quinta-feira, 22 de junho de 2017

o grande momento

Em 1965 o cineasta francês Claude Lelouch não estava numa boa com a fraca repercussão de seu quinto filme, ironicamente intitulado Les grands moments. Assim como os anteriores, o trabalho não teve público satisfatório, os distribuidores não apostavam naquele jovem de vinte e poucos anos de sonhos e de filmes irregulares.

Logo após uma projeção onde tudo deu errado, Lelouch pegou o carro e saiu a esmo noite a dentro. Rodou cego pela madrugada e se viu parado à margem da praia em Deauville, uma comuna francesa na Baixa-Normandia. Cochilou e acordou com o sol e sons de alguns pássaros. Através do retângulo do painel do automóvel, como uma tela de cinema, viu uma mulher andando na maré baixa, acompanhada de um menino e um cachorro. A imagem matinal lhe pareceu cena de filme. O cineasta saiu do carro e tentou se aproximar da mulher. Enquanto caminhava, perguntava-se e deduzia o que ela fazia ali tão cedo. Não conseguiu alcançar os três, mas não se importou: voltou para o carro com a ideia do roteiro de Um homem e uma mulher (Un homme et une femme).

Estrelado por Jean-Louis Trintignant e Anouk Aimèe, lançado em 1966, é o seu filme mais conhecido e emblemático na filmografia que se seguiu por mais quarenta títulos, até o mais recente, a comédia dramática Salaud, on t'aime, de 2014, com o cantor Johnny Hallyday no elenco.

Um homem e uma mulher, Palma de Ouro em Cannes e Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, conta o encontro, romance e desencontro de dois jovens viúvos. A narrativa em câmera solta, a trajetória de vidas paralelas de personagens que se cruzam e se perdem, a trilha sonora organicamente inserida nas ações, e, sobretudo, uma louvação ao amor, marcaram e definiram o estilo de cinema de Lelouch, reverenciado por muitos, e detratado por outros muitos, que consideram seus filmes melosos.

Retratos da Vida (Les uns et les autres), 1981, é considerado sua obra-prima, onde o fôlego narrativo de três horas intercala vidas distintas de três gerações de famílias na França, Rússia, Alemanha e Estados Unidos, ligadas pela música e afetadas pela Segunda Guerra.


O clássico de 1966 teve uma continuação com Um homem e uma mulher: 20 anos depois (Un homme et une femme, 20 ans déjà), com os mesmos atores/personagens, uma espécie de reencontro ao final da tarde, à margem da praia em Deauville.

quarta-feira, 21 de junho de 2017

dois irmãos

Praia do Leblon.
Foto de José Medeiros, 1952.

o lado B de bom

"Todos acham que é preciso muito dinheiro para fazer filmes. No fim, quanto mais dinheiro você tem, menos consegue fazer com ele. Para mim, sempre foi uma benção não ter dinheiro suficiente, porque aí eu precisava compensar isso com o trabalho de câmera, com ideias, com abstrações. É uma das coisas mais lindas que se podem fazer no cinema: inventar uma imagem quando não se pode pagar por ela."
- Wim Wenders no documentário Edgar G. Ulmer – o homem fora das telas (Edgar G. Ulmer - The man off-screen), de Michael Palm, 2004.
Além do cineasta alemão, Peter Bogdanovich, Roger Corman, Joe Dantes e outros falam sobre o trabalho de um dos mais talentosos diretores do cinema americano. Edgar G. Ulmer, austríaco radicado nos EUA, foi um dos mestres dos chamados filmes B, produções de baixo orçamento, sempre feitas em horários “de sobra” nos estúdios, equipamentos emprestados, atores desconhecidos... alguns ficaram famosos a partir de seus papéis e convidados para trabalharem com outros cineastas, como John Carradine, Robert Clarke, Arthur Kennedy, John Saxon. O próprio G. Ulmer foi ator de muitos de seus filmes para contornar a situação de grana.
Tão pouco conhecido quanto o cineasta é o documentário de Michael Palm, restrito à prateleira de DVDs de pouca locação, no lançamento à época. O filme está disponível no site Making Off.

