quarta-feira, 26 de junho de 2019

meu caminho pelo mundo

No dia 26 de junho de 1968 mais de 100 mil pessoas marcharam na Avenida Presidente Vargas, no centro do Rio de Janeiro, em protesto contra a ditadura militar, sob o comando do general Costa e Silva.
A manifestação, inicialmente estudantil, foi incorporada por vários segmentos da sociedade civil. Políticos, intelectuais, artistas, aderiram à passeata tornando uma das mais significativas expressões populares do Brasil.
Muitos fotógrafos cobriram o acontecimento. Mas as imagens que ficaram marcadas foram as de Evandro Teixeira, à época do Jornal do Brasil. Entre tantos nomes famosos na multidão, o cantor e compositor Gilberto Gil, que hoje completa 77 anos, naquele dia comemorava na avenida seu aniversário de 26 anos.
Ao lado esquerdo de Gil, a cantora Nana Caymmi, com quem era casado, na ponta esquerda da foto, Torquato Neto.

terça-feira, 25 de junho de 2019

Não se apaixone por pessoas como eu

Não se apaixone por pessoas como eu.
Eu lhe levarei a museus, e parques, e monumentos, e lhe beijarei em todos os lugares bonitos, para que você nunca volte neles sem sentir meu gosto como sangue na sua boca.
Eu vou lhe destruir das formas mais belas possíveis. E depois eu vou lhe deixar, e você finalmente vai entender porque tempestades recebem o nome de pessoas.

Caitlyn Siehl, poeta norte-americana, 25 anos, em seu terceiro livro Literary sexts 2: a collection of short and sexy love poems, 2014

segunda-feira, 24 de junho de 2019

aqui, agora e sempre

foto Daniel Mordzinski, 1991
"Não há outra forma de se alcançar a eternidade senão afundando no instante, nem outra forma de chegar à universalidade senão através da própria circunstância: o aqui e agora."
A citação está no livro O escritor e seus fantasmas, do argentino Ernesto Sábato. Lançado em 1963, é um excelente ensaio sobre o que literalmente diz o título, sobre o que provoca o escritor, sobre a razão dos seus livros, sobre a concepção geral da literatura e da existência. Imprescindível para quem escreve e para quem lê. De quase vinte títulos que compõem a obra de Sábato, o livro tem a importância de um biblicismo literário.
Sábato faleceu em 2011, dois meses antes de completar um século por aqui. Hoje, agora, seu aniversário de nascimento.
Ler espanta os fantasmas, sempre.

São João, Xangô Menino

Na fé cristã hoje se celebra o nascimento de João Batista, aquele que não somente previu o advento do Messias na pessoa de Jesus, como teve a prerrogativa de batizá-Lo. Pelas Escrituras, Batista nasceu apenas seis meses antes de Cristo.
Juntamente com Antonio e Pedro, João compõe a tríade dos Santos Populares, comemorando a festa neste mês de junho.
O título da postagem é da música de Gilberto Gil e Caetano Veloso, gravada no disco Doces Bárbaros – ao Vivo, 1976.
Os autores de maneira livre, alegre e criativa incorporam na letra o imaginário religioso, em combinação sincrética do local à transcendência da religiosidade cristã e o mito africano. Uma saudável manifestação de panteísmo múltiplo, com suas simbologias e expressões culturais.
Nascimento de São João Batista, do pintor italiano Tintoretto, 1578. A obra encontra-se no Museu Hermitage, em São Petersburgo.

domingo, 23 de junho de 2019

luz de Carlito

'Seu' Carlito Almeida iluminou dezenas de filmes brasileiros, da Companhia Cinematográfica Vera Cruz às produções do cinema cearense, quando voltou pra sua terra.
Há um ano hoje sem a luz do 'Seu' Carlito.

homofobia é crime

desenho: Thalles Magalhães Monteiro

sábado, 22 de junho de 2019

o eu de muito nós

O filme de Petra Costa me tocou de uma forma que não consigo sair dele, de dentro na narrativa orgânica em primeira pessoa - que somos milhares de nós. Nós, pronome. Nós, plural.
Vi duas vezes, não sei com que forças, fazendo um exercício de distanciamento para escrever um artigo e ainda não sei... Uma dor, um assustador sentimento sintetizado na pergunta de Petra na sequência final, ”como lidar com a vertigem de ser lançado um futuro que parece mais sombrio que o nosso passado mais obscuro?”. Uma pergunta expressa com sua voz pausada, com uma lágrima em cada sílaba pronunciada ao longo de todo o documentário.
Democracia em vertigem é o mais importante filme de registro artístico e histórico sobre essa página infeliz a que chegamos.

a vida como ela não é

"Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento."
Trecho de uma das crônicas do afiado Machado de Assis, publicada em sua coluna semanal no jornal Diário do Rio de Janeiro, por volta de 1860. Desde jovem ele colaborava com seus textos ácidos e bem-humorados em vários periódicos da imprensa carioca, e isso lhe abriu caminhos para a carreira literária.
Machado acompanhou a mudança política no país quando a República substituiu o Império. Com sua escrita lúcida, direta, inteligente, moderna, fazia uma radiografia dos emaranhados eventos políticos, dos meandros e costumes de uma sociedade burguesa e conservadora que se desenhava e o declínio das principais instituições do país, mais exatamente a monarquia e a igreja.
Ontem, 180 anos de nascimento do maior escritor brasileiro. O eloquente e elegante “bruxo do Cosme Velho”, epíteto cunhado por Carlos Drummond de Andrade no poema a ele dedicado, A um bruxo, com amor, publicado no livro A vida passada a limpo, de 1959, uma afetuosa alusão ao morador da casa número 18 da rua que tem o mesmo nome no bairro carioca.

