quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

versos que abraçam

foto Alex Meira
“São versos condensados de emoções, o sumo da vida aqui está à pássaro, poucas metáforas, pois os versos mais que mostram, afetuosíssimos enlaçam, abraçam, abertos com seus tons eleitos, seus afagos sonoros de delicadíssima altitude, acentuando de luz o coração... amplíssimo.“
- Carlos Emílio C. Lima, escritor, no prefácio do meu livro Poesia provisória, lançado no último dia 15, na Livraria Lamarca, Fortaleza, onde se encontra à venda.
Próximos lançamentos:
março, Sobral, Brasília
abril, São Paulo
maio, Rio de Janeiro

Acima, na noite de lançamento:

o compositor, cantor e arquiteto Fausto Nilo, autor do desenho da capa, o cantor e compositor Rodger Rogério, à minha esquerda, Carlos Emílio, o poeta e editor do livro Alan Mendonça, agachado, mas colado na altura do meu coração, o amigo Everthon Damasceno, que nos presenteou com camisetas alusivas à publicação.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

a casa de campo da rua ramalhete

Em 1972 Elis Regina lançou um dos seus melhores discos, Elis. Das 12 memoráveis faixas, estão lá pérolas do cancioneiro brasileiro: Águas de março, de Tom Jobim, Nada será como antes e Cais, de Milton Nascimento e Ronaldo Bastos, Atrás da porta, de Chico Buarque e Francis Hime, Mucuripe”, de Fagner e Belchior, e uma que fico na memória afetiva de muitas gerações, Casa de campo, de Zé Rodrix e do compositor mineiro da constelação do Clube da Esquina, Tavito.

A música vencera, um ano antes, o Festival da Canção de Juiz de Fora. Rodrix acabara de sair da banda Som Imaginário, criada de certa forma para acompanhar Milton Nascimento, e passou a ondular composições pelas montanhas de Minas, numa fusão com influências tropicalistas, um folk com pitadas de um regionalismo do sertão verde de Guimarães Rosa: muitos rocks rurais.
O timbre conceitual imprimido em Casa de campo deve-se muito a verve eclética de Tavito, compositor fundamentado na intuição, no que tem de mais campesino dentro do urbano, das esquinas, das serestas e serenatas. Tavito transitava sem comprometimentos e sem perder a autenticidade poética, das canções idílicas sobre lembranças de juventude, como a belíssima Rua Ramalhete, parceria com Ney Azambuja, gravada em seu primeiro álbum solo, 1979, ao jingle involuntário da Copa do Mundo de 1994, Coração verde e amarelo, com Aldir Blanc.
Tavito partiu hoje para outra casa de campo. Hospitalizado em São Paulo, tratava-se de um câncer no pescoço. Ele sabia dos limites do corpo e nada mais. Tinha 71 anos. Deixou muitos amigos, muitos discos, muitos livros, muitos carneiros e cabras pastando solenes em seu jardim, muito mais no coração de quem lhe eterniza com o bem querer.
Como ele dizia na canção, está agora “onde eu possa ficar do tamanho da paz.”

