sexta-feira, 30 de junho de 2017

aquela estrela é a dele...

Dois meses hoje que Belchior não morreu.

coreografia da alma

A grande bailarina e coreógrafa alemã Pina Bausch partiu para outros palcos há sete anos, hoje. Em 2011 Wim Wenders lançou uma merecida homenagem, o documentário Pina. Duas horas de fascinação na tela.
O filme estava sendo rodado quando a bailarina foi diagnosticada com câncer. O cineasta tocado pela partida repentina continuou o documentário de forma ainda mais belamente surpreendente, manteve muitas das imagens da coreógrafa enquanto novas cenas são captadas, em espetáculos, entrevistas, silêncios...

Para dar essa composição sensorial, Wenders filmou em 3D, e assim reproduz uma sublime sensação de imaterialidade, como se a bailarina continuasse com sua presença no mesmo instante, em diálogo coreográfico de uma dimensão palpável com o abstrato, do tablado com o metafísico, do sonho dentro da realidade. Nunca no cinema o recurso tecnológico da tridimensionalidade foi tão bem e corretamente usado, ao contrário do que se vê em produções hollywoodianas.
Pina é um dos mais criativos documentários do cinema moderno, assim também como fez a cineasta belga Chantal Akerman em 1983, com Un jour Pina m'a demande, registro de viés conceitual de uma turnê da companhia da bailarina pela Europa, produzido para televisão.
Assim como a dança desenha e esculpe no espaço a respiração da alma, Wim Wenders consegue consubstanciar o onírico. E quando se trata de Pina Bausch a proporção do olhar reverbera infinitamente.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

somewhere over the rainbow

No começo da madrugada de 28 de junho de 1969, oito policiais, alguns deles à paisana, entraram no bar Stonewall Inn, em Nova Iorque, e aos gritos anunciaram que estavam tomando o lugar, ocupando o território, com a violência característica da arbitrariedade e preconceito. Predominante gay, o local era constantemente alvo de batidas policiais.
O ataque daquela noite, porém, teve repercussão inesperada e histórica. Motins reverberaram seguidamente entre os frequentadores, como reação às represálias, à discriminação e cerceamento da liberdade.
Os protestos desencadeados culminaram com a marcha ocorrida no dia 1º de julho de 1970. O evento tornou-se precursor das atuais Paradas do Orgulho Gay.
Renato Russo lançou em 1994 o seu primeiro disco solo, intitulado The Stonewall Celebration Concert, em comemoração aos 25 anos dos motins. Com 21 belíssimas canções em inglês, de clássicos de Irvin Berlin e Leonard Berstein ao pop-folk da alemã-britânica Tanita Tikaram, passando por Bob Dylan, Madonna e Billy Joe, o disco é precioso pelo repertório e pontuação ao histórico acontecimento.
É lamentável que essa onda conservadora, direitista, fascista, que circula e avança em todo o mundo em pleno século 21, seja preocupantemente proporcional a tantos direitos adquiridos, pela liberdade, pela paz, pelas diversidades, por todas as escolhas que se conquistou ao longo de décadas.
O massacre na boate Pulse, em Miami, em junho do ano passado, é terrivelmente assustador, só revela um retrocesso inimaginável em um mundo em que a tecnologia e a ciência evoluem diametralmente opostas ao desmoronamento dos princípios, dos valores, em direção à barbárie.
Lembrando Eduardo Galeano, continuemos andando, lutando, para isso significam as utopias, para que não fiquemos parados. A meta é caminhar em direção além do arco-íris.

metamorfose

Raul Seixas nasceu em 1945. "Metamorfoseou" a idade para poder ser membro do fã clube do seu ídolo Elvis.