sexta-feira, 21 de junho de 2019

*EuApoioInterceptBrasil


democracia e cinema

Ainda impactado com o documentário Democracia em vertigem.
A narrativa orgânica, lúcida e emotiva de Petra Costa nos mantém dentro do filme durante e depois de assisti-lo.

feriado com poesia

gratidão, cara amiga Marcelina Acácio, por ler/reler minha poesia. Meus versos em boa companhia.

a pergunta que não quer calar

”Como lidar com a vertigem de ser lançado um futuro que parece mais sombrio que o nosso passado mais obscuro?
O que fazer quando a máscara da civilidade cai e o que se revela é uma imagem ainda mais assustadora de nós mesmo?
De onde tirar forças para caminhar entre as ruínas e começar de novo?”
- Petra Costa na sequência final de seu tocante, belo e assustador documentário Democracia em vertigem

nunca mais outra vez

"Atiramos o passado ao abismo, mas não nos inclinamos para ver se está bem morto.“ 

- máxima atribuída a William Shakespeare

quinta-feira, 20 de junho de 2019

il partigiano

No começo do ano de 1924 o deputado italiano Giacomo Matteoti, do Partido Socialista Unitário, publicou o livro I fascisti esposti: L'anno della dominazione fascisti, em que expõe e denuncia a política de Mussolini em seu primeiro ano de poder.
Como um acréscimo de sua luta contra o autoritarismo, Matteoti faz, em 30 de maio, um corajoso e histórico discurso no parlamento, apontando com provas a falsificação dos resultados das eleições daquele ano.
No mês seguinte, exatamente em 10 de junho, o deputado foi sequestrado por milicianos fascistas e brutalmente assassinado. Seu corpo encontrado uma semana depois, nos arredores de Roma. Foi jogado de um carro depois de esmurrado e apunhalado. Os executores foram seis integrantes do comando paramilitar Camisas Verdes, oficialmente denominada Milícia Voluntária Para a Segurança Nacional, sob o comando do general Emilio De Bono, uma espécie tanto quanto asquerosa de Brilhante Ustra. A organização miliciana era uma ferramenta de repressão política de Mussolini, que, além de compartilhar a ideologia com o nazismo, inspirou grupos de extrema direita na Inglaterra, União Britânica de Fascistas, nos Estados Unidos, Legião Prateada da América, na Espanha, Falange Espanhola, na Irlanda, Canadá e França, Camisas Azuis, no México, Camisas Douradas, e no Brasil, Camisas Verdes, do integralista Plínio Salgado.
Giacomo Matteoti era apelidado “A Tempestade”, por sua impetuosidade em bater de frente com o Partido Nacional Fascista e seu líder. Soube-se que após o discurso, ainda nos tempos analógicos e neolíticos em comunicação, sem aplicativo Telegram e Intercept, que Mussolini teria dito ao chefe da polícia secreta que o deputado não deveria “seguir em circulação”.
O parlamentar, advogado conceituado, que abdicara dos bens de sua família rica, doando seu patrimônio a um orfanato, sabia dos riscos que corria por sua militância, e internamente entre os seus pares, exortava que os partidos de esquerda precisariam deixar as divergências de ramificações e unirem-se contra o mal maior: a extrema direita.
Naquele dia de maio, ao terminar o discurso, com uma oratória vibrante e sob aplausos de progressistas e vaias de fascistas, Giacomo Matteoti, antes de descer da tribuna disse: “Já fiz o meu discurso, agora compete a vocês preparar o discurso fúnebre em meu enterro”.
A canção popular Bella Ciao, composta no final do século 19, que expressava o canto de trabalhadores rurais italianos, e se tornou uma canção de protesto na Primeira Guerra e um hino de resistência na Segunda, tem em sua letra, a presença, a resiliência e o augúrio de todos os Giacomos...

o múltiplo Serjão

- O que é mesmo que você vai me perguntar? - indaga o compositor e artista plástico Sérgio Pinheiro.
Digo-lhe que estou realizando um filme não somente contemplativo sobre a música cearense. Com um olhar afetivo e uma narrativa poética, o filme faz uma abordagem crítica, analítica, de 50 anos de nossa música. Que ele fique à vontade para responder as perguntas com as quais eu estou igualmente à vontade.
Ele franze a testa e solta uma risada. E tudo é alegria à bordo do seu Citroen!
Vai som! Câmera! Serjão!
Esse diálogo ocorreu antes da entrevista para o documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B, em abril de 2015.
Durante uma tarde na ampla sala de seu apartamento, o cantor, compositor e artista plástico falou sobre múltiplos fatos marcantes na história da música cearense, as noites de doses de canções no Bar do Anísio, as longas conversas com Belchior quando compôs Apalo seco, a inspiração para sua Buenos Aires (Citroen), uma das faixas do antológico disco coletivo Massafeira Livre, 1979.
Amanhã, dia 21, celebrando seus 70 anos, Sérgio Pinheiro apresentará no Foyer do Theatro José de Alencar, em Fortaleza, um show, um encontro, um acontecimento que ele denominou Inventando o que fazer, expondo seus trabalhos, cantando e conversando sobre sua trajetória como artista, cidadão, um pensador ambulante com seus recortes de viagens, da América do Sul até a Europa.
A criatividade de Serjão pinta o sete de quadros e canções.
fotos Arual Oliveira
Equipe: Priscilla Sousa (continuidade), Alex Meira (direção de fotografia), Assis Nunes (som)

