sexta-feira, 30 de novembro de 2018

no seu colo e nesse bar

A frase estampada no poste é título do livro de Diego Moraes, nascido há 36 anos em Amazonas. É uma espécie (em extinção) de “Bukowski manauara”, por sua escrita dilacerada e bêbada.
Lançada em 2016, a sexta publicação desse poeta que prefere ser marginal nas frestas (e não festas) literárias, é uma miscelânea de escritos, contos, poemas e aforismos. A referência ao cantor e compositor cearense se deu porque “a música dele me acompanhou por um tempo em fundos de bares escuros. Embalou uma época da minha vida que julguei sem esperança. Sem amor. A voz dele me bastava.”
O canto de Diego Moraes é torto feito faca cortando a nossa carne.
Um ano e oito meses hoje que Belchior toca no bar vazio do coração de todos os diegos...

bate outra vez

foto Milton Montenegro, Teatro da Galeria, RJ, 1975
38 anos hoje que Cartola se foi e suas rosas continuam falando na música brasileira.
O mundo é um moinho, mas meu coração sempre bate outra vez com esperança quando ouço Seu Angenor.
A benção, mestre. Tiro minha cartola para você.

o inesquecível

Fernando Pessoa dizia que "tudo o que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível".
Na paisagem urbana das ruas de Lisboa, o poeta, hoje depois de 83 anos de sua morte, atravessa as paredes do inesquecível:
interferência em estêncil past-up do artista plástico Jean-François Perroy, numa rua do Bairro Alto na capital portuguesa, 2007.

a vida completa de Oscar Wilde

Oscar Wilde, biografia definitiva do romancista, poeta, contista, teatrólogo e ensaísta irlandês, é um fascinante apanhado crítico, escrito por Richard Ellmann.
Wilde, que hoje completa 118 anos de sua morte, encontra em Ellmann o mais completo narrador de sua vida, da sua ascensão artística, de sua comovente dimensão trágica.
O volumoso Oscar Wilde, prêmio Pulitzer, teve lançamento póstumo em 1988: Richard Ellmann faleceu um ano antes, debruçado sobre as provas tipográficas do livro, vitimado por uma doença de esclerose dos neurônios.
A biografia serviu de base para o roteiro do filme Wilde - o primeiro homem moderno (Wilde), de Brian Gilbert, 1997, com a ótima atuação e impressionante semelhança física de Stephen Fry.

aparelho da resistência - 08

foto Ana Branco
o pensamento pesa
tanto quanto o corpo
enquanto corto os conectivos
corto as palavras rentes
com tesoura de jardim
cega e bruta
com facão de mato.
Mas a marca deste corte
tem que ficar
nas palavras que sobraram.
Qualquer coisa do que desapareceu
continuou nas margens, nos talos
no atalho aberto a talhe de foice
no caminho de rato.

Trecho do poema Sem acessório nem som, de Armando Freitas Filho, publicado no livro Cabeça de homem, 1991.

quarta-feira, 28 de novembro de 2018

aparelho da resistência - 07

foto Isabela Kassow
A noite não adormecerá
jamais nos olhos das fêmeas
pois do nosso sangue-mulher

de nosso líquido lembradiço
em cada gota que jorra
um fio invisível e tônico
pacientemente cose a rede
de nossa milenar resistência.

- Trecho de A noite não adormece nos olhos das mulheres, 2008, de Conceição Evaristo, publicado no livro Poemas da recordação e outros movimentos, 2017.

segunda-feira, 26 de novembro de 2018

o poder do cinema

"O cinema é uma maravilhosa máquina do tempo: é possível apresentar aos jovens de hoje os jovens de décadas passadas que tinham um objetivo pelo qual lutar."
- Bernardo Bertolucci em uma entrevista no lançamento do seu filme Novecento, 1976, um épico contemporâneo que retrata o cenário político no mundo no início do século 20, particularmente na Itália, com o fortalecimento das lutas trabalhistas e socialistas em oposição à ascensão do fascismo.
O cineasta inspirou-se de forma precisa não somente para algumas cenas, mas para a essência temática e narrativa do filme, no quadro Il Quarto Stato, óleo sobre tela de Giuseppe Pellizza da Volpedo, 1901, onde expõe de uma beleza imantada o movimento de um grupo de trabalhadores marchando em protesto em uma praça.
A significativa obra de arte encontra-se no Museu do Novecento, Roma.
Bertolucci, que faleceu hoje aos 77 anos.

sábado, 24 de novembro de 2018

aparelho da resistência - 06

É preciso que haja alguma coisa
alimentando o meu povo; 
uma vontade
uma certeza
uma qualquer esperança.
É preciso que alguma coisa atraia
a vida
ou tudo será posto de lado
e na procura da vida
a morte virá na frente
e abrirá caminhos.
É preciso que haja algum respeito,
ao menos um esboço
ou a dignidade humana se afirmará
a machadadas.

