segunda-feira, 22 de maio de 2017

o cd do Vinil

“Kid Vinil, quando é que tu vai gravar cd?”, perguntava Zeca Baleiro na música Kid Vinil, em seu álbum de estreia Por onde andará Stephen Fry?, 1997 – um disco cheio de interrogações.
O que parece uma brincadeira direcionada ao amigo, o cantor, compositor, produtor e apresentador de televisão Kid Vinil, que se foi no último dia 19, aos 62 anos, a letra do artista maranhense discorria vários questionamentos naquele final dos anos 90, quando a tecnologia começava a tomar proporções rápidas nos costumes de todos nós.
Baleiro ironiza para interpelar e refletir uma falsa realidade, “acessando a internet / você chega ao coração / da humanidade inteira / sem tirar os pés do chão...”, desconstrói uma ilusão com uma afirmação, “milhares de megabytes / abatendo a solidão / com a graça de Bill Gates”, aponta uma servidão quando denota onipotência, “se homem já foi à lua / vai pegar o sol com a mão / basta comprar um pc / e aprender o abc da informatização...”
E a menção a Kid Vinil entra no refrão justamente para legitimar a força, digamos, analógica de sentimentos que devem estar acima de todo atrativo que possa nos subjugar. “Tecnologia existe / pra salvar o homem do fim”, diz a letra logo no início.
Antônio Carlos Senefonte, o Kid Vinil, tem uma importância para o rock brasileiro que merece ser mais divulgada, vai além dos sucessos rockabilly que lhe tornou conhecido, Tic tic nervoso e Sou boy.
Precisamente nos anos 80, naquele momento das inquietações de uma juventude no punk rock, ele produziu shows, discos, programas de rádio e televisão, revelou bandas underground, criou e tocou em bandas, como Verminose, Magazine, Kid Vinil e Os Heróis Do Brasil.
A tenacidade de Vinil se estende em trabalhos surpreendentes: foi ele quem produziu o primeiro disco da violeira Helena Meireles, através da gravadora independente Trama, em 1994, que deu projeção na mídia àquela senhora pantaneira de 70 anos. Em 1998, produziu no Brasil o álbum Com defeito de fabricação, de Tom Zé, "redescoberto" e lançado por David Byrne nos Estados Unidos, mas com dificuldades de gravadora em sua terra.
O afeto em que se encerra no coração de vinil do Kid, fez com que a tecnologia exista a favor do mesmo abraço para todos, chegar à humanidade inteira tirando os pés do chão.
E ele gravou, sim, CDs: Na Honestidade, em 2002, com a banda Magazine, em 2010 na formação Kid Vinil Xperience, Time was.

quarta-feira, 17 de maio de 2017

Vênus para sempre



O Nascimento de Vênus, têmpera sobre madeira, belíssima pintura sobre madeira, do renascentista Sandro Botticelli, exposta na Galleria degli Uffizi, em Florença.
O cinema e outras manifestações artísticas reproduziram a cena da deusa Vênus, emergindo esplendorosa de uma concha, sendo levada à margem pelo sopro de Zéfiro, que representa o vento que vem do oeste.
Como uma deusa-sereia, Ursula Andress surge fascinante do mar em uma cena de 007 contra o Satânico Dr No (Dr. No), de Terence Young, 1962.
Com mais precisão, a cena foi retratada em As aventuras do Barão Munchausen (The adventures of Baron Munchausen), de Terry Gilliam, 1989, personificada em outra deusa blonde e diáfana, a atriz Uma Thurman pré-Kill Bill no papel de Vênus.
No filme holandês A excêntrica família de Antonia (Antonia), de Marleen Gorris, 1995, uma das personagens é vista como Vênus, remetendo ao significado da pintura.
O desenho animado Os Simpsons fez uma referência direta ao quadro, em um episódio nos anos 90, quando um personagem, no delírio, vê a colega de trabalho por quem se apaixona.
Muitas capas de revistas de moda fizeram alusões à cena de Botticelli, com modelos famosas e biquínis de grifes.
A musa pop cameloa da música dance eletrônica, Lady Gaga, é confessadamente uma admiradora da obra. Em seu disco Artpop, de 2013, a capa utiliza em recursos estilizados a estampa de O nascimento de Vênus, como sampleando a pintura clássica. No clipe promocional do álbum, com (não à toa) o single Vênus, a cantora com os longos cabelos em cascata como da deusa, usa um provocante biquíni de concha.
Até na moeda de 10 centavos do Euro, Vênus aparece impressa em suave relevo. Mas é minimizar demais: a referência merece valor muito maior de circulação hoje nos 507 anos da morte do pintor.

terça-feira, 16 de maio de 2017

like a Bob Dylan

51 anos hoje do lançamento de um dos melhores discos de Bob Dylan, Bonde on Blonde, que completa a trilogia de álbuns de rock que o pardo de Minnesota gravou, começando com Bringing It All Back Home e Highway 61 Revisited, ambos de 1965.
As canções e as letras discursivas definem bem a mistura única do visionário e do coloquial que Mr. Zinnemman se tornou ao longo de sua carreira.

