sexta-feira, 31 de maio de 2019

bagagem

Dentro de mim
cabe uma cidade
outra cidade
e mais uma cidade...

dentro de mim 
cabe o universo 
e mais o vilarejo onde nasci.

Do meu livro Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019
arte design Enzo Venancio

convite da Feira


"os adjetivos passam, e os substantivos ficam"

Durante os anos de 1883 a 1886, Machado de Assis publicou uma série de textos, ditos e aforismos no jornal Gazeta de Notícias. Assinava com o pseudônimo de Lélio.
Intitulada Balas de Estalo, a série, com a afinada ironia do grande escritor, refletia com humor a política imperial no final do século XIX, discorrendo sobre o comportamento e as mudanças urbanas, o abolicionismo, os princípios e medidas adotadas para extinguir a escravidão, analisando dessa forma o declínio das principais instituições do país, mais exatamente a monarquia e a igreja.

São frases curtas, cortantes, (como essa do título da postagem), com a inteligência do implacável, eloquente e elegante “bruxo do Cosme Velho”, epíteto cunhado por Carlos Drummond de Andrade no poema a ele dedicado, A um bruxo, com amor, publicado no livro A vida passada a limpo, de 1959, uma afetuosa alusão ao morador da casa número 18 da rua que tem o mesmo nome no bairro carioca.
A historiadora paulista Ana Flávia Cernic Ramos tem mestrado e doutorado sobre a série de textos, respectivamente, Política e Humor nos últimos anos da monarquia: a série Balas de Estalo e As máscaras de Lélio: ficção e realidade nas Balas de Estalo de Machado de Assis, este publicado em livro em 2016, disponível por um preço bacana na Estante Virtual.
Machado, um substantivo para sempre.

poesia na Feira

Poesia provisória, Editora Radiadora, 2019, foi selecionado para lançamento na 35ª Feira do Livro de Brasília – FeLiB, na programação Espaço do Autor, dia 12 de junho, às 16h.
Realizada pela Câmara do Livro do Distrito Federal-CLDF, e executada pelo Instituto Latinoamerica, a Feira acontecerá entre os dias 6 a 16, no Complexo Cultural da República.
O poeta e editor Alan Mendonça, o arquiteto, desenhista e compositor Fausto Nilo, autor da capa, o escritor Carlos Emílio C. Lima, que escreveu o prefácio, as poetas Suzana Vargas e Rayanne Stec, a cantora e compositora Mona Gadelha, o compositor Ricardo Augusto e o cantor e compositor Gildomar Marinho, que escreveram textos para o orelha do livro, estarão de certa forma presentes no evento, em minha alegria, em cada página, em cada poema.

quinta-feira, 30 de maio de 2019

na parede da memória

“Em alguns minutos de conversa, que precederam a pintura, Belchior, ex-seminarista, deixou Bracher encantado com sua vasta cultura: recitava trechos inteiros de ‘A Divina Comédia’, de Dante Alighieri.
Sentaram-se frente a frente, no atelier. Como um touro que mira o toureiro, ou a esfinge que diz ‘ – decifra-me ou te devoro’.
Belchior sentiu o peso de ser desnudado naquele momento. Olhou ao redor e bateu seus olhos em mim: uma menina jovem e acostumada aos embates entre modelos e criador no velho atelier de meu pai.
Tomou-me a mão, com suas mãos enormes e quentes. Deslizou por entre os pelos um grande anel, com pedra avermelhada e grossa armação em prata.
Pediu que eu o mantivesse comigo, durante o retrato. E eu lá permaneci, vendo aquele rosto se transfigurar para a tela, naquela osmose materializada pela talentosa mão de meu pai.
Ao término, como sempre, Belchior não sorriu, apenas arqueou a ponta do bigode, apertando os olhos, num claro gesto de surpresa e aprovação ao que acabara de presenciar.
Eu ainda torci para que ele se esquecesse do anel, e comigo deixasse aquele amuleto de sorte.
Mas, ao se despedir, o rapaz latino americano me pediu de volta seu guia.”
- Crônica da jornalista Blima Bracher em seu blog, no dia em que soube da morte de Belchior, 30 de abril de 2017.
O cantor esteve no atelier do pintor mineiro Carlos Bracher, em Ouro Preto, em 1979. Estava na cidade participando do Festival de Inverno, e aproveitou para visitar o amigo.
O quadro de Bracher integrou a exposição Retratos: Belchior visto por grandes nomes e por ele mesmo, no Centro Cultural Oboé, em Fortaleza, 2001.
Dois anos e um mês que essa lembrança é o quadro que dói mais.