 Poema do aviso final, de Torquato Neto, escrito em 1964, publicado no livro póstumo O fato e a coisa, 2012.

resistência

A literatura em campo minado

prescrição


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

aparelho da resistência - 05

foto © Eder Chiodetto, 2002

Reis, ministros
e todos vós, políticos,
que palavra além de ouro e treva
fica em vossos ouvidos?
Além de vossa rapacidade
o que sabeis
da alma dos homens?


Hilda Hilst em Poemas aos homens do nosso tempo, livro Júbilo, memória, noviciado da paixão, 1974

terça-feira, 20 de novembro de 2018

a última noite de Altman

foto © Patrick Demarchelier, 1990
“Não acredito que vivamos uma guerra nos Estados Unidos, mas sim uma campanha de bombas”.
A declaração foi do cineasta Robert Altman durante a apresentação do seu filme A última noite (A Prairie Home Companion), no Festival de Berlim em fevereiro de 2006.
O filme, um musical country e uma evocação nostálgica da América, é uma saraivada de críticas à política do maluco então presidente George “War” Bush.
O enredo descreve a história de um programa de rádio transmitido semanalmente ao vivo há 30 anos, basicamente com música country, apresentado em um teatro que será demolido para dar lugar a um estacionamento.
O octogenário Altman compõe sua narrativa como sempre composta por uma rede de personagens. A forma ficcional e quase documental retrata a imaginária última transmissão do programa. Nessa noite, os presentes são visitados por um anjo que veio para confortar os artistas. Esse viés sarcástico, crítico e inteligente é uma das marcas do diretor, desde MASH, 1970, uma sátira à Guerra da Coreia.
À propósito da forma de denúncia de Altman, a atriz Merryl Streep, à frente do elenco no Festival, disse que "esse filme é subversivo porque trata de algo que, ultimamente, se perdeu nos Estados Unidos: o senso de humanidade e o humor.” Que dirá agora nestes tempos do pato Donald Trump!...
Mesmo exibido como um dos concorrentes favoritos, o filme não recebeu nenhum prêmio. Altman estava muito doente de um câncer desde as filmagens. Tanto que contratou o amigo Paul Thomas Anderson como diretor reserva caso não tivesse condições de continuar. Nove meses depois de voltar de Berlim, em 20 de novembro, o cineasta faleceu.

resistência dos Palmares

“Vou enfeitar o meu corpo no seu / eu quero este homem de cor / um deus negro do Congo ou daqui...”
- Trecho de Black is beautiful, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, gravada por Elis Regina no disco Ela, 1971.
Hoje é celebrado o Dia da Consciência Negra, em lembrança à morte Zumbi, do Quilombo dos Palmares, o maior da era colonial brasileira, localizado no estado de Alagoas.
Zumbi, pernambucano de origem bantu, morto pelas tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho, foi o último dos líderes da luta e resistência contra a escravidão. A luta se renova nestes tempos urbanos ameaçadores.
A data foi sancionada pela presidente Dilma Roussef, em 2011.
Na foto acima de Gonzalo Rivero, Estátua de Zumbi, na Praça da Sé, Salvador, de autoria da artista plástica Márcia Magno, inaugurada em 2008

segunda-feira, 19 de novembro de 2018

aparelho da resistência - 04

"O século XXI me dará razão, por abandonar na linguagem & na ação a civilização cristã oriental & ocidental com sua tecnologia de extermínio & ferro velho, seus computadores de controle, sua moral, seus poetas babosos, seu câncer que-ninguém-descobre-a-causa, seus foguetes nucleares caralhudos, sua explosão demográfica, seus legumes envenenados, seu sindicato policial do crime, seus ministros gangsters, seus gangsters ministros..."
- Roberto Piva em O século XXI me dará razão (se tudo não explodir antes), livro A Hora Cósmica do Búfalo, 1984.