segunda-feira, 19 de junho de 2017

nosso cinema de cada dia

Hoje, quando se comemora o Dia do Cinema Brasileiro, lembro do crítico e historiador Jean-Claude Bernardet, que em seu livro Cinema brasileiro, propostas para uma história, 1978, diz que "não é possível entender qualquer coisa que seja do cinema nacional, se não se tiver em mente a presença maciça e agressiva, no mercado interno, do filme estrangeiro."
E foi o italiano Afonso Segreto, o primeiro cinegrafista e diretor do país. Naquele 19 de junho de 1898, ele registrou as primeiras imagens em movimento do território brasileiro: a entrada da baía de Guanabara, a bordo do navio (francês!) Brésil.

o dono da voz

Em 1980, sucessivos desentendimentos com a gravadora Ariola fizeram Chico Buarque buscar outro selo, a Polygram.
O compositor, que hoje completa 73 anos, se viu meio encrencado no último dia de gravação do então novo disco: a Ariola fora vendida exatamente para a nova gravadora de Chico. A confusão deu origem à bem-humorada canção A voz do dono e o dono da voz, última faixa do lado A do LP Almanaque, de 1981.
O bolachão é um dos melhores de Chico na década de 80. Tem lá Vitrines, Ela é dançarina, O meu guri, Tanto amar...
A criação da capa, contracapa e encarte do disco, assinada por Elifas Andreato, é uma obra-prima à parte: desenhos, ilustrações que remetem aos velhos almanaques em forma de livrinhos que tratavam de vários assuntos, como datas festivas, feriados, luas, eclipses, horóscopo, pensamentos, trechos de literatura, poesias, anedotas, charadas, palavras cruzadas, e coisas como datas certas para o plantio.

sem perder a ternura



A imagem é de um dos mais famosos artistas gráficos, ou mais precisamente, o grafiteiro inglês Robert Bansk, 42 anos, mais conhecido como Bansky.
Literalmente um artista de rua, sua postura como ativista político revela-se em belíssimos trabalhos que estão nos muros das ruas de Londres e outras cidades inglesas.
Seus grafites têm um significativo humor crítico, a necessária e ferrenha sátira, a denúncia e dureza contra as injustiças sociais, mas sem perder jamais a poesia e a ternura.

tijolo com tijolo num desenho lógico

A edição brasileira de 2009 da revista Rolling Stone fez uma enquete com 90 críticos especializados e mais alguns jornalistas da área musical, para saber quais as 100 maiores canções brasileiras. A lista foi destaque do número que comemorou três anos de publicação nacional.
Construção, de Chico Buarque, ficou em primeiro lugar.

Composta em 1971, em pleno regime truculento do general Médici, é uma das letras mais bem elaboradas em toda história da música brasileira. Pouco se viu tamanha preciosidade poética em proparoxítonas.
Chico completa hoje 73 anos. Ergueu no patamar da música brasileira quatro paredes mágicas.

domingo, 18 de junho de 2017

open your eyes

Há 53 anos, quando Paul McCartney começou a cantar close your eyes and I’ll kiss you..., de All my loving, no programa The Ed Sullivan, em Nova Iorque, a América não fechou mais os olhos e se rendeu ao fenômeno do quarteto de Liverpool.
Hoje a voz dos Beatles completa 75 anos.
All my loving I will send to you, Paul.

luz da tarde no babaçu


Serra da Meruoca, Ceará, 2017

quarta-feira, 14 de junho de 2017

stranger than paradise

"Nada é original. Roube de todos os lugares que inspiram ou alimentam sua imaginação.
Devore filmes antigos, novos filmes, música, livros, quadros, fotografias, poesias, sonhos, conversas aleatórias, arquitetura, pontes, sinais de rua, árvores, nuvens, massas de água, luzes e sombras.
Selecione apenas coisas que falam diretamente com sua alma. Se você faz isso, seu trabalho (e roubo) será autêntico. Autenticidade não tem preço; originalidade não existe. E não se preocupe com o roubo - celebre-o se você se sentir bem com isso."

