terça-feira, 30 de dezembro de 2008

manuais secretos


Para facilitar a repressão a seus adversários, manuais secretos da ditatura militar no Brasil foram editados, durante a década de 70, até mesmo por orgãos que, por sua finalidade, não deveriam cuidar desse tipo de assunto. Foi o caso do então Ministério da Educação e Cultura, hoje desmembrado em duas pastas distintas, mas a da Educação continua chamada pela sigla MEC.

O ministério na tenebrosa época da repressão publicou, em 1970, um Manual de Segurança e Informações. O documento inédito, com quase 80 páginas, classificado como "reservado", está guardado no Arquivo Nacional em Brasília. O material parece uma cartilha do Serviço Nacional de Informações, o famigerado SNI, principal órgão de inteligência da ditadura, e acaba servindo como testemunho formal da existência de técnicas violentas de interrogatório.

Fonte: Correio Braziliense

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

a luz da música

foto Arquivo NV

"O amor é cego
Ray Charles é cego
Stevie Wonder é cego
E o albino Hermeto não enxerga mesmo muito bem"

(Trecho de "O estrangeiro", de Caetano Veloso, faixa 1 do disco homônimo, 1989)

Cego às avessas, como nos sonhos, eles vêem o que desejam: música!

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

verdade inconveniente

foto Elpais

Em 1975, uma tranqüila praia italiana se chocou com o aparecimento do corpo, desfigurado, de um dos maiores cineastas e poetas que o mundo já viu: Pier Paolo Pasolini. Tão controversa quanto sua vida, sua morte tem até hoje mistérios difíceis de decifrar.

Com base em conversas com seus discípulos, tais como Bernardo Bertolucci, o documentário inédito "Quem fala a verdade deve morrer" (Wie de waarheid zegt moet dood), produção holandeza de 1981, tenta descobrir a verdade por trás do terrível assassinato desse mito da sétima arte.

O documentário, que será exibido hoje às 22h no Eurochannel, analisa as teorias em torno do crime. Segundo a versão oficial, o cineasta, comunista declarado e homossexual assumido, teria sido torturado e atropelado por garoto de programa. Há quem acredite, porém, que se tratou de uma conspiração do governo italiano.

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

sapatrix

charge Kássio/Correio Braziliense


No blog do meu conterrâneo Lira Neto, diz ele que se fosse a cantora Maysa que tivesse atirado aquele sapato no cretino do Bush, ele não teria escapado. Voltaria para a Casa Branca com a cara-de-pau roxa.
Lira é autor da biografia "Maysa - só numa multidão de amores", e passou muito tempo pesquisando a vida da cantora. Ela não pensava duas vezes em atirar sapatos contra a platéia que conversava enquanto cantava. E não errava nunca.

Na cultura muçulmana, atirar um sapato contra alguém é considerado um grande insulto, pois significa que o alvo é inferior, sempre em contato com o chão e a sujeira. Bush foi muito bem escolhido pra essa sapatada histórica. Pena que deu uma de Keanu Reeves no filme "Matrix" e desviou-se com precisão.

O incidente mobilizou o Iraque, levando manifestantes às ruas com sapatos nas mãos para defender o jornalista Muntadar al-Zaidi, considerado herói pelo povo.

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

Bond, negro Bond


Depois de Barak Obama eleito presidente dos Estados Unidos, a produtora dos filmes de 007, Barbara Broccoli, não descarta a possibilidade de um James Bond negro. Acho ótimo! Tem que ter também um Papa negro, ver se muda aquela coisa lá pelo Vaticano. Que Deus, Cristo sejam negros, não somente São Benedito. É a obamamania, sim!

E quem seria o agente secreto negro? Recentemente o megaempresário do hip-hop Sean Combs, também conhecido por P. Diddy, se candidatou ao cargo quando Daniel Graig cansar das correrias. Pra impressionar, o cara gastou uma grana alta na gravação de um teste de representação para o papel de James Bond, em ação num helicóptero, naquele smoking impecável, e cercado de bond-girls gostosas, claro.

Outros artistas negros também manifestaram desejo de assumir o personagem criado por Ian Fleming, como o cantor americano de origem senegalesa, Akon, e o ator Jamie Foxx, que ganhou um Oscar pelo papel de Ray Charles no cinema.

Mas quem esteve perto de assumir o cargo, bem antes de Barak Obama ser uma realidade, foi o ator Colin Salmon, que fez uma dessas bobagens "Alien x Predador" e teve uma pequena participação num dos filmes do agente inglês.

Na época em que os produtores estavam querendo revitalizar a franquia, e o escolhido foi Daniel Graig, Salmon só não se tornou o primeiro James Bond afro porque tinha 41 anos e queriam um ator "mais jovem". Eu não acredito nesse argumento. Era mesmo o freio de mão do racismo acionado.

Voltando a Barbara Broccoli, a produtora acha possível um 007 negro, mas descarta taxativamente um James Bond homossexual. Para ela isso seria "contraditório com seu caráter original". Ou seja, nada do valentão ao lado de "bond-boys"...

Se isso for possível, talvez o ator Daniel Graig não tenha problemas em fazer um personagem gay. Antes de se tornar agente secreto, ele teve uns amassos com Toby Jones, que interpretou Truman Capote no filme Infamous.

domingo, 14 de dezembro de 2008

o estilo coreano

foto Cineclick Asia

A indústria cinematográfica mais bem-sucedida do Sudeste Asiático, a da Coréia do Sul, está em agitação desde que o governo do país decidiu negociar um acordo de livre comércio com os EUA. Os americanos querem condicionar o início das negociações ao fim das cotas para filmes nacionais que existem na Coréia há 40 anos.

Os filmes coreanos detêm 59% da receita com cinema no país; são exportados para as lojas de dvds japonesas e para a Tailândia, a Indonésia e a Malásia. Na China, maior mercado da região, os filmes coreanos são fartamente pirateados e vendem mais que os chineses. A reação à decisão do governo é ao estilo coreano. Nas últimas semanas, produtores de filmes fizeram greve de fome, atores rasparam a cabeça e vestiram preto em protesto, e trabalhadores do setor já começaram a enterrar simbolicamente o cinema do país em manifestações de rua.

Enquanto isso, se você encontrar numa locadora que se preze o filme "Fôlego" (Soom), de Kim Ki-Duk, alugue. É o bom cinema de tirar o fôlego.

sábado, 6 de dezembro de 2008

hoje é sábado

foto Arquivo NV

Hoje é sábado, amanhã é domingo
Amanhã não gosta de ver ninguém bem
Hoje é que é o dia do presente
O dia é sábado.


Impossível fugir a essa dura realidade
Neste momento todos os bares estão repletos de homens vazios
Todos os namorados estão de mãos entrelaçadas
Todos os maridos estão funcionando regularmente
Todas as mulheres estão atentas
Porque hoje é sábado.


Trecho do poema "Dia da criação", de Vinicius de Moraes, para quem todos dias eram sábados.

