domingo, 17 de dezembro de 2017

joga pedra na Geni

foto Leo Aversa
"Acho que vou começar a usar esses fones na rua. Gosto de caminhar e, por onde caminho, nos bairros chiques do Rio, as pessoas finas passam com seus carros grandes e gritam: 'viado filho da puta!', 'viado, vai pra Cuba', 'vai pra Paris, viado'. O único consenso é o 'viado'”.
- Chico Buarque, sobre estes tempos temerosos longe da delicadeza.

sodade

Sete anos sem o canto perfumado da cabo-verdiana Cesária Évora.

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

um nome da saudade

A saudade hoje tem mais um nome: Pedro.
O cinema tem mais uma saudade, a música tem mais uma saudade, a vida cultural cearense tem mais uma saudade.
Valeu sua passagem por esse jardim, pelas ruas, pelas noites, pela Praia de Iracema.
Quando se vai um amigo, vai também um pedaço de nós, das horas divididas, dos dias compartilhados, dos sonhos esperançados.
Tornamo-nos eternos no coração de quem nos quer bem.
Eu te quero bem, amigo.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

à altura dos corações

Yasujiro Ozu, o cineasta do cotidiano, dos laços e desenlaces familiares.
Criador dos planos com tripé baixo, sua câmera-tatame está sempre à altura dos corações dos que partem e dos que voltam.
Minimalista, com serenidade e sutileza, seu cinema disseca sentimentos que mexem com todos, como deve ser para o entendimento e reflexão de todos nós, seres imperfeitos metidos a sabidos.
Em seus filmes, Ozu estabelece uma estrutura neorrealista, confrontando o velho e o novo Japão, muito bem definido no envelhecimento e na modernidade, nos filhos e nos pais, nas cidades e nos costumes, no efêmero que somos, no eterno que pretendemos.
Como em conceito taoísta, o cineasta veio e se foi no mesmo dia, 12 de dezembro. Os 60 anos que se ligam entre o seu Yin em 1903 e o seu Yang em 1963, reúnem as forças da transformação contínua, da vida que surge à vida que se destina.

segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

o anjo torto de Vila Isabel

"Sou do sereno poeta muito soturno..."
Noel Rosa viveu apenas 27 anos, de boemia e poesia, dos 107 que não faria hoje.
Ele foi um dândi enviesado, um irreverente com suprema inteligência, no começo de um século reverencioso aos bons costumes do lugar. Do jeito que atravessava a noite e curtia a vida, não alcançaria estes mitológicos 2000 anos depois de Cristo.
Noel Rosa: Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, lançada em 1990 e logo recolhida pelas sobrinhas herdeiras do compositor, é o mais completo relato da vida do artista.
O livro foi proibido através de ações judiciais, alegando desrespeito à vida privada da família, possivelmente por mencionar os suicídios da avó e do pai de Noel.

O texto é primoroso, com a elegância que o biografado merece.

domingo, 10 de dezembro de 2017

a vida de Clarice

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
- Clarice Lispector através da personagem Lóri em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, 1969.
Hoje ela faria 97 anos rendida à vida.
Abaixo, a escritora fotografada por Bluma Wainer, Paris,1946, imagem usada na capa do ótimo Clarice, uma biografia, do americano radicado na Holanda Benjamin Moser, 2009. Uma pena que o título na edição brasileira, pela Cosac Naify, omita um dado importante do título original, Why this world: a biography of Clarice Lispector. O "por que este mundo" é ao mesmo tempo uma pergunta-afirmação bem tipica das inquietações e mistérios de Clarice.

sábado, 9 de dezembro de 2017

que mistérios tem Clarice?

"Ao vê-la, levei um choque: os seus olhos amendoados e verdes, as maçãs do rosto salientes, ela parecia uma loba – uma loba fascinante. Não tenho qualquer lembrança do que conversamos naquela ocasião, porém quase nada devo ter eu falado, a não ser talvez algumas palavras de elogio a sua literatura. Ela era afável e simples mas de pouco falar. Saí dali meio atordoado, com aquela imagem de loba na cabeça. Imaginei que, se voltasse a vê-la, iria me apaixonar por ela."