Hoje ele faria 72 anos. Mesmo! Ou não. Ou o oposto do que ele disse antes.

maluquinho beleza

O engenheiro Raul Varella Seixas e a professora Maria Eugênia Pereira dos Santos com o filho Raul Santos Seixas, aos três meses, em 1945.
Hoje ele faria 72 anos

segunda-feira, 26 de junho de 2017

love, love, love

No final dos anos 60, o mundo vivia o auge da bestialidade de mais uma guerra: desde 1955 Vietnã do Norte travava conflito armado com Vietnã do Sul, este apoiado belicamente pelos Estados Unidos com a assessoria logística da Coreia do Sul, Austrália, Tailândia e outros países, e do lado lá da trincheira os aliados União Soviética, China e outras nações comunistas. Era uma espécie de “guerra por procuração”, no meio daquele minúsculo país, pois logo após a Segunda Guerra, as superpotências norte-americana e soviética protagonizaram o longo período de Guerra Fria.
Estados Unidos voltou para casa derrotado em 1975, com seus mortos e sobreviventes traumatizados – garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones. Somente com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e dois anos depois com a extinção da União Soviética, é que decretou-se o fim do conflito entre as duas nações e suas zonas de influências.
Em 1967, a BBC de Londres fez um convite especial aos Beatles: participarem da primeira transmissão mundial via-satélite, apresentando-se no programa Our World em 25 de junho. Solicitou ao grupo uma música que falasse de amor, paz, esperança etc e tal.
Lennon e McCartney começaram a compor uma canção com esse objetivo. Depois de várias tentativas de letras dos dois, decidiram por uma escrita somente por John: All you need is love, gravada em compacto simples logo após a apresentação, e em 1968 no disco Yellow submarine.
Mais de 26 países acompanharam aquele momento histórico: os Beatles diretamente dos estúdios do Abbey Road, com o auxílio luxuoso do coro de convidados Mick Jagger, Keith Richards, Keith Moon, Eric Clapton, Graham Nash, Marianne Faithfull, entre outros, cantando para o mundo que “there's nothing you can do that can't be done”.

aquele abraço!

"o meu projeto Brasil... chama-se um Gilberto Gil..." *
Parabéns pelos 75 gils num só gilberto. Parabéns por suas canções, suas letras, sua beleza mil.
* trechos de Jeito de corpo, de Caetano Veloso, disco Outras palavras, 1981.

as barras de cada dia

"A sociedade de consumo consegue tornar permanente a insatisfação", dizia o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
E nada mais icônico que possa ilustrar a compulsão do mundo contemporâneo do que o código de barras, essa representação gráfica de dados alfanuméricos, escaneados por maquininhas com raios vermelhos, decodificando o consumismo desenfreado de cada dia.
Oficialmente a primeira vez que o código foi lido comercialmente ocorreu em um supermercado em Ohio, EUA, em 26 de junho de 1974. O produto escaneado foi um simples tablete de chicletes Wrigley's, não tão à toa um produto tipicamente de costume norte-americano, descartável, insatisfatório, impermanente...

domingo, 25 de junho de 2017

o mundo ao redor

  
“O mundo nos abraça, entra em nosso corpo, e nós o devolvemos com as imagens que conseguimos fazer. Essa experiência de influência, de contaminação, de infecção do mundo ao redor faz parte da vida e não é possível escapar dela, sob o risco de se trancar num manicômio ou se fechar em seu próprio quarto sem nunca mais sair.”
- Marco Bellocchio, cineasta italiano, 77 anos, mais de 30 filmes contaminados pelo mundo.
Abaixo, cena de Vincere, 2009. Conta a história de Ida Irene Dalser, que morreu sozinha tentando convencer que foi esposa de Benito Mussolini.
Ao dissecar a relação pessoal da personagem com o líder fascista, Bellocchio aborda a relação da Igreja com o Estado na Itália, discute e critica as promiscuidades institucionais entre católicos e políticos.

sábado, 24 de junho de 2017

o amor e seus abismos

Trecho do livro Quase Diário: 1980-1999, de Affonso Romano de Sant'Anna, 2017
Dois poetas de geração diferente conversam sobre o amor, enquanto caminham numa rua do Rio de Janeiro, em 1983.
Sant'Anna tinha 46 anos à época. Carlos Drummond de Andrade fizera 80. E o amor... o amor não tem idade.

