terça-feira, 31 de dezembro de 2019

2019 > 2020


Rita de Sampa

“Nascer no 31 de dezembro é sacanagem. Levo um ano literalmente nas costas para fazer aniversário e ouvir: ‘hoje a festa é sua, hoje a festa é nossa, é de quem quiser, quem vier’. Quando criança, o que me consolava era o ditadinho ‘os últimos serão os primeiros’, até que um primo engraçadinho riu na minha cara: ‘Sim, os primeiros a chegar por último!’”
- Rita Lee em Uma autobiografia, 2016.
72 anos da ovelha negra.
Bordado criado pela artista Carolina Daher, do ateliê No canto de Cá, Belo Horizonte, 2014

feliz ano velho

Há cinco anos o poeta cearense Mário Gomes foi poetar noutras dimensões. Mesmo que seu coração tenha parado numa cama de hospital, foi na rampa do Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura, em Fortaleza, que ele subiu, sumiu, e sua imagem se cristalizou num final de tarde.
Ninguém mais o despoetizará.

segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

poesia escolhida

O poeta goiano-brasiliense Salomão Sousa é um dos maiores conhecedores de literatura. Autor de mais de dez livros, participação em antologias, premiado em diversos concursos nacionais, membro da Associação Nacional de Escritores, ter um livro lido por ele é sempre uma honra.
Imensa gratidão, caro poeta, por destacar meu livro, Poesia provisória, em sua privilegiada lista do ano.
Sua escolha é um prêmio!

aquela estrela é a dele

Augusto Pontes, pensador, jornalista, professor, publicitário, poeta, frasista, provocador, boêmio... Guru de toda uma geração da cultura cearense que se fez nos anos 60, 70, 80, 90... de sempre, faria hoje 84 anos.
É dele o verso “Vida, vento, vela, leva-me daqui”, uma beleza de aliteração inserida na letra de Mucuripe, de Fagner e Belchior, assim como “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem parentes importantes” foi inspirada em “Eu sou apenas um rapaz latino-americano sem parentes militares”, que Augusto disse em seu discurso de posse como professor de Comunicação da UnB, no começo da década de 70. Na plateia, o conterrâneo Belchior.
O que se denominou na música cearense como Pessoal do Ceará, deve-se muito a ele. Não somente como pensamento, também como autor de centenas de letras conhecidas, como, Lupiscinica, musicada por Petrucio Maia, Carneiro, por Ednardo, com quem criou o Massafeira Livre, evento de quatro históricos dias, noites e madrugadas no Theatro José de Alencar, em Fortaleza, que revelou dezenas de cantores, compositores, poetas, fotógrafos, artistas plásticos, uma infinidade de talentos da cena artística cearense de 1979.
Em maio de 2010, um ano após a sua morte, a ótima revista Aldeota, criada pelo publicitário Fernando Costa, dedicou sua 13ª edição a ele. Artigos assinados pela ensaísta e historiadora Isabel Lustosa, os jornalistas Augusto Cesar Costa, Alexandre Barbalho, Paulo Linhares, o arquiteto, urbanista e compositor Fausto Nilo, pontuam referências e reverenciam a genialidade de Augusto Pontes.
A foto de capa é de Gentil Barreira, durante a gravação do disco Massafeira.

já é outra viagem

“Não me sigam que eu também estou perdido. Ou façam ou descubram o próprio caminho. Façam como eu, inventem. Ou melhor, não façam como eu, inventem. ”
- Belchior em entrevista ao jornalista Josué Mariano, em seu escritório, São Paulo, 2002.
Onze anos depois, o cantor em seu exílio voluntário em Passa Sete, RS, fotografado por Ingrid Trindade.
Dois anos e oito meses hoje que ele está encantado como uma nova invenção.

domingo, 29 de dezembro de 2019

quarto de hotel

“Estou triste, tão triste / e o lugar mais frio do Rio é o meu quarto...”
- Caetano Veloso em Estou triste, do álbum Abraçaço, 2012.

