terça-feira, 18 de julho de 2017

noites de Fellini

“Ir ao cinema é como voltar ao útero. Você se senta na escuridão e espera surgir a vida na tela”
- Federico Fellini
Cena de Que estranho chamar-se Federico (Che strano chiamarsi Federico), de Ettore Scola, 2013.
Baseado em recordações pessoais do diretor, o filme mostra os primeiros anos da carreira de seu amigo Fellini.

adestramento



domingo, 16 de julho de 2017

nunca mais outra vez

O último dia de sol, de Nirton Venancio.

Na madrugada de 1.º de abril de 1964, dia seguinte ao golpe militar no Brasil, um ativista político foge com a mulher e o filho pequeno. A ação, baseada em fatos, passa-se numa pequena cidade do interior nordestino.

Exibição na programação Brasília em Plano Aberto - Mostra de Curtas-metragens, tema Ditaduras, CCBB Brasília, 2 de agosto, 19h30.

Nunca imaginei que fosse exibir meu filme com o país novamente em uma ditadura. Não é a mesma configuração dos 20 anos sem sol que o Brasil viveu após o golpe de 64, mas é uma ditadura. Uma ditadura técnica, derivada de um outro golpe, asséptico, institucionalizado, mediático.
Quando decidi fazer esse curta-metragem, reconstituindo um episódio pessoal – a detenção de meu pai quando os militares tomaram o poder – fiz um recorte do que o país inteiro viveu, duas décadas de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de “suicídios”, de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar. Por mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e da lei, foi uma marca registrada de cinco governos militares.
E assim como meu pai me guardava em sua luta e esperança por democracia, vejo-me agora diante dos meus filhos lamentando o Brasil que eles estão vivendo. Mas meu lamento sertanejo é revestido de luta, tenacidade, esperança.
Quando o país voltou a ser iluminado pela redemocratização, pela Lei da Anistia, pelas Diretas Já, pela eleição por voto de um operário para presidente, e pela primeira mulher a assumir a chefia de Estado e de governo da República, lembrei-me da letra de Vitor Martins, cantada por Ivan Lins, “Aos nossos filhos”, e enviei ao Universo, para onde foi meu pai, os versos finais parafraseados, dizendo-lhe que finalmente “brotaram as flores, cresceram as matas, colhemos os frutos”.
Hoje recorro à mesma letra, e converso e adjuro aos meus filhos que me “perdoem por tantos perigos / perdoem a falta de abrigo / perdoem a falta de amigos... / perdoem a falta de folhas / perdoem a falta de ar / perdoem a falta de escolha. ” Os dias estão assim. Mas não permanecerão assim. O empenho e luta pela democracia representativa, e não de porta-vozes, continua. Imensos sacrifícios não ficarão em vão.
Na foto acima, de Deise Jefiiny, o ator Joca Andrade no papel de tenente Castelo, e equipe, Sebastian Matias, Nirton Venancio e Pedro Rodrigues.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

cores de Frida Khalo


Arte Naïf, Arte Moderna, Surrealismo, Realismo Mágico, Simbolismo, Primitivismo, Naturalismo, Realismo Social, Cubismo...
Todas as Fridas em uma só.
63 anos hoje que ela não morreu.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

judge the ripper

Cena do filme Do Inferno (From hell), de Albert e Allen Hughes, EUA, 2001.
“Em um país em que as absurdos são renovados diariamente, embora esperada, a sentença de Sérgio Moro é indecente, humilhante.
Sua declaração inoportuna, de que não sentiu ‘satisfação pessoal’ tem a mesma sinceridade de Jack, o Estripador, chorando em cima das vísceras da sua última vítima.”
- Jornalista Luis Nassif em artigo no site Jornal GGN.

terça-feira, 11 de julho de 2017

poemas no sereno

74 poemas sem título compõem O livro das perguntas, uma obra singular no universo deslumbrante de Pablo Neruda, publicado em 1974.
113 anos hoje de nascimento do poeta chileno.

deforma política

arte-foto Paulo Kauim

50 x 26


Senado aprova reforma trabalhista


50 tons de cinza traíras


reforma trabalhista

Remem! Remem! Remem!

bólides encapuçados, caminham lentos, não têm o que mirar *

Abaixo a escultura-instalação Parade for Peace, do artista tunisiano Bel Haj Taib, exposta na Bienal Dak’Art de Arte Contemporânea Africana, em Dakar, Senegal, 2006.

A peça multifacetada, composta por vários capacetes sobre troncos esculpidos, formando tartarugas, num contraditório e simbólico desfile militar esperançoso de paz. 