coração


quarta-feira, 29 de maio de 2019

os últimos e próximos takes

fotos Alex Meira
"Cadê o filme?", "esse filme sai ou não sai?" "Belchior morreu e você não termina esse filme!" Essas são algumas das perguntas que ouço sobre a paralisação do meu documentário Pessoal do Ceará – Lado A Lado B, o que é bastante compreensível pela expectativa criada em torno do projeto.
Há um lado B para ser esclarecido: com a produção parada há mais de dois anos, o projeto não foi contemplado em cinco tentativas em editais estaduais no Ceará (três da Secretaria de Cultura do Estado, um da Fundação Demócrito Rocha e um da TVC).
Abarco não somente de forma histórica e contemplativa, mas com pontuações analíticas e críticas, 50 anos de música cearense, desde 1964, quando deu os primeiros passos o que veio denominar-se anos depois Pessoal do Ceará, até 2014, quando teve a primeira edição do Maloca Dragão, evento da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, que revelou de forma mais abrangente uma nova cena musical cearense que vinha acontecendo anos antes.
Tudo que foi realizado no período de 2014 a 2017, deve-se a recursos próprios e apoio de produtoras de amigos que acreditam no projeto, mas não puderam continuar.
A multiplicidade de itens na feitura do documentário explica-se pela quantidade de entrevistas: cantores, compositores, produtores, jornalistas, pesquisadores, acadêmicos, escritores, radialistas, DJs, todos que de alguma forma participaram e participam da história da música cearense, partindo do que conhecemos como Pessoal do Ceará.
Além das entrevistas, a pesquisa inclui apontamentos de livros publicados e trabalhos acadêmicos (TCCs, monografias, teses) sobre o assunto, “escavações arqueológicas” em jornais, revistas, fotos, vídeos em bitolas analógicas, além do meu arquivo pessoal (vinis, recortes de jornais, programas de shows etc).
O orçamento de um projeto dessa envergadura abrange uma equipe de profissionais que precisam ser devidamente pagos, viagens, locação de equipamento de ponta para uma boa captação de imagem e som (é um filme sobre música!!!), e um tempo extenso para a edição de uma complexidade que só quem está trancado numa ilha, sabe. A narrativa do documentário é reflexiva e depende do desenvolvimento do que foi dito nas entrevistas. Não é um filme chapa branca. Não me peçam que faça um documentário correto, branco, suave, muito limpo, muito leve... imagens, palavras, são navalhas, e eu não posso filmar como convém, sem querer ferir ninguém...
Não tenho perspectivas de quando vou terminar esse filme. Sei que de editais não participo mais. Decididamente. Nunca abandonei o projeto. Apenas, por uma questão de saúde, descanso e retomada do fôlego, parei de insistir de onde não vem nada.
Partindo agora para elaboração do projeto em financiamento coletivo, o Crowdfunding. Diante tanto descaso e nestes tempos distópicos no país, é o último apelo para os próximos takes.
Pessoal que fez comigo o "Pessoal" até agora: Alex Meira, Rui Ferreira, Leo Mamede, Lenio Oliveira, Clebio Viriato, Priscilla Sousa, Nildo Silva, Marcos Vieira, Jade Ciribelli Martins, Arual Oliveira, Deilson Magalhães, Icaro Firmino, José Antenor, Assis Nunes, Taline Pontes, Lucas Onofre, Caio Ramos, Mário Luis, Angelica Maia, Tadeu Marinho, Maximiliano Leguiza, Rubens Venancio, George Frota, e especialmente o saudoso Francis Vale, que cedeu equipe e equipamento para as primeiras entrevistas com Rodger Rogério, Téti e Ricardo Black, quando o projeto ainda era um esboço, em 2012.
Acima, o guitarrista Cristiano Pinho durante a entrevista para o documentário, no começo do ano passado, numa tentativa de retomar as filmagens na base da “brodagem”.

onde você ainda se reconhece?

Em 1999 o cantor, compositor e cineasta Oswaldo Montenegro compôs a belíssima canção A lista, para a peça teatral homônima, apresentada no Teatro de Arena, Rio de Janeiro, e três anos depois gravada em seu disco, também com o mesmo nome.
Mais do que uma música que expressa uma saudade, um lamento, um rosário de um tempo passado, a letra debulha os grãos dos dias, olha pelo retrovisor sem perder o prumo adiante, e, sobretudo, disseca de forma calma, serena, lúcida e sincera, a amizade, principalmente nestes tempos de fast-food dos afetos.

Vários cantores interpretaram a canção. A do vídeo acima, com a atriz e cantora paranaense Marina Prado, é uma das mais belas. Letra e melodia organicamente na mesma pulsação anímica, com os acordes do violão de Marcos Prado

Registro e edição do vídeo: Aline Silva e Josi Figueiredo

terça-feira, 28 de maio de 2019

armadura

"Meu corpo é a única coisa que tenho
para carregar o pretexto da alma.
É magro, feio e escandaloso
o corpo
mas é única coisa que tenho
para caminhar pelo tempo e pelos sertões."

-Versos do poema Armadura, inserido no capítulo Reconstruir as nuvens do meu livro Poesia provisória, 2019.
Publicado de forma independente pela Editora Radiadora, foi lançado em fevereiro em Fortaleza (Livraria Lamarca, Embaixada da Cachaça, Abaete Bt), em março, Sobral (Livraria Pensar) e abril, Brasília (Bar Beirute).
O livro estará disponível na 35ª Feria do Livro de Brasília (junho), XIII Bienal Internacional do Livro do Ceará (agosto) e II Festival Letras e Músicas de Pacatuba, CE (setembro).
À venda:
-Livraria Lamarca e Embaixada da Cachaça
-Editora Radiadora / Alan Mendonça, 85-999442220
-Diretamente com o autor, in box nesta página ou nirtonvenancio@gmail.com

corpo e alma

foto Acervo Folhapress, 1975
"Quando tiraram os pontos de minha mão operada, por entre os dedos, gritei. Dei gritos de dor, e de cólera, pois a dor parece uma ofensa à nossa integridade física. Mas não fui tola. Aproveitei a dor e dei gritos pelo passado e pelo presente. Até pelo futuro gritei, meu Deus."
Revolta, de Clarice Lispector, do livro póstumo Todas as crônicas, organizado pelo pesquisador e crítico Pedro Karp Vasquez, Ed. Rocco, 2004, onde reúne os textos publicados na década de 70 no Caderno Dois do Jornal do Brasil.

