domingo, 31 de março de 2019

casa de cinema

“O que é o cinema?
É a luz que chega de algum lado e que é retirada pelas imagens mais ou menos escuras ou coloridas.
Quando estou aqui sinto que vivo no cinema, que é minha casa. Sinto que sempre nele habitei.”

- Agnès Varda, na cena final de seu penúltimo filme As praias de Agnès (Las plages d'Agnès), 2008, um autorretrato onde a cineasta se insere de forma orgânica na narrativa. O tempo todo ela fala com o espectador, com quem lhe vê e com quem viu seus filmes.
Para compor a imagem, Agnès Varda, falecida sexta-feira passada, recorre a uma de suas atividades no princípio da carreira, como expositora de instalações fotográficas: decora uma cabana com tiras de celuloide de “As criaturas” (Les créatures), que dirigiu em 1966, com Michel Piccoli e Catherine Deneuve. O enredo desenvolve a relação entre um escritor e sua esposa, que após se recuperarem de um acidente de carro, e com o casamento em crise, se isolam no vilarejo em uma ilha. O marido escreve um romance com personagens baseados em seus vizinhos. A mulher, ainda traumatizada, não fala. A inevitável linha tênue entre a realidade e a ficção torna tudo difuso.
Ao terminar seu filme com as tiras de películas penduradas como cortinas onde as luzes atravessam, e sentada sobre as latas com cópias 35mm, Agnès cria uma poética metáfora entre o cinema e a realidade, entre o universo em que se vive e o que deixou de ser, entre o que foi, é, e o que se aguarda, na simetria do tempo que o cinema reverbera e perpetua.
Lá no começo, na sequência de abertura do filme, como explicando o título, a cineasta diz que "Se abríssemos as pessoas, encontraríamos paisagens. Mas se me abrissem a mim, encontrariam praias." No final se vê que são praias que chegam até a porta da casa onde ela sempre habitou: o cinema.

o quinto ato

Em 1968, durante o governo do general de plantão, Costa e Silva, foi decretado o Ato Institucional nº 5, o famigerado AI-5, colocando em recesso o Congresso Nacional, intervindo ostensivamente nos estados e municípios, cassando mandatos de parlamentares, suspendendo por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, retirando garantia do habeas-corpus... Configurou-se a expressão mais acabada e absoluta da ditadura militar instituída com o golpe de 1964. O AI-5 foi o golpe dentro do golpe.
"Revogadas as disposições em contrário", vivemos a intensificação dos tempos dantescos de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de “suicídios”, de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar.
Há mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e da lei, foi uma marca registrada do governo militar.
Tempos sombrios ameaçam novamente.

Não há para comemorar hoje. 1964 nunca mais! Ditadura nunca mais!
Acima, estudante durante protesto na Cinelândia, 1968. Uma das mais icônicas fotos de Evandro Teixeira sobre o período de repressão no país.

nunca mais outra vez


o passado condena

O assustador título do documentário acima faz referência à frase que o crudelíssimo delegado Fleury dizia a suas vítimas, no período tenebroso da ditadura militar no Brasil: "Você vai dar um presunto legal!"
Dirigido por Sérgio Muniz, rodado clandestinamente em 1971, quando o país era governado pelo mais perverso dos seus ditadores, Garrastazu Médici, o filme nunca foi exibido por representar risco de vida para seu elenco e equipe.
O denso e tenso media-metragem de 39 minutos é um painel de denúncia e reflexão sobre a atuação do Esquadrão da Morte, na figura de alma sebosa do delegado chefe do DOPS em São Paulo, e a tortura era prática de instrumento do Estado.
Desde 2006, seu realizador exibe em universidades e mostras sobre direitos humanos. Com uma narrativa ainda atual, o documentário utiliza-se de diversos materiais em sua construção – recortes de jornais e revistas, imagens captadas diretamente da televisão, transcrição de depoimentos de pessoas torturadas, fragmentos das obras teatrais A resistível ascensão de Arturo Ui, de Bertold Brecht, no Teatro de Arena, e O Interrogatório, de Peter Weiss, no Teatro São Pedro, e imagens inéditas do delegado Fleury sendo condecorado pela Marinha.
O filme está disponível no Youtube.
Não há nada para comemorar hoje. 1964 nunca mais!

sexta-feira, 29 de março de 2019

ser mãe

Poema da polonesa Wislawa Szymborska, foi escrito em 1967, publicado no livro Sto Pociech.