São João, Xangô Menino *

Na fé cristã hoje se celebra o nascimento de João Batista, aquele que não somente previu o advento do Messias na pessoa de Jesus, como teve a prerrogativa de batizá-Lo. Pelas Escrituras, Batista nasceu apenas seis meses antes de Cristo.
Juntamente com Antonio e Pedro, João compõe a tríade dos Santos Populares, comemorando a festa neste mês de junho.
*título da música de Gilberto Gil e Caetano Veloso, gravada no disco Doces Bárbaros – ao Vivo, 1976.
Os autores de maneira livre, alegre e criativa incorporam na letra o imaginário religioso, em combinação sincrética do local à transcendência da religiosidade cristã e o mito africano. Uma saudável manifestação de panteísmo múltiplo, com suas simbologias e expressões culturais.

Na foto acima, Nascimento de São João Batista, do pintor italiano Tintoretto, 1578. A obra encontra-se no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

a verdade e a vida

"Creio que a verdade é perfeita para a matemática, a química, a filosofia, mas não para a vida. Na vida contam mais a ilusão, a imaginação, o desejo, a esperança."
- Ernesto Sabato, romancista, ensaísta e artista plástico e físico argentino, que hoje faria 106 anos.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

o grande momento

Em 1965 o cineasta francês Claude Lelouch não estava numa boa com a fraca repercussão de seu quinto filme, ironicamente intitulado Les grands moments. Assim como os anteriores, o trabalho não teve público satisfatório, os distribuidores não apostavam naquele jovem de vinte e poucos anos de sonhos e de filmes irregulares.

Logo após uma projeção onde tudo deu errado, Lelouch pegou o carro e saiu a esmo noite a dentro. Rodou cego pela madrugada e se viu parado à margem da praia em Deauville, uma comuna francesa na Baixa-Normandia. Cochilou e acordou com o sol e sons de alguns pássaros. Através do retângulo do painel do automóvel, como uma tela de cinema, viu uma mulher andando na maré baixa, acompanhada de um menino e um cachorro. A imagem matinal lhe pareceu cena de filme. O cineasta saiu do carro e tentou se aproximar da mulher. Enquanto caminhava, perguntava-se e deduzia o que ela fazia ali tão cedo. Não conseguiu alcançar os três, mas não se importou: voltou para o carro com a ideia do roteiro de Um homem e uma mulher (Un homme et une femme).

Estrelado por Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimèe, lançado em 1966, é o seu filme mais conhecido e emblemático na filmografia que se seguiu por mais quarenta títulos, até o mais recente, a comédia dramática Salaud, on t'aime, de 2014, com o cantor Johnny Hallyday no elenco.

Um homem e uma mulher, Palma de Ouro em Cannes e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, conta o encontro, romance e desencontro de dois jovens viúvos. A narrativa em câmera solta, a trajetória de vidas paralelas de personagens que se cruzam e se perdem, a trilha sonora organicamente inserida nas ações, e, sobretudo, uma louvação ao amor, marcaram e definiram o estilo de cinema de Lelouch, reverenciado por muitos, e detratado por outros muitos, que consideram seus filmes melosos.

Retratos da Vida (Les uns et les autres), 1981, é considerado sua obra-prima, onde o fôlego narrativo de três horas intercala vidas distintas de três gerações de famílias na França, Rússia, Alemanha e Estados Unidos, ligadas pela música e afetadas pela Segunda Guerra.


