sábado, 30 de junho de 2018

parceiro cidadão



“Conheci Belchior em São Paulo, no restaurante Carreta. Depois, convidei-o para jantar lá em casa. Aí, violões em punho, passamos a improvisar. Fiquei logo ligado no estilo agressivo dele. Aquela ânsia de dizer tudo, o entusiasmo, a garra de nordestino rural e urbano. Mais entrosados, julguei uma consequência lógica trabalharmos juntos. Éramos complementares um do outro: ele, mais o verbo, a ousadia, a passionalidade. Eu, mais o sossego, o arcabouço musical, o cuidado técnico. Belchior é um cara extremamente profissional, um trabalhador incansável. Meu tempo é bem menos acelerado que o dele. Encontramos um meio termo, um entrou na personalidade do outro."
“Com Toquinho, retomei, pelo menos nessa primeira experiência, minha vertente nordestina, que é meu lado mais lírico, mais puro. Sozinho seria praticamente impossível fazer essas canções, pois a atualidade de meu trabalho me leva para caminhos bem diferentes. Um trabalho em parceria possibilita mostrar a técnica como letrista e a disponibilidade criativa. Entre nós não havia nada preestabelecido, o trabalho atingiu uma espontaneidade cujo resultado ficou a cara do Toquinho com as minhas letras."
De Toquinho para Belchior. De Belchior para Toquinho.
Os depoimentos estão em Histórias de canções: Toquinho, de João Carlos Pecci e Wagner Homem, páginas 159/160, Editora Leya, 2010, livro que conta como aconteceram as parcerias do cantor e violonista com dezenas de outros compositores.
Com Belchior, Toquinho fez seis canções, todas gravadas no LP de 1978, que tem no subtítulo o nome da faixa que ficou mais conhecida, Toquinho cantando - Pequeno perfil de um cidadão comum, ainda mais célebre pela interpretação do cantor cearense em seu quinto disco, "Era uma vez um homem e seu tempo", 1979.
Há um ano e dois meses hoje que "o anjo do Senhor (de quem nos fala o Livro Santo) / desceu do céu pra uma cerveja, junto dele, no seu canto / e a morte o carregou, feito um pacote, no seu manto..."
Mas há quatorze meses que Belchior não morreu.
Na foto acima, Belchior no show de lançamento do disco de Toquinho, São Paulo, 1979

gente de minha rua, como eu andei distante...


Belchior em seu exílio voluntário em Passa Sete, RS, fotografado por Ingrid Trindade, 2013.
Há quatorze meses que ele está encantado com uma nova invenção...

uma frase pra mim dentro de suas canções...

Tenho ouvido muito seus discos, conversado com pessoas, caminhado meu caminho, papo, som, dentro da noite, e tenho muitos amigos que acreditam nisso, sim! Tudo muda!
Sons, palavras, são navalhas nesses quatorze meses cortando a alma de saudade.

no Corcovado quem abre os braços sou eu...



foto © Acervo Galba Gomes
Belchior ao lado de seu amigo Galba Gomens no alto do Corcovado, RJ, 1970.
Hoje um ano e dois meses de como é perversa a saudade no meu coração...
s

Copacabana, esta semana, o mar sou eu...

foto © Acervo Galba Gomes
Belchior ao lado do amigo Galba Gomes, na Praia de Copacabana, 1970
Nesses quatorze meses nem te lembras de voltar...

sexta-feira, 29 de junho de 2018

a vez de Pedro, a voz de Paulo

Na liturgia católica, Pedro e Paulo são considerados como exemplos de apóstolos fiéis a Cristo.
Hoje é celebrada a festa em homenagem aos dois santos. A escolha da data é muito remota, não se sabe se foi marcada pelo dia da morte de um deles, ou se pelo traslado de seus restos de um local para outro mais seguro.
Na tradição do Cristianismo, a remoção dos restos mortais e dos objetos pertencentes aos santos, era um ritual que se estendia por horas, com procissões e vigílias madrugada a dentro.
Não por coincidência, nesta data, no Vaticano, o Papa entrega aos bispos e arcebispos o símbolo primário do cargo. Pedro foi o primeiro a ocupar o trono onde está o argentino Francisco, e ficou com a tiara de Sumo Pontífice por 37 anos.
Nas Igrejas Ortodoxas a data é também lembrada e festejada com a celebração de Jejum dos Apóstolos.
Ao longo dos séculos, esses movimentos ecumênicos foram marcados por alterações, adaptações, o que faz o mundo moderno confundir religião com fé.
No Brasil, seguimos o costume de comemorar com festas, bandeirinhas, comidas típicas, danças. E, sobretudo, com as chamadas "simpatias", como casar ou alcançar graças mais difíceis.
Durante o mês apelou-se para Santo Antônio, São João... Agora é com Pedro. Paulo continua na dele, é o biógrafo do Cristianismo.
(A reprodução da imagem acima é um grafite do século IV, encontrado em uma catacumba romana onde supostamente estavam os dois santos).

