domingo, 20 de setembro de 2020

final de domingo com Clarice


"Quando tiraram os pontos de minha mão operada, por entre os dedos, gritei. Dei gritos de dor, e de cólera, pois a dor parece uma ofensa à nossa integridade física. Mas não fui tola. Aproveitei a dor e dei gritos pelo passado e pelo presente. Até pelo futuro gritei, meu Deus."

A revolta, de Clarice Lispector, do livro A descoberta do mundo, página 193, publicação póstuma, Ed. Rocco, 1999, onde reúne textos publicados 1969 a 1972 no Caderno B do Jornal do Brasil.

Acima, Clarice fotografada por Bluma Wainer em Paris,1946

sábado, 19 de setembro de 2020

a última cidade


Em cidades invisíveis, obra máxima de Italo Calvino, o personagem Marco Polo, jovem veneziano viajante, relata ao Imperador Kublain Khan suas impressões sobre as mais de cinquenta cidades que visitou.

Publicado em 1972, o romance em metanarrativa constitui-se em um conjunto de metáforas que traduzem bem a relação das pessoas com os lugares, o que esse encontro do desenho urbano com a geografia afetiva reflete nas condições e inquietações humanas, como memória, crenças, esperança, velhice, morte.

O próprio Calvino, de certa forma, está organicamente conduzido nessa narrativa, pela sua história, pelo diagrama que as cidades inventadas traduzem sua visão de mundo. O escritor nasceu em Cuba quando seus pais, cientistas italianos, moraram na ilha no começo dos anos 20. Cresceu e viveu na Itália, onde lutou na resistência contra o fascismo durante a Segunda Guerra.

As cidades de Calvino são personagens em sua arquitetura, memória e desejo. Nelas parece que morou um pouco de cada um de nós. Ou que gostaríamos de ter morado. O que sonhamos um dia morar. Mesmo que “o último porto só pode ser a cidade infernal”, como diz Kublain Khan a Marco Polo no final do livro, ao que ele rebate: “O inferno dos vivos não é algo que será; se existe, é aquele que já está aqui.”

No distante ano de 832, um humilde sapateiro chamado Beato Sorore, na província de Siena, a 50 quilômetros de Florença, colocou sua casa à disposição dos peregrinos que por ali passavam, famintos e cansados, e dos enfermos que habitavam o local e não tinham como se tratar. A casa expandiu as edificações e se tornou hospital, orfanato, capela, igreja e museu, atravessando história, a Idade Média, as pestes, as guerras, até chegar a Idade Moderna. Hoje é o extenso Santa Maria della Scala, mantendo todo o complexo que se formou ao longo de mais de um século.

A quantidade de prédios, de construções primitivas, recuperadas e novas, soma em torno de 12.000 m². Um túnel construído entre os séculos 13 e 15, e que era usado para entregar alimentos e materiais de construção, se estende serpenteando sob três andares onde estão os museus e centenas de quadros e peças valiosas, incluindo o Museo Archeologico Nazionale onde repousam sarcófagos, as capelas e igrejas com vistosos oratórios e atraentes imagens sacras, e o hospital, o Policlinico Santa Maria le Scotte, com dezenas de enfermarias, laboratórios e farmácia.

Num dos leitos do hospital faleceu no dia 19 de setembro de 1985, aos 61 anos, Italo Calvino, que estava internado vítima de aneurisma cerebral. Os edifícios com seus afrescos, relevos, jugos de colunas imensas, compõem e se elevam como uma grande cidade no meio da província de Siena. E como o viajante Marco Polo de seu livro, Italo Calvino, enfermo, e traduzindo a metáfora da relação das pessoas com os lugares, foi acolhido na antiga hospedaria do sapateiro Beato Sorore.

Foi seu último porto na sua última cidade visível.

ler e ser

“Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”

Admirável pensamento do mestre Paulo Freire, no raciocínio da simplicidade de uma fábula, em A Educação na cidade, 1991, coletânea com entrevistas após ter assumido a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, de 1989 a 1990.

O sociólogo e pedagogo, patrono da Educação brasileira, ameaçado nestes tempos sombrios de fascismo, nos mostrou as uvas e que não estariam verdes.

Acima, Painel Paulo Freire, autoria de Luiz Carlos Cappellano, 2009, exposto no Centro de Formação, Tecnologia e Pesquisa Educacional Prof. Milton de Almeida Santos, SME, Campinas, SP.

