sexta-feira, 14 de abril de 2017

perdoa-me por me traíres

Judas quer compreender a mensagem de Cristo, e acha que os brothers apóstolos estão seguindo sem questionar as palavras do Mestre. Judas discute com eles, e tenta defender o seu direito de adivinhar a verdade de Deus. Mas quando não consegue fazê-los compreender, percebe que os ensinamentos de Cristo podem cair no esquecimento, sem beneficiar a humanidade. Sua solução é trair Cristo.
Essa versão enviesada e curiosa do apóstolo que virou sinônimo da deslealdade e da postura pérfida, é apresentada no filme russo Judas, de Andrey Bogatyrev, 2013, e até onde sei, exibido no Brasil apenas na mostra Semana de Filmes Russos em Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.
“Muitos aspectos da vida não são tão simples como parecem ser. Devemos esforçar-nos para tocar o chão da história”, disse o diretor em entrevista, argumentando seu interesse pelo personagem e seus conflitos, extraído do livro Judas Iscariotes e outras histórias, de Leonid Andreev, de 2004.
O autor, assim como posteriormente o cineasta, desenvolvem a tese de que não se trata de crime intencional, nem de culpa, mas de um desígnio obscuro que parece reger a vida de certos homens contra a vontade deles, contra a razão, contra a salvação.
Argumento que não se aplicaria neste Brasil temeroso.

Cristo reloaded

Rodado em Roma, a caríssima produção norte-americana A paixão de Cristo (The Passion of the Christ), de Mel Gibson, 2004, é uma das mais criticadas sobre o tema. O diretor abordou de forma implacável as doze últimas horas de Cristo. Nunca o Salvador foi tão açoitado no cinema. O Nazareno percorre seu calvário desde a agonia após a reunião ministerial com seus apóstolos na Última Ceia até a Ressurreição, debaixo de chibata e insultos pelas ruas. Nem os flashbacks quando criança ao lado de sua mãe Maria aliviam o espectador.
Mel Gibson radicalizou também na concepção do filme, que é falado em aramaico. O preciosismo quase sádico da crucificação demorou duas semanas de filmagens, com dezenas de repetição de takes e cuidados de continuidade.
Há quem devaneie teses cabalísticas nas coincidências de produção do filme, como as mesmas iniciais dos nomes do personagem e do ator, assim como a mesma idade. E após se livrar dos pregos na cruz, Jim Cavaziel achando que acabara o seu martírio, foi atingido por raio juntamente com o assistente de Gibson. Nada de grave aconteceu a ambos.
Na foto acima o diretor informa ao ator que o ocorrido não foi efeito especial, apenas um aviso dos céus para capricharem na cena da ressurreição.

aquele beijo que lhe dei

Um dos beijos mais famosos da história da humanidade: o beijo com segundas intenções de Judas em Cristo.
O quadro de beleza hipnótica, A Captura de Cristo, de Caravaggio, 1602, encontra-se na Galeria Nacional da Irlanda.

Jesus nas ruas

Um grupo de atores encena pelas ruas da grande Montreal, de forma nada convencional, uma versão teatral de A Paixão de Cristo.
Para complicar, a via-crucis de Jesus se confunde com as dificuldades de cada um do elenco, principalmente para o jovem ator a quem pegaram para Cristo.
Jesus de Montreal (Jésus de Montréal), de Dennys Arcand, produção canadense, 1989, tem um dos mais originais roteiros que abordam o martírio de Cristo em direção à cruz. Com roteiro do próprio diretor, a narrativa de metalinguagem da peça dentro do filme faz um paralelo de cada acontecimento da história com o cotidiano dos artistas, dando uma simétrica e curiosa interpretação bíblica para os seres “comuns”.
Arcand faz um cinema onde desconstrói mitos e conceitos estabelecidos dissecando algum sentido para nossas inquietações. No enredo do filme, a peça não é vista com bons olhos pela Igreja. Fora do filme também.

nem Cristo é de ferro

O ator Robert Powell e o diretor Franco Zeffirelli nos intervalos da cena de crucificação de Jesus de Nazaré, 1977, um dos filmes mais vistos sobre o tema de dois mil anos atrás.
Zeffirelli, como um cineasta atento ao seu elenco, dá um acalanto de um uísque antes e um cigarro depois ao ator que tem uma longa caminhada desde Belém à ressurreição.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

poesia na calçada

Sérgio Sampaio, aquele que botou o bloco na rua, nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da linha evolutiva da música popular brasileira, como dizia seu parceiro da Sociedade da Gran-Ordem Kavernista, Raul Seixas.
Com sua música e letras de fúria modernista, viajando de trem do samba e choro ao rock'n roll, blues e baladas, Sérgio Sampaio estava blocos à frente de muitos.
Faria 70 anos hoje, 13, se foi aos 47 com sua poesia na calçada.
Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.

