terça-feira, 31 de julho de 2018

o escritor Sam Shepard

“Eu nunca quis ser uma estrela de cinema, porque acaba com a privacidade. Eu sou um escritor, preciso de privacidade.”
O ator e diretor Sam Shepard nunca se sentiu muito à vontade como um galã que Hollywood tentou fazê-lo. Seu trabalho em quase cinquenta filmes revelou muito mais um grande intérprete do que um astro.
E foi como escritor de contos, ensaios, poemas, e dramaturgo com mais de 44 peças, que sempre se dizia um criador, um artista que mergulhava com intensidade nas questões do ser humano com sua angústia e esperança. O Prêmio Pulitzer de Teatro em 1979 por Buried Child, foi um justo reconhecimento como um dos maiores autores de sua geração. Sam retrata na peça a desaceleração econômica rural dos anos 70 e a ruptura das estruturas e valores familiares tradicionais.
A mesma fragmentação da família em um contexto de desilusão com a mitologia do sonho americano, encontra-se na escrita quase minimalista dos roteiros de sete filmes, com destaque para quatro obras impecáveis: Zabriskie Point, de Michelangelo Antonioni, Paris, Texas e Estrela solitária, (Don't come knockin), de Wim Wenders, Louco de amor (Fool of love), de Robert Altman.
Foi na privacidade de sua casa em Midway que Sam Shepard, aos 73 anos, não resistiu às complicações de uma doença degenerativa em julho do ano passado.
Acima,Shepard em uma cena da série para TV Bloodline, 2015. Foto ©Saeed Ayani,

segunda-feira, 30 de julho de 2018

fotografia alucinada

Em 1975 Januário Garcia era cinegrafista e começou a estagiar como assistente no estúdio de Georges Racz, renomado fotógrafo de origem húngara, naturalizado brasileiro nos anos 50, quando a família veio para cá fugida da Segunda Guerra.
Atuando como freelancer no fotojornalismo, Januário desde os anos 70 participa do movimento negro, e mantém o Documenta Brasileira de Matrizes Africanas, importante arquivo sobre a presença da população negra no país.
Além dessa significativa dedicação, é autor de várias fotos de discos clássicos da nossa música, Chico Buarque, Caetano, Raul Seixas, Lecy Brandão, Edu Lobo, Fagner...
É dele a belíssima foto da capa de Urubu, que Tom Jobim lançou em 1976. E com a repercussão desse trabalho Januário foi convidado para fotografar um rapaz latino americano, Belchior, que estava gravando o seu segundo LP, Alucinação.
No encontro dos dois na Polygram, saíram para conversar sobre a ideia da capa, que tipo foto o cantor imaginava etc. E foi logo ali pelos corredores e numa sala, ao ver e ouvir Belchior cantar a música-título do disco, que Januário entrou no clima da letra e começou a fotografar.
A foto escolhida na folha de contato foi depois trabalhada na saturação colorida por Aldo Luiz e Nilo de Paula, da direção de arte e layout. Alucinação é um álbum antológico em tudo.
15 meses hoje que Belchior não morreu.

a palo seco

15 meses tocando sem parar na parede da memória...

solidões

"Eu tenho medo de abrir a porta / que dá pro sertão da minha solidão..."
- Belchior em Pequeno mapa do tempo, 1977


15 meses hoje que Belchior partiu para outros sertões...
Na foto acima o cineasta Abbas Kiarostami na locação do sertão iraniano de Gosto de cereja (T’am e guilass), 1997.

se você vier me perguntar...

Um homem percorre de um lugar a outro, com sua bagagem à mão. E ao completar a sua travessia, se despoja dessa bagagem, plena de referências históricas sobre o seu pensamento e sua ação na inserção social, para reiniciar sua trajetória, agora já despida de resquícios das convicções do passado. Percebe-se pela exposição acintosa desse legado intelectual que seu conhecimento transcende o ardor das paixões e requer a experiência da apurada e impiedosa razão.
Assim o ator e diretor cearense Ricardo Guilherme escreveu o solo De olhos abertos lhe direi, a partir dos versos das canções do conterrâneo Belchior. O espetáculo estreou em Fortaleza, em 2016, por ocasião dos 70 anos de nascimento do compositor há tempo muito tempo longe de casa.
A criativa e comovente homenagem de Ricardo, numa entrega total em palco, como um canto torto em nosso alma, comprova a atualidade do pensamento lúcido e visionário do compositor que não morreu há 15 meses.