O cantor no frio de um quarto de hotel em Santiago, Chile, 2016, dedilhando os olhos tristes da canção I only have eyes for you, de Harry Warren e Al Dubin, 1934.
A solidão das pessoas nessas capitais, como dizia um antigo compositor cearense.

três dezembros

publicado no jornal Correio Braziliense, 29/12/2016

vale quanto tem

Trecho da fala do personagem Ethan, em O Inverno de Nossa Desesperança, do norte-americano John Steinberg, publicado em 1961.
O livro explora os conflitos internos e o desencanto do protagonista, que vive o dilema de violar seu código moral para ganhar dinheiro e conquistar a admiração familiar.
Steinberg com uma destreza cirúrgica, faz uma dissecação na hipocrisia da sociedade contemporânea, que classifica os valores humanos pela conta bancária. O livro é recheado de diálogos precisos, como "o dinheiro não transforma as doenças, apenas os sintomas."
Autor de outras obras-primas, Vinhas da Ira, Pérola, Homens e Ratos, Desesperança deu a Steinberg o Prêmio Nobel em 1962, reafirmando como um dos maiores escritores do século XX.
O título é uma referência à peça Ricardo III, de Shakespeare.

meias três quartos

18 anos sem a garotinha desbocada que não se enquadrava na mesmice da música 'prapular' brasileira.

sábado, 28 de dezembro de 2019

a voz das palavras

foto Edward Kaprov, 2015
Em 2007, o escritor, ativista e pacifista israelense Amós Oz, escreveu a autobiografia Um conto de amor e trevas, onde 120 anos de memória de sua família, com suas dores, vitórias e paradoxos, alinham-se à turbulenta história de seu país.
Celebridades materializam-se em personagens autênticos, de David Ben-Gurion, um dos fundadores do estado de Israel, ao lendário líder das organizações clandestinas e primeiro-ministro Menahem Begin, passando pela grandeza da poesia hebraica moderna.
Amós Oz, um dos responsáveis pelo movimento Paz Agora, em que advogava pela solução de dois estados Israelense-Palestino, faleceu em 28 de dezembro do ano passado, aos 79. Enfrentava outra luta, contra um câncer.
Mesmo acusado de “traidor” por Israel, Oz mantinha-se contra invadir territórios e bombardear civis em nome do que o país chama de “seu Deus”. Humanista, dizia que sua qualificação para discutir política era ter ouvido para palavras, e que “eu ergo minha voz e grito sempre para combater uma linguagem corrompida.”
Seus livros são apaixonantes, admiráveis, como A caixa preta, 1987, Pantera no porão, 1999, o último, de 2014, Judas, onde através do amor entre um jovem estudante e uma bela e misteriosa garota, questiona as guerras e a fundação de Israel.
A citada autobiografia possivelmente tenha a densidade mais definida e reflexiva de toda sua obra. A atriz Natalie Portman estreou na direção, em 2015, com o tocante De amor e trevas, baseado no livro. A diretora surpreende com a literalidade narrativa do compromisso de Amós Oz com as palavras, com a história.
Livro e filme traduzem bem o sobrenome que o escritor adotou (ao deixar o de batismo, Klausner): força e coragem, o significado de Oz em hebraico.

pelos muros do país

Conic - Setor Comercial Sul - Brasília, DF

quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

plim-plim

“A única coisa que os militares conseguiram modernizar durante 20 anos de ditadura foi a imagem televisiva que o Brasil apresentava para o próprio Brasil, que é o que o Brasil acreditou (...) O papel da Rede Globo e das novelas da Globo em domesticar o Brasil durante a ditadura militar”
- Maria Rita Kehl, psicanalista e jornalista em entrevista à revista Caros Amigos, maio de 2009

quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

o aniversariante - 2

arte Nilton Fiore

o aniversariante - 1

arte Peta Venâncio

o aniversariante do dia


questão de fé


a história de Maria

A atriz Myriem Roussel no cartaz de Je vous salue, Marie, de Jean-Luc Godard, 1985. Maria grávida de José. Bendito é o fruto em Vosso ventre.
Ao transportar a história bíblica para a era moderna, o filme é uma visão polêmica do cineasta sobre a virgindade, gravidez, concepção divina, indo na contramão de todas as referências e cânones religiosos.
Foi proibido no Brasil durante o governo Sarney. Diz a lenda midiática que a interdição foi um pedido de Roberto Carlos diretamente à então primeira dama.
O ‘rei’ deve ter dito depois: “je vous salue, Marly Sarney”.

a história de Jesus

foto Pupi Avati
“E não sei bem se por ironia ou se por amor / resolveu me chamar com o nome do Nosso Senhor... Os ladrões e as amantes, meus colegas de copo e de cruz / me conhecem só pelo meu nome de menino Jesus...”