o último show

foto Jacob Blickenstaff, Apollo Theater, Harlem, NY, 2010
"Todo dia em que eu levanto e subo num palco é como se fosse o último show pra mim."
A cantora Sharon Jones disse em uma entrevista quando esteve há três anos no Brasil, para uma série de apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre.
Mesmo diagnosticada com câncer, a grande dama do rhythm and blues, do soul e do autêntico funk, não pronunciava como uma sentença, em tom fatalista, mas como um aprendizado diário para enfrentar as dificuldades e respirar as manhãs que a vida lhe oferecia. Seguia à risca a máxima do filósofo romano Horácio: “carpe diem”/“aproveite o dia”.
Sharon gravou seu primeiro disco já depois dos 40 anos. Foi "redescoberta" quando Amy Winehouse declarou influência de sua música. Metade das faixas do já antológico Back to black, 2006, tem a participação de The Dap-Kings, banda que acompanhava a cantora americana desde o início de sua carreira, e que se tornou uma marca indissociável de ritmo e voz, entre os arranjos metais e a vocalista.
Sharon se foi numa noite de novembro de 2016, aos 60. Subiu noutros palcos para novos últimos shows.

loneliness before me

foto Baron Wolman, 1967
"Algum dia eu ainda irei compor uma música que explique o que é fazer amor com 25.000 pessoas durante um show e depois voltar para casa sozinha."
- Janis Joplin em entrevista à Newsweek, 1969

domingo, 18 de novembro de 2018

a resistência de Brecht

Charles Laughton em Galileu Galilei, 1947
Vida de Galileu, de Bertold Brecht, teve suas primeiras anotações por volta de 1934-35, e os esboços desenvolviam os conceitos do astrofísico italiano Galileu Galilei, que no medieval século 16, contradisse a Igreja Católica ao afirmar que o Sol era o centro do Universo, e não a Terra.
A peça começou a ser escrita com sua estrutura dramatúrgica quando Brecht, com a subida de Hitler, passou um tempo exilado na Dinamarca, em 1938. Oficialmente é a primeira versão, então intitulada A Terra gira. A segunda é de 1944, que o autor remanejou tratamentos cênicos sob o período convulsionado da Segunda Guerra, e ganhou o título que conhecemos, Galileu Galilei, com apresentações nos anos seguintes em Nova Iorque.
O dramaturgo, porém, remexe na montagem apontando mais reflexões sobre o tema, quando em 1949 funda na Berlin Oriental, a Berliner Ensemble, companhia teatral, que, em parceria com sua esposa, a atriz Helene Weigel, traçou um perfil novo de construção de personagem, tendo como uma das principais características os longos e exaustivos meses de preparação. E foi graças aos princípios inovadores de teoria e prática de encenação da Berliner, com sentido social e político, que a peça teve sua versão definitiva em 1955. No ano seguinte, durante os ensaios, Brecht, doente, sentiu-se mal e faleceu meses depois.
Nenhuma de suas obras - todas excelentes -, envolveu tanto Brecht quanto Galileu Galilei. As convicções do personagem, lutando com fundamentação para provar o óbvio, enfrentando o Tribunal da Santa Inquisição que o obrigava a negar sua tese, revestem como uma pele o pensamento do autor, que dissecava em sua criação as relações humanas no poder e no sistema capitalista.
Uma das falas da peça que se cristalizou ao longo do tempo, está na cena 13. Entre o tormento da condenação e a tutela da verdade, Galileu conversa com seu secretário Andreas, que lhe pede que não ceda aos inquisidores:
Andrea (em voz alta) — Infeliz a terra que não tem heróis.
Galileu – Não. Infeliz a terra que precisa de heróis.

Algumas traduções no Brasil colocam “povo” ou “nação” no lugar de “terra”. A citada é do crítico e professor de teoria literária Roberto Schwarz, numa ótima edição de 1991.
O escritor francês Bernard Dort ao analisar Galileu Galilei em um ensaio, disse que Brecht escreveu a peça, pelo menos originalmente, “para servir de exemplo e de conselho aos sábios alemães tentados a abdicar seu saber nas mãos dos chefes nazistas.”
É uma colocação muito oportuna. A arte, acrônica em sua essência, espelha e retrata o tempo e o homem por todos os lados.

sábado, 17 de novembro de 2018

aparelho da resistência - 03

Quem me vê sentado 
atrás dessa mesa de escriturário, 
(...) 
não me vê no convés 
de um veleiro de três mastros 
me guiando pelos astros

- Aldir Blanc, em Retrato cantado
O letrista de muitos clássicos da música brasileira, foi demitido em junho passado como colunista do jornal O Globo, função que ocupava desde 2009, por escrever sobre a "barbárie e esculhambação diárias a que somos submetidos."

