terça-feira, 19 de junho de 2018

tijolo com tijolo num desenho lógico

A edição brasileira de 2009 da revista Rolling Stone fez uma enquete com 90 críticos especializados e mais alguns jornalistas da área musical, para saber quais as 100 maiores canções brasileiras. A lista foi destaque do número que comemorou três anos de publicação nacional.
Construção, de Chico Buarque, ficou em primeiro lugar.
Composta em 1971, em pleno regime truculento do general Médici, é uma das letras mais bem elaboradas em toda história da música brasileira. Pouco se viu tamanha preciosidade poética em proparoxítonas.
Chico completa hoje 74 anos. Ergueu no patamar da música brasileira quatro paredes mágicas.

o dono da voz

Em 1980, sucessivos desentendimentos com a gravadora Ariola fizeram Chico Buarque buscar outro selo, a Polygram.
O compositor, que hoje completa 74 anos, se viu meio encrencado no último dia de gravação do então novo disco: a Ariola fora vendida exatamente para a nova gravadora de Chico. A confusão deu origem à bem-humorada canção A voz do dono e o dono da voz, última faixa do lado A do LP Almanaque, de 1981.
O bolachão é um dos melhores de Chico na década de 80. Tem lá Vitrines, Ela é dançarina, O meu guri, Tanto amar...
A criação da capa, contracapa e encarte do disco, assinada por Elifas Andreato, é uma obra-prima à parte: desenhos, ilustrações que remetem aos velhos almanaques em forma de livrinhos que tratavam de vários assuntos, como datas festivas, feriados, luas, eclipses, horóscopo, pensamentos, trechos de literatura, poesias, anedotas, charadas, palavras cruzadas, e coisas como datas certas para o plantio.

os babacas sebosos


nosso cinema de cada dia

Em 19 de junho de 1898 o italiano Afonso Segreto registra as primeiras imagens em movimento do território brasileiro: a entrada da baía de Guanabara, a bordo do navio francês Brésil.
Comemora-se hoje o Dia do Cinema Brasileiro.
O vídeo abaixo, produzido em homenagem à data, pela ArtCom, em 2016, pelos alunos de Imagem, Som e Música da Universidade Federal de São Carlos, SP, reúne trechos de filmes marcantes do nosso cinema.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

open your eyes

Há 54 anos, quando Paul McCartney começou a cantar "close your eyes and I’ll kiss you...", de All my loving, no programa The Ed Sullivan, em Nova Iorque, a América não fechou mais os olhos e se rendeu ao fenômeno do quarteto de Liverpool.
Hoje a voz dos Beatles completa 76 anos.
All my loving I will send to you, Paul.

o diligente cineasta

No tempo das diligências (Stagecoach), 1939, é um dos principais filmes de John Ford, ao lado de Paixão de fortes (My darling Clementine), 1946, Rastros de ódio (The searchers), 1956, e o drama sobre a Grande Depressão Econômica norte-americana, Vinhas da ira (Grapes of wrath), 1940, baseado no romance de John Steinbeck.
Stagecoach em si é um filme emblemático sobre o velho oeste americano, apesar (e talvez por isso) da predileção de Hollywood em massacrar os índios. A diligência, como uma representação alegórico na narrativa, atravessa a fascinante paisagem desértica do Monument Valley, serpenteia ao som envolvente da música de Louis Gruenberg, compositor nascido na Rússia, e não à toa especializado em grandes arranjos dramáticos, afinando-se bem com o cinema de imagens e condução operísticas de John Ford.
Na diligência embarcam um médico alcoólatra, uma prostituta, um banqueiro, um jogador, uma mulher grávida e um pistoleiro, Ringo Kid, interpretado por John Wayne. Esses passageiros simbolizam um retrato da sociedade norte-americana da época e até mesmo dos dias de hoje. Durante a viagem, ameaçados pelo perigo dos Apaches, cada um dos viajantes revela aos poucos suas peculiaridades, seus desejos, mesquinharias, medos e contradições. E é justamente no bandido que eles depositam a segurança no percurso pelo deserto.
Orson Welles dizia ter assistido Stagecoach mais de 40 vezes, antes de produzir sua obra-prima, Cidadão Kane, em 1940. Do outro lado da América, o mestre japonês Akira Kurosawa afirmou que era um de seus filmes favoritos e o influenciou quando fez Os sete samurais, em 1954. E no sertão da Paraíba o nosso grande documentarista Vladimir Carvalho, quando jovem, não perdia os westerns de John Ford, admirado com os enquadramentos dos planos abertos de outras distantes terras áridas.
O crítico Luiz Carlos Merten em seu livro Cinema – entre a realidade e o artifício, 2003, compara o cineasta a um criador de epopeias, como, digamos, um Homero das pradarias. O próprio John Ford admitia sua preferência pelos westerns como um território de criação de lendas.
E à propósito de histórias que se confundem com lendas, lá pelos anos 50, quando o macarthismo com seu sectarismo e repressão atingiu cineastas, roteiristas, atores, atrizes, e todos artistas pensantes, o diretor foi convocado a uma reunião capitaneada por Cecil B. Mille, um dos fundadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com o intuito de saber de seus pares uma posição de apoio ao famigerado plano de caças às bruxas nos estúdios. Ford, do alto de seus quase dois metros e segura visão monocular de tapa-olho, levantou-se e pediu a palavra: “Meu nome é John Ford e eu faço westerns”, disse, retirando-se, pegando sua diligência e demolindo a proposta de delação de De Mille.
Acima, o cineasta nos intervalos das filmagens de Rastros de ódio. Foto Winton C. Hoch.