festa estranha

Woody Allen recusou-se a ir receber o Oscar em 1978, quando foi indicado e premiado como melhor filme e melhor diretor por Annie Hall, no Brasil Noivo neurótico, noiva nervosa. Repetiu o gesto - considerado um erro diplomático - em 1987, quando Hannah e suas irmãs (Hannah and her sisters) concorreu nas categorias de filme, direção, edição, direção de arte, ator coadjuvante e atriz coadjuvante, ganhando nestas duas últimas, respectivamente, Michael Caine e Dianne Wiest. O diretor novaiorquino preferiu tocar jazz em seu barzinho predileto.
Marlon Brando, em protesto pelo modo como os Estados Unidos discriminavam os índios nativos do país, não compareceu à cerimônia de entrega do Oscar, premiado por seu trabalho em O poderoso chefão (The Godfather), de Francis Coppola, em 1972. Enviou em seu lugar a atriz Sacheen Littlefeather, que subiu ao palco caracterizada de índia.
Glauber Rocha foi mais radical: em 1970, seu filme O dragão da maldade contra o santo guerreiro foi escolhido pelo Ministério da Cultura para representar o Brasil na categoria de filme de língua estrangeira. O cineasta baiano, com muita bravura temperada com dendê, declarou com sua vulcânica segurança que não tinha interesse em participar da seleção. O dragão da maldade da ditadura Médici que escalasse outra seleção pra frente Brasil.
Em 2006 o cineasta finlandês Aki Kaurismaki fez o mesmo: não permitiu que seu filme Luzes na escuridão (Laitakaupungin valot) fosse sequer indicado ao prêmio, em protesto veemente contra a política externa do bélico George W. Bush.
O cineasta brasileiro Murilo Salles tem uma opinião que vai de encontro a esses posicionamentos de recusa dos colegas: "Oscar não é merecimento - é indústria. Oscar é a maior propaganda grátis de Hollywood: tem ótimo custo-benefício. Os Estados Unidos dominam o mundo não à toa."
É uma festa invariavelmente careta, com suas apresentações pirotécnicas e ocas, com seus apresentadores com piadinhas sem graça, com suas estrelas irreconhecíveis em figurinos esquisitos, tudo celebrando um cinema previsível, acomodado, salvo raras exceções de um e outro filmes pretensamente ousados na categoria estrangeira, um e outro cineastas estrategicamente desobedientes aos ditames de uma cinematografia acadêmica e dominante.

veias do mundo

“Nos seus versos a poesia ganha uma amplitude e profundidade que perfura o globo e ganha o infinito... e depois retorna ao ser, perfurando a alma e empurrando um grito incrustado nas entranhas de uma garganta amordaçada pelas veias do mundo... Meu respeito e admiração pelos seus versos tão sinceros.”
- página Casulo da Poesia, Instagram
Poesia Provisória, Nirton Venancio 
Editora Radiadora, 2019

Próximos lançamentos:
março, Sobral, Brasília
abril, São Paulo 
maio, Rio de Janeiro

à venda:
Fortaleza,
Livraria Lamarca, Av. da Universidade, 2475, Benfica
Embaixada da Cachaça, rua João Brígido, 1245, Joaquim Távora


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

a porção de luz de Nirton Venancio em poesia

“Nirton Venancio é um dos profissionais da mídia com quem aprendi a ter a lucidez de avaliar os acontecimentos que a gente trabalhava, transportá-los ao impresso, com a grandeza da sua participação. Ele dividiu conosco algumas das matérias que fizemos, ele como repórter fotográfico de íntima percepção. E era mais do que isso; era um poeta.
Com ele, aprendi a ter a ciência de que, na calma e na tranquilidade do seu fazer jornalístico, a alma da notícia se incorporava na magia das imagens, Por isso, o envolvimento com a matéria a qual eu produzia me levava a mergulhar no âmago de suas fotos e tirar dali lições que os leitores saberiam absorver.
A imagem que ele fotografava era um componente importante ao texto que as páginas de O Povo abrigavam. Principalmente, porque as fotos do Nirton retratavam um misto de informação e poesia que se escondia por trás dos fatos mais simples. As suas imagens engrandeciam o nosso texto com um subliminar manto de poesia.
Pois esse lado poeta tem aflorado bastante na alma dessa grande alma que ele é. E, agora, sexta-feira, dia 15, uma porção dessa luz materializada em poemas será entregue por ele "aos amigos que sempre estiveram no ponto de vista do meu coração", como ele tão bem escreveu no convite do lançamento.
E ao enviar para mim um desses convites, um elo de orgulho preencheu-me a alma ao saber que, a bonomia de Nirton, me incluiu entre as pessoas de sua estima. O que é que eu queria mais?”
- Nonato Albuquerque, em sua página Gente De Mídia.

terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

sexta-feira!

15 de fevereiro, meu aniversário. Presenteando-me com o lançamento do meu livro Poesia Provisória e a presença dos amigos. Unindo o agradável ao agradável.
Todos convidados! Meu coração abraça vocês!

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

sexta que vem

 

uma hora me acho

Poema do meu livro Poesia Provisória, incluído no capítulo Explorar as Tardes.
Lançamento: Livraria Lamarca, Fortaleza
15 de fevereiro de 2019, 19h
Em março, Brasília
abril, São Paulo 
maio, Rio de Janeiro

Editora Radiadora, Fortaleza, Ceará
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Produção gráfica e capa: Taliba, Nirton Venancio, Alan Mendonça
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Revisão: Nirton Venancio e Alan Mendonça
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica, Fortaleza

Leitura dos poemas: Shirlene Holanda, Ivonilo Praciano
Apresentação de poemas musicados: Mona Gadelha, Lucio Ricardo, Calé Alencar, Parahyba de Medeiros.

sábado, 9 de fevereiro de 2019

o que Ceará, que Ceará?

