terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

branco sai, preto fica



A suspeitável Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e seus efeitos especiais hollywoodianos não seguraria o gostinho em atrapalhar a própria festa a seu favor, na falsa postura de benemerente.
Em uma noite com fortes concorrentes de filmes estrelados por negros, os brancos suínos da Academia, preconceituosos, racistas e mercantilistas, estavam inquietos na pocilga da moral deles.
Sem tirar as qualidades do musical La La Land, que homenageia o mais icônico gênero do cinema norte-americano, ao lado do western, um filme com todo elenco negro e temática com abordagem gay como o elegante Moonlight, não levaria a estatueta assim tão fácil. Tinham que tirar o impacto do anúncio, esfriar a euforia, diminuir o entusiasmo dos vencedores subindo ao palco, e fazer a entrega do prêmio um gesto protocolar, apenas.
Por mais que se esforce em aparentar boazinha, é da natureza da cobra o próprio veneno que mata.
O topete com Grecin 5 biocolor da Era Trump já deu o ar de sua desgraça no tapete vermelho do Oscar.

dentro de mim

"Eu gosto do meu quarto / do meu desarrumado / ninguém sabe mexer na minha confusão./ É o meu ponto de vista / não aceito turistas / meu mundo tá fechado pra visitação."
- Um recorte da canção Coisas que eu sei, de Dudu Falcão, gravada em seu primeiro disco, 2009.
Acima, um recorte do quadro L'Homme à la main sur le cœur, de Frans Hals, 1632, exposto no Musée des Beaux-Arts, Bordeaux, França.

o homem que amava os livros

"Sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de livraria."
A frase é do escritor argentino Jorge Luis Borges, mas cabe muito bem a outro grande homem, o bibliófilo José Mindlin, criador da mais importante biblioteca privada do país.
Quatro anos antes de ir embora para a Grande Livraria, aos 95 anos, em 28 de fevereiro de 2010, ele doou sua coleção para a Universidade de São Paulo, com 60 mil volumes.

segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

há tantas violetas velhas sem um colibri...*

A capa do livro do escritor paulista Matheus Arcaro, Violeta velha e outras flores, editora Patuá, 2014, sugere um conteúdo denso, um âmago de dureza e desencanto. E tem, sim. Em seus 22 contos há um encontro do leitor com “aquilo que não queremos ver”, como apontou a escritora e professora de Letras da PUC, Bruna Gonçalves.
Mas a realidade com suas inquietações e incertezas, que tendemos muitas vezes a empurrar para debaixo do tapete dos dias, tem na escrita de Arcaro uma narrativa que flui com delicadeza, um torpor que nos faz encarar o verossímil com firmeza. Essa é a beleza da literatura, o fascínio da arte: mostrar no espelho o nosso rosto, refletir luz para que possamos furar a escuridão da sala, estender na rua, espalhar no mundo.

Graduado em Comunicação Social, professor de Filosofia e Sociologia, artista plástico, o jovem escritor de 32 anos tem em seu livro de estreia um dos melhores exemplares da literatura brasileira contemporânea.
Há momentos na vida em que ela é esperança. Depois da leitura nosso olhar leva o colibri à janela para rejuvenescer as violetas.
*verso da canção Chão de giz, de Zé Ramalho, 1978.