sábado, 28 de julho de 2018

sonhando com Eva

A bela Eva Green ganhou projeção em seu primeiro filme, Os sonhadores (The dreamers/Innocents), de Bernardo Betolucci, 2003. A francesa de olhos verdes hipnóticos, filha da também atriz Marlène Jorbet, traz um talento raro, comprovado em sua atuação como a intrigante e sensual Isabelle, a jovem envolvida na trama ambientada durante revolução estudantil, numa Paris agitada de 1968, e na relação com americano Mattews. Ficou na memória a sequência dos dois e o irmão gêmeo dela, nus na banheira vitoriana de um apartamento.
O filme de Bertolucci, adaptado de um romance do escocês Gilbert Adair, escrito em 1988, não somente capta o espírito libertário dos anos 60, como homenageia o próprio cinema, colocando seus personagens como cinéfilos, analogicamente emaranhados em uma série de jogos psicológicos e sexuais envolvendo temáticas da sétima arte.
No clipe acima, do bluesman norte-americano JT Coldfire, a atriz muito bem reverenciada na canção She's crazy, do álbum Crazy sun, 2008.
"I'm just crazy about that woman..."

sexta-feira, 27 de julho de 2018

sol e lua

O lado solar de Alain Delon escondido no lado lunar de Monica Vitti no filme O eclipse (L'eclisse), 1962, de Michelangelo Antonioni.

acossados

foto Raymond Cauchetier
Belmondo e Seberg em uma cena de A bout de souffle, de Godard, filmada no Hôtel de Suède, Quai Saint Michel, Paris, 1959.
Três Jeans sem fôlego.

sex 'n' jazz

Gare Du Nord é talvez a mais conhecida banda desconhecida holandesa. Criada em 2001, mistura jazz, blues e soul numa roupagem do que se denominou lounge, um gênero que por sua harmonia tem muito do swing da musicalidade dos anos 50 e 60.
Lançaram quatro bons discos. Fizeram um bela homenagem a Marvin Gayes e Miles Davis no álbum "Sex 'n jazz", lançado em 2007. A interpretação da vocalista Dorona Alberti é perfeita. Além de irresistivelmente sensual.

quinta-feira, 26 de julho de 2018

o iluminado Stanley Kubrick

"Se algo pode ser escrito, ou pensado, pode ser filmado."
Hoje, 90 anos de nascimento do gênio que filmou o que pensou e escreveu.

esguia

foto Christian Coigny, 2001
"Tua graça caminha pela casa.
Moves-te blindada em abstrações, como um T."
Versos iniciais do poema Conjugação do ausente, de Vinicius de Moraes, escrito em 1954, publicado no livro Antologia poética, 1960.

quarta-feira, 25 de julho de 2018

repouso

foto M. Plachy, 2008
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

- Versos finais de Ternura, de Vinicius de Moraes, publicado no livro Novos poemas, 1938.

o primo de todos os tempos

Publicado em 1878, o romance O primo Basílio, de Eça de Queirós, é uma necessária análise da família burguesa urbana que habitava o século XIX, focando os ridículos de uma classe média alta.
O personagem-título é uma espécie de dândi conquistador e irresponsável, pedante, cínico, mantendo o estilo de vida aristocrático, decadente.

A precisão cirúrgica com que o escritor disseca os costumes, absurdos e contradições dos personagens da sociedade lisboeta, revela que o universo mesquinho e protótipo de futilidade, reverbera-se muito além da geografia e do tempo.
Nunca um romance teve seus aplicativos tão atualizados ao olharmos em volta o mundo em que vivemos, ladeira abaixo de hipocrisias.
25 de julho, Dia do Escritor. Dia de reler Eça de Queirós.

terça-feira, 24 de julho de 2018

a cumplicidade dos filmes

foto Javier Blasco, 2016
"Os filmes não existem só ali, na tela, no instante de sua projeção. Eles se mesclam às nossas vidas, influem na nossa maneira de ver o mundo, consolidam afetos, estreitam laços, tecem cumplicidades.
Um filme não é um rio que corre com regularidade. Pode haver quedas, cascatas, correntezas."
Jean-Claude Carriere, roteirista, em seu livro A linguagem secreta do cinema,1994.

segunda-feira, 23 de julho de 2018

black to breu

O compositor e cantor Péricles Cavalcanti e sua ótima e originalíssima versão de Back to black, de Amy Winehouse, apresentada no show Leve & Solto, SESC Pompeia, 2016, com o auxilio luxuoso de Marcelo Monteiro, sax, e Pipo Pegoraro, baixo e MPC.
Sete anos hoje que Amy "died a hundred times"...

cause I've forgotten all of young love1s joy...*

Amy Winehouse aos 20 anos. Sete anos hoje sem esquecê-la.