A produção do meu documentário Pessoal do Ceará – Lado A Lado B está parada há dois anos por falta de financiamento.
O projeto, que analisa 50 anos de música cearense, num recorte de 1964 a 2014, não foi contemplado em cinco tentativas em editais estaduais no Ceará (três da Secretaria de Cultura do Estado, um da Fundação Demócrito Rocha e um da TVC).
Tudo que foi realizado no período de 2014 a 2016, deve-se a recursos próprios e apoio de produtoras de amigos que acreditam no projeto, mas não puderam continuar.
Acima, o ator Chico Diaz fala sobre o projeto.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

pausa dos gigantes

James Dean e Elizabeth Taylor fotografados por Richard Miller, 1955, nos intervalos das filmagens de Assim caminha a humanidade (Giant), de George Stevens.
Elizabeth tinha 79 anos quando faleceu em 2011. Dean, que hoje faria 88, tinha 24 anos quando se foi antes da estreia do filme, a 135 km por hora no seu Porsche 440.

cartas de um poeta

"Descubra a razão que lhe comanda a escrever, veja se ela já espalhou suas raízes pelas profundezas do seu coração, confesse a si mesmo se você preferiria morrer caso lhe fosse proibida a escrita. (...) Ser um artista significa não contar ou dar número às coisas, mas amadurecer como uma árvore, que não exaure sua seiva, e se mantém confiante nas tempestades da primavera, sem jamais temer que o verão não chegue. Ele chega."
- Rainer Maria Rilke, em Cartas a um jovem poeta, publicação póstuma, 1929.
No início do século 20, um jovem oficial militar austríaco, Franz Xaver Kappus, que gostava de escrever poemas, contos, remeteu à Rilke vários de seus originais, pedindo-lhe uma opinião. Rilke também ainda era jovem, tinha 37 anos, mas já um escritor renomado, com quatro livros publicados, cheio de vivências, dores e alegrias na escrita e na vida. Tinha pleno domínio do que lhe conduzia no tempo e na literatura.
Em atenção ao pedido de análise do jovem poeta, se seus poemas seriam bons ou ruins, Rilke respondeu-lhe que não poderia avaliar, pois “nada está mais afastado de uma obra de arte do que as palavras de uma crítica: elas sempre terminam em desentendimentos mais ou menos desafortunados". Preferiu dar conselhos, refletir sobre o ato de escrever, partindo mesmo de sua própria experiência. E assim, iniciou-se uma série de cartas ao jovem oficial, que se estendeu por um período de seis anos.
Após o falecimento de Rilke, em 1926, Kappus reuniu todas as cartas recebidas e por sua conta bancou a edição obra. "Quando se manifesta um dos grandes, que só tão raramente aparecem pelo mundo, os pequenos devem se calar, e escutar”, diz o jovem poeta na abertura do livro.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

essa gente careta e covarde

“Se meu filho estivesse vivo, tenho certeza de que ele me pediria piedade. Mas como não sou ele e minha idade suprimiu os panos quentes, considero inadmissível uma pessoa, ocupando o cargo que ocupa, não ter a preocupação de, sem compromisso com a verdade, citar uma pessoa pública."
- Lucinha Araújo, mãe de Cazuza, sobre a declaração do “sinistro” da Educação do desgoverno do Ano I da Era Tosca, que numa entrevista recente à revista VEJA disse que o cantor “pregava que liberdade é passar a mão no guarda. Não! Isso é desrespeito à autoridade, vai para o xilindró”. Falecido há 28 anos, Cazuza nunca falou isso. A frase é atribuída ao grupo Casseta & Planeta, em um programa nos anos 80.
Outras barbaridades do dito cujo na mesma entrevista:
criticou a cineasta e atriz Carla Camurati por ter colocado num documentário Dom Joãozinho - referindo ao príncipe regente Dom João VI, que chegou ao Brasil com a Família Real em 1808 - "como um reles comedor de frango, sem nenhuma serventia". Ele se referia ao filme Carlota Joaquina – Princesa do Brazil, 1995, que não é documentário, é uma criativa paródia de um momento histórico brasileiro;
bradou ainda a imbecilidade preconceituosa que “a universidade não é para todos, que ela representa uma elite intelectual, para a qual nem todo mundo está preparado ou para a qual nem todo mundo tem disposição ou capacidade”;
anunciou “incluir a disciplina Educação Moral e Cívica no currículo do ensino fundamental para os estudantes aprenderem o que é ser brasileiro e quais são os nossos heróis.”
Como dizia (mesmo!) Millor Fernandes: “O Brasil tem um grande passado pela frente”.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