visita no jardim



Um centauro em pleno século 20, filho de imigrantes russos judeus no interior do Rio Grande do Sul. Um ser metade homem, metade cavalo, culto, inteligente, vivendo, por motivos óbvios, excluído da sociedade. Um isolamento forçado, até decidir-se por mostrar-se quem é, o que pode fazer de bem para todos, enfrentando as discriminações.
Um resumo do resumo de O centauro no jardim, de Moacir Scliar, publicado em 1980. Um realismo fantástico tão cativante quanto, por exemplo, Cem anos de solidão, de Gabriel Garcia Marques, 1967.
Em Centauro, o personagem central, em sua singularidade irreal e quimérica, da pacata família Tartakovsky, vindo da pequena cidade Quatro Irmãos (que existe), conduz a leitura de uma forma que conseguimos “aceitar” naturalmente tais elementos absurdos, pela força que a fábula representa na dualidade da vida em sociedade, pela urgência de harmonizar individualismo e coletividade.
O recurso do escritor gaúcho Scliar em colocar seu personagem mitológico em tempo e espaço reais, é o grande desafio pela profundidade da narrativa provocadora. Não se espantaria se alguém após a leitura encontrasse um centauro em algum jardim, rua, praça...
Autor de romances, contos, crônicas, ensaios, e conciliando sua atividade literária com a de médico sanitarista, Moacir Scliar foi para outros jardins há seis anos, numa madrugada de 27 de fevereiro.

domingo, 26 de fevereiro de 2017

festa estranha com gente esquisita

Em que pese a qualidade artesanal e artística de alguns dos filmes concorrentes na 89.ª entrega dos Academy Awards, o conhecido Oscar, o cerimonial neste domingo no Teatro Dolby, em Los Angeles, não fugirá ao desenho protocolar de sempre.
O evento promovido anualmente pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas é uma festa da maior indústria de cinema do mundo. Uma festa invariavelmente careta, com suas apresentações pirotécnicas e ocas, com seus apresentadores com piadinhas sem graça, com suas estrelas irreconhecíveis em vestidos esquisitos, tudo celebrando um cinema previsível, acomodado, salvo raras exceções de um e outro filmes pretensamente ousados, um e outro cineastas estrategicamente desobedientes aos ditames de uma cinematografia acadêmica e dominante.
Ainda padecemos do constrangimento das traduções simultâneas na transmissão televisa brasileira, e dos comentários equivocadas dos críticos-convidados, e dos convidados-críticos, exceto o Rubens Ewald Filho, uma respeitável enciclopédia ambulante, e o nosso saudoso José Wilker. Este, sim, assistia a todos os filmes.
Na foto acima, Orson Welles, que só ganhou um Oscar em toda sua ótima filmografia: pelo roteiro de Cidadão Kane, em 1941. Perdeu Melhor Filme para Como era verde o meu vale (muito sintomático!), de John Ford, e ator para Gary Cooper em Sargento York (mais sintomático ainda para o bélico público americano).
O cineasta brasileiro Murilo Salles, definiu bem ao dizer que "Oscar não é merecimento - é indústria. Oscar é a maior propaganda grátis de Hollywood: tem ótimo custo-benefício. Os Estados Unidos dominam o mundo não à toa."
As invasões bárbaras norte-americanas são somente bélicas: são também culturais.

a que será que se destina

O grande Machado de Assis em seu penúltimo livro Esaú e Jacó, publicado em 1904, diz através do personagem Conselheiro Alves, que “não se luta contra o destino; o melhor é deixar que nos pegue pelos cabelos e nos arraste até onde queira alçar-nos ou despenhar-nos.”
Uma sentença simetricamente ligada à anuência poética de Paulo Leminski ao deliberar que “não discuto / com o destino / o que pintar / em assino”, publicado em Caprichos e relaxos, 1983.
Nem Machado se dilacera em fatalismo sistemático de um século, nem Leminski de pessimismo de um tempo que não se sabe a que será que se destina.
O parecer e veredito se insuflam e instigam mais para uma postura filosófica no “sentido agudo do relativo”, como muito bem observou o crítico Alfredo Bosi em seu livro “História Concisa da Literatura Brasileira”, 1994.
O romancista e cronista da vida do século 19 e o poeta minimalista bashôniano do século 20, dialogam à beira do abismo sobre antimetafísica do ceticismo e a moral da indiferença.

