sábado, 17 de agosto de 2019

Manifesto

MANIFESTO PÚBLICO EM DEFESA DAS ARTES, LIBERDADE E DEMOCRACIA

As organizações envolvidas no processo de produção do 3º Sertão & Diversidade - Festival Internacional de Curtas, reunidas na cidade de Quixadá, Ceará, dos dias 14 a 17 de agosto de 2019, vem através deste manifesto, convocar toda a sociedade brasileira a abrir os olhos para horizonte da produção cultural e audiovisual pela instauração de censura por parte do Sr. Presidente da República em declarada perseguição às populações ditas minoritárias, LGBTQ - Lésbicas, gays, sexuais, travestis, transexuais, e queers, população negra e mulheres.
O último episódio aconteceu na noite de 15/8/2019, durante sua 'live' semanal, quando o presidente anunciou o veto a quatro projetos audiovisuais com temática LGBTQ. Os quatro projetos eram finalistas do edital PRODAV 08 das TVs Públicas, lançado para séries de TV que concorriam na categoria Diversidade de Gênero, destinado especificamente para série de TV que abordassem a temática, e o quarto estava na categoria Sexualidade.
Além de anunciar a prática da censura, o que é inconcebível num estado democrático em que vivemos, o presidente escarneceu da temática das obras, bem como se valeu de expressões depreciativas ao anunciar seu veto a elas como "abortar a missão" e "mais um que foi para o saco".
O posicionamento do Presidente da República, em suas redes sociais, demonstra o interesse do seu governo em retirar a autonomia dos produtores e financiadores da cultura, tornando nítida a censura presidencial no âmbito da produção de arte como ferramenta de conhecimento e transformação social. Mais um vez, o Poder Executivo Nacional, baseado em motivação preconceituosa e ancorado no discurso de ódio de seu representante maior, ataca os princípios constitucionais expressos no Artigo 5º da Constituição Federal de 1988 e os preceitos fundamentais da administração pública.
Na contramão da construção dos processos de cidadania para brasileiros e brasileiras dos últimos anos, com suas estratégias de incentivo à produção cultural, de cidadania para LGBTQ e combate ao racismo, tal perseguição mostra a necessidade urgente de que tais atos de violação de direitos sejam demarcados juridicamente como atos de censura, racismo e LGBTfobia, que são inclusive praticados muitas vezes pelo Presidente da República, através de pronunciamentos em canais de comunicação não oficiais do governo, promovendo um verdadeiro "desmantelamento" na autonomia das organizações.
Reiteramos que a sociedade brasileira necessita se posicionar em favor da liberdade e da democracia e compreender que uma sociedade igualitária e solidária se constrói fundamentada no respeito às diferenças e à pluralidade de seu povo com suas particularidades, expressões culturais, religiosas, de gênero e de pensamento.

não nos afastemos

foto Rogério Reis, 1982
“Estou preso à vida e olho meus companheiros. 
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. 
Entre eles, considero a enorme realidade. 
O presente é tão grande, não nos afastemos. 
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Oportuno trecho do poema Mãos dadas, de Carlos Drummond de Andrade, publicado no livro O sentimento do mundo, 1940.
32 anos hoje sem o poeta. 32 anos que sua poesia nunca se afastou. A vida inteira de mãos dadas.
foto Rogério Reis, 1982

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

campo minado

"Um poeta sentado é sempre um poeta em pé de guerra."
Haroldo de Campos fotografado Eder Chiodetto, 1999, em sua "bibliocasa", como ele chamava local onde morava, no bairro Perdizes, São Paulo.
16 anos hoje sem o poeta.

encruzilhada do blues

Assim como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Pete Ham, Jim Morrison, Brian Jones, Nat Jaffe, Gary Thain, André Pretorius, Alan "Blind Owl" Wilson, Kurt Cobain, Jacob Miller, Amy Winehouse, o bluesman Robert Jonhson se foi aos 27, há 80 anos, de uma dose de whisky envenenado por um marido ciumento.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Era de Aquário

"Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música", assim foi anunciado o maior evento da música popular, o Woodstock, que começou em 15 de agosto de 1969, na cidade de Bethel, estado de Nova York.
Uma multidão de mais 400 mil com o dedo em V, cabelo ao vento, gente jovem reunida, e o cartaz de mais de trinta músicos... Jimi Hendrix, Janis Joplin, Richie Havens, Arlo Guthrie, Joan Baez, Santana, Creedence Clearwater Revival, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Johnny Winter, Crosby, Stills, Nash & Young, entre outros
.
Muitos recusaram os convites, pelos mais variados motivos. Dos Beatles, dizem que John Lennon exigiu que tocasse com ele a Plastic Ono Band; Led Zeppelin achou que seria apenas mais uma banda se apresentando; o inocente empresário do Jethro Tull argumentou que teria muita droga e sexo; The Doors não foi porque falaram que Jim Morrison estava inseguro diante tanta gente; o filho de Bob Dylan adoeceu poucos dias antes...

