quinta-feira, 22 de junho de 2017

o grande momento

Em 1965 o cineasta francês Claude Lelouch não estava numa boa com a fraca repercussão de seu quinto filme, ironicamente intitulado Les grands moments. Assim como os anteriores, o trabalho não teve público satisfatório, os distribuidores não apostavam naquele jovem de vinte e poucos anos de sonhos e de filmes irregulares.

Logo após uma projeção onde tudo deu errado, Lelouch pegou o carro e saiu a esmo noite a dentro. Rodou cego pela madrugada e se viu parado à margem da praia em Deauville, uma comuna francesa na Baixa-Normandia. Cochilou e acordou com o sol e sons de alguns pássaros. Através do retângulo do painel do automóvel, como uma tela de cinema, viu uma mulher andando na maré baixa, acompanhada de um menino e um cachorro. A imagem matinal lhe pareceu cena de filme. O cineasta saiu do carro e tentou se aproximar da mulher. Enquanto caminhava, perguntava-se e deduzia o que ela fazia ali tão cedo. Não conseguiu alcançar os três, mas não se importou: voltou para o carro com a ideia do roteiro de Um homem e uma mulher (Un homme et une femme).

Estrelado por Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimèe, lançado em 1966, é o seu filme mais conhecido e emblemático na filmografia que se seguiu por mais quarenta títulos, até o mais recente, a comédia dramática Salaud, on t'aime, de 2014, com o cantor Johnny Hallyday no elenco.

Um homem e uma mulher, Palma de Ouro em Cannes e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, conta o encontro, romance e desencontro de dois jovens viúvos. A narrativa em câmera solta, a trajetória de vidas paralelas de personagens que se cruzam e se perdem, a trilha sonora organicamente inserida nas ações, e, sobretudo, uma louvação ao amor, marcaram e definiram o estilo de cinema de Lelouch, reverenciado por muitos, e detratado por outros muitos, que consideram seus filmes melosos.

Retratos da Vida (Les uns et les autres), 1981, é considerado sua obra-prima, onde o fôlego narrativo de três horas intercala vidas distintas de três gerações de famílias na França, Rússia, Alemanha e Estados Unidos, ligadas pela música e afetadas pela Segunda Guerra.


O clássico de 1966 teve uma continuação com Um homem e uma mulher: 20 anos depois (Un homme et une femme, 20 ans déjà), com os mesmos atores/personagens, uma espécie de reencontro ao final da tarde, à margem da praia em Deauville.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

dois irmãos

Praia do Leblon.
Foto de José Medeiros, 1952.

o lado B de bom

"Todos acham que é preciso muito dinheiro para fazer filmes. No fim, quanto mais dinheiro você tem, menos consegue fazer com ele. Para mim, sempre foi uma benção não ter dinheiro suficiente, porque aí eu precisava compensar isso com o trabalho de câmera, com ideias, com abstrações. É uma das coisas mais lindas que se podem fazer no cinema: inventar uma imagem quando não se pode pagar por ela."
- Wim Wenders no documentário Edgar G. Ulmer – o homem fora das telas (Edgar G. Ulmer - The man off-screen), de Michael Palm, 2004.
Além do cineasta alemão, Peter Bogdanovich, Roger Corman, Joe Dantes e outros falam sobre o trabalho de um dos mais talentosos diretores do cinema americano. Edgar G. Ulmer, austríaco radicado nos EUA, foi um dos mestres dos chamados filmes B, produções de baixo orçamento, sempre feitas em horários “de sobra” nos estúdios, equipamentos emprestados, atores desconhecidos... alguns ficaram famosos a partir de seus papéis e convidados para trabalharem com outros cineastas, como John Carradine, Robert Clarke, Arthur Kennedy, John Saxon. O próprio G. Ulmer foi ator de muitos de seus filmes para contornar a situação de grana.
Tão pouco conhecido quanto o cineasta é o documentário de Michael Palm, restrito à prateleira de DVDs de pouca locação, no lançamento à época. O filme está disponível no site Making Off.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

nosso cinema de cada dia

Hoje, quando se comemora o Dia do Cinema Brasileiro, lembro do crítico e historiador Jean-Claude Bernardet, que em seu livro Cinema brasileiro, propostas para uma história, 1978, diz que "não é possível entender qualquer coisa que seja do cinema nacional, se não se tiver em mente a presença maciça e agressiva, no mercado interno, do filme estrangeiro."
E foi o italiano Afonso Segreto, o primeiro cinegrafista e diretor do país. Naquele 19 de junho de 1898, ele registrou as primeiras imagens em movimento do território brasileiro: a entrada da baía de Guanabara, a bordo do navio (francês!) Brésil.