Está com tempo de ler o poema todo? Aqui.
Saravá, Vinicius! Sua benção.

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

o terror, o terror

Li agora no jornal Correio Braziliense uma matéria que me deixou estarrecido. Surpreso não pelas revelações, pois se sabe que barbáries desse tipo eram praticadas pela ditadura no Brasil de maneira corriqueira.

O que me deixou estarrecido foi o cinismo na confissão fria do militar reformado.

Militar acusado de ser torturador
Luiz Carlos Azedo, da equipe do Correio

O presidente da Comissão Especial da Lei de Anistia, deputado Daniel Almeida (PCdoB-BA), vai pedir ao Ministério Público federal que processe por prática de tortura e assassinato o tenente da reserva José Vargas Jiménez, que admitiu ter cortado cabeças e mãos de três guerrilheiros do Araguaia durante as operações de combate do Exército na área. A confissão do militar reformado foi feita durante depoimento na comissão, na última quarta-feira, na Câmara dos Deputados. “Eu estive na guerrilha e uma guerra é assim”, justificou Jimenez, que era segundo-sargento do Exército por ocasião dos combates com os guerrilheiros ligados ao Partido Comunista do Brasil (PCdoB).

Ao se justificar perante os deputados, Jiménez disse que não considerava a tortura como um crime hediondo quando estava no Araguaia. “Hoje em dia, que eu tenho estudo, sou bacharel em direito, sou politizado, eu vejo que realmente nós fizemos muito mais, mas é hipocrisia dizer que não tem que ser feito, porque senão ninguém conta”, observou. O ex-militar lançou um livro recentemente sobre a guerrilha do Araguaia e considera “revanchismo” as críticas à Lei de Anistia e às Forças Armadas.

O depoimento chocou os participantes da reunião. Jiménez, ex-chefe de grupo do Exército no confronto contra os comunistas, confirmou que tem em seu poder documentos secretos sobre as operações militares realizadas à época. Disse que recebeu ordens para matar todos os guerrilheiros. Jimenez assumiu a prática de torturas. Revelou que os corpos dos guerrilheiros mortos foram largados na selva “para os bichos comerem” e que as cabeças e mãos de três guerrilheiros foram cortadas e levadas a Marabá (PA), onde seriam identificadas. “Não dava para carregar os corpos no meio da selva”, justificou.

“Ali ficou configurada uma confissão”, avalia Almeida, que resolveu antecipar o envio do depoimento ao Ministério Público e não esperar a conclusão do relatório final da comissão. Os três guerrilheiros decapitados seriam os militantes do PCdoB André Grabois, João Gualberto Calatroni e Antônio Alfredo de Lima, mortos por uma patrulha do Exército no sítio de Oneide. O episódio teria sido horripilante. Um dos soldados utilizou os ossos descarnados dos dedos de um dos guerrilheiros como amuleto, num colar pendurado no pescoço. Considerava-o um troféu de guerra.

Segundo Jiménez, o Centro de Informações do Exército (Ciex) deu ordens, em 1975, para que documentos sobre a Guerrilha do Araguaia fossem destruídos, mas ele os conservou. O relator da comissão, deputado Arnaldo Faria de Sá (PTB-SP), avalia que Jiménez não levou em consideração que “o crime de tortura é imprescritível”. A comissão pretende encaminhar a gravação do depoimento na íntegra para o Ministério Público Federal. “Assim ele não poderá alegar que houve manipulação. O tenente é um fanfarrão. Ele assume crimes, e, se assume crimes, tem que responder por eles”, afirmou o parlamentar. “Ele pensa que os crimes são prescritos. Só que tortura não se prescreve”, afirma Faria de Sá.

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

o Siri-Ará de Rosemberg

Everaldo Pontes em "Siri-Ará", de Rosemberg Cariry. Foto Iluminura Filmes

Cioran é um mestiço brasileiro que, depois do exílio na França, resolve voltar ao sertão, em busca da sua origem e da história do seu povo. Por guia, ele toma a figura misteriosa de uma velha índia. O destino de Cioran, que vive um novo exílio na nação real/imaginada, cruza com os guerreiros do reisado e os índios da banda de pífanos, grupos de folguedos dramáticos populares que vagam pelo sertão. Os conflitos entre o Reisado e a banda de pífanos remetem à tragédia fundadora do Ceará, quando Dom Pero Coelho, no ano de 1603, em busca do Eldorado, encontra a guerra, a peste, a fome e a loucura.

Em poucas palavras é essa a proposta de "Siri-Ará", oitavo longa-metragem de Rosemberg Cariry, que será exibido hoje à noite na competição do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. O filme é uma reflexão sobre os encontros e desencontros dos “mundos” que marcam a invenção da nação brasileira.

Tive o prazer de ser assistente de direção de Rosemberg em "Corisco e Dadá" e em alguns curtas-metragens. É um dos cineastas mais dedicados ao estudo da cultura nordestina. Conversar com ele sobre o tema não dá: o bom é somente ouví-lo. E está sempre se renovando na busca de compreender e divulgar nossa história. Seus filmes estabelecem uma poética ligação entre o erudito e o popular, característica que o identifica como um diretor que sabe fazer o caminho do particular para o universal.

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

sem meios-termos

foto Cris Berrenbach / Divulgação


“Sempre comentam que Brasília tem um público ativo. Acho isso muito interessante. Este não é um filme para ser ovacionado no meio da projeção. Mas eu detestaria uma sessão apática”

A espectativa é do cineasta paulista Kiko Goifman, diretor do longa "FilmeFobia", que será exibido hoje na segunda noite do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

O filme mostra o diretor de um documentário que explora os limites psicológicos, contrapondo a fobia das pessoas com situações fortes, emocionalmente violentas. A principal idéia do diretor do documentário que acontece dentro do filme é que a única imagem verdadeiramente autêntica, real e convincente é a de um ser humano em contato com a sua própria fobia. Os gestos erráticos, desesperados e fora de controle dos fóbicos trariam a verdade da imagem. "FilmeFobia" se constrói como um making of desse documentário fictício.

Depois de filmes polêmicos como "Amarelo manga" e "Baixio das bestas", ambos de Cláudio Assis, e "Cama de gato", de Alexandre Stockler, exibidos em festivais anteriores, a platéia de hoje no cine Brasília não decepcionará mais uma vez, não ficará quietinha, com certeza. O Festival de Brasília tem um público ativo, que aplaude e vaia na mesma proporção e intensidade. Essa interatividade manisfesta-se tanto durante as exibições dos filmes quanto nos debates e na solenidade de encerramento. Ninguém escapa, não se sai premiado ou esquecido impunemente. O cineasta precisa ir com uma reserva de adrenalina pra esse contato direto com um público que tem seus meios e muitos termos.

domingo, 16 de novembro de 2008

o poeta da angústia

foto FilmKultúra


"Um filme não precisa ser entendido, basta que seja sentido".



