quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

mas não tivesse amor, nada seria


obra atribuída a Valentin de Boulogne

"Se eu falasse todas as línguas, as dos homens e as dos anjos, mas não tivesse amor, seria como um bronze que soa ou um címbalo que retine. Se eu tivesse o dom da profecia, se conhecesse todos os mistérios e toda a ciência, se tivesse toda a fé, a ponto de remover montanhas, mas não tivesse amor, nada seria. Se eu gastasse todos os meus bens no sustento dos pobres e até me fizesse escravo, para me gloriar, mas não tivesse amor, de nada me aproveitaria. O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza, não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo. O amor jamais acabará. As profecias desaparecerão, as línguas cessarão, a ciência desaparecerá. Com efeito, o nosso conhecimento é limitado, como também é limitado nosso profetizar. Mas quando vier o que é perfeito, desaparecerá o que é imperfeito. Quando eu era criança, falava como criança, pensava como criança, raciocinava como criança. Quando me tornei adulto, rejeitei o que era próprio de criança. Agora nós vemos num espelho, confusamente, mas, então veremos face a face. Agora, conheço apenas em parte, mas, então, conhecerei completamente, como sou conhecido. Atualmente permanecem estas três: a fé, a esperança, o amor. Mas a maior delas é o amor."

Um dos textos da primeira carta que São Paulo escreveu a Coríntios, capítulo 13. Está no Novo Testamento. Mexeu com o coração de Renato Russo, que musicou para o belíssimo disco "Quatro estações", de 1990.  E remexeu meu coração hoje ao ler um trecho em mural do hospital onde está internada a minha mãe, em Fortaleza, recuperando-se de um Acidente Vascular Cerebral, o hoje AVC que na época dela era chamado de "derrame cerebral".

Mãe e amor são palavras sinônimas, em todas as línguas, em qualquer canto do mundo. Olho para a minha mãe doente, com os movimentos limitados sobre uma cama, e vejo em seus olhos o amor resistindo, esse sentimento imbatível, que rege a esperança e a fé, que traduz a vida. E como o amor é paciente, é benfazejo, e como amor nunca acaba, minha mãe é o nome que se dá ao significado idêntico dessa palavra.

sábado, 19 de dezembro de 2009

olhe aqui, preste atenção, essa é a nossa canção...


foto Arquivo NV
Caetano Veloso e Odair José em 1973. Eles cantaram juntos "Eu vou tirar você desse lugar", no espetáculo Phono 73 , organizado com os contratados da então gravadora Phonogram, hoje Universal.
  
Mano Caetano, filho de Chiquita Bacana de todos os santos, sempre transou todos os sons sem perder o tom.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

ah, tela de luz puríssima


foto Universal Pictures

"Pálpebras de neblina, pele d'alma, Lágrima negra tinta, Lua, lua, lua, Giuletta Masina, Ah, puta de uma outra esquina, Ah, minha vida sozinha, Ah, tela de luz puríssima, (existirmos a que será que se destina), Ah, Giuletta Masina, Ah, vídeo de uma outra luz, Pálpebras de neblina, pele d'alma, Giuletta Masina, Aquela cara é o coraçao de Jesus"

Giuletta Masina interpreta uma prostituta nas ruas de Roma nos anos 50, no clássico "Noites de Cabíria", dirigido pelo marido Federico Fellini. O filme é de 1957, e impossível não se comover com essa mulher ingênua, que sonha com o amor perfeito, que acredita na bondade de todos, o que lhe faz sofrer com as constantes decepções. Caetano Veloso, ao fazer essa bela canção, da letra acima, no disco de 1999, "Omaggio a Federico e Giuletta", traduz bem a beleza de interpretação da atriz, que se entrega e se integra na pureza da personagem. Giuletta Masina é Cabíria e quem há de negar que esta lhe é superior?

sábado, 12 de dezembro de 2009

longa é a arte


 foto Arquivo NV
 
"Não sou dado a reler livros. Quando vejo a pilha imensa, que cresce sem parar, de tudo que ainda não li, percebo que, ao invés de revisitar páginas que, em vez de consolidar uma admiração possam causar decepção, o melhor é continuar alimentando a esperança de encontrar nas páginas por onde meus olhos ainda não passearam aquela nova sensação, aquele novo conhecimento que não encontrei em nenhum dos outros que já li. É aquela velha história: a vida é breve."
 
Briquet de Lemos, editor e livreiro 

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

não atirem no dramaturgo

 foto Valéria Gonçalves/AE

O dramaturgo Mário Bortolotto, 47 anos, fundador do grupo de teatro Cemitério de Automóveis, e o músico Carlos Carcará foram baleados no bar do Espaço Parlapatões, localizado na Praça Roosevelt, no centro de São Paulo na madrugada do sábado passado. Mário reagiu ao assalto e o seu estado é grave. Mas as últimas notícias que li é que ele está se recuperando bem. Carlos foi menos atingindo e não corre risco.

Mário é um dos melhores dramaturgos  brasileiros, em atividade há mais de 20 anos e autor de 40 peças, sempre aplaudidas, sempre referenciadas como um teatro incitante, provocante, criativo. Um novo e necessário Plínio Marcos. Sua peça "Nossa vida não vale um Chevrolett" serviu de base para o filme "Nossa vida não cabe num Opala", dirigido por Reinaldo Pinheiro em 2008.

Conheci Mário numa das edições do Festival Ibero-Americano de Cinema (Cine Ceará) quando ele apresentou um curta. Com seu jeitão beatnick, Bortolotto é  de uma inteligência rara. Seus textos refletem uma inconformidade diante de uma realidade burra, sedada pela aceitação da mesmice midiática. Seu blog, ironicamente intitulado Atire no Dramaturgo, é leitura imperdível, se destaca neste universo incomensurável da internet muitas vezes mal aproveitado e recheado de bobagens.

O site Digestivo Cultural fez uma ótima homenagem ao Mário publicando um ensaio sobre uma noite insone assistindo ao programa Jô Soares. Concordo com o dramaturgo, é o que eu acho sobre o humorista-apresentador. Leia aqui.

E torcemos para que ele volte logo à cena.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

a oração pelo avesso

 


Valei-me Nossa Senhora
Do Reino da Pedra Fina,
Tanta meia recheada
Com o níquel da fedentina!
No pisotear da grana,
Reza em coro a ratazana
A Oração da Propina.