- Chico Buarque em Minha história, gravada no disco Construção, 1971, versão de Gesù bambino, de Lucio Dalla, classificada em 3° lugar no Festival de San Remo daquele ano.
Mesmo com o prêmio, ou também por isso, o autor foi censurado. A Itália vivia um tempo de turbulência sócio-política desde o começo dos anos 60, indo até final da década de 80, período que ficou conhecido como Anni di Piombo (Anos de Chumbo).
O cantor foi acusado de desrespeitoso por tratar de um tema que fala de uma mãe solteira e tem um filhinho a quem se chamava Jesus. Foi obrigado a mudar o título. Dalla colocou a data de seu nascimento, 4/3/1943. Mais direto, impossível.
No Brasil, a versão literal de Chico Buarque passou despercebida dos censores de plantão da ditadura Médici. Os néscios controladores desconheciam o que aconteceu com a canção italiana.

a história de José

Pintura São José, o Carpinteiro, de Georges de La Tour, 1640, atualmente no Museu do Louvre.
“Olhe o que foi, meu bom José / se apaixonar pela donzela / dentre todas a mais bela / de toda a sua Galileia...”
Trecho de José, versão de Nara Leão da música do egípcio-francês Georges Moustaki, disco Le Métèque, 1969.

A letra faz uma espécie de clamor pela sina do bom carpinteiro ter a responsa de ser pai do Salvador, o rebento sagrado que “andou com estranhas ideias / que fizeram chorar Maria...” A letra ainda questiona o vacilo de José, pois ele poderia “casar com Débora ou com Sara / nada disso acontecia / mas você foi amar Maria...”. Há uma leitura no subtexto que o filho não era dele, e sim do Espírito Santo. José foi o primeiro “pai de aluguel”.
No Brasil a música ficou conhecida no pouco conhecido primeiro álbum solo de Rita Lee, quando ainda estava nos Mutantes, Build up, 1970, produzido por Arnaldo Baptista e Rogério Duprat.
A interpretação da futura ovelha negra da música brasileira é singela, de uma candura que remete hoje à voz minimalista de Fernanda Takai. A faixa entrou no disco por insistência de Rita Lee, contrariando os produtores que consideravam que “pegava mal roqueristicamente falando.”
Build up, disputado como raridade no mercado cult dos vinis, é aquele em que a cantora está com franja e fazendo um leve biquinho de menina aborrecida.

terça-feira, 24 de dezembro de 2019

um girassol da cor do seu cabelo

No dia 23 de dezembro de 1888, em um momento de forte depressão, o pintor holandês Vincent van Gogh cortou um pedaço da própria orelha esquerda. Embrulhou em um lenço e levou para uma amiga, a prostituta Rachel, que desmaiou ao receber o mórbido presente natalino. "Guarde com cuidado", dizia um bilhete anexo.
Essa é a versão que conhecemos sobre o fato ao longo desses dois séculos. Em 2009, os historiadores suíços Hans Kaufmann e Rita Widegans publicaram o livro "Van Goghs Ohr, Paul Gauguin und der Packt des Schweigens" (em tradução livre, "A orelha de van Gogh, Paul Gaugin e o pacto de silêncio"), resultado de dez anos de pesquisa, e conta outra história para a atitude radical do pintor.
No bombástico livro, os autores apontam situações que em parte sabemos, a relação difícil de van Gogh com o pintor francês Paul Gauguin. Morando juntos por um tempo, os dois discutiam muito sobre conceitos e formas de criação artística, e suas teorias eram sempre incompatíveis. Van Gogh, de temperamento instável, não se conformava com o plano do amigo sair do atelier nos arredores de Paris e voltar para a capital. Queria mantê-lo sempre por perto. Gauguin era um exímio esgrimista, e numa violenta discussão o fere acidentalmente. Diante da tragédia, sem quererem repercussão, os dois fizeram pacto de silêncio. Apaixonado pelo amigo, van Gogh manteve a história de autoflagelo. Foi internado por um ano num hospício, e ao sair, no tempo que não se imaginavam as selfies, postou-se diante do espelho e pintou para a posteridade, e eternidade, o autorretrato reproduzido abaixo. O quadro encontra-se exposto no Instituto de Arte Courtauld, em Londres.
Van Gogh foi ao extremo: suicidou-se dois anos depois do acontecido. Tinha 37 anos.
O livro de Kaufman e Widegans, em uma investigação preciosa, baseia-se em inúmeras cartas de amigos e dos próprios pintores, relatórios policiais, escritos de testemunhas, notas de jornais. A leitura joga novas luzes sobre os girassóis e nos deixa com a pulga atrás da orelha - sem trocadilhos.

