quarta-feira, 26 de dezembro de 2012

Santa Amada da Purificação

Dona Canô, a senhora foi canonizada pelo povo brasileiro.
Padroeira de todos os seres de boa vontade.
Devoto que sou, a benção.

segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Lêdo Ivo

Aqui do interior de Minas, leio notícia sobre a morte do grande Lêdo Ivo. Ouso um trocadilho, quisera que fosse um ledo engano.

De tudo que li de sua vasta bibliografia - poesia, contos, romances, ensaios - o que mais gosto, e sempre me pego relendo trechos que sublinhei, é a autobiografia "Confissões de um poeta", publicada em 1979.
Como bem disse meu amigo Duarte Dias, ele foi reintegrado ao cosmos.

E do sertão verde roseano onde piso, segue esta foto com ramos tão sertão Graciliano, seu conterrâneo das Alagoas, caro Lêdo Ivo.

terça-feira, 18 de dezembro de 2012

Keith rock and roll

A figura emblemática do estilo musical surgido nos EUA no final dos anos 40, de uma lista bastante seletiva, é o baixista Keith Richards, pela musicalidade, comportamento e todos os etc e tais...

Keith é a alma do Rollings Stones. Keith é alma do próprio rock and roll, como diz meu amigo Ricardo Augusto. 

Hoje ele completa 69 anos de pedras rolando.

domingo, 16 de dezembro de 2012

adeus às armas

Nancy Lanza, mãe de Adam, 20 anos, autor do massacre nos Estados Unidos, era uma entusiasta colecionadora de armas, que costumava levar os filhos para praticar tiro ao alvo. As duas pistolas e o fuzil usados no ataque de antes de ontem foram comprados e estavam registrados legalmente em nome da mãe.

Os Estados Unidos da América é uma nação bélica. Culturalmente bélica. A adoração às armas do povo americano pode não eleger um presidente, se na campanha ousar defender alguma lei restrigindo a venda de armas.

Desde o Velho Oeste o poder está no coldre. Um país que atira primeiro e pergunta depois - quando pergunta.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

cineminha cosmético

"Vivemos um processo viciado de comissões e incentivos, no qual há preferência para projetos mauricinhos, que não vão dar problema para ninguém, não vão mexer com nada, vão deixar tudo no lugar. Estamos com um cinema sem responsabilidade. Existe um sistema injusto de distribuição do dinheiro de produção."

Cineasta Neville D'Almeida.

Tem muita claquete cabendo nessa carapuça.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

a luz dos olhos teus

Hoje é dia de Santa Luzia. A imagem dessa Santa é uma das mais fortes lembranças da minha infância, em Crateús, interior do Ceará, onde nasci e fui criado.

Minha tia era devota e na parede do quarto onde eu dormia, e
ra a primeira imagem que via ao acordar: batia um facho de luz que vinha de alguma telha quebrada. Nada mais sintomático: a jovem santa siciliana é protetora dos olhos, da visão, da luz.

A minha impressão era que a Santa me abençoava a manhã, com a oferenda do par de olhos na bandeja.

Casa desfeita, parentes idos, herdei esse quadro e a saudade. Coloquei-o na cenografia dos meus dois primeiros curtas-metragens. Afinal, cinema precisa de luz.

Seu Luiz é pop

Hoje Luiz Gonzaga faria 100 anos. Livros, filme, shows, exposições, reverenciam o rei do baião desde o começo o ano. Os cadernos cês dos jornais tecem homenagens, chamando-o de “pop”. Pop de popular, ou seja lá o que isso signifique. Essas homenagens pra mim soam como uma galanteria tardia por alguns setores da mídia. Mas "antes arte do que tarde", como diz o artista plástico, cantor e escritor Bené Fonteles, autor do ótimo livro "O Rei e o Baião", a mais completa pesquisa sobre a vida e a obra de Gonzagão, analisadas a partir de várias abordagens, com centenas de fotografias inéditas e belas xilogravuras. O trabalho de quase 400 páginas foi lançado em 2010.

O velho Lua sempre foi um dos meus ídolos. Não cresci ouvindo João Gilberto, Chet Baker e Leonard Cohen, músicos que admiro e escuto sempre. Cresci ouvindo Gonzagão, Roberto Carlos, Reginaldo Rossi... e até mesmo antes dos Beatles, as versões enviesadas de Renato e Seus Blues Caps. Eu fui Jovem Guarda: Tropicália depois. Eu ouvia Cego Aderaldo: Robert Johnson, Muddy Waters, John Lee Hooker tiveram que esperar a safona terminar o ronco no meu sertão.