Woodstock ficou marcado como um retrato comportamental, exemplificou a era hippie e a contracultura do final dos anos 1960 e começo de 70. E isso não é pouco.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

poesia na Bienal


crase

Ameaçam-me 
atear fogo
às vestes e às paixões

se não calo o canto
se não sigo as setas
se não cesso os beijos

isso quando mais ardem
fora e dentro de mim
as vestes e as paixões.

Jogo meu corpo 
em praça pública,
jogo minha alma
em graça pública.

Por isso,
dobro o canto,
e bêbado de beijos,
não me dobro às setas.

reconstruir as nuvens

"Caro Nirton,
Tenho em mão o seu "Poesia provisória', um verdadeiro Rubaiyat de lirismo encantador.
Nele encontrei preciosas imagens de profundo significado sentimental: Esse trabalho de 'resgatar o luar'. 'O pássaro solto no coração'. Essas imaginações de 'ponte entre a saudade e a esperança', esse 'amor que insiste num porto de mar' para a navegação do sentimento. 'As tardes que se diluem em mormaço e solidão'. O momento de flutuação serena que 'conduz ao sempre'. O dom de 'escrever poemas para atravessar os dias', 'reconstruindo as nuvens' da ausência e 'o gosto eterno de cada instante'.
Que agradável ocasião de reviver as expressões mais belas da sua alma de grande artista da palavra!"
- Marcio Catunda, poeta
Meu caro Marcio, seu precioso comentário com a menção ao 'Rubaiyat' de Omar Khayyam, é muito gratificante🙏

sábado, 10 de agosto de 2019

bússola

O que pressinto
me guia.
O que aparece
desconfio.

O que desejo
me norteia.
O que sugere
me previno.

O que choro
me revela.
O que sorrir
me resguardo.

O que escrevo
me entrega.
O que apago
me devolve.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

nature boy

“There was a boy / a very strange enchanted boy… / a little shy and sad of eye…”
Versos da canção Nature boy, composta em 1948 por Eden Ahbez, músico que nos anos 60 influenciou o movimento hippie com suas canções, angústias, rebeldia e esperança.
Já nos anos 40, Ahbez viajava de bicicleta pelas estradas da Califórnia... barbas longas, cabelos nos ombros, sandálias, dormia ao ar livre com a família, vegetariano, alimentava-se de legumes, frutas e nozes... vivia numa boa com três dólares por semana.
Admirador de Nat King Cole, uma noite Eden Ahbez foi ao Lincoln Theatre onde o cantor de voz aveludada se apresentava e tentou lhe entregar uma canção feita inspirada no amigo William Pester, o cara que na verdade já trazia os traços da filosofia paz & amor, um alemão naturalizado americano, conhecido como “eremita de Palm Spring”. Seu pensamento libertário hoje pode ser definido como uma ligação dos reformadores germânicos do século 19 com a garotada hippie contestadora dos anos 60.
Eden Ahbez compôs Nature boy e desejava Nat King Cole para interpretá-la, que naquela noite o ignorou. O autor deixou a canção com o manobrista do teatro, que repassou depois ao destinatário, e ao ouvi-la, de imediato decidiu gravá-la no próximo disco.
A música é um divisor na carreira de Nat King Cole, tornando-se praticamente uma marca registrada em seu vasto repertório. Dezenas de versões foram gravadas nessas décadas, de Frank Sinatra e Sarah Vaughan, passando por Miles Davis, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Cher, Massive Attack, David Bowie, até chegar em seu ótimo e surpreendente disco, Cheek to cheek, 2014, em dueto com Tony Bennet. Em 1979 Ney Matogrosso gravou a versão feita por Caetano Veloso, Encantado, no disco Seu tipo.
Mesmo com o bom retorno financeiro do sucesso de Nature boy e consequentemente outras composições nas vozes de famosos, Eden Ahbez manteve-se um rapaz da natureza, em sua simplicidade e filosofia oriental, tocando com sua banda instrumental. Gravou um único disco, Eden's Island, em 1960, uma espécie de música exótica com poesia beatnik, algo como hoje se rotula "world music". Fiel ao seu estilo o dedo em V e cabelo ao vento, Ahbez promoveu o álbum através de um passeio a pé de costa a costa fazendo aparições pessoais.
O músico teve momentos marcantes de tristeza: as mortes da esposa em 1963, por leucemia, e de seu filho, afogado aos 22 anos, em 71. Ele mesmo teve um fim trágico aos 86, em 1995, ironicamente de acidente de carro, assim como James Dean, admirador confesso de Nature boy, que considerava a canção uma perfeita tradução da sua vida. Dean, Ahbez, Pester, são desses seres que viveram no tempo e à frente dos tempos.
Místico, o músico dizia que seu nome e sobrenome traziam uma bênção, um destino: Eden é Paraíso, Ahbez inicia com A (alfa), termina com Z (ômega) > o começo e o fim.