resistência indígena

“Nós, índios, estamos sobrevivendo há 518 anos. Estou preocupado é como vocês brancos vão lidar com isso”.
- Do líder indígena, escritor e ambientalista Ailton Krenak ao ser perguntado recentemente, durante o simpósio Ciclo Selvagem, no Jardim Botânico, RJ, qual era sua expectativa sobre o governo do coiso.
Abaixo, cena do documentário Krenak – O sonho de pedra, de Marco Altberg, 2016

ensaio sobre o amor

“Vivi tudo o que vivi para poder chegar até ela. A Pilar deu-me aquilo que eu já não esperava vir a ter”.
Assim se expressou José Saramago sobre o grande amor de sua vida.
A jornalista, escritora e tradutora espanhola Pilar Del Rio tinha 36 anos quando conheceu e casou-se com o escritor português.
Leu todos os seus livros e apaixonou-se pelo escritor. Pediu para conhecê-lo e amou homem.

Por 24 anos viveram um para o outro e os dois para a literatura.
O ótimo documentário José e Pilar (foto), de Miguel Gonçalves Mendes, lançado cinco meses depois da morte de Saramago, em 2010, é um ensaio sobre o amor de personagens que são o amor por si só.

Hoje, 96 anos de nascimento de Saramago para a literatura, para amor, para a vida.

depois de horas

foto Patrick Swirc, 2015
"Vejo filmes a toda hora e é sempre difícil acordar."
- Martin Scorsese, 76 anos hoje em sonho profundo com o cinema

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

admirável Huxley

Aldous Huxley fotografado por Cecil Beaton, 1932
“O mal da ficção é que ela faz sentido demais. A realidade nunca faz sentido. A ficção tem unidade, tem estilo. A realidade não possui nem uma coisa nem outra. Em seu estado bruto, a existência é sempre um infernal emaranhado de coisas.”
- Aldous Huxley, através do personagem John Rivers, em O Gênio e a Deusa.
Publicado em 1955, é um dos seus melhores livros, pouco conhecido, uma obra-prima do autor mais lembrado pelo romance distópico Admirável mundo novo, escrito em 1931, sobre o futuro ambientado em 2540.
“O Gênio e a Deusa” resume bem o pensamento e estilo da escrita de Huxley, a reflexão que ele desenvolveu em seus livros sobre a linha tênue entre a ficção e a realidade. O que chamamos de “ficção científica” deve-se muito a ele. Sem o seu discernimento ao dissertar na literatura o que é palpável e real, o que não é e pode ser, não teríamos Matrix, por exemplo.
Questionando crenças e valores humanos, desejos mais urgentes e instintos mais secretos, o escritor inglês interpela em sua obra os avanços tecnológicos na imaginação e na ciência, o que ela é capaz de realizar como vida e destruição.
Visionário, Huxley influenciou e exerceu fascínio em gerações que chocalharam o mundo no percurso de mudanças, como os inquietos anos 60. A banda The Doors tem o nome tirado do lisérgico livro de ensaios As portas da percepção, 1954, que por sua vez é uma citação do poeta William Blake. Na icônica capa do clássico Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, 1967, os Beatles colocaram o rosto de Aldous Huxley como um dos seus ídolos (está lá com a cabeça inclinada abaixo de Mae West e acima de Marlon Brando), e o próprio Paul McCartney disse tempos depois em uma entrevista que a faixa Lucy in the sky with diamonds é uma citação às teses do escritor sobre LSD.
Huxley mudou-se para os Estados Unidos no final dos anos 30. Morava na Itália e largou um mundo nada admirável do autoritarismo pregado pelo fascista Mussolini. Não à toa, permeiam em suas obras denúncias do emaranhado de coisas do poder, do arbítrio, da intolerância. A busca na ficção para expurgar o absurdo da realidade.
Atualizando o aplicativo da frase do personagem Rivers, nunca sentimos tanto o inferno, a falta de sentido do estado bruto e sombrio do Brasil que estamos vivendo e nos ameaça. E o que virá, quem sobreviver, verá. Resistiremos!

telegrama

Marwan, poeta espanhol, do livro Todos mis futuros son contigo, 2015

quinta-feira, 15 de novembro de 2018

mais humanos

foto © Araquém Alcântara

Sael Castelo Caballero em Serra da Guia, sertão sergipano, com uma de suas pacientes.
Sou MAIS MÉDICOS cubanos a engenheiros do Havaí.

