sábado, 19 de agosto de 2017

o ator

O grande Amâncio Fregolente disse uma vez em entrevista que se morresse no palco, durante uma peça, quem morreria seria o personagem e não ele, tamanha era sua entrega numa atuação. De formação teatral rodrigueana, largou a medicina aos 33 anos para se dedicar a mais de cem papeis no cinema e no tablado.
Hoje, Dia do Ator, a minha mais profunda admiração a todos que vivem outros seres humanos em seu trabalho. Extrair de si outra vida numa interpretação tem o mesmo significado de um parto, de dar à luz, de insistir na esperança, de reverberar a pulsação.
Em 1979 Fregolente participava da comédia musical Amante latino, de Pedro Carlos Rovai, contracenando com Anselmo Vasconcelos, Monique Lafond, Sidney Magal, Elke Maravilha... Sentiu-se mal nas filmagens e faleceu de infarto, aos 66 anos, justamente o dobro da idade de quando começou. Ou seja, faleceu seu personagem, justamente o duplo de si.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

era de Aquário

"Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música", assim foi anunciado o maior evento da música popular, o Woodstock, que começou em 14 de agosto de 1969, na cidade de Bethel, estado de Nova York.
Uma multidão de mais 400 mil pessoas com o dedo em V, cabelo ao vento, gente jovem reunida, e o cartaz de mais de trinta músicos... Jimi Hendriz, Janis Joplin, Richie Havens, Arlo Guthrie, Joan Baez, Santana, Creedence Clearwater Revival, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Johnny Winter, Crosby, Stills, Nash & Young, entre outros.
Muitos recusaram os convites, pelos mais variados motivos. Dos Beatles, dizem que John Lennon exigiu que tocasse com ele a Plastic Ono Band; Led Zeppelin achou que seria apenas mais uma banda se apresentando; o inocente empresário do Jethro Tull argumentou que teria muita droga e sexo; The Doors não foi porque falaram que Jim Morrison estava inseguro diante tanta gente; o filho de Bob Dylan adoeceu poucos dias antes...
Woodstock ficou marcado como um retrato comportamental, exemplificou a era hippie e a contracultura do final dos anos 1960 e começo de 70. E isso não é pouco.

24 quadros por segundo

Em um preciosismo trabalho de edição, vários personagens de filmes ícones do cinema contemporâneo se encontram no mesmo lugar. Fora do tempo. Fora da lógica. Dentro do tempo. Dentro da lógica. Cinema!


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

cara, crachá

“A minha relação com Deus sempre foi uma relação muito íntima. Eu nunca tive Deus separado de mim. Eu e Deus, não existe religião aqui”, disse o ator Paulo Silvino, em entrevista em 2012.
Famoso por seus papeis humorísticos em programas de televisão, Paulo ficou no imaginário popular como o porteiro Severino e o bordão “Cara, crachá”, do Zorra total.
Ele se foi hoje, aos 79 anos. Íntimo de Deus, o querido comediante está bem acolhido, não precisou mostrar crachá. Fica nossa cara de saudade...

no meio do calçadão

No meio do calçadão tinha o Drummond
tinha o Drummond no meio do calçadão
tem o Drummond

no meio da minha vida tem o Drummond...

Nunca me esquecerei de que naquele 17 de agosto, há 30 anos, você partiu de vez pra Itabira.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

subindo aos céus

De acordo com a crença Cristã, Maria mãe de Jesus teria morrido enquanto dormia em 15 de agosto de 43 d.C. “Acordou” quando estava sendo levada aos céus por anjos. Essa subidinha ao paraíso é chamada de “assunção” porque Maria só teve acesso à casa do Pai depois de morta e ressuscitada, ao contrário do Filho, que com seu próprio poder e sacrifício com esta humanidade ingrata teve acesso ao Paraíso ainda vivo.
Entre Mãe e Filho há essa diferença para o Catolicismo: Ascensão de Nosso Senhor e Assunção de Nossa Senhora.
Em Fortaleza, capital cearense, o Forte de Nossa Senhora de Assunção remonta à época da segunda invasão dos holandeses ao Brasil. A primitiva estrutura de longas e altas paredes brancas foi erguida por eles em meados do século 17, estrategicamente ao lado rio Pajeú que vai bater no meio mar.
A Coroa Portuguesa que já estava por aqui há mais tempo, tinha ultrapassado a fase de estágio probatório, digamos, ergueu suas armas e expulsou os holandeses, apossando-se do forte e denominando-o Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, possivelmente por ter em Portugal, mais precisamente na província de Trás-os-Montes e Alto Douro, uma grande devoção à Virgem Maria, onde hoje é feriado. Na capital cearense também. 
E os bares estão cheios desde ontem, véspera de acordar tarde.

Acima, pintura Assunção da Virgem, 1616, do alemão barroco Peter Paul Rubens. Atualmente a obra está no Museu Real de Belas-Artes, Bélgica.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

a alma do cinema

“Não são as imagens que fazem um filme, mas a alma das imagens”
A frase é de Abel Gance (1889-1981), cineasta francês.
Mais do que um pioneiro, foi um visionário na história do cinema. Criou a Polyvision, sistema embrionário de projeção de filmes que viria a se chamar Cinerama, que consiste em tela tríplice. Graças a esse recurso ele exibiu seu clássico Napoleón, rodado durante quatro anos, com três câmeras simultâneas, principalmente as sequências abertas de batalhas.
Na exibição foram usados três projetores separados que jogavam em cada tela cenas que se interligavam, dando a sensação volumosa de realidade. Isso em 1926!


Três anos depois Abel lançou o som estereofônico.
Considerado um lírico do cinema, Abel Gance atravessou duas guerras com o olho na câmera. Utilizou a tecnologia a favor da temática histórica e de uma dramaturgia impressionista, características que se pode comprovar numa filmografia de mais de vinte títulos.
O citado Napoleón, sua obra-prima, foi remontado e revisto na década de 30 e 70. Em 1979, o cineasta Francis Coppola relançou o filme com uma nova cópia e trilha sonora criada por seu pai, Carmine Coppola.
Abel sabia o que dizia, pois captava a alma das imagens.

tanque vazio, saco cheio!


o deserto de cada dia

Metrô lotado. Braços e corações pendurados no balanço subterrâneo. Todos ilhados em seus smartfones, iPhones... O vagão é um deserto pulsante.

sábado, 12 de agosto de 2017

o silêncio

“Nenhum som teme o silêncio que o extingue. E não existe silêncio que não seja prenhe de som.”
Passa-se a vida inteira não para compreender, mas para sentir a grande música experimental e poética de John Cage.
Acima, o compositor e teórico musical fotografado por Henning Loehner, um ano antes de seu silêncio, em 12 de agosto de 1992.

ser

"Poesia não é para compreender,
mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.”

- Manoel de Barros, do livro "Gramática expositiva do chão: poesia quase toda", p. 212, 1990