pedestrian crossing

"eu sou da América do Sul, eu sei, vocês não vão saber..." *
Hoje, 50 anos da famosa capa do LP Abbey Road, dos Beatles, com a foto de Iain Stewart Macmillan.
* versos da canção Para Lennon e McCartney, de Fernando Brant, Marcio Borges e Lô Borges, gravada por Milton Nascimento no disco Milton, 1970.
De Liverpool ao Clube da Esquina, a música sintoniza e atravessa todas as faixas do coração.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

os olhos de Toni

foto Timothy Greenfield-Sanders, 2013
No foto Timothy Greenfield-Sanders, 2013final dos anos 60, um grupo de poetas, contistas, cronistas, reunia-se na Universidade Howard, em Washington, para discutir literatura. Uma das integrantes, professora de Língua Inglesa, apresentou um conto sobre uma garota negra que sonha em ter os olhos azuis. O instigante tema reverberou em longos dias de conversas e serviu de base para o primeiro romance da autora, Toni Morrison, em 1970, então com 50 anos de idade e uma longa carreira acadêmica.
Os olhos mais azuis é uma obra de estreia de uma escritora que praticamente marcou, deu voz e vez à literatura negra norte-americana e ao ativismo político social. A escritora e educadora Toni Cade Bambara, falecida em 1995, possivelmente seja a primeira associação que se faça a sua xará. Bambara desenvolveu sua literatura em pontuais questões de consciência racial e feminismo.
A atuação da professora, filosofa e ativista Angela Davis é outro exemplo da importância da literatura e pensamento de Toni Morrison sobre o que os críticos apontaram como "feminismo pós-moderno", ao se referir à maneira como a escritora altera as dicotomias euro-americanas e reescreve a história contada pelos livros.
A citada primeira obra de Toni Morrison narra a trajetória de uma garota que queria ter os olhos de Shirley Temple, a atriz mirim hollywoodiana dos anos 30 que quando adulta tornou-se embaixadora em Gana e Checoslováquia. Pecola Breedlove, a personagem do livro, é uma menina negra e pobre. Sofre preconceito até mesmo de colegas na escola que têm a pele menos escura. A mãe trabalha para uma família branca. Nos aniversários ganha bonecas brancas com os olhos de Temple, canecas com o rosto de Temple, revistas com estampa de Temple. A cor negra é invisibilidade e deboche ao mesmo tempo e realidade. Aos doze anos de idade engravida, é banida da escola e afunda na loucura.
Os onze romances seguintes de Toni Morrison, além de peças teatrais, livros infantis, artigos, ensaios, toda sua obra, no fundo, no que tem mais anímico em sua criação literária, traz uma espécie de biografia de uma raça, um delirante e consciente desejo de luta, redenção e justa ascensão social.
Não à toa, Morrison foi a primeira escritora negra a receber o Nobel de Literatura, em 1993, como reconhecimento por "dar vida a aspectos essenciais da realidade americana”, como fundamentou a organização do Prêmio pela escolha.
Toni faleceu hoje aos 88 anos. Uma vida bem vivida em sua luta permanente, de olhos bem abertos.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

bagagem

Dentro de mim
cabe uma cidade
outra cidade
e mais uma cidade...

dentro de mim 
cabe o universo 
e mais o vilarejo onde nasci.

domingo, 21 de julho de 2019

guarde uma frase pra mim dentro de sua canção

Em meados dos anos 90 a cantora Amelinha encontrou com Belchior nos bastidores de uma emissora de televisão em São Paulo. Na alegria das conversas abraçadas de conterrâneos quando se encontram, o cantor comentou que gostaria muito de ouvir na voz dela uma canção que gravou em 1987, De primeira grandeza, no disco Melodrama.
O tempo passou. Em 2000 a cantora pensou em incluir a canção no CD Ednardo, Amelinha & Belchior - Pessoal do Ceará, mas não cabia dentro da proposta do disco.

Belchior sumiu em seu exílio voluntário e voltou de uma forma que não desejávamos. “Fiquei sete dias muda, quieta, chocada e com um vazio enorme no meu peito”, disse Amelinha, expressando um sentimento de todos nós.
Em agosto de 2017, quatro meses depois da morte de Belchior, a convite do produtor Thiago Marques Luiz, Amelinha segue para a cidade Piracaia, São Paulo. No Estúdio Canto da Coruja, situado num bucólico sítio, passa quatro dias gravando o álbum “De primeira grandeza – as canções de Belchior, com direção musical de Estevan Sincovitz. O disco é belíssimo, um dos melhores de Amelinha, com sua voz cada vez mais afinada e anímica. Estão lá dez canções preciosas, incluindo uma das poucas conhecidas de Belchior, Incêndios, parceira com Petrúcio Maia, gravada por Fagner no disco Romance no deserto, 1987.
Belchior estava certo na intuição: a interpretação de Amelinha em De primeira grandeza é de uma beleza e simetria impressionantes, condizendo com a letra quando o autor diz “Quando eu estou sob as luzes / não tenho medo de nada / e a face oculta da lua - que é a minha! / aparece iluminada. / Sou o que escondo - sendo uma mulher / igual a tua namorada / mas o que vês quando me mostro – estrela / de grandeza inesperada.”
Hoje é aniversário de Amelinha. Ontem estreou em Niterói o show com as canções de disco. Um presente de primeira grandeza de Belchior para a amiga.
Parabéns pelo seu dia todos os dias, Amelinha, flor da paisagem das canções cearenses nordestinamente brasileiras.

