domingo, 20 de janeiro de 2019

paz sem medo

Numa noite de novembro de 2000, Marcello Yuka, o baterista e um dos fundadores da banda O Rappa, ao impedir um assalto a uma mulher no bairro da Tijuca, Rio, foi alvejado por vários tiros. Um atingiu a vértebra torácica e lhe deixou paraplégico. Nove anos depois, próximo ao mesmo local, foi assaltado com socos e pontapés e teve o aparelho celular roubado. Sexta-feira passada, dia 18, o músico faleceu vitima de infecção generalizada, estava hospitalizado desde o começo do mês. Faleceu, numa dessas ironias cruéis, três dias depois do novo governo assinar decreto que facilita a posse de armas.
Yuka foi um ativista da não violência, do desarmamento, lutava por igualdade e justiça, e seu enfrentamento por consciência social ia além do discurso, principalmente depois que ficou em cadeira de rodas.
De cada um dos três discos em que participou na banda, no mínimo sete de doze faixas são letras de sua autoria. O forte cunho social e ideológico que caracteriza O Rappa, numa mescla de rock, reggae e rap, tem em Marcelo Yuka o seu idealizador, mesmo depois de sua saída em 2002, por, segundo consta, divergências conceituais e discussões por dinheiro com o restante dos músicos. Continuou seu ativismo com outra banda, F.UR.T.O, 2005, sua vida relatada no documentário No caminho das setas, de Daniela Broitman, 2012, uma espécie de certidão biográfica no livro Não se preocupe comigo, 2014, e um sintomático comunicado no álbum solo Canções para depois do ódio, 2017.
As letras de Yuka eram, ou melhor, continuam sendo de uma beleza poética na denúncia social como pouco se viu nas composições da música brasileira nesses últimos vinte anos. Essa imponência e encanto marcam-se a partir dos títulos das canções, como Todo camburão tem um pouco de navio negreiro, incluída no primeiro disco da banda, 1994. Lado B Lado A, terceiro álbum, gravado em 1999, é o mais consistente em letras e belamente melódico, envolvente, orgânico no sentido em que todas as faixas compõem um manifesto pela paz e justiça social. Minha alma (A paz que eu não quero), é ao mesmo tempo compêndio e resumo conceitual do disco.
Yuka tinha apenas 53 anos até antes de ontem. Sua obra continuará. Seus versos se propagarão pela memória e permanência. Recados tão conscientes, atentos e fortes, continuarão, como o aviso "a carne mais barata do mercado é a carne negra", brado retumbante de Elza Soares, ao cantar sua letra A carne, no disco Do cóccix até o pescoço, 2002.

alto mar

foto Picfair Photography, Dalibor, Croacia
"Um barco está seguro no porto. Mas os barcos não são construídos para isso."
- John A. Shedd (1859-1928), escritor norte-americano, em seu livro Sal do meu sótão, aforismos,1928.

o menino Rodger

O cantor, compositor, ator e físico Rodger Rogério, completa 75 anos no próximo dia 28. Hoje, no show no Cineteatro São Luiz, Fortaleza, cantores de várias gerações celebram com ele o aniversário. É tão querido que até dezembro terá sempre algum evento parabenizando Rodger por existir entre nós.
Na ponta do lápis, vou repetir o que tu já sabes: nós te amamos!

sábado, 19 de janeiro de 2019

nós que nos amávamos tanto

Dois dos maiores cineastas italianos encontram-se no filme Que estranho chamar-se Federico (Che strano chiamarsi Federico), 2013, uma mistura de documentário e ficção, que Ettore Scola dirigiu sobre Fellini, falecido em 1993.
O diretor repassa 50 anos de amizade entre eles, com uma narrativa com dramatizações, cenas de arquivo, a voz do cineasta em gravações caseiras, formando um arco afetuoso da trajetória e do universo onírico felliniano.
Foi o último filme de Ettore Scola. Há três anos ele seguiu para outros sets para reencontrar Fellini.

deusa ferida



“Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais. ”

