domingo, 31 de maio de 2009

tempo precioso

foto de Caio Guatelli

Minha preciosa amiga Karla anda sem tempo. Anda sem tempo pra dizer que anda sem tempo. E me lembrei da música "Tempo sem tempo", do ótimo José Miguel Wisnik (acima, silhuetado no Estádio Pacaembu), compositor paulista, professor de Literatura da USP, e uma pessoa de astral cativante. Tenho todos os seus discos, livros, e não perco seus shows, palestras, qualquer conversa. Uma rara inteligência neste país em que se formam "heróis" por passarem meses confortavelmente confinados numa casa de vidro.

Preciso, sempre preciso, me alimentar do fluido de seres como o Zé Miguel, como anticorpo à mediocridade institucionalizada pela idade mídia, como um estímulo imunogênico à burrice que nos ameaça diariamente em revistas multicoloridas.

"Tempo sem tempo" está no terceiro cd de Wisnik, "Pérolas aos poucos", de 2003, é a segunda faixa, composta em parceria com outro ser inteligente, Jorge Mautner. Procurei no Youtube um vídeo com a música. Encontrei algumas poucas, "Conversa com verso", "Primavera", "Mais simples", menos essa sem tempo...

Minha amiga Karla e minha meia dúzia de leitores, arranjem um tempinho pra ouvirem essa música.

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Haneke

foto Jekki Olauds

"Quando alguém acredita possuir a verdade sobre o que é justo, torna-se rapidamente inumano: essa é a raiz de qualquer terrorismo político."

Do cineasta austríaco Michael Haneke, ao receber ontem a Palma de Ouro em Cannes pelo seu filme "Das weisse band" (A fita branca), que se passa no início do século 20, abordando as origens do nazismo.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

o que é isso?



Pai e filho estão sentados num banco. Subitamente um pardal pousa perto deles. "Τι είναι αυτό", um filme simples, comovente, reflexivo, dirigido em 2007 pelo grego Constantín Pilavios.

segunda-feira, 11 de maio de 2009

sexta-feira, 8 de maio de 2009

que sufoco!

foto Herb Ritts

"O homem nasce para viver. Ele cria a vida. Ele venera a vida. Ele adora a vida. Ele cria a vida nova. Mas lá no fundo de nossas almas existe um instinto que deseja a morte. Fica fácil quando ela chega. Não é muito forte não, esse instinto - só é preciso uma vez! Foi isso que nós vimos na escuridão; é o fantasma adormecido que nós despertamos, e criamos, e vestimos de preto! Um fantasma se alimentando da morte, criando a morte e exultando na morte!"


Pesado o texto, hem? É uma das falas do ator Vincent Price (foto) no filme "A casa do terror" (Mad house), de 1974, onde interpreta um ator de filmes de horror de Hollywood, Paul Toombes, e seu mais importante personagem, o Dr. Morte (Dr. Death), astro de inúmeras películas do gênero. Após a morte misteriosa de sua noiva Ellen Mason (Julie Crosthwait), uma ex-atriz de filmes pornô, que teve sua cabeça decepada na festa do noivado... e por aí vai! Um filme dentro do filme. O roteiro é macabro mesmo, típico dos filmes B, muitos deles baseados em contos de Edgar Allan Poe.

Revistos, esses filmes têm um charme. Um charme kitsch pela forma, estilo e contexto de produção. Com todas essas possíveis limitações, são filmes que estão anos-luz distantes e acima das "Sextas-feiras 13", "Massacres da serra elétrica" e congêneres que ensanguentam com efeitos digitais os multiplex de hoje.
E o elenco que compunha era de atores não somente talentosos, como elegantes, de porte altivo, gestos nobres, a exemplo de Peter Cushing, John Carradine, Christopher Lee e o aqui revenciado Price, que faleceu em 1993, aos 82 anos.