quarta-feira, 19 de junho de 2019

cinema e democracia

Três pontuações minhas de admiração na foto acima: a estreia do documentário Democracia em vertigem, de Petra Costa, na Netflix, a excelente análise de Carlos Alberto Mattos, e ver meu querido amigo conterrâneo Fernando Lima Cavalcante como técnico de som.
Fernandão iniciou em cinema no meu curta-metragem Um cotidiano perdido no tempo, em 1988, participou de outros filmes, seguiu carreira em vários longas-metragens de cineastas consagrados, revelando-se um mais competentes profissionais em sua área.
Abraço de admiração à toda equipe do documentário, oportuno e reflexivo nesta página infeliz de nossa história.

evoé, jovem artista!

Cálice, de Chico Buarque e Gilberto Gil, gravada em seu disco de 1978, em dueto com Milton Nascimento, foi composta em 1973, nos últimos anos da ditadura Médici, e tornou-se um clássico da canção de resistência ao regime militar.
As metáforas dos versos que passavam o recado e denúncia de um governo autoritário, repressor, violento em todos os sentidos, vão além da figura de linguagem.
O recurso da citação da Paixão de Cristo, a partir do título, para fazer uma analogia com a repressão que passava o país naquele momento, é de uma preciosidade poética marcante na história da música brasileira. Chico Buarque, além de recorrer ao imaginário bíblico na narrativa sobre o terror que vivíamos, pontua, por exemplo, com citações de lendas como “monstro da lagoa” quando se refere aos corpos “sumidos” que por vezes emergiam de águas de rios.
A análise de toda a letra é longa, é uma canção cheia de lucidez humana e política na grandiosidade lírica de cada verso.
Em 2011 o rapper Criolo postou em sua conta no Youtube, uma versão de Cálice, aparentemente despretensiosa, mas com necessário e preciso incremento de uma realidade social pulsante nas favelas, na abordagem denunciante do preconceito com nordestinos, negros, pobres... Nesse diálogo entre o original e a releitura “atualizando o aplicativo”, o jovem cantor apresenta-se e diz que “a ditadura segue, meu amigo Milton / a repressão segue, meu amigo Chico / me chamam Criolo e o meu berço é o rap”.
Chico Buarque ouviu, gostou e reverenciou Criolo em um já histórico show naquele mesmo ano, em Belo Horizonte (vídeo abaixo), citando trechos da versão, cantando mais um desdobramento da composição no ritmo discursivo do rap.
Completando hoje 75 anos de idade, o jovem Chico Buarque de todos os tempos.

terça-feira, 18 de junho de 2019

de olhos bem abertos

"Cada coisa chegará no tempo próprio, não é por muito ter madrugado que se há de morrer mais cedo."
- José Saramago, em um trecho de Ensaio sobre a cegueira, possivelmente o livro do escritor português que melhor simboliza a imagem de um mundo imundo e bárbaro.
Saramago dizia que foi uma das experiências mais dolorosas de sua vida o tempo que levou para as 300 páginas, e espera “que o leitor sofra tanto como eu sofri ao escrevê-lo.”
Esse desejo do autor é uma consequência inevitável que a narrativa provoca, pelo incômodo e reflexão, a abstinência moral humana, a urgência de resgatar o afeto diante do caos e escuridão.
Lançado em 1995, adaptado para o cinema em 2008, por Fernando Meirelles, Ensaio sobre a cegueira é a atualíssima imagem aterradora destes tempos sombrios.
Nove anos hoje que Saramago madrugou pela última vez.

a senhora do engenho

foto: Leo Martins
"Better, better, beta, beta, Bethânia / please, send me a letter / wish to know things are getting better... "
Caetano Veloso tinha 4 anos de idade quando sua irmã Bethânia nasceu, em 18 de junho de 1946.
Na Rádio de Santo Amaro a voz de Nelson Gonçalves entoava a valsa Maria Bethânia, composta por Capiba, em 1944. O menino Caetano sugeriu ao pai Zeca aquele nome para a mana que chegava.
A relação entre os sete irmãos Viana Teles Veloso sempre foi muito forte. Roberto, Clara, Caetano, Isabel, Irene, Rodrigo, Nicinha, são enroscados em afetos e homenagens, axés e acarajés.
Com Bethânia, Caetano tem uma cumplicidade afetiva e musical. Durante o exílio político em Londres, o cantor compôs para a irmã a bela canção que tem seu nome, gravada no seu terceiro álbum solo, de 1971.
Essa e as demais músicas do disco, exprimem uma toada melancólica além-mar, uma quimera. Bethânia ouvia a canção como se lia uma carta com saudades.
foto: Leo Martins

