domingo, 30 de setembro de 2018

aquela estrada ali em frente

Trecho inicial da canção Caso comum de trânsito, faixa 4 do lado A do disco Coração selvagem, que Belchior em 1977.
E eu respondo assim:
Saudade nesses 17 meses hoje que você não morreu... e que existe um dia que é esperança que se multiplica: ontem uma geografia feminina em nosso tempo e lugar entoou e puxou o canto #elenão.

a voz do Brasil

Em uma festa de réveillon nos anos 50, na casa do diretor da Rádio Nacional, vários convidados fizeram fila para cumprimentar Getúlio Vargas.
Ao aproximar-se uma jovem cantora em início de carreira, o Presidente apertando-lhe a mão disse: "menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti".
A partir dessa data, Angela Maria ficou conhecida como "A Sapoti", uma fruta tão doce quanto a voz da cantora, que em primeiro momento ela entendeu como "jabuti" e não gostou.
Episódios como esse estão na biografia Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil, do jornalista e pesquisador Rodrigo Faour, lançada em 2015.
A cantora faleceu no final da noite de ontem, sábado, aos 89 anos, em São Paulo. Estava internada há mais de um mês e não resistiu a uma infecção generalizada.
Tornamo-nos eternos no coração de quem nos ama. O Brasil te ama, Angela Maria.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

#elenão


amor

Em um trecho do documentário Yorimatã, de Rafael Saar, 2015, a cantora e compositora Lucina fala de sua relação com a parceira de música, de vida, Luli, durante mais de trinta anos.
A dupla não fez concessões a uma estética musical imposta pelas gravadoras, e colocaram em prática o ideário da contracultura, rompendo com padrões de comportamento e costumes, numa relação amorosa a três com o fotógrafo Luiz Fernando Borges, inusual, libertária, feliz.
Luli faleceu na última quarta-feira, aos 73 anos. Ela continua nas canções, na saudade de Lucina, ligadas na essência, nos corações siameses, como a imagem fluida, etérea, incorpórea, da capa do primeiro disco, 1979.

quinta-feira, 27 de setembro de 2018

então eu escuto

A cantora, compositora, instrumentista e escritora carioca Luli é uma das mais autênticas artistas da música brasileira. Autenticidade que se manifestava pelo comportamento, pensamento e escolha de vida pessoal, em plena década de 70, quando os costumes mais avançados e libertadores eram vistos de viés pelo conservadorismo de uma elite afinada com o regime militar vigente.
Luli, que se destacou na dupla com Lucina, gravando ótimos discos independentes e conceituais, não só rompeu padrões de pressões de gravadoras e amarras estéticas da música, como ousou na prática o ideário da contracultura, ao viverem um casamento a três com o fotógrafo Luiz Fernando Borges (falecido em 1990) e os quatro filhos da relação.
É autora de mais de 800 canções, entre elas Fala e O vira, compostas com João Ricardo, e cristalizadas como mais tocadas do clássico disco do Secos & Molhados, 1973. Aliás, Ney Matogrosso tornou-se um intérprete particularmente emblemático, identificado com as canções da dupla. Pedra de rio, do seu primeiro disco solo, Água do Céu – Pássaro, de 1975, e Bandolero, do álbum Feitiço, 1978, dizem bem dessa alquimia entre intérprete e compositoras.
Em 2015 foi lançado Yorimatã, filme documentário biográfico em longa-metragem sobre as cantoras, dirigido por Rafael Saar, selecionado em mais de vinte festivais e premiado em cinco.
A natureza do mar, dos rios e das matas, é a matéria-prima, orgânica, das músicas de Luli, ou Luhli, como passou assinar nos anos 90. O sítio perto do mar em Filgueiras, em Mangaratiba, RJ, abrigou até recentemente o coração e as composições da artista. Ela partiu ontem para outros sítios, aos 73 anos.
Acima, uma das mais belas homenagens que o cinema fez a uma canção e ao seu autor: o ator pernambucano Irandhir Santos, interpreta, coreografa, dubla Ney Matogrosso em Fala numa sequência do ótimo A história da eternidade, que Camilo Cavalcante dirigiu em 2014.
Na cena, as atrizes paraibanas Marcelia Cartaxo e Zezita Matos e a cearense Débora Ingrid.

a serpente

“...e, portanto, pensar nele como um ovo de serpente,
que incubado, deverá, em sua espécie crescer perigoso; 
e matá-lo na casca.”