segunda-feira, 27 de maio de 2019

o violeiro de Bacurau

"'Bacurau' aconteceu da seguinte maneira: os diretores pernambucanos ligaram para ele em Fortaleza para saber se não iria ao Recife para um teste. Ele topou. Quando estava na hora de ir ao Recife, pediram que fosse direto a Parelhas, no Sertão do Seridó, Rio Grande do Norte, onde se concentraram as filmagens. 'Cheguei e já me engajei', conta."
Trecho do artigo de Jotabê Medeiros sobre o cantor, compositor e ator Rodger Rogério, em seu blog Farofafá, onde conta a participação do artista cearense no filme Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Prêmio de Júri no Festival de Cannes.

domingo, 26 de maio de 2019

a lição de Maruge

                                                                
foto Thomas Mukoya

O camponês queniano Kimani N'gan'ga Maruge foi o mais velho aluno do mundo. Ficou conhecido ao aproveitar uma tardia oportunidade de estudar, aos 83 anos, quando a escolaridade primária gratuita do governo de Mwai Kibaki foi instituída no país em 2003.
Assim como Maruge enfrentou o domínio colonial britânico nos anos 50, levando para o resto da vida o trauma em ver a família assassinada em sua frente, teve que lutar para ser admitido em sala de aula, com alunos que tinham idade de serem seus bisnetos. Rejeição não pelas crianças, mas pela coordenação da escola ao considerar que um ancião não podia tomar lugar de um menino com futuro.
A história do determinado e resistente camponês, que em 2005 foi à ONU apelar aos líderes mundiais por educação aos pobres, foi levada às telas em 2009, no filme The first grader, lançado nos cinemas no Brasil com o título Uma lição de vida, e na Netflix, O aluno.
Com uma produção que envolveu grana dos EUA e Reino Unido, a direção do filme foi entregue a Justin Chadwick, o mesmo que fez em 2013 Mandela – O caminho para a liberdade, sobre outro ícone libertário africano.
O cineasta britânico Chadwick conduziu um roteiro quase como um “pedido de desculpas” pelo que seu país fez ao povo do Quênia, o que por pouco não prejudicou o desenvolvimento com sua narrativa maniqueísta.
Maruge é bem maior do que qualquer fragilidade do roteiro, no filme muito bem interpretado pelo veterano ator queniano Oliver Litondo, em uma química perfeita de atuação com a bela atriz inglesa Naomi Harris, que vive a professora Jane Obinchou, defensora do velho aluno entre os novos.
Ontem, 25 de maio, foi celebrado em todo continente africano, o Dia da Libertação da África. A data foi escolhida em 1963, quando representantes de trinta países africanos se reuniram na Etiópia com o objetivo inicial de incentivar a descolonização de Angola, Moçambique, África do Sul e Rodésia do Sul. Criou-se a Organização da Unidade Africana. A cada ano a comemoração é reativada com propostas de melhorar os padrões de vida entre os estados-membros, acelerar a transformação da África através do acesso à educação, trabalho e saúde.
Na foto acima, o verdadeiro Maruge, do filme mencionado, se alfabetizando. Faleceu aos 90 anos, em 2009. Não deu tempo assistir ao filme. Não conseguiu ver na tela o que leu na vida. Mas ficou como referência e símbolo da educação como princípio vital de progresso de uma nação.

paisagem urbana

CLN 116, Brasília

lei de incentivo afetivo


convocação do "coiso" para o dia 26

ilustração Steve Cutts

sábado, 25 de maio de 2019

som, câmera, cinema brasileiro!

Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, Prêmio de Crítica do 72º Festival de Cannes.

mais um!

Depois de Chico Buarque ganhar o Camões, Karim Aïnouz o prêmio principal da mostra Um Certo Olhar, em Cannes, agora Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, recebe o Prêmio de Júri do festival françês.
Há semanas que os dias são de esperança. Alegria e resistência! Derrama o leite bom na nossa cara e o leite mau na cara dos caretas!
Os cineastas brasileiros com Ladj Ly, diretor de Les Misérables, com quem dividiu o Prêmio.

sexta-feira, 24 de maio de 2019

por que você faz cinema?

foto Agência O Globo, 1972
"Para chatear os imbecis.
Para não ser aplaudido depois de sequências, dó de peito.
Para viver à beira do abismo.
Para correr o risco de ser desmascarado pelo grande público.
Para que conhecidos e desconhecidos se deliciem.
Para que os justos e os bons ganhem dinheiro, sobretudo eu mesmo.
Porque de outro jeito a vida não vale a pena.
Para ver e mostrar o nunca visto, 
o bem e o mal, o feio e o bonito.
Porque vi 'Simão no deserto'.
Para insultar os arrogante
e poderosos quando ficam como 'cachorros dentro d'água' no escuro do cinema.
Para ser lesado em meus direitos autorais."