- Ferreira Gullar, que se foi há um ano, sobre a primeira vez que viu Clarice Lispector, que se foi há 40 anos hoje e faria 97 amanhã.
O encontro fascinante aconteceu numa tarde de domingo na casa da escultora Zélia Salgado, Ipanema, 1956.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

o último take

Notícia triste nesta manhã... O cinema cearense perde um dos seus mais autênticos e combativos cineastas: Francis Vale.
A ele devo o primeiro take do meu documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B, cedendo-me equipamentos, equipe e muito afeto. E partiu dele a homenagem que recebi no Festival Jeri Digital, em 2012. Só tenho gratidão e muita saudade.
Meu coração abraça vocês, Gabriel Vale e Bel Vale, filhos, e Leny, sua querida esposa.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

a palo seco

A frase estampada no poste é título do livro de Diego Moraes, nascido há 33 anos em Amazonas. É uma espécie (em extinção) de “Bukowski manauara”, por sua escrita dilacerada e bêbada.

Lançada ano passado, a sexta publicação desse poeta que prefere ser marginal nas frestas (e não festas) literárias, é uma miscelânea de escritos, contos, poemas e aforismos. A referência ao cantor e compositor cearense se deu porque “a música dele me acompanhou por um tempo em fundos de bares escuros. Embalou uma época da minha vida que julguei sem esperança. Sem amor. A voz dele me bastava.”

O canto de Diego Moraes é torto feito faca cortando a nossa carne.

Sete meses hoje que Belchior toca no bar vazio do coração de todos os diegos...

terça-feira, 28 de novembro de 2017

amor pelo cinema

1983, set de filmagens de E la Nave Va, de Federico Fellini.
Contra-regras erguem o rinoceronte ilusionista e apaixonado, flutuando em um bote salva-vidas, uma das cenas mais emblemáticas de um dos mais emblemáticos filmes em homenagem ao cinema.

Como disse o escritor Peter Bondanella, conceituado estudioso da cinematografia italiana, “em nenhum outro lugar o amor de Fellini pelo cinema é tão evidente quanto em 'E la Nave Va'”.

estrada da vida

Federico Fellini enquadra Giulietta Masina, que se enquadra na personagem Gelsomina em A estrada da vida (La strada), 1954, que se enquadra em um dos melhores filmes da história do cinema.

segunda-feira, 27 de novembro de 2017

os sonhadores

Cena de E la nave va, de Federico Fellini, 1983.

"Precisamos dos poetas para dar coerência aos sonhos"
- Luigi Pirandello na peça Os gigantes da montanha, 1936.


amor filial

Setsuko e Chishu Ryu em Pai e filha
Noriko tem 27 anos, e o pai, a tia e a vizinhança insistem que ela precisa casar. A moça não pensa nisso, prefere ficar cuidando do pai, viúvo.
“Quero ficar aqui com você para sempre, papai”, diz Noriko sempre que o pai volta ao assunto de que a filha precisa seguir seu caminho.
A partir desse enredo simples, o cineasta Yasujiro Ozu desenvolve o roteiro de um dos mais belos filmes da cinematografia mundial, Pai e filha (Banshum), de 1949.
Setsuko Hara foi uma das atrizes preferidas de Ozu. Pai e filha é o primeiro da trilogia de sua personagem Noriko, retornando em Também fomos felizes (Bakushû), 1951, e no clássico Viagem à Tóquio (Tokyo monogatari), 1953.
Ozu dirige Setsuko em Viagem à Tóquio
Setsuko tinha o mesmo amor pelo cineasta. Quando este faleceu, em 1963, a atriz parou de fazer cinema e se recolheu na cidade provinciana de Kamakura. Mesmo recusando-se a dar entrevistas e deixar-se fotografar, a atriz exilou-se com tranquilidade, sem amarguras, de forma zen, ao contrário de Greta Garbo.
Sua partida definitiva, aos 95 anos, foi em setembro de 2015, e anunciada dois meses depois. Minimalista como em um filme de Ozu.

