terça-feira, 6 de dezembro de 2016

adestramento


na vertigem do dia

"A poesia é um momento em que sou obrigado a pensar. Por mim eu não pensaria em nada. É como um poema em que escrevi. 'Ah, ser somente o presente: esta manhã, esta sala.'"
- Ferreira Gullar em entrevista à revista Piauí, janeiro de 2007.
O verso que ele cita é do poema "Extravio", publicado no livro "Muitas vozes", 1999.
O título da postagem é uma menção ao livro publicado em 1980.
A poesia na transversal do tempo, no emaranhado de pensamentos.

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

o último poema

"Luciana, tudo isso é inútil. Me leva para Ipanema. Quero entrar no mar e ir embora."
- Um dos últimos apelos de Ferreira Gullar à filha.

Consciente da gravidade de seu estado de saúde, o poeta recusou a opção que lhe ofereceram de prolongar a vida artificialmente por meio de aparelhos.

por exemplo

"O homem, por exemplo, já não está na cidade / nem como uma árvore / está em uma de suas folhas..."

Glauber morto

foto Luiz Garrido

O morto
não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto
não está barbeado
não está penteado
não tem na lapela
uma flor
não calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.

Quando Glauber Rocha morreu, em 1981, Ferreira Gullar escreveu este poema e publicou em uma página inteira do Pasquim, e posteriormente no livro "Barulhos", de 1987.

o escritor Niemeyer

"Mamãe, estou muito triste... porque morreu o escritor Oscar Niemeyer... ele escrevia muito bonito casas, prédios, praças..."
Gabriela, uma garotinha de cinco anos. Ela conheceu a obra de Niemeyer na escola. E como acertou ao confundir a profissão do nosso arquiteto maior: seu traço era mesmo literatura.
Quatro anos hoje sem o traço do arquiteto.

Mandela

Há 22 anos, após mais de quatro décadas de regime segregacionista do apartheid, a África do Sul elegeu pela primeira um governante negro, Nelson Mandela.
Libertado em 1989, após 28 anos de prisão, tornou-se o Pai da Pátria, como foi ovacionado por uma multidão.
Três anos hoje sem Mandela.

domingo, 4 de dezembro de 2016

acontecimento


"corpo que se para de funcionar provoca / um grave acontecimento na família: / sem ele não há José Ribamar Ferreira / não há Ferreira Gullar / e muitas pequenas coisas acontecidas no planeta / estarão esquecidas para sempre".
- trecho do "Poema sujo", 1976

Zappa in his own words



"Sem um desvio do normal, progresso é impossível."
23 anos sem a iconoclastia erudita, ou a erudição iconoclasta, de Frank Zappa.
O cantor e guitarrista foi um dos destaque da programação da 8ª edição do In-Edit Brasil, com a exibição do documentário Eat that question - Frank Zappa in his own words, de Thorsten Schütte, que aconteceu em setembro passado na capital paulista.

sábado, 3 de dezembro de 2016

mirar

Mirar es una cosa.
Que me mires tu es otro verbo diferente.

MARWAN, poeta e cantor espanhol, 2015

memória


"Não há resistência sem a memória"
86 anos hoje do visionário Jean-Luc Godard.
O cineasta nos anos 60.

soul of Beatles


Corre a lenda que depois de uma exaustiva sessão de fotos para o sexto álbum de estúdio dos Beatles, nos jardins da casa de John Lennon, os quatro se reuniram com o fotógrafo Robert Freeman para selecionarem imagens para a capa, contracapa e encarte.
Durante a projeção dos slides na parede a cartolina deslizou e distorceu uma foto. O efeito analógico e acidental agradou a todos e de imediato decidiram a capa do disco, que ainda não tinha título. Alguém deu a ideia de Rubber soul, algo como alma de borracha. Para completar a proposta, o artista gráfico Charles Frentte distorceu o logotipo do título.


