domingo, 15 de novembro de 2009

condição humana



foto Jerry Bauer

"Nenhuma sociedade tem sido capaz de abolir a tristeza humana, nenhum sistema político pode nos livrar da dor de viver, de nosso medo da morte, de nossa ânsia do absoluto; é a condição humana que dirige a condição social, e não o contrário."

Dramaturgo Eugène Ionesco (1909 - 1994), que neste centenário de nascimento é lembrado e homenageado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sex 'n' jazz

Gare Du Nord é talvez a mais conhecida banda desconhecida holandesa.  Criada em 2001, mistura jazz, blues e soul numa roupagem do que se denominou lounge, um gênero que por sua harmonia tem muito do swing da musicalidade dos anos 50 e 60.

Lançaram quatro bons discos. Fizeram um bela homenagem a Marvin Gayes e Miles Davis no álbum "Sex 'n jazz", lançado em 2007. A interpretação da cantora Dorona Alberti é perfeita. Além de irresistivelmente sensual.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

a indesejada das gentes



foto arquivo NV

"Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir."


(Cecília Meireles) 

Perdi hoje um amigo, um parente. Sempre me questiono o sentido de tudo isso quando a indesejada das gentes, como dizia Bandeira, alcança uma pessoa querida,  que habita nosso coração.

Há tantos poemas, textos, reflexões sobre o fim. Ou o começo? A dor não sabe, procura consolo no ombro mais próximo de um enredo, de uma composição. Eu mesmo já ousei uns mal traçados versos  sobre a única certeza que se tem ao nascer. E nunca é o bastante. Incomoda-me muito saber que também não serei poupado, que não há outro jeito de ficar por aqui mesmo, que cada um de nós é o próximo.

O dia com seu volume de luz e escuridão é o que nos cabe continuar enquanto nossos queridos se vão primeiro. Viver intensamente é o que devemos.

Marco, valeu viver o tempo que nos coube juntos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sem perdão


 foto Blog da História

A morte sob tortura do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, em 1976, nos porões do DOI-CODI em São Paulo, é a base do documentário "Perdão, Mister Fiel" que, além da impiedosa caça aos comunistas no Brasil, trata da intervenção dos Estados Unidos nos países da América do Sul durante as ditaduras militares nas décadas de 1960 a 1980.

Com a morte de Fiel, poucos meses depois da de Vladimir Herzog, no mesmo inferno do DOI-CODI e nas mesmas circunstâncias, começa a ruir o esquema de poder paralelo dentro do Exército, responsável pelas maiores crueldades da repressão, e dá-se inicio à abertura política do país. O filme revela, inclusive, o diálogo entre o General Geisel e o Governador de São Paulo, logo após a morte de Fiel que desencadeia o processo de abertura.

Ao todo, no Brasil, Chile, Argentina e Estados Unidos, o filme entrevistou 30 personalidades, entre elas três presidentes da república, ex-militantes políticos presos e torturados, historiadores, membros dos direitos humanos, além de um dos algozes do DOI-CODI que faz revelações inéditas e impactantes sobre os métodos da ditadura no Brasil.

O longa-metragem foi selecionado para a mostra competitiva do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que começa no próximo dia 17. Dirigido pelo jornalista Jorge Oliveira, é aguardado com expectativa.

Na foto acima, sua esposa Teresa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

tijolo com tijolo num desenho ilógico



Há vinte anos caía o Muro de Berlim, vinha abaixo o principal símbolo da Guerra Fria.

Outros muros precisam cair.

domingo, 8 de novembro de 2009

Anselmo Duarte absolutamente certo


foto AE

"Depois de todas as constatações, é possível extrair uma conclusão de significado doloroso: o meu erro histórico foi ter retornado ao Brasil, após ter dirigido o filme mais premiado do mundo, em 1962. Se a sensibilidade fosse maior que a saudade, teria aceito um dos diversos convites que recebi para dirigir em Hollywood, na França e na Índia. Se me fosse dado o poder de refazer a minha história, jamais retornaria ao meu país para ser alvo de esculhambação da crítica e de desfeita dos agentes ditatoriais."

Anselmo Duarte, falecido ontem aos 89 anos, nas páginas finais de sua autobiografia "Adeus, cinema", lançada em 1993 pela Massao Ohno Editor, ao falar sobre tudo que envolveu a produção e repercussão de "O pagador de promessas", o primeiro e até agora o único filme brasileiro a ser premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
O livro é de uma sinceridade que em alguns momentos causa uma sensação de amargura. Anselmo não usa meios-termos, não poupa pessoas nem esconde fatos, não disfarça os defeitos nem minimiza a importância de seu trabalho como cineasta, e, antes que lhe esqueçam, diz logo nas primeiras páginas, que ao publicar o livro correu "o risco consciente e involuntário de fazer história do cinema brasileiro". A elegância, no entanto, está em todas suas palavras, em um depoimento que comove pelo coração aberto.

Anselmo é um dos cineastas brasileiros que mais admiro. Outro que tem de mim a mesma afeição e respeito pela pessoa e trabalho, é Carlos Reichenbach,  que sempre enriquece quando conversamos, sobre cinema, sobre a vida. Desejei muito ter a mesma amizade com Anselmo. Nunca tive a oportunidade de estar pessoalmente com ele. Nossa relação (unilateral) ficou mesmo através do cinema - o que não é pouco. Mas se me fosse dado o poder de refazer a história, teria dado um jeito de encontrá-lo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

o nosso estrangeiro


 foto Arquivo NV

Morreu sábado passado, aos 100 anos, o antropólogo e etnólogo Claude Lévi-Strauss, aquele que "detestou a Baía de Guanabara: pareceu-lhe uma boca banguela", segundo lembrava Caetano Veloso na música "O estrangeiro", no disco homônimo de 1989.
A citação do compositor baiano teve inspiração no livro "Tristes trópicos", clássico do intelectual francês, lançado em 1955, uma espécie de autobiografia, onde estão as bases do estruturalismo e da antropologia moderna. A obra de 500 páginas é tratado sobre o processo civilizatório, um extraordinário relato com sinceras reflexões sobre a viagem que fizera ao Brasil nos anos 1930. Lévi-Strauss conviveu com os índios bororo, nambiquaras e cadiuéus nas matas amazônicas, observando os mitos e rituais,  o que lhe deu a certeza de que não se tratavam de selvagens, e sim donos de uma lógica complexa e sofisticadas estruturas sociais, fazendo uma análise comparativa das religiões do velho e do novo mundo.

Com mais de 30 livros publicados, o antropólogo voltou ao Brasil no começo dos anos 80. Gostava do nosso carnaval, tinha especial predileção pela marchinha "Mamãe eu quero", de Jararaca, gravada por Carmen Miranda. No período em que viveu aqui, Lévi-Strauss fotografou como parte de pesquisa de campo, revelando-se sua enorme gratidão. A Pinacoteca do Estado de São Paulo, em maio passado, por ocasião do Ano da França no Brasil, incluiu algumas dessas  fotos na exposição "À procura de um olhar".






fotos Claude Lévi-Strauss

E ainda sobre a citação de Lévi-Strauss na música "O estrangeiro", lá pelo meio da discursiva letra, Caetano volta dizendo "Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara / em que se passara passa passará o raro pesadelo / que aqui começo a construir sempre buscando o belo."