sábado, 19 de agosto de 2017

o ator

O grande Amâncio Fregolente disse uma vez em entrevista que se morresse no palco, durante uma peça, quem morreria seria o personagem e não ele, tamanha era sua entrega numa atuação. De formação teatral rodrigueana, largou a medicina aos 33 anos para se dedicar a mais de cem papeis no cinema e no tablado.
Hoje, Dia do Ator, a minha mais profunda admiração a todos que vivem outros seres humanos em seu trabalho. Extrair de si outra vida numa interpretação tem o mesmo significado de um parto, de dar à luz, de insistir na esperança, de reverberar a pulsação.
Em 1979 Fregolente participava da comédia musical Amante latino, de Pedro Carlos Rovai, contracenando com Anselmo Vasconcelos, Monique Lafond, Sidney Magal, Elke Maravilha... Sentiu-se mal nas filmagens e faleceu de infarto, aos 66 anos, justamente o dobro da idade de quando começou. Ou seja, faleceu seu personagem, justamente o duplo de si.

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

era de Aquário

"Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música", assim foi anunciado o maior evento da música popular, o Woodstock, que começou em 14 de agosto de 1969, na cidade de Bethel, estado de Nova York.
Uma multidão de mais 400 mil pessoas com o dedo em V, cabelo ao vento, gente jovem reunida, e o cartaz de mais de trinta músicos... Jimi Hendriz, Janis Joplin, Richie Havens, Arlo Guthrie, Joan Baez, Santana, Creedence Clearwater Revival, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Johnny Winter, Crosby, Stills, Nash & Young, entre outros.
Muitos recusaram os convites, pelos mais variados motivos. Dos Beatles, dizem que John Lennon exigiu que tocasse com ele a Plastic Ono Band; Led Zeppelin achou que seria apenas mais uma banda se apresentando; o inocente empresário do Jethro Tull argumentou que teria muita droga e sexo; The Doors não foi porque falaram que Jim Morrison estava inseguro diante tanta gente; o filho de Bob Dylan adoeceu poucos dias antes...
Woodstock ficou marcado como um retrato comportamental, exemplificou a era hippie e a contracultura do final dos anos 1960 e começo de 70. E isso não é pouco.

24 quadros por segundo

Em um preciosismo trabalho de edição, vários personagens de filmes ícones do cinema contemporâneo se encontram no mesmo lugar. Fora do tempo. Fora da lógica. Dentro do tempo. Dentro da lógica. Cinema!


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

cara, crachá

“A minha relação com Deus sempre foi uma relação muito íntima. Eu nunca tive Deus separado de mim. Eu e Deus, não existe religião aqui”, disse o ator Paulo Silvino, em entrevista em 2012.
Famoso por seus papeis humorísticos em programas de televisão, Paulo ficou no imaginário popular como o porteiro Severino e o bordão “Cara, crachá”, do Zorra total.
Ele se foi hoje, aos 79 anos. Íntimo de Deus, o querido comediante está bem acolhido, não precisou mostrar crachá. Fica nossa cara de saudade...

no meio do calçadão

No meio do calçadão tinha o Drummond
tinha o Drummond no meio do calçadão
tem o Drummond

no meio da minha vida tem o Drummond...

Nunca me esquecerei de que naquele 17 de agosto, há 30 anos, você partiu de vez pra Itabira.

terça-feira, 15 de agosto de 2017

subindo aos céus

De acordo com a crença Cristã, Maria mãe de Jesus teria morrido enquanto dormia em 15 de agosto de 43 d.C. “Acordou” quando estava sendo levada aos céus por anjos. Essa subidinha ao paraíso é chamada de “assunção” porque Maria só teve acesso à casa do Pai depois de morta e ressuscitada, ao contrário do Filho, que com seu próprio poder e sacrifício com esta humanidade ingrata teve acesso ao Paraíso ainda vivo.
Entre Mãe e Filho há essa diferença para o Catolicismo: Ascensão de Nosso Senhor e Assunção de Nossa Senhora.
Em Fortaleza, capital cearense, o Forte de Nossa Senhora de Assunção remonta à época da segunda invasão dos holandeses ao Brasil. A primitiva estrutura de longas e altas paredes brancas foi erguida por eles em meados do século 17, estrategicamente ao lado rio Pajeú que vai bater no meio mar.
A Coroa Portuguesa que já estava por aqui há mais tempo, tinha ultrapassado a fase de estágio probatório, digamos, ergueu suas armas e expulsou os holandeses, apossando-se do forte e denominando-o Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção, possivelmente por ter em Portugal, mais precisamente na província de Trás-os-Montes e Alto Douro, uma grande devoção à Virgem Maria, onde hoje é feriado. Na capital cearense também. 
E os bares estão cheios desde ontem, véspera de acordar tarde.

