segunda-feira, 16 de outubro de 2017

incenso de bombas

O ataque terrorista em Mogadíscio, capital da Somália, sábado passado, deixou até agora 276 pessoas mortas e mais de 300 gravemente feridas. Foi o pior ataque na história do pequeno país do oriente africano.
O grupo jihadista Al Shabab, ligado à Al-Qaed, que tenta derrubar o governo central apoiado pela ONU e pela União Africana, explodiu dois caminhões-bomba próximos a um hotel e um movimentado mercado.
Em tempos remotos, a Somália foi um dos países mais prósperos no comércio de incenso, mirra e especiarias para o resto do mundo. O Egito faraônico foi o maior importador desses itens considerados luxuosos.
Historicamente é um país de resistência aos impérios europeus, que ao longo dos anos derivou em constantes guerras civis, instabilidade política e muita pobreza. Franceses, britânicos e italianos estabeleceram domínios na região nos séculos 19 e 20.
A guerra entre grupos organizados dentro do mesmo Estado-nação somali, na década de 90, fez o Estados Unidos marcar presença com sua mania de xerife do mundo. George H. W. Bush, o pai, enviou uma tropa de elite com a finalidade de capturar generais que obedeciam ao líder Mohammed Farah na chamada Batalha de Mogadíscio. O que o governo em Washington calculava tudo resolvido em uma meia hora, durou um tiroteio de mais de 15 horas. A operação foi um fiasco, e deixou mais de mil mortos entre somalianos e soldados estadunidenses.
Os roteiristas hollywoodianos deram a sua versão heroica no filme dirigido por Ridley Scott, Falcão Negro em perigo, em 2001, tradução no Brasil para Black Hawk down, em referência aos dois helicópteros UH-60 abatidos.
Mas o ataque letal desse final de semana não despertará interesse para mais uma produção para se assistir no conforto dos multiplexes. Falta, para os roteiristas, um "leitmotiv" mais atraente nessa ópera apocalíptica.
Assim como não gerou comoção nas redes sociais, com fotos trocadas nos perfis. A Somália não é a França.

retrocesso


inéditos de Kafka

Quando Franz Kafka morreu, em 1928, aos 41 anos, seu amigo e também escritor Max Brod, tornou-se seu biógrafo e testamenteiro. Organizou e publicou muitos de seus escritos, entre eles Amerika e Narrativas do espólio. É dele Franz Kafka, a biografia, publicada em 1934 e reeditada quarenta anos depois.
Poucos, pouquíssimos conheceram tão bem o escritor tcheco quanto Max Brod. Há quem o considere um canalha traidor, porque Kafka o pediu, no leito de morte, que queimasse seus papéis pessoais e obras incompletas, por considerar sem muita qualidade.
Max Brod prometeu mas não cumpriu. E a "traição" trouxe à Literatura obras como O processo e O castelo. Obras que muitas vezes foram lidas, nos originais, pelo autor ao amigo e alguns poucos mais chegados. Kafka era de uma timidez patológica, e Max Brod não descansou enquanto não publicou os inéditos e lhe dedicou uma biografia.
Max Brod morreu 40 anos depois de Kafka, no final de 1968, em Tel Aviv, Israel, onde morava.
Com ele ficaram mais de 40 volumes com documentos, cartões postais e objetos pessoais do escritor. Relíquias que não foram levadas à público, e que continuaram em segredo nas mãos da secretária de Brod, Esther Holfe.
Essa senhora faleceu em 2009, aos 101 anos de idade, lá mesmo em Israel. Foram outros cabalísticos 40 anos após a morte do patrão.
Estudiosos de Kafka temem pelo estado físico desse tesouro. Esther Holfe morava em um apartamento úmido, mal cuidado, ao lado de cachorros, gatos, e quem sabe, baratas kafkanianas. Nada mais irônico.
Espera-se alguma notícia da revelação desses inéditos, que tenham sobrevividos aos processos de metamorfoses..
Na foto acima, de Ev Hoffe,Max Brod e Esther Hoffe. 

domingo, 15 de outubro de 2017

dias de Nietzsche em Turim

Em Turim, Itália, no ano de 1889, nada menos do que Friedrich Nietzsche protege um cavalo que é brutalmente espancado pelo seu dono, numa praça. O filósofo abraça-se ao pescoço do animal, em prantos.
De volta à sua casa, Nietzsche então permanece imóvel e em silêncio durante dois dias estendido em um sofá, até que pronuncia as definitivas palavras finais: “mãe, eu sou um idiota”. E vive por mais dez anos, mudo e demente, sendo cuidado por sua mãe e suas irmãs.
Esse é ponto de partida do filme húngaro O cavalo de Turim (A torinói ló), 2011, e o que aconteceu com o animal socorrido é o tema desenvolvido pelo cineasta Béla Tarr nesse belíssimo exemplar de cinematografia.
Nietzsche, o grande pensador da evolução humana, faria hoje 173 anos.

fogo cerrado

Brasília, 37,5 graus.