Continue a reza aqui

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

vossas excelências

Diante de mais um escândalo na política brasileira, minhas mais sinceras homenagens às nojentas vossas excelências.


quarta-feira, 25 de novembro de 2009

esqueceram de mim

 
foto Aquarela Produções

Durante a entrega dos prêmios do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, ontem à noite, uma gafe imperdoável foi cometida pelo juri que escolheu os vencedores e, de certa forma, pela coordenação do evento. O  ótimo curta-metragem em 35mm "A noite por testemunha", do brasiliense Bruno Torres, rebeceu o troféu Candango na categoria de melhor ator, com o prêmio conferido ao elenco masculino, pelo destaque da interpretação conjunta. Foram chamados os atores Alessandro Brandão, André Reis, Diego Borges, Iuri Saraiva e Túlio Starling. O filme recria o episódio ocorrido na madrugada de abril de 1997, em plena capital do país: o assassinato do índio pataxó Galdino Jesus dos Santos por uma gangue de jovens de classe média  alta, interpretados pelo elenco citado. Acontece que outro ator presente no filme e ausente no palco, o indígena amazonense Fidelis Baniwa, tem a mesma importância na obra.  Seu personagem é o motivo do filme. Com uma participação na minissérie "Mad Maria", Fidelis assumiu a difícil tarefa de viver na pele a noite terrível do índio que foi queimado enquanto dormia numa parada de ônibus. Em termos de tempo em cena, sua participação não chega a ser menor nem maior que o restante. É proporcional dentro da narrativa fragmentada que o diretor se propôs a contar o que aconteceu. O ator, da tribo dos Baniwa, que vivem na fronteira do Brasil com a Colômbia e Venezuela, interpreta seu irmão pataxó, da tribo que vive no sul da Bahia, com a força e sinceridade que o personagem exige, e se destaca com sua atuação  extremamente natural, como se uma câmera invisível,  documental, acompanhasse naquela noite o próprio Galdino, perdido de sua tribo nas ruas de Brasília.

Diante da  atitude desastrada do festival, foi a platéia no cine Brasília, sempre calorosa, atenta e interativa,  que pegou o apito e gritou em alto e bom som: "e o índio?!" Os atores no palco se tocaram com o sinal de fumaça e chamaram Fidelis, que sentado bem atrás, atravessou sob aplausos os corredores lotados, subiu e pegou a estatueta agradecendo em aruak, sua língua nativa. Humildade e elegância em um só momento. Nobreza e simplicidade em só local.

Galdino foi simbolicamente queimado outra vez. Fidelis apagou as chamas.

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

não se assuste, pessoa, se eu lhe disser que a vida é boa


 foto Hamaca Filmes

O documentário "Os filhos de João, o admirável mundo novo baiano", abriu ontem a mostra competitiva de longa-metragem do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro. Dirigido por Henrique Dantas o filme  aborda uma época de um dos maiores inovadores grupos musicais brasileiros. Em tempos brabos de ditadura Médici, os Novos Baianos resistiam esbanjando anarquia e alegria em comportamento e canções. Uma letra muito emblemática, composta por Galvão, e musicada por Moraes Moreira, é "Dê um rolê". Muitas vezes apontados como alienados, os integrantes do grupo rebatiam  alertando "não se assuste pessoa / se eu lhe disser que a vida é boa" e lembrando que "enquanto eles se batem / eu sou, eu sou, eu sou amor / da cabeça aos pés."

Narrado por depoimentos preciosos do grupo, além de Tom Zé, Rogério Duarte, Orlando Senna e outros, o filme passa justamente essa alegria e irreverência em contraposição à opressão que marcou aqueles tempos, traçando um panorama da música popular  brasileira nas décadas de 60 e 70.

O título do filme expressa o conceito de que João Gilberto teve importância na concepção artística dos Novos Baianos. Dito assim, parece estranho, mas assistindo ao filme concorda-se com essa tese, pois nota-se a influência direta do chamado "papa da Bossa Nova" sobre os rumos musicais do grupo, a importância para o aprimoramento da música tocada e composta pelos meninos.

O documentário, que foi aplaudido de pé na sala lotada do cine Brasília, traz uma retrospectiva do estilo de vida comunitário adotado durante algum tempo e a influência sobre os resultados no trabalho. Temas como contracultura, carnaval do Brasil, cinema, tropicalismo, ditadura militar, dentre outros, circulam em torno das vivências do grupo, trazendo necessárias e importantes reflexões para a compreensão da cultura contemporânea no Brasil.

Apesar de toda homenagem a João Gilberto, o diretor tentou por dez dias entrevistá-lo. Não conseguiu. Fora dos depoimentos está também a hoje evangélica Baby do Brasil. Ex-Consuelo, ex-Pepeu Gomes, ex-porra louca, ex-tudo, a cantora chegou a dar entrevista, mas  proibiu a exibição. "Besta é tu, besta é tu, / Não viver neste mundo / Besta é tu! besta é tu! / Se não há outro mundo..."

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

o filho de dona Lindu


 foto LC Barreto

O filme "Lula, o filho do Brasil", de Fábio Barreto, abriu ontem à noite o 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, com exibição na Sala Villa-Lobos do Teatro Nacional, com uma lotação acima da capacidade para 1300 lugares.

Isso causou confusão e atraso. O produtor Luiz Carlos Barreto, o Barretão, ao subir no palco antes da exibição, reclamou que não tinha sequer um soldado de bombeiro para garantir a segurança, pois se estourasse uma lâmpada no local, haveria pânico, e "pessoas morreriam"...

O diretor do filme pegou o microfone e reclamou da coordenação do festival que não havia poltronas reservadas para a equipe e elenco, todos estavam sentados no chão. Ameaçou não iniciar a sessão se não fosse resolvido o problema. Constrangidas, algumas pessoas foram "convidadas" a cederem seus lugares, e outras, não perdendo o bom humor brasileiro, gritavam "senta aqui no meu colo, Cleo Pires!"

Depois de uma hora de espera, o filme começa, sob um volumoso silêncio de uma platéia atenta ao que viria. Todos estavam curiosos para ver o filme baseado num personagem real. A história de um operário que chegou à Presidência da República. Ele, Lula, que não estava lá, somente a primeira dama, dona Marisa Letícia, e alguns ministros e outras autoridades.

Logo nos créditos iniciais uma alerta dos produtores: o filme não teve financiamento de nenhum orgão do governo, e sobe na tela uma infinidade de logomarcas de empresas multinacionais que apostaram no filme orçado em R$ 16 milhões. Caríssimo para os padrões de um filme brasileiro. Uns trocados, cerca de 9 milhões de dólares, só para dar largada a qualquer porcariazinha hollywoodiana.

"Lula, o filho do Brasil", embora declaradamente simpático ao personagem, não chega a ser um filme chapa branca, em que pese a coincidência do seu lançamento no país às vésperas de eleições presidenciais. Com uma boa direção de atores e acabamento técnico impecável, o filme conta a trajetória pessoal e profissional de Lula, desde o seu nascimento, em 1945, no sertão pernambucano, até 1980, quando era o maior líder sindical do país. Um percurso marcado por dificuldades, perdas e uma notável capacidade de superação.

Baseado no livro homônimo de Denise Paraná, que escreveu o roteiro juntamente com Fernando Bonassi e Daniel Tendler, "Lula" não provoca vales de lágrimas, como em "2 filhos de Francisco", mas é visível a tentativa em muitas sequências de comover, de cutucar a emoção e pelo coração conquistar ou adormecer a razão do espectador, principalmente quando a trilha sonora sobe para se fazer notar, apesar de  bem composta por Antonio Pinto e Jaques Morelenbaum.