um cineasta apaixonado

foto Joe Gaffney
Em 25 anos ininterruptos de trabalho, François Truffaut, um dos maiores ícones do cinema, dirigiu 26 filmes, conseguindo de maneira inteligente conciliar um grande sucesso de público e de crítica. Transformou sua traumática infância em um dos mais belos filmes de sempre, Os incompreendidos (Les 400 coups), longa de estreia, em 1959; traduziu a sua paixão como cineasta no único e definitivo filme sobre os bastidores de uma produção, o metalinguagem noite americana (La nuit américaine), em 1973; expressou sua paixão pela alma feminina em O homem que amava as mulheres (L'homme qui aimait les femmes), de 1977. Em toda sua rica cinematografia, Truffaut amava a infância, o cinema, as mulheres - não necessariamente nessa desordem.
Hoje é aniversário de 87 anos desse aquariano que se foi tão jovem, aos 52 anos, quando começava a escrever a autobiografia.
Ele que dizia que "sempre preferi a reflexão da vida à própria vida", sua filmografia reflete sua vida.

flor da paisagem no set



foto Cassio Araújo
A produção do meu documentário Pessoal do Ceará – Lado A Lado B está parada há dois anos por falta de financiamento.
O projeto, que analisa 50 anos de música cearense, num recorte de 1964 a 2014, não foi contemplado em cinco tentativas em editais estaduais no Ceará (três da Secretaria de Cultura do Estado, um da Fundação Demócrito Rocha e um da TVC).
Tudo que foi realizado no período de 2014 a 2016, deve-se a recursos próprios e apoio de produtoras de amigos que acreditam no projeto, mas não puderam continuar.
Na foto abaixo, a cantora Amelinha em entrevista para o filme, 7 de agosto de 2015, em Fortaleza. Um dos encontros mais marcantes das filmagens. Quatro horas com uma artista maravilhosa, cheia de talento e simpatia, foi reconfortante, compensador, estimulante. Entre uma conversa e outra, cantou à capela algumas de suas canções.
Pessoal que comigo faz o Pessoal: à esquerda, Priscilla Sousa, continuísta e Rui Ferreira, editor e fotografia adicional, ao meu lado, Priscila Lima, jornalista, pesquisadora de música cearense e dando uma força como assistente de produção; Leo Mamede, diretor de fotografia, agachado, Jade Ciribelli, assistente de câmera.
foto Cassio Araújo