- Trecho de O Corvo, clássico de Edgar Allan Poe, 210 anos de seu nascimento hoje. Publicado pela primeira vez em 1845, no periódico New York Evening Mirror, a tradução do poema no Brasil é de Milton Amado.
O poeta louco americano, como dizia Belchior, discorre em linguagem ultrarromântica, a tristeza pela perda de sua amada Leonora. A ave misteriosa simboliza o mau agouro, a acepção negativa, e pousa sobre o busto da deusa grega Palas, ferida mortalmente por Atenas.
Um salto no tempo: a belíssima estátua A Justiça, do artista plástico mineiro Alfredo Ceschiatti, em Brasília, em frente ao STF, é a representação feminina do poder e da verdade. A deusa de olhos vendados e alma aberta. A força e a coragem, a ordem e a regra. E nestes tempos toscos sobre nossa pátria mãe gentil, corvos soberbos pousam suas patas asquerosas sobre o busto da imparcialidade.
A simetria do tempo: os versos de um poema que atravessa a história e atualiza o aplicativo do lamento, da dor, da indignação.

os apóstolos do cinema

Acima, criativa e ousada paródia da imagem de A Última Ceia, afresco de Leonardo Da Vinci, do século 15.
Segundo as Escrituras do Catolicismo, o quadro representa a última refeição que Cristo dividiu com seus apóstolos em Jerusalém antes de sua crucificação.
Na colagem criada pelo site de cinema Film Kafası, da Turquia, que serve de capa da página, vários cineastas pousam de apóstolos, referenciando o Mestre anfitrião, representado (olha só!) pelo vanguardista e polêmico Jean-Luc Godard.
Legendando os convidados, da esquerda para a direita: F. W. Murnau (Bartolomeu), Krzysztof Kieślowski (Tiago Menor), Glauber Rocha (André), Lars Von Trier, Ingmar Bergman (Judas Escariotes), Serguei Eisenstein (Pedro), um que não identifiquei (João), Godard (Cristo), Billy Wilder, Federico Fellini (Tiago Maior), David Lynch (Tomé), Orson Welles (Felipe), Stanley Kubrick, Andrei Tarkovski (Mateus), Alfred Hitchcock (Judas Tadeu) e Akira Kurosawa (Simão).
Nessa versão da foto, Trier, Wilder e Kubrick pousam de apóstolos que não existem no clássico original renascentista. O cinema sempre com seus extras.

a pimentinha



Elis Regina esbanjando talento aos 11 anos, em um programa na Rádio Farroupilha, Porto Alegre, 1956.
Hoje completam 36 anos que ela fez a transversal do tempo.

a bossa

A adolescente capixaba Nara Leão nas areias escaldantes de Copacabana, anos 50.
Hoje ela faria 76 anos.

the pearl

foto Marjorie Alette
Janis Joplin aos 19 anos, em Austin, Texas, 1962.
Hoje ela faria 75.

o Haiti é aqui?

Em 12 de janeiro de 2010 um terremoto iniciado a 25 km da capital do Haiti, Porto Príncipe, propagou-se em mais de trinta réplicas sismológicas pelo país, causando a morte de 100 a 200 mil pessoas, segundo informações oficiais à época.
Dezenas de edifícios históricos, como o Palácio Presidencial, o Parlamento, a Catedral de Notre-Dame de Port-au-Prince, além de todos os hospitais, foram destruídos ou gravemente danificados.
Mesmo com a tragédia, a rotina dos transatlânticos de luxo não foi alterada. A menos de 100 quilômetros da área devastada, dos cadáveres, do desespero, da fome, 3100 passageiros do Independence of the Seas se esbaldavam em conforto, comida e sol.

muito além

“Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado, e disse à minha alma: 'Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?'
E minha alma disse: 'Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.’”

