domingo, 22 de novembro de 2009

dentro de mim



 foto Mario Di Biasi

"O lugar onde eu nasci não existe mais. Ou pensando bem, existe sim. Mas não como o lugar onde eu nasci. Isto é, existe, fisicamente. Mas o que existe no meu pensar não existe fisicamente, como lugar."

Mário Ribeiro da Cruz

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa


 foto Hamaca Filmes

O documentário "Os filhos de João, o admirável mundo novo baiano", abriu ontem a mostra competitiva de longa-metragem do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Dirigido por Henrique Dantas o filme  aborda uma época de um dos maiores inovadores grupos musicais brasileiros. Em tempos brabos de ditadura Médici, os Novos Baianos resistiam esbanjando anarquia e alegria em comportamento e canções. Uma letra muito emblemática, composta por Galvão, e musicada por Moraes Moreira, é "Dê um rolê". Muitas vezes apontados como alienados, os integrantes do grupo rebatiam  alertando "não se assuste pessoa / se eu lhe disser que a vida é boa" e lembrando que "enquanto eles se batem / eu sou, eu sou, eu sou amor / da cabeça aos pés."

Narrado por depoimentos preciosos do grupo, além de Tom Zé, Rogério Duarte, Orlando Senna e outros, o filme passa justamente essa alegria e irreverência em contraposição à opressão que marcou aqueles tempos, traçando um panorama da música popular  brasileira nas décadas de 60 e 70.

O título do filme expressa o conceito de que João Gilberto teve importância na concepção artística dos Novos Baianos. Dito assim, parece estranho, mas assistindo ao filme concorda-se com essa tese, pois nota-se a influência direta do chamado "papa da Bossa Nova" sobre os rumos musicais do grupo, a importância para o aprimoramento da música tocada e composta pelos meninos.

O documentário, que foi aplaudido de pé na sala lotada do cine Brasília, traz uma retrospectiva do estilo de vida comunitário adotado durante algum tempo e a influência sobre os resultados no trabalho. Temas como contracultura, carnaval do Brasil, cinema, tropicalismo, ditadura militar, dentre outros, circulam em torno das vivências do grupo, trazendo necessárias e importantes reflexões para a compreensão da cultura contemporânea no Brasil.

Apesar de toda homenagem a João Gilberto, o diretor tentou por dez dias entrevistá-lo. Não conseguiu. Fora dos depoimentos está também a hoje evangélica Baby do Brasil. Ex-Consuelo, ex-Pepeu Gomes, ex-porra louca, ex-tudo, a cantora chegou a dar entrevista, mas  proibiu a exibição. "Besta é tu, besta é tu, / Não viver neste mundo / Besta é tu! besta é tu! / Se não há outro mundo..."

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

o filho de dona Lindu


 foto LC Barreto

O filme "Lula, o filho do Brasil", de Fábio Barreto, abriu ontem à noite o 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com exibição na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, com uma lotação acima da capacidade para 1300 lugares.

Isso causou confusão e atraso. O produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ao subir no palco antes da exibição, reclamou que não tinha sequer um soldado de bombeiro para garantir a segurança, pois se estourasse uma lâmpada no local, haveria pânico, e "pessoas morreriam"...

O diretor do filme pegou o microfone e reclamou da coordenação do festival que não havia poltronas reservadas para a equipe e elenco, todos estavam sentados no chão. Ameaçou não iniciar a sessão se não fosse resolvido o problema. Constrangidas, algumas pessoas foram "convidadas" a cederem seus lugares, e outras, não perdendo o bom humor brasileiro, gritavam "senta aqui no meu colo, Cleo Pires!"

Depois de uma hora de espera, o filme começa, sob um volumoso silêncio de uma platéia atenta ao que viria. Todos estavam curiosos para ver o filme baseado num personagem real. A história de um operário que chegou à Presidência da República. Ele, Lula, que não estava lá, somente a primeira dama, dona Marisa Letícia, e alguns ministros e outras autoridades.

Logo nos créditos iniciais uma alerta dos produtores: o filme não teve financiamento de nenhum orgão do governo, e sobe na tela uma infinidade de logomarcas de empresas multinacionais que apostaram no filme orçado em R$ 16 milhões. Caríssimo para os padrões de um filme brasileiro. Uns trocados, cerca de 9 milhões de dólares, só para dar largada a qualquer porcariazinha hollywoodiana.

"Lula, o filho do Brasil", embora declaradamente simpático ao personagem, não chega a ser um filme chapa branca, em que pese a coincidência do seu lançamento no país às vésperas de eleições presidenciais. Com uma boa direção de atores e acabamento técnico impecável, o filme conta a trajetória pessoal e profissional de Lula, desde o seu nascimento, em 1945, no sertão pernambucano, até 1980, quando era o maior líder sindical do país. Um percurso marcado por dificuldades, perdas e uma notável capacidade de superação.