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

aparelho da resistência - 02

“Na luta de classes
todas as armas são boas
pedras
noites
poemas”

- Paulo Leminski

oito meses

A interrogação feita pela vereadora Marielle Franco, um dia antes de ser executada há oito meses hoje, remete ao canto de paz de Bob Dylan, Blown’ in the wind, composto em 1962 e gravado no seu segundo disco, um ano depois.
Numa única pergunta, assustada e resiliente, a lúcida e corajosa militante do Complexo da Maré resume a série de questionamentos que o compositor de Minnesota fez em plena guerra fria, “quantas balas de canhão precisarão voar até serem para sempre banidas?”“quantas mortes ele causará até saber que pessoas demais morreram?”“quantos anos algumas pessoas podem existir até que sejam permitidas ser livres?
Marielle enfrentou a guerra fria da injustiça, da barbárie institucionalizada pelo poder, pisou o campo minado do mal que a força sempre faz, como apontava Belchior.
Até quando outras Marielles pombas da paz precisarão sobrevoar entre balas os rios de outros janeiros?

terça-feira, 13 de novembro de 2018

aparelho da resistência - 01


"Um poeta sentado é sempre um poeta em pé de guerra."

- Haroldo de Campos

o tempo de Manoel

Em 2008 a revista Caros Amigos, edição 117, publicou uma entrevista com Manoel de Barros. Foi uma das raríssimas vezes em que o poeta recebeu jornalistas em sua casa... Com sua timidez de passarinho e simplicidade pantaneira, Manoel preferia atender às perguntas por escrito.
Quando um dos jornalistas perguntou o que achava sobre a duração da vida, ele respondeu em versos criados naquele momento:
“O tempo só anda de ida. A gente nasce, cresce, envelhece e morre. Pra não morrer, é só amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste! ”
Há quatro anos o tempo de Manoel soltou-se do poste.
desenho-poema do poeta

o criador e as criaturas

Quando tinha 15 anos de idade o jovem judeu norte-americano Stanley Martin Lieber escrevia obituários em jornais de Nova Iorque para sobreviver. O pai, alfaiate, a mãe, dona-de-casa. O garoto queria ser escritor. Durante a Segunda Guerra foi consertar postes telegráficos. A comunicação não podia se perder. Quando regressou das trincheiras foi escrever histórias de cowboy, ficção científica, suspense... e desenhando esses super-heróis que imaginava.
Assim começou a carreira de um dos maiores quadrinistas da história do entretenimento, Stan Lee, criador da Marvel Comics onde habitam personagens de seus traços que estão na memória afetiva de gerações, Homem-Aranha, Hulk, Thor, X-Men, Pantera Negra, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro, Demolidor, Os Vingadores, entre tantos outros.
Lee tinha 95 anos quando se foi ontem. A legião de suas criaturas escreveu o obituário do personagem número um da Marvel.

domingo, 11 de novembro de 2018

"well you know that I love to live with you..."

"Sabes Marianne, chegou este tempo em que estamos realmente tão velhos e os nossos corpos estão caindo aos poucos que acho que vou seguir-te muito em breve. Sei que estou tão perto de ti que se esticares a tua mão, acho que consegues tocar na minha."
Leonard Cohen escreveu essas palavras em uma carta, como antigamente, para Marianne Ihlen, ao saber de sua morte em julho de 2015, aos 81 anos.
A norueguesa Marianne foi a grande paixão da vida de Cohen, a musa inspiradora do hino de amor So Long, Marianne, entre outras tantas canções.
“Now so long, Marianne, it's time that we began …”
Cohen foi embora há dois anos, aos 88. Foi andar de mãos dadas com Marianne.
Na foto, o casal na Ilha Hydra, Grécia, 1963.