Em 1987 o jornal francês Libération fez a pergunta acima ao cineasta brasileiro Joaquim Pedro de Andrade.
A resposta foi esse ótimo texto, publicado posteriormente no catálogo da mostra retrospectiva que o CCBB, no Rio de Janeiro, fez em 1994. No mesmo ano, a cantora e compositora gaúcha Adriana Calcanhoto musicou e gravou no CD Fábrica do poema.
Joaquim Pedro, que hoje faria 87 anos, partiu aos 56, e não teve tempo de realizar o que considerava seu grande projeto: adaptar para ao cinema Casa-Grande & Senzala, obra-prima do sociólogo pernambucano Gilberto Freyre, de 1933, um dos livros mais importantes sobre a formação da sociedade brasileira, ao lado de Raízes do Brasil, do historiador Sérgio Buarque de Holanda, 1936, e O povo brasileiro – a formação e o sentido do Brasil, do antropólogo Darcy Ribeiro, publicado em 1995.
O cineasta foi um dos mais interessados na "balbúrdia" de historiografia e sociologia do Brasil. Com exceção do seu primeiro filme, o documentário Garrincha, alegria do povo, de 1962, sua filmografia é fundamentada em clássicos e pontuais da nossa literatura: O padre e a moça, poema de Carlos Drummond de Andrade, Macunaíma, obra homônima de Mário de Andrade, Os Inconfidentes, baseado em O romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, Guerra conjugal, filme de episódios do livro que reúne vários contistas, entre eles Dalton Trevisan, Contos eróticos, roteirizado a partir de histórias publicadas na revista Status, O homem do Pau Brasil, seu último trabalho, uma cinebiografia sobre um dos ícones do modernismo brasileiro, Oswald de Andrade, que tem roteiro do próprio escritor.
De Joaquim Pedro a Karim Aïnouz, fazer cinema para nos dar alegria, ganhar prêmios e chatear os imbecis.

o tempo visível de um cineasta

"Eu estava muito incomodado com filmes em que o tempo é refém da narrativa, e não das emoções dos personagens.", disse o cineasta cearense Karim Aïnouz quando do lançamento de O céu de Suely, em 2006.
E o tempo como elemento intrinsecamente orgânico nas emoções dos personagens é a grande marca na filmografia de Aïnouz, desde O preso, seu primeiro filme, 1992, um curta-metragem sobre um lavrador nordestino. Seguiram na trajetória Madame Satã, O céu de Suely, Viajo porque preciso, volto porque te amo, O abismo prateado, Praia do Futuro, Diego Velázquez ou o realismo selvagem, Aeroporto Central, longas de ficção e documentário que sedimentaram o pensamento e olhar de um dos maiores cineastas brasileiros.
Seu oitavo longa-metragem, A vida invisível de Eurídice Gusmão, adaptado do livro homônimo da jornalista e escritora pernambucana Martha Batalha, ganhou hoje o prêmio maior da Mostra Un Certain Regard, no Festival de Cannes.
Contando com sensorialidade a história de cumplicidade afetiva entre duas irmãs no Rio de Janeiro dos anos 50, Karim disse que “uma das certezas que eu tinha nesse projeto, filmado ali pela Tijuca, por Santa Teresa, pelo Estácio, era de que eu não queria filmar na Zona Sul do Rio, como todo mundo faz. Há uma outra geografia que eu queria explorar. Outra coisa a ser vetada: mulher chorando. Queria a força feminina, mostrar mulheres que vão à luta”. Que maravilha! Ainda não vi o filme e já gostei.
É o Brasil brasileiro de Chico Buarque, Karim Aïnouz, ganhando prêmios!

homofobia é crime

desenho: Thalles Magalhães Monteiro

quinta-feira, 23 de maio de 2019

quando o carteiro chegou

"Às voltas com o chuchu ao molho branco, o carteiro adentra nossa casa com meus livros! Nirton Venancio, poeta que descobri no Instagram e que já é um QUERIDO. Uma dedicatória tão afetuosa e quando abro ao léu: O AFETO é o nome da lindura de poema que já ganhou a 'orelha' que marca minhas predileções! (O dia ficou mais leve...)"
Gratidão ao afeto com chuchu ao molho branco da amiga Clarice Junqueira, de Palhas, Paraíba do Sul, litoral fluminense.

quarta-feira, 22 de maio de 2019

hábraços


entre o real e o imaginário

"Como sempre uma poesia refinada e precisa, com um diálogo sutil entre o real e o imaginário. Um belo livro, de muita sensibilidade."
- Rosemberg Cariry, escritor, cineasta
Editora Radiadora, 2019
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica

À venda:
-Livraria Lamarca, Fortaleza, CE
-Livraria Pensar, Sobral, CE
-Embaixada da Cachaça, Fortaleza
-Editora Radiadora / Alan Mendonça 85-999442220
-Diretamente com o autor, nirtonvenancio@gmail.com. Envio pelos Correios.

