixou ao vale, tornando irreais os contornos dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saímos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo.”
Assim registrou em seu diário o pequeno Carlos aos 7 anos de idade, quando e como viu deslumbrado o cometa Halley passar nos céus de Itabira, em 18 de maio de 1910.
Hoje 115 anos de nascimento de Drummond de Andrade.
Naquela noite do último dia de outubro de 1902, um anjo desses que vivem nas montanhas de Minas, disse: vai, Carlos! ser engenhoso e belo na poesia.

domingo, 29 de outubro de 2017

navio espacial

Ana Cristina César em A teus pés, publicado em 1982.
A poeta nascida em Niterói é uma das mais importantes da chamada geração do mimeógrafo na década de 70.
Ano passado foi a homenageada na Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), no mês em que faria 64 anos.
Hoje completam 34 que se foi, ainda na adolescência de seus 31 anos.

as canções que eles fizeram pra nós

A cantora e compositora Mona Gadelha (en)canta clássicos da música cearense em passeio pela praia lírica de Fausto Nilo, Rodger Rogério, Ednardo, Fagner, Ricardo Bezerra, Brandão, Belchior, Caio Braz, Graco Braz Peixoto, Petrúcio Maia, Augusto Pontes, e tantos outros que estão em nossa memória afetiva.
O show de hoje no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, com a participação luxuosa de Fernando Moura, tem como base o disco que Mona gravou em 2011, Praia Lírica, Um Tributo à Canção Cearense dos Anos 70.

sós

Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da *solistência."
- Guimarães Rosa

*Termo usado pelo escritor mineiro para definir a solidão da existência de tudo que vive.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Belchior, 71

foto Mário Luiz Thompson
Belchior aos 28 anos na capa de seu primeiro LP, Mote e glosa, 1974.
Ele teria hoje 71 anos de sonho e de sangue e de América do Sul.

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

ensaio sobre o amor

“Vivi tudo o que vivi para poder chegar até ela. A Pilar deu-me aquilo que eu já não esperava vir a ter”.
Assim se expressou José Saramago sobre o grande amor de sua vida.
A jornalista, escritora e tradutora espanhola Pilar Del Rio tinha 36 anos quando conheceu e casou-se com o escritor português.
Leu todos os seus livros e apaixonou-se pelo escritor. Pediu para conhecê-lo e amou homem.
Por 24 anos viveram um para o outro e os dois para a literatura.
O ótimo documentário “José e Pilar”, de Miguel Gonçalves Mendes, lançado cinco meses depois da morte de Saramago, em 2010, é um ensaio sobre o amor de personagens que são o amor por si só.

terça-feira, 24 de outubro de 2017

fonte da juventude

foto Andre de Dienes
Em 1945, aos 20 anos de idade, a então modelo pinup Norma Jeane, desfez o casamento com o jovem escritor e policial James Dougherty, quatro anos a mais, e partiu para o México, em companhia do namorado Andre de Dienes, fotógrafo húngaro de 32 anos, pioneiro em imagens de nus artísticos na então aparente conservadora América.
Enquanto o mundo ainda fumaçava nos escombros da Segunda Guerra, a futura e mítica atriz Marilyn Monroe fez um dos seus melhores ensaios fotográficos. Muitas dessas fotos não são tão conhecidas. Captam muito bem o que Dienes viu na beleza e fonte de juventude daquela garota cheia de vida.
Os ensaios do namorado fotógrafo despertaram a atenção dos estúdios hollywoodianos. Marilyn recebeu convites para pequenos papéis, mas que se destacaram pelo encanto e carisma, como a garçonete Evie de Idade perigosa (Dangerous years), de Arthur Pierson, 1947, um singelo e sintomático drama sobre um restaurante à beira de estrada, que deixa os moradores da cidadezinha preocupados com a má influência para seus filhos.
Mesmo conhecida por interpretar sex symbols, mulheres fatais etc e tais, a atriz seguiu carreira escolhendo muito bem seus filmes. Billy Wilder, que a dirigiu nos ótimos O pecado mora ao lado (The seven year itch), 1955, e Quanto mais quente melhor (Some like it hot), 1959, diz em Marilyn Monroe – A biografia, de Donald Spoto, 2001, que “é preciso ser um verdadeiro artista para vir ao set sem lembrar nada e ainda ter o desempenho que ela teve".
Da doce e sensual garçonete de seu primeiro filme à lânguida interpretação da canção no aniversário de Kennedy, Marilyn já desenhava o que seria um ícone popular da cultura como atriz, graça e formosura.