domingo, 26 de novembro de 2017

o caminho de volta

Há sete anos o ator e cineasta Dennis Hopper foi enterrado na cidade Taos, Novo México. Foi lá que ele dirigiu, atuou e editou o clássico Sem destino (Easy rider), em 1969.
Era o desejo dele.

domingo com Clarice

"Fiquei sozinha um domingo inteiro. Não telefonei para ninguém e ninguém me telefonou. Estava totalmente só. Fiquei sentada num sofá com o pensamento livre. Mas no decorrer desse dia até a hora de dormir tive umas três vezes um súbito reconhecimento de mim mesma e do mundo que me assombrou e me fez mergulhar em profundezas obscuras de onde saí para uma luz de ouro. Era o encontro do eu com o eu. A solidão é um luxo."
- Clarice Lispector em Um sopro de vida, publicado em 1978, um ano depois de sua morte.

sábado, 25 de novembro de 2017

queima de estoque


sexta-feira sem vidas

Ontem o Egito sofreu mais um ataque com bombas e tiros em uma mesquita na região do Sinai, a 200 quilômetros da capital, Cairo. No cenário de destruição mais de 300 mortos, quase 30 crianças, e mais de 100 feridos.
O milenar país dos faraós luta há muito tempo contra a insurgência islâmica, e esse conflito sangrento intensificou-se há uns quatro anos quando grupos extremistas passaram a atacar forças de segurança, civis e igrejas cristãs.
O cínico Donald Trump com seu topete oxigenado condenou o ato como “horrível e covarde”. A conservadora primeira-ministra britânica Theresa May se disse "chocada com o ataque revoltante". E nas redes sociais do país da fraude brequifraidei, pouca comoção. O Egito não é a França.

quarta-feira, 22 de novembro de 2017

o que acontecia com miss Simone


"Quando ela se apresentava, era brilhante, era amada. Ela também era uma revolucionária. Ela achou um propósito no palco, um lugar no qual poderia usar a voz para defender seu povo.
Porém, ao fim do espetáculo todos iam para casa. Ela ficava sozinha e continuava combatendo seus próprios demônios, tomados de raiva e fúria. Ela não se aguentava e tudo vinha abaixo."
- Lisa Simone Kelly, filha de Nina Simone, em entrevista no documentário, "What happened, miss Simone?", de Liz Garbus, 2015.
Acima, Lisa ao seis anos com a mãe, após um show em Londres, 1968. Foto Daily Mirror

santa música

Pela crença cristã, Santa Cecília, uma abnegada mocinha de família nobre romana, cantava para Deus quando estava morrendo. Em sua homenagem é considerada a Padroeira dos Músicos. Ou da Música Sacra, como preferem os estudiosos no assunto.
No calendário litúrgico da Igreja Católica, por uma possível data relacionada ao dia de sua morte, foi escolhido 22 de novembro para a festa em sua louvação.
No Brasil comemora-se o Dia do Músico. Parabéns a todos que são músicos todo santo dia! Só eles sabem quanta abnegação para afinar e sobreviver com as cordas que o demo amassou neste país.
St Cecilia, óleo sobre tela de Guido Reni, 1606. O quadro encontra-se no Norton Simon Museum, Califórnia.

preto e branco

Hoje
54 anos do lançamento do disco With the Beatles, o segundo da banda.

49 anos do duplo Álbum Branco.

terça-feira, 21 de novembro de 2017

som. câmera. imaginação!


