quarta-feira, 22 de março de 2017

nobreza da música

“Quando ouvi Salif Keita, dancei...”, diz Chico César em ‘À primeira vista’, aquela do refrão djvaniano “amarazáia zoê, záia, záia / ahin hingá do hanhan...”, gravado em seu primeiro disco, “Aos vivos”, 1995.
Nascido em uma família fundadora do Império Mali, Salif Keita tinha tudo para não ser cantor. Essa “tarefa”, pela tradição da cultura daquele país da África Ocidental, pertence a outro tipo de pessoas. Por lá chamam de ”griots”, incumbidos com a arte de contar histórias, lendas, e, de certa maneira, informar e educar. Não deixa de ser, e configurar, uma estrutura social, porque evoca uma genealogia e história de seu povo. Guardando as devidas proporções, é como os nossos repentistas, por serem guardiões da tradição oral.
Mesmo com esse valor respeitado dos artistas populares, um membro do Império maliano tem reputação nobre, não lhe cabe a incumbência. Mas a arte de Salif Keita ultrapassou esse conceito, rompeu os limites da linhagem, e a música foi abençoada com o talento desse grande compositor.
Junta-se a esse detalhe na vida de Keita, o fato de ter nascido albino, como nossos Hermeto, Sivuca.... Uma raridade naquela região. Tanto é que tal condição caracteriza um sinal de azar na cultura dos maiores grupos étnicos do ocidente africano. Salif Keifa, mesmo com a repercussão de seus discos no exterior, o reconhecimento mundial de sua música, foi de uma forma disfarçada hostilizado na própria terra.
Aos 68 anos, o cantor mora em Paris desde a década de 80. Quando criou asas, voou.

salve, Jorge!

Samba Esquema Novo, primeiro disco do ainda Jorge Ben, 1963.
O samba, a bossa nova, o jazz, o sambalanço, o sambajazz.... Mas que nada, não! Mais que tudo, sim!.
Está lá que chove a chuva por causa de você, menina.
O Bacharel em Música Popular da Universidade de Campinas, Alam D’Ávila do Nascimento, em seu trabalho de Mestrado, disserta com propriedade sobre a curiosa capa, onde o cantor apoia-se em um banquinho invisível. Diz Nascimento que nas composições "a harmonia possui elementos de bossa-nova, mas o ritmo não, indícios de uma possível influência roqueira"
Essa complexidade musical é sugerida na capa, pois a primeira leitura remete à simbologia bossanovista de um-banquinho-e-um-violão. Falta um elemento, de sustentação, e isso define que é um disco da recente bossa já modificada pela variedade do repertório. Um esquema novo do samba que anteciparia procedimentos adotados pelos tropicalistas alguns anos depois.
Hoje, 75 anos do Babulina, Zé Pretinho, Jorge Benjor... Salve, Jorge! Eu também sou da sua companhia.

o cinema mudo deu o que falar

video
Hoje o cinema completa 122 anos de sua primeira exibição.
O curtíssimo-metragem A Saída da Fábrica Lumière em Lyon foi apresentado a uma curiosa plateia numa sala, e mostrava a saída dos operários da fábrica, a maioria mulheres, que produzia películas fotográficas, de propriedade dos irmãos Auguste e Louis Lumière, não por acaso os produtores e diretores da novidade.
Mas vale dizer que eles não foram os autores do invento, o cinematógrafo, aparelho de filmagem e projeção.
Léon Bouly foi quem criou a máquina, em 1892, e batizou de "Cynématographe", que já era um aperfeiçoamento do trabalho de Thomas Edson.
O que aconteceu foi que o coitado de Léon não tinha como pagar a patente da sua invenção, e os Lumière, com grana no bolso e olho lá adiante, registraram, e "a coisa é nossa, pronto, vamos filmar os empregados e ficar pra história"... suponho terem pensado e dito. Ou sim?
Em tempo: o cachorro que aparece logo no início foi o primeiro animal do cinema, depois os cavalos do final...

segunda-feira, 20 de março de 2017

quando o tempo avisar

"Quando eu piso em folhas secas / caídas de uma mangueira..."
O outono chegando na voz de Nelson Cavaquinho...
A canção Folhas secas, gravada no seu terceiro LP, de 1973, foi composta em parceira com Guilherme de Brito.
Apesar do sobrenome artístico, por ter sido um exímio cavaquinista na adolescência, Nelson sempre compunha e se apresentava com o violão, que exercia com o mesmo talento.

quinta-feira, 16 de março de 2017

infância

Persona, de Ingmar Bergman, 1966.

A infância me levou ao cinema numa tarde no interior.

O cinema me levou a um tempo próximo e distante da fantasia, da idealização inquebrantável que as crianças fazem de um mundo perfeito.

Crescer tem o inconveniente do mundo ficar muito palpável. O dia é irreversível.  A esperança necessita de muito esforço.

O cinema me levou à infância numa tarde do interior. Não encontrei o caminho de volta para casa.

segunda-feira, 13 de março de 2017

muito além

“Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado, e disse à minha alma: 'Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?'
E minha alma disse: 'Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.’”