roda morta de vergonha

Foi uma vergonha em rede nacional a "entrevista" com a pré-candidata à presidência da República Manuela D'ávila, no último dia 25.
O que aconteceu no desprograma da TV Cultura foi uma situação de lamentável expressão caricata e análoga àquela dos torcedores brasileiros assediando aos berros a garota russa.
Como dizia Millor Fernandes, o Brasil tem um enorme passado pela frente.

quinta-feira, 28 de junho de 2018

Raul rock Seixas

O pantera Raulzito em 1964, aos 19 anos.
"Há muito tempo atrás na velha Bahia / eu imitava Little Richard e me contorcia / as pessoas se afastavam pensando / que eu tava tendo um ataque de epilepsia".
O bom e eterno Raul Seixas, na faixa de abertura de seu último vinilzão, A panela do diabo, que ele gravou com Marcelo Nova, lançado em 1989, ano em que ele partiu na sombra sonora de um disco voador, aos 44. Hoje ele faria 73.
Das doze músicas, oito foram compostas e cantadas pelos dois, inclusive a citada, Rock'n'roll, num dueto que expressa o saudável encontro do conterrâneo admirador e seu ídolo. A letra é uma maravilha de curtição nos rockzinhos que surgiram na década de 80. A dupla reverencia o rock-and-roll genuíno, e ousa dizer que nunca vi Beethoven fazer / aquilo que Chuck Berry faz. Nem o banquinho e o violão bossa-novista escapa, "bosta nova pra universitário / gente fina, intelectual / oxalá, Oxum, dendê oxossi de não sei o quê".
Mas Raul não é bobo, sabe onde cutuca, onde tem raiz no tronco de outro, "não importa o sotaque / e sim o jeito de fazer / pois há muito percebi que Genival Lacerda / tem a ver com Elvis e com Jerry Lee".

somewhere over the rainbow

No começo da madrugada de 28 de junho de 1969, oito policiais, alguns deles à paisana, entraram no bar The Stonewall Inn, em Nova Iorque, e aos gritos anunciaram que estavam tomando o lugar, ocupando o território, com a violência característica da arbitrariedade e preconceito. Predominante gay, o local era constantemente alvo de batidas policiais.
O ataque daquela noite, porém, teve repercussão inesperada e histórica. Motins reverberaram seguidamente entre os frequentadores, como reação às represálias, à discriminação e cerceamento da liberdade.
Os protestos desencadeados culminaram com a marcha ocorrida no dia 1º de julho de 1970. O evento tornou-se precursor das atuais Paradas do Orgulho Gay.
Renato Russo lançou em 1994 o seu primeiro disco solo, intitulado The Stonewall Celebration Concert, em comemoração aos 25 anos dos motins. Com 21 belíssimas canções em inglês, de clássicos de Irvin Berlin e Leonard Berstein ao pop-folk da alemã-britânica Tanita Tikaram, passando por Bob Dylan, Madonna e Billy Joe, o disco é precioso pelo repertório e pontuação ao histórico acontecimento.
É lamentável que essa onda conservadora, direitista, fascista, que circula e avança no Brasil e no mundo em pleno século 21, seja preocupantemente proporcional a tantos direitos adquiridos, pela liberdade, pela paz, pelas diversidades, por todas as escolhas que se conquistou ao longo de décadas.
Do massacre na boate Pulse, em Miami, em junho de 2016, ao espancamento até a morte da travesti Dandara dos Santos, em Fortaleza, ano passado, é terrivelmente assustador, só revela um retrocesso inimaginável em um mundo em que a tecnologia e a ciência evoluem diametralmente opostas ao desmoronamento dos princípios, dos valores, em direção à barbárie.
Lembrando Eduardo Galeano, continuemos andando, lutando, para isso significam as utopias, para que não fiquemos parados. A meta é caminhar em direção além do arco-íris.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

da janela lateral


São Gerais

foto Nirton Venancio, Araxás, MG, 2012
Raízes do chão de Minas. Chão roseano. Rosa mexendo-se silenciosamente. Minas ainda há, Drummond. Minas é o avesso do meu sertão nordestino. Lá disseca minha vida seca Graciliano. Cá no chão de Minas veredas de um grande sertão Guimarães. Fabiano emigra e vai de encontro a Riobaldo. Sinhá-Vitória conversa com Diadorim. O sertão vai virá São Francisco que vai bater no meio do mar. Minas são gerais.
Eu, nordestino vida seca, parabenizo os 110 anos de nascimento do grande Guimarães, Rosa do sertão mineiro.
foto Nirton Venancio, Araxás, MG, 2012

perto do Rosa

"Só se pode viver perto de outro, e conhecer outra pessoa, sem o perigo de ódio, se a gente tem amor. Qualquer amor já é um pouquinho de saúde, um descanso na loucura.”
- Riobaldo, o jagunço letrado e seus questionamentos universais, protagonista narrador em Grandes sertões: veredas, 1956, obra-prima da literatura brasileira, de um dos nossos maiores escritores, Guimarães Rosa.
110 anos hoje de seu nascimento. Sua literatura é muito mais do que um pouquinho de saúde no sertão dentro de nós, um descanso nas veredas deste mundão afora.