Inspirada pelas notícias que chegavam da bestialidade da guerra no sudeste asiático, a poeta escreve os mais belos e tocantes versos sobre o vínculo básico de amor e proteção, quando um ser sobrevive pelo outro.

a última viagem de Agnès Varda

Em 2017 a cineasta Agnès Varda fez uma divertida viagem por vilarejos da França, através do filme Visages, Villages, ao lado do fotógrafo Jean René, mais conhecido pelo pseudônimo JR, famoso em Paris por suas exposições ao livre.
Longe dos centros urbanos, os dois artistas, de duas gerações distantes, ela com 88 anos, ele 33, se encontram no mesmo pensamento, capturando e fazendo interferências com enormes fotografias das pessoas e seus lugares, nas paisagens agrícolas, questionando de maneira descontraída sobre a cultura da exibição de imagens.
Em um road movie divertido, com uma narrativa de diário a dois, o documentário observa e medita sobre os costumes modernos, o fenômeno das selfies. O filme foi produzido por financiamento coletivo, à proporção que seguiam pelas estradas, ligados pela internet entre o campo e a cidade, inserindo, dessa forma, na era digital, as considerações e proposta do tema.
Belga radicada na França, Varda precedeu em estilo, linguagem e reflexão à Nouvelle Vague. A sua filmografia de mais de 60 títulos com autenticidade de narrativa visual, abordam a preocupação política, o feminismo, as indagações sociais.
Foi a primeira cineasta a receber um Oscar pelo conjunto da obra, em 2017, quando também esteve no Brasil para receber um troféu de homenagem na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.
Agnès Varda partiu hoje... na jovialidade de seus 90 anos.

só queria embalar meu filho

“Quem é essa mulher / que canta sempre esse estribilho / só queria embalar meu filho / que mora na escuridão do mar”
Essa mulher é Zuzu Angel. Esses versos são da música Angélica, que Chico Buarque compôs para ela, logo após sua morte em 1976, e está no disco Almanaque, de 1981. O filho que deixou de ser embalado pela mãe era Stuart Angel, estudante de Economia, militante do MR-8, preso em maio de 1971 por agentes do Centro de Informação da Aeronáutica, torturado e assassinado, e o corpo possivelmente jogado na escuridão do mar. Tinha 25 anos.
Há relatos horríveis de testemunhas que estiveram com o rapaz na prisão, como o poeta Alex Polari, que disse ter visto ser arrastado por um jipe, com a boca no cano de descarga. A mãe, estilista reconhecida no Brasil e no exterior, dedicou sua vida a denunciar a morte do filho, enfrentando com coragem os generais da ditadura, apontando-os nominalmente, criando peças com estampas que representavam o período de repressão em que se vivia. Sempre ousada em suas criações, fez roupas com pedras e rendas do Nordeste, desvinculando-se da maneira colonizada de se vestir.
Zuzu Angel morreu misteriosamente em “acidente” de automóvel na saída do túnel Dois Irmãos, na Estrada da Gávea, Rio de Janeiro, local que hoje tem seu nome. Uma semana antes, entregou a Chico Buarque um documento que deveria ser publicado caso algo lhe acontecesse, onde escreveu: "Se eu aparecer morta, por acidente ou outro meio, terá sido obra dos assassinos do meu amado filho".
Zuzu Angel: luta e resistência das mulheres na página infeliz de nossa história.
Não há nada para comemorar no próximo dia 31. 1964 nunca mais outra vez.

quinta-feira, 28 de março de 2019

as ondas

"O que quero dizer é que te devo toda a felicidade da minha vida. Fostes inteiramente paciente comigo e incrivelmente bom."
Trecho da breve e comovente carta que Virginia Woolf escreveu, em 28 de março de 1941, ao marido, e também escritor, Leonard Woolf.
Encheu de pedras os bolsos de seu casaco e se afogou no Rio Ouse, perto de sua casa, em North Yorkshire.
O começo da Segunda Guerra Mundial, a destruição da sua casa em Londres durante uma busca, a fria recepção da crítica a sua biografia do seu amigo Roger Fry... Virginia Woolf tinha 57 anos, sentiu-se impedida de continuar escrevendo, e sucumbiu à grave crise de depressão.