segunda-feira, 17 de junho de 2019

os últimos serão os pioneiros

A histórica e icônica foto Início da concretagem do Senado Federal, do francês Marcel Guatherot, 1958, “retrata um destino e uma miragem do Brasil. Num impulso, os candangos, milhares de trabalhadores nômades que vieram de todas as regiões do país para construir a nova capital, estão, uma vez mais, prontos para partir – ‘em rota para uma impossível utopia’”
Texto do livro Brasil: uma biografia: com novo pós-escrito, de Lilia Moritz Schwarcz, Heloisa Murgel Starling, 2015, no qual a foto é usada na capa.
Com documentação inédita e profundo rigor na pesquisa, as autoras traçam um retrato de corpo inteiro do país, e mostram que o Brasil bem merecia uma nova história.

o quinto número

"Julgando talvez insuficiente a divulgação que o jornal O POVO fazia do movimento renovador no Ceará, Demócrito Rocha, Paulo Sarasate e Mário de Andrade resolveram criar um suplemento exclusivamente literário", registra o poeta, ficcionista, crítico literário e ensaísta Sânzio de Azevedo em O Modernismo na Poesia Cearense: primeiros tempos, 2012.
"Agora, o Maracajá está de volta, divulgando um pouco da literatura produzida no estado do Ceará. Dos antigos aos contemporâneos", diz Raymundo Netto, escritor e editor da revista, encartada mensalmente no jornal O Povo, Fortaleza.
Nesta segunda-feira, 17 de junho, o meu artigo O olhar do cinema, abre o 5º número do suplemento literário.
Disponível também no sítio eletrônico http://fdr.org.br/maracaja

sábado, 15 de junho de 2019

poesia no Celeiro


o sobrenome ignorado

foto Steve Pyke, 1994
Filho ilegítimo, traumas da Segunda Guerra, quando quase foi executado por um jovem fascista, grave acidente de carro com Gina Lollobrigida ao volante, o cineasta Franco Zeffirelli logo cedo em sua vida deu conta de sua incômoda posição na sociedade.
Em A autobiografia de Franco Zeffirelli, lançada em 1986, o autor, sem autocomiseração, com extrema sinceridade, naturalidade narrativa e precisão dos fatos, expõe relatos que põem abaixo a falsa impressão que o cineasta teria para contar história de uma vida entre festas frivolidades e honrarias por filmes de grande repercussão, como Romeu e Julieta, 1968, Jesus de Nazaré, 1977, Irmão Sol, Irmã Lua, 1972, O campeão, 1972, que de alguma forma ofuscaram o reconhecimento de trabalhos mais consistentes como as versões cinematográficas das óperas de Verdi, La Traviata e Otelo.
No pouco citado Chá com Mussolini (Un tè con Mussolinié), de 1999, Zeffirell faz uma semibiografia, contando lembranças de sua adolescência em Florença, na turbulência da Itália dominada pelo fascismo. No episódio em que por pouco não foi abatido, soube tempos depois que o rapaz era seu meio-irmão, como conta no livro. O cineasta desde criança morava com uma tia, era chamado de “bastardinho” por uma mulher na porta da escola, que depois descobriu ser esposa de um comerciante que soube que era seu pai, e a tia que o criara na verdade prima. Por não poder ter o nome do pai na certidão, tiveram que inventar um, no caso extraído a partir da letra Z: seguindo uma tradição dos tempos medievais florentinos, e no rodízio alfabético aquela seria a do dia do seu nascimento. Uma parenta da mãe sugeriu Zéfiro, a personificação mitológica do vento que sopra do Ocidente, presente numa ópera de Mozart. Em italiano, Zeffiretti, e o tabelião esqueceu de cortar os Ts.
O cinema de Franco Zeffirelli possivelmente não passe essas pontuações trágicas, e algumas curiosas, da infância à maturidade, e na vida artística a relação amorosa e discreta, sob a ameaça do preconceito, com o cineasta Luschino Visconti, seu protetor, incentivador no início da carreira, e a quem o livro é dedicado.Na fascinação pelas obras operísticas Zeffirelli expôs mais de si, como se nos dramas recitativos de árias e coros, externasse uma purgação e libertação.
Contraditoriamente, o cineasta apoiou o governo de Silvio Berlusconi no final dos anos 90, e se tornou senador pelo partido fundado pelo magnata das comunicações.
Ele tinha 96 anos quando faleceu na madrugada deste sábado. "Sofreu durante um tempo, mas se foi de uma forma pacífica", segundo um dos filhos, Luciano, a quem Zeffirelli deu o nome em homenagem a Pavarotti.
foto Steve Pyke, 1994