- Walt Whitman, em As folhas da relva, publicado em 1855. A ‘magnum opus’ do maior poeta norte-americano teve várias edições. Inicialmente, o autor bancou sozinho a tiragem, investiu do seu salário de empregado de um jornal. Whitman não considerava seu livro concluído.
A vida não parava de lhe dar motivos para desfolhar a relva e escrever. Escrever e se fazer presente em trabalhos voluntários nas ruas, nos hospitais, nos asilos, nas embarcações como marinheiro. Foram praticamente quatro décadas preparando o livro e convivendo com mendigos, prostitutas, operários, pessoas que compartilhavam as dores e esperança. O poeta esteve na trincheira da Guerra da Secessão, e na batalha entre o norte industrializado e abolicionista e o sul aristocrata, latifundiário e escravagista.
Whitman escreveu sobre a liberdade. E não por acaso é o criador do verso livre. Sua alma libertária se cristalizava na escrita desacorrentada da métrica acadêmica. E pela ousadia, lucidez em ver, sentir e falar sobre a odisseia do homem simples, Whitman chegou a ter sua obra acusada de esquisita, bizarra e até obscena, a ponto de um crítico descerebrado sugerir açoite em praça pública como punição.
Ao final da nona e última edição do livro, em 1892, já no leito de morte, Whitman chegou a 382 poemas.
As folhas da relva é uma espécie de bíblia da poesia norte-americana. Um livro de fôlego, épico, sobre o ser humano em busca de respostas e caminhos. Uma vez concluído e alcançado o objetivo do autor, prosseguimos no caminho dele.
Acima, uma das primeiras impressões do livro e o autor fotografado por George Collins Cox, em 1887. Cox, um dos retratistas pioneiros, sempre esteve por perto de Whitman, e notabilizou-se pelas belas imagens que expressavam a consistência da alma do poeta. Seu acervo foi restaurado em 1979, e digitalizado na Library of Congress's Prints and Photographs. A poesia da imagem também indo mais além.

domingo, 12 de março de 2017

o sopro do pássaro

foto © PacoCartoon
No ótimo conto O perseguidor, de Julio Cortázar, publicado em 1958, na coletânea "As armas secretas", o personagem Johnny é um dos maiores saxofonistas do mundo, criando um estilo de jazz que não se consegue definir com clareza, tocando o coração de todos com sua música. O outro lado do homem é um Johnny extremamente perturbado, viciado em drogas, perde seu saxofone no metrô de Paris, e se desespera por não ter como comprar outro para o show que fora contratado na capital.

O conto foi diretamente inspirado no músico americano Charles Parker, 62 anos de sua morte hoje. Cortázar era fã de jazz e apaixonado pela música de Bird, assim apelidado o saxofonista, título do filme biográfico dirigido por Clint Eastwood em 1988, com a atuação perfeita de Forest Whitaker.
Charles Parker foi um dos maiores músicos da história do jazz. A beleza de suas composições misturava harmoniosamente estilos do clássico ao latino. Dessa melodia e ritmo tão próprios, Bird criou o Bebop, tornando-o uma espécie de pai do desenvolvimento conceptivo do jazz.
Teve morte precoce, aos 34 anos, consumido pelas viagens sem volta. Nunca se sabe o que há por trás das canções, das dores dos pássaros que não voam.

"Moro" na filosofia...

Depois do afago no mineirim, o encontro karnal...

Brasília cheia de lua

foto Ed Alves

sábado, 11 de março de 2017

simplesmente Maurício



Leonardo Da Vinci dizia que "a simplicidade é o último grau de sofisticação". Uma máxima aplicável ao fotógrafo Mauricio Albano.
Ele foi uma das poucas pessoas que conheci com tanta pureza, doçura, ternura. Sua filosofia de viver as coisas simples, de valorizar as coisas simples, de viver simplesmente viver, era cativante para quem estivesse ao seu lado. E isso, claro, reflete em seu trabalho de cinco décadas fotografando a vida.
Elegância da alma, fineza da alma, distinção da alma: a sofisticação que Da Vinci menciona.
E de maneira simples, em sua casa, Mauricio se foi há dois hoje.

sexta-feira, 10 de março de 2017

velhacap

foto Jean Manzon, 1950
"No Rio ficavam o presidente da República - dito assim, parecia importante, embora fosse apenas o Dutra -, os ministérios, as autarquias, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal, o corpo diplomático, a presidência dos bancos, a matriz das seguradores, a indústria editorial, pelo menos quinze jornais diários e inúmeras revistas, quase todos de circulação nacional, treze estações de rádio, as agências de propaganda, a Praia de Copacabana, o Pão de Açúcar, o Copacabana Palace, a Confeitaria Colombo, a Cinelândia, o Fla-Flu, o sorvete Kibon."

- Ruy Castro em A noite do meu bem, 2015

a quem interessar possa

À época, a tiragem foi de 1000 exemplares. Não sei quantos vendidos na noite de lançamento, não me lembro quantos ficaram comigo e doei todos para amigos, não tenho ideia de quantos deixei nas livrarias em consignação, uma quantidade ficou com a Fundação Lourenço Filho, em Fortaleza, que patrocinou a publicação como prêmio do concurso... e um exemplar guardo como troféu na minha estante real.
Agora o site Estante Virtual tem um único exemplar disponível a preço de raridade.
A poesia é gratificante por isso, e expressa exatamente aquilo que não permito que me empreendam: o recolhimento do meu voo, a desfaçatez de dizerem que o Ícaro em que acredito não pode seguir viagem.

sesta básica

Neurologistas especialistas em sono garantem que uma boa soneca depois do almoço, a tradicional hora da sesta, não engorda, fortalece a memória, aumenta a concentração, além de melhorar a parte motora, evitando acidentes de trabalho.
O ideal é que o cochilo não ultrapasse 40 minutos.

Abaixo, operários na construção do Empire State Building, New York, descansam a uma altura de 256 metros, equivalente ao 60° andar.
A foto inicialmente foi creditada a Lewis Hine, que documentou quase diariamente a construção do prédio. Tempos depois pesquisadores constataram que o autor foi Ebbets Charles. O fotógrafo, numa proposta de fazer um ensaio ousado sobre a bravura daqueles trabalhadores, pediu para alguns fazerem de conta que repousavam após a refeição.