sábado, 25 de fevereiro de 2017

os filhos de mama

"Quando Mama sai de casa / seus filhos se olodunzam / rola o maior jazz..."
- Chico Cesar em Mama África, gravado no cd Aos vivos, 1995

ontem como hoje

"Colbert - Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço.
Mazarino - Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas e não consegue honrá-las, vai parar na prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem!
Colbert - Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?
Mazarino - Criando outros.
Colbert - Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino - Sim, é impossível.
Colbert - E sobre os ricos?
Mazarino - E os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta, faz viver centenas de pobres.
Colbert - Então, como faremos?
Mazarino - Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável... É a classe média!"
Diálogo da peça Le diable rouge, escrita em 2008 pelo francês Antoine Rault, um dos mais importantes dramaturgos do teatro contemporâneo.
Ambientada no reinado de Luís XIV, em meados do século XVIII, a peça é de uma atualidade impressionante. Incômoda, oportuna, reflexiva.
Qualquer semelhança com estes tempos temerosos, aqui e alhures, não é mera coincidência. A vida não imita a arte: a arte reflete a vida.
Acima, The Money Changers/Los cambistas, 1548, óleo sobre tela do holandês Marinus van Reymerswaele, exposto no Bilbao Fine Arts Museum, Espanha.

a lição de Maruge

O camponês queniano Kimani N'gan'ga Maruge foi o mais velho aluno do mundo. Ficou conhecido ao aproveitar uma tardia oportunidade de estudar, aos 83 anos, quando a escolaridade primária gratuita do governo de Mwai Kibaki foi instituída no país em 2003.
Assim como Maruge enfrentou o domínio colonial britânico nos anos 50, levando para o resto da vida o trauma em ver a família assassinada em sua frente, teve que lutar para ser admitido em sala de aula, com alunos que tinham idade de serem seus bisnetos. Rejeição não pelas crianças, mas pela coordenação da escola ao considerar que um ancião não podia tomar lugar de um menino com futuro.
A história do determinado e resistente camponês, que em 2005 foi à ONU apelar aos líderes mundiais por educação aos pobres, foi levada às telas em 2009, no filme The first grader, lançado nos cinemas no Brasil com o título Uma lição de vida, e no Netflix, O aluno.
Com uma produção que envolveu grana dos EUA e Reino Unido, a direção do filme foi entregue a Justin Chadwick, o mesmo que fez em 2013 Mandela – O caminho para a liberdade, sobre outro ícone libertário africano.
O cineasta britânico Chadwick conduziu um roteiro quase como um “pedido de desculpas” pelo que seu país fez ao povo do Quênia, o que por pouco não prejudicou o desenvolvimento com sua narrativa maniqueísta.
Maruge é bem maior do que qualquer fragilidade do roteiro, no filme muito bem interpretado pelo veterano ator queniano Oliver Litondo, em uma química perfeita de atuação com a bela atriz inglesa Naomi Harris, que vive a professora Jane Obinchou, defensora do velho aluno entre os novos.
Na foto acima, o verdadeiro Maruge se alfabetizando. Faleceu aos 90 anos, em 2009. Não deu tempo ver o filme. Não conseguiu ver na tela o que leu na vida.

duas metades

Metade do que eu sinto por você / faria chover no seu sertão / enxuga esse choro, Luzineide / segura e não solta a minha mão...”
- Lula Queiroga, cantor e compositor pernambucano, ‘caba’ bom demais, em sua canção pra Luzineide, gravada do disco “Aboiando a vaca mecânica” , de 2001. 
O cineasta Lírio Ferreira, 'outro caba da peste' dos recifes, colocou a composição na ótima trilha de Árido Movie, de 2005.
Só metade de uma arte na outra banda faz chover uma arte inteira.

