quarta-feira, 14 de novembro de 2018

oito meses

A interrogação feita pela vereadora Marielle Franco, um dia antes de ser executada há oito meses hoje, remete ao canto de paz de Bob Dylan, Blown’ in the wind, composto em 1962 e gravado no seu segundo disco, um ano depois.
Numa única pergunta, assustada e resiliente, a lúcida e corajosa militante do Complexo da Maré resume a série de questionamentos que o compositor de Minnesota fez em plena guerra fria, “quantas balas de canhão precisarão voar até serem para sempre banidas?”“quantas mortes ele causará até saber que pessoas demais morreram?”“quantos anos algumas pessoas podem existir até que sejam permitidas ser livres?
Marielle enfrentou a guerra fria da injustiça, da barbárie institucionalizada pelo poder, pisou o campo minado do mal que a força sempre faz, como apontava Belchior.
Até quando outras Marielles pombas da paz precisarão sobrevoar entre balas os rios de outros janeiros?

terça-feira, 13 de novembro de 2018

aparelho da resistência - 01


"Um poeta sentado é sempre um poeta em pé de guerra."

- Haroldo de Campos

o tempo de Manoel

Em 2008 a revista Caros Amigos, edição 117, publicou uma entrevista com Manoel de Barros. Foi uma das raríssimas vezes em que o poeta recebeu jornalistas em sua casa... Com sua timidez de passarinho e simplicidade pantaneira, Manoel preferia atender às perguntas por escrito.
Quando um dos jornalistas perguntou o que achava sobre a duração da vida, ele respondeu em versos criados naquele momento:
“O tempo só anda de ida. A gente nasce, cresce, envelhece e morre. Pra não morrer, é só amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste! ”
Há quatro anos o tempo de Manoel soltou-se do poste.
desenho-poema do poeta

o criador e as criaturas

Quando tinha 15 anos de idade o jovem judeu norte-americano Stanley Martin Lieber escrevia obituários em jornais de Nova Iorque para sobreviver. O pai, alfaiate, a mãe, dona-de-casa. O garoto queria ser escritor. Durante a Segunda Guerra foi consertar postes telegráficos. A comunicação não podia se perder. Quando regressou das trincheiras foi escrever histórias de cowboy, ficção científica, suspense... e desenhando esses super-heróis que imaginava.
Assim começou a carreira de um dos maiores quadrinistas da história do entretenimento, Stan Lee, criador da Marvel Comics onde habitam personagens de seus traços que estão na memória afetiva de gerações, Homem-Aranha, Hulk, Thor, X-Men, Pantera Negra, Quarteto Fantástico, Homem de Ferro, Demolidor, Os Vingadores, entre tantos outros.
Lee tinha 95 anos quando se foi ontem. A legião de suas criaturas escreveu o obituário do personagem número um da Marvel.

domingo, 11 de novembro de 2018

"well you know that I love to live with you..."

"Sabes Marianne, chegou este tempo em que estamos realmente tão velhos e os nossos corpos estão caindo aos poucos que acho que vou seguir-te muito em breve. Sei que estou tão perto de ti que se esticares a tua mão, acho que consegues tocar na minha."
Leonard Cohen escreveu essas palavras em uma carta, como antigamente, para Marianne Ihlen, ao saber de sua morte em julho de 2015, aos 81 anos.
A norueguesa Marianne foi a grande paixão da vida de Cohen, a musa inspiradora do hino de amor So Long, Marianne, entre outras tantas canções.
“Now so long, Marianne, it's time that we began …”
Cohen foi embora há dois anos, aos 88. Foi andar de mãos dadas com Marianne.
Na foto, o casal na Ilha Hydra, Grécia, 1963.

o velho e o mar

"Fui esquecido. O país é muito grande e eu não apareço na TV. Não gosto de TV, acho um parto"
O ator Joel Barcellos fez esse desabafo em uma entrevista ao jornal O Globo, em 2006.
Marcante em filmes emblemáticos do cinema brasileiro, como Os fuzis, de Ruy Guerra, A grande cidade, de Cacá Diegues, A falecida, de Leon Hirszman, entre os mais de quarenta em que trabalhou, o ator ficou conhecido do grande público pelo papel de Chico Belo, na segunda versão da novela Mulheres de Areia, em 1993. Tinha feito antes Estúpido Cupido e algumas minisséries. Não gostava mesmo de televisão. Era um ator essencialmente de cinema, e seu último grande papel foi em O homem nu, de Hugo Carvana, 2012. Desde então, morava em Rio das Ostras, na baixada litorânea do Rio de Janeiro.
No final da década de 60, Joel Barcelos, por suas posições contrárias ao regime militar, teve que se exiliar na Itália, e só voltou em 74.
Interpretar o personagem Turíbio, criado por Guimarães Rosa no conto O duelo do livro Sagarana, e adaptado para o cinema no filme de Paulo Thiago, foi para o ator uma forma de enfrentar a escuridão de volta ao país no governo Geisel.
O aparentemente frágil, mas destemido Turíbio, enfrenta em um duelo simbólico o forte Cassiano, um caçador de cangaceiros, interpretado por Milton Moraes. Personagens típicos do sertão roseano em um Brasil num galope à beira-mar, enfrentando um dragão da maldade.
Figura simpática e presente em várias edições do Festival de Cinema de Brasília, Joel ganhou em 1968 o Candango de Melhor Ator pelo papel em Jardim de Guerra, de Neville d'Almeida.
Há uns seis anos, Joel sentiu-se mal enquanto curtia um mergulho no mar, e logo noticiaram sua morte. Mas foi desmentido, e Joel continuou caminhando na praia nos finais de tarde.
Mas na madrugada de ontem, sábado, o ator mergulhou de verdade noutro mar. Tinha 81 anos. A causa da morte ainda não foi divulgada, provavelmente consequência de dois AVCs recentes.
Apesar de se dizer esquecido, Joel era muito querido onde morava. Sempre foi um astro no Rio das Ostras.