* verso da canção Atrás do balcão, de Zé Ramalho, gravada no disco A terceira lâmina, 1981.

a idade de memória



Ontem de madrugada, algumas horas antes da partida da escritora Elvira Vigna, faleceu outra grande expressão da cultura brasileira, Ecléa Bosi, psicóloga, escritora e professora emérita da USP.
Entre tantos livros fundamentais para a memória e a valorização da terceira idade, um se destaca para a compreensão, alerta e recognição do idoso, Memória e Sociedade - Lembranças de Velhos, 1979, um volumoso ensaio polifônico sobre o tempo e suas relações com a vida dos imigrantes e operários de São Paulo.



No começo do anos 90, Ecléa foi a criadora e entusiasta do programa Universidade Aberta à Terceira Idade, na USP, coordenado por ela até ano passado. A iniciativa pioneira coloca o idoso na universidade sem vestibular, sem necessariamente incluí-lo no percurso didático de um aluno em graduação, mas cursando as disciplinas escolhidas com os demais. A professora argumentava que os jovens sentarão ao lado de velhos pedreiros, domésticas, não como servidores, mas como companheiros de aprendizados.
Ecléa tinha 81 anos de memória em sociedade com o presente e o futuro.

o pai do Chico

“O meu pai era paulista...”, começa a letra de Paratodos, de Chico Buarque, faixa título do disco lançado em 1993, onde segue desfolhando sua árvore genealógica, as referências e afinidades eletivas em sua música.
O reverenciado historiador Sérgio Buarque de Holanda, que hoje faria 115 anos, gostava de sair nos fins de semana, com sua esposa Maria Amélia, e sempre encontrava lotados os restaurantes na noite carioca. Brincalhão, tinha um argumento infalível para conseguir uma boa mesa: chamava o maître a um canto e dizia: "sou pai do Chico Buarque.”

a voz de Orfeu

Agostinho dos Santos, com seu canto veludoso, é referência inevitável em canções como Felicidade, Balada triste, Estrada do sol, e entre tantos clássicos, Manhã de carnaval, composição de Luis Bonfá e Antonio Maria, que teve repercussão internacional a partir da trilha de Orfeu de Carnaval, filme ítalo-franco-brasileiro, dirigido por Marcel Camus, em 1959, baseado na peça de Vinicius de Moares.
O cantor teve projeção principalmente nos Estados Unidos, por toda década de 70, tornando-se praticamente um dos interpretes da Bossa Nova em discos e shows, como o de Carnegie Hall, Nova Iorque, em 1962, junto com Orquestra de Oscar Castro Neves.
Agostinho se foi no auge da carreira, precocemente aos 42 anos, em desastre aéreo nas imediações do Aeroporto de Orly, em 11 de julho de 1973.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

a última hora de Elvira

Faleceu hoje pela manhã, em São Paulo, uma das maiores escritoras da literatura contemporânea, Elvira Vigna, aos 69 anos. Reconhecida e premiada no meio literário, escreveu romances, contos, ensaios, livros infantis, além de ser jornalista, artista plástica e roteirista de cinema.
Estreou aos 41 anos, com o belíssimo e oportuno Sete anos e um dia, de 1988, ambientado na época da abertura política. Uma obra-prima como narrativa e preciosidade contextual. Seu último livro, Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, Prêmio APCA 2016 de Melhor Romance, é outro exemplo de vigor na estrutura formal descritiva.

Em 2012, quando foi diagnosticada com câncer de mama, recolheu-se e dedicou-se a escrever enquanto se tratava, publicando sete livros no Brasil e exterior.
Elvira, soube-se agora, preferiu manter em segredo sua luta contra a doença, por receio que não fosse mais convidada para eventos literários.
Seu legado é um testemunho, um relato do homem e seus conflitos e esperanças, inserido em interrogações do mundo moderno, da vida social e política. E soube muito bem descrever essas inquietações, como modestamente abre o primeiro parágrafo do seu último livro:
“Mas nessa hora que faço, vou contar uma história que não sei bem como é. Não vivi, não vi. Mal ouvi. Mas acho que foi assim mesmo.”