sábado, 13 de maio de 2017

a voz do Brasil

Em uma festa de réveillon nos anos 50, na casa do diretor da Rádio Nacional, vários convidados fizeram fila para cumprimentar Getúlio Vargas.
Ao aproximar-se uma jovem cantora em início de carreira, o Presidente apertando-lhe a mão disse: "menina, você tem a voz doce e a cor do sapoti".
A partir dessa data, Angela Maria, que hoje completa 88 anos, ficou conhecida como "A Sapoti", uma fruta tão doce quanto a voz da cantora, que em primeiro momento ela entendeu como "jabuti" e não gostou.
Episódios como esse estão na ótima biografia Angela Maria: A Eterna Cantora do Brasil, do jornalista e pesquisador Rodrigo Faour, lançada em 2015.
Com um texto preciso e elegante, o livro narra a trajetória da artista, revelando momentos difíceis como a decaída e pobreza nos anos 60, quando teve todo seu patrimônio financeiro usurpado pelos empresários, maridos, namorados, falsos amigos.

in a romantic mist

Duas excelentes obras sobre o grande trompetista e cantor de jazz Chet Baker: a biografia No fundo de um sonho - A longa noite de Chet Baker, escrita pelo jornalista James Gavin, publicada em 2002, e Let's Get Lost, documentário dirigido por Bruce Weber.
São referências definitivas sobre Baker. Nas páginas de um, nas imagens do outro, se se conhece a música do ícone do jazz cool, impossível não se emocionar com os relatos, os depoimentos, as entrevistas.
No filme, concluído um ano antes de sua morte, completando hoje 29 anos, o diretor grava longos planos de um Baker mais introspectivo do que se sabia. O seu olhar distante, o mergulho em suas dores. A câmera parece não estar ali. O cineasta e o músico eram amigos, e isso rendeu a intimidade necessária para extrair a mais verdadeira fala, o mais sincero silêncio.
Baker caiu-flutuou-levitou de uma janela de hotel em Amsterdan. Como diz a letra de sua canção Let's Get Lost: "in a romantic mist..."

sexta-feira, 12 de maio de 2017

olhos livres do cinema

“Papai, o que é cinema?”, pergunta a filha Bebel ao pai cineasta, enquadrando a pequena câmera digital. 
“Cinema...” inicia a resposta para de imediato reticenciar em “não sei... não sei... não sei...”

O diálogo nos minutos iniciais do longa-metragem Um filme de cinema, de Thiago B. Mendonça (2017), reverbera-se ao contar a aventura de uma criança na feitura de um filme como tarefa escolar. A garota também não sabe o que é cinema, ainda, mas tem a intuição que o próprio pai não percebe: uma câmera na mão e uma ideia no coração, parafraseando enviezadamente a máxima cinemanovista. Assim nasceu o cinema, perseguindo a realidade enquanto a recorta retangularmente.

- Trecho de algumas observações ao longa, no catálogo da IX Mostra Outros Cinemas, Caixa Cultural Fortaleza, de 10 a 14 de maio.
Site com mais informações sobre o evento: http://migre.me/wBtU9

o brasileiro Antonio Cândido

"Temos que entender que tempo não é dinheiro. Essa é uma brutalidade que o capitalismo faz como se o capitalismo fosse o senhor do tempo. Tempo não é dinheiro. Tempo é o tecido da nossa vida."
- Antônio Cândido, sociólogo, um dos grandes estudiosos da nossa literatura, o primeiro brasileiro a receber o Prêmio Internacional Alfonso Reyes, em 2005, um dos mais importantes da América Latina, livre e lúcido pensador. Um brasileiro.
Cândido partiu hoje aos 98 anos. Tecer outras vidas noutros tempos.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

perdoa-me por me traíres

Judas quer compreender a mensagem de Cristo, e acha que os brothers apóstolos estão seguindo sem questionar as palavras do Mestre. Judas discute com eles, e tenta defender o seu direito de adivinhar a verdade de Deus. Mas quando não consegue fazê-los compreender, percebe que os ensinamentos de Cristo podem cair no esquecimento, sem beneficiar a humanidade. Sua solução é trair Cristo.
Essa versão enviesada e curiosa do apóstolo que virou sinônimo da deslealdade e da postura pérfida, é apresentada no filme russo Judas, de Andrey Bogatyrev, 2013, e até onde sei, exibido no Brasil apenas na mostra Semana de Filmes Russos em Rio de Janeiro, Brasília e São Paulo.
“Muitos aspectos da vida não são tão simples como parecem ser. Devemos esforçar-nos para tocar o chão da história”, disse o diretor em entrevista, argumentando seu interesse pelo personagem e seus conflitos, extraído do livro Judas Iscariotes e outras histórias, de Leonid Andreev, de 2004.
O autor, assim como posteriormente o cineasta, desenvolvem a tese de que não se trata de crime intencional, nem de culpa, mas de um desígnio obscuro que parece reger a vida de certos homens contra a vontade deles, contra a razão, contra a salvação.
Argumento que não se aplicaria neste Brasil temeroso.