A frase é do italiano Michelangelo Antonioni, chamado de o cineasta da incomunicabilidade. Prefiro considerá-lo o poeta da angústia. Ou mesmo da modernidade, como bem dizia o seu compatriota Walter Veltroni, um dos mais apurados críticos de cinema, outra espécie em extinção, infelizmente.

Antonioni não segurou a solidão neste mundo cheio de poucos bons cineastas e seguiu atrás de Ingmar Bergman, falecido em julho do ano passado. Tinha 94 anos e morreu numa segunda-feira à noite, na tranquilidade de sua casa, sentado numa poltrona, ao lado da esposa Enrica Fico, como numa cena dirigida por ele.

É difícil escolher somente um ou dois filmes bons desses mestres que se vão e deixam o cinema órfão.

Antonioni dizia que se esforçava em exigir do ator o seu instinto mais do que seu cérebro. É exatamente isso que sentimos ao adentrar na tela quando assistimos "A noite" (La notte), de 1960, "O eclipse" (L'Eclisse), de 61, ou "O deserto vermelho" (Il deserto rosso), de 64. Ou ainda o clássico "Blow-up", de 67, ou a viagem psicodélica de "Zabriskie point", no sintomático ano de 1969. Ou ainda "O passageiro - Profissão: repórter" (The passenger), 1975, um dos pouquíssimos filmes em que Jack Nicholson não faz o papel de Jack Nicholson.

O cinema de Antonioni é marcado pela obsessão da imagem e a busca de uma linguagem formal e estética, com cenas longas e lentas, o que servia para indagar o interior de suas personagens, num espaço enigmático. Comunicava-se com sua câmera com a incomunicabilidade desses personagens.

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

black is beautiful

foto Aguy

Uma reflexão sobre como na língua o negro está manchado irremediavelmente é oportunizada com a chegada de Obama ao poder. É o que propõe a jornalista Sandra Russo, do jornal argentino Página/12, sugerindo que se estabeleçam algumas normas que permitam àqueles que trabalham com a responsabilidade da informação um necessário cuidado com a linguagem.

Sandra lembra que a reflexão consta de consagrada letra do músico colombiano Andrés Landera, cujo título é bastante eloqüente: “O que acontecerá quando o negro for belo?”. O questionamento de Landera é pertinente face à enorme quantidade de conotações pejorativas, depreciativas e discriminatórias que nos proporciona a fala quotidiana para nos referirmos ao negro.

Os negros são aqueles que têm a pele da mesma cor que tudo o que nos espanta. Qualquer dia da semana inocente se assenta na catástrofe ou na tragédia quando se lhe agrega o adjetivo “negro”, como: “uma quarta-feira negra para as bolsas”. O negro, como a esquerda, diz Sandra, foi deslocado na língua para zonas obscuras e miseráveis. O branco conota pureza o negro traz a idéia de sujeira.

Enquanto o branco é o vestido da noiva, negras são as vestes da viúva. Do mesmo modo, atuar pela esquerda é fazer trapaça, corromper-se, delinqüir. Ir pela direita, em troca, é ser frontal, ter coragem, paciência, moral. E a história ocidental está escrita por uma mão branca.

É compreensível o pipocar de alegria com a eleição de um afro-americano. Boa ocasião para rever as costuras da nossa língua. Mas, Colin Powell e Condoleeza Rice foram negros aceitos por esquecerem quem eram. Melhor torcer por Obama pelo que prometeu fazer. Não por sua negritude.


Transcrito de o Boletim H S Liberal

segunda-feira, 10 de novembro de 2008

contemplação crítica

foto Moviemobz

"A natureza nunca faz nada apenas para ser decorativo"


Uma das falas do personagem Fiona, vivida com extrema sensibilidade pela atriz britânica Julie Christie no filme "Longe dela" (Away from her), primeiro longa de Sarah Polley.

Baseado no livro de Alice Munro, conta a história de um casal sexagenário abalado pelo mal de Alzheimer que atinge a mulher. O filme é tocante em todos os momentos, sem cair na esparrela do pieguismo. Muito se deve às atuações da sempre ótima Julie Christie, que nem aparenta 67 anos de idade, e pelo pouco conhecido ator canadense Gordon Pinsent. Lembro-me dele em seu primeiro filme, num pequeno papel em "Crown, o magnífico" (The Thomas Crown affair), de Norman Jewison, e mais recentemente em "Chegadas e partidas" (The Shipping News), que o sueco Lars Hallström rodou nos Estados Unidos em 2001.

Julie Christie foi indicada ao Oscar deste ano e perdeu para Marion Cotillard que viveu a cantora francesa em "Piaf: um hino ao amor". Escolha difícil: eram as melhores das cinco concorrentes na categoria. Prefiro Julie Christie que mantém a delicadeza e precisão da personagem em todo o filme, enquanto Marion esbarra na caricatura em alguns momentos.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

proibido proibir


Depois da absurdo da proibição, recolhimento das livrarias e inceneração do livro "Roberto Carlos em detalhes", ano passado, mais uma obra literária está ameaçada pela censura dessa gente hipócrita, careta e covarde. A autobiografia do produtor musical André Midani, "Música, ídolos e poder - do vinil ao download", lançada mês passado pela editora Nova Fronteira, corre sério risco de ser banida das prateleiras.

Seguinte: a família de Enrique Lebendiger, que foi proprietário da gravadora RGE, exige que a venda nas livrarias seja proibida. Por que? Porque o autor escreveu que o senhor Lebendiger, "era figura exótica que não tinha capacidade nem seriedade profissional para acompanhar a carreira de um profissional do calibre de Chico Buarque".

Não conheci o tal Enrique Lebendiger, mas acompanhei esses anos todos a carreira de André Midani, competente profissional que atuou como executivo no mercado fonográfico brasileiro, passando por gravadoras de peso como a Odeon, Phonogran, WEA. A música brasileira deve muito a ele. Desde da década de 50, esse sírio de nascimento tem lugar privilegiado nos bastidores da nossa música. E não por acaso, é conhecedor de todos os meandros que envolvem a indústria do disco. Se está equivocado quanto à capacidade do ex-dono da RGE, os senhores herdeiros têm todo o direito de reclamar, claro. Agora, proibir a venda do livro é de uma estupidez medieval. Censurar, há ainda quem se atreva, sim!

Ao contrário da editora do livro biográfico de Roberto Carlos, a Planeta, que simplesmente abandonou o autor Paulo César de Araújo no embargo com o "rei", a Nova Fronteira está propondo um acordo à família, comprometendo-se a retirar das próximas edições o trecho que desagrada aos queixumeiros. Tudo bem, é uma atitude que busca uma solução pacífica. Mas continua uma censura em termos e meios.

Ah, em tempo: Midani está presente nos discos da Bossa Nova à Tropicália, dos principais grupos de rock das décadas 70, 80 e 90, nos festivais de música. Ele reuniu um número importante de cantoras, cantores e bandas. De todos os grandes, o único que não esteve sob a sua condução foi o "rei" Roberto Carlos, aquele que é uma brasa, mora! e manda queimar livros.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

terça-feira, 4 de novembro de 2008

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

meditando com David Lynch

foto Reuters Pictures

O sempre surpreendente cineasta americano David Lynch será o entrevistado de hoje no programa Roda Viva, às 22h40, pelos canais abertos das tvs Cultura e Brasil.