terça-feira, 5 de fevereiro de 2019

take um - a quem interessar possa

foto Rubens Venancio
Caros amigos, com as neste blog, resolvi iniciar uma, digamos, "campanha" de esclarecimento sobre a paralisação do meu documentário Pessoal do Ceará – Lado A Lado B: muitos, compreensivelmente, me perguntam "cadê o filme?", "esse filme sai ou não sai?" "Belchior morreu e você não termina esse filme!" etc etc etc.
Abarco não somente de forma histórica e contemplativa, mas com pontuações analíticas e críticas, 50 anos de música cearense, desde 1964, quando deu os primeiros passos o que veio denominar-se anos depois Pessoal do Ceará, até 2014, quando teve a primeira edição do Maloca Dragão, evento da Secretaria de Cultura do Estado do Ceará, que revelou de forma mais abrangente uma nova cena musical cearense que vinha acontecendo alguns anos antes.
Com a produção parada há dois anos, o projeto não foi contemplado em cinco tentativas em editais estaduais no Ceará (três da Secretaria de Cultura do Estado, um da Fundação Demócrito Rocha e um da TVC).
Tudo que foi realizado no período de 2014 a 2016, deve-se a recursos próprios e apoio de produtoras de amigos que acreditam no projeto, mas não puderam continuar.
A multiplicidade de itens na feitura do documentário explica-se pela quantidade de entrevistas: cantores, compositores, produtores, jornalistas, pesquisadores, acadêmicos, escritores, radialistas, djs, todos que de alguma forma participaram e participam da história da música cearense, partindo do que conhecemos como Pessoal do Ceará.
Além das entrevistas, a pesquisa inclui apontamentos de livros publicados e trabalhos acadêmicas (TCCs, monografias, teses) sobre o assunto, “escavações arqueológicas” em jornais, revistas, fotos, vídeos em bitolas analógicas, além do meu arquivo pessoal (vinis, recortes de jornais, programas de shows etc).
O orçamento de um projeto dessa envergadura abrange uma equipe de profissionais que precisam ser devidamente pagos, viagens, locação de equipamento de ponta para uma boa captação de imagem e som (é um filme sobre música!!!), e um tempo extenso para a edição de uma complexidade que só quem está trancado numa ilha, sabe. A narrativa do documentário é reflexiva e depende do desenvolvimento do que foi dito nas entrevistas. Não é um filme chapa branca. Não me peçam que faça um documentário correto, branco, suave, muito limpo, muito leve... imagens, palavras, são navalhas, e eu não posso filmar como convém, sem querer ferir ninguém...
Não tenho perspectivas de como vou terminar esse filme. Sei que de editais não participo mais. Decididamente. Nunca abandonei o projeto. Apenas, por uma questão de saúde, descanso e retomada do fôlego, parei de insistir de onde não vem nada.
Um dia, sei lá como, concluo o documentário. Já desisti de desistir. Só eu e a ponte velha teimam resistindo.
Abaixo, pedindo a benção à sombra do centenário baobá, no Passeio Público, em Fortaleza, onde bati o primeiro take do filme, e entrevistei a cantora Jord Jordianne, 7 de abril de 2014.

mais e menos

"A cidade não para, a cidade só cresce,
e de cima sobe e o de baixo desce."

- Chico Science em A cidade, do disco Da lama ao caos, 1994.
foto Tuca Vieira, favela de Paraisópolis, SP, 2007.

entrei pra women's liberation front

Raul Zuleta, cartunista colombiano

that is the question

A bem humorada plaquinha abaixo está afixada nas paredes de alguns locais públicos, como bares, lojas...
À guisa de informação, há um erro (ou uma confusão proposital) de autoria:
"to do is to be" é de Platão,
"to be is to do", é de Sócrates.
"Do be do be do" é de Frank Sinatra mesmo: ele repetiu o som vocal em Strangers in the night, canção composta por Charles Singleton, Eddie Snyder e Bert Kaempfert, gravada em 1966. Totalmente sem sentido, usado apenas para ajudar com a harmonia, preencher notas quando não há letras.
A autoria das duas primeiras já foi também creditada como sendo de Sartre, Voltaire...
Só falta afirmarem que a do Sinatra é de Scooby-Doo.

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2019

tribos de resistência



"Todo jornal que eu leio
me diz que a gente já era
que já não é mais primavera
oh, baby, oh baby
a gente ainda nem começou!
Baby isso só vai dar certo
se você ficar perto
eu sou índio Sioux
eu sou cachorro urubu
em guerra com Zé U!"

- Raul Seixas e Paulo Coelho em Cachorro urubu, disco Krig-ha, Bandolo!, 1973.
Zé U, na colocação dos autores, é uma referência à sigla dos USA. Cachorro urubu remete a um dos pajés das tribos Sioux dos Estados Unidos, que se rebelou contra o beligerante presidente Richard Nixon em 1973, lutando pelos diretos sobre suas terras.
Atualizando o aplicativo de resistência para 2019, no lado debaixo da linha do Equador.