- Jim Jarmusch
Autêntico, segue na contramão da mesmice hollywoodiana.
Paterson, seu novo filme, celebra as coisas que falam diretamente com a alma.

dois lados da mesma viagem

“O importante não é chegar, mas viajar”
A frase é do personagem Fausto, interpretado por Ênio Gonçalves em Filme Demência, dirigido por Carlos Reichenbach, 1986.
Com roteiro do diretor e do crítico Inácio Araújo, o filme é uma adaptação livre, contemporânea, atualíssima, da obra teatral de Goethe.
Hoje faz cinco anos que Reichenbach, o querido Carlão, viajou para outros cinemas...curiosamente no mesmo 14 de junho, quando chegou a este mundão em 1945.

domingo, 11 de junho de 2017

sem interesse

Das 82 perguntas formuladas pela PF ao Temer, acaba de vazar uma:
- Sr. Presidente, a Marcela transa com o senhor por amor ou por interesse?
Temer responde:
- Deve ser por amor, pois ela não demonstra nenhum interesse

ciudad porteña de mi único querer



"Mi Buenos Aires querido / cuando yo te vuelva a ver / no habrá más penas ni olvido..."
- Versos de Mi Buenos Aires querido, clássico tango escrito por Alfredo Le Pera em 1934, musicado e imortalizado por Carlos Gardel, assim como outra emblemática composição, El día que me quieras.
A letra fala sobre a beleza da capital portenha, que hoje comemora 437 anos de fundação. A canção com narrativa bela e dolente do tango, na queixa de um bandoneon, compara a cidade ao amor, e retornar ela é a forma de se livrar das dores, da nostalgia, o "te extraño" - o termo saudade em português.
Uma curiosidade: o autor do tango de enorme significado afetivo para os argentinos é brasileiro de nascimento. Em 1930 seus pais, italianos, viajavam pela América do Sul com intenções de morarem em Buenos Aires. Em passagem por São Paulo, a mãe com um barrigão de nove meses deu à luz um niño, em pleno bairro Bixiga, que se tornaria tradicional reduto do samba paulistano.
A família Le Pera seguiu viagem para Uruguai com o bebê de dois anos, e de lá para Argentina.
Alfredo morreu jovem, aos 35 anos. Estava no avião que caiu em Medellin, Colômbia, juntamente com seu grande amigo e parceiro Gardel.

quinta-feira, 8 de junho de 2017

o que virá

foto Ezequiel Scagnetti
"Mesmo que não possamos adivinhar o tempo que virá, temos ao menos o direito de imaginar o que queremos que seja"
- Eduardo Galeano, em O direito ao delírio, 2011.

caminhar caminhar caminhar

"A utopia está lá no horizonte. Aproximo-me dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu nunca deixe de caminhar."
- Do cineasta argentino Fernando Birri, citado pelo escritor uruguaio Eduardo Galeano em seu livro Las palabras andantes‎, 1993.

o ratinho implacável


Nos anos de chumbo da ditadura militar no Brasil, o jornalista e escritor Ivan Lessa sugeriu ao cartunista Jaguar o ratinho Sig. Seria uma analogia ao criador da psicanálise, um espécie de roedor neurótico, atormentado por paixões de belas mulheres. Uma versão enviesada e debochada do Mickey, digamos.

Lessa dizia que baseou sua criação na máxima irônica de que se "Deus criou o sexo, Freud criara a sacanagem". Os autores escreviam no Pasquim, o tabloide que não dava sossego aos generais de plantão e à sociedade babaca conservadora que apoiava o governo golpista.

Sig em suas tirinhas e tiradas ácidas e precisas foi sucesso absoluto, e logo virou símbolo do Pasquim e demais edições da Codecri.