Cristo reloaded

Rodado em Roma, a caríssima produção norte-americana A paixão de Cristo (The Passion of the Christ), de Mel Gibson, 2004, é uma das mais criticadas sobre o tema. O diretor abordou de forma implacável as doze últimas horas de Cristo. Nunca o Salvador foi tão açoitado no cinema. O Nazareno percorre seu calvário desde a agonia após a reunião ministerial com seus apóstolos na Última Ceia até a Ressurreição, debaixo de chibata e insultos pelas ruas. Nem os flashbacks quando criança ao lado de sua mãe Maria aliviam o espectador.
Mel Gibson radicalizou também na concepção do filme, que é falado em aramaico. O preciosismo quase sádico da crucificação demorou duas semanas de filmagens, com dezenas de repetição de takes e cuidados de continuidade.
Há quem devaneie teses cabalísticas nas coincidências de produção do filme, como as mesmas iniciais dos nomes do personagem e do ator, assim como a mesma idade. E após se livrar dos pregos na cruz, Jim Cavaziel achando que acabara o seu martírio, foi atingido por raio juntamente com o assistente de Gibson. Nada de grave aconteceu a ambos.
Na foto acima o diretor informa ao ator que o ocorrido não foi efeito especial, apenas um aviso dos céus para capricharem na cena da ressurreição.

aquele beijo que lhe dei

Um dos beijos mais famosos da história da humanidade: o beijo com segundas intenções de Judas em Cristo.
O quadro de beleza hipnótica, A Captura de Cristo, de Caravaggio, 1602, encontra-se na Galeria Nacional da Irlanda.

Jesus nas ruas

Um grupo de atores encena pelas ruas da grande Montreal, de forma nada convencional, uma versão teatral de A Paixão de Cristo.
Para complicar, a via-crucis de Jesus se confunde com as dificuldades de cada um do elenco, principalmente para o jovem ator a quem pegaram para Cristo.
Jesus de Montreal (Jésus de Montréal), de Dennys Arcand, produção canadense, 1989, tem um dos mais originais roteiros que abordam o martírio de Cristo em direção à cruz. Com roteiro do próprio diretor, a narrativa de metalinguagem da peça dentro do filme faz um paralelo de cada acontecimento da história com o cotidiano dos artistas, dando uma simétrica e curiosa interpretação bíblica para os seres “comuns”.
Arcand faz um cinema onde desconstrói mitos e conceitos estabelecidos dissecando algum sentido para nossas inquietações. No enredo do filme, a peça não é vista com bons olhos pela Igreja. Fora do filme também.

nem Cristo é de ferro

O ator Robert Powell e o diretor Franco Zeffirelli nos intervalos da cena de crucificação de Jesus de Nazaré, 1977, um dos filmes mais vistos sobre o tema de dois mil anos atrás.
Zeffirelli, como um cineasta atento ao seu elenco, dá um acalanto de um uísque antes e um cigarro depois ao ator que tem uma longa caminhada desde Belém à ressurreição.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

poesia na calçada

Sérgio Sampaio, aquele que botou o bloco na rua, nunca fez concessão às exigências e burrice de alguns setores da linha evolutiva da música popular brasileira, como dizia seu parceiro da Sociedade da Gran-Ordem Kavernista, Raul Seixas.
Com sua música e letras de fúria modernista, viajando de trem do samba e choro ao rock'n roll, blues e baladas, Sérgio Sampaio estava blocos à frente de muitos.
Faria 70 anos hoje, 13, se foi aos 47 com sua poesia na calçada.
Íntegro, não se entregou: morreu de parabélum na mão.

me acuerdo

"A memória guardará o que valer a pena. A memória sabe de mim mais que eu; e ela não perde o que merece ser salvo".
- Eduardo Galeano, no livro Dias e noites de amor e de guerra, 2001.
Dois anos hoje que nossa memória guarda sua ausência.

o beijo enquanto você dormia

Jude Law aproveitando-se do sono de Norah Jones em My Blueberry Nights, para justificar o título em português "Um beijo roubado", produção com grana de Hong Kong, China e França, mas filmada em New York, 2007, com direção moderna do honconguês Wong Kar-Wai.
O delito do talentoso Jude é perdoável. No filme a cantora e pianista Norah, filha do músico indiano Ravi Shankar, é traída pelo namorado logo em sua estreia como atriz. Dona de um restaurante, entrega a responsa do comércio e seus lábios para o charmoso empregado Law.
Quem com o beijo fere, com o beijo do outro será trocado.

quem dera ser um peixe...


quarta-feira, 29 de março de 2017

na Pedra do Ingá

Lula Côrtes é um dos nomes mais representativos da música brasileira, como compositor, cantor, letrista, poeta de versos cheios.
Pernambuco da gema, fez em parceria com o compositor e cartunista Lailson, o primeiro LP independente do país, Satwa, em 1973, embora alguns historiadores não se atentem para o pioneirismo. Naquele disco a dupla iniciou uma ousada mistura dos ritmos nordestinos mais primitivos com arranjos de rock psicodélico, muito bem desenhados nos riffs do jovem Robertinho de Recife.