me acuerdo

"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo".
- Eduardo Galeano, no livro Dias e noites de amor e de guerra, 2001.
Dois anos hoje que nossa memória guarda sua ausência.

o beijo enquanto você dormia

Jude Law aproveitando-se do sono de Norah Jones em My Blueberry Nights, para justificar o título em português "Um beijo roubado", produção com grana de Hong Kong, China e França, mas filmada em New York, 2007, com direção moderna do honconguês Wong Kar-Wai.
O delito do talentoso Jude é perdoável. No filme a cantora e pianista Norah, filha do músico indiano Ravi Shankar, é traída pelo namorado logo em sua estreia como atriz. Dona de um restaurante, entrega a responsa do comércio e seus lábios para o charmoso empregado Law.
Quem com o beijo fere, com o beijo do outro será trocado.

quem dera ser um peixe...


quarta-feira, 29 de março de 2017

na Pedra do Ingá

Lula Côrtes é um dos nomes mais representativos da música brasileira, como compositor, cantor, letrista, poeta de versos cheios.
Pernambuco da gema, fez em parceria com o compositor e cartunista Lailson, o primeiro LP independente do país, Satwa, em 1973, embora alguns historiadores não se atentem para o pioneirismo. Naquele disco a dupla iniciou uma ousada mistura dos ritmos nordestinos mais primitivos com arranjos de rock psicodélico, muito bem desenhados nos riffs do jovem Robertinho de Recife.

Essa liquefação de ritmos sonoros reverberou de forma intensa em Paêbirú, vinil em dupla com o Zé Ramalho, 1975, onde além dos ritmos agrestes com os toques lisérgicos, os arautos sertanejos incluem o balanço do jazz.
Gravado artesanalmente naqueles pulsantes anos 70, o disco se tornou histórico, mítico, não somente pelo conteúdo, como também pelo fato das 1300 cópias impressas, apenas 300 sobreviveram a enchente em Recife, quando a gravadora Rosemblit foi invadida por um tsunami das águas do Capibaribe.
Quem tem o disco, tem e pronto, não empresta, e muitos sequer caem na tentação da oferta no mercado de raridades, cotado hoje a R$ 5 mil o exemplar.
Em 2005, o famoso selo da Inglaterra Mr. Bongo Bass relançou a obra em vinil, e há sete anos no Brasil em CD. Não é a mesma viagem, mas dá, de olhos fechados e ouvidos escancarados, adentrar nos microssulcos analógicos da Pedra do Ingá, região do interior paraibano, onde os monumentos arqueológicos, as lendas indígenas e as visitas interplanetárias inspiraram as onze faixas do disco duplo.
Lula Côrtes depois de tocar com Zé Ramalho e fazer parte da banda de Alceu Valença, lançou discos solos de grande qualidade na década 80, e ainda nos 70 outros que nunca chegaram ao mercado.
Neste país de amnésia crônica cultural, a importância de Lula Côrtes pouco se dá. Nos anos 2000 o compositor sobrevivia de um salário como assessor de uma prefeitura no interior de Pernambuco e de trabalhos como artista plástico.
Domingo passado fez seis anos que ele se mandou de vez pras pedreiras do Ingá. Tinha 61 anos, um câncer na garganta e uma tristeza no coração.

segunda-feira, 27 de março de 2017

o código Tarantino

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Em 2006 a Republika Filmes produziu o curta-metragem Tarantino's mind, com roteiro e direção da 300ML, um coletivo de diretores de filmes publicitários de São Paulo.
O filme foi exibido no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo daquele ano, e teve uma recepção calorosa, tornando-se uma espécie de trabalho cult, não somente por abordar a filmografia do cineasta Quentin Tarantino como também pela narrativa com um preciso tato de humor e diálogos afiados.
A grande sacada é a química entre os atores Selton Melo e Seu Jorge.
O dândi enviezado da violência coreográfica do cinema contemporâneo faz hoje 54 anos.

sempre por enquanto

Ele cantava que o "pra sempre sempre acaba". Nem tanto, Renato Russo. Não é sempre assim. Eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim tão diferente depois que você se mandou pra Via-Láctea... Sempre existe um caminho, sempre existe uma luz.
Hoje você faria 57 anos. Mudaram as estações nesse dia. Sua música ficou por aqui, e quando ouço só penso em você.
Vento no litoral, faixa 7 do disco V, por exemplo, é pra sempre. Se não tivesse criado tantas canções belíssimas, e feito somente essa obra-prima, já teria valido tudo pelo vento no litoral. Ver a linha do horizonte me distrai.
Na foto de Robson Silva, agosto de 1979, o adolescente legionário urbano Renato Manfredini nos tempos da Aborto Elétrico, em frente a Igreja Nossa Senhora das Dores, Cruzeiro Velho, Brasília.