O diretor de filmes esquisitos e magníficos, como "Veludo azul" (Blue velvet), 1986, "Cidade dos sonhos" (Mullohand drive), de 2001, e o recente "Império dos sonhos" (Inland empire), 2006, é um artista multifacetário, igualmente talentoso como fotógrafo, artista plástico e escritor.

Esteve há dois meses no Brasil para o lançamento de “Águas profundas: criatividade e meditação”, uma compilação de vários textos que define como uma espécie de "auto-ajuda" para difundir a paz mundial. Em se tratando de David Lynch é recomendável levar a sério o que chama de "auto-ajuda".

Ainda não li o livro, mas até onde me informei, trata-se de questionamentos sobre o sofrimento, tensão, raiva, conflitos no mundo em que vivemos, em um tom autobiográfico. Gosto de uma frase dele em que diz "o cineasta não tem que sofrer para mostrar o sofrimento, deixe o sofrimento para os seus personagens'' . Basta ver os filmes dele que mesmo mentindo devo acreditar.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

criador e criatura


"O cinema só trata daquilo que existe, não daquilo que poderia existir. Mesmo quando mostra fantasia, o cinema agarra-se a coisas concretas. O realizador não é criador, é criatura."

Manoel Oliveira, cineasta português, um século de idade no próximo dia 12 de dezembro. Seu trabalho mais recente exibido no Brasil foi "Um filme falado", de 2003. Em 2004 dirigiu para a televisão "O quinto império - ontem como hoje".

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

fôlego novo

foto Cineclick Asia

Entediada e cansada das traições do marido, mulher resolve ir à prisão conhecer um condenado para consolá-lo. Uma tórrida paixão nasce entre os dois e as visitas se tornam freqüentes.

Com uma narrativa minimalista, "Fôlego" (Soom), é uma preciosidade cinematográfica em seus silêncios definidos e diálogos concisos. A produção, de 2007, é dirigida por Kim Ki-duk, da nova geração de cineastas sul coreanos. E tem o talento e a beleza da atriz Ji-a Park.

domingo, 19 de outubro de 2008

vida paralela

foto Reuters/Corbis

"A ficção gera vida, uma espécie de vida paralela que antes não existia. Hoje não podemos imaginar o mundo sem Dom Quixote ou sem Hamlet, mas houve um tempo em que eles não estavam. Tornaram-se parte indissolúvel da realidade porque foram imaginados. Essa é a forma da literatura."

Não por acaso - que o acaso não existe - folheava hoje um livro que li há algum tempo e gosto muito, "Aura", do mexicano Carlos Fuentes, e no Correio Braziliense deste primeiro domingo de horário de verão, deparo-me com uma estrevista com o escritor, de onde retirei o trecho acima.

Fuentes, que na verdade nasceu no Panamá, recebeu semana passada, na Espanha, o prêmio Dom Quixote de la Mancha. No próximo mês completará 80 anos. Escreveu mais de 50 romances, ensaios e peças teatrais. Seu novo livro, "La voluntad y la fortuna" (arrisco aqui uma tradução, algo como "A vontade e a sorte"), ainda não chegou nas livrarias brasileiras.

Outro livro que gosto é "Gringo viejo", que foi adaptado para o cinema numa produção americana dirigida pelo argentino Luiz Puenzo, no final dos anos 80. No elenco o grande Gregory Peck, contracenando com Jane Fonda, que vive uma solteirona que sai dos Estados Unidos, por volta de 1913, para ser professora de crianças de uma rica família mexicana. O encontro dela com um jornalista (Peck), cheio de ideais revolucionários, faz com que descubra novos valores, outras culturas, e o amor - não por acaso.

sexta-feira, 17 de outubro de 2008

idade mídia

foto PrimaPagina

Gravidez do ano: Cláudia Leite. Gêmeos do ano: barrigão de Fernanda Lima. Casamento do ano: Sandy. Separação do ano: Madonna e Guy Ritchie. Agora Ivete Sangalo grávida, capa inteira de segundos cadernos de muitos jornais.

Celebridade se tornou referência pra tudo.

Haja paciência!

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

você tem fome de quê?

foto GeoMundo

Hoje é o Dia Mundial da Alimentação. E daí? O que isso significa? O que e como vamos comermorar?

Essas datas comemorativas são uma grande bobagem. Dia disso, dia daquilo. Já bastam as datas que a gente não consegue se livrar, como o Natal, que já perdeu todo o real significado.

A celebração de hoje existe há 27 anos, e mais de 900 milhões de famintos aumentando ao redor do mundo.

Na foto, criança comendo restos de alimentos em rua de São Paulo, capital.

quarta-feira, 15 de outubro de 2008

Amy

foto Island Records

Amy Winehouse. Voz surpreendente, inigualável, uma mistura belíssima de jazz, de blues, de soul. Uma compositora talentosa, com letras sinceras, criativas, ousadas.

Os abutres de plantão estão ansiosos por uma manchete dizendo que ela sucumbiu de vez ao turbilhão em que vive pelas doses a mais, pelo excesso em algum veneno anti-monotonia...

Amy, com seus 25 anos, é muito mais encantadora e controversa do que se supõe. O jornalista inglês Chas Newkey-Burden lançou um oportuno livro sobre a cantora, "Amy Winehouse - Biografia". Leitura imperdível para os fãs e àqueles que querem compreender um pouco sobre uma personalidade que causa curiosidade, comoção e admiração.

Como Amy não se cansa de surpreender, desejo que ela surpreenda os tais abutres e venha com o terceiro disco.

Veja e ouça a ótima "You know I'm no good", do cd "Back to black".

segunda-feira, 13 de outubro de 2008

toda nudez será castigada?


Causando muita polêmica o manifesto que o ator Pedro Cardoso leu na quarta-feira passada, no Festival de Cinema do Rio de Janeiro. Um manifesto contra a nudez no cinema e na TV. Eu não estava no festival, não tenho conhecimento do texto. Em princípio, é esquisito esse tipo de manifestação vindo de um artista.

Pedro Cardoso fez sua declaração antes da exibição do filme de Domingos de Oliveira, "Todo mundo tem problemas sexuais", no qual é ator principal. Juntando tudo isso, parece piada, mas o manifesto é pra valer e o ator está a fim de provocar mesmo uma discussão sobre o assunto. Para ele, a nudez impede a comédia, o próprio ato de representar e vem sendo usada como recurso para atrair público. Pode até ser que esteja havendo uma espécie de vulgarização da nudez em alguns filmes, mas vamos devagar com o andor que moça nua pode ser de barro...

O cineasta Carlos Reichenbach foi um dos primeiros a se manifestar contra o manifesto: "Representar é se colocar nu. Essa postura de ator que renega o corpo me assusta. Achei tão moralista, tão absurda. É uma coisa retrógrada que, num certo sentido, avaliza a censura".