Hoje faz cinco anos que Ivan Lessa se foi. 

a tentação de ser livre

foto Nirton Venancio, Teatro Universitário, Fortaleza, 1980.
Em 8 de junho de 1982 o ator e diretor de teatro José Carlos Matos, fez seu último voo.
O avião da VASP que vinha de São Paulo chocou-se contra a serra de Aratanha, a 25km da capital cearense.
Zé Carlos, Zeca, como era conhecido e querido por todos no Ceará, foi autor de diversas montagens do seu Grupo Independente de Teatro Amador (GRITA), na década de 70 e começo de 80. Seu trabalho era corajosamente uma luta contra a ditadura militar escancarada.
Sua frase sempre repetida em palestras e entrevistas define bem seu perfil: "Eu não resisto à tentação de ser livre".

a dama de vermelho

Linda Sonia Braga, 67 anos hoje.

quarta-feira, 7 de junho de 2017

para enfeitar a noite do meu bem



"Não me acorde. Estou cansada. Vou dormir até morrer!", disse brincando Adiléia Silva da Rocha à empregada, numa manhã cedo de 1959, depois de passar a noite bebendo, dançando e ouvindo canções numa boate no Rio de Janeiro.
Adiléia era nome verdadeiro da nossa eterna Dolores Duran, cantora e compositora de clássicos do samba-canção, como A noite do meu bem, gênero que se destacou a partir da década de 30.
No começo da noite daquele dia, a empregada foi acordar Dolores, pois a cantora teria shows. Encontrou a patroa morta, com o violão e uns rascunhos de novas canções ao lado. Com apenas 29 anos, Dolores Duran sofreu um infarto fulminante, provocado por dose excessiva de barbitúricos, cigarros e álcool. A cantora tinha precedente de outro infarto, três anos antes, mas continuou fumando e bebendo, tentando aliviar-se de fortes crises de depressão, traumas de infância, e a falta de um amor verdadeiro pra chamar de seu.
Se Dolores não tivesse ido dormir até morrer, poderia estar hoje completando 87 anos.

Nara

A adolescente capixaba Nara Leão, nas areias escaldantes de Copacabana, anos 50.
Há 28 anos a musa da Bossa Nova deixou definitivamente o Posto 4, na avenida Atlântida.

palavra de poeta

Paulo Leminski manteve a palavra: há 28 anos partiu para outros contratos.

um ator por todos os tempos


foto Bryan Adams
Há dois anos o cinema perdeu o grande ator Christopher Lee, famoso por melhor encarnar o personagem Conde Drácula, criado por Bram Stoker.

O elegante artista inglês foi um dos mais versáteis e prolíferos protagonistas de todas as telas. E assim como um "doce vampiro”, atravessou o cinema em todos os tempos, com mais 200 filmes em exatos 70 anos de carreira. 

Do legendário Drácula, passando por Scaramanga, arquiinimigo de James Bond em 007, Lee chegou aos anos 2000 atuando na trilogia “O senhor dos anéis”, vivendo o mago Saruman, além de filmes de Tim Burton, como “A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça”, “A Fantástica Fábrica de Chocolate” e “Sombras da Noite”.

O ator, carismático em seu perfil de personagens assustadores, faleceu aos 93 anos, por insuficiência respiratória.

Ficará em nossa memória afetiva, ad aetenum, pelo tempo em que o cinema nos guarda.

foto Bryan Adams

terça-feira, 6 de junho de 2017

Tunga, um artista brasieiro

foto Everton Ballardin
Considerado um dos maiores nomes da arte contemporânea, o escultor, desenhista e performático Tunga foi o primeiro artista plástico brasileiro a ter obra exposta no Louvre, em 2005.
Ele se foi há um ano, aos 64. Sua arte reverberá sempre, em todos os Louvres do mundo.

Lilian

Lilian Lemmertz em uma cena da peça A bilha quebrada, dirigida por Linneu Dias, Theatro São Pedro, em Porto Alegre, RS, 1961.
Lilian e Linneu (1928-2002) são pais de outra grande atriz, Julia Lemmertz.