o designer da contracultura

As capas dos discos na década de 70, Fa-Tal - Gal a Todo Vapor, Barra 69: Caetano e Gil ao Vivo na Bahia, Jards Macalé, Araçá Azul, de Caetano Veloso, Álibi, de Maria Bethania, nos anos 80 Cores, Nomes, Uns...
Os cenários dos shows Luiz Gonzaga Volta pra Curtir, 1972, e um ano antes da histórica apresentação de Gal Costa no show Fa-Tal...
A capa e ilustrações da revista Navilouca, que Torquato Neto e Waly Salomão editaram em 1974...
A direção de arte dos filmes O Gigante da América de Julio Bressane, 1978, e O Escorpião Escarlate de Ivan Cardoso, 1980...
Essas são apenas algumas das centenas de obras criadas pelo designer, cenógrafo, pintor e poeta manauara Óscar Ramos, falecido quinta-feira, dia 13, aos 80 anos, numa semana triste para a cultura brasileira, quando partiram também o produtor musical André Midani e o jornalista Clóvis Rossi, como se não bastassem para o nosso pesar e indignação as necessárias revelações publicadas no site The Intercept Brasil.
Óscar Ramos morava em Manaus desde 1996, quando voltou depois de décadas no Rio de Janeiro, onde trabalhou em parceria com outro gênio das artes plásticas, o cearense Luciano Figueiredo. Muito das obras acima citadas são assinadas pelos dois, criando uma marca de tipologia do trabalho gráfico, uma mesclagem entre poesia visual e música popular, principalmente por condensarem uma espécie de diagramação filosófica do Concretismo e do Tropicalismo.
Ramos, Figueiredo, Hélio Oiticica, Rogério Duarte, Lygia Clark são os mais expressivos nomes do movimento da contracultura, no que se refere aos projetos gráficos que exploram os contrastes de cores e transparências e suas trepidações simbólicas.
Numa época em que capas de discos eram uma extensão conceitual dos álbuns, e não meramente decorativas e mercadológicas, as criações de Óscar Ramos e Luciano Figueiredo, assim como as de Elifas Andreato, têm na história da música brasileira a mesma grandiosidade das canções que tornaram clássicos os long-plays.

sexta-feira, 14 de junho de 2019

o homem do disco

O produtor musical André Midani foi um das mais competentes profissionais que atuaram como executivo no mercado fonográfico brasileiro, passando por gravadoras de peso como a Odeon, Phonogran, WEA. Desde a década de 50, esse sírio de nascimento tem lugar privilegiado nos bastidores da nossa música. E não por acaso, é conhecedor de todos os meandros que envolvem a indústria do disco.
A autobiografia Música, ídolos e poder - do vinil ao download, lançada em 2008, por pouco não foi proibida. A família de Enrique Lebendiger, que foi proprietário da gravadora RGE, exigia que a venda nas livrarias fosse interditada. Midani em um dos capítulos disse que o senhor Lebendiger, "era figura exótica que não tinha capacidade nem seriedade profissional para acompanhar a carreira de um profissional do calibre de Chico Buarque".
Ao contrário da editora da biografia Roberto Carlos em detalhes, a Planeta, que simplesmente abandonou o autor Paulo César de Araújo no embargo com o cantor, e a obra foi recolhida e incinerada (porque o “rei” é uma brasa, mora!), a Nova Fronteira empenhou-se em resolver a questão do livro de André Midani e procurou a família para um acordo. À época foi noticiado que o trecho que desagradava aos queixumeiros seria retirado em próximas edições – o que não deixa de ser censura em termos e meios.
A música brasileira deve muito a André Midani. Ele está presente na discografia da Bossa Nova à Tropicália, dos principais grupos de rock das décadas 70, 80 e 90, nos festivais de música, reuniu um número importante de cantoras, cantores e bandas, sugerindo, conduzindo com maestria o que seria lançado, como uma espécie de “controle de qualidade”.
Há uma passagem na citada autobiografia que define bem sua marca de experiência e segurança no que fazia: "A canção, e não mais o disco inteiro, tem que ter começo, meio e fim, e se transformar num 'jingle da vida' durante os três minutos de sua existência...”
André Midani faleceu ontem, aos 86 anos. Fez um upgrade para outras plataformas, nos deixando na saudade dos vinis.

sem palavras

"A um jornalista não é permitido dizer que lhe faltam palavras.
Pois descobri agora mesmo que estou na profissão errada.
Acabo de receber uma mensagem de Cláudia, a quem não conheço e por quem já sinto profundo carinho.
A mensagem é simples, direta, terrível:
'Boa noite. Aqui é a Cláudia, filha do Clovis. Lamento informar que ele acaba de falecer'.
O relógio marcava dois minutos antes das três da madrugada.
Clóvis Rossi, 76 anos, 'teve um infarto na sexta-feira, pôs cinco stents e voltou para casa ontem pela manhã. Estava ótimo, passou mal e morreu de repente', respondeu Cláudia à minha perplexidade.
'Não sei o que dizer', eu disse a ela.SEM 
Quando perguntei se precisava de alguma coisa, rogou:
'Quero meu pai.'
Clóvis Rossi era mais que um grande jornalista.
Até parecer parecia com Don Quixote.
Emudeço."
- O jornalista Juca Kfouri, em sem blog, hoje, ao saber da morte do colega.

dia de greve

Realizado em 1925, A greve (Stachka), de Serguei Eisenstein, é o mais importante filme sobre a força da classe trabalhadora como organização. Narra uma rebelião dos operários de uma fábrica na Rússia pré-revolucionária do início do século passado. Com enredo ficcional e uma estrutura surpreendentemente documental, ainda na era do cinema mudo, o filme expressa o poder de massa, de coletivismo sobre o individualismo institucionalizado.
A obra também é marcada como um dos mais importantes filmes sobre o que se desenvolveu como linguagem cinematográfica, mais precisamente a respeito dos conceitos de montagem.
Eisenstein criou em A greve o recurso narrativo “cross-curting”, técnica de corte entre ações paralelas, estabelecendo tramas em diferentes locais ou situações, mas que têm significados conotativos na simultaneidade do enredo.
Nesse clássico imprescindível, a cena de repressão contra a greve nas ruas com outra de gado sendo abatido em um matadouro, provocam no espectador o impacto, o incômodo, a reflexão.
Braços cruzados, máquinas paradas.

depois da revolução

- Você tem certeza que quer fazer um documentário sobre mim?
- Sim.
- Num filme onde está Che, ele sempre será protagonista.