"Existe algo mais importante do que a lógica: é a imaginação. Se pensamos primeiramente na lógica, não podemos imaginar mais nada."
- Alfred Hitchcock

A imaginação de crianças nigerianas na cidade Naija. 
Foto: Olayemi Olatilewa

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Zumbi dos Palmares

foto Gorivero
“Vou enfeitar o meu corpo no seu / eu quero este homem de cor / um deus negro do Congo ou daqui...”
- Trecho de Black is beautiful, de Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle, gravada por Elis Regina no disco "Ela", 1971.
Hoje é celebrado o Dia da Consciência Negra, em lembrança à morte Zumbi, do Quilombo dos Palmares, o maior da era colonial brasileira, localizado no estado de Alagoas.
Zumbi, pernambucano de origem bantu, morto pelas tropas do bandeirante Domingos Jorge Velho, foi o último dos líderes da luta e resistência contra a escravidão. A luta se renova nestes temerosos tempos urbanos.
A data foi sancionada pela presidente Dilma Roussef, em 2011.
A Estátua de Zumbi, na Praça da Sé, Salvador, de autoria da artista plástica Márcia Magno, foi inaugurada em 2008.
foto Gorivero

domingo, 19 de novembro de 2017

o último show

"Todo dia em que eu levanto e subo num palco é como se fosse o último show pra mim."
A cantora Sharon Jones disse em uma entrevista quando esteve há dois anos no Brasil, para uma série de apresentações em São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba e Porto Alegre.
Mesmo diagnosticada com câncer, a grande dama do rhythm and blues, do soul e do autêntico funk, não pronunciava como uma sentença, em tom fatalista, mas como um aprendizado diário para enfrentar as dificuldades e respirar as manhãs que a vida lhe oferecia. Seguia à risca a máxima do filósofo romano Horácio: “carpe diem”/“aproveite o dia”.
Sharon gravou seu primeiro disco já depois dos 40 anos. Foi "redescoberta" quando Amy Winehouse declarou influência de sua música. Metade das faixas do já antológico Back to black 2006, tem a participação de The Dap-Kings, banda que acompanhava a cantora americana desde o início de sua carreira, e que se tornou uma marca indissociável de ritmo e voz, entre os arranjos metais e a vocalista.
Sharon se foi numa noite de novembro do ano passado, aos 60. Subiu noutros palcos para novos últimos shows.

sábado, 18 de novembro de 2017

vida de Brecht

Charles Laughton em “Galileu Galilei”, 1947.
Vida de Galileu, de Bertold Brecht, teve suas primeiras anotações por volta de 1934-35, e os esboços desenvolviam os conceitos do astrofísico italiano Galileu Galilei, que no medieval século 16, contradisse a Igreja Católica ao afirmar que o Sol era o centro do Universo, e não a Terra.
A peça começou a ser escrita com sua estrutura dramatúrgica quando Brecht, com a subida de Hitler, passou um tempo exilado na Dinamarca, em 1938. Oficialmente é a primeira versão, então intitulada A Terra gira. A segunda é de 1944, que o autor remanejou tratamentos cênicos sob o período convulsionado da Segunda Guerra, e ganhou o título que conhecemos, com apresentações nos anos seguintes em Nova Iorque.
O dramaturgo, porém, remexe na montagem apontando mais reflexões sobre o tema, quando em 1949 funda na Berlin Oriental, a Berliner Ensemble, companhia teatral, que, em parceria com sua esposa, a atriz Helene Weigel, traçou um perfil novo de construção de personagem, tendo como uma das principais características os longos e exaustivos meses de preparação. E foi graças aos princípios inovadores de teoria e prática de encenação da Berliner, com sentido social e político, que a peça teve sua versão definitiva em 1955. No ano seguinte, durante os ensaios, Brecht, doente, sentiu-se mal e faleceu meses depois.
Nenhuma de suas obras - todas excelentes -, envolveu tanto Brecht quanto Vida de Galileu. As convicções do personagem, lutando com fundamentação para provar o óbvio, enfrentando o Tribunal da Santa Inquisição que o obrigava a negar sua tese, revestem como uma pele o pensamento do autor, que dissecava em sua criação as relações humanas no poder e no sistema capitalista.
Uma das falas da peça que se cristalizou ao longo do tempo, está na cena 13. Entre o tormento da condenação e a tutela da verdade, Galileu conversa com seu secretário Andreas, que lhe pede que não ceda aos inquisidores:
Andrea (em voz alta) — Infeliz a terra que não tem heróis.
Galileu – Não. Infeliz a terra que precisa de heróis.