Essa liquefação de ritmos sonoros reverberou de forma intensa em Paêbirú, vinil em dupla com o Zé Ramalho, 1975, onde além dos ritmos agrestes com os toques lisérgicos, os arautos sertanejos incluem o balanço do jazz.
Gravado artesanalmente naqueles pulsantes anos 70, o disco se tornou histórico, mítico, não somente pelo conteúdo, como também pelo fato das 1300 cópias impressas, apenas 300 sobreviveram a enchente em Recife, quando a gravadora Rosemblit foi invadida por um tsunami das águas do Capibaribe.
Quem tem o disco, tem e pronto, não empresta, e muitos sequer caem na tentação da oferta no mercado de raridades, cotado hoje a R$ 5 mil o exemplar.
Em 2005, o famoso selo da Inglaterra Mr. Bongo Bass relançou a obra em vinil, e há sete anos no Brasil em CD. Não é a mesma viagem, mas dá, de olhos fechados e ouvidos escancarados, adentrar nos microssulcos analógicos da Pedra do Ingá, região do interior paraibano, onde os monumentos arqueológicos, as lendas indígenas e as visitas interplanetárias inspiraram as onze faixas do disco duplo.
Lula Côrtes depois de tocar com Zé Ramalho e fazer parte da banda de Alceu Valença, lançou discos solos de grande qualidade na década 80, e ainda nos 70 outros que nunca chegaram ao mercado.
Neste país de amnésia crônica cultural, a importância de Lula Côrtes pouco se dá. Nos anos 2000 o compositor sobrevivia de um salário como assessor de uma prefeitura no interior de Pernambuco e de trabalhos como artista plástico.
Domingo passado fez seis anos que ele se mandou de vez pras pedreiras do Ingá. Tinha 61 anos, um câncer na garganta e uma tristeza no coração.

segunda-feira, 27 de março de 2017

o código Tarantino

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Em 2006 a Republika Filmes produziu o curta-metragem Tarantino's mind, com roteiro e direção da 300ML, um coletivo de diretores de filmes publicitários de São Paulo.
O filme foi exibido no Festival Internacional de Curtas-Metragens de São Paulo daquele ano, e teve uma recepção calorosa, tornando-se uma espécie de trabalho cult, não somente por abordar a filmografia do cineasta Quentin Tarantino como também pela narrativa com um preciso tato de humor e diálogos afiados.
A grande sacada é a química entre os atores Selton Melo e Seu Jorge.
O dândi enviezado da violência coreográfica do cinema contemporâneo faz hoje 54 anos.

sempre por enquanto

Ele cantava que o "pra sempre sempre acaba". Nem tanto, Renato Russo. Não é sempre assim. Eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim tão diferente depois que você se mandou pra Via-Láctea... Sempre existe um caminho, sempre existe uma luz.
Hoje você faria 57 anos. Mudaram as estações nesse dia. Sua música ficou por aqui, e quando ouço só penso em você.
Vento no litoral, faixa 7 do disco V, por exemplo, é pra sempre. Se não tivesse criado tantas canções belíssimas, e feito somente essa obra-prima, já teria valido tudo pelo vento no litoral. Ver a linha do horizonte me distrai.
Na foto de Robson Silva, agosto de 1979, o adolescente legionário urbano Renato Manfredini nos tempos da Aborto Elétrico, em frente a Igreja Nossa Senhora das Dores, Cruzeiro Velho, Brasília.

quarta-feira, 22 de março de 2017

nobreza da música

“Quando ouvi Salif Keita, dancei...”, diz Chico César em ‘À primeira vista’, aquela do refrão djvaniano “amarazáia zoê, záia, záia / ahin hingá do hanhan...”, gravado em seu primeiro disco, “Aos vivos”, 1995.
Nascido em uma família fundadora do Império Mali, Salif Keita tinha tudo para não ser cantor. Essa “tarefa”, pela tradição da cultura daquele país da África Ocidental, pertence a outro tipo de pessoas. Por lá chamam de ”griots”, incumbidos com a arte de contar histórias, lendas, e, de certa maneira, informar e educar. Não deixa de ser, e configurar, uma estrutura social, porque evoca uma genealogia e história de seu povo. Guardando as devidas proporções, é como os nossos repentistas, por serem guardiões da tradição oral.
Mesmo com esse valor respeitado dos artistas populares, um membro do Império maliano tem reputação nobre, não lhe cabe a incumbência. Mas a arte de Salif Keita ultrapassou esse conceito, rompeu os limites da linhagem, e a música foi abençoada com o talento desse grande compositor.
Junta-se a esse detalhe na vida de Keita, o fato de ter nascido albino, como nossos Hermeto, Sivuca.... Uma raridade naquela região. Tanto é que tal condição caracteriza um sinal de azar na cultura dos maiores grupos étnicos do ocidente africano. Salif Keifa, mesmo com a repercussão de seus discos no exterior, o reconhecimento mundial de sua música, foi de uma forma disfarçada hostilizado na própria terra.
Aos 68 anos, o cantor mora em Paris desde a década de 80. Quando criou asas, voou.

salve, Jorge!