O clássico de 1966 teve uma continuação com Um homem e uma mulher: 20 anos depois (Un homme et une femme, 20 ans déjà), com os mesmos atores/personagens, uma espécie de reencontro ao final da tarde, à margem da praia em Deauville.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

dois irmãos

Praia do Leblon.
Foto de José Medeiros, 1952.

o lado B de bom

"Todos acham que é preciso muito dinheiro para fazer filmes. No fim, quanto mais dinheiro você tem, menos consegue fazer com ele. Para mim, sempre foi uma benção não ter dinheiro suficiente, porque aí eu precisava compensar isso com o trabalho de câmera, com ideias, com abstrações. É uma das coisas mais lindas que se podem fazer no cinema: inventar uma imagem quando não se pode pagar por ela."
- Wim Wenders no documentário Edgar G. Ulmer – o homem fora das telas (Edgar G. Ulmer - The man off-screen), de Michael Palm, 2004.
Além do cineasta alemão, Peter Bogdanovich, Roger Corman, Joe Dantes e outros falam sobre o trabalho de um dos mais talentosos diretores do cinema americano. Edgar G. Ulmer, austríaco radicado nos EUA, foi um dos mestres dos chamados filmes B, produções de baixo orçamento, sempre feitas em horários “de sobra” nos estúdios, equipamentos emprestados, atores desconhecidos... alguns ficaram famosos a partir de seus papéis e convidados para trabalharem com outros cineastas, como John Carradine, Robert Clarke, Arthur Kennedy, John Saxon. O próprio G. Ulmer foi ator de muitos de seus filmes para contornar a situação de grana.
Tão pouco conhecido quanto o cineasta é o documentário de Michael Palm, restrito à prateleira de DVDs de pouca locação, no lançamento à época. O filme está disponível no site Making Off.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

nosso cinema de cada dia

Hoje, quando se comemora o Dia do Cinema Brasileiro, lembro do crítico e historiador Jean-Claude Bernardet, que em seu livro Cinema brasileiro, propostas para uma história, 1978, diz que "não é possível entender qualquer coisa que seja do cinema nacional, se não se tiver em mente a presença maciça e agressiva, no mercado interno, do filme estrangeiro."
E foi o italiano Afonso Segreto, o primeiro cinegrafista e diretor do país. Naquele 19 de junho de 1898, ele registrou as primeiras imagens em movimento do território brasileiro: a entrada da baía de Guanabara, a bordo do navio (francês!) Brésil.

o dono da voz

Em 1980, sucessivos desentendimentos com a gravadora Ariola fizeram Chico Buarque buscar outro selo, a Polygram.
O compositor, que hoje completa 73 anos, se viu meio encrencado no último dia de gravação do então novo disco: a Ariola fora vendida exatamente para a nova gravadora de Chico. A confusão deu origem à bem-humorada canção A voz do dono e o dono da voz, última faixa do lado A do LP Almanaque, de 1981.
O bolachão é um dos melhores de Chico na década de 80. Tem lá Vitrines, Ela é dançarina, O meu guri, Tanto amar...
A criação da capa, contracapa e encarte do disco, assinada por Elifas Andreato, é uma obra-prima à parte: desenhos, ilustrações que remetem aos velhos almanaques em forma de livrinhos que tratavam de vários assuntos, como datas festivas, feriados, luas, eclipses, horóscopo, pensamentos, trechos de literatura, poesias, anedotas, charadas, palavras cruzadas, e coisas como datas certas para o plantio.

sem perder a ternura



A imagem é de um dos mais famosos artistas gráficos, ou mais precisamente, o grafiteiro inglês Robert Bansk, 42 anos, mais conhecido como Bansky.
Literalmente um artista de rua, sua postura como ativista político revela-se em belíssimos trabalhos que estão nos muros das ruas de Londres e outras cidades inglesas.
Seus grafites têm um significativo humor crítico, a necessária e ferrenha sátira, a denúncia e dureza contra as injustiças sociais, mas sem perder jamais a poesia e a ternura.

tijolo com tijolo num desenho lógico

A edição brasileira de 2009 da revista Rolling Stone fez uma enquete com 90 críticos especializados e mais alguns jornalistas da área musical, para saber quais as 100 maiores canções brasileiras. A lista foi destaque do número que comemorou três anos de publicação nacional.
Construção, de Chico Buarque, ficou em primeiro lugar.