palavra de amor

Julio Cortázar, em Papeles inesperados.
Esse belíssimo livro póstumo são manuscritos inéditos, escritos entre 1930 e 1980 e descobertos no final de 2006.

despertarse

Marwan, poeta e cantor espanhol, do livro La triste historia de tu cuerpo sobre el mío, 2011.

sexta-feira, 20 de outubro de 2017

o poeta no seu dia

Hoje, 20, Dia do Poeta, um abraço no poeta de primeira  Climério Ferreira, lançamento do livro Poesia de quinta.

o nosso amor a gente inventa

"É preciso reinventar o amor, toda a gente sabe."
- Arthur Rimbaud

A alma inquieta do poeta, um dos mais forte do Simbolismo francês, se foi aos 37. Aliás, não foi, continua nas paredes da memória, reinventando-se em cada verso lembrado. Hoje ele faria inimagináveis 163 anos, traficando sonhos.
Acima, arte urbana com a imagem do poeta, de Ernest Pignon, Paris, 1978.

quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Vinicius, 104 anos

Para o amor
e outros precipícios
nada melhor do que Vinicius.

104 anos do poetinha.

poeta de primeira

“Quisera escrever um verso tão pequeno
que coubesse no coração de todo mundo”

Assim Climério Ferreira  começa o poema Desejo I, traduzindo o conceito afetivo do seu novo livro Poesia de quinta. Durante sete anos, sempre às quintas-feiras, o poeta mandou e-mails para amigos queridos e escrevia um “versinho” que cabia muito bem no coração de todos.
O piauiense-brasiliense Climério com sua poesia curta, suave e profunda, é um dos parceiros mais importantes com vários compositores da música cearense, do que se denominou no início da década de 70 de Pessoal do Ceará, como Ednardo, Fagner, Fausto Nilo, Petrúcio Maia, Vicente Lopes, além de canções com Dominguinhos e os irmãos Clodo  e Clésio, com quem lançou discos ótimos, como São Piauí e Chapada do Corisco.


Discreto, minimalista, avesso às badalações, Climério só quer escrever seus “livrinhos”, como costuma dizer. Por mais que “se esconda”, é impossível não abraçar esse poeta de primeira.

quarta-feira, 18 de outubro de 2017

roll over, Chuck!

"Se você quer tocar rock and roll, vai tocar como Chuck Berry, ou baseado em algo que aprendeu com ele, porque não existe outra escolha. Chuck realmente pavimentou o caminho."
- Eric Clapton
O rock and roll faria hoje 91 anos de idade

persiana indiscreta


"A imagem definitiva da saga de Aético Neves é a dele na janela de sua casa em Brasília, no Lago Sul, logo após o resultado da votação no Senado que o livrou do afastamento, olhando a movimentação na rua.
A foto, assinada por Luis Gustavo Nova, retrata o que restou do senador tucano: um pária, salvo por seus cúmplices, com medo da vida real."
- Kiko Nogueira