- Walt Whitman, em As folhas da relva, publicado em 1855. A ‘magnum opus’ do maior poeta norte-americano teve várias edições. Inicialmente, o autor bancou sozinho a tiragem, investiu do seu salário de empregado de um jornal. Whitman não considerava seu livro concluído.
A vida não parava de lhe dar motivos para desfolhar a relva e escrever. Escrever e se fazer presente em trabalhos voluntários nas ruas, nos hospitais, nos asilos, nas embarcações como marinheiro. Foram praticamente quatro décadas preparando o livro e convivendo com mendigos, prostitutas, operários, pessoas que compartilhavam as dores e esperança. O poeta esteve na trincheira da Guerra da Secessão, e na batalha entre o norte industrializado e abolicionista e o sul aristocrata, latifundiário e escravagista.
Whitman escreveu sobre a liberdade. E não por acaso é o criador do verso livre. Sua alma libertária se cristalizava na escrita desacorrentada da métrica acadêmica. E pela ousadia, lucidez em ver, sentir e falar sobre a odisseia do homem simples, Whitman chegou a ter sua obra acusada de esquisita, bizarra e até obscena, a ponto de um crítico descerebrado sugerir açoite em praça pública como punição.
Ao final da nona e última edição do livro, em 1892, já no leito de morte, Whitman chegou a 382 poemas.
As folhas da relva é uma espécie de bíblia da poesia norte-americana. Um livro de fôlego, épico, sobre o ser humano em busca de respostas e caminhos. Uma vez concluído e alcançado o objetivo do poeta, prosseguimos no caminho dele.
Acima, o autor fotografado por George Collins Cox, em 1887. Cox, um dos retratistas pioneiros, sempre esteve por perto de Whitman, e notabilizou-se pelas belas imagens que expressavam a consistência da alma do poeta. Seu acervo foi restaurado em 1979, e digitalizado na Library of Congress's Prints and Photographs. A poesia da imagem também indo mais além.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

para que destilar terceiras intenções?

“Que só eu que podia
dentro da tua orelha fria
dizer segredos de liquidificador”


- Cazuza em Codinome Beija-Flor, composição em parceria com Ezequiel Neves e Reinaldo Arias, gravada em seu primeiro disco solo Exagerado, 1985, e várias outras boas 20 interpretações diferentes, como a de Luiz Melodia, Cássia Eller, Cauby Peixoto...
Na biografia do cantor “Só as mães são felizes”, 1997, escrita por sua mãe, Lucinha Araújo, e pela jornalista Regina Echeverria, diz que a letra foi escrita quando Cazuza estava no Hospital São Lucas, em Copacabana, se tratando de uma pneumonia. Deitado na cama ele observava beija-flores na janela, que “inspiraram o meu filho a criar uma de suas mais delicadas e belas canções”, lembra Lucinha, na página 92.
"
Codinome..., uma balada acústica, acompanhada por piano e violinos, meio bossa-nova e nada ‘roquenroll’, encanta pela doçura da intimidade narrada na letra, quando se ama em segredo, de um esconderijo no peito. Os exagerados também amam e sabem zelar seu bem-querer com a mais profunda ternura.
O trecho acima gerou muitas especulações, entre análises que se pretendiam acadêmicas a abobrinhas especulativas em revistas semanais. Apenas esse pedaço letra gerou mais curiosidade do que toda caleidoscópica W Brasil, de Jorge Benjor, e a viagem de bacáceo do Açaí de Djavan.
Até que em 1989, em um especial da TV Globo, quando Cazuza se preparava para cantar em dueto com Simone, explicou que os versos se referiam àquele momento em que a pessoa diz palavras apaixonadas no ouvidinho da outra. E exemplificou com a própria língua com movimentos circulares o que a expressão metaforiza. Pronto. Simples assim. E liquidificador nem é letal.

lixo pelo tubo



"Meu Deus, como fui fazer novela por tantos anos? Para ganhar dinheiro! E me sentia meio prostituído. Acho que um dos grandes males que a humanidade teve, aqui no Brasil, foi a invenção da televisão. A televisão deseducou, fez uma lavagem cerebral em todo mundo... Os valores morais ficaram sendo o da televisão."
Em 2011, já aos 80 anos de idade e 46 de televisão, recluso em seu sítio em Guaratinguetá, SP, é que 'caiu a ficha' do ator Walmor Chagas.
Dois anos depois, deu um ponto final à sua vida de maneira extrema e lamentável, não exatamente pelos motivos que discorreu no texto acima, mas por conflito com a doença e a velhice.

