domingo, 21 de julho de 2019

guarde uma frase pra mim dentro de sua canção

Em meados dos anos 90 a cantora Amelinha encontrou com Belchior nos bastidores de uma emissora de televisão em São Paulo. Na alegria das conversas abraçadas de conterrâneos quando se encontram, o cantor comentou que gostaria muito de ouvir na voz dela uma canção que gravou em 1987, De primeira grandeza, no disco Melodrama.
O tempo passou. Em 2000 a cantora pensou em incluir a canção no CD Ednardo, Amelinha & Belchior - Pessoal do Ceará, mas não cabia dentro da proposta do disco.

Belchior sumiu em seu exílio voluntário e voltou de uma forma que não desejávamos. “Fiquei sete dias muda, quieta, chocada e com um vazio enorme no meu peito”, disse Amelinha, expressando um sentimento de todos nós.
Em agosto de 2017, quatro meses depois da morte de Belchior, a convite do produtor Thiago Marques Luiz, Amelinha segue para a cidade Piracaia, São Paulo. No Estúdio Canto da Coruja, situado num bucólico sítio, passa quatro dias gravando o álbum “De primeira grandeza – as canções de Belchior, com direção musical de Estevan Sincovitz. O disco é belíssimo, um dos melhores de Amelinha, com sua voz cada vez mais afinada e anímica. Estão lá dez canções preciosas, incluindo uma das poucas conhecidas de Belchior, Incêndios, parceira com Petrúcio Maia, gravada por Fagner no disco Romance no deserto, 1987.
Belchior estava certo na intuição: a interpretação de Amelinha em De primeira grandeza é de uma beleza e simetria impressionantes, condizendo com a letra quando o autor diz “Quando eu estou sob as luzes / não tenho medo de nada / e a face oculta da lua - que é a minha! / aparece iluminada. / Sou o que escondo - sendo uma mulher / igual a tua namorada / mas o que vês quando me mostro – estrela / de grandeza inesperada.”
Hoje é aniversário de Amelinha. Ontem estreou em Niterói o show com as canções de disco. Um presente de primeira grandeza de Belchior para a amiga.
Parabéns pelo seu dia todos os dias, Amelinha, flor da paisagem das canções cearenses nordestinamente brasileiras.

poesia na cidade

"Meu irmão, acabei de ler tua 'Provisória poesia', permanente!
Feliz demais de conhecer teus versos, e poder ser marcado pelo teu lirismo seco.
Gratidão, Nirton"
- Mailson Furtado, Prêmio Jabuti de Poesia 2018
Meu caro Mailson, sua leitura é meu prêmio Jabuti. Gratidão!

sexta-feira, 19 de julho de 2019

turnos da poesia

"Um dos meus deleites, no meu quarto, é recitar poesias deitado na cama, antes de dormir. Procuro fazer ecoar as palavras de modo a encontrar a sonoridade delas; sua musicalidade nas frases e adequá-las ao sentido que elas parecem revelar.
Meu amigo e poeta Nirton Venancio publicou este ano mais um de seus livros de poesias: 'Poesia Provisória', da Editora Radiadora.
São versos de uma clareza, de uma espontaneidade que parece ter sido cautelosamente pensados e sentidos.

As emoções do poeta que revelam uma solidão com riso n’alma.
Percebe-se que há uma vontade dele brincar com a 'forma' das palavras, embora o sentimento deve exprimir a ideia de cada estrofe num tema proposto dos insights que tocaram o autor, exigindo do poeta a autenticidade daquelas palavras ao conteúdo do tema que elas brotaram com vidas próprias. Tive a liberdade de recitar uma, de tantas que me afinei."

- Fernando Rocha, antropólogo

quinta-feira, 18 de julho de 2019

balcão de negócios

"É uma forma de se desresponsabilizar pelo financiamento público do ensino superior", disse o sinistro da deseducação ontem no lançamento do "projeto" Future-se.

a voz de Billie

A cantora fotografada por William P. Gottieb, 1947
O que particulariza o estilo de Billie Holiday é a essência de sua interpretação. Sua conturbada vida parece desfolhar-se em cada canção, não somente pelas letras das músicas, mas pela maneira como essas melodias saem da sua alma, são extraídas lá do mais íntimo do coração. "My heart is sad and lonely", "my life a wreck you're making", "life's dreary for me", como canta em Body and soul, de 1957, uma das mais amarguradas e expressivas de sua vida, não à toa, regravada por Amy Winehouse em Lioness: Hidden Treasures, disco póstumo de 2011, em duo com Tony Bennett. Era a música e o cantor preferidos da mãe de Amy. Era a música com a cantora preferida de Amy.
Quando Billie Holiday nasceu, seu pai, um tocador de banjo, tinha apenas quinze anos de idade e sua mãe não mais do que treze. O pai abandonou a família e a mãe deixava a filha bebê com parentes. Negra, pobre, desamparada, Billie amargou infortúnios logo cedo. Foi violentada aos dez anos de idade por um vizinho. Internou-se em casa de correção, lavou chão de prostíbulo, e virou prostituta aos catorze anos, em Nova Iorque. Isso nos anos 20. Na década seguinte começou como cantora, quando foi descoberta por um pianista em um bar do Harlem. Sua voz conquistou nomes como Benny Goodman, Count Basie, Artie Shaw, Duke Ellington e Louis Armstrong. Fez concertos com todos eles.
Nos anos 40, Billie entrou numa de ruim pra pior. Passando por vários momentos de depressão, afundou-se no álcool e drogas pesadas. Um caminho sem volta. Morreu com apenas 44 anos de idade.
Muitas dessas revelações corajosas, sem autocomiseração, estão na autobiografia Lady sings the blues, publicada pouco antes de sua morte, que hoje completa 60 anos.

