quarta-feira, 22 de maio de 2019

hábraços


entre o real e o imaginário

"Como sempre uma poesia refinada e precisa, com um diálogo sutil entre o real e o imaginário. Um belo livro, de muita sensibilidade."
- Rosemberg Cariry, escritor, cineasta
Editora Radiadora, 2019
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica

À venda:
-Livraria Lamarca, Fortaleza, CE
-Livraria Pensar, Sobral, CE
-Embaixada da Cachaça, Fortaleza
-Editora Radiadora / Alan Mendonça 85-999442220
-Diretamente com o autor, nirtonvenancio@gmail.com. Envio pelos Correios.

um artista brasileiro

foto Leo Aversa
Em 2016, o funcionário de uma barbearia na Tijuca perdeu um cliente por falar mal de Chico Buarque, a quem chamou de "comunista".
Após ouvir que tocava Chico no rádio, o responsável pelo caixa perguntou: "Odeio comunista. Vocês se incomodam se eu tirar a música desse escroto?".
O cliente rebateu: "Você acaba de perder um cliente. Intolerância política já é ruim. Cultural é pior ainda!"
"Quer vulgaridade e ignorância maiores que um marmanjo com acesso à educação e à cultura precisar de explicação, no século 21, sobre quem é Chico Buarque?", disse o escritor e jornalista Mário Magalhães, do The Intercept, quando o cantor foi hostilizado por um grupo de rapazes, ao sair de um restaurante no Leblon, aos gritos de "Você é um merda!”, "petista!", "ladrão!”
Sobre todos esses ataques destes tempos da indelicadeza, Chico Buarque disse, com seu cavalheirismo habitual, que “acho que vou começar a usar esses fones na rua. Gosto de caminhar e, por onde caminho, nos bairros chiques do Rio, as pessoas finas passam com seus carros grandes e gritam: 'viado filho da puta!', 'viado, vai pra Cuba', 'vai pra Paris, viado'. O único consenso é o 'viado'”.
Na contramão da legião de bestas quadradas, da corja ignara institucionalizada, dos ‘idiotas inúteis’ olavistas, o cantor, compositor e escritor Chico Buarque ganhou o Prêmio Camões 2019 pelo conjunto da obra, já dono de três Jabutis em sua coleção de honrarias literárias.
Criado em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal, o Camões elege a cada ano um escritor de países onde o português é a língua oficial. Chico foi escolhido por uma equipe de seis jurados, os portugueses Clara Rowland e Manuel Frias Martins, os brasileiros Antonio Cicero e Antônio Carlos Hohlfeldt, a angolana Ana Paula Tavares e o moçambicano Nataniel Ngomane, indicados pela Biblioteca Nacional do Brasil, pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela comunidade africana.
“Fiquei muito feliz e honrado de seguir os passos de Raduan Nassar”, disse Chico Buarque ao receber a notícia, ontem, referindo-se ao mais recente brasileiro a ganhar o prêmio, em 2016.
Além do autor de Lavoura Arcaica, outros escritores brasileiros já foram merecidamente agraciados com o Camões: João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Antônio Candido, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar , Dalton Trevisan, Alberto da Costa e Silva e a cearense Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ser comtemplada com o Prêmio, em 1993.
Parabéns, Chico Buarque! Continuamos com sua banda cantando coisas de amor.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

em cada foto uma história

Cantora e compositora Mona Gadelha, cantor e compositor Lucio Ricardo.
1979, Rio de Janeiro, durante as gravações do disco Massafeira. Foto de Gentil Barreira.

2014, Fortaleza, durante ensaio para show Geração 80, Maloca Dragão. Foto de Jacques Antunes.
A história do rock, do blues e das canções cearenses não só passa por eles: está neles.
Eu digo “mami, mami, blues, é cor de sonho... amando sempre vocês”

domingo, 19 de maio de 2019

final de domingo com Hilda e Lygia

foto Acervo Instituto Moreira Salles
“Lygia, eu estou péssima. Estou doentíssima, acho que vou morrer, venha me ver, pelo amor de Deus! Quero demais morrer segurando a mão da Lygia, porque sei que ela vai entender tudo na hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fica calma e tal que é assim mesmo.’”
- poeta Hilda Hilst em seus escritos sobre Lygia Fagundes Teles. Textos, cartas e depoimentos entre as duas escritores foram publicados nos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, em 1999.
Elas foram grandes amigas durante mais de 50 anos. Conheceram-se no final da década de 40, quando Lygia foi homenageada numa festa promovida pela Academia Brasileira de Letras, ao receber o Prêmio Afonso Arinos pelo livro O cacto vermelho. Hilda não tão conhecida, mas já daquele jeito descolada, chegou furando a fila, passando na frente de Cecília Meireles que usava um turbante negro tipo indiano, e apresentou-se: “Sou Hilda Hilst, poeta. Vim saudá-la em nome da nossa Academia do Largo de São Francisco”. Pronto! Selou-se a amizade. Lygia encantou-se com aquela “jovem muito loura e fina, os grandes olhos verdes com uma expressão decidida. Quase arrogante”, como escreveu em um dos textos.
Muitos não entendiam como duas pessoas de temperamentos distintos se davam tão bem. Hilda não perdia tempo explicando, dizia que “a gente tem uma amizade, sei lá, pode ser até de outras vidas, embora sejamos muito diferentes. Aí, por exemplo, eu bebo muito, ela não bebe nada. Ela diz: ‘Eu vou beber um vinhozinho’. Mas eu já estou bebendo uma garrafa e vários uísques.”
Lygia Fagundes Teles completou 96 anos em 19 de abril, no mesmo mês em que Hilda Hilst faria 89, dia 21. Áries e touro na mesma constelação literária.