os invisíveis

charge Thomate

Natal Maravilha

A versão iconoclasta de Elke
Trecho da entrevista ao programa Amaury Jr., Rede TV, dezembro de 2010

domingo, 22 de dezembro de 2019

I'll sing you a song

Os sete minutos de Joe Cocker no filme Woodstock, de Michael Wadleigh, cantando With a little help from my friends, é um dos momentos mais marcantes do documentário sobre os três emblemáticos dias de paz, música e amor.
O vozeirão do cantor britânico, com essa mesma canção dos seus conterrâneos Beatles, do álbum Sgt. Pepper's Lonely Hearts Club Band, 1967, marcou igualmente pela abertura da série americana Anos Incríveis (The Wonder Years), que a TV Cultura exibia nos anos 90.
Joe Cocker, com sua voz gutural, sua performance energética, e seu tipo de anti-herói viking, era doce na mesma proporção quando falava de canções, de sua vida, de sua infância na Inglaterra, e como conseguiu superar os problemas com álcool e drogas nos anos 70.
Em agosto passado, 50 anos de Woodstock.
Hoje, cinco anos sem Joe Cocker.

sábado, 21 de dezembro de 2019

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

postal de amor



"Eu todo cheiroso a Lancaster e você a Chanel..."
- Reginaldo Rossi, em A raposa e as uvas, gravada no disco homônimo, 1982.
O chamado "rei do brega" imitava Elvis Presley em Recife no começo dos anos 60, influenciado pelos Beatles criou The Silver Jets e abria os shows de Roberto Carlos na época da Jovem Guarda.
Mas foram as canções de apelo popular, diretas na veia dos excluídos pela mulher amada, que fizeram a marca e notoriedade do cantor, em quase quarenta discos, principalmente nos anos 70 e 80.
Depois de um tempo afastado do que se chamava "hit parade", o retorno nos anos 2000 veio com tudo, trazendo o sucesso de 1987, Garçom, aquela canção que reverencia o santo paciente, que ouvia e consolava no confessionário do balcão de bar os bebuns apaixonados, os maiores abandonados, os chatos reincidentes.
A música além de ser trilha de uma novela na Record, foi regravada por cantores que deram uma aura "cult" na interpretação, como Otto, no álbum Reginaldo Rossi - Um Tributo, 1999, e Filipe Catto, no disco Fôlego, de 2011, que chegou a cantar no palco do Palácio das Artes, em Belo Horizonte, acompanhado pela Orquestra Sinfônica de Minas Gerais e Coral Lírico, na comemoração dos 45 anos da Fundação Clóvis Salgado, em 2015.
Reginaldo teria adorado ver e ouvir seu garçom em ambiente tão requintado, numa interpretação afinadíssima de Filipe Catto. Mas o cantor faleceu em 20 dezembro de 2013, aos 69 anos.
E no clima de requinte, Reginaldo merece esse postal francês dos anos 20, todo cheiroso a Lancaster.

quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

elogio ao poeta

Para mim poderoso é aquele que descobre as
insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

― Manoel de Barros, trecho do poema Tratado Geral das Grandezas do Ínfimo, publicado no livro homônimo, 2001.
Hoje, 103 anos significantes de seu nascimento.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

arte e poder

"Os interesses do Estado e das artes raramente coincidem"
Fala do filme Francofonia (foto), de Alexander Sukorov, 2015, um exemplar de considerações sobre arte e poder em uma fluente narrativa de documentário e ficção.
Os temas que se entrelaçam nas relações humanas e artísticas, da política e da história, da bestialidade das guerras e da eternidade da arte, têm o Museu de Louvre como guarda e detentor simbólico da civilização.
Uma oportuna reflexão para hoje quando se comemora o Dia do Museólogo.
Em setembro do ano passado um incêndio destruiu o Museu Nacional, na Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão, Rio de Janeiro. Fundado por Dom João VI no começo do século 19, os três andares abrigavam 200 anos de história. Documentos da época do Império, fósseis, coleções de minerais, artefatos greco-romanos e a maior coleção egípcia da América Latina viraram cinzas. A memória da geologia, botânica, zoologia e arqueologia. É o retrato do descaso do Brasil atual, com o poder usurpado por tosca alma sebosa, a educação sob a (con)gestão delirante de analfabeto funcional, a cultura entregue a vingativo dramaturgo com sérios distúrbios digestivos-cerebrais.
Exterminadores do futuro, ou parafraseando Millor Fernandes, temos um grande passado incendiado pela frente.