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

incenso de bombas

O ataque terrorista em Mogadíscio, capital da Somália, sábado passado, deixou até agora 276 pessoas mortas e mais de 300 gravemente feridas. Foi o pior ataque na história do pequeno país do oriente africano.
O grupo jihadista Al Shabab, ligado à Al-Qaed, que tenta derrubar o governo central apoiado pela ONU e pela União Africana, explodiu dois caminhões-bomba próximos a um hotel e um movimentado mercado.
Em tempos remotos, a Somália foi um dos países mais prósperos no comércio de incenso, mirra e especiarias para o resto do mundo. O Egito faraônico foi o maior importador desses itens considerados luxuosos.
Historicamente é um país de resistência aos impérios europeus, que ao longo dos anos derivou em constantes guerras civis, instabilidade política e muita pobreza. Franceses, britânicos e italianos estabeleceram domínios na região nos séculos 19 e 20.
A guerra entre grupos organizados dentro do mesmo Estado-nação somali, na década de 90, fez o Estados Unidos marcar presença com sua mania de xerife do mundo. George H. W. Bush, o pai, enviou uma tropa de elite com a finalidade de capturar generais que obedeciam ao líder Mohammed Farah na chamada Batalha de Mogadíscio. O que o governo em Washington calculava tudo resolvido em uma meia hora, durou um tiroteio de mais de 15 horas. A operação foi um fiasco, e deixou mais de mil mortos entre somalianos e soldados estadunidenses.
Os roteiristas hollywoodianos deram a sua versão heroica no filme dirigido por Ridley Scott, Falcão Negro em perigo, em 2001, tradução no Brasil para Black Hawk down, em referência aos dois helicópteros UH-60 abatidos.
Mas o ataque letal desse final de semana não despertará interesse para mais uma produção para se assistir no conforto dos multiplexes. Falta, para os roteiristas, um "leitmotiv" mais atraente nessa ópera apocalíptica.
Assim como não gerou comoção nas redes sociais, com fotos trocadas nos perfis. A Somália não é a França.

retrocesso


inéditos de Kafka

Quando Franz Kafka morreu, em 1928, aos 41 anos, seu amigo e também escritor Max Brod, tornou-se seu biógrafo e testamenteiro. Organizou e publicou muitos de seus escritos, entre eles Amerika e Narrativas do espólio. É dele Franz Kafka, a biografia, publicada em 1934 e reeditada quarenta anos depois.
Poucos, pouquíssimos conheceram tão bem o escritor tcheco quanto Max Brod. Há quem o considere um canalha traidor, porque Kafka o pediu, no leito de morte, que queimasse seus papéis pessoais e obras incompletas, por considerar sem muita qualidade.
Max Brod prometeu mas não cumpriu. E a "traição" trouxe à Literatura obras como O processo e O castelo. Obras que muitas vezes foram lidas, nos originais, pelo autor ao amigo e alguns poucos mais chegados. Kafka era de uma timidez patológica, e Max Brod não descansou enquanto não publicou os inéditos e lhe dedicou uma biografia.
Max Brod morreu 40 anos depois de Kafka, no final de 1968, em Tel Aviv, Israel, onde morava.
Com ele ficaram mais de 40 volumes com documentos, cartões postais e objetos pessoais do escritor. Relíquias que não foram levadas à público, e que continuaram em segredo nas mãos da secretária de Brod, Esther Holfe.
Essa senhora faleceu em 2009, aos 101 anos de idade, lá mesmo em Israel. Foram outros cabalísticos 40 anos após a morte do patrão.
Estudiosos de Kafka temem pelo estado físico desse tesouro. Esther Holfe morava em um apartamento úmido, mal cuidado, ao lado de cachorros, gatos, e quem sabe, baratas kafkanianas. Nada mais irônico.
Espera-se alguma notícia da revelação desses inéditos, que tenham sobrevividos aos processos de metamorfoses..
Na foto acima, de Ev Hoffe,Max Brod e Esther Hoffe. 

domingo, 15 de outubro de 2017

dias de Nietzsche em Turim

Em Turim, Itália, no ano de 1889, nada menos do que Friedrich Nietzsche protege um cavalo que é brutalmente espancado pelo seu dono, numa praça. O filósofo abraça-se ao pescoço do animal, em prantos.
De volta à sua casa, Nietzsche então permanece imóvel e em silêncio durante dois dias estendido em um sofá, até que pronuncia as definitivas palavras finais: “mãe, eu sou um idiota”. E vive por mais dez anos, mudo e demente, sendo cuidado por sua mãe e suas irmãs.
Esse é ponto de partida do filme húngaro O cavalo de Turim (A torinói ló), 2011, e o que aconteceu com o animal socorrido é o tema desenvolvido pelo cineasta Béla Tarr nesse belíssimo exemplar de cinematografia.
Nietzsche, o grande pensador da evolução humana, faria hoje 173 anos.

fogo cerrado

Brasília, 37,5 graus.