Algumas traduções no Brasil colocam “povo” ou “nação” no lugar de “terra”. A citada é do crítico e professor de teoria literária Roberto Schwarz, numa ótima edição de 1991.
O desastrado e equivocado secretário de Cultura do Rio de Janeiro, em um patético discurso recentemente na Assembleia Legislativa, mencionou a fala de Galileu, sem nenhum um cabimento, e cometeu o desatino de confundir o autor com “Bertoldo Brecha”, personagem criado por Chico Anysio para o programa Escolinha do Professor Raimundo. Seria trágico se não fosse cômico. Ou o contrário. O tal secretário pode ter acidentalmente acertado em colocar “povo” na frase, mas não altera em absolutamente nada os sintomas de tempos temerosos em que estamos vivendo no Brasil.
O escritor francês Bernard Dort ao analisar Galileu Galilei em um ensaio, disse que Brecht escreveu a peça, pelo menos originalmente, “para servir de exemplo e de conselho aos sábios alemães tentados a abdicar seu saber nas mãos dos chefes nazistas.”
Atualizando o aplicativo, é uma colocação muito oportuna. A arte, acrônica em sua essência, espelha e retrata o tempo e o homem por todos os lados.

sexta-feira, 17 de novembro de 2017

depois de hora

foto Patrick Swirc, 2015
"Vejo filmes a toda hora e é sempre difícil acordar."
- Martin Scorsese, 75 anos hoje em sonho profundo com o cinema


esses moços...

- A velhice chega pra todo mundo, Almirante...
- O problema não é ficar velho... o problema é ter sido jovem.

Diálogo entre os personagens de Juliana Paes (Morena) e de Nelson Xavier, em A despedida, de Marcelo Galvão, 2014, baseado na vida do avô do diretor.
Depois de Chuvas de verão, de Cacá Diegues, 1977, pouco se viu no cinema brasileiro a inevitabilidade da velhice com tanta delicadeza. Galvão com sua câmera discreta, na cadência e sincronia das limitações do personagem, nos faz acompanhar o cotidiano crepuscular de um homem de 91 anos, que “não queria ter a lucidez de entender” a sua realidade, como diz em outro primoroso diálogo.
Mas não há amargura nessa clareza. Há uma aceitação tranquila do presente, uma relação de paz com a inexorabilidade do tempo. E assim, sabendo da evidência e incontestabilidade de seus dias finais, Almirante acorda, veste-se, sai no seu andador, quita uma dívida no bar, procura um amigo pra lhe pedir perdão por um vacilo no passado, e segue em direção a casa da amante de tanto tempo. Juliana Paes surpreende numa interpretação que a dramaturgia fast-food televisiva nunca lhe proporcionou. A cena de amor na banheira entre a bela e jovem Morena e o nonagenário amante, é de um erotismo lírico e elegante, afetuoso e raro. Corpo e alma em usufruto que o prazer permite.
Nelson Xavier, em sua penúltima atuação, molda o personagem com a coragem de sua própria condição, já abatido pela doença que manteve discreta e que o levaria no começo deste ano, aos 75. O ator atravessou o seu horizonte por aqui deixando o legado de um grandioso trabalho, assim como fez no último filme, Comeback, de Erico Rassi, 2016.
Não foi problema envelhecer. E ao contrário do que refletiu seu personagem em A despedida, não foi problema ter sido jovem, com a carreira brilhante que fez no cinema brasileiro.

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

o futuro antigamente

A atriz Brigitte Helm nos intervalos de Metropolis, ficção científica alemã dirigida pelo austríaco Fritz Lang.
Brigitte ficou famosa logo em sua estreia, interpretando o duplo papel da operária Maria e a Andróide.
Produzido em 1926, o filme é ambientado cem anos à frente, ou seja, daqui a menos de uma década. O impressionante dessa obra-prima do expressionismo é a percepção futurista do enredo, com cenários e conflitos tão atuais.