um artista brasileiro

foto Leo Aversa
Em 2016, o funcionário de uma barbearia na Tijuca perdeu um cliente por falar mal de Chico Buarque, a quem chamou de "comunista".
Após ouvir que tocava Chico no rádio, o responsável pelo caixa perguntou: "Odeio comunista. Vocês se incomodam se eu tirar a música desse escroto?".
O cliente rebateu: "Você acaba de perder um cliente. Intolerância política já é ruim. Cultural é pior ainda!"
"Quer vulgaridade e ignorância maiores que um marmanjo com acesso à educação e à cultura precisar de explicação, no século 21, sobre quem é Chico Buarque?", disse o escritor e jornalista Mário Magalhães, do The Intercept, quando o cantor foi hostilizado por um grupo de rapazes, ao sair de um restaurante no Leblon, aos gritos de "Você é um merda!”, "petista!", "ladrão!”
Sobre todos esses ataques destes tempos da indelicadeza, Chico Buarque disse, com seu cavalheirismo habitual, que “acho que vou começar a usar esses fones na rua. Gosto de caminhar e, por onde caminho, nos bairros chiques do Rio, as pessoas finas passam com seus carros grandes e gritam: 'viado filho da puta!', 'viado, vai pra Cuba', 'vai pra Paris, viado'. O único consenso é o 'viado'”.
Na contramão da legião de bestas quadradas, da corja ignara institucionalizada, dos ‘idiotas inúteis’ olavistas, o cantor, compositor e escritor Chico Buarque ganhou o Prêmio Camões 2019 pelo conjunto da obra, já dono de três Jabutis em sua coleção de honrarias literárias.
Criado em 1988 pelos governos do Brasil e de Portugal, o Camões elege a cada ano um escritor de países onde o português é a língua oficial. Chico foi escolhido por uma equipe de seis jurados, os portugueses Clara Rowland e Manuel Frias Martins, os brasileiros Antonio Cicero e Antônio Carlos Hohlfeldt, a angolana Ana Paula Tavares e o moçambicano Nataniel Ngomane, indicados pela Biblioteca Nacional do Brasil, pelo Ministério da Cultura de Portugal e pela comunidade africana.
“Fiquei muito feliz e honrado de seguir os passos de Raduan Nassar”, disse Chico Buarque ao receber a notícia, ontem, referindo-se ao mais recente brasileiro a ganhar o prêmio, em 2016.
Além do autor de Lavoura Arcaica, outros escritores brasileiros já foram merecidamente agraciados com o Camões: João Cabral de Melo Neto, Jorge Amado, Antônio Candido, Autran Dourado, Rubem Fonseca, Lygia Fagundes Telles, João Ubaldo Ribeiro, Ferreira Gullar , Dalton Trevisan, Alberto da Costa e Silva e a cearense Rachel de Queiroz, a primeira mulher a ser comtemplada com o Prêmio, em 1993.
Parabéns, Chico Buarque! Continuamos com sua banda cantando coisas de amor.

segunda-feira, 20 de maio de 2019

em cada foto uma história

Cantora e compositora Mona Gadelha, cantor e compositor Lucio Ricardo.
1979, Rio de Janeiro, durante as gravações do disco Massafeira. Foto de Gentil Barreira.

2014, Fortaleza, durante ensaio para show Geração 80, Maloca Dragão. Foto de Jacques Antunes.
A história do rock, do blues e das canções cearenses não só passa por eles: está neles.
Eu digo “mami, mami, blues, é cor de sonho... amando sempre vocês”

domingo, 19 de maio de 2019

final de domingo com Hilda e Lygia

foto Acervo Instituto Moreira Salles
“Lygia, eu estou péssima. Estou doentíssima, acho que vou morrer, venha me ver, pelo amor de Deus! Quero demais morrer segurando a mão da Lygia, porque sei que ela vai entender tudo na hora H. Ela vai dizer: ‘Hilda, fica calma e tal que é assim mesmo.’”
- poeta Hilda Hilst em seus escritos sobre Lygia Fagundes Teles. Textos, cartas e depoimentos entre as duas escritores foram publicados nos Cadernos de Literatura Brasileira, do Instituto Moreira Salles, em 1999.
Elas foram grandes amigas durante mais de 50 anos. Conheceram-se no final da década de 40, quando Lygia foi homenageada numa festa promovida pela Academia Brasileira de Letras, ao receber o Prêmio Afonso Arinos pelo livro O cacto vermelho. Hilda não tão conhecida, mas já daquele jeito descolada, chegou furando a fila, passando na frente de Cecília Meireles que usava um turbante negro tipo indiano, e apresentou-se: “Sou Hilda Hilst, poeta. Vim saudá-la em nome da nossa Academia do Largo de São Francisco”. Pronto! Selou-se a amizade. Lygia encantou-se com aquela “jovem muito loura e fina, os grandes olhos verdes com uma expressão decidida. Quase arrogante”, como escreveu em um dos textos.
Muitos não entendiam como duas pessoas de temperamentos distintos se davam tão bem. Hilda não perdia tempo explicando, dizia que “a gente tem uma amizade, sei lá, pode ser até de outras vidas, embora sejamos muito diferentes. Aí, por exemplo, eu bebo muito, ela não bebe nada. Ela diz: ‘Eu vou beber um vinhozinho’. Mas eu já estou bebendo uma garrafa e vários uísques.”
Lygia Fagundes Teles completou 96 anos em 19 de abril, no mesmo mês em que Hilda Hilst faria 89, dia 21. Áries e touro na mesma constelação literária.

final de domingo com Clarice

foto Claudia Andujar, 1961
"Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo."
- Clarice Lispector em Um sopro de vida, publicado em 1978, um ano depois de sua morte.