je ne regrette rien

foto Jean Philippe Carbonier, 1957
Edith Piaf interpretava e vivia cada palavra que cantava. Derramava seu coração em cada nota.
Non, je ne regrette rien, letra belíssima de Michel Vaucaire, musicada por Charles Dumont, gravada em 1960, é, sem dúvida, a canção que melhor exprime seu jeito de amar, viver e de ir embora.
Hoje, 103 anos de seu nascimento, sem arrependimentos, mesmo ao contrário do que dizia em outra canção marcante, “je vois la vie en rose...”, mesmo e apesar dos poucos e intensos 47 anos idos.

segunda-feira, 16 de dezembro de 2019

Massafeira na linha do tempo

A importância da Massafeira Livre como movimento musical em Fortaleza, que agregou diversos gêneros da cena artística cearense, situa-se na virada de uma década pulsante, 1979-1980, com o país ainda em convulsão político-social, com a entrada do último presidente do período da ditadura militar, o tremular vindouro das bandeiras da abertura política, da anistia, das diretas-já.

domingo, 15 de dezembro de 2019

na nave de Guaramiranga

Em fevereiro de 2016, eu, Parahyba de Medeiros, Bete Augusta e Raul Medeiros (filho de Parah), subimos a serra de Guaramiranga, Ceará, para o Festival de Jazz e Blues, fugindo do batuque de carnaval em Fortaleza. Não sei se eles foram na minha onda, que não gosto desses quatro dias, ou se pedi socorro a eles: “me levem pra algum lugar longe de carnaval!”.
E numa tarde de conversas, descanso e ociosidade permitida no quarto da pousada, Parahyba dedilhava uma música ao balanço de uma rede. Eu ao lado, escutava algo que parecia já estar em mim... uma sincronicidade, uma simetria na relação de significados.
“Parceiro, tô com essa melodia aqui... e só tenho esse começo de letra... bora fazer.” Eu, que não sou letrista, um mero escrevinhador de poesia provisória, me vi com a letra vindo, e eu indo, veio vindo, e eu indo... e naquele ritmo, num download de inspiração no alto da serra, compomos Suave na nave, um xote-reggae enviesado, na simplicidade de um jogo de palavras e afetos.
Meu caro parceiro Parahyba, gratidão por despertar o que eu não imaginava que existia em mim. Você já me convocou como “parceiro” ao me chamar, lembra?
De boa na nave!
Suave na nave
© Parahyba de Medeiros e Nirton Venancio

Video: Bete Augusta
Edição: Parahyba de Medeiros

Apresentação Parahyba e Cia. Bate Palmas
Corredor Cultural da Gentilândia
Bairro Benfica, Fortaleza
24 de novembro de 2019

sábado, 14 de dezembro de 2019

o brasileiro Dom Evaristo

foto Luciney Martins
Durante os anos de chumbo da ditadura militar, Cardeal Paulo Evaristo Arns, Arcebispo Emérito de São Paulo, lutou contra o fim das torturas, o restabelecimento da democracia, a estabilidade da liberdade para os cidadãos.
Sua participação no movimento Tortura Nunca Mais e como um dos escritores do livro Brasil: nunca mais, ao lado do Rabino Henry Sobel e do Pastor presbiteriano Jaime Wright, gerado clandestinamente entre o final na década de 70 e meados de 80, colocam o religioso como um dos mais importantes nomes de reflexão e luta na história do Brasil naquele período turbulento.
O Arcebispo faleceu em decorrência de uma broncopneumonia, aos 95, em 14 de dezembro de 2016, um dia depois dos 48 anos do AI-5 e no dia seguinte da aprovação da PEC do fim do mundo do governo Temer. Bastante simbólico: estilhaços de uma onda conservadora, retrógrada e canalha que invadiu o país, golpeia a democracia, escurece o futuro e elege presidente alma sebosa.
foto Luciney Martins

sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

luz dos olhos teus

Santa Luzia iluminava
                              a minha infância que dormia.
Nas manhãs quentes do interior:
      o facho de luz vindo da telha quebrada
                     (o menino na rede,
                      a parede azulada                   
                      a cenografia do quarto
                      :
                      o enquadramento que me guardava
                                                            no passado
                                                que vi do futuro).



A jovem siciliana que minha tia-avó trouxe da feira
protegia meus olhos que acordavam

focava sua luz neorrealista
                     no quintal em mim
para o dia que começava
                     no sertão sem fim.

Cada manhã abençoada
        com a oferenda do par de olhos na bandeja.

Casa desfeita
        parentes idos
                           santa nas retinas.

Na parede da memória,
essa lembrança é o quadro que brilha mais
                                              no meu cinema paradiso.