Calor recorde, baixa umidade, queimadas, racionamento d'água, STF, Senado, Câmara... 

suprema vergonha

“Quando a política penetra no recinto dos tribunais, a justiça se retira por alguma porta.”
O primeiro-ministro francês François Guizot ao pronunciar essa frase, ainda em meados do século 19, jamais imaginou que se tornaria uma máxima na política de sempre. Ou sim.

acerte o relógio


sábado, 14 de outubro de 2017

at arriving at the right time

George Harrison, All things must pass, 1970,  é o terceiro disco-solo de Harrison, o primeiro como ex-beatle, e - dado importante - o primeiro álbum triplo da história do rock gravado por um único artista. Em 2001 foi lançado em CD duplo.

George guardou muitas de suas composições na época dos Beatles, não querendo “competir” com as músicas da parceria “oficial” Lennon-McCartney. O repertório de 28 canções dos três vinis tem criações que se tornaram clássicas, como My sweet Lord, a ótima If not for you, de Bob Dylan, canções escritas com Eric Clapton, Bobby Whitlock, Dave Mason...
Além dos cantores citados, o guitarrista convidou para dividir várias faixas: o grande pianista de música soul Billy Preston, o lendário roqueiro de arena Peter Frampton, o baterista e vocalista do Genesis Phil Collins, e o amigo Ringo Starr, pra dar aquele toque beatle, e o disco ficar “with a little help from my friends”.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

a indesejada

Manuel Bandeira diz em seu poema "Consoada" que "quando a Indesejada das gentes chegar", ela, "encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / a mesa posta, / com cada coisa em seu lugar."
E assim a iniludível o encontrou, num começo de tarde, em 13 outubro de 1968.

Welles apaixonado

Orson Welles nos bastidores do seu filme Falstaff - O toque da meia-noite (Chimes at Midnight), fotografado por Nicolas Tikhomiroff.
Com locações na Espanha, e produção envolvendo França e Suíça, é um dos filmes mais fascinantes do grande cineasta americano, sempre na contramão das mesmices dos grandes estúdios hollywoodianos.
Filmado em 1965, Falstaff, como o próprio título indica, é baseado em William Shakespeare. O diretor interpreta o bêbado e obeso Sir John Falstaff, amigo do Príncipe Hal, herdeiro do trono da Inglaterra.
O roteiro reúne, de forma genial, fragmentos de Henrique IV, Henrique V e As Alegres Senhoras de Windsor, e assim recria-se na tela, no ambiente da idade Média, o mundo e os sentimentos de cobiça, soberba, inveja e traições, e outros pesares e afecções que marcam o ser humano por todos os tempos.
Com uma decupagem deslumbrante, enquadramentos e angulações pouco vistas, e uma montagem precisa, Falstaf é uma aula de narrativa cinematográfica.
O filme, premiado em Cannes em 1966, é uma epifania do cineasta às suas paixões: Shakespeare e o cinema.

quinta-feira, 12 de outubro de 2017

às nossas crianças


Perdoem a cara amarrada
perdoem a falta de abraço
perdoem a falta de espaço
os dias eram assim.

Perdoem por tantos perigos
perdoem a falta de abrigo
perdoem a falta de amigos
os dias eram assim.

Perdoem a falta de folhas
perdoem a falta de ar
perdoem a falta de escolha
os dias eram assim.

E quando passarem a limpo
e quando cortarem os laços
e quando soltarem os cintos
façam a festa por mim.

Quando lavarem a mágoa
quando lavarem a alma
quando lavarem a água
lavem os olhos por mim.

Quando brotarem as flores
quando crescerem as matas
quando colherem os frutos
digam o gosto pra mim.

Aos nossos filhos letra de Victor Martins, musicada por Ivan Lins, gravada no disco Nos dias de hoje, 1978. Ainda nos dias de hoje.

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

bate outra vez

Há 109 anos nascia Cartola.
Há 109 que as rosas falam na música brasileira.

O mundo é um moinho, mas meu coração sempre bate outra vez com esperança quando ouço Seu Agenor.
A benção, mestre. Tiro minha cartola para você.