Samba Esquema Novo, primeiro disco do ainda Jorge Ben, 1963.
O samba, a bossa nova, o jazz, o sambalanço, o sambajazz.... Mas que nada, não! Mais que tudo, sim!.
Está lá que chove a chuva por causa de você, menina.
O Bacharel em Música Popular da Universidade de Campinas, Alam D’Ávila do Nascimento, em seu trabalho de Mestrado, disserta com propriedade sobre a curiosa capa, onde o cantor apoia-se em um banquinho invisível. Diz Nascimento que nas composições "a harmonia possui elementos de bossa-nova, mas o ritmo não, indícios de uma possível influência roqueira"
Essa complexidade musical é sugerida na capa, pois a primeira leitura remete à simbologia bossanovista de um-banquinho-e-um-violão. Falta um elemento, de sustentação, e isso define que é um disco da recente bossa já modificada pela variedade do repertório. Um esquema novo do samba que anteciparia procedimentos adotados pelos tropicalistas alguns anos depois.
Hoje, 75 anos do Babulina, Zé Pretinho, Jorge Benjor... Salve, Jorge! Eu também sou da sua companhia.

o cinema mudo deu o que falar

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Hoje o cinema completa 122 anos de sua primeira exibição.
O curtíssimo-metragem A Saída da Fábrica Lumière em Lyon foi apresentado a uma curiosa plateia numa sala, e mostrava a saída dos operários da fábrica, a maioria mulheres, que produzia películas fotográficas, de propriedade dos irmãos Auguste e Louis Lumière, não por acaso os produtores e diretores da novidade.
Mas vale dizer que eles não foram os autores do invento, o cinematógrafo, aparelho de filmagem e projeção.
Léon Bouly foi quem criou a máquina, em 1892, e batizou de "Cynématographe", que já era um aperfeiçoamento do trabalho de Thomas Edson.
O que aconteceu foi que o coitado de Léon não tinha como pagar a patente da sua invenção, e os Lumière, com grana no bolso e olho lá adiante, registraram, e "a coisa é nossa, pronto, vamos filmar os empregados e ficar pra história"... suponho terem pensado e dito. Ou sim?
Em tempo: o cachorro que aparece logo no início foi o primeiro animal do cinema, depois os cavalos do final...

segunda-feira, 20 de março de 2017

quando o tempo avisar

"Quando eu piso em folhas secas / caídas de uma mangueira..."
O outono chegando na voz de Nelson Cavaquinho...
A canção Folhas secas, gravada no seu terceiro LP, de 1973, foi composta em parceira com Guilherme de Brito.
Apesar do sobrenome artístico, por ter sido um exímio cavaquinista na adolescência, Nelson sempre compunha e se apresentava com o violão, que exercia com o mesmo talento.

quinta-feira, 16 de março de 2017

infância

Persona, de Ingmar Bergman, 1966.

A infância me levou ao cinema numa tarde no interior.

O cinema me levou a um tempo próximo e distante da fantasia, da idealização inquebrantável que as crianças fazem de um mundo perfeito.

Crescer tem o inconveniente do mundo ficar muito palpável. O dia é irreversível.  A esperança necessita de muito esforço.

O cinema me levou à infância numa tarde do interior. Não encontrei o caminho de volta para casa.

segunda-feira, 13 de março de 2017

muito além

“Esta manhã, antes do alvorecer, subi numa colina para admirar o céu povoado, e disse à minha alma: 'Quando abarcarmos esses mundos e o conhecimento e o prazer que encerram, estaremos finalmente fartos e satisfeitos?'
E minha alma disse: 'Não, uma vez alcançados esses mundos prosseguiremos no caminho.’”