Fala de Brutus, na peça Julio Cesar, de Shakespeare, escrita em meados do século 16.
A trama gira em torno da conspiração contra o personagem título, que aparece somente em três cenas. Com perfil de psicodrama, patriotismo, amizade e traição, a peça é uma atualíssima reflexão sobre sucessão de liderança e poder, despertando preocupante hipótese de guerra civil.
O cineasta Ingmar Bergman escolheu o termo “ovo de serpente” para o título de seu único trabalho de coprodução Alemanha e Estados Unidos, rodado em 1977.
Ambientado logo após a I Guerra Mundial, o filme é terrivelmente premonitório em seu enredo, ao contar a trajetória de um judeu norte-americano em uma Berlim dos anos 20, arrasada em pobreza e violência, com o caos econômico e político, e um horizonte apavorante nos escombros do que viria na próxima guerra.
O título é apropriadíssimo, “Das schlangenei”/”The serpent’s egg”, pois trata em toda a narrativa dos contornos do nascente movimento fascista e surgimento do nazismo.
De Skakespeare a Bergman, o ovo incubado rompeu a casca e continua apavorando a humanidade. Inclusive no lado debaixo do equador.

você tem fome de quê?

No palco uma personagem oferece um jantar para desconhecidos: envia convites para uma ceia especial, na qual nenhum convidado a conhece. Na peça, os convidados, constituídos pelo público presente, assistem à preparação de um jantar, enquanto a personagem fala do desejo de abandonar o ofício de ser dona de casa para ser bailarina.
Essa é a sinopse de Tudo ao mesmo tempo agora, texto e direção de Maria Vitória, premiado no Edital de Dramaturgia Feminina da Secretaria de Cultura de Fortaleza, que teve estreia em 2014, e volta amanhã, sexta-feira, 28, em apresentação única e gratuita no Teatro Porto Dragão, Fortaleza, às 19h.
Tudo ao mesmo tempo agora é denso, tenso, largo, profundo, inquietante, não se sai dessa ceia impunemente. Reflita enquanto faz a digestão.
Excelente a química de atuação do elenco, aliás, mais do que química, é alquimia com a beleza de quem conversa com a comida.
A partir da premissa do solo-coletivo, a montagem do Grupo Terceiro Corpo tem como conceito dramatúrgico a criação em torno do trabalho do ator.
Na apresentação, os oito primeiros “ilustres desconhecidos” que pegarem os ingressos serão convidados para o jantar. Aceitem o convite das atrizes Maria Vitória, Sara Síntique, Jéssica Teixeira e Nádia Fabrici, todas ao mesmo tempo Úrsula Laura, dona de casa e bailarina. No palco o espectador concretiza-se em terceiro corpo que a magia do teatro proporciona.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

autoria

Quando Paris estava ocupada pelos nazistas, em 1940, um oficial alemão, olhando uma fotografia do painel Guernica, perguntou a Pablo Picasso se fora ele quem tinha feito aquilo. O pintor, então, teria respondido: "Não, foram vocês!".
Pintado a óleo em 1937, o quadro reproduz o bombardeio sofrido pela cidade de Guernica, em 26 de abril daquele ano, pela aviação nazista que apoiava o fascista Francisco Franco, durante a Guerra Civil Espanhola.

pelos muros do país


Instituto de Artes, UnB, 2018

na parede da memória

“Esquecimento e memória são partes do mesmo fenômeno.”
- Paul Ricoeur, filósofo francês, em A memória, a história, o esquecimento, 2007.
Acima, foto de Rubens Venancio, 2017, de uma foto de uma tia, feita por mim em 1984.
Os afetos se ligam. Os parentes se reencontram. O tempo atravessa os olhares. Ou os olhares atravessam o tempo na simetria da fotografia.

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

se você me ouvir cantar...