cinema de invenção


“Quando Luiz Rosemberg Filho fez ‘A$$untina das Amérikas' o Brasil penava há pouco mais de uma década com os efeitos do golpe civil-militar. O filme reflete muito desse momento, colocando em cena personagens representativos de tempos tão sombrios”
- Trecho do texto escrito por Firmino Holanda, pesquisador, cineasta e professor da UFC, para o catálogo da VI Mostra Outros Cinemas, maio de 2014, em Fortaleza.
Rodado em 1976, A$$untina abriu o evento com a presença do diretor, que durante a semana foi merecidamente homenageado, com o reconhecimento por sua importância como um dos mais autênticos, criativos e combatentes nomes do cinema brasileiro.
Clássico do chamado cinema experimental, independente, que se fazia à margem dos modelos dominantes, o filme é o mais expressivo do pensamento e estética da cinematografia de Luiz Rosemberg, com quase 50 títulos nos 50 anos de atividade. Muitos de seus filmes foram censurados, praticamente todos sem viabilidade de lançamentos nos moldes comerciais.
O cineasta nunca fez concessão a modismos, nunca se submeteu às regras de produção que interferissem em suas propostas. Dizia que com o fim da ditadura, a censura passou a se chamar “burocracia”, com “a exigência que você faça um roteiro de 80 páginas, que tenha 300 mil papéis para mostrar”, referindo-se aos editais de incentivo, “uma coisa mantida por pessoas que, pelo amor de Deus, nunca foram representativas do ponto de vista do cinema de criação”, opinou com sua notória sinceridade em uma entrevista ao jornal O Globo, em 2015, por ocasião da abertura da mostra em sua homenagem e lançamento do documentário Rosemberg 70 — Cinema de afeto, de Cavi Borges e Christian Caselli.
Expoente de um cinema que ele considerava “de invenção”, Luiz Rosemberg Filho irritava-se com a expressão “cinema marginal”. “Acho escroto!”, esbravejava. Definia o seu cinema como uma “revolução estética necessária que rompesse com a linguagem tradicional de Hollywood. É um nome malicioso para denegrir a imagem de quem lutou por um cinema não oficial. É uma terminologia inventada pelos merdas que precisam de rótulo. Muito amador.”
Sua grande paixão, sempre paralela ao seu trabalho de cineasta, eram as colagens, que ele fazia tanto como “uma terapia para não enlouquecer”, como “para refletir sobre o que poderia fazer com imagens.”
E Luiz Rosemberg Filho fez muito como as imagens para cinema brasileiro. Ele faleceu nesta madrugada de domingo, aos 76 anos. Encantou-se com uma nova invenção de cinema.
O cineasta fotografado Pedro Kirilos em sua casa, 2015, ao lado de fotos, colagens e lembranças.

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Van Goghs brasilienses

SQN 213, Brasília

um filme único

Em 17 de maio de 1931 foi projetado pela primeira vez o primeiro e único filme de Mário Peixoto, Limite, no Cinema Capitólio, em sessão organizada pelo Chaplin Club, um cineclube criado por cinéfilos no Rio Janeiro.
O que seria apenas uma exibição de um filme esquisito dirigido por um cineasta de poucas palavras, ganhou notoriedade, provocou debates, estimulou estudos sobre a novata sétima arte, influenciou cineastas pelo mundo. É um marco no cinema brasileiro. Nunca teve uma distribuição comercial. Ao longo dos anos, foi exibido em mostras, aberturas de festivais, lançado em dvd, blu-ray...
Em 2008, o cineasta Martin Scorsese, um entusiasta da obra brasileira, promoveu através de sua ONG World Cinema Foundation, a restauração da película, em cópia 35mm.
Limite está no mesmo nível de O encouraçado Potemkin, de Sergei Eisenstein, e outros filmes seminais da cinematografia mundial. Os enquadramentos, os movimentos de câmera, a fotografia preto-e-branco, a montagem, os conflitos e a dissecação da alma dos personagens... O cinema comprometido com uma arte que nascia.

quinta-feira, 16 de maio de 2019

Augusto

Ontem, 15 de maio, nove anos da 13ª edição da ótima revista Aldeota, de Fortaleza. Todas as páginas do número foram dedicadas ao enorme-grande-imenso Augusto Pontes, pensador, jornalista, professor, publicitário, poeta, frasista, provocador, boêmio... Guru de toda uma geração da cultura cearense que se fez nos anos 60, 70, 80, 90... de sempre.
Criada pelo publicitário Fernando Costa, a revista teve curta duração. Sempre nas poucas cinco páginas 24,5 x 29,5cm de papel rústico, a fineza de textos ótimos, pertinentes, reflexivos, bem humorados. Da aldeia Aldeota para o mundo. Na referida edição, artigos assinados pela ensaísta e historiadora Isabel Lustosa, os jornalistas Augusto Cesar Costa, Alexandre Barbalho, Paulo Linhares, o arquiteto, urbanista e compositor Fausto Nilo, que pontuam referências e reverenciam a genialidade de Augusto Pontes.
É dele o verso “Vida, vento, vela, leva-me daqui”, uma beleza de aliteração inserida na letra de Mucuripe, de Fagner e Belchior, assim como “Eu sou apenas um rapaz lantino-americano sem parentes importantes” foi inspirada em “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares”, que Augusto disse em seu discurso de posse como professor de Comunicação da UnB, no começo da década de 70. Na plateia, o conterrâneo Belchior.
O que se denominou na música cearense como Pessoal do Ceará, deve-se muito a ele. Não somente como pensamento, também como autor de centenas de letras conhecidas, como, por exemplo, Lupiscinica, musicada por Petrucio Maia, Carneiro, por Ednardo, com quem criou o Massafeira Livre, evento de quatro históricos dias, noites e madrugadas no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, que revelou dezenas de cantores, compositores, poetas, fotógrafos, artistas plásticos, uma infinidade de talentos da cena artística cearense de 1979.
Dez anos ontem que Augusto Pontes faleceu, numa madrugada de sexta-feira, aos 73 anos. Tornamo-nos eternos no coração de quem nos quer bem. Augusto é para sempre. Há dez anos que não morreu.
Acima, foto de capa de Gentil Barreira, durante a gravação do disco Massafeira.