Hoje 99 anos de seu nascimento.

sexta-feira, 18 de setembro de 2020

um curumim amazonense


“Em ‘De Senectude’, Norberto Bobbio, aos 87 anos diz: ‘Nunca imaginei viver tanto’, nem eu, digo aos noventa e seis. Sempre pensei que morreria aos 47 anos, depois aos 57. Não morri. Também não lembro a razão dessas suspeitas”, escreveu Alberto Soeiro em seu blog no dia 18 de setembro de 2016.

Em agosto do ano passado, eu lançava o meu livro Poesia provisória na XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará. Logo quando começo a apresentação, vejo Alberto chegando, saudável, lindo e faceiro. Há uns três anos não o via pessoalmente. Sentou-se para ouvir-me, veio para me prestigiar, foi para ficar cada vez mais em mim.

E quem é Alberto Soeiro? Um advogado que ao se aposentar aos 58 anos passou a ler cada vez mais, a ver cinema, teatro e exposições cada vez mais, a viajar cada vez mais, a fotografar cada vez mais. Passou a viver o “ócio remunerado”, como costumava dizer. O manauara que chegou ao Rio de Janeiro em 1948, foi morar em Fortaleza, onde tem laços familiares, em 1978, quando o conheci através de seu primo Arthur Jorge. Pediu a um parente que alugasse uma casa, pequena, confortável e se possível com quintal. Estava farto de apartamento. E logo estaria numa rua ainda sem asfalto no bairro Parquelândia, num imóvel como queria, três quartos, pois levara a mãe e a tia, sala de refeições com uma toalha de linho branco na mesa, cozinha com armários bege, quarto de empregada sem empregada, e uma lavanderia lá fora, debaixo de uma latada.

Alberto poderia ter sido um escritor famoso, um diretor de teatro, ou mesmo um cineasta, de tanto que entende de tudo isso e muito mais. E foi nesses lugares que nos aproximamos nos eventos em Fortaleza e passei a frequentar sua casa, em longos papos vespertinos no fim de semana, ao sabor de bolo de milho e café com pouco açúcar, enquanto mãe e tia viam baixinho televisão na sala. Eu o ouvia e o admirava até quando discordava de alguma posição contrária a minha. Ele me admirava e me ouvia mesmo quando defendia um filme que ele não gostara. Alberto nunca casou, não teve filhos, mas plantou árvores frutíferas e roseiras no quintal da Parquelândia, e escreveu livros, mesmo dizendo que assim não são as publicações artesanais editadas pela Universidade Sem Fronteiras, versando os mais diversos assuntos, memórias, relatos de viagens, poemas e receitas da cozinha amazonense.

Desprendido, sua vasta biblioteca era, e é ainda, “itinerante”. Compra muitos livros, lê e os doa, sucessivamente, aos amigos, às bibliotecas. Até meados dos anos 80, antes de vir morar em Brasília, fui beneficiado com essas doações, de livros recentes a preciosidades, edições raras como Poesia e prosa, em papel-bíblia, de Manuel Bandeira, de 1958, Epigramas Irônicos e Sentimentais, de 1922, e Imagens do México, de 1929, ambos em papel de Linho do Prado, de Ronald de Carvalho, as primeiras publicações de Solombra, de Cecília Meireles, 1963, e Poema Sujo, de Ferreira Gullar, 1976, além da bibliografia completa de Thomas Mann.

Eu sem muitas condições financeiras para fazer “farra” em livrarias e sebos, Alberto ajudou-me com sua afetividade a manter minha biblioteca atualizada à época. Hoje quando vejo meus-livros-dele sublinhados e com anotações laterais com sua caligrafia drummondiana, daqui da Asa Norte do cerrado à avenida João Pessoa nas asas do bairro Damas, onde hoje mora, encontro-me e converso com ele em cada página. “É por isso que gosto de dar livros lidos às pessoas a quem prezo muito. Os sublinhados são pedaços de mim mesmo. Uma espécie de eucaristia”, escreveu uma vez em seu blog.

E quem é Alberto Soeiro mesmo? Um famoso dentro de mim, que um dia me assustou com uma delicadeza: em 2010 esteve em Brasília, de passagem para o Pantanal, em uma dessas suas viagens em grupos de terceira idade. Ligou-me dias antes avisando, queria muito me ver, que eu fosse ao hotel, trazia algo para mim, para eu “guardar de volta”. Quando desceu, Alberto trazia um envelope grande, volumoso. No meio da conversa, entregou-me, com um sorriso leve. Abri e me surpreendi: estavam ali o meu primeiro livro, Roteiro dos pássaros, de 1981, e vários publicações minhas de revistas, folhas com poemas, tudo que a ele dei na época em Fortaleza. Diante o meu espanto e o meu olhar em silêncio como pergunta, disse que já entrava nos noventa, não tinha mais muito tempo, e aquele material meu-dele era muito valoroso, estando comigo continuaria com ele quando fosse. De volta para casa, me peguei com furtivas lágrimas quando olhei pelo retrovisor.