Acima, pintura Assunção da Virgem, 1616, do alemão barroco Peter Paul Rubens. Atualmente a obra está no Museu Real de Belas-Artes, Bélgica.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

a alma do cinema

“Não são as imagens que fazem um filme, mas a alma das imagens”
A frase é de Abel Gance (1889-1981), cineasta francês.
Mais do que um pioneiro, foi um visionário na história do cinema. Criou a Polyvision, sistema embrionário de projeção de filmes que viria a se chamar Cinerama, que consiste em tela tríplice. Graças a esse recurso ele exibiu seu clássico Napoleón, rodado durante quatro anos, com três câmeras simultâneas, principalmente as sequências abertas de batalhas.
Na exibição foram usados três projetores separados que jogavam em cada tela cenas que se interligavam, dando a sensação volumosa de realidade. Isso em 1926!


Três anos depois Abel lançou o som estereofônico.
Considerado um lírico do cinema, Abel Gance atravessou duas guerras com o olho na câmera. Utilizou a tecnologia a favor da temática histórica e de uma dramaturgia impressionista, características que se pode comprovar numa filmografia de mais de vinte títulos.
O citado Napoleón, sua obra-prima, foi remontado e revisto na década de 30 e 70. Em 1979, o cineasta Francis Coppola relançou o filme com uma nova cópia e trilha sonora criada por seu pai, Carmine Coppola.
Abel sabia o que dizia, pois captava a alma das imagens.

tanque vazio, saco cheio!


o deserto de cada dia

Metrô lotado. Braços e corações pendurados no balanço subterrâneo. Todos ilhados em seus smartfones, iPhones... O vagão é um deserto pulsante.

sábado, 12 de agosto de 2017

o silêncio

“Nenhum som teme o silêncio que o extingue. E não existe silêncio que não seja prenhe de som.”
Passa-se a vida inteira não para compreender, mas para sentir a grande música experimental e poética de John Cage.
Acima, o compositor e teórico musical fotografado por Henning Loehner, um ano antes de seu silêncio, em 12 de agosto de 1992.

ser

"Poesia não é para compreender,
mas para incorporar.
Entender é parede; procure ser árvore.”

- Manoel de Barros, do livro "Gramática expositiva do chão: poesia quase toda", p. 212, 1990

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

a Bahia tem um jeito...*

A bandeira do Estado da Bahia foi criada pelo médico Diocleciano Ramos, em 1889. Fortemente inspirada nas cores norte-americanas, tem um triângulo evocativo ao símbolo maçônico.
Projeto recente da Associação Desportiva dos Arremessadores de Ovos propõe substituir e atualizar o aplicativo do desenho triangular por um oval, tornando-se, assim, mais representativo ao jeito de ser do povo baiano...

* Caetano Veloso em "Terra", 1978.

o mundo de Robin

Robin Williams aos 31 anos, em uma cena de O mundo segundo Garp (The world according to Garp), de George Roy Hill, 1982.
O ator se foi aos 63, há três anos hoje.

quinta-feira, 10 de agosto de 2017

flauta progressiva

O moço roqueiro acima é o escocês Ian Anderson, flautista maluco beleza do Jethro Tull, em show lá nos anos 70.
A banda inglesa, formada em 1967 e que durou até 2011, incorporou ao rock progressivo elementos do folk, jazz, hard rock e da música clássica. Inesquecível a combinação com rock que Anderson fez de Bourrée em E menor, peça para alaúde de Johann Sebastian Bach, gravada no segundo disco de estúdio, Stand Up, 1969.
Na foto abaixo, o músico completando 70 anos hoje. Vão-se os cabelos, fica a flauta.

doriatrix reloated


domingo, 6 de agosto de 2017

sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada...*

Há exatos 72 anos, às 8h15 do dia 6 agosto, a bomba "Little boy" foi lançada sobre a cidade de Hiroshima, matando instantaneamente mais de cem mil pessoas.
O local de 350 mil habitantes tinha um porto militar insignificante. Não havia necessidade para o ato. O Japão já estava derrotado, sem condições para a continuidade da guerra, com fábricas militares destruídas.
* Vinicius de Moraes em Rosa de Hiroshima, publicado em Antologia Poética, 1954.

domingo, 30 de julho de 2017

há 18 domingos que Belchior não morreu

Vamos sair pela rua da Consolação (...) e sonhar com o domingo em nosso coração. ”

- versos da canção “Passeio”, de Belchior, 1974.