81 tons de Zé

Há 81 anos o Zé está fora do tom da mesmice, na contramão da música pra pular brasileira. 
Parabéns,  eterno garoto do sertão de Irará.

sempre por enquanto

Ele cantava que o "pra sempre sempre acaba". Eu sei que alguma coisa aconteceu, está tudo assim tão diferente depois que se mandou pra via-láctea... Sempre existe um caminho, sempre existe uma luz.
Hoje faz 21 anos do anjo triste perto dele. Mudaram as estações nesse dia. Sua música ficou por aqui.
Minha preferida é Vento no litoral, faixa 7 do disco V. Se não tivesse criado tantas canções belíssimas, e feito somente essa obra-prima, já teria valido tudo por essas bandas. Ver a linha do horizonte me distrai.
Olha só o que achei... cavalos-marinhos nessa foto... Manfredini adolescente urbano nos tempos do "Aborto Elétrico" aqui em Brasília, agosto de 1980, ali em frente à igreja Nossa Senhora das Dores, no Cruzeiro Velho, e o clic eternizado de Robson Silva. O pra sempre nem sempre acaba.

terça-feira, 10 de outubro de 2017

narrativa cinematográfica

foto Bogdan Krężel, 2009
“Se conto a história de dois amantes e os mostro na cama desde a primeira cena, o espectador sabe que os acompanhará até o fim do filme, a menos que algo de grave os separe. Mas, então, esse ‘algo’ será o tema do filme.”
“Todo diálogo é constituído não apenas de palavras, mas também de reações mudas a essas palavras.”
“Todo filme termina com uma imagem que o espectador guardará na memória.”
Andrzej Wajda, o mais importante cineasta polonês, dando aí umas dicas para os novos roteiristas e diretores.
Wajda se foi há um ano hoje, aos 90 e 26 filmes. Sua imagem o cinema guardará para sempre em nossa memória.

segunda-feira, 9 de outubro de 2017

o universo em seu canto

Taiguara foi o compositor mais censurado da música brasileira. 68 canções foram proibidas pelo regime militar nas décadas de 60 e 70.
Exilado na Inglaterra, gravou um disco nunca lançado no Brasil, Let the children hear the music, tornando-se o primeiro cantor proibido a produzir um trabalho no exterior à época braba de ditaduras na América Latina.
Em uma viagem à Fortaleza, encantou-se com uma sereia cearense numa praia ainda distante e compôs Maria do Futuro.
Kleber Mendonça Filho soube com perfeição emoldurar o seu ótimo e tocante filme Aquarius, usando na trilha sonora a emblemática Hoje, faixa-título do disco que o cantor gravou no conturbado ano de 1969.
Taiguara foi cedo, aos 50 anos. Ele nunca parava de ter esperanças, e por isso cantava. Hoje ele faria 72 anos de sonhos.

John Lennon

77 anos hoje. Imagine. It's easy if you try.

domingo, 8 de outubro de 2017

ensaio sobre a utopia

"Se não for o escritor a inventar utopias, os políticos não as inventam, com certeza".
- José Saramago, primeiro autor de língua portuguesa a ganhar o Nobel de Literatura, em 8 de outubro de 1998.