Alguns fatos são omitidos na história, como a mulher grávida e abandonada que o próprio Lula confessou em algumas entrevistas; o linchamento de um gerente de empresa pelos operários grevistas no ABC paulista, onde no filme Lula se mostra indignado, quando há depoimentos que ele não participou diretamente da agressão, mas não se indispôs com o que viu. Se não há a intenção de julgar, avaliar, formar uma opinião, o filme escorrega no claro propósito de traçar o perfil de um homem comum sem defeitos, castigado desde o início da vida pelas dificuldades e movido pela pertinácia e firmeza, tendo como estímulo que lhe manteve reerguido a figura da mãe, dona Lindu, numa interpretação corretíssima de Glória Pires, que transforma a estampa de sua  personagem numa daquelas fortes mulheres do teatro grego, ou até mesmo a velha e robusta Jane Darwell, mãe de Henry Fonda em "As vinhas da ira", clássico de John Ford,de 1940.

O desconhecido Rui Ricardo de Diaz, no papel principal, não tem o carisma de Lula, mas está perfeito no personagem, dando-lhe todas as marcações e características de fala e gestos, sem cair na armadilha da caricatura.

Com lançamento previsto com 500 cópias, outro fato inédito no cinema nacional, o filme se garante, com ou sem ano eleitoral. E mais: será lançado no exterior. Afinal, lá fora Lula não é o cara?

domingo, 15 de novembro de 2009

condição humana



foto Jerry Bauer

"Nenhuma sociedade tem sido capaz de abolir a tristeza humana, nenhum sistema político pode nos livrar da dor de viver, de nosso medo da morte, de nossa ânsia do absoluto; é a condição humana que dirige a condição social, e não o contrário."

Dramaturgo Eugène Ionesco (1909 - 1994), que neste centenário de nascimento é lembrado e homenageado.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

sex 'n' jazz

Gare Du Nord é talvez a mais conhecida banda desconhecida holandesa.  Criada em 2001, mistura jazz, blues e soul numa roupagem do que se denominou lounge, um gênero que por sua harmonia tem muito do swing da musicalidade dos anos 50 e 60.

Lançaram quatro bons discos. Fizeram um bela homenagem a Marvin Gayes e Miles Davis no álbum "Sex 'n jazz", lançado em 2007. A interpretação da cantora Dorona Alberti é perfeita. Além de irresistivelmente sensual.


quinta-feira, 12 de novembro de 2009

a indesejada das gentes



foto arquivo NV

"Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir."


(Cecília Meireles) 

Perdi hoje um amigo, um parente. Sempre me questiono o sentido de tudo isso quando a indesejada das gentes, como dizia Bandeira, alcança uma pessoa querida,  que habita nosso coração.

Há tantos poemas, textos, reflexões sobre o fim. Ou o começo? A dor não sabe, procura consolo no ombro mais próximo de um enredo, de uma composição. Eu mesmo já ousei uns mal traçados versos  sobre a única certeza que se tem ao nascer. E nunca é o bastante. Incomoda-me muito saber que também não serei poupado, que não há outro jeito de ficar por aqui mesmo, que cada um de nós é o próximo.

O dia com seu volume de luz e escuridão é o que nos cabe continuar enquanto nossos queridos se vão primeiro. Viver intensamente é o que devemos.

Marco, valeu viver o tempo que nos coube juntos.

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Sem perdão


 foto Blog da História

A morte sob tortura do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, em 1976, nos porões do DOI-CODI em São Paulo, é a base do documentário "Perdão, Mister Fiel" que, além da impiedosa caça aos comunistas no Brasil, trata da intervenção dos Estados Unidos nos países da América do Sul durante as ditaduras militares nas décadas de 1960 a 1980.

Com a morte de Fiel, poucos meses depois da de Vladimir Herzog, no mesmo inferno do DOI-CODI e nas mesmas circunstâncias, começa a ruir o esquema de poder paralelo dentro do Exército, responsável pelas maiores crueldades da repressão, e dá-se inicio à abertura política do país. O filme revela, inclusive, o diálogo entre o General Geisel e o Governador de São Paulo, logo após a morte de Fiel que desencadeia o processo de abertura.

Ao todo, no Brasil, Chile, Argentina e Estados Unidos, o filme entrevistou 30 personalidades, entre elas três presidentes da república, ex-militantes políticos presos e torturados, historiadores, membros dos direitos humanos, além de um dos algozes do DOI-CODI que faz revelações inéditas e impactantes sobre os métodos da ditadura no Brasil.

O longa-metragem foi selecionado para a mostra competitiva do 42º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, que começa no próximo dia 17. Dirigido pelo jornalista Jorge Oliveira, é aguardado com expectativa.

Na foto acima, sua esposa Teresa.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

domingo, 8 de novembro de 2009

Anselmo Duarte absolutamente certo


foto AE

"Depois de todas as constatações, é possível extrair uma conclusão de significado doloroso: o meu erro histórico foi ter retornado ao Brasil, após ter dirigido o filme mais premiado do mundo, em 1962. Se a sensibilidade fosse maior que a saudade, teria aceito um dos diversos convites que recebi para dirigir em Hollywood, na França e na Índia. Se me fosse dado o poder de refazer a minha história, jamais retornaria ao meu país para ser alvo de esculhambação da crítica e de desfeita dos agentes ditatoriais."

Anselmo Duarte, falecido ontem aos 89 anos, nas páginas finais de sua autobiografia "Adeus, cinema", lançada em 1993 pela Massao Ohno Editor, ao falar sobre tudo que envolveu a produção e repercussão de "O pagador de promessas", o primeiro e até agora o único filme brasileiro a ser premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes.
O livro é de uma sinceridade que em alguns momentos causa uma sensação de amargura. Anselmo não usa meios-termos, não poupa pessoas nem esconde fatos, não disfarça os defeitos nem minimiza a importância de seu trabalho como cineasta, e, antes que lhe esqueçam, diz logo nas primeiras páginas, que ao publicar o livro correu "o risco consciente e involuntário de fazer história do cinema brasileiro". A elegância, no entanto, está em todas suas palavras, em um depoimento que comove pelo coração aberto.

Anselmo é um dos cineastas brasileiros que mais admiro. Outro que tem de mim a mesma afeição e respeito pela pessoa e trabalho, é Carlos Reichenbach,  que sempre enriquece quando conversamos, sobre cinema, sobre a vida. Desejei muito ter a mesma amizade com Anselmo. Nunca tive a oportunidade de estar pessoalmente com ele. Nossa relação (unilateral) ficou mesmo através do cinema - o que não é pouco. Mas se me fosse dado o poder de refazer a história, teria dado um jeito de encontrá-lo.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

o nosso estrangeiro


 foto Arquivo NV

Morreu sábado passado, aos 100 anos, o antropólogo e etnólogo Claude Lévi-Strauss, aquele que "detestou a Baía de Guanabara: pareceu-lhe uma boca banguela", segundo lembrava Caetano Veloso na música "O estrangeiro", no disco homônimo de 1989.
A citação do compositor baiano teve inspiração no livro "Tristes trópicos", clássico do intelectual francês, lançado em 1955, uma espécie de autobiografia, onde estão as bases do estruturalismo e da antropologia moderna. A obra de 500 páginas é tratado sobre o processo civilizatório, um extraordinário relato com sinceras reflexões sobre a viagem que fizera ao Brasil nos anos 1930. Lévi-Strauss conviveu com os índios bororo, nambiquaras e cadiuéus nas matas amazônicas, observando os mitos e rituais,  o que lhe deu a certeza de que não se tratavam de selvagens, e sim donos de uma lógica complexa e sofisticadas estruturas sociais, fazendo uma análise comparativa das religiões do velho e do novo mundo.