a sós com Rosa

"Eu estou só. O gato está só. As árvores estão sós. Mas não o só da solidão: o só da *solistência."
- Guimarães Rosa
*Termo usado pelo escritor mineiro para definir a solidão da existência de tudo que vive.
Hoje 110 anos de solistência de Rosa.

terça-feira, 26 de junho de 2018

aquele abraço!

"o meu projeto Brasil... chama-se um Gilberto Gil..." *
Parabéns pelos 76 gils num só gilberto. Parabéns por suas canções, suas letras, sua beleza mil.
* trechos de Jeito de corpo, de Caetano Veloso, disco Outras palavras, 1981.

temos sombrios

Texto lúcido, reflexivo e oportuno assinado pelo sociólogo e publicitário Fernando Costa, no jornal O Povo:

as barras de cada dia

"A sociedade de consumo consegue tornar permanente a insatisfação", dizia o sociólogo polonês Zygmunt Bauman.
E nada mais icônico que possa ilustrar a compulsão do mundo contemporâneo do que o código de barras, essa representação gráfica de dados alfanuméricos, escaneados por maquininhas com raios vermelhos, decodificando o consumismo desenfreado de cada dia.
Oficialmente a primeira vez que o código foi lido comercialmente ocorreu em um supermercado em Ohio, EUA, em 26 de junho de 1974. O produto escaneado foi um simples tablete de chicletes Wrigley's, não tão à toa um produto tipicamente de costume norte-americano, descartável, insatisfatório, impermanente...

caminhando e cantando

Há 50 anos mais de 100 mil pessoas marcharam na Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, em protesto contra a ditadura militar, sob o comando do general Costa e Silva.
A manifestação, inicialmente estudantil, foi incorporada por vários segmentos da sociedade civil. Políticos, intelectuais, artistas, aderiram à passeata tornando uma das mais significativas expressões populares do Brasil.


Muitos fotógrafos cobriram o acontecimento. Mas as imagens que ficaram marcadas foram as do grande Evandro Teixeira, à época do Jornal do Brasil. Entre tantos nomes famosos na multidão, Chico Buarque, Caetano Veloso, Edu Lobo, Torquato Neto, Eva Todor, Tônia Carrero, Eva Wilma, Leila Diniz, Odete Lara, Norma Bengell, Arduino Colassanti, José Celso Martinez, Vinicius de Moraes, Othon Bastos, Nana Caymmi e seu então marido Gilberto Gil, que fazia aniversário de 26 anos naquele histórico dia 26.


segunda-feira, 25 de junho de 2018

carente profissional

"No entanto, o que percebo nas redes sociais é uma necessidade premente e constante de autoafirmação, onde percebe-se o movimento de convencer o outro do que ainda não estamos convencidos em nós mesmos. Em outras palavras, as redes sociais é o grande termômetro da insatisfação e insegurança das pessoas consigo mesmas."
Trecho de uma ótima reflexão sobre esse fenômeno doentio das selfies.
Texto completo, assinado pela psicóloga e escritora Soraya Rodrigues Aragão, no site Obvious

love, love, love

No final dos anos 60, o mundo vivia o auge da bestialidade de mais uma guerra: desde 1955 Vietnã do Norte travava conflito armado com Vietnã do Sul, este apoiado belicamente pelos Estados Unidos com a assessoria logística da Coreia do Sul, Austrália, Tailândia e outros países, e do lado lá da trincheira os aliados União Soviética, China e outras nações comunistas. Era uma espécie de “guerra por procuração”, no meio daquele minúsculo país, pois logo após a Segunda Guerra, as superpotências norte-americana e soviética protagonizaram o longo período de Guerra Fria.
Estados Unidos voltou para casa derrotado em 1975, com seus mortos e sobreviventes traumatizados – garotos que amavam os Beatles e os Rolling Stones. Somente com a queda do Muro de Berlim, em 1989, e dois anos depois com a extinção da União Soviética, é que decretou-se o fim do conflito entre as duas nações e suas zonas de influências.
Em 1967, a BBC de Londres fez um convite especial aos Beatles: participarem da primeira transmissão mundial via-satélite, apresentando-se no programa Our World em 25 de junho. Solicitou ao grupo uma música que falasse de amor, paz, esperança etc e tal.
Lennon e McCartney começaram a compor uma canção com esse objetivo. Depois de várias tentativas de letras dos dois, decidiram por uma escrita somente por John: All you need is love, gravada em compacto simples logo após a apresentação, e em 1968 no disco Yellow submarine.
Mais de 26 países acompanharam aquele momento histórico: os Beatles diretamente dos estúdios do Abbey Road, com o auxílio luxuoso do coro de convidados Mick Jagger, Keith Richards, Keith Moon, Eric Clapton, Graham Nash, Marianne Faithfull, entre outros, cantando para o mundo que “there's nothing you can do that can't be done”.