* verso de Stronger than me, gravada em seu primeiro disco, Amy, 2003

transversal do tempo

Amy bebê e sua mãe, Janis Winehouse.
Amy Winehouse e sua mãe, Janis.

O tempo atravessando no coração de cada uma.
Sete anos hoje sem uma na saudade de outra.

luzes de Siegbert

"Um índio preservado em pleno corpo físico / em todo sólido, todo gás e todo líquido / em átomos, palavras, alma, cor / em gesto, em cheiro, em sombra, em luz, em som magnífico ...” 
- Caetano Veloso em Um índio, gravada no disco Bicho, 1977.

Abaixo, trabalho do artista plástico cearense Siegbert Franklin, criado no começo dos anos 80, para a exposição Luzes do Equador, em Fortaleza.
Em 1999, a exposição voltou em releitura ampliada na Galeria de Arte da Unicamp, SP, com imagens resgatadas e filtradas com recurso de computador.
Além de brilhar na pintura, Siegbert foi compositor, integrante da lendária banda Perfume Azul, ao lado de Lucio Ricardo, Ronald de Carvalho, Milton Rodrigues, Nélio... e juntamente com Mona Gadelha fazem parte da história do rock e do blues e canções da cena musical cearense.
Sete anos hoje que as luzes de Siegbert brilham no universo...

curso de roteiro


domingo, 22 de julho de 2018



"Mas há milhões desses seres / que se disfarçam tão bem / que ninguém pergunta / de onde essa gente vem / são jardineiros, guardas-noturnos, casais / são passageiros, bombeiros e babás..."

Chico Buarque em "Brejo da Cruz", gravada no disco de 1984.
Abaixo, Operários, um dos mais importantes quadros da modernista Tarsila do Amaral. A obra é um raro exemplo de reunião da etnia brasileira.
Pintado em 1933, faz parte do acervo do Palácio Boa Vista, em Campos do Jordão, SP, residência oficial de inverno do governador. Pois é.

Gil

“Dos tantos que me preferem calado / poucos deles falam em meu favor / a maior parte adere ao coro irado / dos que me ferem com ódio e terror / já para os que me querem mais ativo / mais solidário com o sofrer do pobre / espero que minha alma seja nobre / o suficiente enquanto eu estiver vivo”
- Trecho de Ok, ok, ok, ok, ok, ok”, canção de Gilberto Gil, que abre o disco de composições inéditas, com lançamento previsto para agosto próximo. O single está disponível nas plataformas digitais.

O novo álbum do cantor baiano, que tem faixas em parcerias com seu filho Bem Gil e o amigo Jorge Bastos Moreno, jornalista falecido ano passado, traz nas letras o que o autor chama de “papo reto” sobre a vil situação em que o país vive.
Com quase dez discos lançados nesses últimos anos, entre álbuns de releituras, participações e ao vivo, Gil não apresentava um com músicas inéditas desde 2010, quando lançou Fé na festa, dois anos após deixar o Ministério da Cultura do governo Lula.

postal de amor

"Eu todo cheiroso a Lancaster e você a Chanel..."
- Reginaldo Rossi, em A raposa e as uvas, gravada no disco homônimo, 1982
Postal francês dos anos 20. Foto de autor desconhecido.