final de domingo com Clarice

foto Claudia Andujar, 1961
"Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo."
- Clarice Lispector em Um sopro de vida, publicado em 1978, um ano depois de sua morte.

cinema de invenção


“Quando Luiz Rosemberg Filho fez ‘A$$untina das Amérikas' o Brasil penava há pouco mais de uma década com os efeitos do golpe civil-militar. O filme reflete muito desse momento, colocando em cena personagens representativos de tempos tão sombrios”
- Trecho do texto escrito por Firmino Holanda, pesquisador, cineasta e professor da UFC, para o catálogo da VI Mostra Outros Cinemas, maio de 2014, em Fortaleza.
Rodado em 1976, A$$untina abriu o evento com a presença do diretor, que durante a semana foi merecidamente homenageado, com o reconhecimento por sua importância como um dos mais autênticos, criativos e combatentes nomes do cinema brasileiro.
Clássico do chamado cinema experimental, independente, que se fazia à margem dos modelos dominantes, o filme é o mais expressivo do pensamento e estética da cinematografia de Luiz Rosemberg, com quase 50 títulos nos 50 anos de atividade. Muitos de seus filmes foram censurados, praticamente todos sem viabilidade de lançamentos nos moldes comerciais.
O cineasta nunca fez concessão a modismos, nunca se submeteu às regras de produção que interferissem em suas propostas. Dizia que com o fim da ditadura, a censura passou a se chamar “burocracia”, com “a exigência que você faça um roteiro de 80 páginas, que tenha 300 mil papéis para mostrar”, referindo-se aos editais de incentivo, “uma coisa mantida por pessoas que, pelo amor de Deus, nunca foram representativas do ponto de vista do cinema de criação”, opinou com sua notória sinceridade em uma entrevista ao jornal O Globo, em 2015, por ocasião da abertura da mostra em sua homenagem e lançamento do documentário Rosemberg 70 — Cinema de afeto, de Cavi Borges e Christian Caselli.
Expoente de um cinema que ele considerava “de invenção”, Luiz Rosemberg Filho irritava-se com a expressão “cinema marginal”. “Acho escroto!”, esbravejava. Definia o seu cinema como uma “revolução estética necessária que rompesse com a linguagem tradicional de Hollywood. É um nome malicioso para denegrir a imagem de quem lutou por um cinema não oficial. É uma terminologia inventada pelos merdas que precisam de rótulo. Muito amador.”
Sua grande paixão, sempre paralela ao seu trabalho de cineasta, eram as colagens, que ele fazia tanto como “uma terapia para não enlouquecer”, como “para refletir sobre o que poderia fazer com imagens.”
E Luiz Rosemberg Filho fez muito como as imagens para cinema brasileiro. Ele faleceu nesta madrugada de domingo, aos 76 anos. Encantou-se com uma nova invenção de cinema.
O cineasta fotografado Pedro Kirilos em sua casa, 2015, ao lado de fotos, colagens e lembranças.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Van Goghs brasilienses

SQN 213, Brasília

um filme único

Em 17 de maio de 1931 foi projetado pela primeira vez o primeiro e único filme de Mário Peixoto, Limite, no Cinema Capitólio, em sessão organizada pelo Chaplin Club, um cineclube criado por cinéfilos no Rio Janeiro.
O que seria apenas uma exibição de um filme esquisito dirigido por um cineasta de poucas palavras, ganhou notoriedade, provocou debates, estimulou estudos sobre a novata sétima arte, influenciou cineastas pelo mundo. É um marco no cinema brasileiro. Nunca teve uma distribuição comercial. Ao longo dos anos, foi exibido em mostras, aberturas de festivais, lançado em dvd, blu-ray...
Em 2008, o cineasta Martin Scorsese, um entusiasta da obra brasileira, promoveu através de sua ONG World Cinema Foundation, a restauração da película, em cópia 35mm.
Limite está no mesmo nível de O encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, e outros filmes seminais da cinematografia mundial. Os enquadramentos, os movimentos de câmera, a fotografia preto-e-branco, a montagem, os conflitos e a dissecação da alma dos personagens... O cinema comprometido com uma arte que nascia.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Augusto