Calor recorde, baixa umidade, queimadas, racionamento d'água, STF, Senado, Câmara... 

suprema vergonha

“Quando a política penetra no recinto dos tribunais, a justiça se retira por alguma porta.”
O primeiro-ministro francês François Guizot ao pronunciar essa frase, ainda em meados do século 19, jamais imaginou que se tornaria uma máxima na política de sempre. Ou sim.

acerte o relógio


sábado, 14 de outubro de 2017

at arriving at the right time

George Harrison, All things must pass, 1970,  é o terceiro disco-solo de Harrison, o primeiro como ex-beatle, e - dado importante - o primeiro álbum triplo da história do rock gravado por um único artista. Em 2001 foi lançado em CD duplo.

George guardou muitas de suas composições na época dos Beatles, não querendo “competir” com as músicas da parceria “oficial” Lennon-McCartney. O repertório de 28 canções dos três vinis tem criações que se tornaram clássicas, como My sweet Lord, a ótima If not for you, de Bob Dylan, canções escritas com Eric Clapton, Bobby Whitlock, Dave Mason...
Além dos cantores citados, o guitarrista convidou para dividir várias faixas: o grande pianista de música soul Billy Preston, o lendário roqueiro de arena Peter Frampton, o baterista e vocalista do Genesis Phil Collins, e o amigo Ringo Starr, pra dar aquele toque beatle, e o disco ficar “with a little help from my friends”.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

a indesejada

Manuel Bandeira diz em seu poema "Consoada" que "quando a Indesejada das gentes chegar", ela, "encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / a mesa posta, / com cada coisa em seu lugar."
E assim a iniludível o encontrou, num começo de tarde, em 13 outubro de 1968.

Welles apaixonado

Orson Welles nos bastidores do seu filme Falstaff - O toque da meia-noite (Chimes at Midnight), fotografado por Nicolas Tikhomiroff.
Com locações na Espanha, e produção envolvendo França e Suíça, é um dos filmes mais fascinantes do grande cineasta americano, sempre na contramão das mesmices dos grandes estúdios hollywoodianos.
Filmado em 1965, Falstaff, como o próprio título indica, é baseado em William Shakespeare. O diretor interpreta o bêbado e obeso Sir John Falstaff, amigo do Príncipe Hal, herdeiro do trono da Inglaterra.
O roteiro reúne, de forma genial, fragmentos de Henrique IV, Henrique V e As Alegres Senhoras de Windsor, e assim recria-se na tela, no ambiente da idade Média, o mundo e os sentimentos de cobiça, soberba, inveja e traições, e outros pesares e afecções que marcam o ser humano por todos os tempos.
Com uma decupagem deslumbrante, enquadramentos e angulações pouco vistas, e uma montagem precisa, Falstaf é uma aula de narrativa cinematográfica.
O filme, premiado em Cannes em 1966, é uma epifania do cineasta às suas paixões: Shakespeare e o cinema.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

às nossas crianças


Perdoem a cara amarrada
perdoem a falta de abraço
perdoem a falta de espaço
os dias eram assim.

Perdoem por tantos perigos
perdoem a falta de abrigo
perdoem a falta de amigos
os dias eram assim.

Perdoem a falta de folhas
perdoem a falta de ar
perdoem a falta de escolha
os dias eram assim.

E quando passarem a limpo
e quando cortarem os laços
e quando soltarem os cintos
façam a festa por mim.

Quando lavarem a mágoa
quando lavarem a alma
quando lavarem a água
lavem os olhos por mim.