poesia na cidade

"Meu irmão, acabei de ler tua 'Provisória poesia', permanente!
Feliz demais de conhecer teus versos, e poder ser marcado pelo teu lirismo seco.
Gratidão, Nirton"
- Mailson Furtado, Prêmio Jabuti de Poesia 2018
Meu caro Mailson, sua leitura é meu prêmio Jabuti. Gratidão!

sexta-feira, 19 de julho de 2019

turnos da poesia

"Um dos meus deleites, no meu quarto, é recitar poesias deitado na cama, antes de dormir. Procuro fazer ecoar as palavras de modo a encontrar a sonoridade delas; sua musicalidade nas frases e adequá-las ao sentido que elas parecem revelar.
Meu amigo e poeta Nirton Venancio publicou este ano mais um de seus livros de poesias: 'Poesia Provisória', da Editora Radiadora.
São versos de uma clareza, de uma espontaneidade que parece ter sido cautelosamente pensados e sentidos.

As emoções do poeta que revelam uma solidão com riso n’alma.
Percebe-se que há uma vontade dele brincar com a 'forma' das palavras, embora o sentimento deve exprimir a ideia de cada estrofe num tema proposto dos insights que tocaram o autor, exigindo do poeta a autenticidade daquelas palavras ao conteúdo do tema que elas brotaram com vidas próprias. Tive a liberdade de recitar uma, de tantas que me afinei."

- Fernando Rocha, antropólogo

quinta-feira, 18 de julho de 2019

balcão de negócios

"É uma forma de se desresponsabilizar pelo financiamento público do ensino superior", disse o sinistro da deseducação ontem no lançamento do "projeto" Future-se.

a voz de Billie

A cantora fotografada por William P. Gottieb, 1947
O que particulariza o estilo de Billie Holiday é a essência de sua interpretação. Sua conturbada vida parece desfolhar-se em cada canção, não somente pelas letras das músicas, mas pela maneira como essas melodias saem da sua alma, são extraídas lá do mais íntimo do coração. "My heart is sad and lonely", "my life a wreck you're making", "life's dreary for me", como canta em Body and soul, de 1957, uma das mais amarguradas e expressivas de sua vida, não à toa, regravada por Amy Winehouse em Lioness: Hidden Treasures, disco póstumo de 2011, em duo com Tony Bennett. Era a música e o cantor preferidos da mãe de Amy. Era a música com a cantora preferida de Amy.
Quando Billie Holiday nasceu, seu pai, um tocador de banjo, tinha apenas quinze anos de idade e sua mãe não mais do que treze. O pai abandonou a família e a mãe deixava a filha bebê com parentes. Negra, pobre, desamparada, Billie amargou infortúnios logo cedo. Foi violentada aos dez anos de idade por um vizinho. Internou-se em casa de correção, lavou chão de prostíbulo, e virou prostituta aos catorze anos, em Nova Iorque. Isso nos anos 20. Na década seguinte começou como cantora, quando foi descoberta por um pianista em um bar do Harlem. Sua voz conquistou nomes como Benny Goodman, Count Basie, Artie Shaw, Duke Ellington e Louis Armstrong. Fez concertos com todos eles.
Nos anos 40, Billie entrou numa de ruim pra pior. Passando por vários momentos de depressão, afundou-se no álcool e drogas pesadas. Um caminho sem volta. Morreu com apenas 44 anos de idade.
Muitas dessas revelações corajosas, sem autocomiseração, estão na autobiografia Lady sings the blues, publicada pouco antes de sua morte, que hoje completa 60 anos.

terça-feira, 16 de julho de 2019

aparelhamento do Estado

Presidente do STF atende pedido do filho 01 e suspende apurações com dados do Coaf e do Fisco sem aval judicial. Aqui.

sem aspas

Nunca pensei que um dia compartilharia uma fala de Reinaldo Azevedo...