quinta-feira, 5 de outubro de 2017

caleidoscópio agreste

A narrativa cinematográfica ocorre de maneira diametralmente oposta a do teatro. Enquanto na tela a ilusão a 24 quadros por segundos cria uma “realidade” que do espectador se apodera - e até manipula, como observava o roteirista Jean-Claude Carrière -, no palco a realidade tridimensional cria uma ilusão do real para falar do real. No cinema o personagem morre e estamos “convencidos” disso. No teatro, o personagem morre, nos padecemos, mas sabemos que é uma exterioridade – tanto que o ator ao final se levanta para os agradecimentos.
Unir essas duas linguagens no palco, por exemplo, foi, é e sempre será um desafio. A bifurcação das duas narrativas para uma terceira via de descrição cênica praticamente não existe, porque sempre estará ao lado da outra referenciada. Mas uma definição alude ao outro relato dramático, e assim se manifestam merecida e dignamente no mesmo espaço.
O ator Adeilton Lima expressa com perfeição esse diegese no monólogo Glauber Rocha – O profeta do delírio, que estreou ano passado no Espaço Pé Direito, em Brasília. O pensamento e a obra do cineasta são reverenciados com a importância que tem na nossa cultura, trazendo à reflexão a complexidade do ser brasileiro, politicamente, afetivamente. A estética do Cinema Novo, do qual Glauber foi um dos mais fortes ideólogos, é o desenho dramatúrgico que o ator discorre em uma hora de apresentação, sob a cumplicidade da direção afinada de Abaetê Queiroz.
Com textos de Murilo Mendes, Glauber e Luiz Carlos Maciel, o monólogo saúda, honra e consagra o delírio do cineasta com a verdade e lucidez devidas. Adeilton com sua pesquisa apurada, roteiro preciosamente delineado e interpretação anímica, disseca a alma de um dos maiores artistas brasileiros, singular em sua genialidade, autêntico em sua coragem de pensamento, profeta em seu delírio. A concepção poética e teatral de Adeilton Lima coloca esse arrebatamento numa única pulsação e ao mesmo tempo em várias, um preto-e-branco na mesma moldura cênica colorida, como um caleidoscópio agreste. Com cenas de filmes, trechos de programas de televisão, imagens icônicas de ídolos, projetados numa tela ao fundo do palco, o cinema está presente em coexistência narrativa muito mais do que apressada e equivocadamente se possa apontar como recurso ilustrativo. A mensagem da memória do sertão dentro de uma garrafa em direção ao mar. A terra que é do homem, não é de Deus nem do governo. Corpo e alma. Glauber e Brasil. Delírio e razão. Poesia e sertão. Cidade e prosa. Áudio e visual. O teatro que virou cinema que é teatro.
Em nenhum momento estamos diante somente de uma peça teatral: estamos com o coração interativamente no pensamento cinematográfico glauberiano que está no palco. Em nenhum momento estamos somente diante da luz de um filme do cineasta, estamos com o olhar interativamente no delírio do ator que está no palco. Adeilton não interpreta Glauber, não é esse o propósito. Adeilton reflete Glauber, é esse o foco. O ator não encarna o cineasta. O ator ouve o cineasta. E assim os escutamos.
O desenho gráfico que segue a condução do monólogo, moldado pela cenografia discreta de Cyntia Carla e trilha sonora adequada de Jorge Brasil, é de uma precisão onde nada falta nem vaza pelas bordas do palco. Tudo na apresentação é coerente sem ser didático e careta. No início, Adeilton Lima surge no palco saindo de dentro da tela, não como um personagem de filme ou uma rosa púrpura de Vitória da Conquista, mas como um Macunaíma parido do cinema novo brasileiro. E assim como do branco da tela apareceu, volta ao útero dela no final, no momento de uma imagem do cineasta com a boca aberta em um grito. O ator acolhido antropofagicamente pelo cineasta. A volta como ao ventre do cinema. A tela é por onde entra e sai o mundo. O palco é o mundo. Evoé, Glauber!

quarta-feira, 4 de outubro de 2017

fish are jumping out

Em fevereiro de 1970, Janis Joplin desembarcou no Rio de Janeiro para passar uns dias de férias, curtir o sol de Copacabana. Na verdade, a cantora tentava dar um tempo do seu veneno anti monotonia, fazer uma espécie de "rehab" do lado de baixo do Equador, onde supostamente não há pecado.
Que nada. Era mês "summertime", e pleno carnaval. Foi difícil para Janis ficar indiferente a tanta folia e animação "exótica". Foi ciceroneada pelo fotógrafo Ricky Ferreira, e que lhe hospedou no apartamento quarto-e-sala em que morava, ao encontrá-la vagando e chorando pela areia da praia, depois que fora expulsa do Copacabana Palace por nadar nua na piscina. Acompanhada ainda por sua figurinista, a comissão de frente das farras, incluía um namoradinho americano que encontrou no calçadão de Copa, e mandou ver em todos os passeios que lhe levavam. Não dispensou nada.
Notívaga assumida e baladeira confesso, começaram a farra numa boate fuleira no final da av. Atlântida, um local frequentado por prostitutas, marinheiros e maconheiros cantando Kosmic blues. Dá de cara com o cantor Serguei, que conhecera nos Estados Unidos em 1968, e que nunca comeu Janis, o máximo que rolou foi fumar um unzinho juntos na Praia da Macumba, quando fez topless numa boa, e pagou caro com as costas cheias de bolhas pelo solzão carioca.
Naquela época tinha uma boate da moda, no final do Leme, adequadamente chamada Porão 73. O gerente quase barrou a cantora de Mercedes Benz, apesar do copo de vodca na mão, achando que fosse uma das raras mendigas que rondavam por ali. Janis, com sua interpretação visceral, foi lá e cantou Ball and chain, deixando os mortais presentes em êxtase, entre eles o BR-3 Tony Tornado e... Alcione! O que é que a "Marrom" estava fazendo naquele inferninho?
Incansável, e às vezes imprevisível nas atitudes pela sua bipolaridade, Janis Joplin foi a um baile de carnaval do Theatro Municipal, e por causa das roupas coloridas e as axilas peludas, foi confundida como travesti pelos foliões do "ô abre alas, que eu quero passar". Assistiu aos desfiles das escolas de samba na Candelária, e numa entrevista quis saber sobre uma tal cantora chamada "Girl" Costa. Depois pegou uma moto com o seu boyfriend e se mandaram tipo Dennis Hopper, Peter Fonda e Jack Nicholson em Easy Rider, para a praia de Arembepe, na Bahia, onde uma comunidade hippie vinda de Woodstock tinha um bagulho do bom.
A meteórica passagem de Janis Joplin no Brasil é inesquecível por muitos que tiveram a oportunidade - histórica - de acompanhá-la. Todos afirmam que a intensidade em tudo que a cantora fazia, entre maços de cigarros e goles de vodca, escondia uma mulher amargurada, que não dava a mínima para dinheiro e salamaleques que hoje essas babaquinhas da música pop se impõem com exigências de toalhinhas finas, frutinhas destiladas, papel higiênico florido e água Perrier no camarim.
O anfitrião Ricky Ferreira prepara um documentário, Janis Joplin — o último carnaval, narrando os fatos (e fotos) que viveu a lenda do rock.
Oito meses depois, em 4 de outubro, quando gravava o álbum Pearl, seu empresário a encontrou morta em um quarto de hotel, em Los Angeles.
47 anos que Janis não morreu.