Passeando na parede da memória da consolação.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

o Lampião de Chico

foto Tibico Brasil
Tive a honra de ser assistente de direção do filme Corisco e Dadá, de Rosemberg Cariry, 1996, onde Chico Alves fez o papel do lendário Lampião.
Os dias em que convivi com o ator, no set de filmagem quem chegava era Lampião, tamanha a entrega da interpretação. Os atores que faziam o bando do cangaceiro, muitos deles figurantes do interior do Ceará, se magnetizavam com a caracterização do personagem, e o reverenciavam. Mais do que seguiam as indicações do roteiro, obedeciam as ordens do chefe. O sertão do Cariri virou um mar de cinema.
E coisas do Universo: ontem Chico Alves faria aniversário, hoje faz 79 anos que Lampião se foi pro outro lado do sertão. Imagino a conversa dos dois...

segunda-feira, 24 de julho de 2017

o dia seguinte


O Último Dia de Sol, de Nirton Venancio 

Na madrugada de 1.º de abril de 1964, dia seguinte ao golpe militar no Brasil, um ativista político foge com a mulher e o filho pequeno. A ação, baseada em fatos, passa-se numa pequena cidade do interior nordestino.

Exibição na programação Brasília em Plano Aberto - Mostra de Curta-metragens, tema Ditaduras, CCBB Brasília, 2 de agosto, 19h30.

sábado, 22 de julho de 2017

y así pasan los sábados


O clássico bolero cubano Quizás, quizás, quizás, composto em 1947 por Osvaldo Farrés é uma das músicas mais gravadas do mundo. Há uma versão até em árabe, do cantor argelino Abdelkader Chaou, do começo dos anos 2000.
Foi na interpretação de Nat King Cole que a canção ganhou maior projeção internacional. O célebre cantor de voz aveludada fez muitos shows em clubes, casinos e teatros em Havana, na metade da década de 50, quando a ilha de Fulgêncio Batista era um balneário norte-americano. Nat gravou “uizás em 1958 no disco Cole español, e com o sucesso, seguiram mais dois álbuns com repertório latino-americano, turnês por três anos a bordo de luxuosos navios e palcos europeus.

A semente representativa da composição está no legendário Bueno Vista Social Club, ponto de encontro de jovens músicos na Havana dos anos 40: Compay Segundo, Ibrahim Ferrer, Omara Portuondo, Rúben González... Fechado na década de 50, foi reaberto no começo dos anos 90. E graças à percepção do guitarrista de blues Ry Cooder e o olhar do cineasta Wim Wenders que os “jovens velhinhos” foram revelados para as novas gerações. As filmagens do show dos remanescentes do Buena Vista no Carnegie Hall, em Nova Iorque, e em Armsterdan, e entrevistas, resultaram no documentário que leva o nome do clube, premiado no European Film Awards, e indicado ao Oscar em 1996.
A gravação de Quizás do vídeo abaixo é de 2005 nos estúdios EGREM de Havana, para o disco “mi sueño, de Ibrahim Ferrer. O septuagenário cantor convidou sua colega Omara e o jovem pianista de jazz Roberto Fonseca, revelação da música cubana, já com vários cds, e uma espécie de componente de um novo Buena Vista, que sem perder a referência e o cunho tradicionalista, aborda com reverência a música cubana numa visão moderna.
Quase todos buenavistenses já se foram. Somente Omara continua encantando seus boleros, na beleza de seus 86 anos.
Ibrahim Ferrer não viu Mi sueño lançado. Faleceu logo após a gravação, numa tarde de sábado...

terça-feira, 18 de julho de 2017

noites de Fellini

“Ir ao cinema é como voltar ao útero. Você se senta na escuridão e espera surgir a vida na tela”
- Federico Fellini
Cena de Que estranho chamar-se Federico (Che strano chiamarsi Federico), de Ettore Scola, 2013.
Baseado em recordações pessoais do diretor, o filme mostra os primeiros anos da carreira de seu amigo Fellini.

adestramento



domingo, 16 de julho de 2017

nunca mais outra vez

O último dia de sol, de Nirton Venancio.