Uma das mais belas vozes da música cearense se vai nesta manhã de segunda-feira: Rossé Sabadia, vocalista da banda Iris Sativa, que encantou toda uma geração nos anos 80, ao lado de outros grupos talentosos da cena musical em Fortaleza, como Perfume Azul, Budega, Oficina...
Em 1988, Rossé fez uma participação histórica no show de lançamento do disco Fotografia, de Ricardo Augusto, na Bar Pirata, na capital cearense (vídeo acima). Em dueto com a voz de Kátia Freitas, Rossé cantou Canção popular, composição de Ricardo e Luiz Augusto Teles, que abre o lado B do vinil, gravada por outra voz encantadora, Lucio Ricardo, No LP, Rossé interpretou Emoções perigosas, Cotidiano e Tédio ancestral.
Rossé se eterniza no coração de todos que lhe querem bem.

domingo, 23 de setembro de 2018

quando o carteiro chegou...

O livro Il Postino, de Antonio Skármeta, 1986: as lembranças do exilado Neruda contadas ao humilde Mário...
O filme de Michael Radford, O carteiro e o poeta, 1994: as atuações humanas de Philippe Noiret e Massimo Troisi...

E nós todos na Isla Negra: embevecidos de poesia por todos lados.
Pablo Neruda, 45 anos que se foi: na posta-restante de nosso coração, continuam chegando seus poemas..

sábado, 22 de setembro de 2018

começaria tudo outra vez

Gonzaguinha faria hoje 73 anos. A mesma geração de Caetano, Gil, Gal, Bethânia, Jorge Benjor, Chico Buarque, Ivan Lins, João Bosco...
A súbita morte do cantor, aos 45 anos, em 1991, deixou uma vazio na música brasileira, insubstituível como tudo que é uma só vez na vida.
Um dos mais fortes contestadores do regime militar, o cantor tem em sua obra o exemplo de resistência e poética nas canções.
Nestes tempos temerosos, com certeza ele bradaria "a gente quer viver numa nação / a gente quer é ser um cidadão".

cantar e cantar e cantar

"Eu fico com a pureza da resposta das crianças..."
A turminha aí respondendo 'o que é, o que é?' no aniversário de 73 anos do eterno moleque Gonzaguinha.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

o que queremos

"Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja"
- Trecho do texto O direito ao delírio, do escritor uruguaio Eduardo Galeano, lido por ele em um vídeo gravado na Radio 3 da Espanha, em outubro de 2012,
E o que queremos, será.

pérola negra

Zózimo Bulbul foi o primeiro ator negro a participar de novela, fazendo par romântico com a grande Leila Diniz em Vidas em conflito, 1969, na TV Excelsior. Sua atuação marcante ficou também como um símbolo da luta contra o racismo descarado e disfarçado.
Zózimo lutou a vida inteira pelos direitos nas questões da raça negra. Estreou como diretor no curta Alma do Olho, filme considerado subversivo pela censura na ditadura do governo Médici, em 74.
Participou de mais de 30 filmes, entre eles Ganga Zumba, de Cacá Diegues, Terra em transe, de Glauber Rocha, O veneno da madrugada, de Ruy Guerra. Excelente ator, seguro nas suas interpretações, Zózimo chamava a atenção por sua elegância, de uma beleza ébano cativante.
Em 2012 o cineasta Spike Lee o entrevistou para o documentário Go Brazil, go!. Zózimo não viu o filme. Partiu no ano seguinte para libertar outros quilombos. Hoje ele teria completado 81 anos.

domingo, 16 de setembro de 2018

criadores de imagens

“Estudo erudito e ao mesmo tempo técnico, com vernizes de dicção poética, 'O Criador de Imagens' abre seu foco para teóricos e historiadores a respeito de cinema, fotografia e narratividade.
Com a análise de sequências, plano a plano, a ajuda de gráficos e reprodução de fotogramas, o pesquisador nos faz 'ver' no 'intraquadro' a composição de luz, os movimentos de câmera e as metaforizações visuais de ideias e sentimentos envolvidos nas cenas.
Eis um livro que instiga o leitor não só a ver ou rever um dos clássicos do cinema brasileiro, como a conhecer melhor a integridade do legado de seu diretor de fotografia, Mario Carneiro.”