o velho e o mar

"Fui esquecido. O país é muito grande e eu não apareço na TV. Não gosto de TV, acho um parto"
O ator Joel Barcellos fez esse desabafo em uma entrevista ao jornal O Globo, em 2006.
Marcante em filmes emblemáticos do cinema brasileiro, como Os fuzis, de Ruy Guerra, A grande cidade, de Cacá Diegues, A falecida, de Leon Hirszman, entre os mais de quarenta em que trabalhou, o ator ficou conhecido do grande público pelo papel de Chico Belo, na segunda versão da novela Mulheres de Areia, em 1993. Tinha feito antes Estúpido Cupido e algumas minisséries. Não gostava mesmo de televisão. Era um ator essencialmente de cinema, e seu último grande papel foi em O homem nu, de Hugo Carvana, 2012. Desde então, morava em Rio das Ostras, na baixada litorânea do Rio de Janeiro.
No final da década de 60, Joel Barcelos, por suas posições contrárias ao regime militar, teve que se exiliar na Itália, e só voltou em 74.
Interpretar o personagem Turíbio, criado por Guimarães Rosa no conto O duelo do livro Sagarana, e adaptado para o cinema no filme de Paulo Thiago, foi para o ator uma forma de enfrentar a escuridão de volta ao país no governo Geisel.
O aparentemente frágil, mas destemido Turíbio, enfrenta em um duelo simbólico o forte Cassiano, um caçador de cangaceiros, interpretado por Milton Moraes. Personagens típicos do sertão roseano em um Brasil num galope à beira-mar, enfrentando um dragão da maldade.
Figura simpática e presente em várias edições do Festival de Cinema de Brasília, Joel ganhou em 1968 o Candango de Melhor Ator pelo papel em Jardim de Guerra, de Neville d'Almeida.
Há uns seis anos, Joel sentiu-se mal enquanto curtia um mergulho no mar, e logo noticiaram sua morte. Mas foi desmentido, e Joel continuou caminhando na praia nos finais de tarde.
Mas na madrugada de ontem, sábado, o ator mergulhou de verdade noutro mar. Tinha 81 anos. A causa da morte ainda não foi divulgada, provavelmente consequência de dois AVCs recentes.
Apesar de se dizer esquecido, Joel era muito querido onde morava. Sempre foi um astro no Rio das Ostras.

sábado, 10 de novembro de 2018

movimento interior

Pickpocket, no Brasil intitulado O batedor de carteiras, de Robert Bresson, 1959, foi considerado à época do lançamento tão importante para a linguagem cinematográfica quanto Cidadão Kane, de Orson Welles.
Muitos cineastas reconheceram e louvaram a importância do filme em citações diversas: Jean-Luc Godard, em Acossado (À bout de souffle), 1960, deu o mesmo nome ao personagem principal, Michel, interpretado por Jean-Paul Belmondo; Martin Scorsese admite que muitos planos de Taxi Driver teve "Pickpocket" como inspiração, isso porque o autor do roteiro, Paul Schrader, era um admirador da obra bressoniana, a ponto de colocar em filmes que depois dirigiu, como Gigolô Americano (American gigolo), 1980, e O Sequestro de Patty Hearst (Patty Hearst), 1988, finais parecidíssimos ao do clássico francês.
Bresson, mestre do minimalismo, era um apaixonado pela literatura de Dostoiévski. As questões psicológicas de culpa e redenção em seus filmes remetem muito a Crime e Castigo.
Há resquícios do jovem estudante assassino Raskólnikov no batedor de carteiras Michel, no acossado ladrão de carro Michel Poiccard de Godard, no motorista de táxi Travis Bickle, veterano da Guerra do Vietnan que quer "higienizar" as ruas de Nova York com uma Magnum 44...

No interior das imagens em movimento, a arte se propaga ad eternum...

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

desculpe aí, Vinicius...

Como dizia em seu poema, "E se piedade vos sobrar, Senhor"
Toquinho: "Bolsonaro e Moro dão segurança total contra a corrupção"

ano que vem, mês que foi

“E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.”
- Trecho do despoema-imagem Pessoal intransferível, de Torquato Neto, escrito em 1971, um ano antes de ele apagar a luz...

E na desfoto-poema abaixo, Torquato na exposição A pureza é um mito, de Hélio Oiticica, em Londres, na Whitechapel Gallery, 1969, um ano depois do antológico Tropicalia ou Panis et Circencis, disco que tem suas letras Geleia geral e Mamãe, coragem.
Hoje, se acaso a sina do menino infeliz não se nos ilumina, ele faria 74 anos pessoais e intransferíveis.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

sem 13°, sem ministério...


