segunda-feira, 22 de maio de 2017

o cd do Vinil

“Kid Vinil, quando é que tu vai gravar cd?”, perguntava Zeca Baleiro na música Kid Vinil, em seu álbum de estreia Por onde andará Stephen Fry?, 1997 – um disco cheio de interrogações.
O que parece uma brincadeira direcionada ao amigo, o cantor, compositor, produtor e apresentador de televisão Kid Vinil, que se foi no último dia 19, aos 62 anos, a letra do artista maranhense discorria vários questionamentos naquele final dos anos 90, quando a tecnologia começava a tomar proporções rápidas nos costumes de todos nós.
Baleiro ironiza para interpelar e refletir uma falsa realidade, “acessando a internet / você chega ao coração / da humanidade inteira / sem tirar os pés do chão...”, desconstrói uma ilusão com uma afirmação, “milhares de megabytes / abatendo a solidão / com a graça de Bill Gates”, aponta uma servidão quando denota onipotência, “se homem já foi à lua / vai pegar o sol com a mão / basta comprar um pc / e aprender o abc da informatização...”
E a menção a Kid Vinil entra no refrão justamente para legitimar a força, digamos, analógica de sentimentos que devem estar acima de todo atrativo que possa nos subjugar. “Tecnologia existe / pra salvar o homem do fim”, diz a letra logo no início.
Antônio Carlos Senefonte, o Kid Vinil, tem uma importância para o rock brasileiro que merece ser mais divulgada, vai além dos sucessos rockabilly que lhe tornou conhecido, Tic tic nervoso e Sou boy.
Precisamente nos anos 80, naquele momento das inquietações de uma juventude no punk rock, ele produziu shows, discos, programas de rádio e televisão, revelou bandas underground, criou e tocou em bandas, como Verminose, Magazine, Kid Vinil e Os Heróis Do Brasil.
A tenacidade de Vinil se estende em trabalhos surpreendentes: foi ele quem produziu o primeiro disco da violeira Helena Meireles, através da gravadora independente Trama, em 1994, que deu projeção na mídia àquela senhora pantaneira de 70 anos. Em 1998, produziu no Brasil o álbum Com defeito de fabricação, de Tom Zé, "redescoberto" e lançado por David Byrne nos Estados Unidos, mas com dificuldades de gravadora em sua terra.
O afeto em que se encerra no coração de vinil do Kid, fez com que a tecnologia exista a favor do mesmo abraço para todos, chegar à humanidade inteira tirando os pés do chão.
E ele gravou, sim, CDs: Na Honestidade, em 2002, com a banda Magazine, em 2010 na formação Kid Vinil Xperience, Time was.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vênus para sempre



O Nascimento de Vênus, têmpera sobre madeira, belíssima pintura sobre madeira, do renascentista Sandro Botticelli, exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença.
O cinema e outras manifestações artísticas reproduziram a cena da deusa Vênus, emergindo esplendorosa de uma concha, sendo levada à margem pelo sopro de Zéfiro, que representa o vento que vem do oeste.
Como uma deusa-sereia, Ursula Andress surge fascinante do mar em uma cena de 007 contra o Satânico Dr No (Dr. No), de Terence Young, 1962.
Com mais precisão, a cena foi retratada em As aventuras do Barão Munchausen (The adventures of Baron Munchausen), de Terry Gilliam, 1989, personificada em outra deusa blonde e diáfana, a atriz Uma Thurman pré-Kill Bill no papel de Vênus.
No filme holandês A excêntrica família de Antonia (Antonia), de Marleen Gorris, 1995, uma das personagens é vista como Vênus, remetendo ao significado da pintura.
O desenho animado Os Simpsons fez uma referência direta ao quadro, em um episódio nos anos 90, quando um personagem, no delírio, vê a colega de trabalho por quem se apaixona.
Muitas capas de revistas de moda fizeram alusões à cena de Botticelli, com modelos famosas e biquínis de grifes.
A musa pop cameloa da música dance eletrônica, Lady Gaga, é confessadamente uma admiradora da obra. Em seu disco Artpop, de 2013, a capa utiliza em recursos estilizados a estampa de O nascimento de Vênus, como sampleando a pintura clássica. No clipe promocional do álbum, com (não à toa) o single Vênus, a cantora com os longos cabelos em cascata como da deusa, usa um provocante biquíni de concha.
Até na moeda de 10 centavos do Euro, Vênus aparece impressa em suave relevo. Mas é minimizar demais: a referência merece valor muito maior de circulação hoje nos 507 anos da morte do pintor.