Ontem, 15 de maio, nove anos da 13ª edição da ótima revista Aldeota, de Fortaleza. Todas as páginas do número foram dedicadas ao enorme-grande-imenso Augusto Pontes, pensador, jornalista, professor, publicitário, poeta, frasista, provocador, boêmio... Guru de toda uma geração da cultura cearense que se fez nos anos 60, 70, 80, 90... de sempre.
Criada pelo publicitário Fernando Costa, a revista teve curta duração. Sempre nas poucas cinco páginas 24,5 x 29,5cm de papel rústico, a fineza de textos ótimos, pertinentes, reflexivos, bem humorados. Da aldeia Aldeota para o mundo. Na referida edição, artigos assinados pela ensaísta e historiadora Isabel Lustosa, os jornalistas Augusto Cesar Costa, Alexandre Barbalho, Paulo Linhares, o arquiteto, urbanista e compositor Fausto Nilo, que pontuam referências e reverenciam a genialidade de Augusto Pontes.
É dele o verso “Vida, vento, vela, leva-me daqui”, uma beleza de aliteração inserida na letra de Mucuripe, de Fagner e Belchior, assim como “Eu sou apenas um rapaz lantino-americano sem parentes importantes” foi inspirada em “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares”, que Augusto disse em seu discurso de posse como professor de Comunicação da UnB, no começo da década de 70. Na plateia, o conterrâneo Belchior.
O que se denominou na música cearense como Pessoal do Ceará, deve-se muito a ele. Não somente como pensamento, também como autor de centenas de letras conhecidas, como, por exemplo, Lupiscinica, musicada por Petrucio Maia, Carneiro, por Ednardo, com quem criou o Massafeira Livre, evento de quatro históricos dias, noites e madrugadas no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, que revelou dezenas de cantores, compositores, poetas, fotógrafos, artistas plásticos, uma infinidade de talentos da cena artística cearense de 1979.
Dez anos ontem que Augusto Pontes faleceu, numa madrugada de sexta-feira, aos 73 anos. Tornamo-nos eternos no coração de quem nos quer bem. Augusto é para sempre. Há dez anos que não morreu.
Acima, foto de capa de Gentil Barreira, durante a gravação do disco Massafeira.

o cinema de Mizoguchi

Kenji Mizoguchi é reconhecido como um dos três mestres do cinema japonês, ao lado de Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu.
Intendende Sansho (Sanshō dayū), rodado em 1954, contém todos os elementos que fizeram a fama e definição de seu cinema.

Seus planos-sequências são de tirar o fôlego.
Misturando com maestria o melodrama a uma narrativa realista, o cineasta buscou apresentar a vida de personagens comuns, principalmente de mulheres, a quem reverencia em toda sua obra, e encarnam o sentido mais forte e sublime da vida.
O tema da exploração das mulheres teve raiz numa tragédia pessoal: quando criança viu a irmã ser vendida como gueixa. Esse episódio marcaria irremediavelmente sua trajetória.
No filme citado, feito um ano depois do sua obra mais conhecida, Os contos da lua vaga (Ugetsu monogatari), o assunto está profunda e belamente representado.
Falecido na década de 50, o cineasta faria hoje 120 anos, idade difícil de imaginar entre os mortais, embora os japoneses costumem surpreender em longevidade.

like a Bob Dylan

53 anos hoje do lançamento de um dos ótimos discos de Bob Dylan, Bonde on Blonde, que completa a trilogia de álbuns de rock que o bardo de Minnesota gravou, começando com Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965.
As canções e as letras discursivas definem bem a mistura única do visionário e do coloquial que Mr. Zinnemman se tornou ao longo de sua carreira.

beat acelerado

Trecho de On the road, 1957. Kerouac escreveu em ritmo ininterrupto em três semanas, numa pequena máquina de escrever com folhas de papel manteiga emendadas pra não perder tempo em trocá-las...
Ele mudou as coisas.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

rua!

Neste dia 15 de greve, e sempre, um oportuno poema de Régis Bonvicino, publicado no livro Sósia da cópia, 1983, musicado por Itamar Assumpção em 1988, gravado no disco “Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!”.
“Não há saídas 
só ruas 
viadutos 
e avenidas”

blues tão rico

O grande anjo torto Sérgio Sampaio gravou Meu pobre blues em 1974, em um compacto simples, produção de Roberto Menescal, um ano depois de seu primeiro LP, Eu quero é botar meu bloco na rua. A música ficou mais conhecida na voz de Zizi Possi, em seu disco de estreia, Flor do mal, 1978. Mas é outra viagem.
A letra é uma homenagem enviesada ao conterrâneo de Cachoeiro de Itapemirim, o "rei" Roberto Carlos, que, com suas esquisitices azuladas, não deu a mínima para as composições de Sérgio Sampaio. Como diz o crítico de música Silvio Essinger, "é uma canção amarga, feita não para o astro gravar, mas para ele ouvir e botar a mão na consciência.”
Sérgio Sampaio nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da linha evolutiva da música popular brasileira, como dizia seu parceiro da Sociedade da Gran-Ordem Kavernista, Raul Seixas.
Com sua música e letras de fúria modernista, viajando de trem do samba e choro ao rock'n roll, blues e baladas, Sérgio Sampaio estava blocos à frente de muitos.
25 anos hoje que ele se foi, aos 47, com sua poesia na calçada.
Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.