Composta em 1971, em pleno regime truculento do general Médici, é uma das letras mais bem elaboradas em toda história da música brasileira. Pouco se viu tamanha preciosidade poética em proparoxítonas.
Chico completa hoje 73 anos. Ergueu no patamar da música brasileira quatro paredes mágicas.

domingo, 18 de junho de 2017

open your eyes

Há 53 anos, quando Paul McCartney começou a cantar close your eyes and I’ll kiss you..., de All my loving, no programa The Ed Sullivan, em Nova Iorque, a América não fechou mais os olhos e se rendeu ao fenômeno do quarteto de Liverpool.
Hoje a voz dos Beatles completa 75 anos.
All my loving I will send to you, Paul.

luz da tarde no babaçu


Serra da Meruoca, Ceará, 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

stranger than paradise

"Nada é original. Roube de todos os lugares que inspiram ou alimentam sua imaginação.
Devore filmes antigos, novos filmes, música, livros, quadros, fotografias, poesias, sonhos, conversas aleatórias, arquitetura, pontes, sinais de rua, árvores, nuvens, massas de água, luzes e sombras.
Selecione apenas coisas que falam diretamente com sua alma. Se você faz isso, seu trabalho (e roubo) será autêntico. Autenticidade não tem preço; originalidade não existe. E não se preocupe com o roubo - celebre-o se você se sentir bem com isso."

- Jim Jarmusch
Autêntico, segue na contramão da mesmice hollywoodiana.
Paterson, seu novo filme, celebra as coisas que falam diretamente com a alma.

dois lados da mesma viagem

“O importante não é chegar, mas viajar”
A frase é do personagem Fausto, interpretado por Ênio Gonçalves em Filme Demência, dirigido por Carlos Reichenbach, 1986.
Com roteiro do diretor e do crítico Inácio Araújo, o filme é uma adaptação livre, contemporânea, atualíssima, da obra teatral de Goethe.
Hoje faz cinco anos que Reichenbach, o querido Carlão, viajou para outros cinemas...curiosamente no mesmo 14 de junho, quando chegou a este mundão em 1945.

domingo, 11 de junho de 2017

sem interesse

Das 82 perguntas formuladas pela PF ao Temer, acaba de vazar uma:
- Sr. Presidente, a Marcela transa com o senhor por amor ou por interesse?
Temer responde:
- Deve ser por amor, pois ela não demonstra nenhum interesse

ciudad porteña de mi único querer



"Mi Buenos Aires querido / cuando yo te vuelva a ver / no habrá más penas ni olvido..."
- Versos de Mi Buenos Aires querido, clássico tango escrito por Alfredo Le Pera em 1934, musicado e imortalizado por Carlos Gardel, assim como outra emblemática composição, El día que me quieras.
A letra fala sobre a beleza da capital portenha, que hoje comemora 437 anos de fundação. A canção com narrativa bela e dolente do tango, na queixa de um bandoneon, compara a cidade ao amor, e retornar ela é a forma de se livrar das dores, da nostalgia, o "te extraño" - o termo saudade em português.
Uma curiosidade: o autor do tango de enorme significado afetivo para os argentinos é brasileiro de nascimento. Em 1930 seus pais, italianos, viajavam pela América do Sul com intenções de morarem em Buenos Aires. Em passagem por São Paulo, a mãe com um barrigão de nove meses deu à luz um niño, em pleno bairro Bixiga, que se tornaria tradicional reduto do samba paulistano.
A família Le Pera seguiu viagem para Uruguai com o bebê de dois anos, e de lá para Argentina.
Alfredo morreu jovem, aos 35 anos. Estava no avião que caiu em Medellin, Colômbia, juntamente com seu grande amigo e parceiro Gardel.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

o que virá

foto Ezequiel Scagnetti
"Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja"
- Eduardo Galeano, em O direito ao delírio, 2011.