Luiz "Lua" Gonzaga sempre foi ídolo a altura de todos outros que hoje são cults. A primeira vez que assisti a um show do Gonzagão em Fortaleza, me emocionei tanto quanto ao ver e ouvir B. B. King pela primeira vez, aqui em Brasília, há dois anos. Entre o Rio São Francisco e o Rio Mississipi a distância é a mesma em que navega meu coração.

A benção, seu Luiz!

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

respirando poesia

No final do livro "Música", do excelente poeta maranhense Celso Borges, um texto a pretexto de um posfácio biográfico diz que "ele sabe que se não escrever, morre".

Ontem o poeta esteve falando, cantando, respirando seus poemas na Livraria
Sebinho, Brasília, no projeto "Da palavra ao verso", mediado pelo meu amigo, o ator Adeilton Lima. Talento, simpatia, e, sobretudo, simplicidade, envolviam como uma aura aquele moço cinquentão diante das pessoas magnetizadas por seus versos. É disso que sobrevive a alma do poeta: de escrever e do ato que se completa do outro lado em ser lido e ouvido. Se não, morremos. Sucubimos sem mais e com muito menos. Como poeta, sei disso. Respirei um pouco-muito do oxigênio de Celso na sua apresentação, ao ouvir sua poesia, ao me alimentar de seus versos, ao receber sua dedicatória no livro. Há beleza, sim, ao redor do nosso dia a dia. Mas a tristeza é senhora desde que o samba é samba. Por isso, Celso, cantando sua música eu mando essa tristeza embora. Abraçaço!

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

a mesma beleza

Essa linda senhora de 85 anos, afagada pelas mãos do ótimo ator Jean-Louis Trintignant em "Amour", novo filme de Michael Heneke, é a mesma grande atriz Emmanuele Riva, igualmente afagada pelas mãos carinhosas de Eiji Okada no clássico "Hiroshima, meu amor", de Alain Resnais, em 1959.

Belas na simetria do tempo que o cinema enterniza.

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

pisa devagar

Chico Anysio, Millor Fernandes, Altamiro Carrilho, Autran Dourado, Celso Blues Boy, Alcione Araújo, Regina Dourado, Eric Hobsbawn, Décio Pignatari, Perinho Santana, Dave Brubeck, Jota Pingo, Chris Rodrigues, Oscar Niemeyer...

Pisa devagar, Indesejada Das Gentes, devagar.

a nave de Niemeyer

Museu Nacional de Brasília, um dos mais belos voos de Niemeyer.

Brasília de Niemeyer

Meu querido Niemeyer, Brasília foi feita para impressionar os arqueólogos do futuro.

cosmovisão

"Cidade-avião, vôo rasante, aeroplana no altiplano do chão / cidade planeta, um desaguar de viajantes / espaço, porto, cosmovisão"

Ednardo, "Serenata para Brazilha", traduzindo o voo do arquiteto Niemeyer.
"Agora conheço / sua geografia / a pele macia / menina morena / teu sexo, teu lago / tua simetria / até qualquer dia / te amo, Brasília..."
                                                                                       Alceu Valença, "Te amo, Brasília"

o escritor Niemeyer

"Mamãe, estou muito triste... porque morreu o escritor Oscar Niemeyer... ele escrevia muito bonito casas, prédios, praças..."

Gabriela, uma garotinha de cinco anos. Ela conheceu a obra de Niemeyer na escola. E como acertou ao confundir a profissão do nosso arquiteto maior: seu traço era mesmo literatura.

para sempre


quarta-feira, 5 de dezembro de 2012

"Mas da próxima vez que eu for a Brasília / eu trago uma flor do cerrado pra você..." 

 Caetano Veloso, "Flor do Cerrado"

traço do arquiteto

"Esse imenso, desmedido amor
vai além de seja o que for
vai além de onde eu vou
do que sou, minha dor
minha linha do equador
esse imenso, desmedido amor
vai além de seja o que for
passa mais além do
céu de Brasília
traço do arquiteto"

Djavan, "Linha do Equador"

último traço

Partiu Oscar Niemeyer, aos 104 anos.

velórock

Antes de ontem fui ao velório de Jota Pingo, no Espaço Cultural 508 Sul, aqui em Brasília. Não, não parecia um velório. Já estava sendo anunciado como velórock, algo assim. Amigos, malucos belezas, bebidas, caldo de gengibre, poemas declamados... Um happening... tanto que ao chegar nem percebi o caixão com o corpo no meio do salão... Todos conversavam como se o amigo morto estivesse ali fingindo-se, com o pulso ainda pulsando, com sua bela loucura, seu delírio tão necessário pra espantar a caretice deste mundo.