Hoje cedo liguei para ele para parabenizá-lo pelos 100 anos de idade, e contei sobre aquele dia. Ainda bem que tinha me enganado. E eu queria mesmo era atravessar os ares da pandemia até Fortaleza e abraçar um século de vida, disse-lhe. A sua voz jovialmente lúcida espalhou-se em meu coração nos longos minutos matinais desta sexta-feira natalícia. O Alberto que ano passado apareceu faceiro no lançamento do meu livro, chegou novamente airoso como um pássaro pelas ondas do Smartphone no lançamento de sua nova velha idade.

Há uns quatro anos escreveu que se tivesse que escolher uma figura para representar sua longevidade, escolheria a linha reta. Nada relacionado a moral, retidão, caráter, mas a uma vida sem lances heroicos ou dramáticos. Vida, vivida na hora certa. E assim, me encho de esperanças, minha linha procura rimar com a dele, pois, parafraseando um dos seus dizeres espirituosos, tudo que há de bom em ti, recolhi como acervo em mim.

Meu coração abraça o seu, Alberto. Te amo, meu caro amigo, com minha “ternura mais funda e mais cotidiana.”

quarta-feira, 16 de setembro de 2020

com sangue nas veias


Em meados dos anos 30 um franzino rapaz gaúcho, que gostava de compor umas marchinhas de carnaval, era noivo da bela mulata Inah. Mesmo apaixonadíssimo, tendo loucura por aquela mulher, hesitava em trocar a despreocupação da boemia pela certidão de casamento. Inah esperou por três anos para que ele decidisse, já que tanto repetia que por aquele amor ele podia “quase” morrer. Ela ainda guardava o poema que ele escreveu quando se conheceram no salão do Clube União Familiar, “Enquanto existirem estrelas no céu para brilhar, só tu serás o meu amor”, dizia um trecho escrito em papel perfumado. O pai, vendo que o filho tinha conhecido uma “moça decente”, arranjou-lhe logo um emprego de bedel na Faculdade de Direito quando ele deu baixa no Exército.

Mas quando se convenceu que o rapaz não tomaria uma atitude, Inah desmanchou o noivado, devolveu-lhe o poema de amor eterno, o perfume secou mesmo, e partiu para viver a vida dela. Afinal, ao contrário do que diria décadas depois um outro compositor com ar de moço bom, “quase” não seria apenas mais um detalhe naquela situação. Inah, firme em seus propósitos, que não ia ficar pendente a um advérbio.

Mesmo também dolorida com a separação, Inah foi rápida. O tempo é sempre favorável aos decididos. Dias depois o rapaz a viu na Rua da Praia, histórica via que nasceu às margens do Guaíba, na capital Porto Alegre. Faceira e com a consciência tranquila, Inah passeava pendurada no braço de um guapo que nem um pedaço do nubente “quase” marido podia ser.

O rapaz desesperou-se, teve ganas de matar ou morrer, principalmente depois quando a moça contraiu matrimônio com aquele que não era um tipo qualquer. Mas acalmou-se. Passando o que ele passou, talvez lhe viesse qualquer outra reação mais proveitosa. Não sabia mais o que trazia no peito, e fez do ciúme, despeito, amizade ou horror, um samba-canção.

O rapaz de menos de vinte anos, como deu para perceber pelo spoiler do texto, era Lupicínio Rodrigues, aquele moreno de rosto arredondado, bigodinho aparado e sorriso triste nos olhos amendoados. Assim surgiu a inspiração para os versos de Nervos de aço, a composição que narra a sua primeira grande desilusão amorosa, o seu desejo de morte ou de dor.

