quinta-feira, 30 de agosto de 2018

se você vier me perguntar por onde andei...

"Nesses anos todos, Belchior fez de lar suas paragens transitórias, sem reclamar, tentando sempre se adaptar ao ambiente em que se encontrava, com simpatia e simplicidade, preservando sua identidade filosófica, parecendo aplicar para si, na vida do presente, o que sempre escreveu. Era a vivência mais do que um sentimento, era a sua verdade, como se ele mesmo fosse seu próprio experimento, fazendo da vida seu laboratório existencial, confirmando de certa forma suas convicções, embora não fosse mais um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, como havia escrito há mais de quarenta anos, seu comportamento era seu receituário para a vida futura, que já estava vivendo, todos aqueles anos, até seu último momento."

- Trecho do livro Belchior - A história que a biografia não vai contar, de Jorge Cabral, 2017.
Advogado, fã do cantor, Cabral o acolheu durante três meses, de maio a julho de 2013, em seu sítio, em Guaíba, cidade a 60 km de Porto Alegre.

Hoje, um ano e seis meses que ele está encantado com uma nova invenção.
O livro relata, com precisão, espanto e sentimento, fatos que o autor e sua família conviveram com o rapaz latino-americano em seu exílio voluntário.
Hoje, um ano e seis meses que ele está encantado com uma nova invenção.

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

Gil genial


A matéria-prima da arte é a vida, os pedacinhos diários do ser humano. Sou eu, tu, eles. 
Os médicos auscultam nossos corações. Os poetas também.

domingo, 26 de agosto de 2018

vândalos famosos

Quando Glauber Rocha completou 18 anos de idade, juntou sua turma e foram comemorar no cabaré Tabaris, um dos mais frequentados de Salvador na época, onde bebiam, dançavam e se divertiam com belas garotas. Os jovens foram impedidos porque não estavam devidamente de terno e gravata. Tentaram conversar, negociar, apelaram para a data comemorativa, mas não convenceram. O regulamento era severo, não adiantava nem “traje de passeio completo”.
Revoltados, a juventude transviada soteropolitana despedaçou um cavalete com um cartaz que anunciava “as mais belas mulheres da Bahia”. Foram detidos e levados à Delegacia de Polícia, acusados de vandalismo, perturbação da ordem e desacato à autoridade.
Na sede da polícia, o escrivão, enquanto preenchia o relatório, apontou para Glauber e perguntou seu nome, que sério, respondeu:
- Julian Duvivier – e soletrou – Ju-li-ã Du-vi-vi-ê.
O escrivão datilografou e passou para o próximo, que já entendera a brincadeira iniciada pelo futuro cineasta.
- Charles Bodelér, Bodelér, bê-ó-dê-ê-lê-é-rê – respondeu quem, de fato, se chamava Anísio.
- E o seu? – perguntou ao terceiro.
- Carlos Drummond de Andrade.
O quarto:
- Mário de Andrade.
O escrivão olhou para os dois por cima dos óculos e perguntou:
- São parentes?
O último dos vândalos não poupou ao responder qual era o seu nome:
- Salvador Dalí.

Nesse momento o delegado entra e vê que os jovens infratores estavam debochando da cara do escrivão, que não tinha nenhum conhecimento daqueles nomes que datilografara e já ia lavrar o relatório.
Tudo terminou em gargalhadas, foram liberados, e Duvivier, Baudelaire, Drummond, Mário de Andrade e Salvador saíram dali rindo pela rua Dois de Julho, comemorando o aniversário de Glauber.
Na foto acima, da esquerda para a direita, alguns da geração do cineasta nos anos 50: João Ubaldo, Glauber, Calasans Neto, Sante Scaldaferri e Paulo Gil Soares.

segunda-feira, 20 de agosto de 2018

o dia em que o palhaço chorou

No final dos anos 60 ator e diretor Jerry Lewis entrou num período depressivo vendo a fraca repercussão de seus filmes. Ausentou-se dos sets e foi dar aulas de direção em uma universidade em Los Angeles. Um de seus alunos era um jovem de 22 anos chamado Steven Allan Spielberg, que lhe apresentou ao término do curso, em 1968, seu primeiro filme, o curta-metragem Amblin. O professor ficou aloprado com o que viu, a maestria narrativa do pupilo ao contar a história de um casal de jovens que se encontra no mais árido e hostil deserto da América, o Monjave. E mais: ficou fascinado com a preciosidade da produção sob a coordenação de outro aluno, um garotão esperto de 24 anos, George Walton Lucas Jr.