É uma cerimônia diferente para nós acostumados ao longo dos séculos com o ritual doloroso da despedida. Eu, que sou nordestino, por lá a dramaturgia funébre é mais heavy, pesada mesmo, ou foi, já não é tanto. Cresci vendo as mais trágicas liturgias dos parentes diante do caixão de seus entes. As crianças eram obrigadas a beijar a testa fria do falecido, os adultos se jogavam por cima ataúde, bradando "por que? por que? por que?".
 
Ao sair do adeus ao Jota Pingo, saí sem sentir que saí de um velório. Como ele queria.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2012

Pingo

Tive poucos contatos com o ator, dramaturgo, agitador cultural e da vida Jota Pingo, que eu nem sabia que se chamava Carlos Augusto de Campos Velho. Eu o admirava de longe. E de perto, já que aqui em Brasília as relações com as pessoas têm essa geografia e simetria entre o abraço e o aceno. Quando vim morar em Brasília, a primeira informação sobre Pingo foi que ele era irmão de Paulo César Pereiro. Mas o cara era tão original, tão único na sua postura irreverente, que essa ligação consanguínea era um detalhe que não se destacava. Eu que passei a dizer que Pereio é que é irmão dele. Tempos depois, Jota Pingo se tornou sogro de minha amiga, a atriz e educadora Antonia Artheme.


Leio no jornal de sua partida pra outros agitos. A última vez que nos vimos, assim tão-longe-tão-perto, foi na 1ª Bienal do Livro, que aconteceu aqui em abril deste ano. Estávamos na fila comprando pipoca e pedi a minha sem sal. Pingo, do meu lado, comentou "tá certo, camarada. Temos que cuidar do coração. A minha também sem sal". E saímos os dois caminhando entre livros, com a pressão alta sob controle.

domingo, 2 de dezembro de 2012

Décio

Não creio em coincidências... o universo faz suas armações, suas sintonias, suas trilhas... e não à toa estava ouvindo agora a faixa "Estou triste", do novo disco do Caetano Veloso, "Abraçaço", e leio a notícia da morte do poeta Décio Pignatari na manhã deste domingo... e não à toa estava eu conversando ontem com meu amigo Paulo Kauim, que gosta tanto Décio... e não à toa estive antes de ontem com meu amigo Adeilton Lima, que também gosta do Décio e por quem eu soube da perda no seu mural no Facebook.

quinta-feira, 29 de novembro de 2012

chame o síndico!

"Tira essa escada daí / essa escada é pra ficar aqui fora / eu vou chamar o síndico / Tim Maia!"

Trecho de "Alô, alô, W/Brasil", de Jorge Ben, um jogo de frases desconexas, com versos que não dizem nada com nada, mas que sugerem imagens do dia a dia da periferia carioca e é um funk ótimo de ouvir, cantar e dançar.

E a história de como cantor compôs tinha que partir de uma inspiração maluca mesmo: numa festa de confratização de fim de ano da agência W/Brasil, lá no começo dos anos 90, o publicitário Washington Olivetto, depois de vários uísques, lançou a candidatura de Tim Maia para síndico do Brasil. Pronto! Em 92, Jorge Ben aparece com a música no LP "Live in Rio". Desse disco duplo é a única inédita, e juntamente com o "revival" dos grandes sucessos, trouxe o rebatizado Ben Jor às, como se dizia, paradas de sucesso.

