terça-feira, 12 de dezembro de 2017

à altura dos corações

Yasujiro Ozu, o cineasta do cotidiano, dos laços e desenlaces familiares.
Criador dos planos com tripé baixo, sua câmera-tatame está sempre à altura dos corações dos que partem e dos que voltam.
Minimalista, com serenidade e sutileza, seu cinema disseca sentimentos que mexem com todos, como deve ser para o entendimento e reflexão de todos nós, seres imperfeitos metidos a sabidos.
Em seus filmes, Ozu estabelece uma estrutura neorrealista, confrontando o velho e o novo Japão, muito bem definido no envelhecimento e na modernidade, nos filhos e nos pais, nas cidades e nos costumes, no efêmero que somos, no eterno que pretendemos.
Como em conceito taoísta, o cineasta veio e se foi no mesmo dia, 12 de dezembro. Os 60 anos que se ligam entre o seu Yin em 1903 e o seu Yang em 1963, reúnem as forças da transformação contínua, da vida que surge à vida que se destina.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

o anjo torto de Vila Isabel

"Sou do sereno poeta muito soturno..."
Noel Rosa viveu apenas 27 anos, de boemia e poesia, dos 107 que não faria hoje.
Ele foi um dândi enviesado, um irreverente com suprema inteligência, no começo de um século reverencioso aos bons costumes do lugar. Do jeito que atravessava a noite e curtia a vida, não alcançaria estes mitológicos 2000 anos depois de Cristo.
Noel Rosa: Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, lançada em 1990 e logo recolhida pelas sobrinhas herdeiras do compositor, é o mais completo relato da vida do artista.
O livro foi proibido através de ações judiciais, alegando desrespeito à vida privada da família, possivelmente por mencionar os suicídios da avó e do pai de Noel.

O texto é primoroso, com a elegância que o biografado merece.

domingo, 10 de dezembro de 2017

a vida de Clarice

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
- Clarice Lispector através da personagem Lóri em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, 1969.
Hoje ela faria 97 anos rendida à vida.
Abaixo, a escritora fotografada por Bluma Wainer, Paris,1946, imagem usada na capa do ótimo Clarice, uma biografia, do americano radicado na Holanda Benjamin Moser, 2009. Uma pena que o título na edição brasileira, pela Cosac Naify, omita um dado importante do título original, Why this world: a biography of Clarice Lispector. O "por que este mundo" é ao mesmo tempo uma pergunta-afirmação bem tipica das inquietações e mistérios de Clarice.

sábado, 9 de dezembro de 2017

que mistérios tem Clarice?

"Ao vê-la, levei um choque: os seus olhos amendoados e verdes, as maçãs do rosto salientes, ela parecia uma loba – uma loba fascinante. Não tenho qualquer lembrança do que conversamos naquela ocasião, porém quase nada devo ter eu falado, a não ser talvez algumas palavras de elogio a sua literatura. Ela era afável e simples mas de pouco falar. Saí dali meio atordoado, com aquela imagem de loba na cabeça. Imaginei que, se voltasse a vê-la, iria me apaixonar por ela."

- Ferreira Gullar, que se foi há um ano, sobre a primeira vez que viu Clarice Lispector, que se foi há 40 anos hoje e faria 97 amanhã.
O encontro fascinante aconteceu numa tarde de domingo na casa da escultora Zélia Salgado, Ipanema, 1956.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

o último take

Notícia triste nesta manhã... O cinema cearense perde um dos seus mais autênticos e combativos cineastas: Francis Vale.
A ele devo o primeiro take do meu documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B, cedendo-me equipamentos, equipe e muito afeto. E partiu dele a homenagem que recebi no Festival Jeri Digital, em 2012. Só tenho gratidão e muita saudade.
Meu coração abraça vocês, Gabriel Vale e Bel Vale, filhos, e Leny, sua querida esposa.