Quando brotarem as flores
quando crescerem as matas
quando colherem os frutos
digam o gosto pra mim.

Aos nossos filhos letra de Victor Martins, musicada por Ivan Lins, gravada no disco Nos dias de hoje, 1978. Ainda nos dias de hoje.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

bate outra vez

Há 109 anos nascia Cartola.
Há 109 que as rosas falam na música brasileira.

O mundo é um moinho, mas meu coração sempre bate outra vez com esperança quando ouço Seu Agenor.
A benção, mestre. Tiro minha cartola para você.

81 tons de Zé

Há 81 anos o Zé está fora do tom da mesmice, na contramão da música pra pular brasileira. 
Parabéns,  eterno garoto do sertão de Irará.

sempre por enquanto

Ele cantava que o "pra sempre sempre acaba". Eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim tão diferente depois que se mandou pra via-láctea... Sempre existe um caminho, sempre existe uma luz.
Hoje faz 21 anos do anjo triste perto dele. Mudaram as estações nesse dia. Sua música ficou por aqui.
Minha preferida é Vento no litoral, faixa 7 do disco V. Se não tivesse criado tantas canções belíssimas, e feito somente essa obra-prima, já teria valido tudo por essas bandas. Ver a linha do horizonte me distrai.
Olha só o que achei... cavalos-marinhos nessa foto... Manfredini adolescente urbano nos tempos do "Aborto Elétrico" aqui em Brasília, agosto de 1980, ali em frente à igreja Nossa Senhora das Dores, no Cruzeiro Velho, e o clic eternizado de Robson Silva. O pra sempre nem sempre acaba.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

narrativa cinematográfica

foto Bogdan Krężel, 2009
“Se conto a história de dois amantes e os mostro na cama desde a primeira cena, o espectador sabe que os acompanhará até o fim do filme, a menos que algo de grave os separe. Mas, então, esse ‘algo’ será o tema do filme.”
“Todo diálogo é constituído não apenas de palavras, mas também de reações mudas a essas palavras.”
“Todo filme termina com uma imagem que o espectador guardará na memória.”
Andrzej Wajda, o mais importante cineasta polonês, dando aí umas dicas para os novos roteiristas e diretores.
Wajda se foi há um ano hoje, aos 90 e 26 filmes. Sua imagem o cinema guardará para sempre em nossa memória.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

o universo em seu canto

Taiguara foi o compositor mais censurado da música brasileira. 68 canções foram proibidas pelo regime militar nas décadas de 60 e 70.
Exilado na Inglaterra, gravou um disco nunca lançado no Brasil, Let the children hear the music, tornando-se o primeiro cantor proibido a produzir um trabalho no exterior à época braba de ditaduras na América Latina.
Em uma viagem à Fortaleza, encantou-se com uma sereia cearense numa praia ainda distante e compôs Maria do Futuro.
Kleber Mendonça Filho soube com perfeição emoldurar o seu ótimo e tocante filme Aquarius, usando na trilha sonora a emblemática Hoje, faixa-título do disco que o cantor gravou no conturbado ano de 1969.
Taiguara foi cedo, aos 50 anos. Ele nunca parava de ter esperanças, e por isso cantava. Hoje ele faria 72 anos de sonhos.

John Lennon

77 anos hoje. Imagine. It's easy if you try.

domingo, 8 de outubro de 2017

ensaio sobre a utopia

"Se não for o escritor a inventar utopias, os políticos não as inventam, com certeza".
- José Saramago, primeiro autor de língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura, em 8 de outubro de 1998.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