quinta-feira, 19 de julho de 2018

o real e o poético

O holandês Joris Ivens foi um dos maiores documentaristas da história do cinema, um dos expoentes do gênero. Por negar os traços e composição de uma cinematografia industrial, seus filmes eram vistos como experimentais, mas sem a alcunha de um cinema meramente empírico, e sim inventivo, autêntico, dinâmico, que buscava na aproximação orgânica com os temas a construção de uma linguagem, a interação do que podemos dizer do que são sujeito e objeto da arte cinematográfica, com um realismo curiosamente captado de forma minimalista.
Falecido em 1989, aos 90, a característica em seus filmes é a estrutura poética das imagens, integrando os elementos da natureza ao ser humano, e, principalmente, o homem em seu trabalho, registrando e relacionando as atividades múltiplas e singulares de várias regiões do mundo.
A água era uma fascinação em Joris Ivens, que ficou muito bem definida logo seu segundo curta-metragem, Chuva (Regen), de 1929. Nuvens, pássaros, árvores, um homem na bicicleta, outros que atravessam a rua, um bonde que passa, guarda-chuva, o vento, o céu... e a chuva que molha como se abraçasse a alma de todos e de tudo.
O cinema de Joris Ivens corre como um rio.

respeita Januário

Em 1975 Januário Garcia era cinegrafista e começou a estagiar como assistente no estúdio de Georges Racz, renomado fotógrafo de origem húngara, naturalizado brasileiro nos anos 50, quando a família veio para cá fugida da Segunda Guerra.
Atuando como freelancer no fotojornalismo, Januário desde os anos 70 participa do movimento negro, e mantém o Documenta Brasileira de Matrizes Africanas, importante arquivo sobre a presença da população negra no país.
Além dessa significativa dedicação, Januário é autor de várias fotos de discos clássicos da nossa música, Chico Buarque, Caetano, Raul Seixas, Lecy Brandão, Edu Lobo, Fagner...
É dele a belíssima foto da capa de Urubu, que Tom Jobim lançou em 1976. E com a repercussão desse trabalho Januário foi convidado para fotografar um rapaz latino americano, Belchior, que estava gravando o seu segundo LP, Alucinação.
No encontro dos dois na Polygram, saíram para conversar sobre a ideia da capa, que tipo foto o cantor imaginava etc. E foi logo ali pelos corredores e numa sala, ao ver e ouvir Belchior cantar a música-título do disco, que Januário entrou no clima da letra e começou a fotografar.
A foto escolhida na folha de contato foi depois trabalhada na saturação colorida por Aldo Luiz e Nilo de Paula, da direção de arte e layout.
Alucinação é um álbum antológico em tudo.

quarta-feira, 18 de julho de 2018

centenários

foto © Greg Bartley
MANDELA LÁ 
Após mais de quatro décadas de regime segregacionista do apartheid (1948 a 1994), a África do Sul elegeu pela primeira vez um governante negro.

Nelson Mandela, libertado em 1989, após 28 anos de prisão, tornou-se o Pai da Pátria, como foi ovacionado por uma multidão. Faleceu em 2003
Hoje 100 anos de seu nascimento.

foto © Marcos D'Paula
DANS MON ÎLE

“Quem não sentiu o suingue de Henri Salvador?”, perguntava Maria Bethania, em "Reconvexo", faixa que abre o disco "Memória da pele", de 1989. A música foi composta pelo mano Caetano, um admirador desse grande músico francês, de quem gravou, em 1981, "Dans mon île", que está no vinilzão "Outras palavras".

Corre a lenda que Tom Jobim teria se inspirado em "Dans mon île" para criar a Bossa Nova. O fato é que a canção está no documentário "Europa de noite" (Europa di notte), dirigido pelo italiano Alessandro Blasetti, em 1958, e muitos músicos brasileiros, além de Jobim, ficaram fascinados com a canção daquele francês de ascendência espanhola e indígena.
Henri Salvador também faria hoje 100 anos, mas se mandou para sua ilha em 2008.

fora do ar

A Rede Tupi foi a primeira emissora de televisão do Brasil, da América Latina e a quarta do mundo, criada em 1950, por Assis Chateaubriand.
Essa logomarca está na memória afetiva de muita gente.
Há 38 anos que a vinheta com o simpático indiozinho tupiniquim saiu definitivamente das tribos urbanas.

viva João Ubaldo brasileiro!