o mundo ao redor

“O mundo nos abraça, entra em nosso corpo, e nós o devolvemos com as imagens que conseguimos fazer. Essa experiência de influência, de contaminação, de infecção do mundo ao redor faz parte da vida e não é possível escapar dela, sob o risco de se trancar num manicômio ou se fechar em seu próprio quarto sem nunca mais sair.”
- Marco Bellocchio, cineasta italiano, 78 anos, em entrevista à revista CULT, edição 179, 2013.
O diretor tem mais de 30 filmes contaminados pelo mundo. Um deles é Vincere, 2009, foto abaixo. Conta a história de Ida Irene Dalser, que morreu sozinha tentando convencer que foi esposa de Benito Mussolini.
Ao analisar a relação pessoal da personagem com o líder fascista, Bellocchio aborda a relação da Igreja com o Estado na Itália, discute e critica as promiscuidades institucionais entre católicos e políticos.

domingo, 24 de junho de 2018

São João, Xangô menino *

Na fé cristã hoje se celebra o nascimento de João Batista, aquele que não somente previu o advento do Messias na pessoa de Jesus, como teve a prerrogativa de batizá-Lo. Pelas Escrituras, Batista nasceu apenas seis meses antes de Cristo.
Juntamente com Antonio e Pedro, João compõe a tríade dos Santos Populares, comemorando a festa neste mês de junho.
* título da música de Gilberto Gil e Caetano Veloso, gravada no disco Doces Bárbaros – ao Vivo, 1976.
Os autores de maneira livre, alegre e criativa incorporam na letra o imaginário religioso, em combinação sincrética do local à transcendência da religiosidade cristã e o mito africano. Uma saudável manifestação de panteísmo múltiplo, com suas simbologias e expressões culturais.
Acima, Nascimento de São João Batista, do pintor italiano Tintoretto, 1578. A obra encontra-se no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

de volta a Juazeiro

O resgaste de um dos filmes mais importantes na história do cinema cearense. O escritor e pesquisador Raymundo Netto faz, através de livro e documentário, uma viagem detalhadíssima à produção de Padre Cícero, de Helder Martins, 1975, esmiuçando e analisando de forma elegante, precisa e afetiva os fatos, os artistas, elementos vitais que deram corpo e alma ao filme, apontando suas complexidades e ousadias.
Um trabalho de fôlego que merece aplauso, reconhecimento, incentivo. Com o lançamento da Coleção Memória do Audiovisual Cearense, da Fundação Demócrito Rocha, que o projeto prossiga, se desdobre em outras produções, como Homem de papel, de Carlos Coimbra, 1976.
A convite do autor, uma honra ser entrevistado para o livro e filme. Padre Cícero foi meu "batismo" em um set de filmagem, e fui duplamente abençoado, pelo meu Padim Ciço e pela equipe de fotografia para qual trabalhei nas locações em Baturité, carregando tripé e servindo cafezinho: José Medeiros, Antonio Luiz Mendes e Walter Carvalho.

ele por ela

Mona Gadelha e Petrúcio Maia, dois queridos, dois grandes talentos da música cearense.
A cantora, compositora, jornalista e coordenadora do Laboratório de Música da Escola Porto Iracema das Artes, Fortaleza, assina o ensaio biográfico do compositor falecido em 1994, aos 47 anos, parceiro em dezenas músicas que estão na memória afetiva de nosso cancioneiro, como Lupiscínica e Dorothy Lamour, respectivamente com Augusto Pontes e Fausto Nilo, na interpretação de Ednardo, Conflito, com Climério Ferreira, Cebola cortada, com Clodo Ferreira, Frenesi, com Fausto e Francisco Casaverde, gravadas por Fagner, Coqueiro do Atlântico Sul, com Eugênio Leandro, Morena Penha, com Manassés de Sousa Pé de sonhos, com Brandão, Incêndio, com Belchior, Reflexos do baile, com Abel Silva, Perdão, pois é, não sei, com Ieda Estergilda...
O legado artístico de Petrúcio é vasto, e se insere não somente na cena musical do Ceará, mas na história da música brasileira. E Mona Gadelha, em um livro de formato pequeno, soube com precisão aprofundar informações, dados e datas, numa escrita que tem a largura e aconchego de um abraço.
Editado pela Coleção Terra Bárbara, da Fundação Demócrito Rocha, o livro promove o encontro terno e informativo entre autores e biografados, a exemplo de vários outros títulos disponíveis, Ednardo por Wagner Castro, Fausto Nilo por Marcos Sampaio, Nilto Maciel por Raymundo Netto, Chico Anysio, por Natercia Rocha, Raquel de Queiroz, por Socorro Acioly...