Baseado no livro homônimo de Denise Paraná, que escreveu o roteiro juntamente com Fernando Bonassi e Daniel Tendler, "Lula" não provoca vales de lágrimas, como em "2 filhos de Francisco", mas é visível a tentativa em muitas sequências de comover, de cutucar a emoção e pelo coração conquistar ou adormecer a razão do espectador, principalmente quando a trilha sonora sobe para se fazer notar, apesar de  bem composta por Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum.

Alguns fatos são omitidos na história, como a mulher grávida e abandonada que o próprio Lula confessou em algumas entrevistas; o linchamento de um gerente de empresa pelos operários grevistas no ABC paulista, onde no filme Lula se mostra indignado, quando há depoimentos que ele não participou diretamente da agressão, mas não se indispôs com o que viu. Se não há a intenção de julgar, avaliar, formar uma opinião, o filme escorrega no claro propósito de traçar o perfil de um homem comum sem defeitos, castigado desde o início da vida pelas dificuldades e movido pela pertinácia e firmeza, tendo como estímulo que lhe manteve reerguido a figura da mãe, dona Lindu, numa interpretação corretíssima de Glória Pires, que transforma a estampa de sua  personagem numa daquelas fortes mulheres do teatro grego, ou até mesmo a velha e robusta Jane Darwell, mãe de Henry Fonda em "As vinhas da ira", clássico de John Ford,de 1940.

O desconhecido Rui Ricardo de Diaz, no papel principal, não tem o carisma de Lula, mas está perfeito no personagem, dando-lhe todas as marcações e características de fala e gestos, sem cair na armadilha da caricatura.

Com lançamento previsto com 500 cópias, outro fato inédito no cinema nacional, o filme se garante, com ou sem ano eleitoral. E mais: será lançado no exterior. Afinal, lá fora Lula não é o cara?

domingo, 15 de novembro de 2009

condição humana



foto Jerry Bauer

"Nenhuma sociedade tem sido capaz de abolir a tristeza humana, nenhum sistema político pode nos livrar da dor de viver, de nosso medo da morte, de nossa ânsia do absoluto; é a condição humana que dirige a condição social, e não o contrário."

Dramaturgo Eugène Ionesco (1909 - 1994), que neste centenário de nascimento é lembrado e homenageado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sex 'n' jazz

Gare Du Nord é talvez a mais conhecida banda desconhecida holandesa.  Criada em 2001, mistura jazz, blues e soul numa roupagem do que se denominou lounge, um gênero que por sua harmonia tem muito do swing da musicalidade dos anos 50 e 60.

Lançaram quatro bons discos. Fizeram um bela homenagem a Marvin Gayes e Miles Davis no álbum "Sex 'n jazz", lançado em 2007. A interpretação da cantora Dorona Alberti é perfeita. Além de irresistivelmente sensual.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

a indesejada das gentes



foto arquivo NV

"Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir."


(Cecília Meireles) 

Perdi hoje um amigo, um parente. Sempre me questiono o sentido de tudo isso quando a indesejada das gentes, como dizia Bandeira, alcança uma pessoa querida,  que habita nosso coração.

Há tantos poemas, textos, reflexões sobre o fim. Ou o começo? A dor não sabe, procura consolo no ombro mais próximo de um enredo, de uma composição. Eu mesmo já ousei uns mal traçados versos  sobre a única certeza que se tem ao nascer. E nunca é o bastante. Incomoda-me muito saber que também não serei poupado, que não há outro jeito de ficar por aqui mesmo, que cada um de nós é o próximo.

O dia com seu volume de luz e escuridão é o que nos cabe continuar enquanto nossos queridos se vão primeiro. Viver intensamente é o que devemos.

Marco, valeu viver o tempo que nos coube juntos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sem perdão


 foto Blog da História

A morte sob tortura do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, em 1976, nos porões do DOI-CODI em São Paulo, é a base do documentário "Perdão, Mister Fiel" que, além da impiedosa caça aos comunistas no Brasil, trata da intervenção dos Estados Unidos nos países da América do Sul durante as ditaduras militares nas décadas de 1960 a 1980.

Com a morte de Fiel, poucos meses depois da de Vladimir Herzog, no mesmo inferno do DOI-CODI e nas mesmas circunstâncias, começa a ruir o esquema de poder paralelo dentro do Exército, responsável pelas maiores crueldades da repressão, e dá-se inicio à abertura política do país. O filme revela, inclusive, o diálogo entre o General Geisel e o Governador de São Paulo, logo após a morte de Fiel que desencadeia o processo de abertura.

Ao todo, no Brasil, Chile, Argentina e Estados Unidos, o filme entrevistou 30 personalidades, entre elas três presidentes da república, ex-militantes políticos presos e torturados, historiadores, membros dos direitos humanos, além de um dos algozes do DOI-CODI que faz revelações inéditas e impactantes sobre os métodos da ditadura no Brasil.

O longa-metragem foi selecionado para a mostra competitiva do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que começa no próximo dia 17. Dirigido pelo jornalista Jorge Oliveira, é aguardado com expectativa.

Na foto acima, sua esposa Teresa.