desgovernado


na Pedra do Ingá

Lula Côrtes é um dos nomes mais representativos da música brasileira, como compositor, cantor, letrista, poeta de versos cheios.
Pernambucano da gema, fez em parceria com o compositor e cartunista Lailson, um dos primeiros LPs independentes do país, Satwa, em 1973. Naquele disco a dupla iniciou uma ousada mistura dos ritmos nordestinos mais primitivos com arranjos de rock psicodélico, muito bem desenhados nos riffs do jovem Robertinho de Recife.
Essa liquefação de ritmos sonoros reverberou de forma intensa em Paêbirú, vinil em dupla com o Zé Ramalho, 1975, onde além dos ritmos agrestes com os toques lisérgicos, os arautos sertanejos incluem o balanço do jazz.
Gravado artesanalmente naqueles pulsantes anos 70, o disco se tornou histórico, mítico, não somente pelo conteúdo, como também pelo fato das 1300 cópias impressas, apenas 300 sobreviveram a enchente em Recife, quando a gravadora Rosemblit foi invadida pelas águas do Capibaribe.
Quem tem o disco, tem e pronto, não empresta, e muitos sequer caem na tentação da oferta no mercado de raridades, cotado hoje a R$ 5 mil o exemplar.
Em 2005, o famoso selo da Inglaterra Mr. Bongo Bass relançou a obra em vinil, e há sete anos no Brasil em CD. Não é a mesma viagem, mas dá, de olhos fechados e ouvidos escancarados, adentrar nos microssulcos analógicos da Pedra do Ingá, região do interior paraibano, onde os monumentos arqueológicos, as lendas indígenas e as visitas interplanetárias inspiraram as onze faixas do disco duplo.
Lula Côrtes depois de tocar com Zé Ramalho e fazer parte da banda de Alceu Valença, lançou discos solos de grande qualidade na década 80, e ainda nos 70 outros que nunca chegaram ao mercado.
Neste país de amnésia crônica cultural, a importância de Lula Côrtes pouco se dá. Nos anos 2000 o compositor sobrevivia de um salário como assessor de uma prefeitura no interior de Pernambuco e de trabalhos como artista plástico.
No último dia 26 oito anos que ele se mandou de vez pras pedreiras do Ingá. Tinha 61 anos, um câncer na garganta e uma tristeza no coração.

quarta-feira, 27 de março de 2019

a manhã cinzenta de um cineasta

O cineasta baiano Olney São Paulo morreu jovem, aos 41 anos, em 1978, de câncer no pulmão. Mas o laudo verdadeiro foi consequência do que sofreu na prisão quando detido pelos militares no final de 1969 por conta de seu filme, Manhã cinzenta, que teve os negativos e as cópias recolhidas. O então diretor da Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Cosme Alves Neto, conseguiu esconder uma cópia, e assim o média-metragem foi exibido no ano seguinte em festivais na Itália, na Quinzena de Realizadores do Festival de Cannes, e premiado no Festival de Oberhausen, Alemanha, em 1972.
Misturando poesia, alegoria e ficção-científica, com um narrativa não-linear e ousada, o filme mostra um casal de estudantes que é preso após uma passeata. São torturados e respondem a um inquérito comandado por um robô, em um país fictício da América Latina.
Mesmo tendo como pano de fundo o momento político da época, com cenas gravadas nas ruas durante manifestações estudantis e de trabalhadores, o que motivou a detenção do cineasta foi o fato do filme ter sido exibido durante o voo de um avião sequestrado pelo MR-8 e desviado para Cuba. Um dos membros era cineclubista, adquiriu uma cópia, e tinha o filme como exemplo de patriotismo.
Olney São Paulo foi acusado pelos militares de ligação com o grupo revolucionário, e como numa situação premonitória do enredo do seu filme, foi torturado durante doze dias. Após ser libertado, muito debilitado, foi internado com pneumonia. Mesmo absolvido pelo Superior Tribunal Militar, em 1972, das acusações de subversão, Olney não se livrou do trauma nem recuperou a saúde.
Vários tributos foram feitos como reconhecimento à história do cineasta. Em 1999, a jornalista Ângela José publicou a biografia Olney São Paulo e a peleja do cinema sertanejo, onde registra a vida do “artista extremamente preocupado em documentar a cultura e a luta do homem brasileiro diante das perspectivas sociais e políticas de sua época”.
Em 2011 o cineasta conterrâneo Henrique Dantas realizou o curta Ser tão cinzento, onde recria diversas passagens desse clássico, com depoimentos de pessoas que participaram da produção do filme e de amigos. Dantas estendeu sua consideração dois anos depois, com o longa Sinais de Cinza – A Peleja de Olney contra o dragão da maldade, um primoroso retrato biográfico, onde convergem as várias formas de visão da filmografia peculiar de Olney, que realizou três longas, três médias e nove curtas, deixando uma considerável influência sobre o cinema político que se faria mais tarde no país.
Glauber Rocha, que o chamava de "mártyr do cinema brasileiro", escreveu em seu livro Revolução do Cinema Novo, 1981, que “Olney é a Metáfora de uma Alegorya. Retirante dos sertões para o litoral – o cineasta foi perseguido, preso e torturado. A Embrafilme não o ajudou, transformando-o no símbolo do censurado e reprimido. ‘Manhã Cinzenta’ é o grande filmexplosão de 1968 e supera incontestavelmente os delírios pequeno-burgueses dos histéricos udigrudistas (...). Panfleto bárbaro e sofisticado, revolucionário a ponto de provocar prisão, tortura e iniciativa mortal no corpo do Artysta.”
Não há motivos para comemorações no próximo dia 31. 1964 nunca mais outra vez!