terça-feira, 3 de outubro de 2017

oh, meu velho e indivisível Avôhai!


Zé Ramalho.
68 anos num galope à beira-mar...

none brick in the wall

Na fria madrugada de 13 de agosto de 1961, iniciou-se a mais imbecil construção do homem: o Muro de Berlim, separando a Alemanha em Oriental e Ocidental.
Durante os 28 anos de existência, o muro, com seus quase 70km de extensão, separou não somente um país, mas polarizou o mundo, no que Drummond chamou de "tempo de homens partidos".
Na onda revolucionária que se propagou no Bloco do Leste, em 1989, o muro foi destruído, cortina de ferro rasgada, com a euforia de multidões de alemães dos dois lados, que se reencontraram, e dessa forma simbolizando e manifestando um novo tempo, porque, "os lírios não nascem das leis" - recorrendo mais uma vez ao poeta de Itabira.
Hoje é feriado na Alemanha, comemora-se a reunificação oficial da antigas Oriental e Ocidental, o Dia da Unidade Alemã, quando foi oficialmente assinada a adesão das duas Repúblicas. A celebração nacional seria 9 de novembro, data da queda do muro, mas o dia remete também à fatídica Noite dos Cristais de 1938, quando os nazistas atacaram sinagogas, lojas e residências de judeus.
Um filme interessante sobre a reunificação é Adeus, Lênin!  (Good bye, Lenin!), de Wolfgang Becker, 2003. Com narrativa de comédia dramática, o enredo, quase uma fábula, conta a história de uma professora que sofre um infarto durante as manifestações contra o regime socialista, recupera-se, e ao despertar oito meses depois, não sabe que a Alemanha agora é uma só. O filho, ciente que a mãe é “casada com a pátria socialista”, e temendo por sua saúde, cria em volta um mundo artificial da Berlin Oriental, exibindo até programas antigos da televisão como se fossem atuais.
Há muros e "muros" ainda para serem derrubados, dentro de nós e lá fora. Há o meu lado e o teu. Isso e aquilo. "Tudo tão difícil depois que vos calastes... / E muitos de vós nunca se abriram", citando outra vez Drummond, em seu preciso e precioso poema Nosso tempo.

segunda-feira, 2 de outubro de 2017

poesia doce

Doce Poesia Doce é um projeto da Edital Arte Todo Dia – Ano III, Fundação Gregório de Mattos, prefeitura de Salvador.
De 17 de setembro a 8 de outubro 10 mil poemas impressos embalando balas doces serão distribuídos gratuitamente em praças, escolas, hospitais e postos de atendimento na capital baiana.
Foram 400 poetas selecionados do Brasil e exterior, com 20 cópias de cada um dos poemas escolhidos, totalizando as 10.000 poesias doces para distribuição.
Os poemas estão também postados nas páginas:

o fim, o início e o meio

"Há uma teoria que indica que sempre que qualquer um descobrir exatamente o que, para que e porque o universo está aqui, o mesmo desaparecerá e será substituído imediatamente por algo ainda mais bizarro e inexplicável… Há uma outra teoria que indica que isto já aconteceu."
Douglas Adams, escritor e comediante britânico. Entre seus trabalhos está a série de TV Monty Python's Flying Circus e a saga que inclui O guia do mochileiro das galáxias.