o choro é mais embaixo


o geógrafo do tempo

"A força da alienação vem dessa fragilidade dos indivíduos que apenas conseguem identificar o que os separa e não o que os une."
O pensamento aplica-se a tudo que envolve o ser humano e suas imperfeições, o ser humano e suas contradições, o ser humano e suas esperanças. Das questões sociais às relações afetivas, das decisões políticas às reuniões de condomínio.
O geógrafo Milton Santos, autor da frase, foi um dos maiores pensadores deste país. Quando retornou ao Brasil, no final da década de 70, após anos de exílio, Milton contribuiu com significativas mudanças estruturais no ensino e na pesquisa no campo da Geografia.
Sua metodologia incluía a reflexão lúcida sobre o desenvolvimento urbano, a ideia do que é realmente modernização, a análise do processo perverso do mundo globalizado, que erroneamente massifica e padroniza valores culturais.
Milton Santos faleceu há sete anos. Sua vasta obra, de quase 30 livros, o mantém e o manterá na geografia do tempo

aqui, agora e sempre

foto Daniel Mordzinski, 1991
"Não há outra forma de se alcançar a eternidade senão afundando no instante, nem outra forma de chegar à universalidade senão através da própria circunstância: o aqui e agora."
A citação está no livro O escritor e seus fantasmas, do argentino Ernesto Sábato. Lançado em 1963, é um excelente ensaio sobre o que literalmente diz o título, sobre o que provoca o escritor, sobre a razão dos seus livros, sobre a concepção geral da literatura e da existência. Imprescindível para quem escreve e para quem lê. De quase vinte títulos que compõem a obra de Sábato, o livro tem a importância de um biblicismo literário.
Sábato faleceu em 2011, dois meses antes de completar um século por aqui. Hoje, agora, seu aniversário de nascimento.
Ler espanta os fantasmas, sempre.

o choro verdadeiro de uma mãe


sábado, 23 de junho de 2018

luz de Carlito

Em 1988, 'seu' Carlito Almeida foi chefe eletricista de meu primeiro curta, Um cotidiano perdido no tempo. Iluminou o set, iluminou a película 35mm, iluminou minha estreia no cinema, iluminou todos meus filmes seguintes, iluminou meu coração...
'Seu' Carlito iluminou dezenas de filmes brasileiros, da Companhia Cinematográfica Vera Cruz às produções do cinema cearense, quando voltou pra sua terra.
'Seu' Carlito partiu nesta manhã de sábado, em Fortaleza, aos 78 anos, foi iluminar outros sets...
Som de meu choro, luz de Carlito, sem ação com tanta saudade...

o amor e seus abismos

Trecho do livro Quase Diário: 1980-1999, de Affonso Romano de Sant'Anna, 2017.
Dois poetas, duas gerações, conversam sobre o amor, enquanto caminham numa rua do Rio de Janeiro, em 1983.
Sant'Anna tinha 46 anos à época. Carlos Drummond de Andrade fizera 80. E o amor... o amor não tem idade.

100 dias sem resposta


quinta-feira, 21 de junho de 2018

a vida como ela é e não é

"Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento."
Trecho de uma das crônicas do afiado Machado de Assis, publicada em sua coluna semanal no jornal Diário do Rio de Janeiro, por volta de 1860. Desde jovem ele colaborava com seus textos ácidos e bem-humorados em vários periódicos da imprensa carioca, e isso lhe abriu caminhos para a carreira literária.

Machado acompanhou a mudança política no país quando a República substituiu o Império. Com sua escrita lúcida, direta, inteligente, moderna, fazia uma radiografia dos emaranhados eventos políticos, dos meandros e costumes de uma sociedade burguesa e conservadora que se desenhava.
Em 2008 a Editora Unicamp lançou a coletânea de crônicas Comentários da semana, título de sua coluna.
179 anos hoje de nascimento do maior escritor brasileiro.
Pôster-interferência desenvolvido pela Poeme-se, Rio de Janeiro.

terça-feira, 19 de junho de 2018

os babacas sebosos


nosso cinema de cada dia

Em 19 de junho de 1898 o italiano Afonso Segreto registra as primeiras imagens em movimento do território brasileiro: a entrada da baía de Guanabara, a bordo do navio francês Brésil.
Comemora-se hoje o Dia do Cinema Brasileiro.
O vídeo abaixo, produzido em homenagem à data, pela ArtCom, em 2016, pelos alunos de Imagem, Som e Música da Universidade Federal de São Carlos, SP, reúne trechos de filmes marcantes do nosso cinema.