almas sebosas


trabalho literário

“Nobre escritor! Senti muita firmeza e elegância de estilo no seu trabalho literário!
- Chagas Lopes, radialista, Sobral-CE

Poesia provisória, Nirton Venancio
Editora Radiadora, 2019
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica

À venda:
Livraria Pensar, Sobral, CE
Livraria Lamarca, Fortaleza, CE
Editora Radiadora / Alan Mendonça 85-999442220


Próximo lançamento: 
Brasília: Bar Beirute Sul, 8 de abril, 19h

o cidadão do teatro

foto Acervo Teatro do Oprimido, 1972
"Sou um homem da paz. Mas a paz tem um inimigo: a passividade".
Hoje, no Dia Mundial do Teatro, lembrando o grande teatrólogo Augusto Boal. Ele foi um dos mais lúcidos homens de teatro que este país já teve. E continuará tendo, apesar da sua ausência física que marca os palcos desde 2009, quando se foi aos 78 anos.
Era admirável seu espírito de contestação, que se destacou principalmente contra o golpe militar de 64.
Expoente da vanguarda artística nos anos 50 e 60, Boal foi responsável pela concepção do Teatro do Oprimido, que buscava aliar à prática artística uma ação social e política, calcada na educação, na cidadania, nos princípios pedagógicos. Dizia que “atores somos todos nós, e cidadão não é aquele que vive em sociedade: é aquele que a transforma.”
Não foi por favores que o jornal inglês The Guardian o considerou o "reinventor" do teatro político. Seu nome foi lembrado para o Nobel da Paz em 2008.
Comemoremos sempre o Teatro, comemoremos sempre cidadãos como Augusto Boal. Não há nada para comemorar no próximo dia 31. 1964 nunca mais outra vez.

o fiel operário

No dia 17 de janeiro de 1976, durante o governo Geisel, o operário metalúrgico Manoel Fiel Filho foi “suicidado” nos porões do DOI-Codi, três meses depois de encenarem o mesmo com o jornalista Vladimir Herzog, na onda de repressão violenta e desaparecimentos sumários do período obscurantista da ditadura militar no Brasil.
Apesar da “preocupação” do general de plantão na presidência da República, que afastou o comandante do II Exército, Ednardo D'Ávila Mello, a linha dura não perdeu o fôlego e logo estaria o general Erasmo Dias espalhando terror.
Muitas dessas informações e questionamentos estão no livro "Manoel Fiel Filho: quem vai pagar por este crime?", do jornalista Carlos Alberto Luppi, corajosamente lançado em 1980, e uma das publicações que serviu de base na pesquisa para o documentário Perdão, Mister Fiel, de Jorge Oliveira, 2009, premiado no Festival de Brasília.
Não há motivo para comemorações no próximo dia 31. Nunca mais outra vez.
Na foto, dona Theresa de Lourdes Fiel, viúva.

terça-feira, 26 de março de 2019

um solo sem petróleo

Coração de uma população negra devastada, em um solo sem petróleo

os cães do planalto

“Na época em que o fantasma do impeachment produzia a guerra improvável da paz impossível, a melhor imagem para definir a tensão era a cena clássica de 'Cães de Aluguel', de Quentin Tarantino, quando todo mundo aponta a arma para todo mundo.”
Trecho do excelente texto do jornalista Matheus Pichonelli, em sua página no Facebook, sobre a atual crise institucional entre os poderes da República no Brasil.
A analogia à icônica sequência do filme de Tarantino, de 1992, é perfeita diante o cenário político nestes três meses de desgoverno do Ano I da Era Tosca que estamos vivendo.
Acima, uma cena ilustrativa do filme. Não posto imagem de armas na minha página.