outubro ou nada


domingo, 1 de outubro de 2017

mestre Suzuki

Quando se fala no cinema produzido no Japão, logo vem à mente o nome de mestres como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu, Kenji Mizoguchi, Takeshi Kitano. No ocidente, o trabalho de Seijun Suzuki, um dos mais importantes da Terra do Sol Nascente, ainda permanece desconhecido de grande parte da população. Ídolo de uma geração, é influência assumida de diretores como Jim Jarmusch e Quentin Tarantino.
Falecido no começo deste ano, aos 97, o cineasta teve mostras em países da Europa, com debates e seminários visando aprofundar as propostas estéticas contidas em sua cinematografia. Em 2006 o CCBB Brasília realizou a retrospectiva Seijun Suzuki – O coreógrafo da violência, exibindo oito filmes assinados pelo diretor e mais cinco produções feitas por cineastas que dialogam com o seu cinema. Esse movimento de redescoberta alcançou grande repercussão quando Tarantino confessou ter se inspirado no filme A vida de um tatuado (Irezumi Ichidai), de 1965, para a criação de Kill Bill.
Seijun Suzuki é representante de um cinema comprometido com a ousadia estética e com a ruptura de valores. É o enfant terrible de uma importante mudança no cenário do cinema japonês dito sério, que tinha em Kurosawa e Ozu seus principais representantes. Inicialmente diretor de filmes de ação B para os estúdios Nikkatsu, Suzuki foi aos poucos introduzindo um tom cada vez mais farsesco em seus filmes. Ele foi quem primeiro ousou estilizar a violência dos filmes de gangster (da Yazuka) e kung fu a ponto de transformá-los numa coreografia lúdica – proposta seguida depois por diretores como Zhang Yimou, em O clã das adagas voadoras (Shi mian mai fu), de 2004.
Suzuki imprimiu tanta modernidade em seus filmes que hoje são considerados pós-modernos.

sábado, 30 de setembro de 2017

Alfredo no paraíso

De tantos bons filmes que o Philippe Noiret fez, alguns são marcantes: O velho fuzil, drama baseado no massacre de Oradour-sur-Glane na Segunda Guerra, de Robert Enrico; o polêmico A comilança, que trata do suicídio por glutonaria e causou escândalo em Cannes em 1973, uma espécie de fábula de humor negro dirigida por Marco Ferreri; O carteiro e o poeta, de Michael Redford, em que vive Pablo Neruda...
Mas o ator será eternamente lembrado como o Alfredo, projecionista de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, que nunca saiu da cabeça do menino Totó (Salvatore Cascio), assim como o personagem jamais será esquecido pelo público, por sua memorável atuação.
Noiret terminou de escrever a autobiografia, Mémoire cavalière, pouco antes de ir para outros "paradisos", em 2006. Hoje ele faria 87 anos em nosso cinema.

e eu não posso cantar como convém

“Por onde passou, Belchior não deixou dissenso, conflito ou vergonha. Os embates moralistas em torno de sua renúncia à vida social vão continuar por muitos anos, mas a transfusão de seu sangue criativo irriga gerações diferentes de artistas e é impossível detê-la: alimenta tanto os anêmicos da realidade quanto os vampiros da transitoriedade. ”
- Jotabê Medeiros, jornalista, autor da biografia Belchior – Apenas um rapaz latino-americano. O trecho, na segunda página da Apresentação, resume o pensamento e intenção do livro, que teve pesquisa iniciada logo após o desaparecimento do cantor.
Hoje cinco meses que seu sangue criativo continua irrigando gerações. Cinco meses que ele não morreu.
Neste link, uma ótima análise da biografia, assinada por Josely Teixeira, estudiosa da obra de Belchior.

sexta-feira, 29 de setembro de 2017

massagem

Elizabeth Taylor fotografada por Daniel Angli, Paris, 1971

"Um miau massageia o coração." 

- Stuart McMillan, fotógrafo



Salvatores

"como eu não sei rezar / só queria mostrar / meu olhar, meu olhar, meu olhar..."