Na variação do tema, disseram também que é uma homenagem a soul music, gênero musical que nasceu com o blues e gospel nos anos 50 e estava influenciando o rock que se fazia na década de 60.
51 anos hoje do álbum que tem clássicos como Norwegian Wood, Drive my car, Michelle...

sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

o mouro

Orson Welles no papel do general mouro em Othello ao lado de sua esposa Desdemona, interpretada por Suzanne Cloutier.
Dirigido pelo próprio Welles, foi uma das mais complicadas produções do polêmico cineasta norte-americano. Shakespeariano até a medula, Welles dissecou com intensidade e um surpreendente fôlego que exigia também de toda equipe, para imprimir na tela as tramas de racismo, amor, ciúme e traição da obra do bardo inglês.
Recusado pelos produtores de Hollywood, Orson Welles recorreu aos europeus e passou três difíceis anos filmando em locações em Marrocos, de 1949 a 1952, e investiu grana do próprio bolso quando o financiamento complicou.
Todo sacrifício foi compensado com o Palma de Ouro em Cannes e a grande repercussão nos cinemas da Europa. Estados Unidos desdenhou. Welles sempre foi um maldito para eles.
Hoje completam 412 anos que William Shakespeare apresentou a peça ao público.

todo dia é dia de samba

“Roda de samba”, de Carybé, 1984
"O samba é o pai do prazer / o samba é o filho da dor / o grande poder transformador...”
- Caetano Veloso, verso de “Desde que o samba é samba”, 1993

Em 2 de dezembro de 1940 o compositor Ary Barroso, autor do clássico “Na baixa do sapateiro”, visitou Salvador pela primeira vez. A partir de 1963 foi instituída a data como Dia Nacional do Samba, iniciativa do vereador baiano Luis Monteiro da Costa.

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

"página infeliz da nossa história..."



o inesquecível

Fernando Pessoa dizia que "tudo o que é bom dura o tempo necessário para ser inesquecível".
Na paisagem urbana das ruas de Lisboa, o poeta, hoje depois de 81 anos de sua morte, atravessa as paredes do inesquecível.
Interferência em estêncil past-up do artista plástico Jean-François Perroy, numa rua do Bairro Alto na capital portuguesa, 2007.

a vida completa de Oscar Wilde

Oscar Wilde, biografia definitiva do romancista, poeta, contista, teatrólogo e ensaísta irlandês, é um fascinante apanhado crítico, escrito por Richard Ellmann.
Wilde, que hoje completa 116 de sua morte, encontra em Ellmann o mais completo narrador de sua vida, da sua ascensão artística, de sua comovente dimensão trágica.

O volumoso Oscar Wilde, prêmio Pulitzer, teve lançamento póstumo em 1988: Richard Ellmann faleceu um ano antes, debruçado sobre as provas tipográficas do livro, vitimado por uma doença de esclerose dos neurônios.
A biografia serviu de base para o roteiro do filme Wilde, de Brian Gilbert, 1987, com a ótima atuação e semelhança física de Stephen Fry.

bate outra vez



Hoje faz 36 anos que Cartola se foi e as rosas continuam falando na música brasileira.
O mundo é um moinho, mas meu coração sempre bate outra vez com esperança quando ouço Seu Agenor.
A benção, mestre. Tiro minha cartola para você.

terça-feira, 29 de novembro de 2016

partida final


como quem partiu...

"Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu..."

duas palavras

A menina que roubava livros, de Markus Zusak, 2005.

the sun

"Here comes the sun, here comes the sun / and I say it's all right..."
Uma das canções mais lindas dos Beatles, e uma das poucas compostas por George Harrison, cantada por ele no álbum Abbey Road, de 1969, tocando guitarra, violão, sintetizador moog e batendo palmas.
A letra é simples, quase ingênua, mas a essência de paz, beleza e esperança transborda na musicalidade e interpretação. Harrison compôs na casa de seu grande amigo, Eric Clapton.
15 anos hoje sem My Sweet Lord... O sol de suas canções continua chegando.