Com mais de 30 livros publicados, o antropólogo voltou ao Brasil no começo dos anos 80. Gostava do nosso carnaval, tinha especial predileção pela marchinha "Mamãe eu quero", de Jararaca, gravada por Carmen Miranda. No período em que viveu aqui, Lévi-Strauss fotografou como parte de pesquisa de campo, revelando-se sua enorme gratidão. A Pinacoteca do Estado de São Paulo, em maio passado, por ocasião do Ano da França no Brasil, incluiu algumas dessas  fotos na exposição "À procura de um olhar".






fotos Claude Lévi-Strauss

E ainda sobre a citação de Lévi-Strauss na música "O estrangeiro", lá pelo meio da discursiva letra, Caetano volta dizendo "Mas era ao mesmo tempo bela e banguela a Guanabara / em que se passara passa passará o raro pesadelo / que aqui começo a construir sempre buscando o belo." 

domingo, 1 de novembro de 2009

detalhes do amigo de fé, irmão camarada


 foto Indie Records 

Chegou às livrarias "Minha fama de mau", autobiografia de Erasmo Carlos. Ele prefere dizer que é um livro memórias em que evoca histórias divertidas ao longo de sua carreria musical de 50 anos. O título faz referência a uma das faixas de um dos seus melhores discos, "A pescaria", lançado em 1965, vinilzão em que tem participações de Renato e Seus Blues Caps e Lafayete. Nesse disco tem a famosa "Festa de arromba" e algumas versões de rocks cinquentistas, como de Chuck Berry.

Ainda não li, está na fila, esperando eu terminar "O dia em que Getúlio matou Allende", de Flávio Tavares, e "Caim", de Saramago. Mesmo que o tremendão, com sua cabeça de homem e coração de menino, prefira não ir fundo nos seus relatos, acredito que tenha algo novo para se conhecer de sua tragetória, o seu olhar, o seu ponto de vista sobre pessoas e fatos.

Pelo menos ele teve a franqueza de conversar com os fãs através de um livro, dizendo a verdade com frases abertas, ao contrário do parceiro de tantos caminhos e tantas jornadas, Roberto Carlos, que mandou tocar fogo na sua biografia, escrita por Paulo César de Araújo.

Em tempo: sou fã de Roberto, mas não sou súdito: não desculpo sua atitude inquisitória, contradizendo seu ar de moço bom.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

La vita è bella



A deusa Anita Ekberg resolve tomar banho com roupa na Fonte de Trevi enquanto Marcello Mastroianni tenta achar leite para um gatinho, que ela tinha visto nas ruas. Ao retornar, Marcello vê Anita se banhando e se deslumbra, principalmente quando ela o convida.

A cena é do filme "A doce vida" (La dolce vita), de Federico Fellini, rodado em 1960. Mastroianni é o jornalista Marcello Rubini, e Anita vive uma fictícia atriz hollywoodiana chamada Sylvia Rank. Escândalo mundial, premiado em Cannes e Oscar de melhor figurino, o longa é um retrato da Roma em seu esplendor, e antecipou as mudanças que fizeram dos anos 60 a década da transformação, mostrando o tempo da velocidade, da americanização dos hábitos, dos carros e das mulheres formidáveis.

"A doce vida" é todo cheio de cenas emblemáticas, como a abertura, com a sequência da estátua do Cristo sobrevoando Roma, não por milagre, mas transportado por um helicóptero, dentro do qual estão os repórteres sensacionalistas e um fotógrafo paparazzi - termo que acabou sendo incluído no vocabulário mundial.
Começo dos anos 60 e a Itália mergulhava num otimismo desvairado. Acabara a guerra e ninguém queria mais saber do cinema neo-realista - do qual o próprio Fellini havia emergido, simplesmente porque ninguém desejava se recordar da violência, da miséria, da humilhação.
A vida era bela.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

bicho solto


foto Sandro Fielting 

"Que bicho feroz são seus cabelos / que à noite você solta?"

Versos de "Você, você - uma canção edipiana", composta por Chico Buarque, musicada por Guinga, no disco "As cidades", de 1998.

Mas o sentido da letra completa é outro, bem diferente da minha brincadeira com a foto acima, de minha atrevida "licença poética". A inspiração de Chico Buarque está muito bem analisada pelo psicanalista e compositor David Calderoni, no trabalho "A pedra e a perda - feminino e temporalidade", publicado na página da Uol.


Chico também comenta e canta:



domingo, 25 de outubro de 2009

os destinos do país num ambiente assim

 
 foto Luiz Alves / Agência Câmara

"A nossa Câmara dos Deputados, em Brasília, é a única no planeta cujos integrantes não se sentam no plenário a debater ou discutir, analisar ou ponderar, expor e replicar. Ao contrário, os poucos deputados presentes parecem estar a passeio ou de passagem rápida, sempre de pé pelo corredor, num tumulto permanente que leva a perguntar: é possível legislar ou pensar sobre os destinos do país num ambiente assim? Não se parlamenta: se conversa ou se grita. Não há 'parlamento', mas simples aglomeração. Nenhum outro parlamento do mundo é assim. De onde vem essa prática insólita e absurda? Será outro legado dos tempos da ditadura implantada em 1964, dessa sui generis ditadura com deputados e senadores, em que o Congresso era apenas uma formalidade no jogo de faz-de-conta para simular democracia?"

Comentário à parte do jornalista Flávio Tavares em seu livro "O dia em que Getúlio matou Allende", publicado em 2004 e imprescindível para compreender um pouco mais, aliás, muito mais da história da vergonhosa política brasileira.

O deputado Clodovil Hernandes,  era um estranho naquele ninho,  e  se entrou na política como um aventureiro, sem nenhuma vocação para o parlamento, foi, no mínimo, extremamente sincero em suas convicções, muito mais do que a cambada de nobres senhores envolvidos em mensalão, castelos e outras práticas indignas do Legislativo federal.

Uma das frases de Clodovil que marcou o seu primeiro discurso em 2007, ilustra bem aquilo lá:


"Fala-se muito em decoro parlamentar. Eu não sei o que é decoro com um barulho desses enquanto a gente fala. Aqui parece um mercado. Isso aqui representa um país. Nem na televisão, que é popular, se faz isso."

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

eu nem ligo, nem esquento a cabeça...


foto Divulgação

"Sou uma pessoa que gera anticorpos em muita gente, mas não ligo. Continuo fazendo meu trabalho."