tijolo com tijolo num desenho lógico

A edição brasileira de 2009 da revista Rolling Stone fez uma enquete com 90 críticos especializados e mais alguns jornalistas da área musical, para saber quais as 100 maiores canções brasileiras. A lista foi destaque do número que comemorou três anos de publicação nacional.
Construção, de Chico Buarque, ficou em primeiro lugar.
Composta em 1971, em pleno regime truculento do general Médici, é uma das letras mais bem elaboradas em toda história da música brasileira. Pouco se viu tamanha preciosidade poética em proparoxítonas.
Chico completa hoje 74 anos. Ergueu no patamar da música brasileira quatro paredes mágicas.

o dono da voz

Em 1980, sucessivos desentendimentos com a gravadora Ariola fizeram Chico Buarque buscar outro selo, a Polygram.
O compositor, que hoje completa 74 anos, se viu meio encrencado no último dia de gravação do então novo disco: a Ariola fora vendida exatamente para a nova gravadora de Chico. A confusão deu origem à bem-humorada canção A voz do dono e o dono da voz, última faixa do lado A do LP Almanaque, de 1981.
O bolachão é um dos melhores de Chico na década de 80. Tem lá Vitrines, Ela é dançarina, O meu guri, Tanto amar...
A criação da capa, contracapa e encarte do disco, assinada por Elifas Andreato, é uma obra-prima à parte: desenhos, ilustrações que remetem aos velhos almanaques em forma de livrinhos que tratavam de vários assuntos, como datas festivas, feriados, luas, eclipses, horóscopo, pensamentos, trechos de literatura, poesias, anedotas, charadas, palavras cruzadas, e coisas como datas certas para o plantio.

os babacas sebosos


nosso cinema de cada dia

Em 19 de junho de 1898 o italiano Afonso Segreto registra as primeiras imagens em movimento do território brasileiro: a entrada da baía de Guanabara, a bordo do navio francês Brésil.
Comemora-se hoje o Dia do Cinema Brasileiro.
O vídeo abaixo, produzido em homenagem à data, pela ArtCom, em 2016, pelos alunos de Imagem, Som e Música da Universidade Federal de São Carlos, SP, reúne trechos de filmes marcantes do nosso cinema.

segunda-feira, 18 de junho de 2018

open your eyes

Há 54 anos, quando Paul McCartney começou a cantar "close your eyes and I’ll kiss you...", de All my loving, no programa The Ed Sullivan, em Nova Iorque, a América não fechou mais os olhos e se rendeu ao fenômeno do quarteto de Liverpool.
Hoje a voz dos Beatles completa 76 anos.
All my loving I will send to you, Paul.

o diligente cineasta

No tempo das diligências (Stagecoach), 1939, é um dos principais filmes de John Ford, ao lado de Paixão de fortes (My darling Clementine), 1946, Rastros de ódio (The searchers), 1956, e o drama sobre a Grande Depressão Econômica norte-americana, Vinhas da ira (Grapes of wrath), 1940, baseado no romance de John Steinbeck.
Stagecoach em si é um filme emblemático sobre o velho oeste americano, apesar (e talvez por isso) da predileção de Hollywood em massacrar os índios. A diligência, como uma representação alegórico na narrativa, atravessa a fascinante paisagem desértica do Monument Valley, serpenteia ao som envolvente da música de Louis Gruenberg, compositor nascido na Rússia, e não à toa especializado em grandes arranjos dramáticos, afinando-se bem com o cinema de imagens e condução operísticas de John Ford.
Na diligência embarcam um médico alcoólatra, uma prostituta, um banqueiro, um jogador, uma mulher grávida e um pistoleiro, Ringo Kid, interpretado por John Wayne. Esses passageiros simbolizam um retrato da sociedade norte-americana da época e até mesmo dos dias de hoje. Durante a viagem, ameaçados pelo perigo dos Apaches, cada um dos viajantes revela aos poucos suas peculiaridades, seus desejos, mesquinharias, medos e contradições. E é justamente no bandido que eles depositam a segurança no percurso pelo deserto.
Orson Welles dizia ter assistido Stagecoach mais de 40 vezes, antes de produzir sua obra-prima, Cidadão Kane, em 1940. Do outro lado da América, o mestre japonês Akira Kurosawa afirmou que era um de seus filmes favoritos e o influenciou quando fez Os sete samurais, em 1954. E no sertão da Paraíba o nosso grande documentarista Vladimir Carvalho, quando jovem, não perdia os westerns de John Ford, admirado com os enquadramentos dos planos abertos de outras distantes terras áridas.
O crítico Luiz Carlos Merten em seu livro Cinema – entre a realidade e o artifício, 2003, compara o cineasta a um criador de epopeias, como, digamos, um Homero das pradarias. O próprio John Ford admitia sua preferência pelos westerns como um território de criação de lendas.
E à propósito de histórias que se confundem com lendas, lá pelos anos 50, quando o macarthismo com seu sectarismo e repressão atingiu cineastas, roteiristas, atores, atrizes, e todos artistas pensantes, o diretor foi convocado a uma reunião capitaneada por Cecil B. Mille, um dos fundadores da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, com o intuito de saber de seus pares uma posição de apoio ao famigerado plano de caças às bruxas nos estúdios. Ford, do alto de seus quase dois metros e segura visão monocular de tapa-olho, levantou-se e pediu a palavra: “Meu nome é John Ford e eu faço westerns”, disse, retirando-se, pegando sua diligência e demolindo a proposta de delação de De Mille.
Acima, o cineasta nos intervalos das filmagens de Rastros de ódio. Foto Winton C. Hoch.