Em junho de 1986, o Brasil vivia a euforia da Copa no México. E no dia 5, enquanto o país acompanhava a primeira fase da competição, a atriz saiu de cena. Lilian sofreu um infarto, aos 48 anos, enquanto tomava banho, e foi encontrada pela filha.
Lilian Lemmertz - Sem Rede de Proteção, do jornalista Cleodon Coelho, biografia lançada em 2011, resgata de forma precisa a vida e obra da artista, com farto material em recortes de matérias, entrevistas e resenhas, das décadas de 60 e 70.

Maysa

"Ninguém cantava um samba-canção como Maysa - e ninguém parecia viver dentro de um samba-canção como Maysa".
Diz Ruy Castro, no livro A noite do meu bem – A História e as histórias do samba-canção, 2015, obra indispensável sobre as noites cariocas e suas boates famosas, os compositores, os cantores, o glamour e a coexistência com o poder no Rio de Janeiro capital federal nos anos 40,50 e 60.

Lira Neto, outro grande jornalista e biógrafo, lançou em 2007, o ótimo Maysa: Só numa multidão de amores. A partir de entrevistas com mais de 200 pessoas que conviveram com a cantora, e de acesso aos arquivos pessoais, o autor faz um elegante relato sobre a vida e a complexa personalidade da artista.
A cantora samba-canção faria hoje 81 anos.

domingo, 4 de junho de 2017

por si mesma

foto João Lima
"Não gosto que me chamem ‘viúva de’ porque ninguém me chamou ‘mulher de’ enquanto Saramago foi vivo. Isto por duas razões: porque tinham de enfrentar Saramago e tinham de me enfrentar a mim. Cada um de nós é o produto de si próprio. Não somos nem do pai nem do filho. Somos o que queremos ser. Nunca fui a mulher de Saramago nem serei a viúva dele, por respeito a Saramago e a mim própria."
- Pilar del Río, jornalista, escritora, tradutora espanhola, preside atualmente a Fundação José Saramago, em entrevista ao site Expresso 

impávido como Muhammad Ali

“Eu não tenho nada contra os vietcongs”, disse Muhammad Ali ao se recusar lutar na Guerra do Vietnã, no dia 28 de abril de 1967.
Aos 25 anos e já um pugilista consagrado, Ali foi condenado a cinco anos de prisão, multado em 10 mil dólares, e banido do boxe por três anos.
Muhammad Ali foi também um lutador contra o racismo. Sempre que insistiam por que não foi à guerra, ele dizia que “nenhum vietcong me chamou de crioulo, por que eu lutaria contra ele?"
Há um ano Muhammad perdeu uma luta e se foi, aos 74.
Mas grandes homens deixam grandes legados.

sábado, 3 de junho de 2017

delação premiada em Gotham City


sábado à tarde


"A tarde talvez fosse azul / não houvesse tantos desejos."

- Carlos Drummond de Andrade em Poema de sete faces", 1930

o olho do poeta

"Quem quer que controle a mídia, as imagens, controla a cultura", dizia o poeta Allen Ginsberg, que hoje faria 91 anos.
O beat sabia o que dizia, era um louco por fotografia. Assim como fazia belíssimos e inquietantes poemas, compunha fotos com uma certa ousadia e experimentalismos, a partir mesmo de autorretratos - o que hoje vulgarizou-se como selfies.
Muitos da sua geração que pegaram a estrada, como Jack Kerouac, William Burroughs, Neal Cassady, Gregory Corso, pousaram ou foram flagrados pela lente da sua máquina preferida, um Leica M7 35mm. Estão no livro "Beat memories", lançado em 2000, com toda obra fotográfica do poeta.
Muito bom se hoje quem controlasse a mídia, as imagens, fossem esses loucos.