O diálogo ocorreu entre o cirurgião dentista cubano Dr. Luis Carlos García Gutierrez ‘Fisin’ e a cineasta Margarita Hernandez, também cubana, radicada no Ceará, no primeiro dia de filmagem do documentário Che, memórias de um ano secreto, onde refaz os passos do líder revolucionário em 1965, em plena Guerra Fria, quando desapareceu sem deixar vestígios.
Dr. Luis García foi responsável por mascarar o rosto de Che Guevara para despistar os serviços de inteligência em suas missões secretas. Após a guerrilha no Gongo, Che foi transferido para Praga e de lá partindo para a Bolívia. Esse relato e mais outros valiosos testemunhos de sua experiência clandestina em mudar a aparência dos camaradas, estão no livro O outro lado do combate (La outra cara del combate), que o dentista lançou em 2008, ponto de partida para o filme de Margarita.
Realmente, Dr. Luis tinha razão. Nos avanços das pesquisas e na feitura do roteiro, a cineasta definiu seu documentário em um recorte específico na figura política de Che, sem explorar o antes, suas origens, e o que o levou à vitória da revolução em Cuba ao lado de Fidel Castro, e sim, centralizando a narrativa no que lhe aconteceu depois, as suas angústias, as inquietações de um líder carismático que não se acomodava, preocupado em manter sempre acessa a luta, como um paladino, e algumas vezes sem alcançar seus objetivos.
O filme integrou as competições Brasileira e Latina no 23º Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade, São Paulo, em 2017, e foi exibido ano passado no 28º Cine Ceará Festival Ibero-americano de Cinema, Fortaleza.
Conheci Dr. Luis García em 2009, durante o 19º Cine Ceará. Tinha 92 anos e de uma lucidez e memória impressionantes. Com muito bom humor nas palestras, contou várias de suas histórias com Guevara, cativando a todos. Faleceu em 2015.
Se tivesse assistido ao filme de Margarida Hernandez, veria que a cineasta atendeu ao seu conselho e que mesmo sem ser o protagonista, está ali onipresente, “mascarado” em toda trajetória do ilustre paciente Che Guevara, que hoje faria 91 anos.

terça-feira, 11 de junho de 2019

poesia na aldeia

"Receberei um abraço em cada verso, desejo do autor em dedicatória a mim.
Quem me aproximou do Nirton Venâncio foi uma de suas paixões, o cinema, através de seu longa-metragem em andamento Pessoal do Ceará - Lado A Lado B, cujo conteúdo minha pesquisa na Universidade de Brasília tangencia.
Pois que me chega o livro do Nirton Venancio, que teve poemas musicados pelos seus conterrâneos cearenses Mona Gadelha e Ricardo Augusto, artistas que ouço de longa data.
Uma parceria envolvendo os três, interpretada por Mona e musicada pelo Ricardo, esteve numa das edições do Programa Aldeia Do MUNDO.
É poesia-roteiro-canção, dessas que nos afetam no vivido como ampliação do porvir.
Obrigado, querido Nirton!"
Magno Córdova, professor, historiador

lançamento na Feira


segunda-feira, 10 de junho de 2019

trilha das artes

"Versos de sentidos iluminados. Animalidade. Provisoriedade. E toda a multiplicidade do poético estão contidas no universo literário de Alberto Bresciani e Nirton Venancio. Nessa semana, eles lançam, respectivamente, seus livros Fundamentos de Ventilação e Apneia (Carpe Diem, 11/06, 19h) e Poesia Provisória (Feira do Livro de Brasília - Estande do Autor 1, 12/06, 16h). Seus rebentos são o assunto do Trilha das Artes desse fim de semana. Quem é de ouvir, venha! Vamos ler algumas de suas poesias. Poesias com P maiúsculo. Homens em conexão. Poetas em ação!"
- André Amaro, Rádio Câmara, Brasília

a soberana do sertão

"A baiana Maria Gomes de Oliveira era chamada desde a infância de Maria de Déa, em referência a sua mãe. Nem a família nem o bando de Lampião a tratavam por Maria Bonita, apelido que só se difundiu após sua morte. Há algumas versões sobre a origem desse nome. Uma delas diz que se tratou de invenção dos repórteres dos jornais do Rio de Janeiro, possivelmente inspirados no filme 'Maria Bonita', lançado em 1937 e baseado na obra de mesmo nome de Afrânio Peixoto, de 1921. Outra, que teria sido dado por soldados que se impressionaram com a beleza da cangaceira, quando da chacina em que ela foi morta, em 28 de julho de 1938, aos 28 anos."
- Trecho do livro Maria Bonita: Sexo, Violência e Mulheres no Cangaço, de Adriana de Negreiros, 2018
O filme que a autora cita foi dirigido por Julien Mandel. É uma história urbana, ambientada no Rio de Janeiro, sobre uma moça que por sua beleza chama a atenção de muitos pretendentes. A personagem do livro de Afranio Peixoto, escritor e médico baiano, foi inspirada na esposa de um rico fazendeiro de gado e cacau no interior da Bahia. A relação entre as Marias é somente a beleza.
Acima, foto retificada e colorizada por Rubens Antonio sobre original de Benjamin Abrahão