já que sou brasileiro

A música não é dele, foi composta por sua esposa Almira Castilho e seu amigo Gordurinha, mas Chiclete com banana ficou como uma espécie de marca registrada de Jackson do Pandeiro.
O simpático e franzino paraibano já fazia sucesso no rádio e em shows, nas décadas de 40 e 50, com Sebastiana, A mulher do Aníbal, O canto da ema, e outros forrós aloprados, mas foi quando começou a mascar chiclete com banana que estourou definitivamente, e, pode-se dizer, criando de uma forma tosca e brincalhona o primeiro samba-rock.
Gravada em 1959, Chiclete com banana expressa em letra bem humorada e irônica a necessidade de manter a pureza da nossa música, sem influência de ritmos estrangeiros, mais exatamente da terra do Tio Sam, que só vai botar o bebop em nosso samba "quando ele tocar o tamborim / quando ele pegar no pandeiro e no zabumba / quando ele aprender que o samba não é rumba". Eles têm chiclete, e nós, yes! temos banana, que engorda e faz crescer. Então, cante lá, que eu canto cá.
À época da composição, o rock'n'roll reverberava pela América latina e Ocidente, refletindo não somente um gênero, também como comportamento de uma geração pós-Segunda Guerra, que veio explodir como um caleidoscópio cultural na década 60. As influências eram inevitáveis. Tanto é que o próprio Jackson do Pandeiro, batizado José Gomes Filho, logo no início da carreira adotou o "Jack" em homenagem a um ator de faroeste que ele adorava, Jack Perrin. O acréscimo do "son" foi ideia de um produtor, o Pandeiro, por ser o instrumento que ele começou a tocar, presente de sua mãe.
Alceu Valença costuma dizer que Luiz Gonzaga é o Pelé da nossa música, e Jackson, o Garrincha. E faz sentido essa analogia: os dribles e o domínio que o paraibano tem com os ritmos, ao longo de mais de trinta discos, é impressionante. Ele vai do forró ao samba, passando com a mesma verve de interpretação e personalidade, pelo baião, xote, xaxado, coco, arrasta-pé, quadrilha, marcha, frevo... Não à toa, ficou conhecido como "O Rei do Ritmo".
Em 1982, após um show em Brasília, Jackson sentiu-se mal no momento do embarque no aeroporto. Era diabético. Passou uma semana internado, faleceu em decorrência de embolia cerebral, no dia 10 de julho, em um hospital na W3 Sul.
E nosso samba ficou assim: "tururururururi bop-bebop-bebop / tururururururi bop-bebop-bebop /tururururururi bop-bebop-bebop..."

aprendendo a jogar

Em 5 de janeiro de 1982 Elis Regina foi convidada do programa Jogo da Verdade, apresentado pelo jornalista Salomão Ésper, na TV Cultura, São Paulo.
Foi um show de raciocínio lúcido, pensamento astuto, reflexões brilhantes e verdadeiras, pertinentes àquele momento da música brasileira.
Questionada pelo jornalista Maurício Kubrusly sobre a participação de cantores consagrados em festivais na televisão, Elis foi direta na dosagem da pimentinha.
“Eu acho que eles não deveriam participar desse festival oficial. Se já existem, já se impõem, já têm o seu mercado, seria legal que eles não entrassem nessas 'gasolinas' da vida, nesses 'postos de gasolinas'* da vida porque, sabe? auxilia a gente. É mais uma via pra gente poder escoar a loucura da gente, porque senão fica tudo... sabe? aquela loucura via Embratel, padronizada, que nem ervilha em lata, entendeu? só muda a marca. Não é legal, loucura é loucura, sabe? e é fundamental. Deixa por aí, solta, como o diabo gosta, entendeu? e a gente vai catando um pedaço daqui, um pedaço dali, vai se reformulando, e de repente quando a gente... quando os homens perceberem, eles ‘tão com a cabeça feita. Porque é só isso que tá dando pé. O importante é a gente não fazer esse jogo, não aceitar esse jogo, a gente continuar... fique fora, salte fora, como é que é? parada de sucesso, então como é que é não parada de sucesso. Se é o sucesso, entendeu? O importante é também não deixar o espaço ser ocupado por qualquer coisa, como ‘tá, né?”
*A cantora se refere ao Festival MPB Shell.
Foi a última entrevista, gravada 14 dias antes de sua morte.

domingo, 9 de julho de 2017

do maior encanto

37 anos hoje que Vinicius de Moraes não morreu.

"...em seu louvor hei de espalhar seu canto..."

la nave viene

fotos de Raimundo Cavalcante
Uma vez, eu vi chegar do alto-mar um barco de cristal*... a noite trouxe o Amarcord de Fellini na praia do Titanzinho, em Fortaleza.

Quando amanheceu, Fellini trazia na bandeira a estrela matinal*... não fora sonho.
*versos de Fausto Nilo em Barco de cristal, 1973.