mediocridade procede ao desmonte de conquistas

foto ©Bob Sousa
Lúcido, oportuno e urgente artigo de Renato Janine Ribeiro, ex-ministro da Educação do governo Dilma Roussef, professor titular de Ética e Filosofia Política da USP, publicado hoje na Folha de São Paulo:
A FLIP E O FASCISMO
Vários amigos, embora tenham horror ao atual governo, não se preocupam muito: pensam que em quatro anos as eleições o substituirão. Alguns acrescentam que o Brasil assim aprenderá melhor o valor da democracia.
De minha parte, entendo que eles subestimam a destruição do tecido social e político, a liquidação da vida inteligente e da vida mesma, que está sendo efetuada prioritariamente nas áreas da educação e do meio ambiente.
Debate-se muito o que é fascismo. Porém alguns pontos são fundamentais nesse regime, talvez o mais antidemocrático de todos, que não é apenas um exemplo de autoritarismo.
Primeiro, o fascismo conta com ativo apoio popular. Tivemos uma longa ditadura militar, mas com sustentação popular provavelmente minoritária e seguramente passiva. Mesmo no auge de sua popularidade — o período do “milagre”, somando general Médici, tortura e censura, tricampeonato de futebol e crescimento econômico — não houve movimentos paramilitares ou massas populares saindo às ruas para atacar fisicamente os adversários do regime.
Hoje, há.
Daí, segundo, a banalização da violência. Elas deixam de ser, na frase de Max Weber, monopólio do Estado, por meio da polícia e das Forças Armadas: os próprios cidadãos, desde que favoráveis ao governo, sentem-se autorizados a partir para a porrada.
O ataque à barca em que estava Glenn Greenwald em Paraty é exemplo vivo disso.
O que distingue o fascismo das outras formas de direita é ter uma militância radicalizada, ou seja, massas que banalizam o recurso à violência. O fascismo já estava no ar uns anos atrás quando um pai, andando abraçado com o filho adolescente, foi agredido na rua por canalhas que pensavam tratar-se de um casal homossexual.
Terceiro: essa violência é usada não só contra adversários do regime — a oposição política— mas também contra quem o regime odeia. Não foca apenas quem não gosta do governo. Mira aqueles de quem o governo não gosta. No nazismo, eram judeus, homossexuais, ciganos, eslavos, autistas. No Brasil, hoje, são sobretudo os LGBTs e a esquerda, porém é fácil juntar, a eles, outros grupos que despertem o ódio dos que se gabam de sua ignorância (‘fritar hambúrguer’ é um bom exemplo, até porque hambúrguer não se frita, se faz na chapa).
Quarto: o ódio a tudo o que seja inteligência, ciência, cultura, arte. Em suma, o ódio à criação. Não é fortuito que Hitler, que quis ser pintor, tivesse um gosto estético tosco, e que o nazismo perseguisse, como “degenerada”, a melhor arte da época. É verdade que os semifascistas Ezra Pound e Céline brilham no firmamento da cultura do século 20 —mas são agulha no palheiro.
Antonio Candido uma vez escreveu um manifesto dos docentes da USP criticando a “mediocridade irrequieta” que comandava a universidade. Um colega discordou: a mediocridade nunca é irrequieta! Mas Candido tinha razão. A mediocridade procede hoje, sem pudor, ao desmonte de nossas conquistas não só políticas e sociais, mas culturais e ambientais.
A irracionalidade vai a ponto de algumas dezenas de paratienses tentarem sabotar a Flip, que dá projeção e dinheiro para a cidade. Essa é uma metáfora de um país que namora o suicídio.
Salvemos a vida, salvemos a vida inteligente! Construamos alternativas e alianças para enfrentar essas ameaças. Não temos tempo de sobra.
foto ©Bob Sousa

sambista de valor

"Não tenho veia poética, mas canto com muita tática,
não faço questão de métrica, mas não dispenso a gramática"

Trecho com muita poética de O que vier eu traço, samba de 1926, de Alvaiade, batizado Oswaldo dos Santos, um dos maiores compositores brasileiros, carioca da gema, sambista de primeira ligado a Portela, exímio orador, tocava vários instrumentos, do cavaquinho a percussão.
A composição, em parceria com Zé Maria, ficou célebre com a ótima interpretação de chorinho apressado de Ademilde Fonseca, em gravação nos anos 40. As novas gerações conhecem a versão em “beat acelerado”, também admirável, de Baby ainda Consuelo, em disco que tem o título da música, de 1978. E, entre outras interpretações, a turma mais recente, das rodas de bamba e plataformas digitais, ouviu na simpática voz da sambista Teresa Cristina.
Clássicos como esse dignificam nossa rica música brasileira. E por trás de tanta beleza, métrica e gramática, muitos de nossos artistas do passado sobreviveram traçando com muita tática o que viesse de trabalho. Alvaiade segurava a onda e o tamborim do dia a dia, com um salário de tipógrafo.
Como bem cantou Paulinho da Viola em 14 anos, "sambista não tem valor nesta terra de doutor", quando faleceu em 1981, aos 68 anos, Alvaiade passava dificuldades, tinha uma aposentadoria mixuruca.
Seu corpo permaneceu dois dias no IML antes de ser reconhecido. E seu nome continua pouco reconhecido.

segunda-feira, 15 de julho de 2019

presente indicativo

foto Lyubomir Bukov
Um amigo me perguntou se já baixei o aplicativo de envelhecimento, para eu ver como serei daqui a não sei quanto tempo.
Não tenho a menor curiosidade em saber como serei bem velhinho, nem o que dizem as cartas do tarô, o desenho dos búzios, o que a cigana lê nas linhas de minha mão, nem como e quando partirei de vez na sombra sonora de um disco voador. E só irei porque não há outro jeito, por mim ficaria por aqui mesmo, apesar desses tempos.
Meu tempo é aqui e agora. Já me bastam no hoje as marcas do pretérito, as lembranças, principalmente as boas. Como disse o jornalista Alessandro Porro em sua biografia Memórias do meu século, “o passado é minha certeza.”