um gladiador no cerrado

foto Henry Ballot/Arquivo Público do DF

O cidadão na foto acima (de terno e chapéu de couro!), entre serpentinas e confetes, é Issur Danielovitch Demsky, mais conhecido como Kirk Douglas. O cenário: salão do então majestoso Hotel Nacional de Brasília. A data: 23 de fevereiro de 1963, um sábado de carnaval.
Naquele ano, acompanhado da sua segunda mulher, Anne Boydens, o ator estava na cidade do Rio de Janeiro, convidado para o carnaval carioca. Mas deu uma esticadinha até a nova capital país. Brasília ainda era um enorme canteiro de obras, muitos esqueletos de edifícios, uma vastidão sem fim de esperança.
A cidade era só concreto, mas ninguém é de ferro: os candangos se animavam como podiam naqueles quatro dias de samba, suor e poeira vermelha. O pessoal que pegava no pesado e os moradores das asas Sul e Norte, iam para frente da Estação Rodoviária, onde aconteciam os desfiles das escolas de samba. Que nomes teriam? Unidos dos Cerrados? Unidos da Novacap?... A principal delas, sabe-se, chamava-se no porta-estandarte Alvorada em Ritmos.
O ator de Spartacus (que fez um século de vida em dezembro passado!) não chegou a assistir a nenhum desses desfiles. No vigor dos seus 53 anos e pique de gladiador, no dia seguinte ao baile no hotel, deu um passeio pela cidade, andou de lancha, pescou no artificial Lago Paranoá e se mandou de volta pra folia na capital carioca.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

ventania

Meu poema Ventania, publicado no livro Roteiro dos pássaros, 1980, belamente musicado porRicardo Augusto, (en)cantado na voz de Mona Gadelha, gravado em seu CD Cidade blues rock nas ruas, 2013, com o arranjo luxuoso de Alexandre Fontanetti, e o clipe com o olhar vertoviano de Valdo Siqueira.
Há momentos na vida que ela é esperança.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

a Rosa o que é de Rosa

“Nosso Guimarães Rosa não respondia aos seus críticos quando estes o agrediam. Recortava-lhes a injúria e punha-a no seu caderno. De cabeça para baixo. Como um castigo.”
- Josué Montello em seu ótimo Diário da tarde, 1988, segundo volume da trilogia Diário completo.
No livro, que abrange o período de 1957 a 1967, o escritor maranhense discorre com uma escrita prazerosa acontecimentos que viveu, além de, entre pensamentos e reflexões, narrar breves peculariedades de amigos e escritores, como fez com o grande autor mineiro.

limites


"Os limites são apenas aqueles que aceitamos"
- Emerson Damasceno

divina comédia

- O que o senhor pensa do céu e o inferno?
- Tenho amigos nos dois lugares, portanto, prefiro me manter isento.
Mark Twain, o grande escritor norte-americano, autor de clássicos como As aventuras de Tom Sawyer, de 1876, e sua sequência As aventuras de Huckleberry Finn, publicada dez anos depois.
Palestrante cativante e frasista admirável, seu raciocínio perspicaz com sátiras ferinas, fizeram-no respeitável pelos seus pares, enaltecido pelos críticos, além de boas relações com seus alvos prediletos: políticos, industriais e a realeza europeia.

o amigo de Oliver

Quando Oliver Hardy (o Gordo) adoeceu, em 1955, de um infarto, Stan Laurel ficou profundamente abatido, e no ano seguinte sofreu o que hoje chamamos de AVC.
Recuperou-se, mas ficou novamente arrasado com a morte do amigo, em 1957. O Magro nunca mais se recuperou da tristeza. Eram amigos inseparáveis. Acabou-se a dupla, Stan parou de filmar e viveu até os 74 anos em um hotel na cidade de Santa Mônica, EUA, falecendo de um ataque cardíaco, em 1965, há exatos 52 anos hoje.
Quatro anos antes, o ator recebeu um Oscar Especial da Academia por seu "pioneirismo criativo no campo da comédia cinematográfica".