No silêncio de uma madrugada em julho de 2014, o escritor e jornalista João Ubaldo Ribeiro se mandou para casa dos budas ditosos - fazendo aqui uma referência e reverência ao seu ótimo livro publicado em 1999.
Ubaldo tinha 73 anos. Sua marcante carreira literária nos deixou um legado de quase trinta livros entre romances, contos, crônicas, ensaios, e uma pouco divulgada literatura infanto-juvenil, como o interessante Vida e paixão de Pandonar, o cruel, de 1983.
Viva o povo brasileiro! Viva João Ubaldo!

tire o seu sorriso do caminho

Willie é um desocupado, mora num pequeno apartamento em Nova York. Um dia recebe a visita inesperada de uma prima, vinda da Hungria. Eles não se dão muito bem e, assolados pelo tédio, resolvem ir visitar uma tia deles em Cleveland.
Dizendo assim, parece banal, quase um fiapo de roteiro. Mas não é: Estranhos no paraíso (Stranger than Paradise), 1984, é um dos melhores filmes de Jim Jarmusch, cinema na contramão de "roliúde".
Os longos planos, o minimalismo dos gestos, o silêncio da desesperança, a atmosfera cool, os pontos de desencontros... a narrativa faz de Jarmusch um Antonioni pós-beatnick.

terça-feira, 17 de julho de 2018

a voz de Billie

O que particulariza o estilo de Billie Holiday é a essência de sua interpretação. Sua conturbada vida parece desfolhar-se em cada canção, não somente pelas letras das músicas, mas pela maneira como essas melodias saem da sua alma, são extraídas lá do mais íntimo do coração.
Quando nasceu, seu pai, um tocador de banjo, tinha apenas quinze anos de idade e sua mãe não mais do que treze . O pai abandonou a família e a mãe deixava a filha bebê com familiares. Negra, pobre, desamparada, Billie amargou infortúnios logo cedo. Foi violentada aos dez anos de idade por um vizinho. Internou-se em casa de correção, lavou chão de prostíbulo, e virou prostituta aos catorze anos, em Nova York. Isso nos anos 20. Na década seguinte começou como cantora, quando foi descoberta por um pianista em um bar do Harlem. Sua voz conquistou nomes como Benny Goodman, Count Basie, Artie Shaw, Duke Ellington e Louis Armstrong. Fez concertos com todos eles.
Nos anos 40, Billie entrou numa de ruim pra pior. Passando por vários momentos de depressão, afundou-se no álcool e drogas pesadas. Um caminho sem volta. Morreu com apenas 44 anos de idade.
Muitas dessas revelações corajosas, sem autocomiseração, estão na autobiografia Lady sings the blues, publicada pouco antes de sua morte, que hoje completa 59 anos.
Acima, a cantora fotografada por William P. Gottieb, no clube de jazz Downbeat, Nova York, 1947

I'm still alive

foto © Diego Tuson, Jazz Festival, Valência, Espanha, 2008
I'm still alive and well / I'm still alive and well every now / and then its kind of hard / to tell I'm still alive and well..."
Esses versos são de Still Alive And Well, uma das canções mais conhecidas do guitarrista Johnny Winter, músico que combinou o blues de estilo clássico com o funk do Texas, misturava numa boa o country blues primal no estilo de Robert Johnson e guitarras agressivas.
Winter compôs no começo dos anos 70, quando conseguiu sair de umas barras bem pesadas, que levaram seus companheiros de palco de Woodstock.
Faleceu há quatro anos, aos 44, na madrugada de 17 de julho, num quarto de hotel em Zurique, Suiça, durante uma turnê.
"I'm still alive and well". Sua música o eterniza no coração de quem lhe escuta.

segunda-feira, 16 de julho de 2018

sambista de valor

"Não tenho veia poética, mas canto com muita tática,
não faço questão de métrica, mas não dispenso a gramática"


Trecho com muita poética de O que vier eu traço, samba de 1926, de Alvaiade, batizado Osvaldo dos Santos, um dos maiores compositores brasileiros, carioca da gema, sambista de primeira ligado a Portela, tocava vários instrumentos, do cavaquinho a percussão.
A composição, em parceria com Zé Maria, ficou célebre com a ótima interpretação de chorinho apressado de Ademilde Fonseca, em gravação nos anos 40. As novas gerações conhecem a versão em “beat acelerado”, também admirável, de Baby ainda Consuelo, em disco que tem o título da música, de 1978. E, entre outras interpretações, a turma mais recente, das rodas de bamba e plataformais digitais, ouviu na simpática voz da sambista Teresa Cristina.
Clássicos como esse dignificam nossa rica música brasileira. E por trás de tanta beleza, métrica e gramática, muitos de nossos artistas do passado sobreviveram traçando com muita tática o que viesse de trabalho. Alfaiade segurava a onda e o tamborim do dia a dia, com um salário de tipógrafo. Como bem cantou Paulinho da Viola em 14 anos, "sambista não tem valor nesta terra de doutor", quando faleceu em 1981, aos 68 anos, Alfaiade passava dificuldades, tinha uma aposentadoria mixuruca. Seu corpo permaneceu dois dias no IML antes de ser reconhecido. Seu nome continua pouquíssimo reconhecido.