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Juno

Juno, a esposa de Júpiter. A mais poderosa no panteão romano, a maior entre as doze divindades no Olimpo, a guardiã do casamento e do bem-estar de todas as mulheres.
Juno > Junius > Junho. O meio do ano. Um ao lado do outro: dois.
Os namorados se entrelaçam. O casamento se faz em dança, fogos, fogueiras.
Olha pro céu, meu amor: Juno e Júpiter.
Estátua de Juno, século 2 d.C, Museu do Louvre

50 anos do sgt. Pimenta

Oitavo disco de estúdio dos Beatles, o lançamento de Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band no dia 1º de junho de 1967 estourou de imediato nas paradas de sucesso, como se dizia à época. Esse maravilhoso álbum duplo é considerado uma evolução histórica no progresso da música pop.
Estão lá canções guardadas em nossa memória afetiva: With a little help from my friends (voz de Ringo), Lucy in the sky with diamonds (inigualável voz de Lennon) Within you without you (etérea voz de Harrison), Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band (Paul McCartney é a voz dos Beatles).
Discaço!

happy birthday to you, mrs. Monroe...

Marilyn aos 34 anos, hoje faria 91.
Foto de Ernst Haas, nos intervalos das filmagens de Os desajustados (The misfits), de John Huston, 1960.

uma cidade sozinha não comporta a procura da vida*

“Eu falo, falo, mas quem me ouve retém somente as palavras que deseja (…) quem comanda a narração não é a voz; é o ouvido“.
- Italo Calvino em As cidades invisíveis, 1972, através de Marco Polo, o jovem veneziano viajante.
No romance o personagem relata ao Imperador mongol Kublain Khan suas impressões sobre as mais de cinquenta cidades que visitou.
A metanarrativa de Calvino constitui-se em um conjunto de metáforas que traduzem bem relação das pessoas com os lugares, o que esse encontro do desenho urbano com a geografia afetiva reflete nas condições e inquietações humanas, como memória, crenças, esperança, velhice, morte.
* verso do poema Além do cansaço, de Antonio José Soares Brandão, musicado por Petrúcio Maia, gravado por Fagner no disco de 1976.

quinta-feira, 25 de maio de 2017

a lenda do blues

Há uma lenda que o bluesman Sonny Boy Williamson II morreu enquanto dormia, em 25 de maio de 1965.
A história de Williamson é cheia de mistérios, contradições e hipóteses nos seus 52 anos de vida, a partir da data de nascimento.
Na biografia Don't Start Me Talkin, escrita por William E. Donoghue, 1997, encontramos várias histórias curiosas que fizeram do gaitista, compositor e cantor uma lenda do blues, literalmente.
Sonny, que supostamente fora batizado Aleck "Rice" Miller, passou a usar vários nomes... Willie Williamson, Willie Miller, Little Boy Blue, The Goat, Footsie, até assumir como ficou definitivamente conhecido, retirado de Sonny Boy Williamson, outro tocador de harmônica, morto em 1948. O Sonny II teria adotado o nome para encobrir sua fuga da penitenciária de Angola. E nunca se soube por qual acusação estivera atrás das grades. Especulou-se que fora pelo simples roubo de uma mula.
Entre tantas outras histórias, o músico teria presenciado a morte por envenenamento do notório Robert Johnson, aquele que fizera um pacto com o diabo numa encruzilhada.

O importante é que Sonny Williamson II deixou clássicos da história do blues nativo, e mexeu com a cabeça de músicos como Eric Clapton, Jimmy Page, Mick Jagger...