os bons companheiros


ao vivo é muito pior

charge Andre Dahmer
39 quilos de cocaína no avião da comitiva presidencial
Presidente faz propaganda de colar de nióbio no Polishop
Juiz da Lava Jato troca mensagens com procuradores da Força Tarefa
In Fux we trust
Estado Maior do Exército homenageia oficial nazista
Reforma da Previdência é aprovada em 1º turno na Câmara
Presidente promete um ministro "terrivelmente evangélico" no STF
General ministro da Secretaria de Governo diz que é uma soma de Davi, Salomão e José do Egito
Presidente defende trabalho infantil
Chapeiro de hambúrguer é indicado para a Embaixada do Brasil nos EUA
Procurador usa Lava Jato para lucrar com palestras
MEC anuncia privatização das universidades públicas
Aha! Uhu! O Fachin é nosso!
Etc etc etc...
charge Andre Dahmer

domingo, 14 de julho de 2019

o palestrante de 400k

Chats privados mostram que procurador debateu com colega a criação de empresa no nome de familiares.

nas asas da imaginação

Na lateral esquerda do encarte do vinil Cabelos de Sansão, de Tiago Araripe, há uma frase, que mesmo na descrição e discrição das letras miúdas, tem um significado de grandiosidade e definição da proposta desse álbum, um dos mais importantes da música brasileira: “O exercício da liberdade começa com a imaginação.”
Lançado em 1982, produzido pela Lira Paulistana Gravadora e Editora, o disco apresenta o cantor, compositor e instrumentista cearense, do Crato, como uma das grandes revelações de uma música inovadora, pulsante em pleno caldeirão caleidoscópico da Vanguarda Paulistana. Através de Tom Zé, Tiago logo foi reconhecido pelos poetas concretistas que permeavam as raízes daquele período da cena musical, como Décio Pignatari e os irmãos Campos, Haroldo e Augusto, e consequentemente pelos compositores Itamar Assumpção, Arrigo Barnabé, a turma do Premeditando o Breque...

Conceitual, o LP apresenta seis faixas de autoria de Tiago, três em parceria com Jorge Alfredo, José Luís Penna, Cid Campos, e uma versão de Little wing, clássica balada de Jimi Hendrix, do disco Axis: Bold as love, 1967. Com letra para o português de Augusto de Campos, a interpretação do Tiago adquire um ar de autenticidade pela maneira como entra nas asas da imaginação da canção. E assim é o disco todo.
O álbum foi relançado em CD em 2008, pelo selo Saravá Discos, de Zeca Baleiro, e recentemente disponibilizado em plataformas digitais.
Tiago Araripe passou um longo tempo noutras atividades ligadas a publicidade, e em 2013 lançou outro ótimo disco, Baião de nós, gravado em Recife, onde morou. Antes de seguir para Portugal ano passado, o compositor retomou o convívio em terras caririenses. A cearensidade está na alma de sua voz, nos acordes de suas canções.
Hoje, Tiago Araripe faz show em Fortaleza, trazendo na mala as viagens que fez pela música nesse tempo todo.

sábado, 13 de julho de 2019

marchinhas talquey

Familia Passos, talquey?,é um grupo composto por, como o nome diz, uma família: senhora Marília, professora aposentada, senhor Nilson Reni, metalúrgico aposentado, e as filhas Ísis, funcionária pública, Lígia, violonista e professora.
Eles moram em Curitiba, têm um canal no Youtube e uma página no Facebook com criativas paródias sobre a situação política.
O deboche crítico e saudável
No vídeo, uma compilação de marchinhas de carnaval atualizadas com os personagens almas sebosas.

o nome da pessoa

foto João Lima

"Lula recebe visita da viúva do escritor José Saramago"
- revista ISTOÉ, UOL Notícias

"Viúva de escritor José Saramago visita Lula em Curitiba"
- Metrojornal

"'Vi Lula como o líder que ele sempre foi', diz viúva de Saramago sobre visita ao ex-presidente"
- Folha de São Paulo

"Viúva de Saramago visita Lula"
- Jornal da Chapada, Bahia

As pessoas têm nome!
Respostando para contrapor às manchetes do patriarcado incrustado:
POR SI MESMA
"Não gosto que me chamem ‘viúva de’ porque ninguém me chamou ‘mulher de’ enquanto Saramago foi vivo. Isto por duas razões: porque tinham de enfrentar Saramago e tinham de me enfrentar a mim. Cada um de nós é o produto de si próprio. Não somos nem do pai nem do filho. Somos o que queremos ser. Nunca fui a mulher de Saramago nem serei a viúva dele, por respeito a Saramago e a mim própria."
- Pilar del Río, jornalista, escritora, tradutora espanhola, preside atualmente a Fundação José Saramago, em entrevista ao site Expresso, 2017.