domingo, 17 de junho de 2018

a bela e o fera

A diáfana Audrey Hepburn tinha 25 anos e viveu dias conturbados com o cara de mármore Humphrey Bogart nas filmagens de Sabrina, de Billy Wilder, 1954.
O ator, que entrou no elenco substituindo Gary Grant, já esnobava o sucesso de Casablanca, era um dos mais bem pagos de Hollywood e tinha fama de grosso. Hepburn realizara quase dez filmes, mas só ganhou maior projeção na década de 60, com Bonequinha de luxo (Breakfast at Tiffany’s).

Os dois não se batiam. Ou se batiam: a esguia Audrey não aceitava a estupidez do ator no set. Para piorar a relação, no filme Humphrey interpretava um playboy que disputava com o irmão, vivido por William Holden, o amor da personagem de Hepburn, Sabrina, filha do motorista da família. Holden e Audrey tiveram de fato um romance durante a produção do filme.
Esses curiosos fios enovelados, fora das filmagens, podem parecer meras situações prosaicas, sem nenhuma relevância, mas que têm outro viés nas observações dos biógrafos. E até mesmo dos cineastas: François Truffaut soube muito bem, no clássico A noite americana (La nuit américaine), 1973, abordar e dissecar as complexidades que envolvem a técnica e as relações humanas nos bastidores de um filme.
Dennis Stock, fotógrafo nova-iorquino que acompanhou muitos atores e atrizes nas décadas de 40 a 60, flagrou vários momentos no set de Sabrina, como esse da foto abaixo, em que Audrey Hepburn triste aguarda o momento de filmar, e não via a hora de tudo acabar e partir para tomar um café da manhã no Tiffany's.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

depois da revolução

- Você tem certeza que quer fazer um documentário sobre mim?
- Sim.
- Num filme onde está Che, ele sempre será protagonista.

O diálogo ocorreu entre o cirurgião dentista cubano Dr. Luis Carlos García Gutierrez ‘Fisin’ e a cineasta Margarita Hernandez, também cubana, radicada no Ceará, no primeiro dia de filmagem do documentário Che, memórias de um ano secreto, onde refaz os passos do líder revolucionário em 1965, em plena Guerra Fria, quando desapareceu sem deixar pistas.
Dr. Luis García foi responsável por mascarar o rosto de Che Guevara para despitar os serviços de inteligência em suas missões secretas. Após a guerrilha no Gongo, Che foi transferido para Praga e de lá partindo para a Bolívia. Esse relato e mais outros valiosos testemunhos de sua experiência clandestina em mudar a aparência dos camaradas, estão no livro O outro lado do combate (La outra cara del combate), que o dentista lançou em 2008, ponto de partida para o filme de Margarita.
Realmente, Dr. Luis tinha razão. Nos avanços das pesquisas e na feitura do roteiro, a cineasta definiu seu documentário em um recorte específico na figura política de Che, sem explorar o antes, suas origens, e o que o levou à vitória da revolução em Cuba ao lado de Fidel Castro, e sim, centralizando a narrativa no que lhe aconteceu depois, as suas angústias, as inquietações de um líder carismático que não se acomodava, preocupado em manter sempre acessa a luta, como um paladino, e algumas vezes sem alcançar seus objetivos.
O filme integrou as competições Brasileira e Latina no 23º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, São Paulo, em abril passado. Será exibido no 28º Cine Ceará Festival Ibero-americano de Cinema, Fortaleza, em agosto próximo, como parte das homenagens aos 90 anos de nascimento de Che.
Conheci Dr. Luis García em 2009, durante o 19º Cine Ceará. Tinha 92 anos e de uma lucidez e memória impressionantes. Com muito bom humor nas palestras contou várias de suas histórias com Guevara, cativando a todos. Faleceu em 2015.
Se tivesse assistido ao filme de Margarida Hernandez, veria que a cineasta atendeu ao seu conselho e que mesmo sem ser o protagonista, está ali onipresente, “mascarado” em toda trajetória do ilustre paciente.

quinta-feira, 14 de junho de 2018

dois lados da mesma viagem

“O importante não é chegar, mas viajar”
A frase é do personagem Fausto, interpretado por Ênio Gonçalves em Filme Demência, dirigido por Carlos Reichenbach, 1986.