João

"O bruxo de Juazeiro numa caverna do louro francês / (quem terá tido essa fazenda de areais?)..."
- Caetano Veloso em A Bossa Nova é foda, disco Abraçaço, 2012

Hoje, 88 anos que no peito do ‘desafinado’ bate um coração.
João Gilberto fotografado por Francisco Pereira, década de 50.

provas e convicções

"As provas estão aí, mas as manobras já estão sendo armadas. Num país sério, nem haveria tempo para a segunda-feira."
- Adeilton Lima, ator, diretor, poeta, sobre as mensagens secretas da Lava Jato publicadas no site Intercept Brasil neste fim de semana.

domingo, 9 de junho de 2019

próximo lançamento

designer gráfico: Enzo Venancio

santa Joana

Baseado nos documentos históricos do julgamento, A paixão de Joana D’Arc (La Passion de Jeanne d'Arc), foi o segundo filme produzido, em 1928, sobre a jovem camponesa de 19 anos, modesta e analfabeta, que conduziu o exército francês contra o inglês durante a Guerra dos Cem Anos, acusada pela Igreja Católica porque teria recebido de Deus a tarefa de libertar a França. Presa e torturada, a moça foi queimada viva, em bárbaro auto-de-fé, que eram os eventos de penitência realizados em praça pública pela tal Santa Inquisição.

Dirigido pelo dinamarquês Carl Theodor Dreyer, o filme é considerado praticamente o primeiro, por ser superior ao de Cecil B. DeMille, Joana D’Arc – A donzela de Orléans (Joan, the woman), de 1916.
Ainda na era do cinema mudo, a direção de Dreyer se destaca em seu pioneirismo pela fidelidade dos fatos, inovação estética e ausência de glamour dramático.
Os perfeitos enquadramentos de câmera fazem parte da construção da linguagem cinematográfica que nascia. O diretor não usou maquiagem nos atores, para que na composição dos planos fechados sobressaíssem as expressões faciais.
Banido à época da Inglaterra, para não mostrar a heroína atormentada por soldados ingleses, os negativos do filme foram misteriosamente “sumidos”. Mais de cinquenta anos depois, o que se tem hoje são cópias remasterizadas a partir de uma cópia encontrada curiosamente em um hospício em Oslo, na Noruega, na década de 80.
A francesa Marie Falconetti, célebre artista de teatro à época, em sua primeira atuação no cinema (foto), é reconhecida como a melhor interpretação de Joana D'Arc, superior a outras, como a de Ingrid Bergman por duas vezes, em 1948 no filme de Victor Fleming e em 1954 no de Roberto Rossellini, Jean Seberg em 1957 sob a direção de Otto Preminger, Florence Delay no filme de Robert Bresson, e a composição pop-andrógina da ucraniana Milla Jovovich na produção de Luc Besson, em 1999.
A Igreja Católica canonizou a jovem em 30 de maio 1920, instituindo o dia em sua homenagem, em reparação à brutalidade cometida em 1491.

sábado, 8 de junho de 2019

em defesa da educação

"Estão conosco todos os ancestrais da multiplicidade de povos que construíram a nação brasileira"

o poeta na cidade

O conterrâneo Mailson Furtado, prêmio Jabuti de Poesia 2018, com o livro "À cidade", é o homenageado da 35ª Feira do Livro de Brasília.
Hoje, às 11h, será entrevistado no Cruzeiro em Letras, programa da Academia Cruzeirense De Letras, na Radio DF FM, com apresentação do poeta Mauro Rocha.

"no
domingo há feira
segunda é feira
como a terça ou quarta feira
quinta feira ou sexta
o sábado não
não se define"

diz um trecho do seu livro premiado. Mas hoje a entrevista é uma definição da simplicidade e grandiosidade de um poeta, assim como até dia 16 Mailson é feira do livro de Brasília.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

then you'll spread your wings and you'll take to the sky

No próximo dia 11 completarão nove anos que o cantor Serguei esteve em Brasília e fez um show histórico. Ele tinha 76 anos. A paleontóloga apresentação dessa lenda do rock brasileiro foi num galpão “customizado” de pub underground na cidade-satélite Taguatinga, numa via com oficinas de carros, boates decadentes e fundos de supermercados, ao lado da linha de metrô pra Samambaia e vistas dos prédios crescentes da “emergente” Águas Claras. Local apropriadíssimo para as escavações e exibição do panssexual roqueiro.