rock perfumado

Na sequência da primeira foto, Ronald de Carvalho (baixo), Milton Rodrigues, o Mocó (bateria), Lucio Ricardo (voz), Siegbert Franklin (guitarra) Nélio Perfume (guitarra): eles formavam o Perfume Azul, a seminal banda de rock de Fortaleza. Som, pauleira, ousadia, nos anos nada dourados, 1976 e 1977.
Não gravaram LP, não registraram shows, mas estão cristalizados na lembrança de muitos que, como eu, não perdiam uma apresentação.
A cantora e compositora Mona Gadelha, que é igualmente parte importante desse período na história da música cearense, escreveu O Perfume Azul, artífice da ruptura: transgressão na cena rock de Fortaleza nos anos 70. dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Comunicação da Universidade Federal do Ceará, requisito à obtenção do título de Mestre, apresentada ano passado. Pelo valor da pesquisa, registro e conhecimento de todos, espero que seja publicada em livro.
Hoje, quando se comemora O Dia Mundial do Rock, data escolhida em referência ao evento Live Aid, minha homenagem ao Perfume Azul, uma banda-acontecimento na capital cearense.

reflexão sobre o caos

foto Eduardo Nicolau
Excelente, lúcida e oportuna reflexão do escritor Milton Hatoum sobre e sob esse pesadelo em que estamos vivendo no Ano I da Era Tosca, publicada em sua página no Facebook:

QUANDO O FOGO É PRISIONEIRO DA FOGUEIRA...

"O desgoverno é um caos calculado. Quase todos os dias é preciso plantar disparates, semear intrigas e gerar confusão. Essa lógica perversa é necessária para alimentar um incêndio sem fim, e fazer do fogo um prisioneiro da fogueira, como dizem os versos de João Cabral.
O antepenúltimo disparate do capitão reformado é a indicação de um ministro 'terrivelmente evangélico' da AGU para uma vaga no STF. Ou seja, o fanatismo religioso como (anti)critério de excelência profissional. Resta saber como um magistrado 'terrivelmente evangélico' daria um parecer jurídico num Estado laico. Ou seria o despacho de um juiz em estado de transe com o divino?
O penúltimo disparate do capitão foi a indicação do filho 03 para ocupar o posto de embaixador do Brasil em Washington. A filiação é o critério principal. A embaixada mais importante e a mais estratégica sob todos os ângulos pode ser dirigida por um neófito de extrema-direita. Neste caso, extremismo rima com nepotismo. Uma das qualidades do 03 é ter 'fritado hambúrguer' no Colorado, como ele mesmo declarou.
Parece um pastelão filmado no submundo de uma republiqueta desta América. Mas não é um filme de quinta categoria. Não se trata de obra ficcional. Se essa indicação for aprovada pelo senado, poderá gerar graves consequências para o país. Além disso, seria um insulto ao Itamaraty e à esmagadora maioria de seu corpo diplomático. E um insulto também à memória de grandes intelectuais e escritores que trabalharam no Itamaraty e honraram a cultura brasileira: Guimarães Rosa, João Cabral de Melo Neto, Antonio Houaiss, Vinicius de Moraes, entre outros. Sem falar dos romancistas, poetas e tradutores, na ativa e aposentados.
O caos, a desfaçatez, a provocação, as ameaças, a violência (não apenas verbal) e a arruaça são fundamentais para ofuscar o desgoverno e sua irrefreável sanha de destruição de algumas conquistas políticas, de bem-estar social e direitos humanos. Por isso, o incêndio não pode ser debelado.
No futuro, esse desgoverno será relegado à insignificância e à obscuridade. Quem interpreta e julga o passado não são legisladores divinos, e sim mulheres e homens no mundo terreno."
foto Eduardo Nicolau

quinta-feira, 11 de julho de 2019

vossas 379

Em 2005 a banda Titãs lançou o álbum MTV ao Vivo, em CD 20 faixas e no DVD, 25, onde reuniam composições dos três discos anteriores e mais algumas inéditas.
Uma delas, penúltima faixa do DVD, é a sintomática Vossas Excelências, composta em três dias por Paulo Miklos, Tony Bellotto e Charles Gavin, no auge do escândalo do mensalão.
À época algumas rádios em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro não tocavam a música por causa do palavrão no refrão que incomodou muitos parlamentares.
Em entrevista ao site Congresso em Foco, em 2006, Paulo Miklos disse que “o refrão indignado representa as palavras que todo mundo queria usar, expressa a vontade da população de xingar, botar pra fora o sentimento de indignação".
Atualizando o aplicativo da indignação, som nas caixas pras 379 vossas excelências que votaram a favor da “deforma” da Previdência.

aos 379

Festival de Música Popular da Rede Tupi, 1979, no Palácio das Convenções do Anhembi, SP.
Ziraldo apresenta o concorrente Walter Franco, com sua canção de revolta Canalha, um rock com sotaque de Black Sabbath, que ficou com o prêmio de 2º lugar. O 1º foi Quem me levará sou eu, de Manduka e Dominguinhos, interpretada por Fagner, e 3º, Bandolins, de Oswaldo Montenegro.