sábado, 10 de novembro de 2018

movimento interior

Pickpocket, no Brasil intitulado O batedor de carteiras, de Robert Bresson, 1959, foi considerado à época do lançamento tão importante para a linguagem cinematográfica quanto Cidadão Kane, de Orson Welles.
Muitos cineastas reconheceram e louvaram a importância do filme em citações diversas: Jean-Luc Godard, em Acossado (À bout de souffle), 1960, deu o mesmo nome ao personagem principal, Michel, interpretado por Jean-Paul Belmondo; Martin Scorsese admite que muitos planos de Taxi Driver teve "Pickpocket" como inspiração, isso porque o autor do roteiro, Paul Schrader, era um admirador da obra bressoniana, a ponto de colocar em filmes que depois dirigiu, como Gigolô Americano (American gigolo), 1980, e O Sequestro de Patty Hearst (Patty Hearst), 1988, finais parecidíssimos ao do clássico francês.
Bresson, mestre do minimalismo, era um apaixonado pela literatura de Dostoiévski. As questões psicológicas de culpa e redenção em seus filmes remetem muito a Crime e Castigo.
Há resquícios do jovem estudante assassino Raskólnikov no batedor de carteiras Michel, no acossado ladrão de carro Michel Poiccard de Godard, no motorista de táxi Travis Bickle, veterano da Guerra do Vietnan que quer "higienizar" as ruas de Nova York com uma Magnum 44...

No interior das imagens em movimento, a arte se propaga ad eternum...

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

desculpe aí, Vinicius...

Como dizia em seu poema, "E se piedade vos sobrar, Senhor"
Toquinho: "Bolsonaro e Moro dão segurança total contra a corrupção"

ano que vem, mês que foi

“E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.”
- Trecho do despoema-imagem Pessoal intransferível, de Torquato Neto, escrito em 1971, um ano antes de ele apagar a luz...

E na desfoto-poema abaixo, Torquato na exposição A pureza é um mito, de Hélio Oiticica, em Londres, na Whitechapel Gallery, 1969, um ano depois do antológico Tropicalia ou Panis et Circencis, disco que tem suas letras Geleia geral e Mamãe, coragem.
Hoje, se acaso a sina do menino infeliz não se nos ilumina, ele faria 74 anos pessoais e intransferíveis.

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

sem 13°, sem ministério...


uma mão suja a outra


passagem subterrânea

213 Norte - Brasília

no coração das trevas

Um produtor de ficção científica B desaparece com os negativos durante as filmagens, em um hotel em Portugal. Sem dinheiro para continuar o trabalho, o diretor tenta achá-lo, partindo em um road movie e encontrando outros problemas.
A partir desse enredo, o cineasta alemão Wim Wenders realizou um dos seus melhores filmes, O estado das coisas (Der stand der dinge), 1982, (fotograma acima).
Desenvolvendo narrativas de metalinguagem, o diretor espelha-se em sua experiência quando tentou por um tempo, no final dos anos 70, fazer cinema nos Estados Unidos, fascinado pela cinematografia de John Ford, Nicholas Ray, Samuel Fuller e seu compatriota Fritz Lang.
Wenders queria fazer um "filme americano", ser um "cineasta americano". Hammett, uma história fictícia sobre o escritor Dashiell Hammett, de 1982, produzido por Francis Coppola, foi sua primeira experiência por lá. Desagradou completamente ao cineasta alemão. Dos 95 minutos na tela, apenas 30 estavam como Wenders fez. Coppola finalizou à maneira dele e fim de papo.
Filmado nos Estados Unidos, mas financiado com francos e marcos, Paris, Texas, de 1984, foi uma espécie de "vingança" de Wim Wenders. Ou, digamos, seu desejo realizado e "tchau, Hollywood, meu reino não é desse mundo."
Irônica e pretensamente com roteiro dos americanos Sam Sheppard e Kit Carson, trilha sonora do guitarrista Ry Cooder, elenco com atores de filmes controversos  ao cinemão, como Harry Dean Stanton e Dean Stockwell, Paris, Texas chegou às telas com as 2h37min que ele quis.
Outdoors, grafites, néon, carcaças oxidadas, velhas linhas de trem, motéis em estradas que nunca terminam, e um homem maltrapilho e amnésico numa região desértica fronteira com o México, compõem o cenário físico e humano de um dos filmes mais significativos do olhar de um estrangeiro sobre a paisagem norte-americana.
Se O estado das coisas é a realidade em preto-e-branco da condição de um cineasta, Paris,Texas é um pesadelo minimalista em cores, pela angústia e letargia que se expressa na essência, pela desconstrução que Wim Wenders faz do "sonho americano". Aclamado pela crítica e bem recebido pelo público, e hoje carimbado como cult, o filme se insere na galeria do grande cinema contemporâneo.
Em entrevista para o livro Na Estrada - O Cinema de Walter Salles, de Marcos Strecker, 2010, Wenders diz que sua experiência traumática com Coppola foi como ter ido ao coração das trevas quando pensava estar a caminho do coração do cinema.