— Carlos Alberto Mattos, jornalista e crítico de cinema, sobre O Criador de Imagens: a luz brasileira de Mario Carneiro, escrito pelo fotógrafo e professor da UFF,  que será lançado hoje no Cine Brasília, na programação paralela do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.
O autor revela na escrita o mesmo talento que tem com a câmera. Miguel Freire fotografou meu curta-metragem O último dia de sol, em película 35mm, preto-e-branco, todo com cenas noturnas, e foi premiado por seu trabalho no 4º Festival de Cinema e Vídeo de Curitiba em 2000.
O criador de imagens é um livro indispensável sobre um dos maiores fotógrafos do cinema brasileiro, devidamente escrito por outro grande fotógrafo.

memórias do cárcere


O 51º Festival de Brasileiro do Cinema Brasileiro viveu ontem, em seu primeiro dia de mostra competitiva, uma noite marcante com a exibição do longa-metragem Torre das donzelas, de Susanna Lira, sobre a ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde estiveram presas militantes que lutaram contra a ditadura militar nos anos 60 e 70.

O documentário traz relatos inéditos, surpreendentes e comoventes de todas encarceradas, entre elas a ex-presidente Dilma Rousseff, aos 23 anos. Com a demolição do Presídio para as construções do Metrô de São Paulo em 1972, o filme remonta, a partir de fragmentos de lembranças de cada uma delas, uma instalação semelhante ao espaço onde estiveram presas, chamado como diz o título do documentário. Nesse cenário se reencontram 45 anos depois para romper com o silêncio e o medo de relatar os horrores de viver sob uma ditadura.
A apresentação do documentário no palco do Cine Brasília, com a equipe e as hoje senhoras que estiveram na “torre”, ficará na história do Festival, pelo forte clima de emoção, o encontro de um passado que não queremos mais diante um presente que nos assusta e um futuro que nos ameaça. Os aplausos de uma sala lotada se repetiram em vários momentos durante a sessão.
Há desejos que nem a prisão e nem a tortura inibem: liberdade e justiça. Há razões que nos mantém íntegros mesmo em situações extremas de dor e humilhação.

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

quando eu me chamar saudade

foto © Vânia Toledo
"Eu só vou fazer sucesso depois de morto", disse o 'nego dito' Itamar Assumpção ao baixista e amigo Paulo Lepetit nos anos 70.
Um dos mais representativos nomes da cena alternativa da música paulistana, o compositor e cantor se foi em 2003, aos 53 anos.
Hoje é seu aniversário de nascimento, 69 anos.

quarta-feira, 12 de setembro de 2018

lugar bonito

foto Bob Wolfeson
"Na minha memória - tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos."
Trecho de uma carta que Caio Fernando Abreu escreveu a um amigo, em 12 de janeiro de 1982, e está no livro O que importa em Oracy, organizado por Fátima Friedriczewski, Froilan Oliveira e Júlio Prates, 2003.
De tantos fragmentos que se destaque em sua vasta literatura, este toca pela concisão poética e pela lucidez e racionalidade ao mesmo tempo.
O autor gaúcho, que escreveu livros de contos, novelas, romances, peças de teatro, traduções (é dele a versão do clássico A Arte da Guerra, de Sun Tzu), tinha exatamente esse laconismo e exatidão na escrita, sem necessariamente ser minimalista. Usava as palavras no espaço certo, sem precisar se estender em sinônimos para total compreensão.
Viveu em período brabo de ditadura militar, foi um dos primeiros a escrever abertamente sobre sexo numa visão dramática, e assumiu sem rodeios sua homossexualidade. Hoje, quando faria 70 anos, com certeza estaria com o coração marcado, congestionado de indignação pela ameaça de obscurantismo em pleno século 21.
O escritor se foi com apenas 47 anos, e ocupa um lugar bonito em nossa lembrança, na literatura brasileira. Onde estiver.

terça-feira, 11 de setembro de 2018

outro 11 de setembro

Hoje, 46 anos do assassinato de Salvador Allende, no Palácio de La Moneda cercado e bombardeado pelas tropas do fascista Augusto Pinochet, com apoio total do governo norte-americano, sob os aplausos de Nixon.
A data é um marco no terrorismo de Estado.