(José Saramago)

terça-feira, 13 de outubro de 2009

tijolo com tijolo num desenho lógico



A edição brasileira da revista Rolling Stone fez uma enquete com 90 críticos especializados e mais alguns jornalistas da área musical, para saber quais as 100 maiores canções brasileiras. A lista faz parte da edição que chegará às bancas nesta semana, comemorando três anos de publicação nacional.

"Construção", de Chico Buarque, ficou em primeiro lugar, e eu votaria nela para essa colocação se fosse consultado. Composta em 1971, em pleno regime truculento do general Médici, é uma das letras mais bem elaboradas em toda história da música brasileira. Não consigo achar outra que tenha tamanha preciosidade poética. Adriano Senkevics, do blog Letras Despidas, fez uma excelente análise de "Construção", verso por verso, interpretando seu "aspecto narrativo, além de um caráter cíclico e comparativo."

Eu era adolescente quando ouvi pela primeira vez a música, numa tarde quente em Fortaleza, através do rádio. O apresentador do programa, Paulo Lima Verde, anunciou o "grande lançamento" do elepê do cantor Chico Buarque de Holanda, já destacando a magnífica letra da faixa-título "Construção", a última do lado A. Como diria a rapaziada, fiquei "chapado". E depois vi o vinilzão de capa ocre, com a foto pequena do Chico de camisa estampada, mão esquerda na cintura, cabelos repartidos de lado, bigode em circunflexo.

Um aspecto que muito impressionou foi a narrativa que remetia à imagens. Vi  um filme enquanto ouvia música. Como eu quis fazer um roteiro cinematográfico daquela canção!... E como aquela letra muito me orientou nos rabiscos dos meus poeminhas, na busca precisa e certeira das rimas, na armação das palavras proparoxítonas.

Quanto às demais escolhidas na pesquisa da Rolling Stones, seguem as que ocupam os 10 primeiros lugares: "Águas de março", de Tom Jobim, "Carinhoso", de Pixinguinha, "Asa branca", de Luiz Gonzaga, "Mas que nada", de Jorge Ben, "Chega de saudade", de Vinicius de Moaraes e Tom Jobim, "Panis et circenses", de Caetano e Gil, "Detalhes", de Roberto e Erasmo Carlos, "Canto de Ossanha", Vinicius e Baden Powell e "Alegria, alegria", de Caetano.

sábado, 10 de outubro de 2009

jazz em San Telmo


foto Divulgação

O tango com sua forma de melodia binária, a música eletrônica com sua multiplicidade sonora, o jazz com sua  variedade harmônica e improvisos. Estes três elementos convergem e definem a proposta do grupo San Telmo Lounge, que se apresentou ontem no CCBB de Brasília, encerrando o projeto Eletrotango iniciado há três semanas.

Assisti a todos os shows da programação e esse me pareceu o menos contagiante, não exatamente pela sonoridade que caracteriza bem o estilo lounge music, mas pela distante integração dos músicos com a platéia. Os quatro componentes, competentes em seus instrumentos, interagem entre si como estivessem em um ensaio. As poucas vezes que o criador e líder do grupo, o guitarrista Martín Delgado (na foto, o primeiro à direita), se dirigiu ao público, foi apenas para informar que tal música é de tal disco, não de forma antipática, mas burocrática, sem a empatia e descontração que marcaram as apresentações dos tangueiros de outras noites, de otros aires.

San Telmo Lounge é um quarteto que toca jazz. O tango passa longe, muito além do bairro que inspirou o nome da banda, onde curiosamente se encontram tantos bares, pubs e os melhores clubes de tango da capital argentina. Só se percebe esse ritmo tão identificatório da alma portenha quando soa o bandoneon do esquisito Pablo Gaitán. Até mesmo os recursos eletrônicos que caracterizam o experimento dessa fusão musical, são moderados, frugais, quase nada.

Gosto muito de jazz, de lounge music, mas saí na sexta-feira para um tango ao compasso das picapes.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Prêmio Nobel da Paz!


foto AFP

Primeiro negro eleito presidente dos Estados Unidos, o senador democrata Barack Obama, 47 anos, foi nomeado nesta sexta-feira Prêmio Nobel da Paz. Merecidíssimo!

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

e ela, por onde anda?


 foto France Press
 
Ingrid Bettencourt, sequestrada pelas FARC em 2002, libertada em em 2008, junto com 14 reféns.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

tango narcótico


 foto Divulgação
  
"Narcotango é um abraço profundo entre o tango e a atmosfera musical eletrônica de nosso tempo. Pensei nisso vendo alguns poucos pares dançando na pista, se negando a terminar a noite; e foi nessa hora que nasceu o Narcotango. Imaginei a música que queria dançar e ver dançar. É nessa hora que o poder narcótico do tango seduz, uma vez que entramos nesse universo e não queremos mais sair. Porque o tango é como uma droga: proporciona uma incrível sensualidade e uma poderosa energia."

As palavras inebriantes são do músico Carlos Libedinsky (o primeiro à esquerda, na foto), criador e líder do grupo Narcotango, que faz uma suave mistura do tango de Osvaldo Pugliese com Massive Attack. Um cruzamento aparentemente difícil de se imaginar, mas que é possível. Aliás, o tango com os sons de origem eletrônica está proporcionando resultados extraordinários na música contemporânea.

Não somente o tango "proporciona uma incrível sensualidade e uma poderosa energia", como afirma o músico argentino: a música em si, pela sua  natureza,  transita direto nesses efeitos, em todos os gêneros desde que a qualidade exista para conduzí-la nessa viagem de sensualidade e energia.  E imagino sensualidade e energia como todos os tipos de sentimentos que possam despertar nos ouvidos mais sensíveis, nos corações mais abertos.

O tango, claro, tem uma característica, algo em sua definição que se entrega a uma coreografia que denota a sensualidade, ou pegando e explorando a comparação de Libedinsky, um efeito lúbrico, voluptuoso, lascivo. O show do Narcotango, que assisti nesse fim de semana, no CCBB de Brasília, até provoca essas sensações, mas de eficácia mais letárgica do que excitante, ao contrário dos dois grupos anteriores, Tanghetto e Otros Aires, que se apresentaram no projeto Eletrotango. Como já conhecia o Narcotango de disco, não me surpreendi muito.
Mas assistir ao vivo o efeito é outro. A dosagem é maior.

domingo, 4 de outubro de 2009

Gracias a la vida!



 foto France Press
 
Gracias a la vida, que me ha dado tanto, Mercedes, me deu dois olhos que quando os abro distingo bem o bem do que não é bem, Mercedes, e do alto do céu estrelado, nas multidões a mulher que eu amo, Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, me deu ouvido para te ouvir, Mercedes, com toda tua extensão, noites e dias, grilos e canários, martírios, turbinas, ladridos, chubascos. E tua voz tão terna, minha bem amada Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, Mercedes, me deu o som e o abecedário, com ele as palavras que penso e declaro mãe, amigo, irmão e luz alumbrando a rota da alma do que estou amando, Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, me deu a marcha de meus pés cansados, com eles andei cidades e charcos, praias e desertos, montanhas e planos, e tua casa, tua rua e teu pátio, Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, Mercedes, me deu o coração que agita seu marco, quando olho o fruto do cérebro humano, quando olho o bom tão longe do mau, quando olho o fundo de teus olhos claros, Mercedes. Gracias a la vida, que me ha dado tanto,  me deu o riso e me deu o pranto, assim eu distingo dita de quebranto,os dois materiais que formam teu canto, Mercedes, e o teu canto que é o mesmo canto, e o canto de todos que é teu próprio canto. Gracias a la vida, que me ha dado tanto, Mercedes, eu que tanto te ouvi, que tanto resisti trabajando duramente contra os anos de chumbo, ouvindo-te, ouvindo-te, ouvindo-te, Mercedes Sosa. Gracias también, Violeta Parra.