caleidoscópio agreste

A narrativa cinematográfica ocorre de maneira diametralmente oposta a do teatro. Enquanto na tela a ilusão a 24 quadros por segundos cria uma “realidade” que do espectador se apodera - e até manipula, como observava o roteirista Jean-Claude Carrière -, no palco a realidade tridimensional cria uma ilusão do real para falar do real. No cinema o personagem morre e estamos “convencidos” disso. No teatro, o personagem morre, nos padecemos, mas sabemos que é uma exterioridade – tanto que o ator ao final se levanta para os agradecimentos.
Unir essas duas linguagens no palco, por exemplo, foi, é e sempre será um desafio. A bifurcação das duas narrativas para uma terceira via de descrição cênica praticamente não existe, porque sempre estará ao lado da outra referenciada. Mas uma definição alude ao outro relato dramático, e assim se manifestam merecida e dignamente no mesmo espaço.
O ator Adeilton Lima expressa com perfeição esse diegese no monólogo Glauber Rocha – O profeta do delírio, que estreou ano passado no Espaço Pé Direito, em Brasília. O pensamento e a obra do cineasta são reverenciados com a importância que tem na nossa cultura, trazendo à reflexão a complexidade do ser brasileiro, politicamente, afetivamente. A estética do Cinema Novo, do qual Glauber foi um dos mais fortes ideólogos, é o desenho dramatúrgico que o ator discorre em uma hora de apresentação, sob a cumplicidade da direção afinada de Abaetê Queiroz.
Com textos de Murilo Mendes, Glauber e Luiz Carlos Maciel, o monólogo saúda, honra e consagra o delírio do cineasta com a verdade e lucidez devidas. Adeilton com sua pesquisa apurada, roteiro preciosamente delineado e interpretação anímica, disseca a alma de um dos maiores artistas brasileiros, singular em sua genialidade, autêntico em sua coragem de pensamento, profeta em seu delírio. A concepção poética e teatral de Adeilton Lima coloca esse arrebatamento numa única pulsação e ao mesmo tempo em várias, um preto-e-branco na mesma moldura cênica colorida, como um caleidoscópio agreste. Com cenas de filmes, trechos de programas de televisão, imagens icônicas de ídolos, projetados numa tela ao fundo do palco, o cinema está presente em coexistência narrativa muito mais do que apressada e equivocadamente se possa apontar como recurso ilustrativo. A mensagem da memória do sertão dentro de uma garrafa em direção ao mar. A terra que é do homem, não é de Deus nem do governo. Corpo e alma. Glauber e Brasil. Delírio e razão. Poesia e sertão. Cidade e prosa. Áudio e visual. O teatro que virou cinema que é teatro.
Em nenhum momento estamos diante somente de uma peça teatral: estamos com o coração interativamente no pensamento cinematográfico glauberiano que está no palco. Em nenhum momento estamos somente diante da luz de um filme do cineasta, estamos com o olhar interativamente no delírio do ator que está no palco. Adeilton não interpreta Glauber, não é esse o propósito. Adeilton reflete Glauber, é esse o foco. O ator não encarna o cineasta. O ator ouve o cineasta. E assim os escutamos.
O desenho gráfico que segue a condução do monólogo, moldado pela cenografia discreta de Cyntia Carla e trilha sonora adequada de Jorge Brasil, é de uma precisão onde nada falta nem vaza pelas bordas do palco. Tudo na apresentação é coerente sem ser didático e careta. No início, Adeilton Lima surge no palco saindo de dentro da tela, não como um personagem de filme ou uma rosa púrpura de Vitória da Conquista, mas como um Macunaíma parido do cinema novo brasileiro. E assim como do branco da tela apareceu, volta ao útero dela no final, no momento de uma imagem do cineasta com a boca aberta em um grito. O ator acolhido antropofagicamente pelo cineasta. A volta como ao ventre do cinema. A tela é por onde entra e sai o mundo. O palco é o mundo. Evoé, Glauber!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