caminhar caminhar caminhar

"A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu nunca deixe de caminhar."
- Do cineasta argentino Fernando Birri, citado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano em seu livro Las palabras andantes‎, 1993.

o ratinho implacável


Nos anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, o jornalista e escritor Ivan Lessa sugeriu ao cartunista Jaguar o ratinho Sig. Seria uma analogia ao criador da psicanálise, um espécie de roedor neurótico, atormentado por paixões de belas mulheres. Uma versão enviesada e debochada do Mickey, digamos.

Lessa dizia que baseou sua criação na máxima irônica de que se "Deus criou o sexo, Freud criara a sacanagem". Os autores escreviam no Pasquim, o tabloide que não dava sossego aos generais de plantão e à sociedade babaca conservadora que apoiava o governo golpista.

Sig em suas tirinhas e tiradas ácidas e precisas foi sucesso absoluto, e logo virou símbolo do Pasquim e demais edições da Codecri.

Hoje faz cinco anos que Ivan Lessa se foi. 

a tentação de ser livre

foto Nirton Venancio, Teatro Universitário, Fortaleza, 1980.
Em 8 de junho de 1982 o ator e diretor de teatro José Carlos Matos, fez seu último voo.
O avião da VASP que vinha de São Paulo chocou-se contra a serra de Aratanha, a 25km da capital cearense.
Zé Carlos, Zeca, como era conhecido e querido por todos no Ceará, foi autor de diversas montagens do seu Grupo Independente de Teatro Amador (GRITA), na década de 70 e começo de 80. Seu trabalho era corajosamente uma luta contra a ditadura militar escancarada.
Sua frase sempre repetida em palestras e entrevistas define bem seu perfil: "Eu não resisto à tentação de ser livre".

a dama de vermelho

Linda Sonia Braga, 67 anos hoje.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

para enfeitar a noite do meu bem



"Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer!", disse brincando Adiléia Silva da Rocha à empregada, numa manhã cedo de 1959, depois de passar a noite bebendo, dançando e ouvindo canções numa boate no Rio de Janeiro.
Adiléia era nome verdadeiro da nossa eterna Dolores Duran, cantora e compositora de clássicos do samba-canção, como A noite do meu bem, gênero que se destacou a partir da década de 30.
No começo da noite daquele dia, a empregada foi acordar Dolores, pois a cantora teria shows. Encontrou a patroa morta, com o violão e uns rascunhos de novas canções ao lado. Com apenas 29 anos, Dolores Duran sofreu um infarto fulminante, provocado por dose excessiva de barbitúricos, cigarros e álcool. A cantora tinha precedente de outro infarto, três anos antes, mas continuou fumando e bebendo, tentando aliviar-se de fortes crises de depressão, traumas de infância, e a falta de um amor verdadeiro pra chamar de seu.
Se Dolores não tivesse ido dormir até morrer, poderia estar hoje completando 87 anos.

Nara

A adolescente capixaba Nara Leão, nas areias escaldantes de Copacabana, anos 50.
Há 28 anos a musa da Bossa Nova deixou definitivamente o Posto 4, na avenida Atlântida.

palavra de poeta

Paulo Leminski manteve a palavra: há 28 anos partiu para outros contratos.

um ator por todos os tempos


foto Bryan Adams
Há dois anos o cinema perdeu o grande ator Christopher Lee, famoso por melhor encarnar o personagem Conde Drácula, criado por Bram Stoker.

O elegante artista inglês foi um dos mais versáteis e prolíferos protagonistas de todas as telas. E assim como um "doce vampiro”, atravessou o cinema em todos os tempos, com mais 200 filmes em exatos 70 anos de carreira. 