Outro fato curioso é que, tempos depois, foi lançado no jornal O Globo um "concurso" para escolher a letra mais esdrúxula da música brasileira. "W/Brasil" ganhou o terceiro lugar, o segundo, "Codinome Beija-flor" (talvez pelos "segredos de liquidificador"...), e o primeiro "Refazenda", de Gilberto Gil, que recebeu o troféu Zum de Besouro. Sacaram a sutileza? Aliás, injustiça com Djavan: ele merecia o troféu pelo conjunto de letras de sua obra... Pois é, não chamaram o síndico pra organizar o certame.

domingo, 25 de novembro de 2012

o último dos poucos

Em 1993 assisti a um dos últimos shows de Sérgio Sampaio (1947-1994), no bar Feitiço Mineiro, aqui em Brasília. Foi uma satisfação realizada ver, ouvir e falar com um dos artistas que mais admiro. Um dos meus queridos anjos tortos. Entreguei-lhe um poema de paixão escrito ali num guardanapo, respingado de caipirinha e algumas furtivas lágrimas de alegria. Ele autografou o seu primeiro elepê que levei, admirado e surpreendentemente tímido. Não imaginaria que partiria no ano seguinte. Ninguém imagina esses incômodos, principalmente de quem se ama.

No show de Luiz Melodia em Brasília, quarta-feira passada, ele cantou muito especialmente uma das belas canções de Sérgio Sampaio, a confessional "Que loucura". Emocionante. Os dois eram grandes amigos. Para ele, Sérgio compôs "Doce melodia", na verdade criada e cantada por eles, gravada no excelente álbum "Sinceramente", que o cantor capixaba gravou em 1982.

Sérgio Sampaio, aquele que queria botar o bloco na rua, nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da música brasileira. Anos-luz à frente de muitos, com sua música e letras que são verdadeiros poemas.

Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.

sábado, 24 de novembro de 2012

o pérola negra

 foto Cristina Pereira

O show de Luiz Melodia aqui em Brasília, quarta-feira, 22, para uma enorme Sala Villa-Lobos lotada, só ele com sua voz única e belíssima, e o violão-orquestra do Renato Piau, foi um dos melhores que vi este ano. O cara está impecavelmente jovem aos 61 anos. Simpático, carismático, e cantando todas as pérolas negras que estão na nossa memória. E sem aquele clima retrô. O eterno tem disso: está sempre chegando.

elegia pra Amy

"Como encadernação vistosa, feita para letrados, a mulher se enfeita, mas ela é um livro místico..."

Recorrendo ao poeta jacobino John Donne, via tradução de Augusto de Campos, e minha ousadia de mexer na letra em nome da elegia...

nem toda couve é flor

Uma idiota faz uma cirurgia íntima para diminuir o tamanho da sua "couve-flor", com restrospectiva de outras descerebradas que fizeram, e isso é assunto nacional, manchetes nas páginas da internet, papo de metrô lotado e fila de banco... deve ser por falta de "assuntos melhores" porque uma tal novela que substituiu outra ainda não salvou a audiência...

É, meu caro Stanislaw Ponte Preta, este brasilzim continua com o Festival de Besteira Que Assola o País que você infelizmente vaticinou.

Toca Raul! "Ô, ô, seu moço do disco voador / me leve com você, pra onde você for..."

terça-feira, 20 de novembro de 2012

licença poética

foto Farrokh Chothia

Há poemas que leio e que gostaria muito de tê-los escrito. Um deles é este aí embaixo, "Fascínio", de Affonso Romano de Sant'Anna, casadíssimo com a escritora Marina Colasanti.

Casado, continuo a achar as mulheres irresistíveis.
Não deveria, dizem.
Me esforço. Aliás,
já nem me esforço.
Abertamente me ponho a admirá-las.
Não estou traindo ninguém, advirto.
Como pode o amor trair o amor?
Amar o amor num outro amor
é um ritual que, amante, me permito.

Considero Affonso Romano um dos legítimos representantes da literatura brasileira contemporânea. Autêntico no que escreve, é rigoroso na construção dos versos, com um olhar crítico sobre os problemas e perplexidades do nosso cotidiano, e uma lírica admiração sobre o belo.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

um homem lúcido

Que notícia chata recebo agora... morreu ontem à noite, aos 67 anos, um dos homens mais inteligentes que conheci: o dramaturgo Alcione Araújo.
A palestra que ele deu na 1ª Bienal do Livro, aqui em Brasília, em abril passado, foi uma exposi
ção de pensamento lúcido, antenado com os problemas da sociedade atual. Não somente eu, mas toda o público presente não se conteve em aplaudí-lo durante sua fala. Até mesmo o escritor Mária Prata, seu colega de mesa naquele dia, levantou-se para abraçá-lo.
Eu já conhecia Alcione pelos textos teatrais e de entrevistas. E estivemos juntos pela primeira vez em 1991, em São Paulo, no 3º Taller de Guion, na Verbo Filmes, quando coordenou as oficinas de roteiros para cinema do Brasil, Argentina, Colômbia e Venezuela. As observações que ele fez ao roteiro do meu curta "O último dia de sol" foram extremamente importantes. As modificações que fiz e o que levei em definitivo para o set de filmagens melhoraram bastante o trabalho, como a retirada de uma sequência de flashback.