terça-feira, 23 de maio de 2017

Moore, Roger Moore

“By the time I'm out the door / you tear me down like Roger Moore”, dizia Amy Winehouse na canção You know I'm no good, gravada no disco Back to black, 2006.
Ao citar seu ator preferido na letra, a cantora faz uma analogia como é que fica o coração dela depois de uma briga com o namorado - uma referência sampleada entre a bravura do agente James Bond e o encanto do intérprete.
O britânico Roger Moore foi o mais simpático da franquia 007, o agente secreto fictício do serviço de espionagem britânico MI-6, criado pelo escritor Ian Fleming em 1953.
Quando substituiu Sean Connery em 1973, em Com 007 viva e deixe morrer (Live and let die), de Guy Hamilton, Moore moldou o personagem totalmente ao avesso do ator escocês, que delineou ao seu papel uma postura com dicção teatral, shakespeariana. Nos sete filmes em que viveu James Bond, Roger Moore deu um perfil sarcástico, irônico, bem humorado, fanfarrão, sem perder a elegância e o carisma, tanto do protagonista quanto do artista. Criador e criatura mais do que se confundiam, convergiam.
Sean Connery se desvinculou o necessário para fortalecer dezenas de outros papéis no cinema, como, por exemplo, o frade franciscano em O nome da rosa (Le nom de la rose), de Jean-Jacques Annaud, 1986. Roger Moore não teve trabalhos relevantes depois de 007 - Na mira dos assassinos, sua despedida do personagem, em 1985. Ficou como o “eterno 007". E não se importava com isso. Divertia-se quando o chamavam James Bond nas ruas, nos hotéis, nos aeroportos.
O ator se foi definitivamente hoje, aos 89 anos, para outras missões mais distantes...

segunda-feira, 22 de maio de 2017

o cd do Vinil

“Kid Vinil, quando é que tu vai gravar cd?”, perguntava Zeca Baleiro na música Kid Vinil, em seu álbum de estreia Por onde andará Stephen Fry?, 1997 – um disco cheio de interrogações.
O que parece uma brincadeira direcionada ao amigo, o cantor, compositor, produtor e apresentador de televisão Kid Vinil, que se foi no último dia 19, aos 62 anos, a letra do artista maranhense discorria vários questionamentos naquele final dos anos 90, quando a tecnologia começava a tomar proporções rápidas nos costumes de todos nós.
Baleiro ironiza para interpelar e refletir uma falsa realidade, “acessando a internet / você chega ao coração / da humanidade inteira / sem tirar os pés do chão...”, desconstrói uma ilusão com uma afirmação, “milhares de megabytes / abatendo a solidão / com a graça de Bill Gates”, aponta uma servidão quando denota onipotência, “se homem já foi à lua / vai pegar o sol com a mão / basta comprar um pc / e aprender o abc da informatização...”
E a menção a Kid Vinil entra no refrão justamente para legitimar a força, digamos, analógica de sentimentos que devem estar acima de todo atrativo que possa nos subjugar. “Tecnologia existe / pra salvar o homem do fim”, diz a letra logo no início.
Antônio Carlos Senefonte, o Kid Vinil, tem uma importância para o rock brasileiro que merece ser mais divulgada, vai além dos sucessos rockabilly que lhe tornou conhecido, Tic tic nervoso e Sou boy.
Precisamente nos anos 80, naquele momento das inquietações de uma juventude no punk rock, ele produziu shows, discos, programas de rádio e televisão, revelou bandas underground, criou e tocou em bandas, como Verminose, Magazine, Kid Vinil e Os Heróis Do Brasil.
A tenacidade de Vinil se estende em trabalhos surpreendentes: foi ele quem produziu o primeiro disco da violeira Helena Meireles, através da gravadora independente Trama, em 1994, que deu projeção na mídia àquela senhora pantaneira de 70 anos. Em 1998, produziu no Brasil o álbum Com defeito de fabricação, de Tom Zé, "redescoberto" e lançado por David Byrne nos Estados Unidos, mas com dificuldades de gravadora em sua terra.
O afeto em que se encerra no coração de vinil do Kid, fez com que a tecnologia exista a favor do mesmo abraço para todos, chegar à humanidade inteira tirando os pés do chão.
E ele gravou, sim, CDs: Na Honestidade, em 2002, com a banda Magazine, em 2010 na formação Kid Vinil Xperience, Time was.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vênus para sempre