Do legendário Drácula, passando por Scaramanga, arquiinimigo de James Bond em 007, Lee chegou aos anos 2000 atuando na trilogia “O senhor dos anéis”, vivendo o mago Saruman, além de filmes de Tim Burton, como “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “Sombras da Noite”.

O ator, carismático em seu perfil de personagens assustadores, faleceu aos 93 anos, por insuficiência respiratória.

Ficará em nossa memória afetiva, ad aetenum, pelo tempo em que o cinema nos guarda.

foto Bryan Adams

terça-feira, 6 de junho de 2017

Tunga, um artista brasieiro

foto Everton Ballardin
Considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea, o escultor, desenhista e performático Tunga foi o primeiro artista plástico brasileiro a ter obra exposta no Louvre, em 2005.
Ele se foi há um ano, aos 64. Sua arte reverberá sempre, em todos os Louvres do mundo.

Lilian

Lilian Lemmertz em uma cena da peça A bilha quebrada, dirigida por Linneu Dias, Theatro São Pedro, em Porto Alegre, RS, 1961.
Lilian e Linneu (1928-2002) são pais de outra grande atriz, Julia Lemmertz.

Em junho de 1986, o Brasil vivia a euforia da Copa no México. E no dia 5, enquanto o país acompanhava a primeira fase da competição, a atriz saiu de cena. Lilian sofreu um infarto, aos 48 anos, enquanto tomava banho, e foi encontrada pela filha.
Lilian Lemmertz - Sem Rede de Proteção, do jornalista Cleodon Coelho, biografia lançada em 2011, resgata de forma precisa a vida e obra da artista, com farto material em recortes de matérias, entrevistas e resenhas, das décadas de 60 e 70.

Maysa

"Ninguém cantava um samba-canção como Maysa - e ninguém parecia viver dentro de um samba-canção como Maysa".
Diz Ruy Castro, no livro A noite do meu bem – A História e as histórias do samba-canção, 2015, obra indispensável sobre as noites cariocas e suas boates famosas, os compositores, os cantores, o glamour e a coexistência com o poder no Rio de Janeiro capital federal nos anos 40,50 e 60.

Lira Neto, outro grande jornalista e biógrafo, lançou em 2007, o ótimo Maysa: Só numa multidão de amores. A partir de entrevistas com mais de 200 pessoas que conviveram com a cantora, e de acesso aos arquivos pessoais, o autor faz um elegante relato sobre a vida e a complexa personalidade da artista.
A cantora samba-canção faria hoje 81 anos.

domingo, 4 de junho de 2017

por si mesma

foto João Lima
"Não gosto que me chamem ‘viúva de’ porque ninguém me chamou ‘mulher de’ enquanto Saramago foi vivo. Isto por duas razões: porque tinham de enfrentar Saramago e tinham de me enfrentar a mim. Cada um de nós é o produto de si próprio. Não somos nem do pai nem do filho. Somos o que queremos ser. Nunca fui a mulher de Saramago nem serei a viúva dele, por respeito a Saramago e a mim própria."
- Pilar del Río, jornalista, escritora, tradutora espanhola, preside atualmente a Fundação José Saramago, em entrevista ao site Expresso 

impávido como Muhammad Ali

“Eu não tenho nada contra os vietcongs”, disse Muhammad Ali ao se recusar lutar na Guerra do Vietnã, no dia 28 de abril de 1967.
Aos 25 anos e já um pugilista consagrado, Ali foi condenado a cinco anos de prisão, multado em 10 mil dólares, e banido do boxe por três anos.
Muhammad Ali foi também um lutador contra o racismo. Sempre que insistiam por que não foi à guerra, ele dizia que “nenhum vietcong me chamou de crioulo, por que eu lutaria contra ele?"
Há um ano Muhammad perdeu uma luta e se foi, aos 74.
Mas grandes homens deixam grandes legados.