a última desesperança da Terra

Planeta dos macacos (Planet of the apes), de Franklin J. Schaffer, 1968, clássico filme de ficção científica, conta a história de uma tripulação espacial que depois de muito tempo hibernada na nave, pousa em um planeta parecido com a Terra, dominado por uma civilização de macacos, já no adiantado e inimaginável ano 3900. Como creio que todos conhecem o filme, não é spoiler dizer que o planeta é a própria Terra, sem vestígios de seres humanos, e numa curiosa inversão, tem os símios como seres inteligentes, poderosos, e, como nada é perfeito, bélicos.
Charlton Heston interpreta o astronauta George Taylor, sobrevivente que enfrenta a raça dos macacos falantes em busca de respostas para aquilo tudo. O ator, que já tinha sido “salvador da humanidade” como Moisés em Os dez mandamentos, o lendário herói espanhol em El Cid, o judeu libertário em Ben Hur, e em muitos outros filmes, como A última esperança da Terra, não foi à toa que a Century Fox o escalou para mais um papel de Messias-reloaded.
Depois de muito embate com os macacos, Taylor em uma fuga que extasiava a plateia, em desesperado galope à beira-mar dá de cara com a Estátua da Liberdade, afundada parcialmente na areia, a tocha apagada em suspiro final. Uma das imagens mais impactantes da história do cinema.
O personagem ajoelha-se e sucumbe à dor. A cena resume toda a certeza que a humanidade estava ali disseminada, coagulada na mais grave desesperança. O que Hollywood, como fábrica mágica de sonhos e pesadelos, explicitou em inúmeras sequências de destruição de alguns filmes interessantes e muitos outros desprezíveis, “elipsou” nesse o apocalipse em uma cena extremamente simbólica, não somente por sabermos da cidade de Nova Iorque acabada e sumida do mapa, mas de toda a população da Terra literalmente enterrada com a estátua presenteada pela França, e, sobretudo, um certificado anti-Guerra Fria. Não por coincidência o filme é baseado no romance La planète des singes, do francês Pierre Boulle, 1963.
A sequência final de “Planeta dos macacos”, como promove e vaticina o cinema americano, lembra que o planeta explode diariamente em meio à paz que ainda regamos no front de cada dia.
Possivelmente um dos primeiros filmes que retrata uma crítica social por meio de distopia.

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

15 de novembro

"A República foi proclamada pelos banqueiros que tinham vontade de ocupar o lugar da nobreza, e ter aqueles luxos e privilégios, mas que não conseguiram porque não tinham o sangue azul. Então, eles armaram a Proclamação para ocupar o espaço nobre e tiveram o cuidado de manter a mesma estrutura."
- A República e sua proclamação na visão lúcida de Eduardo Marinho, um brasileiro, 2016.
Abaixo, a República proclamada na visão em óleo sobre tela de Benedito Calixto, um brasileiro, 1893.

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

o tempo de Manioel

Em 2008 a revista Caros Amigos, edição 117, publicou uma entrevista com Manoel de Barros. Foi uma das raríssimas vezes em que o poeta recebeu jornalistas em sua casa... Com sua timidez de passarinho e simplicidade pantaneira, Manoel preferia atender às perguntas por escrito.
Quando um dos jornalistas perguntou o que achava sobre a duração da vida, ele respondeu em versos criados naquele momento:

“O tempo só anda de ida. A gente nasce, cresce, envelhece e morre. Pra não morrer, é só amarrar o tempo no poste. Eis a ciência da poesia: amarrar o tempo no poste! ”
Há três anos o tempo de Manoel soltou-se do poste.
Acima, desenho-poema do poeta.

o tudo do nada

"Não preciso do fim para chegar.
Do lugar onde estou já fui embora."

- Manoel de Barros, versos finais do poema O livro sobre o nada, publicado no livro homônimo, 1996.
Há três anos o poeta foi embora para o lugar onde estava.