- Trecho de ©Trem da memória, meu próximo livro, com lançamento previsto para fevereiro de 2020, com prefácios de Valdi Ferreira Lima e Mailson Furtado. Mais do que prefácios, duas viagens no trem, num lado e outro das janelas.
Hoje, 13 de dezembro, dia de Santa Luzia. Em seu louvor, a devoção na poesia.

posso até te matar com um beijo na boca

A canção Cor de sonho, da cantora e compositora cearense Mona Gadelha, foi gravada pela primeira vez no duplo LP Massafeira, em 1980. A autora regravou em seu primeiro disco solo, o CD Mona Gadelha, 1996.
O irresistível e dolente blues foi gravado também pelas cantoras conterrâneas Livia França em seu disco de estreia Dançando nas nuvens, 2000, Karla Karenina, em seu álbum Jóia de Jade, 2002, e pela paulista Amanda Acosta, em 2006.
No recente show em comemoração aos 40 anos de Massafeira Livre, no Theatro José de Alencar, Fortaleza, Mona Gadelha, cantou e, como sempre, encantou a plateia com sua mais marcante composição.
Atualizando o aplicativo nestes tempos de todas as possibilidades de gravações e linguagens, um clipe de Cor de sonho foi realizado com a autora e a cantora Verónica Valenttino, da banda Verónica Decide Morrer e integrante do Coletivo As Travestidas.
Com arranjo do guitarrista Mimi Rocha, a versão acústica com influência folk, assinala o ótimo encontro de duas vozes transgressoras da cena musical cearense: na simetria do tempo o pioneirismo do rock na figura e história de Mona Gadelha no final dos anos 70, e na postura e relevância de Verónica Valentino como artista ativista trans nestes tempos tão necessários da diversidade na arte e nos afetos.
Concebido por Mona, o clipe foi dirigido por Rodolfo Richard, produzido por Maira Sales, making off de Lila Almeida, e será lançado amanhã, dia 14, às 22h, no canal do Youtube da cantora.
O que elas cantam tem cor de sonho.

o quinto ato

Há 51 anos, hoje, durante o governo do general de plantão, Costa e Silva, foi decretado o Ato Institucional nº 5, o AI-5, colocando em recesso o Congresso Nacional, intervindo ostensivamente nos estados e municípios, cassando mandatos de parlamentares, suspendendo por dez anos os direitos políticos de qualquer cidadão, retirando garantia do habeas-corpus... Configurou-se a expressão mais acabada e absoluta da ditadura militar instituída com o golpe de 1964. O AI-5 foi o golpe dentro do golpe.
"Revogadas as disposições em contrário", vivemos a intensificação dos tempos de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de “suicídios”, de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar.
Há mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e da lei, foi uma marca registrada do governo militar.
Tempos sombrios ameaçam novamente. O famigerado Decreto é invocado por almas sebosas que usurparam o comando do País. Vivemos a mais surreal página infeliz de nossa história.

quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

à altura dos corações

Yasujiro Ozu, o cineasta do cotidiano, dos laços e desenlaces familiares.
Criador dos planos com tripé baixo, sua câmera-tatame está sempre à altura dos corações dos que partem e dos que voltam.
Minimalista, com serenidade e sutileza, seu cinema disseca sentimentos que mexem com todos, como deve ser para o entendimento e reflexão de todos nós, seres imperfeitos metidos a sabidos.
Em seus filmes, Ozu estabelece uma estrutura neorrealista, confrontando o velho e o novo Japão, muito bem definido no envelhecimento e na modernidade, nos filhos e nos pais, nas cidades e nos costumes, no efêmero que somos, no eterno que pretendemos.
Como em conceito taoísta, o cineasta veio e se foi no mesmo dia, 12 de dezembro. Os 60 anos que se ligam entre o seu Yin em 1903 e o seu Yang em 1963, reúnem as forças da transformação contínua, da vida que surge à vida que se destina.

quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

o mergulho do poeta

A poesia é a mais íntima manifestação literária. Um poema é sempre verdadeiro, até mesmo quando o poeta finge que é dor pessoana, o amor que deveras mente.
Poemas para se assobiar de longe, de Valdi Ferreira Lima, Editora Radiadora, Fortaleza, se insere na lista dos mais expressivos e melhores livros de poesia lançados em 2019.