Assistir a um show de Serguei é sempre um show, na mais completa tradução. Só vendo. E ouvindo. Mesmo que a voz rouca não tenha sido mais essas rouquidões todas, Serguei foi reverenciado, apalpado, beijado, por um seleto e eufórico grupo de fãs, como se fosse um Mick Jagger descamisado de Iggy Pop com estampa de Jim Morrison. A postura outsider cada vez mais reincidente.
Com problemas cardíacos, pneumonia, fibromialgia e complicações de senilidade com início de Alzheimer, Serguei faleceu agora à tarde, aos 85 anos, depois de onze dias internado num hospital em Volta Redonda, RJ, a duzentos e poucos quilômetros de Saquarema, onde vivia desde 1972. Nos últimos anos queixava-se de desnutrição e solidão.
Naquela noite fria de junho em Brasília, Serguei, entre tantos covers de sua set list, com um telão ao fundo com imagens do filme Woodstock, ovacionou com Summertime, clássico eternizado pela versão blues de Janis Joplin, com quem ele assegurava ter rolado sexo, drogas e rock and roll – não necessariamente nessa desordem. Ou sim.

quinta-feira, 6 de junho de 2019

olhos nos olhos

"Os olhos de Nirton Venancio brilham. O brilho dos olhos de quem sonha. O brilho dos olhos de quem filma. É comovente e emocionante ver o brilho dos olhos de Nirton realizando seu desejo. Os olhos de Nirton querem compartilhar descobertas. Querem o olhar dos justos. Nirton com sua grande angular na grande tela. Quer os olhos da plateia. Os olhos de Nirton querem entender todas as trilhas, todas as tramas. Os olhos de Nirton fazem música. É bom ver esse olhar de menino apaixonado pelo que faz. Com sua equipe dedicada, com as mãos de Rui Ferreira na edição, o filme vai se fazendo. O filme somos nós. Os olhos de Nirton querem um lugar para a música do Ceará, o lugar que ela merece."

- cantora e compositora Mona Gadelha após entrevista-la para o meu documentário Pessoal do Ceará – Lado A Lado B, em junho de 2014, nas escadarias históricas da Caixa Cultural de Fortaleza, antigo prédio da Alfândega.
É gratificante saber que enquanto filmava estava também sendo filmado pelo seu olhar sensível. Olhos nos olhos no mesmo coração passeando na praia lírica da música cearense, brasileira, universal.
Com a produção parada há mais de dois anos, o projeto não foi contemplado em cinco tentativas em editais estaduais no Ceará (três da Secretaria de Cultura do Estado, um da Fundação Demócrito Rocha e um da TVC).

Tudo que foi realizado no período de 2014 a 2017, deve-se a recursos próprios e apoio de produtoras de amigos que acreditam na proposta do documentário, mas não puderam continuar.
Partindo agora para elaboração do projeto em financiamento coletivo, o Crowdfunding.

Nas fotos de Maira Sales, Leo Mamede (direção de fotografia), Tadeu Marinho (técnico de som) e Priscila Sousa (continuidade).


Poesia na Feira


primeiros takes

fotos Mirna Liz
“Com a força do amor verdadeiro em tudo que você produz, esse filme, esse sonho alimentado no seu, no nosso coração, vai dar certo... um dia vingará!!!.. beijo nesse seu coração de poeta, Nirton!”
- Téti, musa primeira da canção cearense, uma das primeiras entrevistadas para o documentário Pessoal do Ceará - Lado A Lado B.
Com a produção parada há mais de dois anos, o projeto não foi contemplado em cinco tentativas em editais estaduais no Ceará (três da Secretaria de Cultura do Estado, um da Fundação Demócrito Rocha e um da TVC).
Tudo que foi realizado no período de 2014 a 2017, deve-se a recursos próprios e apoio de produtoras de amigos que acreditam na proposta do documentário, mas não puderam continuar.
Partindo agora para elaboração do projeto em financiamento coletivo, o Crowdfunding.
Gratidão à cantora Téti por palmilhar o chão sagrado da arte com resistência e esperança.
fotos Mirna Liz

terça-feira, 4 de junho de 2019

onde você ainda se reconhece?

Faça uma lista de grandes amigos
quem você mais via há dez anos atrás
quantos você ainda vê todo dia
quantos você já não encontra mais.
Faça uma lista dos sonhos que tinha
quantos você desistiu de sonhar!
quantos amores jurados pra sempre
quantos você conseguiu preservar.

Onde você ainda se reconhece
na foto passada ou no espelho de agora
hoje é do jeito que achou que seria?
quantos amigos você jogou fora
quantos mistérios que você sondava
quantos você conseguiu entender
quantos segredos que você guardava
hoje são bobos ninguém quer saber.

Quantas mentiras você condenava
quantas você teve que cometer
quantos defeitos sanados com o tempo
eram o melhor que havia em você
quantas canções que você não cantava
hoje assovia pra sobreviver
quantas pessoas que você amava
hoje acredita que amam você.

Em 1999 o cantor e compositor Oswaldo Montenegro compôs a canção A lista, para a peça teatral homônima, apresentada no Teatro de Arena, Rio de Janeiro, e três anos depois gravada em seu disco, também com o mesmo nome.
Mais do que uma música que expressa uma saudade, um lamento, um rosário de um tempo passado, a letra debulha os grãos dos dias, olha pelo retrovisor sem perder o prumo adiante, e, sobretudo, disseca de forma calma, serena, lúcida e sincera, a amizade, principalmente nestes tempos de fast-food dos afetos.