sexta-feira, 25 de novembro de 2011

fale com ele

 A atriz Elena Anaya e Pedro Almódovar. Foto El Deseo S.A

 “A pele que habito” (La piel que habito), de Pedro Almodóvar, é um filme inquietante, bem realizado, mas o menos Almodóvar do grande cineasta espanhol. Onde estão as cores de Almodóvar?  Onde está o temperamento exuberante, o clima viçoso, o vigor e a pulsação que tanto marcam e traçam seus personagens? 

A construção de imagens e narrativa frias, a ambientação clean, tudo é condizente, fiel e exato com a história de um personagem, um cirurgião plástico, que busca a perfeição da imagem e grafismo do corpo humano, e como um Moderno Prometeu, um Victor Frankenstein high tech, ou uma releitura de Mary Shelley com “o médico e a bela que era o belo”, usa suas habilidades como um princípio supremo para atender e saciar algo extremamente pessoal, um sentimento de vingança. Até aí, tudo bem. É um roteiro, é uma boa trama, é um filme que já se viu – inclusive. Um filme interessante que poderia ser assinado por um desses bem pagos cineastas de estúdio que dirigiu Antonio Banderas em seu “exílio” hollywoodiano. Banderas não filmava com Almodóvar desde “Ata-me”, de 1990, e volta justamente em um filme delineado como um melodrama gélido, que mantém a mais remota distância  de “Tudo sobre minha mãe”, “Fale com ela”, “Volver”...  

É difícil não apontar referências da autenticidade de um artista como Almodóvar, que sabe tão bem ir do drama ao riso, do chique ao kitsch, sem perder o tom, o escárnio e a poesia. Eu não consigo aceitar essa “subversão” do cineasta com sua filmografia tão genuína e legítima com os temas que aborda. As relações de poder (dominação sádica), as mutações sexuais (ela é ele), as perversões (submissão masoquista), são proposições nessa nova película que Almodóvar habita. Mas aqui ele não se reinventa: se ausenta. A cena final ilustra bem isso. A mãe desconhece o filho Vicente no corpo de Vera, e não fala com ele.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

terça-feira, 15 de novembro de 2011

e o palhaço, o que é?

A primeira lembrança que se pode ter ao assistir o filme O palhaço, de Selton Mello, é justamente Os palhaços, que Federico Fellini realizou em 1970. Mas a citação, por analogia ou semelhança, para por aí. O diretor italiano fez então um quase documentário, originalmente para a televisão, indo pelo mundo com sua equipe atrás dos palhaços do passado, dos clowns que lhe marcaram.


Selton Mello diz que se inspirou no personagem de Renato Aragão, o trapalhão Didi Mocó, para escrever o roteiro do seu segundo longa-metragem. Pode ser um ponto de partida pessoal, mas as referências desse belo filme são muitos personagens clowns que o cinema versou, de Buster Keaton a Jacques Tati, passando, claro, pelo Carlitos de Charles Chaplin, como menção primitiva, e até mesmo conceitual. A modelagem do personagem concebido por Selton Mello se faz, na verdade, do que caracterizou a alma que o genial Chaplin dissecou em sua mais conhecida criação: a solidão do palhaço. A solidão que humaniza, a desesperança que questiona, a tristeza que não mata – nem morre. No filme em comentário, podemos encontrar um pouco de cada um desses clowns que o cinema, ao longo da sua história e matinês, guardou em nossa memória afetiva. E com todas essas prováveis alusões, magnificamente o palhaço Pangaré de Selton Mello, tem vida própria, tem sua solidão pessoal e intransferível.


Na história, um circo mambembe – não à toa chamado Esperança – caminha atrás de sua platéia pelo interior do Brasil, mais exatamente pelo sertão roseano de Minas Gerais. A paisagem é atemporal e em cada cidadezinha, o circo levanta sua lona e repete as mesmas piadas nos espetáculos, trazendo o riso, o encantamento e os trocados dos moradores. Estão lá alguns dos elementos que compõem um grupo teatral volante em condições precárias: o anão, a mulher gorda, os músicos desafinados, os mágicos fajutos, a bailarina sedutora... e, claro, o palhaço, no caso, dois. Paulo José, na pele, ou maquiagem, do palhaço Puro Sangue, mantém uma química contínua como pai de Pangaré. E Pangaré é o triste Benjamin. E o filme é Benjamin.  Os enquadramentos estáticos do personagem, a demora necessária de planos no rosto abatido de Benjamin, é o melhor da pulsação narrativa que o diretor imprimiu ao seu trabalho.  A razão do filme está justamente nesses momentos. A alma do filme está nesses enquadramentos. “O palhaço” tem uma concepção minimalista. E, por essência, cada gesto, cada extensão de silêncio, se define na imagem. E se há a palavra, ela faz parte do silêncio que a imagem apresenta.