Walter Franco gravou Canalha no ano seguinte, no disco Vela aberta.
De lá pra cá, sempre oportuna. 
1979 > 2019 > 379 canalhas. 
É um grito que se espalha em primeiro lugar na transversal do tempo.

379


quarta-feira, 10 de julho de 2019

deforma da Previdência

Reforma da Previdência é aprovada em 1º turno na Câmara com 379 votos favoráveis e 131 contra

Os Sertões de todos os tempos

foto ©Eduardo Anizelli
Em palestra na sessão de abertura da Feira Internacional de Paraty – FLIP, hoje às 19h, a crítica literária e professora emérita da USP Walnice Nogueira Galvão, defende a leitura de Os Sertões, de Euclides da Cunha, 1902, para entender situação dos pobres no Brasil.
Alguns trechos de sua conferência:
“Enquanto o processo de modernização capitalista não acabar e se passar a uma nova fase histórica, o livro continua relevante para se pensar o país.”
“O livro serve para pensar na morte de jovens negros nas periferias do Brasil, no desastre em Brumadinho, ou na militarização do país.”
Fez um paralelo dos moradores de Canudos com o movimento dos sem-terra, que considera muito à frente do que Euclides da Cunha relatou no livro:
“Enquanto os moradores de Canudos, liderado por Antônio Conselheiro, se voltaram para dentro, os sem-terra invadem espaços dos outros e do poder. Eles são ativos.”
Apontou que a cobertura da Guerra de Canudos foi uma das maiores fraudes da história do Brasil, pesquisa que fez nos jornais da época e serviu de base para seu livro No calor da hora, publicado em 1994: “talvez tenha sido a primeira fraude, e vocês sabem que não foi a última”, disse, fazendo crítica ao Exército e à imprensa.
Walnice Nogueira é uma da maiores estudiosas de Euclides da Cunha e também de Guimarães Rosa. Além do livro citado, Euclidiana: Ensaios sobre Euclides da Cunha, de 2009, são leituras imprescindíveis para conhecer melhor, por um viés preciso, analítico, uma das obras-primas da literatura brasileira.
Euclides da Cunha é o autor homenageado na 17ª edição da Feira.

já que sou brasileiro




Repostando para sempre lembrar a beleza de nossos artistas:
A música não é dele, foi composta por sua esposa Almira Castilho e seu amigo Gordurinha, mas Chiclete com banana ficou como uma espécie de marca registrada de Jackson do Pandeiro.
O simpático e franzino paraibano já fazia sucesso no rádio e em shows, nas décadas de 40 e 50, com Sebastiana, A mulher do Aníbal, O canto da ema, e outros forrós aloprados, mas foi quando começou a mascar chiclete com banana que estourou definitivamente, e, pode-se dizer, criando de uma forma tosca e brincalhona o primeiro samba-rock.
Gravada em 1959, Chiclete com banana expressa em letra bem humorada e irônica a necessidade de manter a pureza da nossa música, sem influência de ritmos estrangeiros, mais exatamente da terra do Tio Sam, que só vai botar o bebop em nosso samba "quando ele tocar o tamborim / quando ele pegar no pandeiro e no zabumba / quando ele aprender que o samba não é rumba". Eles têm chiclete, e nós, yes! temos banana, que engorda e faz crescer. Então, cante lá, que eu canto cá.
À época da composição, o rock'n'roll reverberava pela América latina e Ocidente, refletindo não somente um gênero, também como comportamento de uma geração pós-Segunda Guerra, que veio explodir como um caleidoscópio cultural na década 60. As influências eram inevitáveis. Tanto é que o próprio Jackson do Pandeiro, batizado José Gomes Filho, logo no início da carreira adotou o "Jack" em homenagem a um ator de faroeste que ele adorava, Jack Perrin. O acréscimo do "son" foi ideia de um produtor, o Pandeiro, por ser o instrumento que ele começou a tocar, presente de sua mãe.
Alceu Valença costuma dizer que Luiz Gonzaga é o Pelé da nossa música, e Jackson, o Garrincha. E faz sentido essa analogia: os dribles e o domínio que o paraibano tem com os ritmos, ao longo de mais de trinta discos, é impressionante. Ele vai do forró ao samba, passando com a mesma verve de interpretação e personalidade, pelo baião, xote, xaxado, coco, arrasta-pé, quadrilha, marcha, frevo... Não à toa, ficou conhecido como "O Rei do Ritmo".
Em 1982, após um show em Brasília, Jackson sentiu-se mal no momento do embarque no aeroporto. Era diabético. Passou uma semana internado, faleceu em decorrência de embolia cerebral, no dia 10 de julho, em um hospital na W3 Sul.
E nosso samba ficou assim: "tururururururi bop-bebop-bebop / tururururururi bop-bebop-bebop /tururururururi bop-bebop-bebop..."