- Walt Whitman, em As folhas da relva, publicado em 1855. A ‘magnum opus’ do maior poeta norte-americano teve várias edições. Inicialmente, o autor bancou sozinho a tiragem, investiu do seu salário de empregado de um jornal. Whitman não considerava seu livro concluído.
A vida não parava de lhe dar motivos para desfolhar a relva e escrever. Escrever e se fazer presente em trabalhos voluntários nas ruas, nos hospitais, nos asilos, nas embarcações como marinheiro. Foram praticamente quatro décadas preparando o livro e convivendo com mendigos, prostitutas, operários, pessoas que compartilhavam as dores e esperança. O poeta esteve na trincheira da Guerra da Secessão, e na batalha entre o norte industrializado e abolicionista e o sul aristocrata, latifundiário e escravagista.
Whitman escreveu sobre a liberdade. E não por acaso é o criador do verso livre. Sua alma libertária se cristalizava na escrita desacorrentada da métrica acadêmica. E pela ousadia, lucidez em ver, sentir e falar sobre a odisseia do homem simples, Whitman chegou a ter sua obra acusada de esquisita, bizarra e até obscena, a ponto de um crítico descerebrado sugerir açoite em praça pública como punição.
Ao final da nona e última edição do livro, em 1892, já no leito de morte, Whitman chegou a 382 poemas.
As folhas da relva é uma espécie de bíblia da poesia norte-americana. Um livro de fôlego, épico, sobre o ser humano em busca de respostas e caminhos. Uma vez concluído e alcançado o objetivo do autor, prosseguimos no caminho dele.
Acima, uma das primeiras impressões do livro e o autor fotografado por George Collins Cox, em 1887. Cox, um dos retratistas pioneiros, sempre esteve por perto de Whitman, e notabilizou-se pelas belas imagens que expressavam a consistência da alma do poeta. Seu acervo foi restaurado em 1979, e digitalizado na Library of Congress's Prints and Photographs. A poesia da imagem também indo mais além.

domingo, 12 de março de 2017

o sopro do pássaro

foto © PacoCartoon
No ótimo conto O perseguidor, de Julio Cortázar, publicado em 1958, na coletânea "As armas secretas", o personagem Johnny é um dos maiores saxofonistas do mundo, criando um estilo de jazz que não se consegue definir com clareza, tocando o coração de todos com sua música. O outro lado do homem é um Johnny extremamente perturbado, viciado em drogas, perde seu saxofone no metrô de Paris, e se desespera por não ter como comprar outro para o show que fora contratado na capital.

O conto foi diretamente inspirado no músico americano Charles Parker, 62 anos de sua morte hoje. Cortázar era fã de jazz e apaixonado pela música de Bird, assim apelidado o saxofonista, título do filme biográfico dirigido por Clint Eastwood em 1988, com a atuação perfeita de Forest Whitaker.
Charles Parker foi um dos maiores músicos da história do jazz. A beleza de suas composições misturava harmoniosamente estilos do clássico ao latino. Dessa melodia e ritmo tão próprios, Bird criou o Bebop, tornando-o uma espécie de pai do desenvolvimento conceptivo do jazz.
Teve morte precoce, aos 34 anos, consumido pelas viagens sem volta. Nunca se sabe o que há por trás das canções, das dores dos pássaros que não voam.

"Moro" na filosofia...

Depois do afago no mineirim, o encontro karnal...

Brasília cheia de lua

foto Ed Alves

sábado, 11 de março de 2017

simplesmente Maurício



Leonardo Da Vinci dizia que "a simplicidade é o último grau de sofisticação". Uma máxima aplicável ao fotógrafo Mauricio Albano.
Ele foi uma das poucas pessoas que conheci com tanta pureza, doçura, ternura. Sua filosofia de viver as coisas simples, de valorizar as coisas simples, de viver simplesmente viver, era cativante para quem estivesse ao seu lado. E isso, claro, reflete em seu trabalho de cinco décadas fotografando a vida.
Elegância da alma, fineza da alma, distinção da alma: a sofisticação que Da Vinci menciona.
E de maneira simples, em sua casa, Mauricio se foi há dois hoje.

sexta-feira, 10 de março de 2017

velhacap

foto Jean Manzon, 1950
"No Rio ficavam o presidente da República - dito assim, parecia importante, embora fosse apenas o Dutra -, os ministérios, as autarquias, o Congresso, o Supremo Tribunal Federal, o corpo diplomático, a presidência dos bancos, a matriz das seguradores, a indústria editorial, pelo menos quinze jornais diários e inúmeras revistas, quase todos de circulação nacional, treze estações de rádio, as agências de propaganda, a Praia de Copacabana, o Pão de Açúcar, o Copacabana Palace, a Confeitaria Colombo, a Cinelândia, o Fla-Flu, o sorvete Kibon."

- Ruy Castro em A noite do meu bem, 2015

a quem interessar possa

À época, a tiragem foi de 1000 exemplares. Não sei quantos vendidos na noite de lançamento, não me lembro quantos ficaram comigo e doei todos para amigos, não tenho ideia de quantos deixei nas livrarias em consignação, uma quantidade ficou com a Fundação Lourenço Filho, em Fortaleza, que patrocinou a publicação como prêmio do concurso... e um exemplar guardo como troféu na minha estante real.
Agora o site Estante Virtual tem um único exemplar disponível a preço de raridade.
A poesia é gratificante por isso, e expressa exatamente aquilo que não permito que me empreendam: o recolhimento do meu voo, a desfaçatez de dizerem que o Ícaro em que acredito não pode seguir viagem.

sesta básica

Neurologistas especialistas em sono garantem que uma boa soneca depois do almoço, a tradicional hora da sesta, não engorda, fortalece a memória, aumenta a concentração, além de melhorar a parte motora, evitando acidentes de trabalho.
O ideal é que o cochilo não ultrapasse 40 minutos.