Inspirado pela garra e tenacidade daqueles garotos, quando decidiu voltar a fazer filmes, Jerry fixou-se na ideia de realizar algo diferente, uma comédia dramática... Nada de caretas e pastelão. Caiu-lhe nas mãos um argumento, The day the clown cried, de dois roteiristas desconhecidos. O ator leu, e topou dirigir e interpretar o papel principal. Rodado na França em 1972, o filme (foto acima) nunca foi exibido, envolvido em polêmica logo após as filmagens, e guardado a sete chaves pelo próprio Lewis.
A história é no mínimo extremamente delicada: durante a Alemanha nazista um palhaço bêbado num bar tira onda com o Führer Adolf Hitler, imitando-o com deboche. Os brutamontes da Gestapo sabem e o prendem, mandando-o para um campo de concentração em Auschwitz. Vendo o palhaço brincar com as crianças judias, os soldados o obrigam a divertir os pequenos em seus caminhos até as câmaras de gás, prometendo-lhe liberdade.
Ao ver a fumaça branca das chaminés e o silêncio das crianças que riam há poucos minutos de suas brincadeiras, o palhaço desaba em remorso e não se perdoa. Jerry Lewis também não se perdoou pelo filme que dirigiu e interpretou. Na biografia Dean & Me - A love story, que o ator lançou em 2005, confessa seu arrependimento, "é mau, mau, mau. Podia ter sido poderoso, mas escorreguei".
A única cópia do filme foi entregue por Jerry Lewis à Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos, com o acordo de ser exibido somente em 2025, na véspera de um século do seu nascimento.
O ator faleceu há um ano, numa manhã de agosto, aos 91.

domingo, 19 de agosto de 2018

olhar

"Temos que ver, olhar. É tão difícil fazer isto.
Estamos acostumados a pensar, todo o tempo.
É um processo muito lento e demorado, aprender a olhar. 
Um olhar que tenha um certo peso, um olhar que questione. Não há nada a dizer." 
- Henri Cartier-Bresson

Hoje, Dia Internacional da Fotografia, o olhar de Cartier-Bresson no Moscow Circus, União Soviética, 1954.

sexta-feira, 17 de agosto de 2018

cometa poesia

“No ar frio, o céu dourado baixou ao vale, tornando irreais os contornos dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saímos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo.”
Assim registrou em seu diário o pequeno Carlos aos 7 anos de idade, quando e como viu deslumbrado o cometa Halley passar nos céus mineiros de Itabira, em 18 de maio de 1910.
Tempos depois, Carlos, já Drummond de Andrade, publicou em seu livro de crônica A Bolsa & a Vida, o texto O Fim do Mundo sobre essa lembrança que marcou a infância.
Na foto abaixo, o cometa riscando o céu andino de Arequipa, cidade peruana. Deveria ter acabado de passar no sertão verde de Itabira, e o menino Drummond já no seu caderninho-diário, "protocolando" o poema que ficou em seus olhos.
Hoje, 31 anos que o poeta partiu de vez no cometa.

quinta-feira, 16 de agosto de 2018

campo minado

"Um poeta sentado é sempre um poeta em pé de guerra."
15 anos sem o poeta Haroldo de Campos.