Carlão não dispensa uma nudez em seus filmes, com muito bom gosto e sentido, ressalte-se. Em seu recente trabalho, "Falsa loura", a brasiliense Rosane Mulholland é poeticamente despida em várias cenas. E é perfeita a abertura de "Garotas do ABC", seu filme anterior, em que a bela Michelle Valle faz um strip-tease ao contrário.

Há quem disse pelos corredores do Cine Odeon, onde ocorreu o festival, que a queixa de Cardoso é direcionada a Selton Mello, que estreou na direção de longa com "Feliz Natal", filme que tem a atriz Graziella Moretto em cenas de nudez. Graziella é namorada de Pedro, que chateou-se com o ator-cineasta por mostrar as seqüências a amigos em sessões privadas durante a montagem. Fofocas da Candinha à parte, não era motivo exatamente para um manifesto.

O diretor do Teatro Oficina, Zé Celso, com sua lucidez histriônica, definiu a controvérsia dizendo que Pedro Cardoso é um bom ator de comédia de costumes e tem todo o direito de ter pudor e não querer ficar nu, mas "fazer manifesto é coisa de velha, de tia".

domingo, 12 de outubro de 2008

a última esperança da Terra

foto barakobama.net

Barak Obama está com 87, 1% nas pesquisas. O velhote extremista da gang do Bush, John McCain, com 12,9%.

Acompanhe aqui como anda o velho mundo.

sexta-feira, 10 de outubro de 2008

e ela, por onde anda?

foto AFP

Poucos dias depois de ser libertada das selvas colombianas, Ingrid Betancourt foi mencionada entre os prováveis ganhadores do Nobel da Paz deste ano. O prêmio saiu hoje para o ex-presidente finlandês Martti Ahtisaari, de 71 anos, que passou outros favoritos, como Mandela e Dalai-Lama.
Os assessores da ex-senadora até marcaram uma entrevista em Paris, caso ela ganhasse. Foram obrigados a engavetar o discurso oficial, enviados para tvs e rádios.

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

cara metade

foto Nathan Graig


"você é a pessoa
mais parecida comigo que eu conheço
só que do lado do avesso"


trecho do poema "Avesso", de Alice Ruiz
musicado pela cantora Ceumar,
gravado em seu disco "Sempre viva", de 2003

quarta-feira, 8 de outubro de 2008

o inquilino polonês

foto Arquivo NV

"O inquilino" (Le locataire), de 1976, é um ótimo suspense dirigido e interpretado por Roman Polanski, que vive um polonês morando na França e aluga apartamento de uma garota que acabara de se suicidar.

Personagem e diretor parecem se confundir nesse filme. Polanski nasceu em Paris, seus pais eram poloneses, e aos três anos de idade foi morar na Polônia, um pouco antes de o país instalar um regime totalitário no molde stalinista.
O cineasta, hoje com 75 anos, tinha oito quando viu seus pais levados para um campo de concentração nazista, onde sua mãe morreu. Começou no cinema como ator, nos filmes do conterrâneo Andrzej Wajda.

Sou um admirador de Polanski, dele e de seus filmes. Há sempre um toque de talento até em trabalhos mais fracos, como "O último portal" (The ninth gate), filmado no final dos anos 90. "A faca na água" (Noz W Wodzie) e "Armadilhas do destino" (Cul de Sac), rodados no início da carreira, lá pela década de 60, são dois dos meus favoritos. Obras-primas. Verdadeiras aulas de cinema.

Em "O inquilino" Polanski cria um suspense regado a toques de humor negro e sarcasmo. É o último da chamada Trilogia do Apartamento, iniciada por "Repulsa ao sexo" (1964), seguido por "O bebê de Rosemary".

terça-feira, 7 de outubro de 2008

uns desertos

foto Jean-Sebastien Monzani


"Você me deixa a rua deserta

quando atravessa

e não olha pra trás"

Um verso de "Você é linda", Caetano Veloso, disco "Uns", 1983

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

paixão de um homem

foto Welligton Macedo / Divulgação

"Às vezes a gente finge que é feliz. Isso dói, mas a gente se acostuma a mentir para nós mesmos."

Esta é uma das afirmações do cantor Waldick Soriano no documentário "Waldick - Sempre no meu coração", dirigido, muito bem dirigido, pela atriz e agora cineasta Patrícia Pillar.

Lançado ano passado no festival Cine Ceará, o filme percorreu vários outros festivais e mostras pelo país, entre eles o É Tudo Verdade deste ano. Por onde passou, conquistou o público, o que foi uma vitória compensadora. Desde o início o trabalho já sofria um duplo preconceito: o tema, por tratar de um dos principais cantores da chamada música "brega", e por estar à frente do projeto uma atriz de televisão, sem nenhuma biografia atrás das câmeras, e ainda por cima casada com Ciro Gomes. Patrícia Pillar não deu a mínima atenção a tudo que vinha em sentido contrário e tocou seu filme pra frente.

Em quase uma hora de duração o documentário faz um retrato simples, sincero, tocante, embora melancólico, sobre um ícone da música popular brasileira, que passou seus últimos anos na solidão em Fortaleza, e faleceu há um mês, aos 75 anos, vitimado por um câncer, amargurado com a vida. Apesar desse sabor amargo de um bolero, Waldick não perdeu sua postura de homem forte e polêmico. Se foi machão, se foi mulherengo, se foi um beberrão, o filme de Patrícia Pillar se exime de qualquer tipo de julgamento. E isso com muita elegância. Uma elegância feminina de olhar com a câmera um personagem importante da nossa música, e um ser humano digno em sua autenticidade.

O documentário acompanha o cantor até sua cidade natal, Caetité, no interior baiano, vai a capital paulista nos lugares onde começou a cantar, revisita algumas das 14 ex-mulheres, abraça antigos amigos, reencontra o filho com quem não tinha boa relação. Com todo esse relato seco e franco, o que se nota em Waldick Soriano é que a vida, a vida apesar de tudo e de todas, foi a grande paixão de um homem, como diz o título de uma de suas canções.

"Waldick - Sempre no meu coração" foi exibido nesta semana no Canal Brasil.

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

amor e sexo

foto Benny Hooper

Amor é um livro - Sexo é esporte
Sexo é escolha - Amor é sorte
Amor é pensamento, teorema
Amor é novela - Sexo é cinema
Sexo é imaginação, fantasia
Amor é prosa - Sexo é poesia
O amor nos torna patéticos
Sexo é uma selva de epiléticos

Amor é cristão - Sexo é pagão
Amor é latifúndio - Sexo é invasão
Amor é divino - Sexo é animal
Amor é bossa nova - Sexo é carnaval
Amor é para sempre - Sexo também
Sexo é do bom - Amor é do bem
Amor sem sexo é amizade
Sexo sem amor é vontade

Amor é um - Sexo é dois
Sexo antes - Amor depois
Sexo vem dos outros e vai embora
Amor vem de nós e demora

Rita Lee, Roberto de Carvalho, Arnaldo Jabor
Cd Rita Lee, Balacobaco, 2003

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Chico César forró y frevo

foto Cris Pereira

Ontem Chico César esteve na FNAC Brasília fazendo um pocket-show, divulgando o seu novo disco, "Franscisco Forró y Frevo", que, para sua surpresa, teve quase todas as músicas cantaroladas pelo público que lotou a pequena sala da livraria.