Duerme, duerme, negrita.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

no velho oeste ele nasceu


 foto Produzioni Europee Associati

Em meio à Guerra Civil Americana, três homens fazem de tudo para colocar as mãos em 200 mil dólares roubados, que devem estar escondidos em um cemitério. Cada um deles conhece apenas uma parte da sua localização, o que faz com que eles tenham que se unir. O problema é que nenhum está disposto a dividir o que encontrarem. Aparentemente simples, o roteiro de  "Três homens em conflito" (Il buono, il brutto, il cattivo), resulta em um dos melhores westerns que o cinema já produziu. Para mim, um clássico. Dirigido pelo italiano Sergio Leone, em 1966, é um dos filmes que projetou Clint Eastwood, ao lado de outros faroestes igualmente bons, como "Por um punhado de dólares" (Per un pugno di dollari), de 1964, e "Por uns dólares a mais" (Per qualche dollaro in più), de 1965.

Sergio Leone praticamente consagrou o que se denominou de westerns spaghetti, um gênero lançado nos anos 60 por vários cineastas italianos. Na verdade, os filmes eram rodados na Espanha, numa região desértica que lembrava o velho oeste americano. O elenco desses filmes tinha atores de várias nacionalidades, do brasileiro Anthony Steffen ao alemão Klaus Kinski, passando, obviamente, por italianos como Giuliano Gemma, Franco Nero, Gian Maria Volonté. E americanos, claro, como o citado Clint Eastwood, que praticamente deu uma cara ao cowboy de Sergio Leone, autor de um western mais cuidado, sensorial, com uma preciosa direção de cena e de ator, como se vê no excelente "Era uma vez no Oeste" (Once Upon a Time in the West), 1968, com atuação primorosa de Henry Fonda.

Li uma vez numa revista especializada que foram realizados mais 600 filmes werstern spaghetti, do início dos anos 60 até final dos 70. Não sei se assisti a todos, talvez não, mas vi muitos, muitos desses filmes. "Três homens em conflito" é um que revejo sempre.

A trilha sonora de Ennio Morricone é um clássico à parte, e totalmente integrado à memória do filme. Alguém pode não ter visto "Três homens em conflito", mas certamente já ouviu essa música, aqui numa ótima e divertida execução da Ukulele Orchestra of Great Britain. Assovie junto.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

devolva o Neruda que você não leu


foto Vic di Santis

Publicar um livro no Brasil e lançar no mercado editorial é uma tarefa mais ingrata do que se imagina. Uma ótima matéria sobre o assunto está no caderno Diversão & Arte do jornal Correio Braziliense de hoje.

Impressionantes os dados: apenas 20 milhões de brasileiros, do total de 190 milhões de habitantes, têm  costume de comprar livros com frequência. Seria  "apenas" mesmo em um país refém de telenovelas, big brothers e anasmariasbragas?...

Segundo a Unesco, temos 14 milhões de analfabetos. E não foram contabilizados os analfabetos políticos, aqueles de quem Bertolt Brecht lamentava, "que não ouve, não fala, não participa dos acontecimentos". 

Enquanto em países como os Estados Unidos 500 mil livros é o mínimo para se tornar um best-seller, por aqui nos contentamos 10 mil exemplares vendidos para ficar no topo da lista. 

Resta saber  a qualidade da quantidade dos 10 mil daqui e os 500 mil de lá.

domingo, 27 de setembro de 2009

otros tangos


foto Divulgação

O Otros Aires é um projeto audiovisual, criado em 2003, pelo músico e arquiteto argentino Miguel Di Genova, o do meio na foto acima.  O espetáculo que o grupo apresenta une a estética portenha do começo do século passado, como o tango, el barrio,a imigração, a música de Carlos Gardel, a milonga e as orquestras típicas, tudo numa mixagem criativa com as várias vertentes da música eletrônica e o vídeo.

Assisti ao show do Otros Aires na sexta-feira, 25, no projeto Eletrotango que o CCBB de Brasília está apresentando até 10 de outubro, quando fecha a programação com o San Telmo Lounge, e antes, no próximo fim de semana, o Narcotango.
A apresentação dos tangueiros do Otros Aires é contagiante. Não somente o bandoneon do ótimo Omar Eduardo, como o piano e a programação eletrônica que o maestro Diego Pablo joga no palco dão uma atmosfera que nos leva aos becos de bairros portenhos como o La Boca, na época dos cabarés ao som da voz no vinil de Gardel, e ao mesmo tempo às grandes orquestras que enchiam os salões chiques da capital portenha, com o volume das cordas, dos bandoneons e da coreografia dos  impecáveis dançarinos. No fundo palco imagens em vídeo de um passado do tango que não passa, que se renova, que renasce nessa mistura engenhosa com a música eletrônica.



fotos celulares de Cris Pereira

A guitarra, a voz afinadíssima e o carisma de Miguel Di Genova é o que incorpora toda a essência do Otros Aires. Canta-se com ele as músicas, e pelo menos sobe-se virtualmente no palco para uma contradança desses otros tangos.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

gaiola das loucas


foto Warner Bros

Um dia após ter sido chamado de "veado" e "fumador de maconha" pelo governador do Mato Grosso do Sul, André Puccinelli, o ministro da Meio Ambiente, Carlos Minc, reagiu com insinuações.
"Ele que saia do armário tranquilo, pois nós defendemos todos os homossexuais, assumidos ou enrustidos", respondeu. O ministro disse que não vai abrir processo contra Puccinelli pelas agressões, mas não abriu mão de prolongar a polêmica.

Puccinelli chegou a fazer uma ameaça insólita, caso o ministro viesse participar da minimaratona ecológica a se realizar no estado. "Eu corro atrás dele e o estupro em praça pública".

E o ministro: "Ele perdeu o controle e mostrou o seu verdadeiro eu de forma desassombrada, manifestando preconceito. É típico de pessoas que não admitem seu próprio homossexualismo. Na verdade, essas pessoas agridem algo que existe dentro deles próprios e que não aceitam."
 
É preciso jogar uma água benta de boas maneiras em vossas excelências. A baixaria não tem mais limites.