A música ficou guardada por um tempo, quieta em banho-maria de lágrimas para destilar o desgosto em aprendizado. Somente em 1947 foi gravada, na voz de barítono de Francisco Alves. O cantor tinha a marca de ser pioneiro em tudo, foi dele a primeira gravação de disco elétrico feita no Brasil, o primeiro a cantar e consagrar sambas como "Amélia", de Ataulfo Alves e Mário Lago, e Aquarela do Brasil, de Ary Barroso. Chico Alves foi até "rei", no caso, da voz, antes de Roberto Carlos, no descaso, da juventude. Com Nervos de aço não foi diferente, e a confissão axiomática que começa logo perguntando se você sabe o que é ter um amor, meu senhor, tornou-se um clássico no repertório não somente do autor, como também na história da música brasileira.

Lupicínio Rodrigues construiu sua obra com sangue nas veias em mais de 150 canções, como Vingança, Ela disse-me assim, Felicidade, Se acaso você chegasse, Esses moços, pobres moços, Volta, sempre relatando paixões, abandonos, casos e desapontamentos, seus na maioria, mas também dos amigos da boemia, como um cronista musical dos desencantos amorosos. Mesmo triste, nunca deixou sua Porto Alegre, no máximo foi ao Rio de Janeiro, conheceu Wilson Batista, Ataulfo Alves, Germano Augusto, e varavam as noites no Café Nice e atravessavam as madrugadas pelos bares da Lapa. Voltou depois de seis meses, munido de mais desencantos com uns namoros rápidos e dilacerantes para compor mais canções amarguradas.

Lupicínio criou o termo “dor-de-cotovelo”, patenteando o tipo de música que define os amantes bebendo suas dores com os braços apoiados em um balcão de bar. E para não alugar mais os ouvidos dos garçons e ter seu próprio tampo de mesa pra chorar, foi proprietário de diversos bares, churrascarias e restaurantes onde a música estivesse sempre presente, era uma forma de juntar no mesmo espaço e noites o trabalho e a boemia. “Essas casas não eram só para ganhar dinheiro. Eram principalmente para reunir os amigos”, disse em uma entrevista poucos antes de falecer em 1974, de infarto, aos 59 anos.

Há várias ótimas interpretações da emblemática Nervos de aço, anteriores e depois da versão de Paulinho da Viola, no disco homônimo de 1973, que praticamente apresentou a canção para as novas gerações. Dois anos antes, Jamelão, a quem Lupicínio considerava o intérprete que dava o seu recado integralmente, gravou no disco todo a ele dedicado, Jamelão interpreta Lupicínio Rodrigues.

Hoje é aniversário de nascimento de Lupicínio, 106 anos de cotovelos resistentes no imaginário do cancioneiro brasileiro.

Acima, o mestre pelo traço de outro mestre, o cartunista e jornalista paraense J.Bosco.

terça-feira, 15 de setembro de 2020

música do Brasil e mais


A revista digital Música do Brasil e Mais, criada e dirigida pela espanhola
 Julia Torres, editada em Saragoza, apresenta artigos e ensaios sobre nossa música e de outros países.

Disponibilizada gratuitamente como parte do projeto Música do Brasil hoje foi lançada a edição de número 6.

O nosso poetinha maior Vinicius de Moraes ganha 16 páginas como matéria de capa sobre sua vida e obra. Ary Barroso, Luiz Melodia, Aldir Blanc, Ismael Silva, Marina Lima, Tim Maia e um ensaio sobre canto bifônico são os demais “contenidos”.

Como colaborador convidado desde o número anterior, nessa edição participo da parte Mais: “Y puestos a viajar, qué mejor que ir a la preciosa África de la mano de Nirton y sus palabras delicadas al genial Salif Keïta”, assim a editora Julia Torres apresenta o meu texto sobre o músico maliano que completou 71 anos em 25 de agosto.

Gracias, Julia, pela oportunidade de estar na equipe de articulistas da revista, e, principalmente, por seu trabalho e dedicação à história da música brasileira.

viagem ao fim da tarde


Um casal de idosos resolve ir a Tóquio visitar os filhos. A viagem não foi em um momento oportuno, nem nunca será: os filhos, absorvidos pelo trabalho, não dão a atenção devida aos pais, nem sequer se sensibilizam por terem vindo de tão longe para vê-los. Mais do que caminhar em passos lentos do quarto à sala, atravessaram ruas e embarcaram em trens.

Há um sentimento de indiferença e ingratidão, de um lado. E de sublime resignação, do outro: os velhos retornam a sua casa e ao seu passado com a nobreza da compreensão. Eles sabem que pararam "na beira do cais / onde a estrada chegou ao fim".*

Esse é o resumo de um dos belos filmes da história do Cinema, Viagem à Tóquio, também intitulado Era uma vez em Tóquio, originalmente, Tôkyô monogatari, de Yasujiro Ozu, de quem mais do que admirador, sou devoto.