Com roteiro do diretor e do crítico Inácio Araújo, o filme é uma adaptação livre, contemporânea, atualíssima, da obra teatral de Goethe.
Seis anos hoje que Reichenbach, o querido Carlão, viajou para outros cinemas... curiosamente no mesmo 14 de junho, quando chegou a este mundão em 1945. Dois lados da mesma viagem na simetria do tempo.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

Pessoa sem fingimento

O poeta Fernando Pessoa levantava-se diariamente de sua mesa de trabalho na Editora Olisipo, pegava o chapéu, ajeitava os óculos e seguia em passos cadenciados até o Abel, tradicional casa comercial produtora e distribuidora das melhores bebidas à margem do rio Tejo. Lá tomava lentamente um cálice de aguardente e saía pelas ruas de sua Lisboa. Esse hábito Pessoa manteve por um longo tempo em seus curtos e intensos 47 anos de vida.
Em uma dessas tardes de bebericar seu veneno antimonotonia, em 1929, o poeta pediu que lhe fizesse uma foto saboreando a bebida. Dias depois pegou uma cópia, escreveu atrás a dedicatória "Fernando Pessoa em flagrante 'delitro'" e enviou para sua amada Ophelia Queiroz, com quem reatara depois de nove anos de rompimento e muitos poemas e muitas cartas ridículas - ou não seriam cartas de amor, preconizava. Mas o namoro com o ainda donzelo e múltiplo poeta terminou novamente em 1931. As caminhadas ao Abel continuaram, claro.
A moça, professora de Instrução (algo como o Primário), ficou na história como o único amor do reservado Fernando Pessoa, ou de seus heterônimos - ela já não sabia mais quem namorava. O poeta não fingia, seu coração, sabia, um comboio que gira, mas não entretia sua razão e nunca frequentou a casa de Ophelia, resistia a conhecer a família. Como bem observou o ensaísta moçambicano José Gil, Pessoa revelou incapacidade de amar Ophelia à maneira de Ophelia, de aceitar a máscara correspondente a um homem “comum”. Pois é, lembremos que em Lisbon Revisited, poema de 1925, o poeta já questionava, na pele de Álvaro de Campos, também sem fingimentos, o que deveras sentia: “Queriam-me casado, fútil, quotidiano e tributável?” Nem a Ofélia de Shakespeare, em Hamlet, aguentaria essas esquisitices de poeta.
No final de 1935 Fernando Pessoa é internado diagnosticado com cólica hepática e falece. Um ano antes publicara Mensagem, o derradeiro livro onde no poema Mar português leem-se os conhecidos versos-espólio: “Quantas noivas ficaram por casar / para que fosses nosso, ó mar! / Valeu a pena? / Tudo vale a pena / se a alma não é pequena.”
130 anos hoje de nascimento de uma alma que valeu a pena na literatura.

terça-feira, 12 de junho de 2018

12 de junho


nossas musas brasileiras

Durante o show de lançamento do seu primeiro disco em fevereiro de 2014, em Natal, a cantora mineira Lysia Condé, radicada há dez anos na capital potiguar, conta, canta e encanta a história do clássico maxixe Corta-jaca, composto pela pioneira e revolucionária Chiquinha Gonzaga e Machado Careca, no distante 1895.
Lysia e Chiquinha: belas, talentosas, fortes mulheres na simetria do tempo da nossa rica música brasileira.

segunda-feira, 11 de junho de 2018

ciudad porteña de mi único querer

"Mi Buenos Aires querido / cuando yo te vuelva a ver / no habrá más penas ni olvido..."
- Versos de Mi Buenos Aires querido, clássico tango escrito por Alfredo Le Pera em 1934, musicado e imortalizado por Carlos Gardel, assim como outra emblemática composição, El día que me quieras.
A letra fala sobre a formosura da capital portenha, que hoje comemora 438 anos de fundação. A canção com narrativa bela e dolente do tango, na queixa de um bandoneon, compara a cidade ao amor, e retornar a ela é a forma de se livrar das dores, da nostalgia, o "te extraño" - o termo saudade.
Uma curiosidade: o autor do tango de enorme significado afetivo para os argentinos é brasileiro de nascimento. Em 1900 seus pais, italianos, viajavam pela América do Sul com intenções de morarem em Buenos Aires. Em passagem por São Paulo, a mãe com um barrigão de nove meses deu à luz um niño, em pleno bairro Bixiga, que se tornaria tradicional reduto do samba paulistano.
A família Le Pera seguiu viagem para Uruguai com o bebê de dois anos, e de lá para Argentina.
Alfredo morreu jovem, aos 35 anos. Estava no avião que caiu em Medellin, Colômbia, juntamente com seu grande amigo e parceiro Gardel.

uma brasileira

MÔNICA FIGUEIREDO, professora do curso de Letras da UFRJ.