Na madrugada de 1.º de abril de 1964, dia seguinte ao golpe militar no Brasil, um ativista político foge com a mulher e o filho pequeno. A ação, baseada em fatos, passa-se numa pequena cidade do interior nordestino.

Exibição na programação Brasília em Plano Aberto - Mostra de Curtas-metragens, tema Ditaduras, CCBB Brasília, 2 de agosto, 19h30.

Nunca imaginei que fosse exibir meu filme com o país novamente em uma ditadura. Não é a mesma configuração dos 20 anos sem sol que o Brasil viveu após o golpe de 64, mas é uma ditadura. Uma ditadura técnica, derivada de um outro golpe, asséptico, institucionalizado, mediático.
Quando decidi fazer esse curta-metragem, reconstituindo um episódio pessoal – a detenção de meu pai quando os militares tomaram o poder – fiz um recorte do que o país inteiro viveu, duas décadas de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de “suicídios”, de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar. Por mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e da lei, foi uma marca registrada de cinco governos militares.
E assim como meu pai me guardava em sua luta e esperança por democracia, vejo-me agora diante dos meus filhos lamentando o Brasil que eles estão vivendo. Mas meu lamento sertanejo é revestido de luta, tenacidade, esperança.
Quando o país voltou a ser iluminado pela redemocratização, pela Lei da Anistia, pelas Diretas Já, pela eleição por voto de um operário para presidente, e pela primeira mulher a assumir a chefia de Estado e de governo da República, lembrei-me da letra de Vitor Martins, cantada por Ivan Lins, “Aos nossos filhos”, e enviei ao Universo, para onde foi meu pai, os versos finais parafraseados, dizendo-lhe que finalmente “brotaram as flores, cresceram as matas, colhemos os frutos”.
Hoje recorro à mesma letra, e converso e adjuro aos meus filhos que me “perdoem por tantos perigos / perdoem a falta de abrigo / perdoem a falta de amigos... / perdoem a falta de folhas / perdoem a falta de ar / perdoem a falta de escolha. ” Os dias estão assim. Mas não permanecerão assim. O empenho e luta pela democracia representativa, e não de porta-vozes, continua. Imensos sacrifícios não ficarão em vão.
Na foto acima, de Deise Jefiiny, o ator Joca Andrade no papel de tenente Castelo, e equipe, Sebastian Matias, Nirton Venancio e Pedro Rodrigues.

quinta-feira, 13 de julho de 2017

cores de Frida Khalo


Arte Naïf, Arte Moderna, Surrealismo, Realismo Mágico, Simbolismo, Primitivismo, Naturalismo, Realismo Social, Cubismo...
Todas as Fridas em uma só.
63 anos hoje que ela não morreu.

quarta-feira, 12 de julho de 2017

judge the ripper

Cena do filme Do Inferno (From hell), de Albert e Allen Hughes, EUA, 2001.
“Em um país em que as absurdos são renovados diariamente, embora esperada, a sentença de Sérgio Moro é indecente, humilhante.
Sua declaração inoportuna, de que não sentiu ‘satisfação pessoal’ tem a mesma sinceridade de Jack, o Estripador, chorando em cima das vísceras da sua última vítima.”
- Jornalista Luis Nassif em artigo no site Jornal GGN.

terça-feira, 11 de julho de 2017

poemas no sereno

74 poemas sem título compõem O livro das perguntas, uma obra singular no universo deslumbrante de Pablo Neruda, publicado em 1974.
113 anos hoje de nascimento do poeta chileno.

deforma política

arte-foto Paulo Kauim

50 x 26


Senado aprova reforma trabalhista


50 tons de cinza traíras


reforma trabalhista

Remem! Remem! Remem!

bólides encapuçados, caminham lentos, não têm o que mirar *

Abaixo a escultura-instalação Parade for Peace, do artista tunisiano Bel Haj Taib, exposta na Bienal Dak’Art de Arte Contemporânea Africana, em Dakar, Senegal, 2006.

A peça multifacetada, composta por vários capacetes sobre troncos esculpidos, formando tartarugas, num contraditório e simbólico desfile militar esperançoso de paz. 

* verso da canção Atrás do balcão, de Zé Ramalho, gravada no disco A terceira lâmina, 1981.

a idade de memória



Ontem de madrugada, algumas horas antes da partida da escritora Elvira Vigna, faleceu outra grande expressão da cultura brasileira, Ecléa Bosi, psicóloga, escritora e professora emérita da USP.
Entre tantos livros fundamentais para a memória e a valorização da terceira idade, um se destaca para a compreensão, alerta e recognição do idoso, Memória e Sociedade - Lembranças de Velhos, 1979, um volumoso ensaio polifônico sobre o tempo e suas relações com a vida dos imigrantes e operários de São Paulo.



