segunda-feira, 16 de janeiro de 2017

pessoal intransferível

Instigado por uma postagem do amigo Rubens Guilherme Pesenti, no Facebook, sobre Torquato Neto, um trecho de outro despoema imagem, escrito em 1971, um ano antes de ele apagar:

“E fique sabendo: quem não se arrisca não pode berrar. Citação: leve um homem e um boi ao matadouro. O que berrar mais na hora do perigo é o homem, nem que seja o boi. Adeusão.”

Acima, a desfoto-poema de Torquato na exposição “A pureza é um mito”, de Hélio Oiticica em Londres, na Whitechapel Gallery, 1969.

domingo, 15 de janeiro de 2017

a Disney de cada um

Em 2002 um vulcão entrou em erupção na cidade de Goma, República do Congo. As lavas avançaram pelo principal lago, chegando ao Aeroporto Internacional, tornando-o irrecuperável.
Meses depois as autoridades retiraram as peças aproveitáveis das aeronaves e o local com o tempo virou um cemitério de aviões.
As crianças das aldeias próximas transformaram o antigo aeroporto em um enorme playground, onde a imaginação voa em brincadeiras.

sábado, 14 de janeiro de 2017

o que falta

"Falta cultura pra cuspir na estrutura"
- Raul Seixas, verso de Não fosse o Cabral, 1983.

O maluco beleza fotografado pelo cineasta Ivan Cardoso, no Parque da Chacrinha, Copacabana, 1977.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

aquele toque beatle

Antes dos Beatles gravarem seu segundo álbum de estúdio, lançaram, em janeiro de 1963, um compacto simples com os singles She loves you e I want to Hold Your Hand.
Credita-se às duas músicas o início da beatlemania nos Estados Unidos, quando os rapazes de Liverpool se apresentaram no programa de televisão The Ed Sullivan Show.

a deusa da fonte

A bela Anita Ekberg resolve tomar banho com roupa na Fonte de Trevi enquanto Marcello Mastroianni tenta achar leite para um gatinho, que ela tinha visto nas ruas. Ao retornar, Marcello vê Anita se banhando e se deslumbra.
A cena é do clássico A doce vida (La dolce vita), de Federico Fellini, 1960. Atores e personagens se mesclam na memória afetiva que o cinema perpetua na simetria do tempo.
Ex-modelo, ex-miss de sua terra natal, Suécia, a atriz faleceu aos 83 anos, em janeiro de 2015. Afastou-se do cinema após uma complicada relação com o dono da Fiat, Gianni Agnelli. Solitária e doente, morava em uma casa de idosos. Teve um fim de vida melancólico, não tão doce.

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

um homem e seus tempos

Quando o século mudou para 1900, Oswald de Andrade tinha dez anos de idade. A passagem de um tempo para outro mexeu muito com a cabeça daquele menino curioso, filho único de uma abastada família paulistana.
A mudança de um ano sempre impressiona, é como se dobrássemos uma esquina e o tempo seria outro totalmente diferente, muito além do que destacar uma folhinha no calendário. Imagine, então, a mudança de um século!
Oswald de Andrade cresceu com esse espanto. E cresceu em um tempo cheio de mudanças. O adolescente Oswald viu a chegada do bonde elétrico, do rádio, da propaganda, do cinema. O mundo em ebulição. E em ebulição a cabeça daquele jovem que viria mudar muita coisa na literatura brasileira.
A Semana de Arte Moderna de 1922, o Manifesto da Poesia Pau-Brasil, o Manifesto Antropófago, o Modernismo no Brasil: tudo é sinônimo de Oswald de Andrade.
Hoje ele faria inimagináveis 127 anos de idade.
Acima, foto da exposição “Oswald: culpado de tudo!”, no Museu da Lingua Portuguesa, em SP, 2011.

terça-feira, 10 de janeiro de 2017

o fascínio de Bowie

foto Quentin De Briey, 2016

"Só uma pessoa levou o glam rock a novas alturas rarefeitas e inventou personagens no pop, casando teatro e música popular num todo poderoso."

- David Buckley em Strange fascination: David Bowie, the definitive story, biografia, 2005

No último dia 8 ele faria 70 anos. Hoje, um ano que continua seu fascínio.

segunda-feira, 9 de janeiro de 2017

o diferente


a dor e a dor

“Por detrás da alegria e do riso, pode haver uma natureza vulgar, dura e insensível. Mas por detrás do sofrimento, há sempre sofrimento. Ao contrário do prazer, a dor não usa máscara”.
- Oscar Wilde em De Profundis, epistolar publicação de 1897, escrita na prisão na Inglaterra Vitoriana, enquanto o autor cumpria pena por comportamento indecente e homossexualismo.

o santo guerreiro

Há 47 anos hoje, O dragão da maldade contra o santo guerreiro, de Glauber Rocha, é escolhido para concorrer ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
O cineasta baiano, com muita bravura temperada com dendê, declarou com sua vulcânica segurança que não tinha interesse em participar da seleção.
Em plena ditadura Médici, o dragão da maldade escalava outra seleção.

admirável Simone

foto Elliot Erwitt, Paris, 1949
“Parecia-me que a Terra não seria habitável se não houvesse alguém que eu pudesse admirar.”

O mundo fica sempre mais habitável com pessoas admiráveis como Simone de Beauvoir, autora da frase.

Hoje ela faria 108 anos admiráveis.

vida cabralina

"O amor comeu minha paz e minha guerra. Meu dia e minha noite. Meu inverno e meu verão. Comeu meu silêncio, minha dor de cabeça, meu medo da morte."
Esta maravilha de texto é a fala final do personagem Joaquim, do poema Os três mal-amados, livro Obras completas, do grande João Cabral de Melo Neto, o mais milimétrico de nossos poetas, que hoje faria 97 anos com medo da morte.

a solidez do pensamento

“Poucas coisas se parecem tanto com a morte quanto o amor realizado. Cada chegada de um dos dois é sempre única, mas também definitiva: não suporta repetição, não permite recurso nem promete prorrogação.”

- Zygmunt Bauman, em Amor Líquido: Sobre a Fragilidade dos Laços Humanos, 2003.

Um dos mais importantes filósofos e sociólogos contemporâneos se foi nesta manhã da segunda segunda-feira do ano, sem recurso, sem prorrogação, aos 92 anos.


Recentemente os conceitos formulados em seus livros sobre as relações amorosas deram-lhe uma visibilidade midiática um pouco tardia. O nonagenário polonês tornou-se uma simpática e reflexiva figura quase “pop” aos esmiuçar frases como “as relações escorrem pelo vão dos dedos”.

Bauman cutucava com serenidade o âmago do homem moderno em seus sentimentos efêmeros, nos envolvimentos descartáveis, neste fast-food dos afetos.

O seu pensamento, a sua história, a sua lucidez não escorreram em vão pelos dedos.