- Renato Teixeira em Romaria, 1978

Salvatore Cascio no papel Salvatore Di Vita, o pequeno devoto da sétima arte no templo de Cinema Paradiso, de Giuseppe Tornatore, 1988.


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

vale tudo

"Tira essa escada daí / essa escada é pra ficar aqui fora / eu vou chamar o síndico / Tim Maia! Tim Maia! / Tim Maia! Tim Maia!...
- Jorge Benjor em W Brasil, disco Acústico MTV, 2002.

E o Condomínio Brasil faria uma grande festa hoje pelos 75 anos do síndico.

civilização felina

foto Yulia M

"A veneração dos egípcios pelos gatos não era nem tola nem infantil. Por meio do gato, o Egito definiu e refinou sua complexa estética." 

- Camille Paglia, ensaísta e crítica de arte


segunda-feira, 25 de setembro de 2017

o batera

Dez entre dez bateristas consideram John Bonham, do Led Zeppelin, um dos melhores de todos os tempos na história do rock, numa admiração que se confunde com devoção, pela sua inovação, originalidade e velocidade técnica.
Hoje faz 36 anos que o batera se foi, aos 32. De certa forma, Led Zeppelin também.

quinta-feira, 21 de setembro de 2017

homens choram


poesia em Alphaville

“Todas as coisas se movem. Devemos avançar para viver. Ir direto para aquilo que você ama. Eu fui para você sem pausa para a luz. Se sorrir, é para invadir melhor. Os raios de seus braços perfuram o nevoeiro.”
As falas do filme Alphaville, que Jean-Luc Godard dirigiu em 1965 foram escritas pelo poeta Paul Éluard. Assim se explica um dos mais belos roteiros do cinema, com diálogos precisos narrados como versos pelos personagens.

terça-feira, 19 de setembro de 2017

ler e ser

“Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”
Admirável pensamento do mestre Paulo Freire, no raciocínio da simplicidade de uma fábula.
Nascido há 96 anos hoje, o sociólogo e pedagogo brasileiro nos mostrou as uvas e que não estariam verdes.

evoé, Daniel Medina!

Na Roma antiga as sacerdotistas que cultuavam Baco proferiam o grito de evocação "Evoé!". Por extensão e ao longo do tempo é também um grito de felicidade, de alegria, que expressa entusiasmo e exaltação ao belo.
O título do disco de estreia do cantor e compositor Daniel Medina é justamente esse brado: a beleza da música. Talento da nova cena musical cearense, o artista reúne no álbum dez canções autorais, com auxilio luxuoso dos conterrâneos Juruviara, Gero Camilo e do paulista Marcelo Jeneci, em três faixas.
Um disco primoroso!
Como ele canta na ótima Nós ao vivo, sua música "vai à rua, vai à Roma / testa as portas, faz a festa"

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

"I want to be alone"

foto Cecil Beaton, Plaza Hotel, 1946.
A atriz Greta Garbo disse a frase acima numa cena de O Grande Hotel, clássico filme pós-depressão americana, de 1932, dirigido por Edmund Goulding.
A sentença marcou sua própria vida, ao retirar-se do cinema de uma vez por todas, nove anos depois, logo após filmar Duas vezes meu (Two-faced woman), de George Cukor. As críticas negativas ao filme abalara a estima da atriz, que já se sentia desiludida com o mundo pelos horrores da Segunda Guerra.
Greta nunca se casou, não teve filhos, não escreveu livro, e não se sabe se plantou alguma árvore. Também nunca ganhou um Oscar, pelo menos quando foi indicada várias vezes. A Academia com sua mania de tardia "mea culpa", deu a estatueta especial em 1954, celebrando o conjunto de sua obra. A atriz desdenhou a premiação, não compareceu à cerimônia. Já estava reclusa com seu cigarro no gigantesco apartamento da rua 52, em East Side, Nova York, onde faleceu aos 84 anos, de pneumonia.
Hoje ela faria 112 anos de solidão.

o brado retumbante

foto Pedro Ventura
Logo após o comovente monólogo do ator Matheus Nachtergaele na abertura do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, sexta-feira passada, cobrindo-se de terra vermelha e evocando os trabalhadores candangos que construíram e povoaram a cidade, o seu grito "Fora Temer!" em alto e bom som, reverbera em toda a plateia todas as noites, todas as sessões, todas as vozes.