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Warhol

Andy Warhol, figura maior do movimento de pop art, falecido há 30 anos hoje, fotografado aos 32 por William Claxton, em 1960.

a presença de Drummond

foto Rogério Reis, 1982
“Não há falta na ausência. 
A ausência é um estar em mim.”

Verso do belíssimo poema Ausência, de Carlos Drummond de Andrade, publicado no livro Corpo, em 1984, três anos antes de sua partida.
Há pouco mais de dez anos a Revista Bula reuniu 20 convidados, entre jornalistas, escritores, críticos literários, para escolherem os mais significativos poemas do nosso poeta maior. Ausência estava presente.
Como disse uma vez o crítico Alfredo Bosi, “a obra de Drummond alcança um coeficiente de solidão, que o desprende do próprio solo da História, levando o leitor a uma atitude livre de referências, ou de marcas ideológicas, ou prospectivas”.
foto Rogério Reis, 1982

"teus 'zoi' clareia o roçado..."


Flor da paisagem, primeiro disco da cantora Amelinha,  40 anos este mês de seu lançamento.
As composições de Ednardo,  Fagner, Abel Silva, Petrúcio Maia, Brandão, Luiz Gonzaga, Zé Dantas, Ricardo Bezerra, Pepe, Beto Mello, a parceria na canção-titulo de Fausto Nilo e Robertinho de Recife...
A capa com a singela foto de Mauricio Albano, feita numa casinha à beira da estrada para Aquiraz, a plantinha que ele improvisou ali na hora numa latinha de óleo Pageú... A contracapa com a foto de seu irmão José Albano, uma frondosa mangueira com o cheiro da brisa da praia de Sabiaguaba.


Um disco com a voz da fina flor da música cearense.
Um canto que faz da distância uma paisagem.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2017

lúcida lavoura

O meu apreço, o meu abraço, ao grande escritor Raduan Nassar.

Sua lúcida lavoura me representa.

Thelonious

"Mas em composição cubista / meu mundo Thelonious Monk`s blues..."
- Caetano Veloso

35 anos sem melodias cubistas.

e o mundo não se acabou...

Decepcionante. Essa coisa de fim de mundo o cinema americano já fez melhor em seus filmes ruins.
À propósito do meteoro que não veio, como se não bastassem Trump, Temer e outros temerosos, o cinemão hollywoodiano banalizou em trilhas de filmes apocalípticos uma obra-prima da música clássica, "Carmina Burana", do alemão Carl Orff.
Composta no começo dos anos 30, o autor dizia que sua criação foi inspirada na era medieval, era uma "celebração de um triunfo do espírito humano pelo balanço holístico e sexual".
O que muitos filmecos fizeram não tem nada de holístico, muito menos sexual.
Abaixo, "O Fortuna", trecho da belíssima cantata, executada pela The Johann Strauss Orchestra sob a matuta do maestro neozelandês Andre Rieu, numa gravação ao vivo na cidade Maastrich, uma das mais antigas dos Países Baixos, em 2012, um dos anos em que também anunciaram que o mundo ia se acabar.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

valeu a pena

Gratidão a todos os alunos e coordenadores da Escola de Cinema do Sertão que, entre tantos agrados, presentearam com esse vídeo pelo meu aniversário ontem.
Amor pelo cinema. Amor pelo trabalho. Muito gratificante ter morada no coração das pessoas de paz. 
Meu coração abraça a todos.