terça-feira, 16 de maio de 2017

like a Bob Dylan

51 anos hoje do lançamento de um dos melhores discos de Bob Dylan, Bonde on Blonde, que completa a trilogia de álbuns de rock que o pardo de Minnesota gravou, começando com Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965.
As canções e as letras discursivas definem bem a mistura única do visionário e do coloquial que Mr. Zinnemman se tornou ao longo de sua carreira.

sábado, 13 de maio de 2017

a voz do Brasil

Em uma festa de réveillon nos anos 50, na casa do diretor da Rádio Nacional, vários convidados fizeram fila para cumprimentar Getúlio Vargas.
Ao aproximar-se uma jovem cantora em início de carreira, o Presidente apertando-lhe a mão disse: "menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti".
A partir dessa data, Angela Maria, que hoje completa 88 anos, ficou conhecida como "A Sapoti", uma fruta tão doce quanto a voz da cantora, que em primeiro momento ela entendeu como "jabuti" e não gostou.
Episódios como esse estão na ótima biografia Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil, do jornalista e pesquisador Rodrigo Faour, lançada em 2015.
Com um texto preciso e elegante, o livro narra a trajetória da artista, revelando momentos difíceis como a decaída e pobreza nos anos 60, quando teve todo seu patrimônio financeiro usurpado pelos empresários, maridos, namorados, falsos amigos.

in a romantic mist

Duas excelentes obras sobre o grande trompetista e cantor de jazz Chet Baker: a biografia No fundo de um sonho - A longa noite de Chet Baker, escrita pelo jornalista James Gavin, publicada em 2002, e Let's Get Lost, documentário dirigido por Bruce Weber.
São referências definitivas sobre Baker. Nas páginas de um, nas imagens do outro, se se conhece a música do ícone do jazz cool, impossível não se emocionar com os relatos, os depoimentos, as entrevistas.
No filme, concluído um ano antes de sua morte, completando hoje 29 anos, o diretor grava longos planos de um Baker mais introspectivo do que se sabia. O seu olhar distante, o mergulho em suas dores. A câmera parece não estar ali. O cineasta e o músico eram amigos, e isso rendeu a intimidade necessária para extrair a mais verdadeira fala, o mais sincero silêncio.
Baker caiu-flutuou-levitou de uma janela de hotel em Amsterdan. Como diz a letra de sua canção Let's Get Lost: "in a romantic mist..."

sexta-feira, 12 de maio de 2017

olhos livres do cinema

“Papai, o que é cinema?”, pergunta a filha Bebel ao pai cineasta, enquadrando a pequena câmera digital. 
“Cinema...” inicia a resposta para de imediato reticenciar em “não sei... não sei... não sei...”

O diálogo nos minutos iniciais do longa-metragem Um filme de cinema, de Thiago B. Mendonça (2017), reverbera-se ao contar a aventura de uma criança na feitura de um filme como tarefa escolar. A garota também não sabe o que é cinema, ainda, mas tem a intuição que o próprio pai não percebe: uma câmera na mão e uma ideia no coração, parafraseando enviezadamente a máxima cinemanovista. Assim nasceu o cinema, perseguindo a realidade enquanto a recorta retangularmente.

- Trecho de algumas observações ao longa, no catálogo da IX Mostra Outros Cinemas, Caixa Cultural Fortaleza, de 10 a 14 de maio.
Site com mais informações sobre o evento: http://migre.me/wBtU9

o brasileiro Antonio Cândido

"Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida."
- Antônio Cândido, sociólogo, um dos grandes estudiosos da nossa literatura, o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, em 2005, um dos mais importantes da América Latina, livre e lúcido pensador. Um brasileiro.
Cândido partiu hoje aos 98 anos. Tecer outras vidas noutros tempos.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

perdoa-me por me traíres

Judas quer compreender a mensagem de Cristo, e acha que os brothers apóstolos estão seguindo sem questionar as palavras do Mestre. Judas discute com eles, e tenta defender o seu direito de adivinhar a verdade de Deus. Mas quando não consegue fazê-los compreender, percebe que os ensinamentos de Cristo podem cair no esquecimento, sem beneficiar a humanidade. Sua solução é trair Cristo.
Essa versão enviesada e curiosa do apóstolo que virou sinônimo da deslealdade e da postura pérfida, é apresentada no filme russo Judas, de Andrey Bogatyrev, 2013, e até onde sei, exibido no Brasil apenas na mostra Semana de Filmes Russos em Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.
“Muitos aspectos da vida não são tão simples como parecem ser. Devemos esforçar-nos para tocar o chão da história”, disse o diretor em entrevista, argumentando seu interesse pelo personagem e seus conflitos, extraído do livro Judas Iscariotes e outras histórias, de Leonid Andreev, de 2004.
O autor, assim como posteriormente o cineasta, desenvolvem a tese de que não se trata de crime intencional, nem de culpa, mas de um desígnio obscuro que parece reger a vida de certos homens contra a vontade deles, contra a razão, contra a salvação.
Argumento que não se aplicaria neste Brasil temeroso.