Encontrei-me depois poucas vezes com Alcione, em festivais de cinema e eventos literários. Este país já está tão carente de pensadores, e quando se vai um talento como Alcione Araújo, cai-se no lamento repetitivo da orfandade.

a contagem de Mona

A criança fofinha da foto é a autora do livro "Contagem Depressiva", Simone Gadelha, hoje a compositora e cantora sem o si e sem o chapeuzinho no sobrenome: Mona Gadelha, minha conterrânea, amiga, gente com residência no lado esquerdo do meu peito.

Esse é o primeiro livro dela, de 1980, feito artesanalmente, ali na raça, com aquela impressão gráfica bem rústica, como um mimiógrafo melhorado, com uma tiragem limitada. Gosto muito dessas publicações. Sempre têm histórias interessantes.

E minha história com esse livro é marcante. Primeiro, me pegou pelo título, esse trocadilho que provoca reflexões, digamos, existenciais. E isso é bem característico de uma certa época de inquietações nas nossas vidas. Depois esses desassossegos aos poucos são "civilizados"... ou sucubimos de vez. Na época do lançamento do livro, em Fortaleza, eu não tinha tanta proximidade com a Mona. Até onde eu chegava a ela, era diametralmente oposto à minha admiração. Mona cantava blues, Mona encantava rock, Mona sorria canções. E conjugo os verbos no presente.
Não consegui o livro e li através de um amigo, numa tacada só, no hall no Cine Center Um, antes de uma sessão de Cinema de Arte. Os textos pra mim são misturas de contos e crônicas, escritos que dissecam amores, desamores, esperanças.

Outro dia conversando via Facebook com Mona, disse-lhe que faltavam alguns cds dela no meu escaninho emocional, e comentei do livro. E ela mandou os discos e um dos poucos raros exemplares que lhe restam.

Valeu a contagem regressiva!

terça-feira, 13 de novembro de 2012

uma composição brasileira

"Aprendemos com a classe média | que vida vira um tédio | sem a televisão..."

Trecho da música "Somos uns compositores brasileiros", do disco "O azul e o encarnado", de Ednardo, de 1977. Quando foi la
nçado eu não tinha grana pra comprar o vinilzão. Passava pela loja Tok Discos, no centro de Fortaleza, e ficava babando esse e outros discos que chegavam e tocavam me torturando a frustração. Mas consegui poupar uns cruzeiros reservados para o cinema e comprei a fita K-7, que era bem mais barato, claro. Que maravilha! Ouvia direto no toca-fitas CCE. E pra economizar pilhas Rayovac, voltava a fita com caneta Bic quando queria ouvir uma música novamente. É o caso dessa faixa, a quarta do lado A, ou como estava lá no K-7, Programa 1.

O disco todo é muito bom: abre com "Está escrito", segue com "Pastora do tempo", onde tem a participação do Fagner, e vai com "Boi mandigueiro", vira pro Programa 2 com "Receita de fellicidade", "Como é difícil não ter 18 anos"... é, Ednardo, é difícil não ter mais essa idade... "meus vinte anos de boy, that's over, baby", como diz Zé Ramalho em "Chão de giz", em seu primeiro LP, de 1978.

Em 2001 "O azul e o encarnado" foi lançado em cd, pela BMG. Mas o que quero mesmo é comprar o vinil, que vivo vasculhando em sebos por aí.

Ah, na época achava essa rima meio forçada, "média" com "tédio", mas depois entende-se a proximidade dos sons das palavras, e a rima chega pela intenção, pelo recado. Como diz lá final da canção, "like you, sua voz", Ednardo, meu caro compositor brasileiro.

sábado, 10 de novembro de 2012

a vida como ela é

A atuação da atriz Simone Spoladore é um dos pontos mais fortes da peça "Depois da queda". Escrita por Arthur Miller, mostra o relacionamento do escritor com Marilyn Monroe, casados por cinco anos. Se Miller fez uma espécie expurgação no texto escrito dois anos após a morte da atriz, revelando o conturbado relacionamento com a sex symbol, Spoladore soube dissecar e, de certa forma, desconstruir o mito, expondo no palco a fragilidade de uma artista depressiva, insegura, autodestrutiva. Mesmo com todo o glamour que Marilyn impõe ao longo do tempo em que estamos acostumados a vê-la e idolatrá-la, a construção dramática da excelente atriz curitibana, sem retoques de Andy Warhol, não poupa o lado verdadeiro e humano da personagem, sem deixar de mostrar, claro, a Marilyn carismática, sedutora e ingênua.