A impressionante destreza com o uso da palavra revela a alma de quem escreve e de quem lê de forma direta e orgânica no talhe preciso de cada verso, onde foi colocado e onde nem sequer existe. O recurso narrativo com quase ausência natural de pontos e vírgulas é a mais profunda respiração que se tem em todo o livro. O eu-retorcido em mais de quarenta poemas espraiados funde o tempo existencial com o social, o amor com ardor, a dor com amor.
O mergulho na poesia de Valdi Ferreira Lima, residente em Sobral, Ceará, às margens do rio Acaraú, é um presente da literatura para a literatura brasileira.

sou do sereno poeta muito soturno *

Noel Rosa viveu apenas 26 anos e cinco meses, de boemia e poesia, dos 109 que não faria hoje.
Ele foi um dândi enviesado, um irreverente com suprema inteligência, no começo de um século reverencioso aos bons costumes do lugar. Do jeito que atravessava a noite e curtia a vida, não alcançaria estes mitológicos 2000 anos depois de Cristo.
Noel Rosa: Uma Biografia, de João Máximo e Carlos Didier, lançada em 1990 e logo recolhida pelas sobrinhas herdeiras do compositor, é o mais completo relato da vida do artista.
O livro foi proibido através de ações judiciais, alegando desrespeito à vida privada da família, possivelmente por mencionar os suicídios da avó e do pai de Noel.
O texto é primoroso, com a elegância que o biografado merece.
* verso da canção Três apitos, que Noel começou a compor em 1931, burilou a letra ao longo do ano seguinte, e em 1933 a considerou finalizada. Ficou guardada por vinte anos. Em 1951, a cantora Aracy de Almeida grava em seu disco Feitio de oração, com arranjos de Radamés Gnatalli.
Aracy cantou as mais emblemáticas composições do "anjo torto" de Vila Isabel, Com que roupa, Último desejo, O X do problema, Não tem tradução, Palpite infeliz, O orvalho vem caindo, com Kid Pepe, Conversa de botequim, Feitiço da Vila, Pra que mentir, Feitio de oração, estas em parceria com Vadico.
Em 1936, em uma de suas raras entrevistas, à revista A Pátria, o poeta muito soturno declarou que "Aracy de Almeida é, na minha opinião, a pessoa que interpreta com exatidão o que eu produzo".

de los cambalaches se ha mezclao la vida

"O tango é um pensamento triste que se pode dançar".
- Enrique Santos Discépolo, poeta, compositor, dramaturgo, ator e cineasta argentino, autor do clássico Cambalache, tango para o filme El alma del bandoneón, de Mario Soffici, em 1935.
A composição teve dezenas versões, do ritmo tradicional ao rock.
No Brasil gravaram Caetano Veloso, Gilberto Gil, Angela Roro, Raul Seixas, sendo esta a interpretação mais próxima do deboche crítico que a letra pretende.
Gravada no vinil de 1987, Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum!, o maluco beleza com seu "tango in roll", passa com um português sarcástico a leitura das indignidades perpetradas pelos regimes de podres poderes ao longo do Século XX, e bem antes dos horrores da Segunda Guerra. Censurada pelos governos da época, a letra original é de uma atualidade impressionante, bastante aplicável para estes tempos fascistas de almas sebosas.
Hoje se comemora na Argentina o Dia Internacional do Tango, não lamentavelmente em homenagem ao ferrenho e lúcido Enrique Discépolo, mas pela data de nascimento de quem teve mais projeção, o cantor Carlos Gardel e o compositor Julio de Caro.
No centro de Buenos Aires, na esquina de Avenida Corrientes com Calle Enrique Santos, há uma placa em sua deferência. E ali próximo tem uma simpática rua passagem para pedestres em forma de S que leva seu nome, onde tem o Teatro del Picadero, um prédio de 1926 onde o autor frequentava.
Enrique Discépolo é uma lembrança que se pode dançar.

terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Monamusa

Mona Gadelha (en)canta nessa quarta-feira.
A voz cada vez mais única. Sua beleza cada vez mais cativante. Suas canções cada vez mais sempre.
CCBNB, Fortaleza
11 de novembro, às 12h

na areia do cinema

Fausto Nilo eternizou em Dorothy Lamour o ardor com que adorou a atriz norte-americana, ali no drama da primeira fila.
Letra musicada por Petrúcio Maia, com ótima interpretação de Ednardo, no disco Romance do Pavão Mysterioso, 1974, a canção é um louvor ao fascínio que as deusas nos davam na areia do cinema.