"Pessoal" parado


tenho vivido dias entre dias e mais dias...*

foto Larissa Freitas
A produção do meu documentário Pessoal do Ceará – Lado A Lado B está parada há dois anos por falta de financiamento.
O projeto, que analisa 50 anos de música cearense, num recorte de 1964 a 2014, não foi contemplado em cinco tentativas em editais estaduais no Ceará (três da Secretaria de Cultura do Estado, um da Fundação Demócrito Rocha e um da TVC).
Tudo que foi realizado no período de 2014 a 2016, deve-se a recursos próprios e apoio de produtoras de amigos que acreditam no projeto, mas não puderam continuar.
Na foto abaixo, a cantora e compositora Kátia Freitas em entrevista para o filme, no Centro Acadêmico de Psicologia da UFC, local afetivo por ela escolhido para a gravação, 12 de fevereiro de 2016.
Pessoal que comigo faz o Pessoal...: Alex Meira, diretor de fotografia (à esquerda), ao meu lado, Rui Ferreira, editor, e Lenio Oliveira, técnico de som.
*verso da canção Coca-colas e iguarias, de Valdo Aderaldo, gravada por Kátia em seu primeiro disco, K, 1995.

meu amigo Pedro



No início da década de 80 mantive correspondência com um dos meus ídolos da literatura: o escritor memorialista Pedro Nava. A partir da remessa do meu primeiro livro, Roteiro dos Pássaros, passamos a trocar cartas sistematicamente. Eu remetia publicações, revistas, páginas de jornais, tudo que revelasse uma nova safra de poetas e escritores cearenses. O grande Pedro Nava analisava os poemas com sinceridade, precisão e elegância.
Numa das cartas, Nava destaca e comenta dois poemas que eu acabara de publicar na página semanal de O Povo, organizada por Rogaciano Leite Filho, O Morto e Armadura.
Pelo ritmo de troca de correspondências, preparei-me para ir ao Rio de Janeiro visita-lo, conhecê-lo, abraça-lo, beijar-lhe a testa, levar todos os seus livros para autografar. Não deu tempo.
Um ano depois da carta abaixo, na noite de 13 de maio de 1984, Pedro Nava desce de seu apartamento no bairro Glória, senta-se num banco da praça... e parte, rápido e bruscamente ao som de um estampido.
Os poemas foram inspirados em meu pai. Tornaram-se de Pedro Nava como pós-inspiração, como homenagem, como réquiem que meu coração pronuncia.
O Morto e Armadura estão no meu livro Poesia Provisória, que será lançado no próximo dia 15, e serão lidos, respectivamente, por Shirlene Holanda e Ivonilo Praciano.
Lançamento: Livraria Lamarca, Fortaleza
15 de fevereiro de 2019, 19h
Em março, Brasília
abril, São Paulo 
maio, Rio de Janeiro

Editora Radiadora, Fortaleza, Ceará
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Concepção de capa: Décio Braúna
Desenho da capa: Fausto Nilo 
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Revisão: Nirton Venancio e Alan Mendonça
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica, Fortaleza

Apresentação de poemas musicados: Mona Gadelha, Lucio Ricardo, Calé Alencar, Parahyba de Medeiros, Bernardo Neto

domingo, 3 de fevereiro de 2019

coração exilado

“Vivo num outro tempo desde que nasci e sempre senti que vivia num mundo praticamente medieval. Volto pro vazio e deixo minha essência em PAZ. Aos meus amigos, amadas e amantes, nos encontraremos um dia! Sintam meu amor incondicional através do tempo e do espaço. SIM e FIM."
- Trecho final da carta de despedida de Sabrina Bittencourt, que apagou a luz no final da noite de ontem, em Barcelona, Espanha.

A ativista social tinha 37 anos, estava ligada à ONG Vítimas Unidas e ajudou a desmascarar farsantes como Prem Baba e João “dito” de Deus. Alvo de ameaças de morte, Sabrina vivia fora do Brasil e mudava frequentemente de endereço.
O gesto extremo dilacera nosso peito. Muita saudade. Minutos de silêncio em respeito e acatamento a sua dor.
Como diz a poeta Marla de Queiroz, “tem dia que o coração prende o dedo na porta” como essa notícia nesta manhã de domingo.

o tempo e o coração

Poema inserido no capítulo Explorar as Tardes do meu livro Poesia Provisória
Editora Radiadora, Fortaleza, Ceará
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Concepção de capa: Décio Braúna
Desenho da capa: Fausto Nilo 
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Revisão: Nirton Venancio e Alan Mendonça
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica, Fortaleza

Lançamento: Livraria Lamarca, Fortaleza
15 de fevereiro de 2019, 19h
Em março, Brasília
abril, São Paulo 
maio, Rio de Janeiro