domingo, 9 de setembro de 2018

em vez de tomar chá com torrada

"Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo."
Bilhete encontrado no bolso de Assis Valente, após sua morte, na quinta tentativa de suicídio, em 1958, no Rio de Janeiro. O compositor baiano estava afundado em dívidas, não recebia os direitos autorais de seus sambas, muitos deles gravados por Orlando Silva, Altamiro Carrilho, Elvira Pagã, Carmem Miranda, por quem nutria grande paixão, e se sentiu por ela menosprezado ao recusar o samba-exaltação Brasil pandeiro. "Assis, isso não presta. Você ficou borocoxô”, teria tido a cantora dos balangandãs.
A composição foi gravada tardiamente pelo conjunto vocal e instrumental Anjos do Inferno, nos anos 40, fez sucesso, e ficou conhecida pelas novas gerações com a gravação dos Novos Baianos, em 1972, no ótimo disco Acabou chorare: "Brasil, esquentai vossos pandeiros / iluminai os terreiros / que nós queremos sambar”.
As anteriores tentativas de suicídio de Assis Valente seriam cômicas se não fossem trágicas. Na primeira vez, após uma tensa sessão de cobrança da cantora Elvira Pagã, cortou os pulsos com um pedaço de lâmina de barbear e desmaia. De uma outra vez, pulou do alto do Corcovado e frondosas árvores ao pé do morro amorteceram a queda.
Resoluto, após a uma visita inglória ao escritório de direitos autorais para cobrar o que lhe cabia, “vestiu uma camisa listrada e saiu por aí”, como diz sua canção, senta-se em um banco de praça na Praia do Russel, e ingere guaraná com formicida. Tinha apenas 47 anos, muitas dívidas, centenas de composições, uma separação, uma filha adolescente, e muita solidão.
“Eu pensei que todo mundo / fosse filho de Papai Noel...”, uma das mais tradicionais canções natalinas, Boas festas, é de sua autoria. A letra é muito apropriada a sua biografia atribulada, que teve uma pesquisa apurada no livro Quem samba tem alegria, do jornalista Gonçalo Junior, lançado em 2014, onde revela os sérios problemas do compositor com a depressão e dependência química.
Assis pensou que felicidade fosse uma brincadeira de papel.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Mark the knife

Um casal quase atropela um jovem numa estrada deserta. Oferece-lhe uma carona. Convida-o a passar o dia velejando em alto mar. A partir daí, estabelece-se uma disputa entre os dois homens, mediada pela mulher.

Com esse enredo simples, o cineasta Roman Polanski, polaco nascido na França, desenvolve uma narrativa minimalista e tensa em seu primeiro longa, A faca na água (Nóz w wodzie), 1962, o único rodado na Polônia.

Com uma ousada e sofisticada experimentação de enquadramentos, o cineasta exprime em símbolos, poucos diálogos e bela fotografia em branco e preto, um exercício de estilo e discussão sociopsicológica.

segunda-feira, 3 de setembro de 2018

museu sem passado, museu sem amanhã


descaso

foto © Ricardo Moraes
"A pauta principal é o descaso com a ciência. Porque o museu não tem mais como recuperar. Podem até restruturar o museu posteriormente, o que acho muito difícil. Mas o que foi perdido ali nunca vai ser recuperado. Vejo esse evento como o principal marco do descaso com a ciência no Brasil."
"O diretor e o vice-diretor vinham pedindo dinheiro ao BNDES ao longo de anos. E o dinheiro tinha sido liberado, só que não saía, para reformar o Museu."
- Igor Kessous, doutorando em Botânica no Museu Nacional do Rio de Janeiro

história destruída pelo descaso

foto © Ricardo Moraes
Toda a coleção da Imperatriz Teresa Cristina, afrescos de Pompeia, trono do Rei de Maomé, acervos linguísticos, históricos e científicos obtidos boa parte na época do império. 200 anos de história que se foram com o incêndio do Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, na noite de domingo.