memórias do cárcere



Em setembro do ano passado, na abertura da mostra competitiva do 51º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, o Cine Brasília viveu uma noite marcante com a exibição do longa-metragem Torre das donzelas, de Susanna Lira, sobre a ala feminina do Presídio Tiradentes, em São Paulo, onde estiveram presas militantes que lutaram contra a ditadura militar nos anos 60 e 70.
O documentário traz relatos inéditos, surpreendentes e comoventes de todas encarceradas, entre elas a ex-presidenta Dilma Rousseff, aos 23 anos. Com a demolição do Presídio para as construções do Metrô de São Paulo em 1972, o filme remonta, a partir de fragmentos de lembranças de cada uma delas, uma instalação semelhante ao espaço onde estiveram presas, chamado como diz o título do documentário. Nesse cenário se reencontram, 45 anos depois, para romper com o silêncio e o medo de relatar os horrores de viver sob uma ditadura.
A apresentação do documentário, com a presença no palco do cinema da equipe e das hoje senhoras que estiveram na “torre”, ficará na história do Festival, pelo forte clima de emoção, o encontro de um passado que não queremos mais diante um presente que nos assusta e um futuro que nos ameaça. Os aplausos de uma sala lotada se repetiram em vários momentos durante a sessão.
Há desejos que nem a prisão e nem a tortura inibem: liberdade e justiça. Há razões que nos mantém íntegros mesmo em situações extremas de dor e humilhação.
Não há motivo para festa no próximo dia 31. Nunca mais outra vez!

segunda-feira, 25 de março de 2019

as "leis"


sobre uma bomba relógia

foto Josh Estey/CARE
"As acessibilidades de circulação e de abrigo não são boas. Algumas são mesmo horríveis. Um dos locais que visitei era uma escola onde estavam três mil pessoas numa escola com 15 salas, num local já de si meio inundado e onde só existem seis casas de banho para toda aquela gente. Por isso, não estou a exagerar quando digo que estamos sentados numa bomba relógio de água, saneamento e higiene"
- Elhadj As Sy, secretário-geral da Cruz Vermelha Internacional, em entrevista ao canal português EuroNews.
Uma população negra em um solo onde não tem petróleo não viraliza na internet a hashtag ♯Eu sou Moçambique.

Leila para sempre Diniz

Bem antes de Demi Moore estampar sua gravidez na capa da revista Vanity Fair, em 1991, a nossa eterna Leila Diniz já exibia seu barrigão, com a filha Janaína, nas areias escaldantes da Praia de Ipanema, em 1971, aqui fotografada pelo grande David Zingg, em seu estúdio.
Hoje 74 anos de seu nascimento. Aniversário da beleza irreverente, marcante, da personalidade ousada e corajosa que quebrou tabus e desafiou a ditadura militar com sua gravidez.

sábado, 23 de março de 2019

Moçambique não é aqui

foto: Zinyange Auntony/AFP
“É estranho que alguns países irmãos, que são da mesma língua e história, não tenham feito nada”.
“Não existe capacidade interna para uma tragédia desta magnitude. A ajuda a Moçambique tem que ser bem mais do que aquela que provem do voluntariado. É preciso alguma coisa à escala de governos e das Nações Unidas.”
- O escritor Mia Couto, em entrevista ao jornal português JN, sobre a situação em que se encontra seu país.
O ciclone Idai atingiu, semana passada, a cidade portuária Beira causando enchentes e desmoronamento de prédios. O cenário apocalíptico com mais de 500 mortes, quase dois milhões de desabrigados (a metade, crianças), falta de comida e água potável, 1,5 mil pessoas aguardando resgate em telhados e árvores...
Uma população negra em um solo onde não tem petróleo não viraliza na internet a hashtag ♯Eu sou Moçambique.

um homem plural

“Domingos de Oliveira canta, dança, é ator, diretor de teatro, dramaturgo, faz cinema-tudo (roteiro, direção, interpretação, música – como Chaplin), faz programas de televisão, escreve manifestos, dá aulas, inventa projetos de agitação cultural, é filósofo, é poeta, ama, bebe, é mestre em amizade. Um homem plural, mas como uma singularidade: em tudo que faz, Domingos é único.”
- Aderbal Freire Filho, diretor de teatro, na contracapa do livro Minha vida no teatro / Domingos de Oliveira”,2010, uma espécie de autobiografia através de sua atividade no palco.
Domingos se foi neste final de tarde de sábado, aos 83 anos. Estava em sua casa no Leblon fazendo justamente o que mais lhe completava como artista: escrevendo. Com Mal de Parkinson há alguns anos, teve queda de pressão, não resistiu a uma intensa falta de ar.
No livro mencionado tem uma das mais belas dedicatórias que já li, para sua mulher, atriz de quase todos seus filmes: “À Priscila, minha vida.”