uma mão suja a outra


passagem subterrânea

213 Norte - Brasília

no coração das trevas

Um produtor de ficção científica B desaparece com os negativos durante as filmagens, em um hotel em Portugal. Sem dinheiro para continuar o trabalho, o diretor tenta achá-lo, partindo em um road movie e encontrando outros problemas.
A partir desse enredo, o cineasta alemão Wim Wenders realizou um dos seus melhores filmes, O estado das coisas (Der stand der dinge), 1982, (fotograma acima).
Desenvolvendo narrativas de metalinguagem, o diretor espelha-se em sua experiência quando tentou por um tempo, no final dos anos 70, fazer cinema nos Estados Unidos, fascinado pela cinematografia de John Ford, Nicholas Ray, Samuel Fuller e seu compatriota Fritz Lang.
Wenders queria fazer um "filme americano", ser um "cineasta americano". Hammett, uma história fictícia sobre o escritor Dashiell Hammett, de 1982, produzido por Francis Coppola, foi sua primeira experiência por lá. Desagradou completamente ao cineasta alemão. Dos 95 minutos na tela, apenas 30 estavam como Wenders fez. Coppola finalizou à maneira dele e fim de papo.
Filmado nos Estados Unidos, mas financiado com francos e marcos, Paris, Texas, de 1984, foi uma espécie de "vingança" de Wim Wenders. Ou, digamos, seu desejo realizado e "tchau, Hollywood, meu reino não é desse mundo."
Irônica e pretensamente com roteiro dos americanos Sam Sheppard e Kit Carson, trilha sonora do guitarrista Ry Cooder, elenco com atores de filmes controversos  ao cinemão, como Harry Dean Stanton e Dean Stockwell, Paris, Texas chegou às telas com as 2h37min que ele quis.
Outdoors, grafites, néon, carcaças oxidadas, velhas linhas de trem, motéis em estradas que nunca terminam, e um homem maltrapilho e amnésico numa região desértica fronteira com o México, compõem o cenário físico e humano de um dos filmes mais significativos do olhar de um estrangeiro sobre a paisagem norte-americana.
Se O estado das coisas é a realidade em preto-e-branco da condição de um cineasta, Paris,Texas é um pesadelo minimalista em cores, pela angústia e letargia que se expressa na essência, pela desconstrução que Wim Wenders faz do "sonho americano". Aclamado pela crítica e bem recebido pelo público, e hoje carimbado como cult, o filme se insere na galeria do grande cinema contemporâneo.
Em entrevista para o livro Na Estrada - O Cinema de Walter Salles, de Marcos Strecker, 2010, Wenders diz que sua experiência traumática com Coppola foi como ter ido ao coração das trevas quando pensava estar a caminho do coração do cinema.

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

a triste noite

Sim, choramos, porque os nossos olhos não acreditavam no que viam e os nossos corações não podiam aceitar sem dor tamanha tragédia. Cercado por um aparato militar, o líder racista, da extrema direita, violento e cheio de ódio, falava em nome de Deus, da família e da pátria, sob os aplausos dos fiéis seguidores.


Depois das lágrimas, os nossos olhos estavam mais límpidos e tudo ganhou uma insuportável transparência, nos adveio uma dolorosa lucidez. Sim, este é o País em que vivemos, em seu feitio mais brutal, violento, racista e autoritário. Sim, muitos colaboraram com a ascensão do fascismo, mas não todos. Como pode parte do povo brasileiro marchar de forma tão cega para o matadouro, arrastando consigo a outra parte? Como pode, de forma tão servil, renegar a liberdade? Agora, em vez de diálogos, mais repressão. Em vez de livros, mais armas. Em vez de escolas e universidades, mais presídios. Em vez de florestas, mais risco de sua destruição. Em vez de justiça social, mais favorecimento dos ricos. O grande capital está em festa, abertas foram as porteiras da grande colônia Brasil para o saque final. Aleluia, aleluia, gritam os neopentecostais, guiados por seus pastores em transe. Agora são livres para massacrar gays, atacar terreiros de umbanda, acabar com os índios hereges e tomar as suas terras. Em nome do Senhor, vão querer decretar o fim do livre pensar e do livre arbítrio. Tentarão impedir o nosso sonho, vigiando o nosso sono, mas o sono acabou.


Quando os homens maus falam em nome de Deus e das armas, a vida corre perigo. Sob o guarda-chuva da força e do arbítrio se abrigam os covardes. De tudo isso sabemos, mas também sabemos que, daqueles que resistem, virão a flor e a canção de liberdade.


Parafraseando Sartre, afirmo que, mais do que nunca, é preciso compreender que somos livres para escolher de qual lado estamos. Mais do que nunca se faz necessária a poesia e a arte. Entre ruínas e escombros, não nos deve faltar a coragem de lutar e recomeçar. Mas, por precaução, amigo, põe em dia o teu passaporte, consulta os mapas e refaz as trilhas.


(Para Chico Buarque - a canção que resiste).