Cristo reloaded

Rodado em Roma, a caríssima produção norte-americana A paixão de Cristo (The Passion of the Christ), de Mel Gibson, 2004, é uma das mais criticadas sobre o tema. O diretor abordou de forma implacável as doze últimas horas de Cristo. Nunca o Salvador foi tão açoitado no cinema. O Nazareno percorre seu calvário desde a agonia após a reunião ministerial com seus apóstolos na Última Ceia até a Ressurreição, debaixo de chibata e insultos pelas ruas. Nem os flashbacks quando criança ao lado de sua mãe Maria aliviam o espectador.
Mel Gibson radicalizou também na concepção do filme, que é falado em aramaico. O preciosismo quase sádico da crucificação demorou duas semanas de filmagens, com dezenas de repetição de takes e cuidados de continuidade.
Há quem devaneie teses cabalísticas nas coincidências de produção do filme, como as mesmas iniciais dos nomes do personagem e do ator, assim como a mesma idade. E após se livrar dos pregos na cruz, Jim Cavaziel achando que acabara o seu martírio, foi atingido por raio juntamente com o assistente de Gibson. Nada de grave aconteceu a ambos.
Na foto acima o diretor informa ao ator que o ocorrido não foi efeito especial, apenas um aviso dos céus para capricharem na cena da ressurreição.

aquele beijo que lhe dei

Um dos beijos mais famosos da história da humanidade: o beijo com segundas intenções de Judas em Cristo.
O quadro de beleza hipnótica, A Captura de Cristo, de Caravaggio, 1602, encontra-se na Galeria Nacional da Irlanda.

Jesus nas ruas

Um grupo de atores encena pelas ruas da grande Montreal, de forma nada convencional, uma versão teatral de A Paixão de Cristo.
Para complicar, a via-crucis de Jesus se confunde com as dificuldades de cada um do elenco, principalmente para o jovem ator a quem pegaram para Cristo.
Jesus de Montreal (Jésus de Montréal), de Dennys Arcand, produção canadense, 1989, tem um dos mais originais roteiros que abordam o martírio de Cristo em direção à cruz. Com roteiro do próprio diretor, a narrativa de metalinguagem da peça dentro do filme faz um paralelo de cada acontecimento da história com o cotidiano dos artistas, dando uma simétrica e curiosa interpretação bíblica para os seres “comuns”.
Arcand faz um cinema onde desconstrói mitos e conceitos estabelecidos dissecando algum sentido para nossas inquietações. No enredo do filme, a peça não é vista com bons olhos pela Igreja. Fora do filme também.

nem Cristo é de ferro

O ator Robert Powell e o diretor Franco Zeffirelli nos intervalos da cena de crucificação de Jesus de Nazaré, 1977, um dos filmes mais vistos sobre o tema de dois mil anos atrás.
Zeffirelli, como um cineasta atento ao seu elenco, dá um acalanto de um uísque antes e um cigarro depois ao ator que tem uma longa caminhada desde Belém à ressurreição.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

poesia na calçada

Sérgio Sampaio, aquele que botou o bloco na rua, nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da linha evolutiva da música popular brasileira, como dizia seu parceiro da Sociedade da Gran-Ordem Kavernista, Raul Seixas.
Com sua música e letras de fúria modernista, viajando de trem do samba e choro ao rock'n roll, blues e baladas, Sérgio Sampaio estava blocos à frente de muitos.
Faria 70 anos hoje, 13, se foi aos 47 com sua poesia na calçada.
Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.

me acuerdo

"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo".
- Eduardo Galeano, no livro Dias e noites de amor e de guerra, 2001.
Dois anos hoje que nossa memória guarda sua ausência.

o beijo enquanto você dormia

Jude Law aproveitando-se do sono de Norah Jones em My Blueberry Nights, para justificar o título em português "Um beijo roubado", produção com grana de Hong Kong, China e França, mas filmada em New York, 2007, com direção moderna do honconguês Wong Kar-Wai.
O delito do talentoso Jude é perdoável. No filme a cantora e pianista Norah, filha do músico indiano Ravi Shankar, é traída pelo namorado logo em sua estreia como atriz. Dona de um restaurante, entrega a responsa do comércio e seus lábios para o charmoso empregado Law.
Quem com o beijo fere, com o beijo do outro será trocado.

quem dera ser um peixe...