O disco do cantor e compositor paraibano mergulha no espírito de duas principais festas nordestinas: o carnaval e os festejos juninos, centrando o foco na força dos gêneros que animam essas datas. Depois do camerístico cd "De uns tempos pra cá", lançado em 2006, com participação muito especial do Quinteto da Paraíba, Chico César deu uma guinada na forma musical, levantando a poeira quente e seca dos ritmos do Nordeste. O disco é ótimo.

Claro que o público pediu os clássicos "Mama África", "Mand'ela", "À primeira vista", "Pedra de responsa", que estavam escaladas nos "improvisos". Teve até um inusitado "toca Raul!", e ele reverente ao eterno roqueiro, cantou "Sessão das 10". O baixinho simpático e carismático, contou histórias, conversou com a platéia. O auge no pequeno-grande show foi a música que ele fez em parceria com Rita Lee, "Odeio rodeio", faixa do cd "Compacto e simples", de 2003. Transcrevo a letra abaixo. Assino embaixo.

Odeio rodeio e sinto um certo nojo
Quando um sertanejo começa a tocar

Eu sei que é preconceito, mas ninguém é perfeito
Me deixem desabafar

A calça apertada, a loura suada, aquele poeirão
A dupla cantando e um louco gritando “segura peão”

Me tira a calma, me fere a alma, me corta o coração
Se é luxo ou é lixo, quem sabe é bicho que sofre o esporão

É bom pro mercado de disco e de gado, laranja e trator
Mas quem corta a cana não pega na grana, não vê nem a cor

Respeito Barretos, Franca, Rio Preto e todo o interior
Mas não sou texano, a ninguém engano, não me engane, amor.

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Paul Newman

foto Arquivo NV

Meu caro, bateu uma baita saudade de você. Como se fosse um amigo, uma pessoa próxima. Saudade de tantos filmes em que lhe vi, atravessando as telas, as anotações em meus cadernos de cinema, as leituras e o fascínio das revistas com os astros, com as atrizes, com os diretores. Difícil escolher um filme seu, somente um. Mas no momento me vem à cabeça e ao coração "Butch Cassidy and the Sundance Kid", lá no final dos anos 60, na tela grandiosa do cine São Luiz em Fortaleza, e uma das cenas mais antológica do cinema, você na bicicleta ao som de "Rain drops keep falling on my head", a canção de Burt Bacharach, na voz de B. J. Thomas. Ah, o cinema. O cinema tem disso: de prender pela emoção antes de qualificar pela razão.

Posso dizer, sem dúvida, que conheço sua filmografia, caro Paul Leonard Newman: você fazendo o escultor grego Basílio em "O cálice sagrado", sua estréia em 1954, até o mafioso irlandês John Rooney de "Estrada para Perdição", de 2002. Claro, não vi os dois feitos para a tv, em 2003 e 2005. Mas todo o seu cinema da grande tela está na minha memória afetiva. As cenas, as seqüências de "Marcados pela sarjeta", "Gata em teto de zinco quente", "O mercado de almas", "Doce pássaro da juventude", "O indomado", "Cortina rasgada", "Golpe de mestre", "A piscina mortal", "Inferno na torre", "O veredicto", "A cor do dinheiro", "Fugindo do passado"... e muitas outras imagens retidas na retina.

Eu não tinha me percebido: você já estava com 83 anos...

terça-feira, 23 de setembro de 2008

o americano tranqüilo

foto Miramax Films

- Sabe por que não tem golpe de estado nos EUA?

- Porque lá não tem embaixada dos Estados Unidos - perguntava e logo respondia o espirituoso jornalista e escritor Joel Silveira, falecido ano passado aos 88 anos.

Sobre o assunto, do golpe de estado, é bom rever o filme de Philip Noyce “O americano tranqüilo” (The quiet american), adaptação do romance de Grahan Green, editado em 1955. Ou se preferir, ler o livro, que considero bem melhor, mesmo evitando comparar uma coisa com a outra. O filme é de 2002, com Michael Caine e Brendan Fraiser no elenco. É justamente Fraiser que me incomoda, com aquela cara de caçador de múmias, no papel de um agente da CIA que vai a Saigon de 1952 em plena guerra, envolvida na luta pela libertação do local do domínio francês.

A história é a seguinte: o tal agente, idealista que só, conhece um veterano correspondente do jornal London Times, na pele de Michael Caine, que lhe apresenta uma vietnamita com quem está envolvido, esta interpretada mais do que na pele no belo corpo da atriz Do Thi Hai Yen. Logo o agente também se envolve com a moça, criando um triângulo amoroso que traz uma série de revelações.

Num resumo de uma história de amor, diríamos que o sedutor estadunidense, diante de “nossa” eterna cumplicidade e submissão, apodera-se do coração da “nossa” linda amante. E ainda planta a semente do golpe que transferirá da França para os EUA o comando da força de ocupação no Vietnã. Mas, somente depois da vitória dos heróis Ho Chi Minh e Vo Giap sobre os franceses.

O presidente Lula esteve recentemente com Giap, na cidade de Ho Chi Minh (ex-Saigon), a maior do Vietnã. A visita ao herói nonagenário, que colocou primeiro a França e depois os Estados Unidos com o rabo entre as pernas, talvez tenha despertado em nosso presidente a lembrança de que não é de hoje que as embaixadas estadunidenses patrocinam essas visitas de “americanos tranqüilos”.

A referência aqui é ao senhor embaixador Philip Goldberg, flagrado em articulações separatistas junto às lideranças fascistas de departamentos autonomistas na Bolívia. Elas vêm espalhando o terror e o ódio contra o estado de direito democrático do estado boliviano. Entre os atos de terrorismo, o assassinato racista de “índios sujos”, saque a prédios públicos e sabotagens de gasodutos.

O senhor Goldberg, sabe-se, é hoje o protótipo do americano tranqüilo de Grahan Green. Como embaixador dos EUA na Ex-Iugoslávia, orquestrou a crise separatista que resultou na independência unilateral do Kosovo, ainda não reconhecida por muitos.
fonte da notícia: H S Liberal

quarta-feira, 10 de setembro de 2008

podres poderes

foto Francesca Paraguai

"A mentira está presente em qualquer assunto humano. A civilização é impossível. O homem é como uma praga. Ficam pequenos os grandes conflitos da humanidade. Ficam pequenos em comparação com o conflito do homem consigo mesmo. Pobre gente trabalhadora, caluniadora e fornicadora. Sempre preocupados com o preço das coisas. Sabem que antes de comprar sempre perguntam o preço das coisas? E já não acreditam no bem e no mal. Só acreditam na economia. Estúpidos!"