Três anos antes, Vincent Price fez sua última aparição nas telas, contracenando e roubando a cena em "Edward mãos de tesoura", para a honra de Johnny Depp.

quinta-feira, 7 de maio de 2009

velas no Supremo

foto Portal Terra

Foi bonita a manifestação ontem em frente ao Supremo Tribunal Federal. Mais de 300 manifestantes, mais de 5 mil velas acesas pra iluminar a postura do ministro Gilmar Mendes, que com sua arrogância característica minimizou o que estava acontecendo lá fora, dizendo que "se qualifica pelos amigos que tem e pelos inimigos que cria." Uma premissa que faz sentido em se tratando de um magistrado com o perfil que ele tem.

terça-feira, 5 de maio de 2009

o dono do MARanhão

foto Arquivo NV

Minha terra tem Sarney,
onde exige governar;
o Sarney, que aqui governa,
manda Roseana governar.


O Sarney tem mais senadores,
o Sarney tem mais desembargadores,
o Sarney têm mais governadores,
com Sarney se passa horrores.


Se Sarney cismar, à noite,
mais Sarney encontro eu lá;
minha terra tem Sarney,
onde Roseana vai governar.


Minha terra tem Sarney,
que tais Sarney não encontro eu cá;
se Sarney cismar — à noite —
mais Sarney encontro eu lá;
minha terra tem Sarney,
onde Roseana vai governar.

Permita Deus que Sarney morra,
se não Sarney volta pra lá;
e desfrute dos caprichos
que Sarney encontrou por cá;
se Sarney me ver apelar,
o Sarney vai me cassar.


O amigo Afonso C. me enviou essa paródia da Canção do Exílio, de Gonçalves Dias. Intitulado "Canção do exílio de Jackson Lago", assinado por Luiz Clédio Monteiro, o arremedo burlesco está um pouco forçado, os versos se atropelam e a composição muito longe da sonoridade poética do grande poeta do século 19, igualmente maranhense.

Mas vale a contestação. Jackson Lago não é flor que se cheire, utilizou os mesmos mecanismos que Sarney usou deste 1965, quando se elegeu governador pela primeira vez; mas a forma como ele foi ejetado de sua cadeira no Palácio dos Leões é totalmente descabida.

domingo, 3 de maio de 2009

o homem da paz

foto Tyatro Art

"Sou um homem da paz. Mas a paz tem um inimigo: a passavidade."

Augusto Boal, teatrólogo, falecido ontem aos 78 anos.

Boal foi um dos mais lúcidos homens de teatro que este país já teve. E continuará tendo, apesar da sua ausência física que marcará os palcos.

Era admirável seu espírito de contestação, que se destacou principalmente contra o golpe militar de 64. Boal dizia que não lhe incomodava perder "quando existe um debate ideológico e social, mas ser derrotado por um Estado armado, com canhões e tanques de guerra, dá uma tristeza enorme."

Sua filosofia de encenação teatral unia reflexão social e ação política, calcada na educação, na cidadania, nos princípios pedagógicos. Não foi por favores que o jornal inglês The Guardian o considerou o reinventor do teatro político. Torci muito por quando seu nome foi lembrado para o Nobel da Paz, ano passado.

Uma pena homens grandiosos como Boal partirem, enquanto uma canalhada continua dando o ar de sua desgraça neste país.

sábado, 2 de maio de 2009

o que é cinema

foto F&F Productions

"No cinema você não fala sobre as coisas. Você as mostra."


Samuel Fuller (1911 - 1997), o cineasta mestre do chamado filme B, adorado pela crítica francesa do Cahiers du Cinéma na década de 60, esquecido por todos nos anos 70, ressuscitado por si mesmo depois do ótimo "Agonia e glória" (The big red one), em 1980, esquecido novamente nos anos seguintes, até ser redescoberto por Wim Wenders, Martin Scorcese, Jim Jarmusch... e virado cult.


Fuller foi, antes de tudo e de todos, um cineasta autoral. Filmando sobre a América, encontra-se em seus filmes uma América sem o glamour hollywoodiano. Filmes de gangsters, de guerra, noir, todos os gêneros, todas as desilusões e caos americanos mostrados com um olhar único, particular, crítico. Sem desprezar o que seria um cinema tipicamente industrial, Fuller soube conduzir muito bem em sua filmografia o choque (ou a fusão) entre o cinema marginal e o conservador.