aparelho da resistência - 16

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Trecho do longo poema, quatro páginas, No caminho, com Maiakóvski, do niteroiense Eduardo Alves da Costa, 83 anos.
Erroneamente atribuído ao poeta russo mencionado no título, e também a Bertold Brecht, o poema está publicado no segundo livro de Alves da Costa, Poesia Viva, 1968, editado pela Civilização Brasileira, e posteriormente em No Caminho, com Maiakóvski, pela Nova Fronteira, 1987. O autor escreveu nos conturbados anos pós-64, como manifestação de revolta à intolerância e violência impostas pela ditadura militar.
O equívoco da autoria começou na época da campanha das Diretas Já, com os versos estampados em camisetas, pôsteres e até em cartões postais, declamados em protestos nas ruas, assembleias de estudantes e sindicatos, sempre creditados a Vladimir Maiakóvski ou ao dramaturgo alemão. A internet, através das sempre apressadas redes sociais, só fez aumentar a confusão, assim como fazem com textos atribuídos a Clarice Lispector, Jorge Luis Borges...
Muitos duvidaram que os versos que têm na narrativa uma força e a beleza da vanguarda soviética, pudessem ser de um brasileiro. No máximo Alves da Costa seria um tradutor de Maiakóvski. O autor, em entrevista, disse uma vez que a atribuição ao famoso poeta foi “uma maldição, ajudou a chamar a atenção para minha poesia, mas ocultou toda a minha obra.”
Eduardo Alves da Costa tem 24 livros publicados, uma significativa atividade literária em São Paulo. Criou os saraus Noites de Poesia na capital, e participou do importante movimento Os Novíssimos na década de 60.

sexta-feira, 22 de março de 2019

salve, Jorge!

Samba Esquema Novo, primeiro disco do ainda Jorge Ben, 1963.
O samba, a bossa nova, o jazz, o sambalanço, o sambajazz.... Mas que nada, não! Mais que tudo, sim!.
Está lá que chove a chuva por causa de você, menina.
O Bacharel em Música Popular da Universidade de Campinas, Alam D’Ávila do Nascimento, em seu trabalho de Mestrado, disserta com propriedade sobre a curiosa capa, onde o cantor apoia-se em um banquinho invisível. Diz Nascimento que nas composições "a harmonia possui elementos de bossa-nova, mas o ritmo não, indícios de uma possível influência roqueira"
Essa complexidade musical é sugerida na capa, pois a primeira leitura remete à simbologia bossanovista de um-banquinho-e-um-violão. Falta um elemento, de sustentação, e isso define que é um disco da recente bossa já modificada pela variedade do repertório. Um esquema novo do samba que anteciparia procedimentos adotados pelos tropicalistas alguns anos depois.
Hoje, 77 anos do Babulina, Zé Pretinho, Jorge Benjor... Salve, Jorge! Eu também sou da sua companhia.

operários do cinema

Hoje o cinema completa 124 anos de sua primeira exibição.
O curtíssimo-metragem A Saída da Fábrica Lumière em Lyon"foi apresentado a uma curiosa plateia numa sala, e mostrava a saída dos operários da fábrica, a maioria mulheres, que produzia películas fotográficas, de propriedade dos irmãos Auguste e Louis Lumière, não por acaso os produtores e diretores da novidade.

Mas eles não foram os autores do invento, o cinematógrafo, aparelho de filmagem e projeção.

Léon Bouly foi quem criou a máquina, em 1892, e batizou de "Cynématographe", que já era um aperfeiçoamento do trabalho de Thomas Edson.
O que aconteceu foi que o coitado de Léon não tinha como pagar a patente de sua invenção, e os Lumière, com grana no bolso e olho lá adiante, registraram, e "a coisa é nossa, pronto, vamos filmar os empregados e ficar pra história"... suponho terem pensado e dito. Ou sim?
Em tempo: o cachorro que aparece logo no início foi o primeiro animal do cinema, depois os cavalos no final...

musa dos meus olhos



“Artistas reunidos por esses laços do destino que não compreendemos muito bem, mas que deixam sempre o rastro de uma misteriosa conspiração a favor da beleza.”
Trecho do texto O Pessoal do Ceará e a Minha Praia Lírica, da cantora e compositora Mona Gadelha, sobre o disco Meu Corpo, Minha Embalagem, Todo Gasto na Viagem, inserido no livro 1973 – O Ano Que Reinventou a MPB, 2013, organizado pelo jornalista Célio Albuquerque.
Gravado pela então Continental, o LP reúne composições de Ednardo, Ricardo Bezerra, Fagner, Rodger Rogério, Dedé Evangelista, Tânia Araújo, Augusto Pontes, e a clássica Dono dos seus olhos, de Humberto Teixeira, inserida como canção referencial.
Interpretada por Téti, a beleza da voz e da doçura que a letra expressa, fizeram da composição uma faixa organicamente própria da natureza e proposta conceitual do disco, do que veio a se chamar Pessoal do Ceará.
A história de Téti na música cearense é de uma importância que merece todas as atenções e aplausos. Tanto pela grande cantora que ela é quanto pela presença afetiva em fatos, episódios e períodos significativos que construíram nossa música, como o participação no evento e disco Massafeira Livre, em 1979.
A lindíssima canção Barco de cristal, com dolência de fado, de Rodger Rogério, Clodo e Fausto Nilo, tem uma história interessante de composição: no começo dos anos 70, numa noite fria na cidade de São Paulo, no apartamento onde os dois primeiros moravam, os autores entraram pela madrugada entre acordes e doses de vinho colocando a melodia na letra de Fausto, que chegara encantado e inspirado com o filme Amarcord, de Fellini. Na manhã seguinte, não lembraram de absolutamente nada do que criaram. Teti lembrava de tudo, e cantou pra eles. Em 1979, em seu primeiro disco solo, Equatorial, a cantora gravou a canção com sua voz de cristal.
Hoje Teti apresenta-se no Cineteatro São Luiz, em Fortaleza, com o show Reinvenção. Meu coração lhe abraça, Teti, minha musa primeira das canções cearenses.