o cinema de Mizoguchi

Kenji Mizoguchi é reconhecido como um dos três mestres do cinema japonês, ao lado de Akira Kurosawa e Yasujiro Ozu.
Intendende Sansho (Sanshō dayū), rodado em 1954, contém todos os elementos que fizeram a fama e definição de seu cinema.

Seus planos-sequências são de tirar o fôlego.
Misturando com maestria o melodrama a uma narrativa realista, o cineasta buscou apresentar a vida de personagens comuns, principalmente de mulheres, a quem reverencia em toda sua obra, e encarnam o sentido mais forte e sublime da vida.
O tema da exploração das mulheres teve raiz numa tragédia pessoal: quando criança viu a irmã ser vendida como gueixa. Esse episódio marcaria irremediavelmente sua trajetória.
No filme citado, feito um ano depois do sua obra mais conhecida, Os contos da lua vaga (Ugetsu monogatari), o assunto está profunda e belamente representado.
Falecido na década de 50, o cineasta faria hoje 120 anos, idade difícil de imaginar entre os mortais, embora os japoneses costumem surpreender em longevidade.

like a Bob Dylan

53 anos hoje do lançamento de um dos ótimos discos de Bob Dylan, Bonde on Blonde, que completa a trilogia de álbuns de rock que o bardo de Minnesota gravou, começando com Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965.
As canções e as letras discursivas definem bem a mistura única do visionário e do coloquial que Mr. Zinnemman se tornou ao longo de sua carreira.

beat acelerado

Trecho de On the road, 1957. Kerouac escreveu em ritmo ininterrupto em três semanas, numa pequena máquina de escrever com folhas de papel manteiga emendadas pra não perder tempo em trocá-las...
Ele mudou as coisas.

quarta-feira, 15 de maio de 2019

rua!

Neste dia 15 de greve, e sempre, um oportuno poema de Régis Bonvicino, publicado no livro Sósia da cópia, 1983, musicado por Itamar Assumpção em 1988, gravado no disco “Intercontinental! Quem diria! Era só o que faltava!”.
“Não há saídas 
só ruas 
viadutos 
e avenidas”

blues tão rico

O grande anjo torto Sérgio Sampaio gravou Meu pobre blues em 1974, em um compacto simples, produção de Roberto Menescal, um ano depois de seu primeiro LP, Eu quero é botar meu bloco na rua. A música ficou mais conhecida na voz de Zizi Possi, em seu disco de estreia, Flor do mal, 1978. Mas é outra viagem.
A letra é uma homenagem enviesada ao conterrâneo de Cachoeiro de Itapemirim, o "rei" Roberto Carlos, que, com suas esquisitices azuladas, não deu a mínima para as composições de Sérgio Sampaio. Como diz o crítico de música Silvio Essinger, "é uma canção amarga, feita não para o astro gravar, mas para ele ouvir e botar a mão na consciência.”
Sérgio Sampaio nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da linha evolutiva da música popular brasileira, como dizia seu parceiro da Sociedade da Gran-Ordem Kavernista, Raul Seixas.
Com sua música e letras de fúria modernista, viajando de trem do samba e choro ao rock'n roll, blues e baladas, Sérgio Sampaio estava blocos à frente de muitos.
25 anos hoje que ele se foi, aos 47, com sua poesia na calçada.
Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.

terça-feira, 14 de maio de 2019

deforma da Previdência


o brincante

A última vez que nos vimos, meu caro Babi Guedes, foi em Brasília, em 2011. Conversamos, cantamos e brincamos, em seu show numa manhã de domingo no Parque da Cidade.

Compositor, ator, bonequeiro, artesão, batuqueiro, cordelista, poeta, cantador. Mestre da cultura popular desses brasis cearenses.

Você partiu para outras cantorias há cinco anos. Hoje faria 65 de vida brincante. Seu domingo continua brincando na calçada do meu coração.