No começo do anos 90, Ecléa foi a criadora e entusiasta do programa Universidade Aberta à Terceira Idade, na USP, coordenado por ela até ano passado. A iniciativa pioneira coloca o idoso na universidade sem vestibular, sem necessariamente incluí-lo no percurso didático de um aluno em graduação, mas cursando as disciplinas escolhidas com os demais. A professora argumentava que os jovens sentarão ao lado de velhos pedreiros, domésticas, não como servidores, mas como companheiros de aprendizados.
Ecléa tinha 81 anos de memória em sociedade com o presente e o futuro.

o pai do Chico

“O meu pai era paulista...”, começa a letra de Paratodos, de Chico Buarque, faixa título do disco lançado em 1993, onde segue desfolhando sua árvore genealógica, as referências e afinidades eletivas em sua música.
O reverenciado historiador Sérgio Buarque de Holanda, que hoje faria 115 anos, gostava de sair nos fins de semana, com sua esposa Maria Amélia, e sempre encontrava lotados os restaurantes na noite carioca. Brincalhão, tinha um argumento infalível para conseguir uma boa mesa: chamava o maître a um canto e dizia: "sou pai do Chico Buarque.”

a voz de Orfeu

Agostinho dos Santos, com seu canto veludoso, é referência inevitável em canções como Felicidade, Balada triste, Estrada do sol, e entre tantos clássicos, Manhã de carnaval, composição de Luis Bonfá e Antonio Maria, que teve repercussão internacional a partir da trilha de Orfeu de Carnaval, filme ítalo-franco-brasileiro, dirigido por Marcel Camus, em 1959, baseado na peça de Vinicius de Moares.
O cantor teve projeção principalmente nos Estados Unidos, por toda década de 70, tornando-se praticamente um dos interpretes da Bossa Nova em discos e shows, como o de Carnegie Hall, Nova Iorque, em 1962, junto com Orquestra de Oscar Castro Neves.
Agostinho se foi no auge da carreira, precocemente aos 42 anos, em desastre aéreo nas imediações do Aeroporto de Orly, em 11 de julho de 1973.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

a última hora de Elvira

Faleceu hoje pela manhã, em São Paulo, uma das maiores escritoras da literatura contemporânea, Elvira Vigna, aos 69 anos. Reconhecida e premiada no meio literário, escreveu romances, contos, ensaios, livros infantis, além de ser jornalista, artista plástica e roteirista de cinema.
Estreou aos 41 anos, com o belíssimo e oportuno Sete anos e um dia, de 1988, ambientado na época da abertura política. Uma obra-prima como narrativa e preciosidade contextual. Seu último livro, Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, Prêmio APCA 2016 de Melhor Romance, é outro exemplo de vigor na estrutura formal descritiva.

Em 2012, quando foi diagnosticada com câncer de mama, recolheu-se e dedicou-se a escrever enquanto se tratava, publicando sete livros no Brasil e exterior.
Elvira, soube-se agora, preferiu manter em segredo sua luta contra a doença, por receio que não fosse mais convidada para eventos literários.
Seu legado é um testemunho, um relato do homem e seus conflitos e esperanças, inserido em interrogações do mundo moderno, da vida social e política. E soube muito bem descrever essas inquietações, como modestamente abre o primeiro parágrafo do seu último livro:
“Mas nessa hora que faço, vou contar uma história que não sei bem como é. Não vivi, não vi. Mal ouvi. Mas acho que foi assim mesmo.”