A trilha sonora remete a alguns clássicos do neorrealismo. A fotografia de uma beleza crua e ao mesmo tempo poética, ilumina uma paisagem rural e humana que lembra as andanças de trupes na geografia sérvia.  As atuações especiais de Moacir Franco, Jorge Loredo, Tonico Pereira e o comediante Ferrugem, respectivamente como o delegado, o contador de piadas, o mecânico e o funcionário do cartório, dão ao filme o brilho que o diretor soube muito bem pontuar.


Selton Mello estreou em 2008 em longa com Feliz Natal, um filme denso e de direção segura.  E agora reforça sua sensibilidade, e, sobretudo, sua personalidade como diretor.


Um filme singular na recente safra do cinema brasileiro. É isso o que “O palhaço” é.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

evoé, jovem artista!

Criolo é um dos grandes talentos do rap paulista. Seu segundo disco, "Nó na orelha", lançado este ano, merece ser ouvido com atenção. As letras discursivas que caracteriza o gênero, com suas inquietações e denúncia social, têm poesia e bons arranjos seguindo o canto. 

O rapper de 35 anos compôs uma ótima versão de "Cálice", de Chico Buarque, e está na internet.


Dá pra notar a emoção do rapaz. Mais emocionante foi ele ver o próprio Chico homenageá-lo cantando trechos da versão, citando-o em seu show em Belo Horizonte.


quarta-feira, 9 de novembro de 2011

o nome do cinema

Este ano o cineasta norte-americano Nicholas Ray bateria a claquete de um século de existência. Dos vinte longas que dirigiu todos têm o que se pode chamar de humanismo ardente em seus personagens, principalmente quando retrata períodos marcantes, como foi em "Juventude transviada", de 1955, que projetou para o mundo o símbolo de uma época: James Dean.

Diferente da maneira operística dos belos westerns de John Ford, Ray caminhou pelo velho oeste ousando na narrativa não-linear, como em "Quem foi Jesse James" e o intrigante "Johnny Guitar".

"Sangue sobre a neve", "O Rei dos reis", "Cinzas que queimam", "Paixão de bravo"... alguns dos filmes imperdíveis que me vêm à memória agora, verdadeiras aulas de cinema, obras de um cineasta que brigava com os estúdios para fazer filmes autorais, de uma cinematografia própria. Por um longo tempo, Nicholas Ray foi "esquecido" pelos críticos de seu país. Foi a moçada de olhar atento do Cahiers de Cinéma que o descobriu como o mais importante cineasta do pós-guerra. Não foi à toa que Jean-Luc Godard imprimiu o termo "O Cinema é Nicholas Ray".

E este é o título da mostra que o CCBB apresenta com todos os seus filmes, em apresentações no Rio de Janeiro, São Paulo e Brasília, iniciada no começo deste mês indo até 4 de dezembro.

No próximo sábado, 12, a viúva do cineasta, Susan Ray, estará em Brasília para um seminário e a exibição de "We can't go home again", versão de 2011 do filme realizado em 1973 em conjunto com alunos no período em Ray lecionou numa universidade em Nova Iorque.

É muito bom o bom cinema.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

a Tara de Irma La Douce

O amigo João Alberto Lupin mandou essa foto para o meu mural no Facebook. De imediato achei que fosse Shirley MacLaine em uma cena de "Irma La Douce", clássico comédia romântica que Billy Wilder dirigiu em 1963. Na verdade, é a Tara Satana, atriz e dançarina  nipo-americana, que faleceu há pouco tempo, com mais de 70 anos. 

"Irma La Douce" foi seu primeiro filme, onde fez uma pequena participação, mas se destacava por sua aparência exótica. Seu filme mais famoso, e que lhe deu projeção mundial foi "Fast, pussycat! kill! kill!", de Russ Meyey, uma sátira pop rodada em 1965, que mistura violência, escracho e denúncia social. 

 
Tara Satana também ganhou notoriedade por ter sido namorada de Elvis Presley.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Crtl + Alt

"Escola de Brasília vai exigir tablet e banir livro de papel", diz a manchete do Correio Braziliense de hoje. 

Na lista de material de um colégio local, 16 livros didáticos serão substituídos por versões digitais. Sou um entusiasta de adventos tecnológicos, mas não estou convencido da necessidade dessa nova ferramenta pedagógica. Banir o livro de papel?! Parafraseando Lobato, um país se fazendo com robôs e tablets?!

domingo, 6 de novembro de 2011

Rio de Janeiro, gosto de você...

foto: Nirton Venancio
Metade do Pão é de Açucar. A outra metade também.

foto Enzo Venancio
Jesus Cristo, eu estou aqui!


foto Nirton Venancio
No meio do calçadão tinha o Drummond. Tinha o Drummond no meio do calçadão.


foto Nirton Venancio
E o sol veio chegando... do Leme ao Pontal.


foto Nirton Venancio 
 1º de novembro, Dia de Todos os Santos. Pisando no chão sagrado da cidade de São Sebastião.


  foto Cristina Pereira
O Rio de Janeiro continua lindo, de qualquer ângulo, mesmo com chuva.