Abaixo, operários na construção do Empire State Building, New York, descansam a uma altura de 256 metros, equivalente ao 60° andar.
A foto inicialmente foi creditada a Lewis Hine, que documentou quase diariamente a construção do prédio. Tempos depois pesquisadores constataram que o autor foi Ebbets Charles. O fotógrafo, numa proposta de fazer um ensaio ousado sobre a bravura daqueles trabalhadores, pediu para alguns fazerem de conta que repousavam após a refeição.

quinta-feira, 9 de março de 2017

Juliette

Juliette Binoche, bela e inesperada, como diria Vinicius de Moraes.
A atriz francesa, que hoje completa 53 anos, mais uma vez brilha com seu talento no ótimo A espera (L'attesa), de Piero Messina, 2015, onde vive uma enigmática mãe enlutada em um velho casarão na Sicília.

quarta-feira, 8 de março de 2017

ser divergente



Fumar na rua, usar blusas transparentes, ter cabelos eriçados, dizer palavrões, ter vários namorados... esse comportamento nos anos 20 não era para qualquer um, ou mais exatamente, não era para qualquer uma: assim era Patrícia Galvão, a Pagu, escritora, poeta, diretora de teatro, tradutora, desenhista, cartunista, jornalista e militante política brasileira.
Ficou conhecida como musa do movimento modernista, embora não tenha participado no início, pois tinha apenas 12 anos de idade. A ligação se fez mais tarde, por ter definido seu trabalho com as características e conceitos da Semana de Arte Moderna, integrando-se ao movimento antropofágico em 1929, e abalado o conservadorismo da época ao ser o pivô da separação do escritor Oswald de Andrade da artista plástica Tarsila do Amaral.
Pela sua ferrenha atuação nos sindicados e filiada ao Partido Comunista, Pagu foi a primeira presa política do Brasil, detida pela polícia de Getúlio Vargas ao promover uma greve dos estivadores no Porto de Santos.
Seguiram-se mais de vinte prisões, e por cinco anos torturada numa cela. Resistente e altiva, Pagu dizia “Esse crime, o crime sagrado de ser divergente, nós o cometeremos sempre”.
Faleceu de câncer aos 52, dois anos antes do Golpe de 64. Com certeza teria lutado contra a ditadura, continuado a cometer o crime de ser divergente.

quem é essa mulher?

“Quem é essa mulher / que canta sempre esse estribilho / só queria embalar meu filho / que mora na escuridão do mar"

Essa mulher é Zuzu Angel. Esses versos são da música Angélica’, que Chico Buarque compôs para ela, e está no disco Almanaque, de 1981.
O filho que deixou de ser embalado pela mãe era Stuart Angel, estudante de Economia, preso em maio dos anos de chumbo de 1971, por agentes do Centro de Informação da Aeronáutica, torturado e assassinado, e o corpo possivelmente jogado na escuridão do mar. Tinha 26 anos.
Zuzu Angel com 54 quando morreu em 14 de abril de 1976, misteriosamente em “acidente” de automóvel na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, Rio de Janeiro, local que hoje tem seu nome.
Uma semana antes, Zuzu entregou a Chico Buarque um documento que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse, onde escreveu: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho".
Em 2006 o cineasta Sérgio Rezende fez a adaptação do drama biográfico, Zuzu Angel, com atuações de Patrícia Pillar e Daniel de Oliveira.

dona Elizabeth

A história da paraibana Elizabeth Altino Teixeira no combate à violência agrária e à impunidade começou em 1962, após o assassinato do marido, o fundador da Liga Camponesa João Pedro Teixeira.
“O João sempre me pedia para dar continuidade à luta, eu não respondia. Na hora da morte, ele segurou na minha mão e eu disse sim. Nem pensei que eu estava sozinha para criar onze filhos”, conta com serenidade e saudade. Para não ter o mesmo fim do marido, com o golpe militar de 1964, Elizabeth foi viver na clandestinidade, no interior do Rio Grande do Norte, com o falso nome de Marta Maria Costa.
Quando era militante, ela chegou a ser convidada por Fidel Castro para morar com a família em Cuba. Determinada, agradeceu respondendo que tinha uma missão no Brasil: “lutar pelo direito à terra.”
A trajetória de ambos foi resgatada pelo cineasta Eduardo Coutinho no filme Cabra marcado para morrer, rodado inicialmente em 1964 e finalizado em 1984. Elisabeth é protagonista da história de perseguição no campo e de repressão política sofrida pelo marido.
“Perdi a conta de quantas vezes fui presa e vi a morte de perto, mas o que mais doeu nessa vida toda foi ter passado mais de 16 anos longe dos meus filhos”, conta. Nove deles foram criados pelo seu pai.
No dia 9 de março de 2006 dona Elizabeth foi homenageada no Congresso Nacional, recebendo o diploma Mulher-Cidadã Betha Lutz por ocasião do Dia Internacional da Mulher.
Lúcida aos 92 anos, mora em João Pessoa numa casa doada por Eduardo Coutinho logo após as filmagens.