já que sou brasileiro

A música não é dele, foi composta por sua esposa Almira Castilho e seu amigo Gordurinha, mas Chiclete com banana ficou como uma espécie de marca registrada de Jackson do Pandeiro.
O simpático e franzino paraibano já fazia sucesso no rádio e em shows, nas décadas de 40 e 50, com Sebastiana, A mulher do Aníbal, O canto da ema, e outros forrós aloprados, mas foi quando começou a mascar chiclete com banana que estourou definitivamente, e, pode-se dizer, criando de uma forma tosca e brincalhona o primeiro samba-rock.
Gravada em 1959, Chiclete com banana expressa em letra bem humorada e irônica a necessidade de manter a pureza da nossa música, sem influência de ritmos estrangeiros, mais exatamente da terra do Tio Sam, que só vai botar o bebop em nosso samba "quando ele tocar o tamborim / quando ele pegar no pandeiro e no zabumba / quando ele aprender que o samba não é rumba". Eles têm chiclete, e nós, yes! temos banana, que engorda e faz crescer. Então, cante lá, que eu canto cá.
À época da composição, o rock'n'roll reverberava pela América latina e Ocidente, refletindo não somente um gênero, também como comportamento de uma geração pós-Segunda Guerra, que veio explodir como um caleidoscópio cultural na década 60. As influências eram inevitáveis. Tanto é que o próprio Jackson do Pandeiro, batizado José Gomes Filho, logo no início da carreira adotou o "Jack" em homenagem a um ator de faroeste que ele adorava, Jack Perrin. O acréscimo do "son" foi ideia de um produtor, o Pandeiro, por ser o instrumento que ele começou a tocar, presente de sua mãe.
Alceu Valença costuma dizer que Luiz Gonzaga é o Pelé da nossa música, e Jackson, o Garrincha. E faz sentido essa analogia: os dribles e o domínio que o paraibano tem com os ritmos, ao longo de mais de trinta discos, é impressionante. Ele vai do forró ao samba, passando com a mesma verve de interpretação e personalidade, pelo baião, xote, xaxado, coco, arrasta-pé, quadrilha, marcha, frevo... Não à toa, ficou conhecido como "O Rei do Ritmo".
Em 1982, após um show em Brasília, Jackson sentiu-se mal no momento do embarque no aeroporto. Era diabético. Passou uma semana internado, faleceu em decorrência de embolia cerebral, no dia 10 de julho, em um hospital na W3 Sul.
E nosso samba ficou assim: "tururururururi bop-bebop-bebop / tururururururi bop-bebop-bebop /tururururururi bop-bebop-bebop..."

aprendendo a jogar

Em 5 de janeiro de 1982 Elis Regina foi convidada do programa Jogo da Verdade, apresentado pelo jornalista Salomão Ésper, na TV Cultura, São Paulo.
Foi um show de raciocínio lúcido, pensamento astuto, reflexões brilhantes e verdadeiras, pertinentes àquele momento da música brasileira.
Questionada pelo jornalista Maurício Kubrusly sobre a participação de cantores consagrados em festivais na televisão, Elis foi direta na dosagem da pimentinha.
“Eu acho que eles não deveriam participar desse festival oficial. Se já existem, já se impõem, já têm o seu mercado, seria legal que eles não entrassem nessas 'gasolinas' da vida, nesses 'postos de gasolinas'* da vida porque, sabe? auxilia a gente. É mais uma via pra gente poder escoar a loucura da gente, porque senão fica tudo... sabe? aquela loucura via Embratel, padronizada, que nem ervilha em lata, entendeu? só muda a marca. Não é legal, loucura é loucura, sabe? e é fundamental. Deixa por aí, solta, como o diabo gosta, entendeu? e a gente vai catando um pedaço daqui, um pedaço dali, vai se reformulando, e de repente quando a gente... quando os homens perceberem, eles ‘tão com a cabeça feita. Porque é só isso que tá dando pé. O importante é a gente não fazer esse jogo, não aceitar esse jogo, a gente continuar... fique fora, salte fora, como é que é? parada de sucesso, então como é que é não parada de sucesso. Se é o sucesso, entendeu? O importante é também não deixar o espaço ser ocupado por qualquer coisa, como ‘tá, né?”
*A cantora se refere ao Festival MPB Shell.
Foi a última entrevista, gravada 14 dias antes de sua morte.

domingo, 9 de julho de 2017

do maior encanto

37 anos hoje que Vinicius de Moraes não morreu.

"...em seu louvor hei de espalhar seu canto..."

la nave viene

fotos de Raimundo Cavalcante
Uma vez, eu vi chegar do alto-mar um barco de cristal*... a noite trouxe o Amarcord de Fellini na praia do Titanzinho, em Fortaleza.

Quando amanheceu, Fellini trazia na bandeira a estrela matinal*... não fora sonho.
*versos de Fausto Nilo em Barco de cristal, 1973.

sábado, 8 de julho de 2017

alienígenas


letra bem escrita sem papel *

foto Tiago Santana
Patativa, sua poesia é "ispinho e fulô" no meu roçado. Você canta lá e eu escuto cá.
Hoje, quinze anos sem o passarim.
* verso da canção Passarim de Assaré, letra de Fausto Nilo, musicada por Fagner, gravada no disco Soro, 1979.