Na foto acima, Ugo Tognazzi e Michel Serrault, no filme de boas maneiras e com todo o respeito, "Gage aux folles", que Edouard Molinaro digiriu em 1978.

Emília, Emília, Emília


fotos Agência Globo

O jeito sapeca da boneca Emília, criada por Monteiro Lobato, tinha tudo a ver com a atriz Dirce Migliaccio, que consagrou a personagem na segunda versão de "O Sítio do Pica-pau Amarelo", exibido na Globo nos anos 70. Dirce, que faleceu ontem, aos 76 anos, era ativa, cheia de energia, brincalhona. Não haverá outra Emília. E Dirce Migliaccio, só uma.

Sempre achei que a atriz lembrava muito outra grande atriz, Giuletta Masina, principalmente em "Noites de Cabíria". Se por uma ousadia quisessem fazer uma versão brasileira do clássico filme de Fellini, ela seria a atriz certa para o papel. Apesar de ter sua carreira consolidada na televisão, em novelas e séries, no cinema teve atuações importantes, como em "O assalto ao trem pagador", de Roberto Farias, em 1962, "Baixo Gávea", de Haroldo Marinho Barbosa, 1986, e mais recentemente participações em "Bufo & Spallanzani, de Flávio R. Tambellini, 2001, e  "Sem controle", de Cris D'Amato, 2007.

Não tive a  oportunidade de vê-la nos palcos. Imagino como foi brilhante na  peça do dramaturgo russo Anton Tchekhov, "O jardim das cerejeiras", que Élcio Seixas dirigiu em 2000, e em outras montagens clássicas em que atuou, como "Eles não usam black-tie", "Vestido de noiva", e "As tias".

Outra forte lembrança de Dirce é sua  Judicéia Cajazeiras em "O Bem-amado", em 1973, uma das duas novelas que consegui assistir (a outra foi "Roque Santeiro"). Dirce interpretava uma das correligionárias do prefeito Odorico Paraguaçu (Paulo Gracindo), e tinha uma química perfeita com Dorinha Durval e Ida Gomes, que viviam as outras irmãs, Dulcinéia e Dorotéia.



"Não desfazendo das outras / Emília é mulher / Papai do céu é quem sabe / Só existe uma e sem ela eu não vivo em paz / Emília, Emília, Emília, eu não posso mais."

Este trecho do samba de Haroldo Lobo e Wilson Batista, "Emília", que Roberto Silva gravou nos anos 40, não tem nenhuma relação com a simpática boneca de Monteiro Lobato. Mas fica a homenagem e o desejo que Dirce esteja no Sítio divertindo Papai do Céu com sua Emília.

sábado, 19 de setembro de 2009

o gueto do tango


 foto Enrique Borst

O eletrotango é uma ótima fusão de instrumentos tradicionais, como o bandoneon, com computadores e samplers, seja em temas remixados, em composições originais ou utilizando fragmentos de canções clássicas.
Eu adoro tango e ouço com prazer música eletrônica. Música eletrônica inteligente, não aquele bate-estaca pra moçada dançar com os miolos turbinados com exctase. A música eletrônica do Fluke, do Air, do St.Germain, do Erik Truffaz, do Nitin Sawhney, e outros que sabem dominar as picapes, os múltiplos recursos que as admiráveis engenhocas eletrônicas proporcionam em termos musicais. Vejam, aliás, ouçam o que os caras do BossaCucaNova fazem com a bossa nova e a cuca deles. Uma maravilha!
Com o tango, a novidade é na mesma proporção. Desde a aparição dos franco-argentinos do Gotan Project que o eletrotango é uma das melhores inovações surgidas no cenário musical do ano 2000 pra cá na chamada "word music", ou seja qual nome queiram rotular. Eu, como resisto à rótulos e bitolas, vou ouvindo o que faz meu coração dançar e o meu corpo ficar odara.

Fui assistir ontem a abertura do projeto "Ponte Aérea Portenha Eletrotango", no Centro Cultural Banco do Brasil, aqui em Brasília. O grupo que abriu a programação foi o Tanghetto, que conheci há uns três anos em Buenos Aires. Liderado por Max Masri, que fica ali no meio do palco nos comandos eletrônicos, o Tanghetto foi formado em 2001 e o nome junta as palavras tango e ghetto inspirado nas pequeñas argentinas, que são comunidades de emigrantes argentinos no exterior.  No caso deles, a inspiração partiu de uma viagem de Max a Alemanha. Afinal, o bandoneon é invenção de um músico alemão, Henrich Band, que pegou o sobrenome para batizar o instrumento.

O estímulo à atividade criadora não fica apenas no nome do grupo, está nas músicas, nos arranjos que eles fazem desconstruindo e reconstruindo a mais famosa expressão musical da Argentina. Como bem disse Carlos Libedinsky, do Narcotango, "o tango deixou de ser apenas uma lembrança do passado para ser uma linguagem atual, onde a música e a dança emergem com novas expressões."

Nos quatro discos do Tanghetto é forte essa idéia revivida do tango a partir das experiências entre os emigrados argentinos em outros países. É como se os portenhos refizessem o tango na melancolia da distância mixado com a alegria do retorno. Não por acaso, o primeiro cd chama-se "Emigrante", de 2003, que me lembro ter sido indicado para Grammy latino na categoria Melhor Álbum Instrumental. A faixa mais significativa desse disco, como se nela convergisse toda a proposta musical tanghetta, é a inspiradíssima e dançante "Alexanderplatz tango". O mesmo sentido está na recriação de "Englishman in New York", belíssima canção de Sting, de 1987, que no show os hermanos chamaram de "Bandoneon en New York".

Outra coisa que me marcou na apresentação foi o violoncelo do chinês Chao Xu. Os arranjos do moço deu uma surpreendente fusão de música asiática com as palhetas livres do fole do bandoneon. Os olhinhos puxados não estão ali à toa, contribuem muito bem para a proposta deles.

Os próximos três shows prometem noites ainda melhores: Otros Aires, Narcotango e San Telmo Lounge. Claro, ficaria mais completo se viessem o Gotan Project e o Bajofondo.

segunda-feira, 14 de setembro de 2009

do outro lado da vida

foto Paramount Pictures

Ele tinha talento para muito mais. Mas será sempre lembrado por esse filme e por essa cena.

Patrick Swayze, 1952 - 2009

sábado, 12 de setembro de 2009

teu coração tá batendo

foto Arquivo NV

"O Oswaldo Massaini lutou até o último instante para colocar o Mazzaropi no lugar do Leonardo Vilar. Ele estava interessado na bilheteria. A idéia era tão fixa que ligou para o Alípio Ramos, no Rio de Janeiro, para vir me convencer da mudança. Ele veio. Era pressão de dois produtores. Bati o pé. Hoje fico a imaginar o filme brasileiro mais premiado de todos os tempos com Mazzaropi no papel principal, fazendo um tipo esbodegado. Risível."