o quadro que dói mais

"Esta dor na alma brasileira, esta tragédia nacional irreparável era anunciada.
É preciso que se diga. Do descaso, do desgoverno. Há responsáveis e culpados sim. Temos, entre nós, cúmplices sim. Dentre tantas maldades e aberrações, os crápulas que assaltaram o poder, à revelia do voto popular, à custa da nossa democracia, cortaram verbas, sucatearam ferozmente, sistematicamente e intencionalmente as nossas cultura e ciência. Eles detestam artistas e cientistas. Censuraram exposições de arte, perseguiram artistas, desmereceram a pesquisa científica. São estúpidos poderosos, são ricos ignorantes. Eles subjugam a arte. Eles menosprezam o conhecimento. Eles jamais toleraram o real fortalecimento experimentado no País, o protagonismo internacional, a ascensão social. Eles não têm projeto de Nação. São escravagistas, só pensam no si, na própria classe, em seus cúmplices no mercado e no império. Eles odeiam o Brasil.
Entregaram nossas riquezas e tecnologias, manipularam a população, semearam o ódio entre nós, fizeram da justiça, política, destruíram nossas conquistas sociais, precarizaram nossos direitos trabalhistas históricos, perseguiram e mataram nossos índios e pequenos agricultores, criminalizaram nossas lideranças populares. Eles têm repugnância ao povo brasileiro.
Por fim, um trágico fim. Eles conseguiram literalmente queimar a nossa memória, o nosso caríssimo patrimônio, fustigar e fazer sangrar a nossa identidade.
Eles odeiam o Brasil. Eles incendiaram o Brasil."
- Drawlio Joca,  fotógrafo cearense.

cinzas


epitáfio

"Todos que por aqui passem, protejam esta laje, pois ela guarda um documento que revela a cultura de uma geração e um marco na história de um povo que soube construir seu próprio futuro."
Lápide em frente ao Museu Nacional do Rio de Janeiro

domingo, 2 de setembro de 2018

o nosso estrangeiro

O antropólogo e etnólogo Claude Lévi-Strauss, aquele que "detestou a Baía de Guanabara: pareceu-lhe uma boca banguela", segundo lembrava Caetano Veloso na música O estrangeiro, no disco homônimo de 1989, afora essa observação, foi um grande pesquisador e entusiasta da história brasileira.
A citação do compositor baiano teve inspiração no livro Tristes trópicos, clássico do intelectual francês, lançado em 1955, um ensaio etnográfico romanceado, onde estão as bases do estruturalismo e da antropologia moderna.

A obra de 500 páginas é um tratado sobre o processo civilizatório, um extraordinário relato com sinceras reflexões sobre a viagem que fizera ao Brasil nos anos 1930. Lévi-Strauss conviveu com os índios bororo, nambiquaras e cadiuéus nas matas amazônicas, observando os mitos e rituais, o que lhe deu a certeza de que não se tratavam de selvagens, e sim donos de uma lógica complexa e sofisticadas estruturas sociais, fazendo uma análise comparativa das religiões do velho e do novo mundo.
Com mais de 30 livros publicados, o antropólogo voltou ao Brasil no começo dos anos 80. Gostava do nosso carnaval, tinha especial predileção pela marchinha Mamãe eu quero, de Jararaca, gravada por Carmen Miranda.
No período em que viveu aqui, Lévi-Strauss fotografou muito o dia a dia da nossa realidade, os costumes, as cidades e seu povo. Revelou-se nossa enorme gratidão.

o passado em chamas



foto © Uanderson Fernandes
O incêndio que está destruindo o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Rio de Janeiro, é o retrato do descaso do Brasil atual.
Fundado por Dom João VI no começo do século 19, os três andares abrigavam 200 anos de história. Documentos da época do Império, fósseis; coleções de minerais, artefatos greco-romanos e a maior coleção egípcia da América Latina viraram cinzas. A memória da geologia, botânica, zoologia e arqueologia.
Há tempos o Museu sofria com problemas de financiamento para manutenção do acervo e da estrutura do prédio. De mais de 500 mil reais de orçamento previstos para este ano, a instituição só recebeu R$ 54 mil, segundo a UFRJ, órgão ao qual o Museu está vinculado.
foto © Uanderson Fernandes

sábado, 1 de setembro de 2018

"revogadas as disposições em contrário"

Em 1° de setembro de 1969 foi assinado Ato Institucional Nº 12, que colocava os ministros da Marinha, Exército e Aeronáutica em nome do Presidente da República, Costa e Silva, temporariamente impedido do exercício de suas funções por motivo de saúde. Ou seja, substituíram um por três como seis por meia dúzia.
No mesmo dia foi ao ar a primeira edição do famigerado Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão, com os âncoras Cid Moreira e Hilton Gomes.
Sempre teve tudo a ver.