Dorothy Lamour, 105 anos de seu nascimento hoje, foi uma das maiores divas de muitas gerações. De uma sensualidade elegante nas telas, vestia-se em roupas ousadas para os padrões da época, despertando fantasias de um mundo blue nos adolescentes, como em nosso poeta Fausto.
A atriz nas areias de 1937.

a vida de Clarice

"Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."
- Clarice Lispector através da personagem Lóri em Uma Aprendizagem ou o Livro dos Prazeres, 1969.
Hoje ela faria 99 anos rendida à vida.
Acima, Clarice fotografada por Bluma Wainer, em Paris,1946.
A imagem do acervo do filho da escritora, Paulo Gurgel Valente, foi usada na capa de Clarice, uma biografia, do americano radicado na Holanda, Benjamin Moser, 2009. Uma pena que o título na edição brasileira, pela Cosac Naify, omita um dado importante do original, Why this world: a biography of Clarice Lispector. O "por que este mundo" é ao mesmo tempo uma pergunta-afirmação bem típica das inquietações e mistérios de Clarice.

quem sabe ainda sou uma garotinha

Cássia Eller faria 57 anos hoje.
Numa dessas tramas do Universo, cinco anos depois que ela nasceu, no mesmo 10 de dezembro, faleceu um dos cantores de soul music que ela viria a ouvir e admirar muito, Ottis Reding.
Dele Cássia gravou Try a little tenderness, no disco de 1994. A gravação original está no clássico álbum Complete & Unbelievable: The Otis Redding Dictionary of Soul, de 1966.
A interpretação de Cássia é belamente visceral. Ottis aplaudiria. "All you've gotta to love her", como ele diz na canção.

segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

a mais completa tradução

Pinto do Monteiro (1895-1990), poeta paraibano

a esfinge

foto: autor desconhecido, 1975
"O que sinto não é traduzível. Eu me expresso melhor pelo silêncio."
- Clarice Lispector em seu último livro, Um sopro de vida, página 31, publicado postumamente em 1978.
A escritora faleceu um dia antes de seu aniversário, 10 de dezembro, quando faria 57. Além da coincidência da data, pelo ritual judaico, não pode ser enterrada no dia seguinte, um sábado. Seguiu para o Cemitério Comunal Israelita, bairro do Caju, Rio de Janeiro, dia 11.
42 anos que partiu para outros silêncios.

Trumbo não vai à guerra

Em 1947 o escritor e roteirista Dalton Trumbo foi convocado a comparecer perante o Comitê de Atividades Não-Americanas da Câmara no Congresso dos EUA. Quando lhe perguntaram se era comunista, respondeu com firmeza ao inquisidor: "Você deve ter alguma razão. Pode perguntar”. E recusou-se a dizer quem em Hollywood era de esquerda.
Era época de “caça às bruxas”, o Marcartismo, comandado pelo senador republicano Joseph McCarthy, que se prolongou até 1957, perseguindo numa paranoia desvairada, com atuação da patrulha ostensiva de J. Edgar Hoover, do FBI, todos aqueles considerados “ameaça às instituições estadunidenses” pela suposta associação de qualquer indivíduo simpatizante de esquerda.
O principal alvo das suspeitas foram funcionários públicos, educadores, sindicalistas, e trabalhadores da indústria do entretenimento, os atores, cineastas e roteiristas. As invasões bárbaras do poderio norte-americano sempre foram bélicas e culturais. O cinema como indústria é uma arma quente na logística deles, dominador de efeito dopante, com o gás paralisante dos "happy ends". Monitorar os roteiristas, criadores de histórias etc e tal, fazia – e faz – parte de uma política conservadora e nacionalista.
Dalton Trumbo é um dos maiores exemplos de resistência às perseguições aos artistas. Foi colocado na lista negra dos “dez hostis à Holywood”. Lista essa que se ampliou para mais de 250 nomes, que incluíam famosos como Zero Mostel, Charles Chaplin, Orson Welles, Edward Dmytryk, Lillian Hellman, Lee J. Cobb, Sam Jaffe, Allen Ginsberg...
O filme Trumbo: Lista Negra (Trumbo), de Jay Roach, 2015, relata o drama do biografado em uma atuação marcante de Bryan Cranston, que concorreu ao Oscar de Melhor Ator naquele ano e perdeu para o regressado Leonardo DiCaprio.
Trumbo,114 anos de nascimento hoje, falecido em 1976, aos 71, escreveu um dos mais densos, angustiantes e importantes livros antibelicistas da literatura mundial,
Johnny vai à guerra, em 1939, adaptado para o cinema em 1971, dirigido pelo próprio autor. Foi sua única incursão por trás câmeras. Tão valiosa quanto a escrita.