fish are jumping out

Em fevereiro de 1970, Janis Joplin desembarcou no Rio de Janeiro para passar uns dias de férias, curtir o sol de Copacabana. Na verdade, a cantora tentava dar um tempo do seu veneno anti monotonia, fazer uma espécie de "rehab" do lado de baixo do Equador, onde supostamente não há pecado.
Que nada. Era mês "summertime", e pleno carnaval. Foi difícil para Janis ficar indiferente a tanta folia e animação "exótica". Foi ciceroneada pelo fotógrafo Ricky Ferreira, e que lhe hospedou no apartamento quarto-e-sala em que morava, ao encontrá-la vagando e chorando pela areia da praia, depois que fora expulsa do Copacabana Palace por nadar nua na piscina. Acompanhada ainda por sua figurinista, a comissão de frente das farras, incluía um namoradinho americano que encontrou no calçadão de Copa, e mandou ver em todos os passeios que lhe levavam. Não dispensou nada.
Notívaga assumida e baladeira confesso, começaram a farra numa boate fuleira no final da av. Atlântida, um local frequentado por prostitutas, marinheiros e maconheiros cantando Kosmic blues. Dá de cara com o cantor Serguei, que conhecera nos Estados Unidos em 1968, e que nunca comeu Janis, o máximo que rolou foi fumar um unzinho juntos na Praia da Macumba, quando fez topless numa boa, e pagou caro com as costas cheias de bolhas pelo solzão carioca.
Naquela época tinha uma boate da moda, no final do Leme, adequadamente chamada Porão 73. O gerente quase barrou a cantora de Mercedes Benz, apesar do copo de vodca na mão, achando que fosse uma das raras mendigas que rondavam por ali. Janis, com sua interpretação visceral, foi lá e cantou Ball and chain, deixando os mortais presentes em êxtase, entre eles o BR-3 Tony Tornado e... Alcione! O que é que a "Marrom" estava fazendo naquele inferninho?
Incansável, e às vezes imprevisível nas atitudes pela sua bipolaridade, Janis Joplin foi a um baile de carnaval do Theatro Municipal, e por causa das roupas coloridas e as axilas peludas, foi confundida como travesti pelos foliões do "ô abre alas, que eu quero passar". Assistiu aos desfiles das escolas de samba na Candelária, e numa entrevista quis saber sobre uma tal cantora chamada "Girl" Costa. Depois pegou uma moto com o seu boyfriend e se mandaram tipo Dennis Hopper, Peter Fonda e Jack Nicholson em Easy Rider, para a praia de Arembepe, na Bahia, onde uma comunidade hippie vinda de Woodstock tinha um bagulho do bom.
A meteórica passagem de Janis Joplin no Brasil é inesquecível por muitos que tiveram a oportunidade - histórica - de acompanhá-la. Todos afirmam que a intensidade em tudo que a cantora fazia, entre maços de cigarros e goles de vodca, escondia uma mulher amargurada, que não dava a mínima para dinheiro e salamaleques que hoje essas babaquinhas da música pop se impõem com exigências de toalhinhas finas, frutinhas destiladas, papel higiênico florido e água Perrier no camarim.
O anfitrião Ricky Ferreira prepara um documentário, Janis Joplin — o último carnaval, narrando os fatos (e fotos) que viveu a lenda do rock.
Oito meses depois, em 4 de outubro, quando gravava o álbum Pearl, seu empresário a encontrou morta em um quarto de hotel, em Los Angeles.
47 anos que Janis não morreu.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

oh, meu velho e indivisível Avôhai!


Zé Ramalho.
68 anos num galope à beira-mar...