Produção japonesa de 1953, o filme desmonta as relações familiares com muita serenidade e sutileza, como deve ser para o entendimento e a reflexão de todos nós, seres imperfeitos metidos a sabidos. Realizado no pós-guerra, depois que "uma bomba sobre o Japão / fez nascer o Japão na paz",* Ozu estabelece uma estrutura narrativa neorrealista, confrontando o velho e o novo país, muito bem definido no envelhecimento e na modernidade, nos filhos e nos pais, nas cidades e nos costumes, no efêmero que somos, no eterno que pretendemos.

Minimalista na composição de suas imagens, o cineasta do cotidiano, dos laços e desenlaces familiares, disseca sentimentos que mexem com todos. Criador dos planos com tripé baixo, sua câmera-tatame está sempre na altura dos corações dos personagens, dos que ficam, dos que partem e que voltam para casa.

Hoje se comemora no Japão o Dia do Idoso. Viagem à Tóquio é uma bela homenagem ao tempo quando o fim da tarde de nossas vidas for lilás.

* versos de A paz, de Gilberto Gil e João Donato, 1986. 

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

transversal do tempo


Amy bebê e sua mãe, Janis Winehouse.

Amy Winehouse e sua mãe, Janis.

Amy reabilitada pelo afeto de outra mãe nos pontos de crochê da artista Peta Lima Venâncio, minha irmã.

Hoje, 37 anos de nascimento da cantora.

O tempo atravessando o coração de cada uma.

9 anos sem uma na saudade de outra. She died a hundred times.

No aniversário da ídola, o presente é para o irmão fã, eu que distante sempre amei Amy, we only said goodbye with words em suas canções.

carta de recomendação

foto Walter Firmo, 1975

Ô Antonico,

vou lhe pedir um favor
que só depende da sua boa vontade:

É necessário uma viração pro Nestor
que está vivendo em grande dificuldade.
Ele está mesmo dançando na corda bamba
ele é aquele que na escola de samba
toca cuíca, toca surdo e tamborim
faça por ele como se fosse por mim.
Até muamba já fizeram pro rapaz
porque no samba ninguém faz o que ele faz
mas hei de vê-lo bem feliz, se Deus quiser
e agradeço pelo que você fizer.

- Samba Antonico, de Ismael Silva, 1950.

O compositor niteroiense, criado no bairro Estácio de Sá, Rio de Janeiro, sempre desconversou quando lhe perguntavam se a letra era autobiográfica.

Ismael, que faleceu em 1978 aos 72 anos, passou sérias dificuldades financeiras por quase vinte anos, quietinho, sem falar para ninguém, no anonimato de aceitação e constrangimento. Até 1930, vivia bem, vendia seus sambas para Francisco Alves e Mário Reis, várias parcerias com Noel Rosa, além de ser gravado por Silvio Caldas, Carmen Miranda e Aurora Miranda. Criou, a partir de um bloco carnavalesco no Estácio, a primeira escola de samba carioca, a Deixa Falar, em 1928. O rompimento com Chico Alves, a morte de dois grandes amigos parceiros de boemia e composições, desilusões amorosas, a prisão em flagrante, por três anos, por tentativa de homicídio, deixaram Ismael pra baixo. Ao sair da cadeia, vai morar de favor na casa da irmã e se isola da vida artística.

Somente em 1950 Ismael levanta-se, procura os antigos companheiros de música. Antonico é a primeira composição dessa fase de retorno. Por isso, nos versos os contornos de uma situação à procura de trabalho. Muitos historiadores registram que Pixinguinha, por volta de 1939, ao ver o estado de penúria do colega, escreve uma carta ao amigo musicólogo Mozart de Araújo, relata as qualidades como sambista e finaliza dizendo “Espero que o que puder fazer pelo Ismael seja como se fosse por mim.”

O autor grava a música em 1953, mas foi graças à interpretação do cantor Alcides Gerardi, dois anos antes, que Antonico estoura nas rádios e vende milhares de discos. E seguem dezenas de outras composições do sempre elegante Ismael, nos anos 50 e 60, nas vozes de famosos como Dolores Duran, Ataulfo Alves, Donga, Aracy de Almeida, no violão de Baden Powel, na flauta do carinhoso missivista solidário Pixinguinha.