Leitura dos poemas: Shirlene Holanda, Ivonilo Praciano
Apresentação de poemas musicados: Mona Gadelha, Lucio Ricardo, Calé Alencar, Parahyba de Medeiros, Bernardo Neto

sábado, 2 de fevereiro de 2019

meu pré-treinamento de fuga de pré-carnaval


82 votos, 81 senadores

“Até quando, ó Catilina, abusarás da nossa paciência? Por quanto tempo ainda há de zombar de nós essa tua loucura? A que extremos se há de precipitar a tua audácia sem freio? Nem a guarda do Palatino, nem a ronda noturna da cidade, nem os temores do povo, nem a afluência de todos os homens de bem, nem este local tão bem protegido para a reunião do Senado, nem o olhar e o aspecto destes senadores, nada disto conseguiu perturbar-te? Não sentes que os teus planos estão à vista de todos? Não vês que a tua conspiração a têm já dominada todos estes que a conhecem?”
A peça oratória acima foi proferida na longínqua data 63 a.C, no Senado romano. Marco Túlio Cícero, então cônsul de Roma, denuncia publicamente uma conspiração montada por seu inimigo Lucius Sergius Catilina, militar e senador, célebre por ter tentado derrubar a República Romana, e em particular o poder oligárquico do senado.
Nesse duro pronunciamento, expõe a conspiração e sugere que Catilina busque o exílio.
E que infeliz coincidência ser tão atual, tão aplicável ao enxurdeiro que está ocorrendo e escorrendo no lamaçal do Senado brasileiro, no retrocessivo Ano I da Era Tosca que se instala neste 2019 no país.
Acima, Cicero denuncia Catilina, afresco de Cesare Maccari, 1888. O quadro encontra-se exposto no Palazzo Madama, sede do Senado em Roma.

no outro lado da montanha

foto ilustrativa Christian Coigny
"Há uma forma de literatura em que o 'eu' não existe.
Onde estamos mergulhados no desconhecido, do outro lado da montanha.
Gostaríamos de poder voltar para casa e dizer 'eu'. Ou mesmo 'nós', porque uma mulher espera lá, por nós.
Vamos chamá-la de Penélope.

A viagem é longa, talvez sem fim, continuamente perigosa.
Cruzamos com todos os tipos de criaturas. Inclusive sereias.

Vocês reconheceram Ulisses e a Odisseia?
Para voltar para casa Ulisses navega de ilha para ilha, em um mundo perigoso e incerto.
O preceito de James Joyce para escrever com sucesso foi: 'silêncio', 'exílio' e 'astúcia'.
- E o amor, onde fica?
- O amor não tinha sido inventado ainda."

Philippe Djian, na novela Incidences, 2010, através do personagem Marc, professor de Literatura.
O irlandês Joyce é um dos escritores de maior relevância do século XX, e sua literatura também se estende no princípio do modernismo poético.
137 anos hoje de seu nascimento, da astúcia de seu silêncio, de seu exílio no outro lado da montanha.

Odoyá

“Ela mora no mar
ela brinca na areia
no balanço das ondas
a paz ela semeia...”

- Verso de Lenda das sereias, de Vicente Mattos, Dinoel e Arlindo Velloso, samba-enredo composto em 1976 para a Império Serrano.
2 de fevereiro, Dia de Iemanjá, A Rainha do Mar, nas religiões afro-brasileiras. Na religião católica Dia de Nossa Senhora dos Navegantes, das Candeias, da Candelária, da Luz, da Purificação...
Uma senhora em todas. Todas senhoras em uma. A paz ela semeia.

a luz de Esmeraldo

O grande artista plástico cearense Sérvulo Esmeraldo se foi há dois anos ontem, aos 87.
O fotógrafo Jarbas Oliveira esculpiu sua luz à altura do retratado, em 2009. Revelou-se nossa enorme gratidão à Sérvulo.
Simetria que a arte eterniza, entre a beleza e a saudade.

o fim e o começo

foto Vavá Ribeiro, 2011
"Do vazio se ouve melhor", dizia o cineasta Eduardo Coutinho.
Sua máxima explica bem o conceito de seu cinema, a maneira como concebia seus maravilhosos documentários, e explica a grande falta que ele nos faz com o vazio de sua presença física.