Anselmo Duarte, 89 anos, em sua autobiografia "Adeus, cinema", lançada em 1993 pela Massao Ohno Editor, ao falar sobre tudo que envolveu a produção de "O pagador de promessas", o primeiro e até agora o único filme brasileiro a ser premiado com a Palma de Ouro no Festival de Cannes, em 1962.
O livro é de uma sinceridade que em alguns momentos causa uma sensação de amargura. Anselmo não usa meios-termos, não poupa pessoas nem esconde fatos, não disfarça os defeitos nem minimiza a importância de seu trabalho como cineasta, e, antes que lhe esqueçam, diz que ao publicar o livro correu "o risco consciente e involuntário de fazer história do cinema brasileiro". A elegância, no entanto, está em todas suas palavras, em um depoimento que comove pelo coração aberto.

E o cineasta passou por um risco inconsciente e involuntário recentemente: após 23 dias internado, Anselmo recebeu alta do Instituto do Coração do Hospital das Clínicas, em São Paulo. No mês passado ele sofreu um infarto agudo do miocárdio, e os médicos identificaram outras complicações urológicas. Estabilizado o quadro cardíaco, o diretor seguirá dirigindo esse filme de sua vida em casa, intercalado com acompanhando médico.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

the end

"Em busca do ouro" (Gold rush), de Charles Chaplin, 1925. Foto Roland Totheroth

"A coisa mais injusta sobre a vida é a maneira como ela termina. Eu acho que o verdadeiro ciclo da vida está todo de trás pra frente. Nós deveríamos morrer primeiro, nos livrar logo disso. Daí viver num asilo, até ser chutado pra fora de lá por estar muito novo. Ganhar um relógio de ouro e ir trabalhar. Então você trabalha 40 anos até ficar novo o bastante pra poder aproveitar sua aposentadoria. Aí você curte tudo, bebe bastante álcool, faz festas e se prepara pra faculdade. Você vai pro colégio, tem várias namoradas, vira criança, não tem nenhuma responsabilidade, se torna um bebezinho de colo, volta pro útero da mãe, passa seus últimos nove meses de vida flutuando... E termina tudo com um ótimo orgasmo!!! Não seria perfeito?"
Charles Chaplin

domingo, 6 de setembro de 2009

se acaso me quiseres

 
 foto Miramax Films
A linda Mira Sorvino é uma prostituta que atende pelo pleonasmo Linda, e de repente aparece na sua frente um pai com o filho adotivo dizendo que ela é a mãe biológica do menino, que queria conhecer etc e tal. Só mesmo Woody Allen pra armar uma confusão dessa pra garota, em "Poderosa Afrodite", filme que ele dirigiu em 1995, e ainda faz o pai!

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

set de filmagem

foto United Artists

“Há um mito John Ford, que foi comparado, como criador de epopéias, a Homero. Ford seria o Homero das pradarias, identificado como tal por sua preferência pelo western como território de criação de lendas. O próprio Ford admitia-o. No começo dos anos 1950, em pleno macarthismo, realizou-se uma reunião de diretores, convocadas por Cecil B. de Mille, que queria tirar de seus pares uma posição conjunta de apoio à caça às bruxas desencadeada pelo senador McCarthy. De Mille estava quase convencendo os colegas quando um sessentão, usando tapa-olho, levantou-se e pediu a palavra. O que disse faz parte da lenda. Começou dizendo: ‘Meu nome é John Ford e eu faço westerns’. Prosseguiu demolindo a proposta de delação de De Mille."

Luiz Carlos Merten, em seu livro "Cinema - entre a realidade e o artifício", editora Artes e Ofícios, 2003


A foto acima é das filmagens de “No tempo das diligências” (Stagecoach), rodado em 1939, um dos principais filmes fordianos, ao lado de “Paixão de fortes” (Um darling Clementine), 1946, “Rastros de ódio” (The searchers), 1956 e, o meu preferido, “Vinhas da ira” (Grapes of wrath), 1940, baseado no romance de John Steinbeck.
Na cena, a carruagem para numa hospedaria. Ao centro, John Wayne desce e anda um pouco em direção à esquerda para observar o local. Passa ao lado do rebatedor de luz, a câmera gira um pouco corrigindo o enquadramento até ouvir o "corta" do diretor.

“Stagecoach” em si é um filme emblemático sobre o velho oeste americano, apesar (e talvez por isso) da predileção de Hollywood em massacrar os índios. A diligência atravessa a fascinante paisagem desértica do Monument Valley, ao som envolvente da música de Louis Gruemberg. Dentro embarcam um médico alcoólatra, uma prostituta, um banqueiro, um jogador, uma mulher grávida e um pistoleiro, Ringo Kid, interpretado por Wayne, ator presente na maioria dos filmes de Ford. Esses passageiros simbolizam um retrato da sociedade americana da época e até mesmo dos dias de hoje.
Durante a viagem, ameaçados pelo perigo dos Apaches, cada um dos viajantes revela aos poucos suas peculiaridades, seus desejos, mesquinharias, medos e contradições. E é justamente no bandido que eles depositam a segurança no percurso pelo deserto.

Orson Welles dizia ter assistido "Stagecoach" mais de 40 vezes, antes de produzir sua obra-prima, "Cidadão Kane", em 1940. Do outro lado da América, o mestre japonês Akira Kurosawa afirmou que era um de seus filmes favoritos e o influenciou quando fez "Os sete samurais", em 1954. E conversando certa vez com o cineasta Vladimir Carvalho, aqui em Brasília, ele me revelou sua admiração pelo cinema de John Ford, desde os tempos de menino no sertão paraibano.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

o inventor do futuro

foto Time Inc.

"Estou interessado no futuro, pois é lá que vou passar o resto da minha vida."

(Charles Kettering)

Taí um cara de quem sou admirador! Kettering foi um americano nascido em uma fazenda em Ohio, e tornou-se um dos inventores mais importantes do século passado. Muitos consideravam, no início de seus trabalhos como cientista, de "invencionices", criações malucas, bizarras, sem sentido. Depois viram que aquele fazendeiro sabia das coisas. Graças a ele, por volta de 1911, os motoristas não precisariam mais ligar o motor de seus Cadillac girando uma manivela. Kettering inventou a ignição elétrica!

Na foto acima, de 1913, Charles Kettering testa a parte elétrica do automóvel Buick, que hoje é uma das quatro marcas sobreviventes da GM. À propósito, ele criou a Companhia de Laboratórios de Engenharia Dayton, conhecida pela sigla Delco, que se transformou na divisão de produtos da General Motors. No começo dos anos 10, o gerador Delco era uma fonte crucial de eletricidade para milhares de fazendas.

Kettering, que não era bobo, patenteou mais de 140 invenções, entre elas, a máquina registradora. Era considerado também um filósofo, um frasista certeiro, como "um inventor é um engenheiro que não leva sua educação muito a sério", "oportunista é aquele que consegue o sucesso que você queria mas não soube obter", "pessoas são muito abertas para coisas novas, desde que elas sejam exatamente como as coisas antigas."

Charles Kettering viveu o seu futuro até 1958, quando faleceu ao 82 anos. Mas com certeza o resto da humanidade continua vivendo o resto de vida no futuro que ele nos deixou.