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

black is beautiful

"Grite alto: Sou negro e tenho orgulho!"
O cantor, dançarino, compositor e produtor musical James Brown sempre repetia a frase em seus shows.
Brown foi tão prolífico que influenciou até mesmo os ritmos da música popular africana, como o afrobeat, e proporcionou o paradigma para o que conhecemos como funk, o groove legítimo de rítmico forte com baixo elétrico e bateria no fundo.
Isso é coisa de negro, "mister" William Waack.

quinta-feira, 9 de novembro de 2017

deusa ferida

Charge do paranaense Ademir Paixão.
“Abro a janela e eis que, em tumulto, a esvoaçar, penetra um vulto:
É um Corvo hierático e soberbo, egresso de eras ancestrais. ”

- Trecho de O Corvo, clássico poema de Edgar Allan Poe, tradução de Milton Amado, publicado pela primeira vez em 1845, no periódico New York Evening Mirror.
O poeta louco americano, como dizia Belchior, discorre em linguagem ultrarromântica, a tristeza pela perda de sua amada Leonora. A ave misteriosa simboliza o mau agouro, a acepção negativa, e pousa sobre o busto da deusa grega Palas, ferida mortalmente por Atenas.
Um salto no tempo: a belíssima estátua A Justiça, do artista plástico mineiro Alfredo Ceschiatti, em Brasília, é a representação feminina do poder e da verdade. A deusa de olhos vendados e alma aberta. A força e a coragem, a ordem e a regra. E o seboso Mendes corvidae, da "Ordem Essetêefeformes", pousa suas patas asquerosas sobre o busto da imparcialidade.
A simetria do tempo: os versos de um poema que atravessa a história e atualiza o aplicativo do lamento, da dor, da indignação.

no brick on the wall

Ironicamente, hoje quando faz um ano que o besta fera Donald Trump foi eleito presidente, e tem entre suas metas diabólicas a construção de um muro entre EUA e México para conter imigração ilegal, celebram-se 28 anos da queda do Muro de Berlim.
Durante quase três décadas de existência, o muro, com seus quase 70 km de extensão, separou não somente um país, mas polarizou o mundo, no que Drummond chamou de "tempo de homens partidos".

Na onda revolucionária que se propagou no Bloco do Leste, em 1989, o muro foi destruído, cortina de ferro rasgada, com a euforia de multidões de alemães dos dois lados, que se reencontraram, e dessa forma simbolizando e manifestando um novo tempo, porque, "os lírios não nascem das leis" - recorrendo mais uma vez ao poeta de Itabira.

Há muros e "muros" ainda para serem derrubados, dentro de nós e lá fora. E outros que não devem ser levantados.
Há o meu lado e o teu. Isso e aquilo. "Tudo tão difícil depois que vos calastes... / e muitos de vós nunca se abriram", citando outra vez Drummond, em seu preciso e precioso poema Nosso tempo.

a cajuína cristalina em Teresina

"Caetano Veloso havia chegado a Teresina para um show, estava muito triste. Retornava pela primeira vez à cidade onde havia nascido um de seus principais parceiros na Tropicália e seu grande amigo, o poeta Torquato Neto, meu primo, que havia se suicidado em 1972.
Caetano procurou Tio Heli (foto), pai de Torquato. Já se conheciam do tempo em que Tio Heli ia a Salvador ver Torquato, que estudava na mesma escola de Caetano. Levou Caetano pra casa, serviu-lhe uma cajuína, e procurou consolá-lo, pois Caetano chorava muito, convulsivamente.
Em determinado instante, Tio Heli saiu da sala e foi ao jardim, onde colheu uma rosa-menina, que deu a Caetano. Ali mesmo os versos de 'Cajuína' começaram a surgir, entre antigas fotos do menino Torquato, penduradas pelas paredes."
- Paulo José Cunha, jornalista e poeta, residente em Brasília.
Torquato faria 73 anos hoje, pessoais e intransferíveis.

meu coração não contenta

"Você me chama, eu quero ir pro cinema"
- Verso do poema Go back, de Torquato Neto, escrito em 1971, musicado pelo tecladista do Titãs, Sérgio Brito, gravado no disco homônimo ao vivo da banda, 1988.