Coutinho, um cabra que não estava marcado pra morrer daquele jeito.
Cinco anos hoje sem suas conversas com o cinema brasileiro.


é de manhã

Poema do meu livro Poesia Provisória, incluído no capítulo Coração Sitiado.
Editora Radiadora, Fortaleza, Ceará
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Concepção de capa: Décio Braúna
Desenho da capa: Fausto Nilo 
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Revisão: Nirton Venancio e Alan Mendonça
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica, Fortaleza

Lançamento: Livraria Lamarca, Fortaleza
15 de fevereiro de 2019, 19h
Em março, Brasília
abril, São Paulo 
maio, Rio de Janeiro

Leitura dos poemas: Shirlene Holanda, Ivonilo Praciano
Apresentação de poemas musicados: Mona Gadelha, Lucio Ricardo, Calé Alencar, Parahyba de Medeiros, Bernardo Neto

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

perfume de mulher

Numa tarde de 1975, o ainda hoje desconhecido compositor Nuno Veloso pegou o casal amigo Cartola e Dona Zica para um passeio na Barra da Tijuca e depois fazer uma visita ao violonista Baden Powell. Não o encontraram. Na volta, Nuno passou numa floricultura para comprar umas mudinhas de roseira que prometera para Dona Zica.
Dias depois, numa manhã ensolarada, ao abrir a porta e ir ao jardim como sempre fazia, Dona Zica espantou-se com tantos belos botões desabrochados.

- Cartola, venha aqui! Venha ver o jardim! Por que é que nasceu tanta rosa? – gritou ao marido.
O compositor caminhou naquele passo cadenciado, ajeitou os óculos ray-ban escuros, olhou serenamente deslumbrado e respondeu:
- Ah, não sei, Zica. As rosas não falam!
A poética explicação foi a inspiração para o compositor criar uma das mais belas obras do cancioneiro brasileiro. A simplicidade da narrativa do samba-canção tem um impacto emotivo justamente pela singeleza, pelo afago no coração de quem ouve.
Próximo de completar 67 anos de idade, Cartola concluiu a música e, dizem os pesquisadores, se presenteou. Gravou em 1976, no LP Cartola II, produzido pelo escritor e jornalista cearense Juarez Barroso, como bem informa a escritora Natercia Rocha em seu primoroso livro Juarez Barroso – O Poeta da Crônica-Canção, lançado ano passado.
Sobre a composição, na verdade, aquele buquê de pérolas quem ganhou mesmo foi sua amada Dona Zica, pois é dela que vem o perfume que as rosas exalam.

ao pé do ouvido

“Muitas vezes cito o nome de Nirton Venancio como uma voz de valor da literatura brasileira.”
Receber uma menção dessa de Suzana Vargas, poeta e prof.ª de Teoria Literária da URFJ, é o que denomino, feliz e agradecido, de fortuna crítica.
A poeta que sempre li e admirei desde os anos 80, está com essas palavras na orelha do meu próximo livro, Poesia Provisória. Palavras que fazem parte de uma descoberta recente, ao saber que ainda tem o meu primeiro livro, Roteiro dos Pássaros, e que acompanha minha vida literária desde sempre.
Suzana Vargas compôs a equipe de Editores Adjuntos do livro Poesia Sempre, publicação semestral da Fundação Biblioteca Nacional, organizada por Ivan Junqueira. Na edição nº 13, dezembro de 2000, dois poemas meus foram selecionados, Armadura e O morto, para o capítulo Poesia Brasileira Contemporânea. Esses poemas estão no novo livro, onde está Suzana ao pé do ouvido dos meus versos. O afeto sempre faz isso, mantém ligado o bem-querer na simetria do tempo de quem se gosta.
Editora Radiadora, Fortaleza, Ceará
Coordenação Editorial: Alan Mendonça
Concepção de capa: Décio Braúna
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Revisão: Nirton Venancio e Alan Mendonça
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica, Fortaleza

Lançamento: Livraria Lamarca, Fortaleza
15 de fevereiro de 2019, 19h
Em março, Brasília
abril, São Paulo 
maio, Rio de Janeiro

Leitura dos poemas: Shirlene Holanda, Ivonilo Praciano
Apresentação de poemas musicados: Mona Gadelha, Lucio Ricardo, Calé Alencar, Parahyba de Medeiros, Bernardo Neto