Se há um problema na peça é sua duração de quase três horas. O primeiro ato, onde são apresentados o perfil e a história de Miller, é desnecessário. Quando Marilyn entra no final da primeira parte, a peça poderia começar daquele momento. Miller não perderia valores de sua descrição. Ele por si está ali contruído. Ele como fio condutor da peça, dispensa maiores apresentações. Marilyn já vem com outra Marilyn, e Spoladore, linda, diáfana, com seu olhar pisciano, está lá para apresentá-la, com toda crueza e sinceridade necessárias. 
Em cartaz no CCBB Brasília, o pecado mora ao lado até amanhã, dia 11.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Vil metal. Por isso, vil

"Eu aprendi / a vida é um jogo / cada um por si / e Deus contra todos / você vai morrer / e não vai pro céu / é bom aprender / a vida é cruel / homem primata / capitalismo selvagem"
(Titãs)

"E desde então eu vivo / com meu banjo / executando os rocks do meu livro / pisando em falso / com meus panos quentes / ... / enquanto você fala entre dentes / poeta bom é poeta morto..."
(Zeca Baleiro)

"Mas é preciso viver / e viver não é brincadeira não / quando o jeito é se virar / irmão desconhece irmão / aí dinheiro na mão é vendaval / dinheiro na mão é solução / e solidão"
(Paulinho da Viola)

"E hoje eu sei / que quem me deu a ideia / de uma nova consciência e juventude / está em casa guardado por Deus / contando os seus metais"
(Belchior)

"Imagine no possessions / I wonder if you can / no need for greed or hunger"
(John Lennon)

"Pois cantando neste mundo / vivo escravo do meu samba / muito embora vagabundo"
(Noel Rosa)

"O dinheiro não compra felicidade, mas compra uma imitação tão perfeita, que a gente chega a acreditar."  
(Maria Bethânia)

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

terça-feira, 30 de outubro de 2012

a sustentável leveza do ser

Essas esculturas são feitas de ferro fundido, pesadíssimas, penduradas por cordas de aço. Mas a sensação que passa é de leveza, como se flutuassem. Não consigo falar muito sobre a curiosíssima exposição Corpos Presentes - Still Being, do britânico Antony Gormley, no CCBB Brasília. Há uma admiração silenciosa em mim com que vi.

Dividida, aliás, expandida em cinco ambientes, o corpo humano masculino apresenta-se nas mais diversas formas imaginadas pelo artista. O molde é o seu próprio corpo. Gormley consegue com a dureza da matéria prima expressar o interior do corpo, ou o que seria a essência que respira, pois segundo ele "não se pode tocar o corpo sem considerar a alma". Há na exposição algumas fotos do processo de confecção das esculturas. O que se vê nas imagens de bastidores são várias pessoas trabalhando com ferros de soldar a gás, como numa oficina mecânica. Mas isso não desmitifica o impressionante trabalho. As expressões corporais, os contornos anatômicos são de uma dramaticidade perfeita, convincente, que dialogam com o nosso olhar atento.

As esculturas de tamanho real, denominadas Critical Mass II, as que mais me impressionaram, e liberadas para o visitante fotografar, estão expostas em um enorme galpão aberto do CCBB, que parece construído para essa finalidade.

E eu que achava que não conseguiria falar sobre o que achei, falei. O corpo fala, não tem como calar.

como nos filmes

O presidente Obama, que já enfrenta o furacão republicano Romney, protege-se com seu figurino de Neo, de Matrix, do furação Sandy devastando como nos filmes... Que tudo passe logo, que não seja tão arrasador quanto em Hollywood.