terça-feira, 16 de julho de 2019

aparelhamento do Estado

Presidente do STF atende pedido do filho 01 e suspende apurações com dados do Coaf e do Fisco sem aval judicial. Aqui.

sem aspas

Nunca pensei que um dia compartilharia uma fala de Reinaldo Azevedo...

mediocridade procede ao desmonte de conquistas

foto ©Bob Sousa
Lúcido, oportuno e urgente artigo de Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação do governo Dilma Roussef, professor titular de Ética e Filosofia Política da USP, publicado hoje na Folha de São Paulo:
A FLIP E O FASCISMO
Vários amigos, embora tenham horror ao atual governo, não se preocupam muito: pensam que em quatro anos as eleições o substituirão. Alguns acrescentam que o Brasil assim aprenderá melhor o valor da democracia.
De minha parte, entendo que eles subestimam a destruição do tecido social e político, a liquidação da vida inteligente e da vida mesma, que está sendo efetuada prioritariamente nas áreas da educação e do meio ambiente.
Debate-se muito o que é fascismo. Porém alguns pontos são fundamentais nesse regime, talvez o mais antidemocrático de todos, que não é apenas um exemplo de autoritarismo.
Primeiro, o fascismo conta com ativo apoio popular. Tivemos uma longa ditadura militar, mas com sustentação popular provavelmente minoritária e seguramente passiva. Mesmo no auge de sua popularidade — o período do “milagre”, somando general Médici, tortura e censura, tricampeonato de futebol e crescimento econômico — não houve movimentos paramilitares ou massas populares saindo às ruas para atacar fisicamente os adversários do regime.
Hoje, há.
Daí, segundo, a banalização da violência. Elas deixam de ser, na frase de Max Weber, monopólio do Estado, por meio da polícia e das Forças Armadas: os próprios cidadãos, desde que favoráveis ao governo, sentem-se autorizados a partir para a porrada.
O ataque à barca em que estava Glenn Greenwald em Paraty é exemplo vivo disso.
O que distingue o fascismo das outras formas de direita é ter uma militância radicalizada, ou seja, massas que banalizam o recurso à violência. O fascismo já estava no ar uns anos atrás quando um pai, andando abraçado com o filho adolescente, foi agredido na rua por canalhas que pensavam tratar-se de um casal homossexual.
Terceiro: essa violência é usada não só contra adversários do regime — a oposição política— mas também contra quem o regime odeia. Não foca apenas quem não gosta do governo. Mira aqueles de quem o governo não gosta. No nazismo, eram judeus, homossexuais, ciganos, eslavos, autistas. No Brasil, hoje, são sobretudo os LGBTs e a esquerda, porém é fácil juntar, a eles, outros grupos que despertem o ódio dos que se gabam de sua ignorância (‘fritar hambúrguer’ é um bom exemplo, até porque hambúrguer não se frita, se faz na chapa).
Quarto: o ódio a tudo o que seja inteligência, ciência, cultura, arte. Em suma, o ódio à criação. Não é fortuito que Hitler, que quis ser pintor, tivesse um gosto estético tosco, e que o nazismo perseguisse, como “degenerada”, a melhor arte da época. É verdade que os semifascistas Ezra Pound e Céline brilham no firmamento da cultura do século 20 —mas são agulha no palheiro.
Antonio Candido uma vez escreveu um manifesto dos docentes da USP criticando a “mediocridade irrequieta” que comandava a universidade. Um colega discordou: a mediocridade nunca é irrequieta! Mas Candido tinha razão. A mediocridade procede hoje, sem pudor, ao desmonte de nossas conquistas não só políticas e sociais, mas culturais e ambientais.
A irracionalidade vai a ponto de algumas dezenas de paratienses tentarem sabotar a Flip, que dá projeção e dinheiro para a cidade. Essa é uma metáfora de um país que namora o suicídio.
Salvemos a vida, salvemos a vida inteligente! Construamos alternativas e alianças para enfrentar essas ameaças. Não temos tempo de sobra.
foto ©Bob Sousa

sambista de valor

"Não tenho veia poética, mas canto com muita tática,
não faço questão de métrica, mas não dispenso a gramática"

