sábado, 11 de fevereiro de 2006

destinos alterados

Peter Ketnath e João Miguel em "Cinema, aspirinas e urubus", de Marcelo Gomes

Dá para desconfiar de certas exaltações: o jornal The New York Times elogiou o filme brasileiro "Cinema, aspirinas e urubus", que estreou ontem em Nova York. A observação da crítica Manohla Dargis dizendo que "o filme é sobre duas pessoas comuns, que não estão preocupadas com a história ou a política, mas com simplesmente sobreviver ao dia-a-dia”, minimiza as pretensões do diretor e roteirista Marcelo Gomes. No início dos anos 40, no interior de Pernambuco, Johann é um comerciante alemão que foge da guerra em seu país. Vende aspirinas na estrada, apoiado numa novidade tecnológica: o cinema. Exibe filmes de graça para os povoados, precedidos de comercias de... aspirinas! Ranulfo é um sertanejo que tenta escapar da miséria de sua terra para sobreviver. Os dois personagens "fugitivos" se encontram no mesmo espaço, debaixo do mesmo sol massacrante, e seguem juntos pelo sertão arcaico vendendo o remédio milagroso, respeitando as diferenças. Adentram numa realidade tão cruel quanto a guerra deixada para trás pelo alemão, enquanto o outro vai cada vez mais de encontro a "vida seca" da qual fugia. A crítica do NYT viu o filme por um lado só.

Fico com a afinada percepção do cineasta Karim Aïnouz:
"Há infinitas correntes dos chamados filmes de estrada. Dentre elas, há aquelas que revelam um desconforto com uma identidade nacional em mutação, como 'No decurso do tempo' (Im lauf der zeit), de Wim Wenders, 1976. Há aquelas que acompanham a crise existencial de um personagem, como em 'Flores partidas' (Broken flowers), de Jim Jarmusch, 2005. E há filmes em que essas duas tendências se mesclam, em que seus personagens agem e derivam por causa de suas próprias indagações, mas também porque a história se encarrega de alterar seus destinos. É o caso de 'Cinema, aspirinas e urubus', o ótimo filme de estréia de Marcelo Gomes."

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