- Rosemberg Cariry, cineasta e escritor

Publicado no jornal O Povo, Fortaleza, 07/11/2018

o instante resiste

Cecília Meireles, a poeta que não era alegre nem triste, e por isso teve a vida completa em um instante.
Hoje, a poesia resiste 117 anos de asa ritmada.

o retratista

autorretrato, 1993
O fotógrafo norte-americano Irving Penn eternizou centenas de celebridades em seus belíssimos retratos em preto e branco. De Marlene Dietrich a Gisele Bündchen, de Ingmar Bergman a Martin Scorsese, de Pablo Picasso a Christian Dior, de Groucho Marx a Woody Allen...
Falecido numa manhã de 7 de outubro de 2009, aos 92 anos, Penn atravessou décadas significativas do século passado e começo destes 2000, registrando personalidades do mundo artístico e político, deixando em sua galeria parte da história em cada expressão que ele tão bem captou.
O seu trabalho na revista Vogue vai muito além do que erroneamente possa definir como fotógrafo de moda. Irving Penn pintou o tempo e a alma da moda.
Poucos usaram tão bem o fundo cinza em um estúdio. Penn colocava suas figuras humanas em uma composição de cenários em ângulo reto, e formava um canto forte, uma projeção aguda, e assim trazia um senso de drama sem precedentes para seus retratos, dirigindo o foco de quem olha sobre a pessoa e sua expressão.
Fora dos estúdios, Irving Penn fotografou os campos da Segunda Guerra, os índios da Nova Guiné, as comunidades hippies dos anos 60, sempre compondo os recortes do olhar com a profundidade da simplicidade, elegância e minimalismo.
Penn desenhava o grafismo da alma.

terça-feira, 6 de novembro de 2018

crônicas da resistência

“Fiquei muito envolvida e impressionada com a literatura dele. Pensei: ‘Onde é que eu estava todos esses anos?’”
Assim se expressa a jornalista, escritora e pesquisadora cearense Natercia Rocha sobre conterrâneo Juarez Barroso (1934-1976).

Por dois anos, a autora se dedicou coletar fotos, esmiuçar cartas e folhear jornais do Rio de Janeiro da década de 70, onde o escritor assinou as mais preciosas crônicas sobre a música brasileira.
O resultado desse envolvimento resultou no livro Juarez Barroso: O Poeta da Crônica-Canção, que Natércia lança hoje no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza. A compilação afinada da autora faz jus à importância do cronista no estudo e memória da canção brasileira.
Juarez Barroso, intelectual lúcido e combativo no período da ditadura militar, escrevia com a mesma propriedade sobre futebol, cinema, literatura e política. Foi produtor do clássico disco de Cartola de 1976, que tem As rosas não falam, O mundo é um moinho.
O jornal O Povo traz uma oportuna entrevista com autora.

segunda-feira, 5 de novembro de 2018

a resistência de Frida

Na foto acima, a atriz Salma Hayek em Frida, de Julie Taymor, 2002. A cena reconstitui o período em que a pintora mexicana cria a sua mais pessoal e significante obra: o quadro A coluna partida, em 1944.
À época do autorretrato, aos 37 anos, Frida Khalo estava com a saúde fragilizada, mas nutria a alma das forças que o corpo não tinha mais.

Como em um raio X preciso, conotativo e tridimensional, vê-se a coluna cervical quebrada substituída pelo ferro do carro que lhe acidentou... as lágrimas caem no rosto, os pregos perfuram a pele, as vastas sobrancelhas como uma asa emoldura o rosto firme e triste, como firmes são os seios que sensualizam sua tristeza, desnudos pelas tiras de um espartilho que lhe sustenta o dorso.
A firmeza maior nessa obra-prima vem do olhar que não se quebrou. Vem de dentro, de um coração machucado, desafia a si mesma, desafia a quem olha.
Resistente, ela dizia, “o que não me mata, me alimenta.”

domingo, 4 de novembro de 2018

involução

"Os tais 140 caracteres reflectem algo que já conhecíamos: a tendência para o monossílabo como forma de comunicação. De degrau em degrau, vamos descendo até o grunhido”
- José Saramago em entrevista ao jornal O Globo, 26/7/2009

educação como resistência



“Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”
Admirável pensamento do mestre Paulo Freire, no raciocínio da simplicidade de uma fábula.
O sociólogo e pedagogo, patrono da Educação brasileira, ameaçado nestes tempos sombrios de fascismo, nos mostrou as uvas e que não estariam verdes.