do coração e da alma

“O livro está lindo tanto visualmente quanto o conteúdo. Já li inteiro, apesar de eu achar que poesia não é pra se ler de uma vez, mas eu não conseguia parar, terminava um poema e começa outro. Eu li em duas tacadas! Agora vou deixar como um livro de “consulta”, pra ir lendo novamente, de um e um, sem necessariamente ser na ordem, mas como tem a divisão das seções, eu fiquei muito faminta pela leitura. Tudo que está ali vem do coração e da alma. Parabéns! Parabéns!”

- Christina Fuscaldo, jornalista, escritora, Mestra em Literatura, Cultura e Contemporaneidade, PUC-Rio, autora dos livros Discobiografia Legionária, 2016,Discobiografia Mutante, 2018
Poesia provisória, Nirton Venancio
Editora Radiadora, 2019
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica

À venda:
Livraria Pensar, Sobral, CE
Livraria Lamarca, Fortaleza, CE
Editora Radiadora / Alan Mendonça 85-999442220


Próximo lançamento: 
Brasília: Bar Beirute Sul, 8 de abril, 19h

quinta-feira, 21 de março de 2019

low profile

foto Elzbieta Lempp
"A verdade é que não se sabe muito sobre a sua vida privada, que ela sempre tentou preservar. Não se coloca no papel de celebridade literária, dessas que aparecem na televisão e opinam sobre os mais diversos assuntos. Também não gosta de dar entrevistas. Uma vez declarou: 'Minha vida está nos meus versos.'"
- Regina Przybycien, tradutora, no prefácio do livro Wislawa Szymborska [poemas], 2011.
A poeta polonesa, falecida em 2012 aos 88 anos, foi Prêmio Nobel de Literatura 1996.

o sol nasceu quadrado


"Tem que manter isso aí, viu?"

outuno no cinema



“Já é outono. As temperaturas tendem a baixar e o clima fica ideal para a sala de cinema. A profissão de ‘lanterninha’ não existe mais há muito tempo, mas a figura do profissional que vinha com sua lanterna, clareando o caminho na sala escura para que a gente achasse nosso lugar, ficou eternizada na memória dos cinéfilos mais antigos. Provavelmente essa figura inspirou o título da nova coluna aqui do site que se chama: Lanterna Mágica. O titular dela é Nirton Venancio, multi talentoso cearense que aceitou nosso convite para vir somar e, mensalmente, trazer um artigo sobre uma de suas grandes paixões: o cinema.”
Texto de abertura de Klaudia Alvarez, editora do site Filipe Catto Em Foco, sobre a minha estreia na página.
Depois da também estreia na Revista Macarajá , suplemento literário mensal no jornal O Povo, Fortaleza, editado por Raymundo Netto, somo e abro mais uma janela para a reflexão através da literatura, da arte como resistência nestes tempos bizarros e toscos em que vivemos.

quarta-feira, 20 de março de 2019

o outro lado do poema

O poeta mexicano Octavio Paz dizia que “o poema é uma obra sempre inacabada, sempre disposta a ser completada e vivida por um novo leitor”.
Beatriz Neves, uma jovem estudante da cidade Sobral, CE, postou em seu story do Instagram, páginas do meu livro Poesia provisória. Um gesto simples que expressa valorização pela literatura, numa convocação à leitura em poucas palavras, em rápidas imagens. Um aplicativo em uma rede social em saudável uso nos costumes modernos.
É o poema que se completa. É a poesia vivida e permanente.

equação

"Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que diz respeito ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta." 
- Albert Einstein

Uma máxima adequada para comemorar hoje os 103 anos da Teoria da Relatividade.
No Ano I da Era Tosca em que estamos vivendo no Brasil, Einstein continuaria com uma certeza absoluta.

a palavra precisa

Graciliano Ramos dizia que "a palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso, a palavra foi feita para dizer". E a precisão da obra do grande escritor alagoano é definição desse pensamento.