domingo, 17 de junho de 2018

a bela e o fera

A diáfana Audrey Hepburn tinha 25 anos e viveu dias conturbados com o cara de mármore Humphrey Bogart nas filmagens de Sabrina, de Billy Wilder, 1954.
O ator, que entrou no elenco substituindo Gary Grant, já esnobava o sucesso de Casablanca, era um dos mais bem pagos de Hollywood e tinha fama de grosso. Hepburn realizara quase dez filmes, mas só ganhou maior projeção na década de 60, com Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s).

Os dois não se batiam. Ou se batiam: a esguia Audrey não aceitava a estupidez do ator no set. Para piorar a relação, no filme Humphrey interpretava um playboy que disputava com o irmão, vivido por William Holden, o amor da personagem de Hepburn, Sabrina, filha do motorista da família. Holden e Audrey tiveram de fato um romance durante a produção do filme.
Esses curiosos fios enovelados, fora das filmagens, podem parecer meras situações prosaicas, sem nenhuma relevância, mas que têm outro viés nas observações dos biógrafos. E até mesmo dos cineastas: François Truffaut soube muito bem, no clássico A noite americana (La nuit américaine), 1973, abordar e dissecar as complexidades que envolvem a técnica e as relações humanas nos bastidores de um filme.
Dennis Stock, fotógrafo nova-iorquino que acompanhou muitos atores e atrizes nas décadas de 40 a 60, flagrou vários momentos no set de Sabrina, como esse da foto abaixo, em que Audrey Hepburn triste aguarda o momento de filmar, e não via a hora de tudo acabar e partir para tomar um café da manhã no Tiffany's.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

depois da revolução

- Você tem certeza que quer fazer um documentário sobre mim?
- Sim.
- Num filme onde está Che, ele sempre será protagonista.

O diálogo ocorreu entre o cirurgião dentista cubano Dr. Luis Carlos García Gutierrez ‘Fisin’ e a cineasta Margarita Hernandez, também cubana, radicada no Ceará, no primeiro dia de filmagem do documentário Che, memórias de um ano secreto, onde refaz os passos do líder revolucionário em 1965, em plena Guerra Fria, quando desapareceu sem deixar pistas.
Dr. Luis García foi responsável por mascarar o rosto de Che Guevara para despitar os serviços de inteligência em suas missões secretas. Após a guerrilha no Gongo, Che foi transferido para Praga e de lá partindo para a Bolívia. Esse relato e mais outros valiosos testemunhos de sua experiência clandestina em mudar a aparência dos camaradas, estão no livro O outro lado do combate (La outra cara del combate), que o dentista lançou em 2008, ponto de partida para o filme de Margarita.
Realmente, Dr. Luis tinha razão. Nos avanços das pesquisas e na feitura do roteiro, a cineasta definiu seu documentário em um recorte específico na figura política de Che, sem explorar o antes, suas origens, e o que o levou à vitória da revolução em Cuba ao lado de Fidel Castro, e sim, centralizando a narrativa no que lhe aconteceu depois, as suas angústias, as inquietações de um líder carismático que não se acomodava, preocupado em manter sempre acessa a luta, como um paladino, e algumas vezes sem alcançar seus objetivos.
O filme integrou as competições Brasileira e Latina no 23º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, São Paulo, em abril passado. Será exibido no 28º Cine Ceará Festival Ibero-americano de Cinema, Fortaleza, em agosto próximo, como parte das homenagens aos 90 anos de nascimento de Che.
Conheci Dr. Luis García em 2009, durante o 19º Cine Ceará. Tinha 92 anos e de uma lucidez e memória impressionantes. Com muito bom humor nas palestras contou várias de suas histórias com Guevara, cativando a todos. Faleceu em 2015.
Se tivesse assistido ao filme de Margarida Hernandez, veria que a cineasta atendeu ao seu conselho e que mesmo sem ser o protagonista, está ali onipresente, “mascarado” em toda trajetória do ilustre paciente.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