Trecho da peça "El año del Ricardo", escrita, dirigida e interpretada pela espanhola Angélica Liddell, que de maneira magnífica e incômoda vive um désposta à procura de um partido. Um partido político.

O espetáculo teatral foi um dos melhores que já vi nos últimos tempos. São duas horas e 20 minutos ininterruptos de um texto denso, instigante, com uma pitada reflexiva de Nietzsche, numa encenação que lembra Artaud. Nada fica impune ao tirano que por vezes se traveste de democrata. A narrativa poética e performática de Angélica no palco trata de temas como a decadência da instituição familiar ou o lado negro do ser humano, a morte e o sexo. A autora diz que não faz teatro político. Afirma que segue sua empreitada de insultar a família, o Estado, a Igreja, as instituições, a si mesma. "Crio inspirada nesse monstro", disse numa entrevista. E detalhando o trecho acima, Angélica acredita que "o grande genocídio da nossa época é a economia. Hoje, o poder não reside na ideologia. Reside na economia." Está certíssima.

"El año del Ricardo" encerrou domingo passado, dia 7, em Brasília, o projeto Cena Contemporânea, que trouxe à cidade espetáculos do Brasil e de países como França, Espanha, Portugal, Israel, Alemanha, Inglaterra, Venezuela, Itália, Peru.

sábado, 6 de setembro de 2008

Bezerra de Menezes afinado

Carlos Vereza numa cena de "Bezerra de Menezes". Foto Divulgação

"Glauber Filho anda rindo à toa", diz a notícia do jornal O Estado de São Paulo, sobre um dos diretores do filme "Bezerra de Menezes - o diário de um espírita". O motivo da satisfação do cineasta, que não é herdeiro nem genético nem estético do diretor baiano, é que seu longa lançado semana passada nos cinemas, sem nenhuma força midiática (talvez mediúnica?), surprendentemente bateu em bilheteria nos três primeiros dias filmes como "Os desafinados", de Walter Lima Jr., que veio com todo natural aparato do nome do diretor, só pra começar.

Na exibição de "Bezerra" foram 1200 pessoas por cópia, o que contabiliza 50 mil espectadores de sexta-feira até domingo passado. Manteve alta média durante a semana e a consequência, segunda ainda notícia da Agência Estado na internet, é de que às 44 salas que exibiam o filme foram acrescentadas mais oito.

Vi o filme quarta-feira passada, aqui em Brasília, numa única sala num dos maiores e mais tradicionais shoppings da Capital. Sessão das 19h10. Sala lotadíssima. Sentei desconfortavelmente no chão. E assisti ao filme com uma satisfação muito particular. Glauber Filho e o Joe Pimentel (o co-diretor que a matéria do jornal esqueceu de incluí-lo no "riso à toa"), são meus conterrâneos, amigos, companheiros dos mesmos sets profissionais, da minha mesma geração de cinema em Fortaleza. Fiquei feliz em ver tanta gente assistindo ao filme deles. Gostei do filme, mas tenho resalvas quanto ao roteiro e a interpretação de alguns atores, assunto que abordarei depois aqui neste espaço numa análise mais detalhada.

Então, caro articulista do jornal paulista, Glauber Filho e também Joe Pimentel, não estão rindo à toa. Estão rindo merecidamente. A conquista de público no cinema brasileiro é sempre motivo de satisfação, e até mesmo de vitória. Vide a pilha de baboseira de filmes americanos lançados goela abaixo como se fossem grande coisa da cinematografia mundial.

É bem verdade que o filme do Glauber e Joe tem um público direcionado, no caso a comunidade da doutrina espírita, que é um detalhe que deve ser considerado, mas não exatamente determinante, porque trata da biografia de um personagem na história religiosa do país, como já foi de Padre Cícero e poderia ser de Frei Galvão. E até onde os conheço, os diretores não são espíritas. O que lhes dá um devido distanciamento. Glauber e Joe sequer são católicos praticantes. Batizados e jogados no mundo, vivem na árdua e custosa doutrina de fazer cinema no Brasil.

sábado, 30 de agosto de 2008

todos os filmes

foto Arquivo NV

"Todos os filmes são iguais, mas terminam de forma diferente."
François Truffaut.


Na foto acima, Truffaut dirige Jacqueline Bisset em "A noite americana", 1974.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

uma nova bossa

foto Divulgação


Os caras do BossaCucaNova fazem uma mistura criativa da música eletrônica com clássicos da Bossa Nova e outros gêneros da boa música brasileira. Estão lá harmoniosamente remixados Tom Jobim, Caymmi, Caetano, Marcos Valle, Chico Buarque, e muito mais. Uma batida diferente, como diz o título do primeiro dos três discos do grupo. Os cucanovas são Marcelino Da Lua, Alex Moreira e Márcio Menescal, filho de Roberto Menescal, todos criados ali pelo Posto 6, na zona sul carioca. Estava na hora dessa gente bronzeada mostrar seu valor.

segunda-feira, 25 de agosto de 2008

como dois e dois são cinco


foto Fábio Motta/AE

Eu queria ter ido a esse show: Caetano Veloso e Roberto Carlos juntos, homenageando Tom Jobim e os 50 anos da Bossa Nova, em encontro histórico no Teatro Municipal no Rio de Janeiro, sexta-feira passada, 23.

Mas ando muitíssimo decepcionado com o Rei, que despencou ladeira abaixo no meu conceito e admiração depois da burrada que fez, proibindo o livro de Paulo César de Araújo, "Roberto Carlos em detalhes", a mais completa - se não for a definitiva - biografia sobre o maior ídolo da música brasileira.

Impressionante como a mídia esqueceu completamente o assunto. Não se fala mais nisso. No ano passado muito se falou sobre esse livro que se transformou em um dos mais polêmicos da história do Brasil. Alguns artistas e colunistas comentaram a obra, como o próprio Caetano, o então ministro Gilberto Gil, a Xuxa-da-literatura e agora biografado Paulo Coelho, Zuenir Ventura, Carlos Heitor Cony, Elio Gaspari e Nelson Motta, todos defendendo o livro, indignados com a proibição imposta pelo biografado, o que dá a dimensão do absurdo do caso. Até mesmo o jurista Saulo Ramos, que foi advogado do Rei, definiu o trabalho de Paulo César, como uma "biografia perfeita".

O livro é uma obra-prima. Sou um leitor compulsivo de biografias. E de todas que li essa foi a mais completa, comovente e de incontestável qualidade literária. Apesar de ser uma biografia não autorizada, não há uma linha sequer que vulgarize fatos, calunie ou atinja a honra do personagem. Foram 15 anos de pesquisa, trabalho e paixão. Divididos em essenciais capítulos, o livro faz entender toda a complexidade do homem simples que se tornou o maior ídolo do país. E exatamente pelo valor da abordagem, "Roberto Carlos em detalhes" é um livro que passa pela história da música brasileira: o rádio, a bossa-nova, o rock, a televisão, e todos os nomes importantes que se entrelaçam nesses gêneros e ciclos.