versos em alto mar

Em 1938, o jovem de 24 anos Marcus Vinicius da Cruz de Melo Moraes, o futuro 'poetinha', ganhou uma bolsa do Conselho Britânico para estudar língua e literatura inglesas na Universidade de Oxford.
Em setembro daquele ano, a bordo do navio Highland Patriot, escreveu o belamente dolorido Soneto da separação, motivado pela saudade da namorada Tati, que se tornaria sua primeira esposa.
Os versos partem de uma ausência, e não de uma ausência que nos parte quando tudo, “de repente, não mais que de repente”, se faz “triste o que se fez amante”.
Mas por licença poética, e desespero de causa mesmo, se conjuga nas duas ausências... quando se faz “da vida uma aventura errante”. Pronto.

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

o futuro é sempre agora

Em fevereiro estreio uma coluna mensal sobre cinema no site Filipe Catto em Foco, criado, organizado, mantido pela pesquisadora de música Klaudia Alvarez. Junto às colunas que escrevo nas páginas Revista InComunidade, em Lisboa, e Pelos Bares da Vida, Fortaleza, será mais uma janela de reflexão e resistência nestes tempos toscos que nos ameaçam.



Gratidão, Klaudia, pelo convite, pelo espaço e pela oportunidade da entrevista.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

o encantador

Na madrugada de 15 de janeiro de 2012, um domingo, um mestre da cultura popular, Seu Teodoro Freire, partiu aos 91 anos com seu boi para outras festanças.
O maranhense chegou à recém-inaugurada Brasília em 1962 para trabalhar como contínuo na UnB. No ano seguinte criou o Centro de Tradições Populares na cidade-satélite Sobradinho, onde passou a morar. As apresentações do bumba-meu-boi tornaram-se sinônimo de Seu Teodoro por todo país.
Recorro a outro mestre, Manuel Bandeira, para parafrasear e celebrar a sua lembrança, sua ausência de sete anos, sua presença por toda vida, e traduzir a minha ternura mais funda, mais cotidiana. Inventei, agora, por exemplo, o verbo “teadorar”, que no seu caso, é transitivo por sua beleza: teadoro, Teodoro.
Acima, capa do livro O encantador, Seu Teodoro do Boi, 2007

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

o perigo é mais embaixo

Novo governo assina decreto que facilita posse de armas.

resposta literal

foto Magalhães Jr.
“Se estamos em uma ‘guerra cultural’ é a cultura que tem o maior poder de produzir um curto circuito em ‘tudo que está ai’. Uma arte, sim, brutal, literal, que nos embrulhe o estômago, nos enoje e não nos deixe acostumar com o horror!”
- Trecho do artigo da jornalista Ivana Bentes, diretora da Escola de Comunicação da UFRJ, publicado na Revista Fórum, sobre a censura imposta pela Secretaria de Cultura do Rio de Janeiro, à exposição Literatura Exposta, na Casa França-Brasil, desmontada domingo passado, que previa na programação uma apresentação do coletivo És Uma Maluca, com crítica à tortura no período da ditadura militar.
A performance com duas atrizes, baseada no conto Baratária, do escritor e professor de Língua Portuguesa Rodrigo Santos, inclui seis mil baratas de plástico em volta da tampa de um bueiro, do qual saem trechos de discursos do presidente eleito, favorável à tortura. O texto fala de uma mulher martirizada com baratas introduzidas em sua vagina.
Em protesto, artistas do coletivo fizeram ontem, às 18h, a performance do lado de fora da instituição.
(Enquanto isso, o governador eleito do RJ participou da cerimônia de troca de comando do Batalhão de Operações Policiais Especiais, e, sorrindo, recebeu um presente inusitado: um quadro com seu rosto feito com projéteis de fuzis).
O horror! O horror! O horror!