domingo, 17 de setembro de 2017

o poder das imagens

Exímio leitor de imagens, o fotógrafo e professor Miguel Freire, dirige a atenção no livro Fotografia Getuliana para a produção foto-cinematográfica brasileira do período do Estado Novo, identificando em seus produtos traços que, no mínimo, apontam para uma vontade de aproximar-se do tratamento estético conferido a peças de propaganda política, na Alemanha do 3º Reich.
O livro foca o papel das imagens na composição da retórica do poder, isto é, na construção de suas narrativas, por extensão enfocando também ao papel da arte na sociedade.
O exame rigoroso das fontes primárias, aliado ao vasto conhecimento teórico e prático do campo da fotografia que Miguel Freire acumulou ao longo de sua trajetória, faz de Fotografia Getuliana uma leitura indispensável para os estudiosos da história da fotografia e do jornalismo cinematográfico brasileiros. Sua importância, entretanto, ultrapassa tais limites disciplinares, contribuindo para o aprofundamento da reflexão sobre o próprio estatuto da imagem na modernidade e sobre as relações entre vanguardas, tecnologia e política.
- Vera Lúcia Follain de Figueiredo

Lançamento hoje, às 19h, no cine Brasília, dentro da programação do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.

sábado, 16 de setembro de 2017

50 quadros por segundo

Depois da abertura ontem para convidados, com a homenagem a Nelson Pereira dos Santos, o comovente monólogo de Matheus Nachtergaele ("50 anos são outros 500!"), anúncio da construção do pólo Parque Audiovisual de Brasília, exibição do longa Não devore meu coração, de Felipe Bragança, começam hoje as mostras competitivas do 50º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o mais antigo do país.
Na tela do tradicional cine Brasília, filmes inéditos e retrospectivas, equipes enormes de curtas no palco, diretor que não veio e é representado pela montadora, discursos e agradecimentos intermináveis, discursos rapidinhos "espero-que-gostem-do-filme", reclamações, polêmicas, aplausos, vaias a políticos presentes, “fora Temer!” em alto e bom som, atores de filmes que estão em novelas e os cinegrafistas das TVs correndo atrás junto com os caçadores de selfies com seus iPhones e smartphones, plateia de todos as tribos, das roupinhas de grifes às tatuagens descoladas, muvucas laterais nas tendas high tech cheias de anunciantes, cervejas long neck e sanduíches com preços abusivos, pegações, ficantes, casais separados que se reencontram, gente linda, gente chata, desesperados atrás de convites pra festas com DJs da hora, entra-e-sai no hall do hotel, convidados exibindo credencial como se fosse medalha, convidado reclamando que não recebeu credencial, salão do café da manhã lotado com cineastas consagrados e curtas-metragistas desconhecidos estreando o seu décimo filme digital, oficinas com quem sabe ministrar oficinas, workshop que é a mesma coisa de oficina ministrado por quem não sabe nem de uma coisa nem de outra, perfomances sem-ver-nem-pra-quê, debates que começam atrasados porque os participantes ainda estão no café, homenageados sem nenhum motivo, homenageados tardiamente, premiações injustas, premiações certíssimas...
O Festival de Brasília é maravilhosamente histórico e histérico.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

lugar bonito

foto Bob Wolfeson
"Na minha memória - tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos."

De tantos fragmentos que Caio Fernando Abreu escreveu em sua vasta literatura, esse acima me toca pela concisão poética e pela lucidez e racionalidade ao mesmo tempo.

O autor gaúcho, que escreveu livros de contos, novelas, romances, peças de teatro, traduções (é dele a versão do clássico A Arte da Guerra, de Sun Tzu), tinha exatamente esse laconismo e exatidão na escrita, sem necessariamente ser minimalista. Usava as palavras no espaço certo, sem precisar se estender em sinônimos para total compreensão.

Viveu em período brabo de ditadura militar, foi um dos primeiros a escrever abertamente sobre sexo numa visão dramática, e assumiu sem rodeios sua homossexualidade. Hoje quando faria 69 anos, com certeza estaria com o coração marcado, congestionado de indignação ao ver as portas do Santander Cultural de sua Porto Alegre cerradas pelo obscurantismo em pleno século 21, censurando a exposição Queermuseu – Cartografias da Diferença na Arte Brasileira.

O escritor se foi com apenas 47 e ocupa um ocupa um lugar bonito em nossa lembrança, na literatura brasileira. Onde estiver.

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

outro 11 de setembro

Hoje , 45 anos do assassinato de Salvador Allende, no Palácio de La Moneda cercado e bombardeado pelas tropas do fascista Augusto Pinochet, com apoio total do governo norte-americano, sob os aplausos de Nixon.
A data é um marco no terrorismo de estado.

obscurantismo não Queermuseu