Trecho com muita poética de O que vier eu traço, samba de 1926, de Alvaiade, batizado Oswaldo dos Santos, um dos maiores compositores brasileiros, carioca da gema, sambista de primeira ligado a Portela, exímio orador, tocava vários instrumentos, do cavaquinho a percussão.
A composição, em parceria com Zé Maria, ficou célebre com a ótima interpretação de chorinho apressado de Ademilde Fonseca, em gravação nos anos 40. As novas gerações conhecem a versão em “beat acelerado”, também admirável, de Baby ainda Consuelo, em disco que tem o título da música, de 1978. E, entre outras interpretações, a turma mais recente, das rodas de bamba e plataformas digitais, ouviu na simpática voz da sambista Teresa Cristina.
Clássicos como esse dignificam nossa rica música brasileira. E por trás de tanta beleza, métrica e gramática, muitos de nossos artistas do passado sobreviveram traçando com muita tática o que viesse de trabalho. Alvaiade segurava a onda e o tamborim do dia a dia, com um salário de tipógrafo.
Como bem cantou Paulinho da Viola em 14 anos, "sambista não tem valor nesta terra de doutor", quando faleceu em 1981, aos 68 anos, Alvaiade passava dificuldades, tinha uma aposentadoria mixuruca.
Seu corpo permaneceu dois dias no IML antes de ser reconhecido. E seu nome continua pouco reconhecido.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

presente indicativo

foto Lyubomir Bukov
Um amigo me perguntou se já baixei o aplicativo de envelhecimento, para eu ver como serei daqui a não sei quanto tempo.
Não tenho a menor curiosidade em saber como serei bem velhinho, nem o que dizem as cartas do tarô, o desenho dos búzios, o que a cigana lê nas linhas de minha mão, nem como e quando partirei de vez na sombra sonora de um disco voador. E só irei porque não há outro jeito, por mim ficaria por aqui mesmo, apesar desses tempos.
Meu tempo é aqui e agora. Já me bastam no hoje as marcas do pretérito, as lembranças, principalmente as boas. Como disse o jornalista Alessandro Porro em sua biografia Memórias do meu século, “o passado é minha certeza.”

os bons companheiros


ao vivo é muito pior

charge Andre Dahmer
39 quilos de cocaína no avião da comitiva presidencial
Presidente faz propaganda de colar de nióbio no Polishop
Juiz da Lava Jato troca mensagens com procuradores da Força Tarefa
In Fux we trust
Estado Maior do Exército homenageia oficial nazista
Reforma da Previdência é aprovada em 1º turno na Câmara
Presidente promete um ministro "terrivelmente evangélico" no STF
General ministro da Secretaria de Governo diz que é uma soma de Davi, Salomão e José do Egito
Presidente defende trabalho infantil
Chapeiro de hambúrguer é indicado para a Embaixada do Brasil nos EUA
Procurador usa Lava Jato para lucrar com palestras
MEC anuncia privatização das universidades públicas
Aha! Uhu! O Fachin é nosso!
Etc etc etc...
charge Andre Dahmer

domingo, 14 de julho de 2019

o palestrante de 400k

Chats privados mostram que procurador debateu com colega a criação de empresa no nome de familiares.

nas asas da imaginação

Na lateral esquerda do encarte do vinil Cabelos de Sansão, de Tiago Araripe, há uma frase, que mesmo na descrição e discrição das letras miúdas, tem um significado de grandiosidade e definição da proposta desse álbum, um dos mais importantes da música brasileira: “O exercício da liberdade começa com a imaginação.”
Lançado em 1982, produzido pela Lira Paulistana Gravadora e Editora, o disco apresenta o cantor, compositor e instrumentista cearense, do Crato, como uma das grandes revelações de uma música inovadora, pulsante em pleno caldeirão caleidoscópico da Vanguarda Paulistana. Através de Tom Zé, Tiago logo foi reconhecido pelos poetas concretistas que permeavam as raízes daquele período da cena musical, como Décio Pignatari e os irmãos Campos, Haroldo e Augusto, e consequentemente pelos compositores Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, a turma do Premeditando o Breque...

Conceitual, o LP apresenta seis faixas de autoria de Tiago, três em parceria com Jorge Alfredo, José Luís Penna, Cid Campos, e uma versão de Little wing, clássica balada de Jimi Hendrix, do disco Axis: Bold as love, 1967. Com letra para o português de Augusto de Campos, a interpretação do Tiago adquire um ar de autenticidade pela maneira como entra nas asas da imaginação da canção. E assim é o disco todo.
O álbum foi relançado em CD em 2008, pelo selo Saravá Discos, de Zeca Baleiro, e recentemente disponibilizado em plataformas digitais.
Tiago Araripe passou um longo tempo noutras atividades ligadas a publicidade, e em 2013 lançou outro ótimo disco, Baião de nós, gravado em Recife, onde morou. Antes de seguir para Portugal ano passado, o compositor retomou o convívio em terras caririenses. A cearensidade está na alma de sua voz, nos acordes de suas canções.
Hoje, Tiago Araripe faz show em Fortaleza, trazendo na mala as viagens que fez pela música nesse tempo todo.