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

coração


um coração afinado

"Naquele dia, não sei porque, fui dormir e não esperei ele chegar. Soube que ele chegou, tirou o paletó, sentou ao piano e tocou ‘Noturno’. Quando terminou, virou o pescoço para trás, como se fosse descansar, e não acordou mais".
Assim relata o pianista e professor Renato Mendonça sobre a morte do seu pai, o compositor Newton Mendonça, aos 33 anos, em 1960. O filho não dormia enquanto ele não chegasse trazendo uma barra de chocolate. Mas naquela noite o sono do menino não deixou ver o sono definitivo do pai, abatido por uma nota só de um enfarto no silêncio noturno de sua casa.
Newton Mendonça, que hoje faria 90 anos, foi um dos principais criadores da Bossa Nova, quando João Gilberto gravou Desafinado, parceria com Tom Jobim, no seu primeiro disco, Chega de saudade, 1959.
Assim como a faixa-título, a composição tornou-se icônica naquele jeito novo de cantar, quase sussurrando no ouvido o que dizia o peito de um desafinado.
Mendonça deixou poucas canções, mas todas com sucesso e reconhecimento por quem gravou. Revelou-se na história da música brasileira a nossa enorme gratidão.
Na foto acima, os corações afinados dos Mendonças, pai e filho.

domingo, 12 de fevereiro de 2017

depois daquele conto

O escritor argentino Julio Cortázar dizia que o conto é como fotografia, o romance como cinema. O cineasta Michelangelo Antonioni o contradisse quando filmou, em 1966, Blow-up - Depois daquele beijo, adaptado de um dos seus mais curtos textos, As babas do diabo.
Vários outros cineastas fizeram o mesmo, com vários contos de narrativas psicológicas, surrealistas, como Jean-Luc Godard, Luigi Comencini, Diego Sabanés, Guilherme de Almeida Prado, Laura Papa, Roberto Gervitz, Manuel Antin, Jana Bokova, Sergio Bianchi, Claude Chabrol, Nina Grosse... A lista é longa, dá um romance.
Cortázar, que foi muito e merecidamente festejado em 2014, por ocasião do centenário de nascimento, faleceu numa tarde de 12 de fevereiro de 84, de *leucemia, solitário e deprimido pela morte da esposa, a fotógrafa e escritora Carol Dunlop, dois anos antes.
* A jornalista e escritora argentina Cristina Peri Rossi levantou a tese que o escritor morrera de AIDS. Em entrevista ao jornal O Clarín em 2014, Rossi, depois de vários anos de pesquisa, afirmou que Cortázar fora infectado em uma transfusão de sangue devido a uma hemorragia estomacal, no sul da França, em 1981. A esposa morrera contaminada por ele.

sábado, 11 de fevereiro de 2017

o espaguete

"Em um filme o que importa não é a realidade, mas o que dela possa extrair a imaginação."
- Charles Chaplin
No clássico "Em busca do ouro" (The gold rush), 1925, o solitário Carlitos, faminto em pleno frio do Alasca, saboreia os cadarços de suas botas como se fossem espaguete.

voos lotados


o ministeriável


"‪Indicações ministeriais são sempre polêmicas. Eu mesmo já propus a criação do Ministério da Psicodelia e até agora, nada.‬"
- Serguei, cantor, 83 anos, sem nada a temer

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2017

domingo, 5 de fevereiro de 2017

definitivo


"A minha velhice é definitiva, a sua juventude, provisória. Sorte daqueles que ficam velhos."
- Procópio Ferreira

rasgando o céu

 
Em 1970, na noite de apresentação das finalistas do V Festival Internacional da Canção, no Maracanãzinho, o desconhecido Tony Tornado esperava sua vez para defender a música de Antônio Adolfo e Tibério Gaspar, BR 3.
Ivan Lins acabara de interpretar O amor é o meu país, parceria com Ronaldo Monteiro de Sousa. Um técnico da organização do festival ao chamar Tony para o palco, e por ter visto o estádio lotado ovacionando a canção de Ivan Lins, disse ao concorrente: "vá lá, cante, mas essa já ganhou". Tony, do alto dos seus quase dois metros de humildade falou: "você ainda não me ouviu cantar. Espere e veja".
E o resto é história: Tony Tornado, acompanhado de Trio Ternura, colocou seu vozeirão na BR, requebrou o moonwalk bem antes de Michael Jackson, seguiu os passos do seu ídolo James Brown, e o soul funk foi o grande vencedor do festival.

in vino veritas