mulher maravilha

Em 1972, Elke Maravilha estava no Aeroporto Santos Dumont quando viu na parede um cartaz de procurados políticos pela ditadura militar.
O cartaz estampava a foto de Stuart Angel, filho de Zuzu. Elke retirou e rasgou em pedacinhos.
Esse simples ato de revolta lhe causou a prisão. Anexado ao processo estava o cartaz rasgado, acusada de prejudicar a localização do rapaz foragido. Cinismo dos militares, como se não soubessem que Stuart morrera torturado barbaramente nas dependências da Base Aérea do Galeão em 14 de junho de 1971, arrastado por um carro com a boca pendurada ao cano de descarga.
Elke passou seis dias presa e perdeu a cidadania brasileira. Só foi libertada por ajuda do advogado de sua amiga Zuzu. Por anos foi uma apátrida, até que requisitou a cidadania alemã, que teve até falecer há dois anos, em 16 de agosto.
Elke, cidadã alemã radicada no Brasil. Maravilha radicada em nossa memória.

quarta-feira, 15 de agosto de 2018

era de Aquário

"Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música", assim foi anunciado o maior evento da música popular, o Woodstock, que começou em 15 de agosto de 1969, na cidade de Bethel, estado de Nova York.
Uma multidão de mais 400 mil com o dedo em V, cabelo ao vento, gente jovem reunida, e o cartaz de mais de trinta músicos... Jimi Hendrix, Janis Joplin, Richie Havens, Arlo Guthrie, Joan Baez, Santana, Creedence Clearwater Revival, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Johnny Winter, Crosby, Stills, Nash & Young, entre outros
Muitos recusaram os convites, pelos mais variados motivos. Dos Beatles, dizem que John Lennon exigiu que tocasse com ele a Plastic Ono Band; Led Zeppelin achou que seria apenas mais uma banda se apresentando; o inocente empresário do Jethro Tull argumentou que teria muita droga e sexo; The Doors não foi porque falaram que Jim Morrison estava inseguro diante tanta gente; o filho de Bob Dylan adoeceu poucos dias antes...

Woodstock ficou marcado como um retrato comportamental, exemplificou a era hippie e a contracultura do final dos anos 1960 e começo de 70. E isso não é pouco.

terça-feira, 14 de agosto de 2018

quebrou a lança, lançou no espaço

Por causa da censura, o disco que lançou o Secos & Molhados, em 1973, em plena ditadura do general Médici, tem apenas trinta minutos e meio. Foram vetadas canções que falavam de fome, militarismo...
Meia hora de lado A e lado B suficiente para se eternizar por quase cinco décadas e mais tempo pela frente.

Este mês o disco completa 45 anos de seu lançamento. A censura política e moral daqueles tempos não impediu o sucesso do grupo. Secos & Molhados rompeu tratados, traiu os ritos. A voz afinadíssima de Ney Matogrosso, o rosto pintado em preto-e-branco e seus requebrados com o dorso esguio e nu, tiveram empatia imediata, cativaram a alma do público.
O álbum vendeu 800 mil cópias somente nos dois primeiros anos. Ficou na história o êxtase de 25 mil pessoas no show que eles fizeram no Maracanãzinho em 1974, e mais uma multidão do lado de fora, que não conseguiu entrar, entoando “vira, vira, vira homem, vira, vira, vira, vira lobisomem”.

domingo, 12 de agosto de 2018

dias sem pai

"A morte chegou pelo interurbano em longas espirais metálicas.
Era de madrugada. Ouvi a voz de minha mãe, viúva.
De repente não tinha pai"

- Versos iniciais de Elegia na morte de Clodoaldo Pereira da Silva Moraes, poeta e cidadão, de Vinicius de Moraes, 1954.
Os poetas auscultam nossos corações

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

roteiro final

No roteiro da programação do 28º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema, o roteiro.
 Cinco dias gratificantes, com alunos participativos, de escrita de ficção e documentário.

terça-feira, 7 de agosto de 2018

gratificante

Após a primeira aula do curso Estrutura e Técnica de Roteiro de Ficção e Documentário, durante o 28º Cine Ceará - Festival Ibero-americano de Cinema, é gratificante a manifestação entusiasmada dos alunos.