none brick in the wall

Na fria madrugada de 13 de agosto de 1961, iniciou-se a mais imbecil construção do homem: o Muro de Berlim, separando a Alemanha em Oriental e Ocidental.
Durante os 28 anos de existência, o muro, com seus quase 70km de extensão, separou não somente um país, mas polarizou o mundo, no que Drummond chamou de "tempo de homens partidos".
Na onda revolucionária que se propagou no Bloco do Leste, em 1989, o muro foi destruído, cortina de ferro rasgada, com a euforia de multidões de alemães dos dois lados, que se reencontraram, e dessa forma simbolizando e manifestando um novo tempo, porque, "os lírios não nascem das leis" - recorrendo mais uma vez ao poeta de Itabira.
Hoje é feriado na Alemanha, comemora-se a reunificação oficial da antigas Oriental e Ocidental, o Dia da Unidade Alemã, quando foi oficialmente assinada a adesão das duas Repúblicas. A celebração nacional seria 9 de novembro, data da queda do muro, mas o dia remete também à fatídica Noite dos Cristais de 1938, quando os nazistas atacaram sinagogas, lojas e residências de judeus.
Um filme interessante sobre a reunificação é Adeus, Lênin!  (Good bye, Lenin!), de Wolfgang Becker, 2003. Com narrativa de comédia dramática, o enredo, quase uma fábula, conta a história de uma professora que sofre um infarto durante as manifestações contra o regime socialista, recupera-se, e ao despertar oito meses depois, não sabe que a Alemanha agora é uma só. O filho, ciente que a mãe é “casada com a pátria socialista”, e temendo por sua saúde, cria em volta um mundo artificial da Berlin Oriental, exibindo até programas antigos da televisão como se fossem atuais.
Há muros e "muros" ainda para serem derrubados, dentro de nós e lá fora. Há o meu lado e o teu. Isso e aquilo. "Tudo tão difícil depois que vos calastes... / E muitos de vós nunca se abriram", citando outra vez Drummond, em seu preciso e precioso poema Nosso tempo.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

poesia doce

Doce Poesia Doce é um projeto da Edital Arte Todo Dia – Ano III, Fundação Gregório de Mattos, prefeitura de Salvador.
De 17 de setembro a 8 de outubro 10 mil poemas impressos embalando balas doces serão distribuídos gratuitamente em praças, escolas, hospitais e postos de atendimento na capital baiana.
Foram 400 poetas selecionados do Brasil e exterior, com 20 cópias de cada um dos poemas escolhidos, totalizando as 10.000 poesias doces para distribuição.
Os poemas estão também postados nas páginas:

o fim, o início e o meio

"Há uma teoria que indica que sempre que qualquer um descobrir exatamente o que, para que e porque o universo está aqui, o mesmo desaparecerá e será substituído imediatamente por algo ainda mais bizarro e inexplicável… Há uma outra teoria que indica que isto já aconteceu."
Douglas Adams, escritor e comediante britânico. Entre seus trabalhos está a série de TV Monty Python's Flying Circus e a saga que inclui O guia do mochileiro das galáxias.

outubro ou nada


domingo, 1 de outubro de 2017

mestre Suzuki

Quando se fala no cinema produzido no Japão, logo vem à mente o nome de mestres como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Takeshi Kitano. No ocidente, o trabalho de Seijun Suzuki, um dos mais importantes da Terra do Sol Nascente, ainda permanece desconhecido de grande parte da população. Ídolo de uma geração, é influência assumida de diretores como Jim Jarmusch e Quentin Tarantino.
Falecido no começo deste ano, aos 97, o cineasta teve mostras em países da Europa, com debates e seminários visando aprofundar as propostas estéticas contidas em sua cinematografia. Em 2006 o CCBB Brasília realizou a retrospectiva Seijun Suzuki – O coreógrafo da violência, exibindo oito filmes assinados pelo diretor e mais cinco produções feitas por cineastas que dialogam com o seu cinema. Esse movimento de redescoberta alcançou grande repercussão quando Tarantino confessou ter se inspirado no filme A vida de um tatuado (Irezumi Ichidai), de 1965, para a criação de Kill Bill.
Seijun Suzuki é representante de um cinema comprometido com a ousadia estética e com a ruptura de valores. É o enfant terrible de uma importante mudança no cenário do cinema japonês dito sério, que tinha em Kurosawa e Ozu seus principais representantes. Inicialmente diretor de filmes de ação B para os estúdios Nikkatsu, Suzuki foi aos poucos introduzindo um tom cada vez mais farsesco em seus filmes. Ele foi quem primeiro ousou estilizar a violência dos filmes de gangster (da Yazuka) e kung fu a ponto de transformá-los numa coreografia lúdica – proposta seguida depois por diretores como Zhang Yimou, em O clã das adagas voadoras (Shi mian mai fu), de 2004.
Suzuki imprimiu tanta modernidade em seus filmes que hoje são considerados pós-modernos.