a cantora do amor demais

"Rua Nascimento Silva, cento e sete / você ensinando pra Elizete / as canções de canção do amor demais..."
Começa Vinicius de Moraes em Carta ao Tom, composta em 1974, em parceria com Toquinho, "endereçada" ao seu amigo Jobim.
Relembrando uma Ipanema que "era só felicidade", que "era como se o amor doesse em paz", com "esse Rio de amor que se perdeu", como continua a letra, a musa citada é a grande diva Elizete Cardoso, a voz enluarada do nosso samba-canção, que hoje faria 97 anos.
Elizete faleceu em 1990. Passou três anos se tratando de um câncer no estômago, diagnosticado em uma turnê no Japão, quando se sentiu mal no hotel.
Mesmo doente, a cantora comparecia aos seus shows, muitas vezes não conseguindo ir até o final, de tão debilitada. O público se emocionava e aplaudia a beleza daquela mulher e seu canto de amor demais.

a cantora do amor demais

"Rua Nascimento Silva, cento e sete / você ensinando pra Elizete / as canções de canção do amor demais..."
Começa Vinicius de Moraes em Carta ao Tom, composta em 1974, em parceria com Toquinho, "endereçada" ao seu amigo Jobim.
Relembrando uma Ipanema que "era só felicidade", que "era como se o amor doesse em paz", com "esse Rio de amor que se perdeu", como continua a letra, a musa citada é a grande diva Elizete Cardoso, a voz enluarada do nosso samba-canção, que hoje faria 97 anos.
Elizete faleceu em 1990. Passou três anos se tratando de um câncer no estômago, diagnosticado em uma turnê no Japão, quando se sentiu mal no hotel.
Mesmo doente, a cantora comparecia aos seus shows, muitas vezes não conseguindo ir até o final, de tão debilitada. O público se emocionava e aplaudia a beleza daquela mulher e seu canto de amor demais.

all you need is love




sexta-feira, 13 de julho de 2018

assim seja o dia do rock

Padrasto Nosso
Elvis Presley que estais no céu
muito escutado seja Bill Haley
venha a nós o Chuck Berry
seja feito som à vontade
assim como Hendrix, Sex Pistols e Rolling Stones.
Rock and roll que a cada dia melhora
escutai sempre Clapton e Neil Young
assim como Pink Floyd e David Bowie
Muddy Waters e The Monkeys.
E não nos deixar cair o volume do som
quando ouvirdes Black Sabath
mas livrai-nos do axé.
Amém!

Pedro Saulo de Souza, poeta goiano-brasiliense, em seu livro Turnê de sentidos, 2010

Keith rock



Em 13 de julho de 1985, Bob Geldof, ex-vocalista da banda Boomtown Rats, organizou o show Live Aid, que ocorria simultaneamente em Londres e Filadélfia, reunindo vários nomes famosos não somente do rock, como Led Zeppelin, The Who, Rolling Stones, Black Sabbath, também do blues, como B. B. King, e figuras emblemáticas da contestação política nos anos 60, como Joan Baez.
O objetivo era chamar a atenção para a miséria no continente africano, a partir da Etiópia. Muita música, discursos engajados, pressão em cima dos governos ricos para perdoar dívida externa dos países pobres. Se a intenção deu resultados práticos ao longo desses anos, é discutível. Pelo menos, por ocasião do show, e uma segunda edição em 2005, angariou fundos para a causa.
Desde então se comemora neste cabalístico 13, o Dia Mundial do Rock. Gosto da postura de Geldof, diz o que pensa e bate de frente com poderosos. Mas minha homenagem hoje vai para meu roqueiro preferido, Keith Richards: o comportamento, a entrega, o conceito, os riffs, o junkie, a alma e essência do rock and roll.