O Nascimento de Vênus, têmpera sobre madeira, belíssima pintura sobre madeira, do renascentista Sandro Botticelli, exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença.
O cinema e outras manifestações artísticas reproduziram a cena da deusa Vênus, emergindo esplendorosa de uma concha, sendo levada à margem pelo sopro de Zéfiro, que representa o vento que vem do oeste.
Como uma deusa-sereia, Ursula Andress surge fascinante do mar em uma cena de 007 contra o Satânico Dr No (Dr. No), de Terence Young, 1962.
Com mais precisão, a cena foi retratada em As aventuras do Barão Munchausen (The adventures of Baron Munchausen), de Terry Gilliam, 1989, personificada em outra deusa blonde e diáfana, a atriz Uma Thurman pré-Kill Bill no papel de Vênus.
No filme holandês A excêntrica família de Antonia (Antonia), de Marleen Gorris, 1995, uma das personagens é vista como Vênus, remetendo ao significado da pintura.
O desenho animado Os Simpsons fez uma referência direta ao quadro, em um episódio nos anos 90, quando um personagem, no delírio, vê a colega de trabalho por quem se apaixona.
Muitas capas de revistas de moda fizeram alusões à cena de Botticelli, com modelos famosas e biquínis de grifes.
A musa pop cameloa da música dance eletrônica, Lady Gaga, é confessadamente uma admiradora da obra. Em seu disco Artpop, de 2013, a capa utiliza em recursos estilizados a estampa de O nascimento de Vênus, como sampleando a pintura clássica. No clipe promocional do álbum, com (não à toa) o single Vênus, a cantora com os longos cabelos em cascata como da deusa, usa um provocante biquíni de concha.
Até na moeda de 10 centavos do Euro, Vênus aparece impressa em suave relevo. Mas é minimizar demais: a referência merece valor muito maior de circulação hoje nos 507 anos da morte do pintor.

terça-feira, 16 de maio de 2017

like a Bob Dylan

51 anos hoje do lançamento de um dos melhores discos de Bob Dylan, Bonde on Blonde, que completa a trilogia de álbuns de rock que o pardo de Minnesota gravou, começando com Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965.
As canções e as letras discursivas definem bem a mistura única do visionário e do coloquial que Mr. Zinnemman se tornou ao longo de sua carreira.

sábado, 13 de maio de 2017

a voz do Brasil

Em uma festa de réveillon nos anos 50, na casa do diretor da Rádio Nacional, vários convidados fizeram fila para cumprimentar Getúlio Vargas.
Ao aproximar-se uma jovem cantora em início de carreira, o Presidente apertando-lhe a mão disse: "menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti".
A partir dessa data, Angela Maria, que hoje completa 88 anos, ficou conhecida como "A Sapoti", uma fruta tão doce quanto a voz da cantora, que em primeiro momento ela entendeu como "jabuti" e não gostou.
Episódios como esse estão na ótima biografia Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil, do jornalista e pesquisador Rodrigo Faour, lançada em 2015.
Com um texto preciso e elegante, o livro narra a trajetória da artista, revelando momentos difíceis como a decaída e pobreza nos anos 60, quando teve todo seu patrimônio financeiro usurpado pelos empresários, maridos, namorados, falsos amigos.

in a romantic mist

Duas excelentes obras sobre o grande trompetista e cantor de jazz Chet Baker: a biografia No fundo de um sonho - A longa noite de Chet Baker, escrita pelo jornalista James Gavin, publicada em 2002, e Let's Get Lost, documentário dirigido por Bruce Weber.
São referências definitivas sobre Baker. Nas páginas de um, nas imagens do outro, se se conhece a música do ícone do jazz cool, impossível não se emocionar com os relatos, os depoimentos, as entrevistas.
No filme, concluído um ano antes de sua morte, completando hoje 29 anos, o diretor grava longos planos de um Baker mais introspectivo do que se sabia. O seu olhar distante, o mergulho em suas dores. A câmera parece não estar ali. O cineasta e o músico eram amigos, e isso rendeu a intimidade necessária para extrair a mais verdadeira fala, o mais sincero silêncio.
Baker caiu-flutuou-levitou de uma janela de hotel em Amsterdan. Como diz a letra de sua canção Let's Get Lost: "in a romantic mist..."