Raul rock Seixas

"Há muito tempo atrás na velha Bahia / eu imitava Little Richard e me contorcia / as pessoas se afastavam pensando / que eu tava tendo um ataque de epilepsia".
O bom e eterno Raulzito dos Santos Seixas, na faixa de abertura de seu último vinilzão, "A panela do diabo", que ele gravou com o também ótimo Marcelo Nova, lançado em 1989, ano em que ele partiu na sombra sonora de um disco voador.

Das doze músicas, oito foram compostas e cantadas pelos dois, inclusive a citada, "Rock'n'roll", num dueto que expressa o saudável encontro do conterrâneo admirador e seu ídolo. Essa letra é uma maravilha de curtição nos rockzinhos que surgiram na década de 80. A dupla reverencia o rock-and-roll genuíno, e ousa dizer que "nunca vi Beethoven fazer / aquilo que Chuck Berry faz". Nem o banquinho e o violão bossanovista escapa, "bosta nova pra universitário / gente fina, intelectual / oxalá, oxum, dendê oxossi de não sei o quê".

Mas Raul não é bobo, sabe onde cutuca, onde tem raiz no tronco de outro, "não importa o sotaque / e sim o jeito de fazer / pois há muito percebi que Genival Lacerda / tem a ver com Elvis e com Jerry Lee"

os furacões de Obama

O presidente Obama, que já enfrenta o furacão republicano Romney, protege-se com seu figurino de Neo, de "Matrix", do furação Sandy devastando como nos filmes... Que tudo passe logo, que não seja tão arrasador quanto em Hollywood.

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

livros todos os dias

Hoje é dia do Livro. Pra mim todos os dias são uma imensa biblioteca. Aqui e além. Como Jorge Luis Borges, "sempre imaginei que o Paraíso fosse uma espécie de livraria".

outro cinema

Não dou chance, sou implacável com o cinemão hollywoodiano babaca, vazio, beligerante, dopante, alienado e alienante, e fico empolgado com cinematografias tortas e com sangue nas veias, como o novo cinema asiático, por exemplo, por um bom exemplo.
Amanhã começa no CCBB Brasília, a Mostra de Cinema Coreano, com exibição de cinco filmes de uma nova geração de cineastas, como Kim Dal-Joong e Kang Hyong-Cheol. Uma safra quentinha, pulsante, produções de 2007 a 2012, que sabem tratar com inteligência e sensibilidade temas tão variados que vão de relações pessoais e familiares à culinária, passando por questões sociais.

A entrada no CCBB é 0800. Nem estacionamento paga. Mais do que fazer propaganda do local, divulgo o bom Cinema. A direção do espaço até deveria melhorar o atendimento ao público cativo, revendo algumas regrinhas chatas, como horário para pegar senhas, ampliar os horários de ônibus gratuitos para os que não têm carros, e outras coisas mais. É só dar ouvidos às reclamações, responder às questões que são depositadas pelos frequentadores naquela urninha de acrílico.

sábado, 27 de outubro de 2012

Regina Dourado

Meu primeiro trabalho como fotógrafo de cena de um longa-metragem foi em "Tigipió - Uma questão de honra", de Pedro Jorge de Castro, 1982. Uma experiência fascinante, desafiadora, provocante. Aprendi muito. É uma atividade diferente dentro de um set de filmagens.

Conviver com os atores e a equipe técnica é um dos fatores marcantes. Tenho boas lembranças e a amizade continuou com José Dumont, B. de Paiva, Ricar
do Guilherme, João Falcão, Regina Dourado... E é da sorridente e talentosa Regina Dourado que hoje me lembro com saudades ao ler sobre sua morte. De repente vem tudo como num filme rebobinado... nossas conversas nos intervalos, seu carinho e atenção quando eu pedia pra repetir uma posição para uma foto, nossos reencontros em outros filmes, seus pratos saborosos quando estive no Rio, sua gargalhada, sua alegria... Só a revi uma vez depois que adoeceu, num festival de cinema em Fortaleza, quando mais uma vez me falou de como gostava muito do cartaz do filme, feito a partir de minha foto. Ela se orgulhava do seu rosto estampado, do momento exato que captei a sua emoção numa das cenas mais importantes. Eu também fico orgulhoso pela oportunidade que você me deu, Regina. Você é que me dá muito cartaz. Olha aí. Um beijo, querida.

sábado, 20 de outubro de 2012

nem todos verão

Para quem mora da Bahia pra baixo, começa hoje o incômodo e incoerente horário de verão. Bagunça tudo, altera o relógio biológico de todos, e é uma crueldade com as crianças que não conseguem e nem entendem porque tem de acordar uma hora antes. E os baianos este ano ficaram livres desse chatice.