dois lados da mesma viagem

“O importante não é chegar, mas viajar”
A frase é do personagem Fausto, interpretado por Ênio Gonçalves em Filme Demência, dirigido por Carlos Reichenbach, 1986.

Com roteiro do diretor e do crítico Inácio Araújo, o filme é uma adaptação livre, contemporânea, atualíssima, da obra teatral de Goethe.
Seis anos hoje que Reichenbach, o querido Carlão, viajou para outros cinemas... curiosamente no mesmo 14 de junho, quando chegou a este mundão em 1945. Dois lados da mesma viagem na simetria do tempo.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Pessoa sem fingimento

O poeta Fernando Pessoa levantava-se diariamente de sua mesa de trabalho na Editora Olisipo, pegava o chapéu, ajeitava os óculos e seguia em passos cadenciados até o Abel, tradicional casa comercial produtora e distribuidora das melhores bebidas à margem do rio Tejo. Lá tomava lentamente um cálice de aguardente e saía pelas ruas de sua Lisboa. Esse hábito Pessoa manteve por um longo tempo em seus curtos e intensos 47 anos de vida.
Em uma dessas tardes de bebericar seu veneno antimonotonia, em 1929, o poeta pediu que lhe fizesse uma foto saboreando a bebida. Dias depois pegou uma cópia, escreveu atrás a dedicatória "Fernando Pessoa em flagrante 'delitro'" e enviou para sua amada Ophelia Queiroz, com quem reatara depois de nove anos de rompimento e muitos poemas e muitas cartas ridículas - ou não seriam cartas de amor, preconizava. Mas o namoro com o ainda donzelo e múltiplo poeta terminou novamente em 1931. As caminhadas ao Abel continuaram, claro.
A moça, professora de Instrução (algo como o Primário), ficou na história como o único amor do reservado Fernando Pessoa, ou de seus heterônimos - ela já não sabia mais quem namorava. O poeta não fingia, seu coração, sabia, um comboio que gira, mas não entretia sua razão e nunca frequentou a casa de Ophelia, resistia a conhecer a família. Como bem observou o ensaísta moçambicano José Gil, Pessoa revelou incapacidade de amar Ophelia à maneira de Ophelia, de aceitar a máscara correspondente a um homem “comum”. Pois é, lembremos que em Lisbon Revisited, poema de 1925, o poeta já questionava, na pele de Álvaro de Campos, também sem fingimentos, o que deveras sentia: “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?” Nem a Ofélia de Shakespeare, em Hamlet, aguentaria essas esquisitices de poeta.
No final de 1935 Fernando Pessoa é internado diagnosticado com cólica hepática e falece. Um ano antes publicara Mensagem, o derradeiro livro onde no poema Mar português leem-se os conhecidos versos-espólio: “Quantas noivas ficaram por casar / para que fosses nosso, ó mar! / Valeu a pena? / Tudo vale a pena / se a alma não é pequena.”
130 anos hoje de nascimento de uma alma que valeu a pena na literatura.

terça-feira, 12 de junho de 2018

12 de junho


nossas musas brasileiras

Durante o show de lançamento do seu primeiro disco em fevereiro de 2014, em Natal, a cantora mineira Lysia Condé, radicada há dez anos na capital potiguar, conta, canta e encanta a história do clássico maxixe Corta-jaca, composto pela pioneira e revolucionária Chiquinha Gonzaga e Machado Careca, no distante 1895.
Lysia e Chiquinha: belas, talentosas, fortes mulheres na simetria do tempo da nossa rica música brasileira.