duas mulheres do rock

foto © Maira Sales
Mona Gadelha, cantora, compositora, poeta, jornalista. A história do rock, do blues e das canções cearenses não passa por ela: está nela. Nos anos 70, 80, as emoções perigosas de quem fazia música na contramão dos bons costumes do lugar, tinham em Mona a postura e o comportamento feminino de quem pinta com talento e ousadia a cor do sonho que a música nos traz.
Patti Smith, cantora, compositora, poeta, escritora. Com seu disco de estreia, Horses, 1975, que Mona segura nas mãos e no coração, deu largada ao movimento punk com o canto feminino, a postura da mulher no comportamento do rock, o intelecto das canções nos movimentos políticos. Suas letras contestam, discordam, avançam na via contrária das setas estabelecidas.
Mona Smith, Patti Gadelha: tudo a ver, tudo a cantar, tudo a ouvir hoje e todos dias de rock.

rock "perfumado"

Ronald de Carvalho (baixo), Milton Rodrigues, o Mocó (bateria), Lucio Ricardo (voz e loucuras), Siegbert Franklin (guitarra) Nélio Perfume (guitarra): eles formavam o Perfume Azul, a seminal banda de rock de Fortaleza. Som, pauleira, ousadia, nos anos nada dourados, 1976 e 1977.
Não gravaram LP, não registraram shows, mas estão cristalizados na lembrança de muitos que, como eu, não perdiam uma apresentação. Em cada tela da memória uma história.

quinta-feira, 12 de julho de 2018

poemas no sereno

74 poemas sem título compõem O livro das perguntas, uma obra singular no universo deslumbrante de Pablo Neruda, publicado em 1974.
Hoje 114 anos de nascimento do poeta.

Deforma trabalhista

Um ano hoje que o Senado aprovou a 'deforma' trabalhista.
Como dizia Millor Fernandes, o Brasil tem um longo passado pela frente.

a moça que passa de minissaia

Flagrante urbano na Av. Rio Branco, Rio de Janeiro, 1910, foto de Marc Ferrez, Acervo IMS.
Ferrez, falecido em 1923, aos 80 anos, foi o completo cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Não somente o Rio, todas as regiões do Brasil fazem parte da sua valiosa obra iconográfica.

quarta-feira, 11 de julho de 2018

idade da memória

Na lista nem tão extensa de livros fundamentais para a memória e a valorização da terceira idade, um se destaca para a compreensão, alerta e recognição do idoso, Memória e Sociedade - Lembranças de Velhos, 1979, um volumoso ensaio polifônico sobre o tempo e suas relações com a vida dos imigrantes e operários de São Paulo, de Ecléa Bosi, psicóloga, escritora e professora emérita da USP.
No começo do anos 90, Ecléa foi a criadora e entusiasta do programa Universidade Aberta à Terceira Idade, na USP, coordenado por ela até 2016. A iniciativa pioneira coloca o idoso na universidade sem vestibular, sem necessariamente incluí-lo no percurso didático de um aluno em graduação, mas cursando as disciplinas escolhidas com os demais. A professora argumentava que os jovens sentarão ao lado de velhos pedreiros, domésticas, não como servidores, mas como companheiros de aprendizados.
Ecléa faleceu em julho do ano passado, tinha 81 anos de memória em sociedade com o presente e o futuro.

retumbante coração


Rodger Rogério, sabemos escrever teu nome na ponta fina do lápis, mas vamos repetir o que tu já sabes... parafraseando sua canção com Clodo Ferreira.

Link da matéria do jornal O Povo sobre projeto Museu Orgânico, que inaugura hoje, em Fortaleza, com a homenagem ao cantor, compositor, ator, físico, múltiplo ser querido Rodger.

terça-feira, 10 de julho de 2018

já que sou brasileiro

A música não é dele, foi composta por sua esposa Almira Castilho e seu amigo Gordurinha, mas Chiclete com banana ficou como uma espécie de marca registrada de Jackson do Pandeiro.
O simpático e franzino paraibano já fazia sucesso no rádio e em shows, nas décadas de 40 e 50, com Sebastiana, A mulher do Aníbal, O canto da ema, e outros forrós aloprados, mas foi quando começou a mascar chiclete com banana que estourou definitivamente, e, pode-se dizer, criando de uma forma tosca e brincalhona o primeiro samba-rock.