Mas o Rei emburrou, literalmente. Embruteceu, empacou, amuou-se. Decaiu, retrocedeu, recrudesceu. Equivocado e mal assessorado, moveu ação judicial contra o escritor. Ganhou a causa, e em abril de 2007 a justiça mandou tirar o livro de circulação. Foi estampada nos jornais uma foto de um caminhão recolhendo as caixas com os exemplares que estavam no estoque na Editora Planeta. A cena é repulsiva. O caminhão seguiu para um depósito na cidade de Santo André, São Paulo. Dizem que o Rei mandou queimar os 11 mil exemplares. Porque ele é uma brasa, mora! Ou numa solução mais "leve", reciclados em toneladas de papel. Uma coisa ou outra, procuro agora um adjetivo maior que "repulsivo", que escrevi acima. É uma contradição para quem ao longo da carreira cantou o amor, a paz e a tolerância. Apesar de toda a repercussão negativa do episódio, o livro foi um best-seller no curto período nas livrarias, e virou raridade.

Graças à internet, está disponível em download em alguns blogues indignados. Isso o Rei não conseguiu impedir com sua atitude inquisitória.

Paulo César de Araújo disse que apesar do ocorrido não nutre ressentimentos pelo cantor, e crê que a questão passa pela legislação brasileira. Tudo bem, é muito nobre de sua parte, caro Paulo César, mas desde a sentença que não consigo escutar Roberto Carlos como antes. Fico com o livro. Mas queria ter ido ao show. Caetano bem que poderia ter aproveitado a proximidade nos ensaios e conversado sobre a importância do livro, já que ele se manifestou em elogios à epoca. Mas nem o amigo-de-fé-irmão-camarada Erasmo Carlos ousa tocar no assunto.

Fiz uma busca na internet atrás de uma foto para esta postagem, e me decidi por essa aí do ensaio. No show, aquele terno azul do Roberto é horroroso. Já basta ter que agüentar esse corte de cabelo dele em qualquer foto. Não dá.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

a cor do dinheiro

foto TV Zero

As cantoras Maroca, Poroca e Indaiá, conhecidas como Ceguinhas de Campina Grande, não estão colhendo os frutos do sucesso de crítica do documentário "A pessoa é para o que nasce", que trata da vida e da obra das três irmãs. Elas se queixam de abandono, afirmando que o diretor do filme, Roberto Berliner, deixou de fazer os repasses financeiros para o trio.

Segundo uma das irmãs, em reportagem no jornal paraibano Diário da Borborena, após as filmagens, Berliner enviava mensalmente a quantia de R$ 1 mil. Depois de um ano teria caído para R$ 120,00. E hoje, não recebem mais nada. Do outro lado, o cineasta justifica a interrupção da ajuda por conta do fracasso do filme nas bilheterias, apesar da boa repercussão e prêmios em vários festivais.

O documentário, de 2004, surgiu após o diretor Roberto Berliner conhecer as três irmãs durante as filmagens de uma série de televisão em Campina Grande, o "Som das ruas", lembram-se? Veiculado pela TV Cultura, a série buscava músicos anônimos pelo interior do Brasil.
O longa "A pessoa é para o que nasce", de 84 minutos, exibe a rotina das mulheres e revela as curiosas estratégias de sobrevivência, das quais participam parentes e vizinhos. Mergulha na história delas, flagrando uma trama complexa de amor e morte, miséria e arte. E pelo que se vê - e elas também, sem trocadilhos - tudo continua como antes, como se cumprisse fielmente um destino que diz o título do filme.

quarta-feira, 20 de agosto de 2008

tempus

"E la nave va", 1983

"Existem três formas de tempo: o passado, o presente e o reino da fantasia."

Federico Fellini

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

o silêncio do cinismo

foto Getty Imagens

Na Folha de São Paulo de terça-feira passada, dia 12, o jornalista Janio de Freitas acusa, com acurada sensibilidade, o cinismo com que o mundo assiste à hipocrisia das críticas de Bush à ferocidade bélica entre Rússia, Geórgia e Ossétia do Sul. Como se ele, o little Bush, não fosse o invasor e destruidor do Iraque, ainda ocupante do Afeganistão e ameaçador do Irã.

Para o jornalista, “a pusilanimidade dos governantes pelo mundo afora está respaldada e é disseminada pelas insuficiências e pelos comprometimentos do jornalismo, cujos recursos inovadores... pouco ou nada se acompanham de nova essência”.

Janio esclarece que primeiro a Geórgia, armada e treinada com “ajuda” dos EUA, atacou e ocupou o enclave autônomo da Ossétia do Sul, onde três quartos da população é russa. Ele questiona os meios de comunicação internacionais que não suspeitaram nem perceberam a ação dos EUA, nem pressentiram a sua conseqüência.

Tendo Washington como exemplo de desrespeito aos contratos multilaterais, a Rússia optou por desprezar negociações e diplomacia estratégica. E repôs em prática a ferocidade herdada do czarismo. Por que a surpresa, agora, para o grande jornalismo?

O colunista da Folha lembra que as previsíveis vítimas civis, mulheres, crianças e idosos (foto) são objetos do sacrifício injustificável e impiedoso. Eles mereceriam ao menos que o jornalismo se pusesse acima da pusilanimidade dos governantes. E não reproduzir e disseminar cinismo com o silêncio de tudo o que sabe.

fonte Boletim HS Liberal

quarta-feira, 13 de agosto de 2008

cartas do passado

foto Divulgação

O belíssimo documentário "Cartas a uma ditadura", da diretora e atriz lusitana Inês de Medeiros (foto), foi um dos destaques na 31ª Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, ano passado, e até agora não se tem notícias de lançamento no circuito comercial.

O filme traz à luz um pedaço sombrio da história de Portugal. Ao destampar o baú onde estavam guardadas cartas de apoio à ditadura, escritas em 1958, a cineasta revela o misterioso Movimento das Mulheres Portuguesas e desvenda parte do pensamento que sustentou Salazar no poder por 40 anos.

Em entrevista à época da exibição do filme na Mostra, Inês definiu o longo governo salazarista como a "ditadura da ignorância e da miséria". Como são todas as ditaduras. Mas no caso a definição da cineasta se explica mais pela paranóia do ditador de ter raiva de tudo que significasse progresso. O tirano Antonio de Oliveira Salazar (1889-1970) dizia: “acusam-me de não ensinar os portugueses a ler. Mas querem que eles leiam o que?” Não por acaso as pessoas estudavam até a quarta classe. Receber apoio através de cartas era mesmo uma contradição.

O filme, de 60 minutos, uma co-produção Portugal, França e Bégica, ganhou o Troféu Bandeira Paulista de melhor média-metragem. No DocLisboa de 2007 recebeu o conceituado Prêmio Atalanta para Melhor Documentário Português.