o dono da voz

Em 1980, sucessivos desentendimentos com a gravadora Ariola fizeram Chico Buarque buscar outro selo, a Polygram.
O compositor, que hoje completa 73 anos, se viu meio encrencado no último dia de gravação do então novo disco: a Ariola fora vendida exatamente para a nova gravadora de Chico. A confusão deu origem à bem-humorada canção A voz do dono e o dono da voz, última faixa do lado A do LP Almanaque, de 1981.
O bolachão é um dos melhores de Chico na década de 80. Tem lá Vitrines, Ela é dançarina, O meu guri, Tanto amar...
A criação da capa, contracapa e encarte do disco, assinada por Elifas Andreato, é uma obra-prima à parte: desenhos, ilustrações que remetem aos velhos almanaques em forma de livrinhos que tratavam de vários assuntos, como datas festivas, feriados, luas, eclipses, horóscopo, pensamentos, trechos de literatura, poesias, anedotas, charadas, palavras cruzadas, e coisas como datas certas para o plantio.

sem perder a ternura



A imagem é de um dos mais famosos artistas gráficos, ou mais precisamente, o grafiteiro inglês Robert Bansk, 42 anos, mais conhecido como Bansky.
Literalmente um artista de rua, sua postura como ativista político revela-se em belíssimos trabalhos que estão nos muros das ruas de Londres e outras cidades inglesas.
Seus grafites têm um significativo humor crítico, a necessária e ferrenha sátira, a denúncia e dureza contra as injustiças sociais, mas sem perder jamais a poesia e a ternura.

tijolo com tijolo num desenho lógico

A edição brasileira de 2009 da revista Rolling Stone fez uma enquete com 90 críticos especializados e mais alguns jornalistas da área musical, para saber quais as 100 maiores canções brasileiras. A lista foi destaque do número que comemorou três anos de publicação nacional.
Construção, de Chico Buarque, ficou em primeiro lugar.

Composta em 1971, em pleno regime truculento do general Médici, é uma das letras mais bem elaboradas em toda história da música brasileira. Pouco se viu tamanha preciosidade poética em proparoxítonas.
Chico completa hoje 73 anos. Ergueu no patamar da música brasileira quatro paredes mágicas.

domingo, 18 de junho de 2017

open your eyes

Há 53 anos, quando Paul McCartney começou a cantar close your eyes and I’ll kiss you..., de All my loving, no programa The Ed Sullivan, em Nova Iorque, a América não fechou mais os olhos e se rendeu ao fenômeno do quarteto de Liverpool.
Hoje a voz dos Beatles completa 75 anos.
All my loving I will send to you, Paul.

luz da tarde no babaçu


Serra da Meruoca, Ceará, 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

stranger than paradise

"Nada é original. Roube de todos os lugares que inspiram ou alimentam sua imaginação.
Devore filmes antigos, novos filmes, música, livros, quadros, fotografias, poesias, sonhos, conversas aleatórias, arquitetura, pontes, sinais de rua, árvores, nuvens, massas de água, luzes e sombras.
Selecione apenas coisas que falam diretamente com sua alma. Se você faz isso, seu trabalho (e roubo) será autêntico. Autenticidade não tem preço; originalidade não existe. E não se preocupe com o roubo - celebre-o se você se sentir bem com isso."

- Jim Jarmusch
Autêntico, segue na contramão da mesmice hollywoodiana.
Paterson, seu novo filme, celebra as coisas que falam diretamente com a alma.

dois lados da mesma viagem

“O importante não é chegar, mas viajar”
A frase é do personagem Fausto, interpretado por Ênio Gonçalves em Filme Demência, dirigido por Carlos Reichenbach, 1986.
Com roteiro do diretor e do crítico Inácio Araújo, o filme é uma adaptação livre, contemporânea, atualíssima, da obra teatral de Goethe.
Hoje faz cinco anos que Reichenbach, o querido Carlão, viajou para outros cinemas...curiosamente no mesmo 14 de junho, quando chegou a este mundão em 1945.