Graciliano está para a prosa assim como João Cabral de Melo Neto para a poesia. A síntese da palavra, a palavra certa na síntese, é o ouro verdadeiro que brilha em seus livros. A secura de sua literatura não é aridez, é concisão, é métrica em diálogos, é a dissecação dos sentimentos dos personagens e desenho definido dos conflitos, sem rodeios, a fundo. Graciliano é um minimalista do sertão, se destitui de excessos para fixar no âmago. Por isso sua palavra diz.

Vidas secas, publicado em 1938, por exemplo, é uma espécie de romance-haicai, pelo texto e os diálogos sincopados. E essa objetividade e determinismo do escritor, faz o leitor partícipe do destino daquela família de retirantes.

Assim como o romance citado, todos os livros de Graciliano têm essa beleza e esse olhar determinado da escrita. São Bernardo, Angústia, Caetés, Insônia, os memorialistas Infância e Memórias do cárcere, tudo, até mesmo a bela obra de correspondências, Cartas de amor à Heloísa, é de um esplendor poético impressionante pelo rigor das palavras.

Há 65 anos morreu Graciliano, aos 60. Precisamente.

palmas pra ela

Em 1988, a atriz Dina Sfat lançou Palmas pra que te quero, que ela chamou de minibiografia.

Escrito em parceria com a jornalista Mara Caballero, a atriz fez uma delicada e bem humorada retrospectiva de sua carreira artística, pontuando com sinceridade e sutileza fatos de sua vida pessoal, como o casamento com o ator Paulo José.

Dina decidiu com uma firmeza impressionante, sem autocomiseração, deixar para a posteridade o testemunho de um pensamento de amor pela arte, pela família, amigos, pelo país, ainda naquela época saindo de um período ditatorial. Sabia que não tinha muito tempo: faleceu no ano seguinte, no dia 20 de março, aos 49 anos, de câncer de mama. Curiosamente no dia do aniversário de 52 anos do marido, que hoje completa 82.

tempo

Poema de Augusto Pontes, "psicografado" por Romeu Duarte, numa noite na Embaixada da Cachaça, Fortaleza, 2019

medida da poesia

“Amigo Nirton Venancio, li e reli seus escritos. Foi bom me encontrar no poema ‘Medida’: versos quando soltos, largos a me levarem a estradas cheias de emoção. Chorei e me emocionei e rabisquei em mais da metade das páginas. Pura explosão de encanto. Seu livro é lindo. Sua poesia é clara! Inspirador!”
- Jorge Mello, compositor, cantor
Poesia provisória, Nirton Venancio

Editora Radiadora, 2019
Desenho da capa: Fausto Nilo
Prefácio: Carlos Emílio C. Lima
Textos da orelha: Suzana Vargas, Mona Gadelha, Ricardo Augusto, Rayanne Stec, Gildomar Marinho
Impressão e acabamento: Expressão Gráfica

À venda:
Livraria Pensar, Sobral, CE
Livraria Lamarca, Fortaleza, CE
Editora Radiadora / Alan Mendonça, 85-999442220


Próximo lançamento: 
Brasília: Bar Beirute Sul, 8 de abril

segunda-feira, 18 de março de 2019

depois do silêncio

"Com seu livro 'Poesia provisória', Nirton Venancio resgata a poesia cearense de um longo período de silêncio. Sua concisão, seu ritmo e seu verso pessoal sempre a serviço da coletividade mostram o extraordinário poeta que andava calado."
- Valdi Ferreira Lima, poeta, biógrafo, autor de Guardador de Raízes, Editora Radiadora, 2018
Poesia provisória, Nirton Venancio
Editora Radiadora, 2019

À venda:
Livraria Pensar, Sobral, CE
Livraria Lamarca, Fortaleza, CE
Editora Radiadora / Alan Mendonça, 85-999442220


Próximo lançamento: 
Brasília: Bar Beirute Sul, 8 de abril

decepção calorosa


a leveza do ser

Belíssimo trabalho do ferreiro e fotógrafo sueco Tobbe Malm. 
Ele humaniza pregos e parafusos.

Como bem observou uma vez a amiga Iolanda Lene, a primeira lembrança que vem é a fala de Macabéa para o namorado Olímpio em A hora da estrela, de Clarice Lispector: "Eu gosto tanto de parafuso e prego, e o senhor?"