Na foto, o poeta contracenando com Scarlet Moon em Nosferatu do Brasil, de Ivan Cardoso, 1971.
Torquato faria hoje 73 anos... "mas de repente, a madrugada mudou" e ele se foi um dia depois de seu aniversário, aos 28.

quinta-feira, 2 de novembro de 2017

cores da morte

Quando Pedro Almodóvar lançou o filme Volver, em 2006, disse em entrevista a jornalistas em Madri, que escreveu o roteiro inspirado na naturalidade com que seus conterrâneos da pequena Castilla-La Mancha, tratam a morte, cultivando muito a memória e passando a vida inteira cuidando de sepulturas.
O cineasta espanhol trata do assunto em cores nada sombrias. Muito pelo contrário. Tendo à frente do elenco suas fiéis atrizes Carmen Maura e Penélope Cruz, o filme conta a história de três gerações de mulheres que representam essa comunidade onde se fala muito, se oculta muito, se escuta muito, e, para ser uma comédia, chora-se muito. Só mesmo Almodóvar sabe pincelar bem essas cores diante o negro das vestes do luto.
Carmem Maura, por exemplo, faz uma avó que volta do além para resolver uns assuntos que esquecera. Mortos e vivos convivem sem nenhum espanto. O fantástico e o real na mesma tela.
Almodóvar com humor inteligente transforma o cinema em entretenimento e reflexão.

3%

Alberto Benett, cartunista paranaense

contos da morte


"Quando a Morte conta uma história, você deve parar para ler."

A menina que rouba livros (The book thief), drama do australiano Markus Zusak, publicado em 2005.

O livro tem como narradora a Morte, cuja função é recolher a alma de todos aqueles que se vão. Ou vêm.

verdade inconveniente

Na manhã do Dia de Finados de 1975, em uma tranquila praia italiana em Ostia, arredores de Roma, uma senhora se chocou com o aparecimento do corpo, desfigurado, de um dos maiores cineastas e poetas que o mundo já viu: Pier Paolo Pasolini. Tão controversa quanto sua vida, sua morte tem até hoje mistérios difíceis de decifrar.
Com base em conversas com seus discípulos, tais como Bernardo Bertolucci e Alberto Moravia, o pouco conhecido documentário Quem fala a verdade deve morrer (Wie de waarheid zegt moet dood), de Philo Bregstein, produção holandesa de 1981, tenta descobrir a verdade por trás do terrível assassinato desse mito da sétima arte.
Em uma narrativa investigativa, o filme analisa as teorias em torno do crime. Segundo a versão oficial, o cineasta, comunista declarado e homossexual assumido, teria sido torturado e atropelado por um garoto de programa.
Há quem acredite, porém, que se tratou de uma conspiração do governo italiano. Desde os anos 60 o país vivia tempos de chumbo, caracterizado por crises econômicas, conflitos sociais, massacres terroristas realizados por grupos extremistas com o suposto envolvimento da inteligência dos Estados Unidos. Após a morte de Pasolini, esse período teve momento mais conturbado com o assassinato do líder democrata-cristão Aldo Moro, em 1978.
Em 2015 uma série de pinturas em homenagem ao cineasta apareceu em áreas ao redor do centro turístico de Roma e Ostia. O autor é o artista plástico francês Ernest Pignon-Ernest, e essa abaixo retrata um duplo retrato de Pasolini carregando a si próprio, vivo e morto, modelado à maneira de "Pietà", de Michelangelo.

terça-feira, 31 de outubro de 2017

cometa Drummond

“No ar frio, o céu dourado baixou ao vale, tornando irreais os contornos dos sobrados, da igreja, das montanhas. Saímos para a rua banhados de ouro, magníficos e esquecidos da morte que não houve. Nunca mais houve cometa igual, assim terrível, desdenhoso e belo.”
Assim registrou em seu diário o pequeno Carlos aos 7 anos de idade, quando e como viu deslumbrado o cometa Halley passar nos céus de Itabira, em 18 de maio de 1910.
Hoje 115 anos de nascimento de Drummond de Andrade.
Naquela noite do último dia de outubro de 1902, um anjo desses que vivem nas montanhas de Minas, disse: vai, Carlos! ser engenhoso e belo na poesia.