perfume de mulher

"Simplesmente as rosas exalam / o perfume que roubam de ti..."
- Cartola

O poeta e sua amada dona Zica

duas mulheres

foto Maira Sales
Mona Gadelha, cantora, compositora, poeta, jornalista. A história do rock, do blues e das canções cearenses não passa por ela: está nela. Nos anos 70, 80, as emoções perigosas de quem fazia música na contramão dos bons costumes do lugar, tinham em Mona a postura e o comportamento feminino de quem pinta com talento e ousadia a cor do sonho que a música nos traz.
Patti Smith, cantora, compositora, poeta, escritora. Com seu disco de estreia, Horses, 1975, que Mona segura nas mãos e no coração, deu largada ao movimento punk com o canto feminino, a postura da mulher no comportamento do rock, o intelecto das canções nos movimentos políticos. Suas letras contestam, discordam, avançam na via contrária das setas estabelecidas.
Mona amadure a cada um dos seus sete discos desde quando gravou uma das faixas do Massafeira, 1979. O seu cd Cidade Blues Rock nas Ruas, 2013, é tradução de uma artista presente, de uma cantora que atualiza as emoções, como na faixa “James Dean”, dedicada a juventude que ama com causa.
Patti Smith, em seu disco de 2012, Banga, mostra a contemporaneidade, a simetria que se conecta com o novo, como na faixa This is the girl, composta para outra beleza rara, Amy Winehouse.
Mona Smith, Patti Gadelha: tudo a ver, tudo a cantar, tudo a ouvir.

terça-feira, 7 de março de 2017

alô...alô?

“Senhor Watson, venha para cá. Quero falar com você”, teria dito o cientista britânico Alexander Graham Bell, em 10 de março de 1876, fazendo o 'test drive' de sua invenção: o telefone, patenteado três dias antes.
O sr. Watson, Thomas Auguste Watson, era seu assistente, e estava em outra sala do laboratório. Foi a primeira pessoa no mundo a receber uma ligação telefônica, e, diga-se de passagem, uma ordem em tom patronal, para dar a devida importância àquele estranho invento, tataravô dos Smarthfones, iPhones e outras coisas com dezenas de coisinhas que fazem tudo, inclusive telefonar.

segunda-feira, 6 de março de 2017

o voo na madrugada

foto Jacques Chevry, 1975
Durante a ocupação da França pelos alemães, o cantor, compositor e poeta Charles Trenet teve que provar aos nazistas que não era judeu, pedia que o deixassem trabalhar. Seus shows amenizavam uma multidão que o adorava naqueles sombrios tempos de guerra.
Mas a perseguição ao artista dava-se não somente pela sua suposta origem judaica, e sim porque corajosamente assumiu sua homossexualidade. Trenet trazia também dolorosas lembranças de sua infância, abandonado pela mãe quando tinha sete anos, criado sob rígido tratamento em um internato.
Em suas músicas nada desses traumas se manifestavam. O cantor resistia e se curava de forma inversa ao fundo do poço. Tinha como característica a alegria, as apresentações sorridentes que cativavam a plateia. Charles Aznavour o tem como referência na maneira de envolver o público com as canções.
Em 2000 na abertura de um concerto, Charles Trenet, como sempre brincalhão e espirituoso, abriu a noite dizendo à sala lotada: "Quem veio ao meu show está dispensado de ir a meu enterro". O cantor tinha 86 anos, estava se recuperando de um infarto, e achava que até os 70 teria feito tudo que precisava com sua arte.
Aquela noite foi sua última apresentação. Partiu no ano seguinte, no silêncio da madrugada, enquanto dormia. Uma partida como desejava ao falar da morte: "Eu quero ir voando". Mas os fãs o desobedeceram e uma multidão compareceu ao seu último voo.

domingo, 5 de março de 2017

toujours

"Moi, je rêve de vos yeux mon amour. / Et moi, je rêve de vos yeux toujours."
- Versos de Chacun de rêve, de Henri Bourtayre, na canção de Maurice Vandair, gravada por Charles Trenet, em 1945.

sábado, 4 de março de 2017

Cli-Clê-Clô

Os Ferreiras Climério, Clésio e Clodo, queridos compositores piauienses, trouxeram para Brasília, onde foram morar nos anos 70, a estética doce e agreste do sertão em temática universal nas letras e musicalidade, como diz o jornalista Beto Almeida.
Assim como o cantor e compositor Jorge Mello, parceiro em várias canções de Belchior, são os piauienses mais cearenses da nossa música, presentes no projeto para o meu documentário Música do Ceará - Lado A Lado B, em composições com Ednardo e Fagner.

Nas fotos, a companhia luxuosa de Climério, Clodo e da jornalista e produtora Lia Tavares, filha de Clésio, falecido em 2010.
* título do poema de Nara Leão, em homenagem aos irmãos, musicado por Fagner e Fausto Nilo, gravado no disco da cantora capixaba, Romance popular, 1981.