desmonte

Jornal O Globo, 12.05.2019
Marco Lucchesi, Professor Titular da UFRJ, Presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL).
"Escrevo, hoje, em primeira pessoa, apenas e tão somente, na qualidade de professor titular da UFRJ. Não falo senão por mim mesmo, com as cordas vocais que me constituem.
Pergunto até quando Catilina irá abusar da nossa paciência, e qual o tamanho do abismo a que nos leva? Procuro modular minha indignação diante dos ataques desferidos à Constituição de 1988. Fruto soberbo de uma transição inacabada para a democracia, nossa Carta Magna vive sob estado de sítio. Espero que o Supremo desperte do sono dogmático e compreenda, de modo frontal, a gravidade do momento.
Só o tempo dirá como chegamos ao presente estado de coisas e quem sequestrou nossa frágil democracia. Só o tempo dirá quais foram os arquitetos desse frágil castelo de cartas, e quem feriu o coração da República.
Tenho mais de 50 anos e nunca me senti tão vilipendiado como professor. Os reitores das universidades são tratados como agentes da desordem e do “marxismo cultural”. O ministério ameaçou corte de verba por motivos impensáveis a três universidades. Ao perceber que era inconstitucional, abriu fogo contra todos.
Houve quem defendesse o fim do ensino da Filosofia e da Sociologia. Um argumento interessante para documentar a que ponto chegamos.
Nosso original chanceler, na mesma linha ortodoxa, disse que a autoridade máxima do país era o novo Messias, a pedra angular que todos rejeitaram.
Sugiro que façamos um estudo do campo semântico da política atual, seguindo o “Linguagem do Terceiro Império”, de Viktor Klemperer.
De onde tiraram a loucura de acabar com os cursos de Filosofia e Sociologia? Em que país do mundo, em que regime totalitário se ousaria tamanho dislate? Um misto de soberba e despreparo de hooligans, ungidos por um deus odioso.
Mas é também um plano, para adestrar a universidade pública. Poderão ensinar, em casa, que a Terra é plana, ou quadrada, que a evolução não existe, que só a Bíblia interessa, e que a ciência sem religião é de satanás.
Sou um péssimo exemplo: cursei História na UFF. Sou professor de literatura. E bem mais grave: com pós-doutorado de Filosofia na Alemanha. Deveria ressarcir os cofres públicos.
Fico espantado que não tenham lido Max Weber, Karl Mannheim e, nem tampouco, o “deletério” Karl Marx, homem de vasta cultura. Esse filósofo, de barba selvagem, trazia no DNA o escândalo da desigualdade entre os homens. Ele e Francisco, o de Assis e o do Vaticano. Todos a serviço do “Fórum de São Paulo”.
Não há problema se você é de direita ou de esquerda. O que espanta é a surda arrogância, o ódio à cultura e as paixões violentas.
Certo ministro segue a cartilha do “filósofo” do turpilóquio, o das palavras grosseiras. É chocante a baixa qualidade do debate. Querem uma posição mais moderada? Pois muito bem, leiam Norberto Bobbio, leiam Karl Popper e Bertrand Russell. E compreendam a dignidade republicana dos cargos que ocupam.
Não agridam a liberdade de cátedra, assegurada na Constituição. Os professores são tratados como espiões da KGB, dispostos a favorecer a entrada dos tanques soviéticos através de nossas fronteiras. É um caso psiquiátrico. Leiam o Manual de Diagnósticos (DSM-5).
Eis a luta da “pedra angular” contra o dragão da maldade. Somos filhos do demônio, os professores, hereges que não obedecem à cartilha do pensamento único, se ainda houver conjunto de neurônios capazes de pensar.
A Universidade pública é a maior conquista da sociedade civil. Compõe um capítulo formidável na História do Brasil e do Ocidente. Possui altos níveis de excelência, jamais deixou de rasgar novos horizontes científicos, apesar da verba irrisória.
Peço aos que cuidam da educação maior cuidado. Que não se torne a dizer que o corte no ensino superior vai abrir mais creches. Esse dilema não existe. Trata-se de uma falácia que se aprende num simples manual de lógica.
Porque não é matéria de Veterinária, mas de Filosofia.
A diversidade do pensamento é o que interessa: de Kafka (com K) a Agostinho, de Adam Smith a James Joyce (com Y). O diálogo construtivo sem ódio e sem anátema.
Não busco a imprecação e o pugilato. Trabalho no campo das ideias, de modo contundente e ao mesmo tempo respeitoso.
Mas não vou assistir, de braços cruzados, ao desmonte da Universidade pública."



14 de maio, 14 meses

foto ©Adriana Paiva
Mural em homenagem à Marielle Franco, feito pelos artistas Bruno Big e Marcelo Ment, no local próximo onde a vereadora e o motorista Anderson Gomes foram executados.

segunda-feira, 13 de maio de 2019

baú de memórias

A Solidão Povoada, de Monique Le Moing, 1996, é, até o momento, a completa biografia do médico e escritor memorialista Pedro Nava.
A autora, francesa apaixonada e especialista em literatura brasileira, em 1977 ganhou do bibliófilo Plínio Doyle o livro Chão de Ferro, com uma carinhosa dedicatória de Nava. Não imaginaria que dezessete anos depois, escreveria sua tese de doutorado sobre a vida do autor mineiro.
Outro oportuno livro é Tu és Pedro Nava: um crime que ficou sem castigo, do jornalista e historiador Manoel Hygino dos Santos, 2004, mas com o foco sobre o misterioso suicídio do escritor, em 1984, na noite de 13 maio, num banco de praça em frente ao edifício onde morava, no bairro da Glória, Rio de Janeiro.
Sobre o fato, Carlos Drummond de Andrade escreveu o belo e triste poema ao amigo, A um ausente, publicado no livro Farewell, 1996.
"Sim, tenho saudades. / Sim, acuso-te porque fizeste o não previsto nas leis da amizade e da natureza nem nos deixaste sequer o direito de indagar porque o fizeste, porque te foste", choram os versos finais.