quarta-feira, 22 de março de 2017

nobreza da música

“Quando ouvi Salif Keita, dancei...”, diz Chico César em ‘À primeira vista’, aquela do refrão djvaniano “amarazáia zoê, záia, záia / ahin hingá do hanhan...”, gravado em seu primeiro disco, “Aos vivos”, 1995.
Nascido em uma família fundadora do Império Mali, Salif Keita tinha tudo para não ser cantor. Essa “tarefa”, pela tradição da cultura daquele país da África Ocidental, pertence a outro tipo de pessoas. Por lá chamam de ”griots”, incumbidos com a arte de contar histórias, lendas, e, de certa maneira, informar e educar. Não deixa de ser, e configurar, uma estrutura social, porque evoca uma genealogia e história de seu povo. Guardando as devidas proporções, é como os nossos repentistas, por serem guardiões da tradição oral.
Mesmo com esse valor respeitado dos artistas populares, um membro do Império maliano tem reputação nobre, não lhe cabe a incumbência. Mas a arte de Salif Keita ultrapassou esse conceito, rompeu os limites da linhagem, e a música foi abençoada com o talento desse grande compositor.
Junta-se a esse detalhe na vida de Keita, o fato de ter nascido albino, como nossos Hermeto, Sivuca.... Uma raridade naquela região. Tanto é que tal condição caracteriza um sinal de azar na cultura dos maiores grupos étnicos do ocidente africano. Salif Keifa, mesmo com a repercussão de seus discos no exterior, o reconhecimento mundial de sua música, foi de uma forma disfarçada hostilizado na própria terra.
Aos 68 anos, o cantor mora em Paris desde a década de 80. Quando criou asas, voou.

salve, Jorge!

Samba Esquema Novo, primeiro disco do ainda Jorge Ben, 1963.
O samba, a bossa nova, o jazz, o sambalanço, o sambajazz.... Mas que nada, não! Mais que tudo, sim!.
Está lá que chove a chuva por causa de você, menina.
O Bacharel em Música Popular da Universidade de Campinas, Alam D’Ávila do Nascimento, em seu trabalho de Mestrado, disserta com propriedade sobre a curiosa capa, onde o cantor apoia-se em um banquinho invisível. Diz Nascimento que nas composições "a harmonia possui elementos de bossa-nova, mas o ritmo não, indícios de uma possível influência roqueira"
Essa complexidade musical é sugerida na capa, pois a primeira leitura remete à simbologia bossanovista de um-banquinho-e-um-violão. Falta um elemento, de sustentação, e isso define que é um disco da recente bossa já modificada pela variedade do repertório. Um esquema novo do samba que anteciparia procedimentos adotados pelos tropicalistas alguns anos depois.
Hoje, 75 anos do Babulina, Zé Pretinho, Jorge Benjor... Salve, Jorge! Eu também sou da sua companhia.

o cinema mudo deu o que falar

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Hoje o cinema completa 122 anos de sua primeira exibição.
O curtíssimo-metragem A Saída da Fábrica Lumière em Lyon foi apresentado a uma curiosa plateia numa sala, e mostrava a saída dos operários da fábrica, a maioria mulheres, que produzia películas fotográficas, de propriedade dos irmãos Auguste e Louis Lumière, não por acaso os produtores e diretores da novidade.
Mas vale dizer que eles não foram os autores do invento, o cinematógrafo, aparelho de filmagem e projeção.
Léon Bouly foi quem criou a máquina, em 1892, e batizou de "Cynématographe", que já era um aperfeiçoamento do trabalho de Thomas Edson.
O que aconteceu foi que o coitado de Léon não tinha como pagar a patente da sua invenção, e os Lumière, com grana no bolso e olho lá adiante, registraram, e "a coisa é nossa, pronto, vamos filmar os empregados e ficar pra história"... suponho terem pensado e dito. Ou sim?
Em tempo: o cachorro que aparece logo no início foi o primeiro animal do cinema, depois os cavalos do final...

segunda-feira, 20 de março de 2017

quando o tempo avisar

"Quando eu piso em folhas secas / caídas de uma mangueira..."
O outono chegando na voz de Nelson Cavaquinho...
A canção Folhas secas, gravada no seu terceiro LP, de 1973, foi composta em parceira com Guilherme de Brito.
Apesar do sobrenome artístico, por ter sido um exímio cavaquinista na adolescência, Nelson sempre compunha e se apresentava com o violão, que exercia com o mesmo talento.

quinta-feira, 16 de março de 2017

infância

Persona, de Ingmar Bergman, 1966.

A infância me levou ao cinema numa tarde no interior.

O cinema me levou a um tempo próximo e distante da fantasia, da idealização inquebrantável que as crianças fazem de um mundo perfeito.

Crescer tem o inconveniente do mundo ficar muito palpável. O dia é irreversível.  A esperança necessita de muito esforço.

O cinema me levou à infância numa tarde do interior. Não encontrei o caminho de volta para casa.