Ismael regrava sua emblemática composição em 1973. Foi nessa década que cantores como Chico Buarque, Caetano Veloso, Elza Soares, o grupo MPB-4, reverenciaram o compositor em shows, cantando seus sambas. É de Gal Costa uma das gravações mais conhecidas de Antonico, no show Fa-tal - Gal a todo vapor, em 1971, no Teatro Ruth Escobar, São Paulo, que praticamente apresentou Ismael para as novas gerações.

Parte de nossa rica música brasileira faz aniversário hoje: 115 anos de nascimento de Ismael Silva. Com ou sem o alter ego "Nestor" da letra, ou a boa vontade de "Antonico" na pessoa de Mozart de Araújo, o compositor deu a volta por cima, porque desde que o samba é samba, ninguém faz o que ele fez.

domingo, 13 de setembro de 2020

quando eu me chamar saudade

foto © Vania Toledo

"Eu só vou fazer sucesso depois de morto", disse o 'Nego Dito' Itamar Assumpção ao baixista e amigo Paulo Lepetit nos anos 70.

Um dos maiores compositores brasileiros e um dos mais representativos nomes da cena alternativa da música paulistana, Itamar tinha consciência da consistência e atemporalidade de seu trabalho. Nunca sucumbiu aos ditames da indústria fonográfica para fazer “sucesso”.

Itamar nasceu no município de Tietê e ainda criança foi morar no interior do Paraná, um tempo em Arapongas, depois em Londrina. E foi nessa cidade que o então estudante de contabilidade Itamar ‘de’ Assumpção, que aprendeu a tocar violão sozinho ouvindo Jimi Hendrix, uma noite voltando da casa de um amigo onde fora pegar um gravador CCE emprestado, foi abordado pela polícia no ponto de ônibus. Acusado de roubo, ficou cinco dias preso. O episódio com aquele jovem negro, pobre e com um objeto que não podia comprar, serviu de inspiração, para anos mais tarde, já na capital paulista, nominar sua banda, Isca de Polícia, formada por Lepetit, os guitarristas Jean Trad e Luiz Chagas (pai de Tulipa Ruiz), o baterista Marco da Costa, Vange Milliet e Susana Salles, que não eram backing vocals, e sim cantoras em potencial e expressivas nos shows de Itamar.

O disco de estreia, Beleléu, Leléu, Eu, de 1980, é uma obra-prima, um marco na chamada Vanguarda Paulistana. Toda sua obra mistura com originalidade a substância do samba de Cartola, Adoniram, Ataulfo Alves, com o rock de Hendrix e o funk de James Brown, passando pelo soul do genuíno afro-americano, atravessando os compassos acentuados do reggae, chegando ao cool jazz de Miles Davis. E na essência desse caldeirão de referências, a reverência aos batuques do terreiro de candomblé que o menino Itamar, bisneto de escravos angolanos, ouvia no quintal de sua casa às margens das águas então cristalinas do Tietê, vila que no Brasil colonial foi invadida pelos bandeirantes usurpadores de nossas riquezas minerais, escravizadores de índios e destruidores de quilombos.

Inquieto, autêntico e produtivo, Itamar compunha em torno de 30 a 40 canções por ano, com parcerias ilustres de Paulo Leminski, Alice Ruiz, Ademir Assunção, Luiz Tatit, Arrigo Barnabé, Ná Ozetti, Bocato, Carlos Careqa, Tata Fernandes, Vange Milliet, e tantos outros.

Se os discos de Itamar explodiam em originalidade, os shows eram literalmente espetáculos surpreendentes pela inventividade, pelos arranjos às vezes refeitos no palco, pelos improvisos que o cantor fazia descendo até a plateia e passando um tempão conversando com alguém ali fascinado com o Benedito João dos Santos Silva Beleléu, vulgo Nego Dito, Nego Dito cascavé. Eu aproveitava e ficava louco, fazia cara de mau, entrava na onda, falava o que me vinha na cabeça. Itamar rejeitava o rótulo de “maldito”. “Eu sou um artista popular!”, bradava com o colorido de seu figuro, seus óculos escuros e sua beleza ébano.

Itamar faria hoje 71 anos. Falecido em 2003, aos 53, depois de quatro anos lutando contra um câncer no intestino, deixou nove discos. Um dos três álbuns póstumos, Vasconcelos e Assumpção, 2004, foi gravado um pouco antes de sua partida. São sete faixas em parceria com o percussionista Naná Vasconcelos.

Intitulado Isso vai dar repercussão, liga-se simbolicamente ao seu vaticínio dito ao amigo Paulo Lepitit.