a deusa da fonte

Anita Ekberg resolve tomar banho com roupa na Fonte de Trevi enquanto Marcello Mastroianni tenta achar leite para um gatinho, que ela tinha visto nas ruas. Ao retornar, Marcello vê Anita se banhando e se deslumbra.
A cena é do filme A doce vida (La dolce vita), de Federico Fellini, rodado em 1960. Mastroianni é o jornalista Marcello Rubini, Anita vive uma fictícia atriz hollywoodiana chamada Sylvia Rank. Escândalo mundial, premiado em Cannes e Oscar de melhor figurino, o longa é um retrato da Roma em seu esplendor, e antecipou as mudanças que fizeram dos anos 60 a década da transformação, mostrando o tempo da velocidade, da americanização dos hábitos, dos carros e das mulheres formidáveis.
A doce vida é todo cheio de cenas emblemáticas, como a abertura, com a sequência da estátua do Cristo sobrevoando Roma, não por milagre, mas transportado por um helicóptero, dentro do qual estão os repórteres sensacionalistas e um fotógrafo paparazzi - termo que acabou sendo incluído no vocabulário mundial.
Anita Ekberg se foi para outras fontes em janeiro de 2015, aos 83 anos. Solitária e doente, morava em uma casa de idosos, numa província perto de Roma. Teve um melancólico fim de vida, nada doce.

a Disney de cada um

foto ©Michael Christopher Brown
Em 2002 um vulcão entrou em erupção na cidade de Goma, República do Congo. As lavas avançaram pelo principal lago, chegando ao Aeroporto Internacional, tornando-o irrecuperável.
Meses depois as autoridades retiraram as peças aproveitáveis das aeronaves e o local com o tempo virou um cemitério de aviões.
As crianças das aldeias próximas transformaram o antigo aeroporto em um enorme playground, onde a imaginação voa em brincadeiras.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

amigos a gente encontra... - 04

foto ©Bete Augusta
Parahyba de Medeiros, sua canção é mãe da terra inteira. Parceiro que me leva pra noite azul do seu coração, por tantas ruas na boemia da transversal do tempo de uma Fortaleza sem sustos.
De boa na lagoa Messejana, uma vez pegamos uma nave e suave subimos o frio da serra de Guaramiranga. Escrevemos a letra de um reggae feito um xote que fez seu benzinho dançar numa casa de reboco no Conjunto Palmeiras... E agora uma nova parceria craseada, uma canção buliçosa na contramão de quem ousa dizer metas e mostrar setas.
Acolhe-me em sua casa, na varanda com a brisa de um quintal sertanejo em pleno perímetro urbano afetivo. Moro em seu endereço dentro mim, meu caro. Bato palmas por estar em sua companhia.
Parahyba é meu estado de poesia.

10 meses hoje

foto ©Adriana Paiva
Mural em homenagem à Marielle Franco, feito pelos artistas Bruno Big e Marcelo Ment, no local próximo onde a vereadora e o motorista Anderson Gomes foram executados.

tanta estrela por aí

gratife: Banksy, Nova Iorque

Eu como vetor
tranquilo eu tento
uma transmutação

- Raul Seixas em S.O.S., disco Gita, 1974
gratife: Banksy, Nova Iorque

ainda não é poesia

Carlos Drummond de Andrade não entendia como alguns poetas tornavam um poema definitivo logo na primeira escrita, impulsionado pela inspiração, sem conviver mais com os versos, com a ideia, com a construção.
Um poema precisa de um tempo para moldar um corpo, o espaço necessário para o abstrato recém-chegado nele se estruturar e permanecer vivo.
Em Procura da poesia (trechos acima), uma espécie de metapoema, Drummond questiona o eixo fundamental do poeta sobre a criação. A narrativa em metalinguagem, aparentemente “professoral”, é uma reflexão sobre o fazer-poético, onde o eu-lírico não pode se precipitar na pessoalidade, no peremptório conduzido pela ingenuidade dos sentimentos. A matéria-prima é a palavra, e esta, não lapidada, em “estado de dicionário”, corre o risco de um sentido apenas denotativo, frio, sem graça e encanto - efêmero.
Publicado em 1945 em A Rosa do Povo, é um dos mais belos poemas da língua portuguesa, fundamental na obra do autor e do modernismo brasileiro, por sua essência de cartilha poética, e, sobretudo, confessional, ao contrário de imperativo como se possa deduzir. A poesia é urgente, mas o poema não tem pressa.