Gravada em 1959, Chiclete com banana expressa em letra bem humorada e irônica a necessidade de manter a pureza da nossa música, sem influência de ritmos estrangeiros, mais exatamente da terra do Tio Sam, que só vai botar o bebop em nosso samba "quando ele tocar o tamborim / quando ele pegar no pandeiro e no zabumba / quando ele aprender que o samba não é rumba". Eles têm chiclete, e nós, yes! temos banana, que engorda e faz crescer. Então, cante lá, que eu canto cá.
À época da composição, o rock'n'roll reverberava pela América latina e Ocidente, refletindo não somente um gênero, também como comportamento de uma geração pós-Segunda Guerra, que veio explodir como um caleidoscópio cultural na década 60. As influências eram inevitáveis. Tanto é que o próprio Jackson do Pandeiro, batizado José Gomes Filho, logo no início da carreira adotou o "Jack" em homenagem a um ator de faroeste que ele adorava, Jack Perrin. O acréscimo do "son" foi ideia de um produtor, o Pandeiro, por ser o instrumento que ele começou a tocar, presente de sua mãe.
Alceu Valença costuma dizer que Luiz Gonzaga é o Pelé da nossa música, e Jackson, o Garrincha. E faz sentido essa analogia: os dribles e o domínio que o paraibano tem com os ritmos, ao longo de mais de trinta discos, é impressionante. Ele vai do forró ao samba, passando com a mesma verve de interpretação e personalidade, pelo baião, xote, xaxado, coco, arrasta-pé, quadrilha, marcha, frevo... Não à toa, ficou conhecido como "O Rei do Ritmo".
Em 1982, após um show em Brasília, Jackson sentiu-se mal no momento do embarque no aeroporto. Era diabético. Passou uma semana internado, faleceu em decorrência de embolia cerebral, no dia 10 de julho, em um hospital na W3 Sul.
E nosso samba ficou assim: "tururururururi bop-bebop-bebop / tururururururi bop-bebop-bebop /tururururururi bop-bebop-bebop..."

a última hora de Elvira

Na manhã do dia 10 de julho do ano passado, uma segunda-feira, faleceu, em São Paulo, uma das maiores escritoras da literatura contemporânea, Elvira Vigna, aos 69 anos. Reconhecida e premiada no meio literário, é autora de romances, contos, ensaios, livros infantis, além de jornalista, tradutora, artista plástica e roteirista de cinema.
Estreou aos 41 anos, com o belíssimo e oportuno Sete anos e um dia, de 1988, ambientado na época da abertura política. Uma obra-prima como narrativa e preciosidade contextual. Seu último livro, Como se estivéssemos em palimpsesto de putas, Prêmio APCA 2016 de Melhor Romance, é outro exemplo de vigor na estrutura formal descritiva.

Em 2012, quando foi diagnosticada com câncer de mama, recolheu-se e dedicou-se a escrever enquanto se tratava, publicando sete livros no Brasil e exterior.
Elvira, soube-se depois, preferiu manter em segredo sua luta contra a doença, por receio que não fosse mais convidada para eventos literários.
Seu legado é um testemunho, um relato do homem e seus conflitos e esperanças, inserido em interrogações do mundo moderno, da vida social e política. E soube muito bem descrever essas inquietações, como modestamente abre o primeiro parágrafo do seu último livro:
“Mas nessa hora que faço, vou contar uma história que não sei bem como é. Não vivi, não vi. Mal ouvi. Mas acho que foi assim mesmo.”

segunda-feira, 9 de julho de 2018

o cinema de Vinicius

O cinema é infinito - não se mede.
Não tem passado nem futuro. Cada
Imagem só existe interligada
À que a antecedeu e à que a sucede.

Trecho do poema Tríptico na morte de Sergei Mikhailovitch Eisenstein, de Vinícius de Moraes, 1948. Um apaixonado pelo cinema, pelas mulheres, pela poesia, pela vida. Não necessariamente nessa ordem.
Em 2015 foi relançado o ótimo e volumoso O cinema de meus olhos, originalmente de 1991, com textos que o poeta escreveu a partir da década de 40, quando serviu no Consulado do Brasil em Los Angeles, e conviveu com nomes famosos como Orson Welles.
Na foto, Vinicius em Ouro Preto, 1952, quando visitou, fotografou e filmou, com seus primos Humberto e José Franceschi, as cidades mineiras que compõem o roteiro do Aleijadinho, para a realização de um filme sobre a vida do escultor que lhe fora encomendado pelo diretor Alberto Cavalcanti. O projeto não foi concretizado.
38 anos hoje sem nosso poeta cineasta.