Quando o organismo já está "se adaptando", quatro meses depois, volta o horário normal. E nova adaptação nos afazeres cotidianos. 

É nesse período que me dá vontade de voltar pro meu Ceará, que não tem horário de verão e é verão o ano inteiro.

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

coeur d'Emmanuelle

O filme que considero mais erótico é “Emmanuelle”, de Just Jaeckin, produção francesa de 1974. Ao contrário da avalanche de filmes pornográficos que foram lançados no Brasil com liberação da censura no final dos anos 70, a produção francesa trazia outros conceitos para o gênero. Estreou em telas brasileiras em 1978.

“Emmanuelle” tinha de tudo em termo de sexo e suas possibilidades de explorar o máximo do prazer: sexo a dois, a três, a quatro, sexo em avião (que depois ficou conhecido como “mile high club”), masturbação, a técnica de pompoarismo que mostrava uma vagina fumando um cigarro, etc etc etc . Tudo isso sem sexo explícito e em estilo requintado, ambientes exóticos, mulheres lindas, homens sedutores, locais paradisíacos, trilha sonora com gemidos composta por Pierre Bachelet, e uma historinha para justificar tantas sacanagens.

“Emmanuelle” mexeu com 50 milhões espectadores no mundo inteiro por conta desse erotismo “soft” que provocava a imaginação e cutucava os desejos mais reprimidos nos homens e mulheres. “Soft” , mas direto, sem arrodeios, sem muitas palavras e pouca roupa, com uma “tese” muito segura sobre uma visão do sexo fora dos padrões.

A atriz holandesa Sylvia Kristel, que morreu hoje aos 60 anos, encarnou com perfeição a Emmanuelle que existe nas mulheres e que os homens desejam, pelo menos assim o filme provocava uma discussão no subtexto. A atriz escolhida não tinha nenhum protótipo de mulherão, de gostosa... E isso nunca foi necessário nem condição para definir beleza feminina e sensualidade. Esse poder está na essência do eterno feminino, na volúpia de sua sexualidade natural, única.

O filme teve sequências muito ruins, fazendo uma variação equivocada do primeiro, partindo para o explícito mesmo e fim de papo. Sylvia Kristel fez dezenas de outros filmes, inclusive retomando Emmanuelle como referência, e, de certa forma, ficou marcada pela personagem criada ainda no final da década de 50 pela escritora Emmanuelle Arsan. Não, não sei se existe algo de biográfico entre uma e outra. Sei que tem entre todos nós. Ou não?

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Dom Fragoso

Eu era muito garoto, mas lembro-me muito bem quando o paraibano Dom Antonio Batista Fragoso chegou em Crateús. Não esquecerei daquele homem sorridente, vindo da estação de trem, caminhando pela rua principal acompanhado de uma multidão, que lhe dava boas-vindas. Uma cena de filme neo-realista italiano gravada nas minhas retinas. Um fragmento de um exemplar dirigido por De Sicca, Pietro Germi... ali na minha rua.

Naquele começo dos anos de chumbo, exatamente em 1964, ele desembacava na pequena cidade no interior do Ceará, como 1º Bispo Diocesano, e iniciaria sua luta pelos direitos dos excluídos durante o regime militar. Até 1998, a passagem de Dom Fragoso em Crateús é marcada pelos ensinamentos para quem conviveu ao seu lado, pela experiência na organização dos trabalhadores rurais em sindicatos e nas Comunidades Eclesiais de Base. Foi perseguido pelos militares, preso em 1968, vigiado e hostilizado pela hipocrisia da sociedade conservadora com seus ternos de linho branco no calor do sertão.


Para contar a vida desse brasileiro, o cineasta Francis Vale realizou o documentário longa "Dom Fragoso", que será exibido pela primeira vez aqui em Brasília, amanhã no Centro Cultural de Brasília, 601 Norte, às 19h30, entrada franca, com a presença do diretor para um debate após a sessão. O filme faz parte do evento semanal Cine-Fórum, insere-se na programação de comemoração dos 50 anos do Concílio Ecumênico Vaticano II, onde já foi exibido no começo do mês outro bom filme, "Dom Helder, o santo rebelde", de 
Érika Bauer.

A quem interessar possa, mais informações no site do CCB:
http://migre.me/b9XH5