terça-feira, 15 de outubro de 2019

o professor

“Não basta saber ler que 'Eva viu a uva'. É preciso compreender qual a posição que Eva ocupa no seu contexto social, quem trabalha para produzir a uva e quem lucra com esse trabalho.”
Admirável pensamento do mestre Paulo Freire, no raciocínio da simplicidade de uma fábula, em A Educação na cidade, 1991, coletânea com entrevistas após ter assumido a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo (1989 - 1990).
O sociólogo e pedagogo, patrono da Educação brasileira, ameaçado nestes tempos sombrios de fascismo, nos mostrou as uvas e que não estariam verdes.
Acima, painel Paulo Freire, autoria de Luiz Carlos Cappellano, 2009,
exposto no Centro de Formação, Tecnologia e Pesquisa Educacional Prof. Milton de Almeida Santos, SME, Campinas, SP.

segunda-feira, 14 de outubro de 2019

porto

foto Picfair Photography, Dalibor, Croacia
"O mundo não está interessado nas tempestades que você encontrou. Ele quer saber se trouxe o navio."
- William McFee, escritor inglês

domingo, 13 de outubro de 2019

pontes e muros

“Ao longo das próximas semanas assistiremos a um combate entre construtores de pontes e construtores de muros. Pobre Brasil se os construtores de muros ganharem.
O Brasil, um país amado no mundo inteiro pela sua cultura, pela sua alegria e generosidade, não pode permitir que o ódio se alastre e triunfe.”

- José Roberto Agualusa, escritor angolano, residente em Portugal, em sua coluna no jornal O Globo, em 12 de outubro do ano passado.
Muito ligado ao Brasil, assim como o moçambicano Mia Couto, Agualusa morou por quatro anos entre Pernambuco e Rio de Janeiro. Quando esteve aqui para a terceira edição da Feira Literária Internacional de Maringá, em setembro de 2016, logo após o golpe, disse que “o triunfo da estupidez e da injustiça nunca deixa de me surpreender. O país foi sequestrado por um grupo de delinquentes.”
Infelizmente, no dia 28 de outubro, 2º turno das eleições, deu-se o vaticínio dos muros, ergueu-se a estupidez, e um grupo de delinquentes, milicianos e judiciário complacente, institucionalizou o sequestro do país.

a indesejada

Manuel Bandeira diz em seu poema Consoada que "quando a Indesejada das gentes chegar", ela, "encontrará lavrado o campo, a casa limpa, / a mesa posta, / com cada coisa em seu lugar."
E assim a iniludível o encontrou, num começo de tarde, em 13 outubro de 1968.

sábado, 12 de outubro de 2019

dia das crianças

Ágatha Vitória Sales Félix, 8 anos.
Todos os dias são seus, em nossa memória, em nossa dor, em nossa indignação, em nossa luta, em nossa resistência, em nossa esperança.

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

bate outra vez

Há 111 anos nascia Cartola.
Há 111 que as rosas falam na música brasileira.

O mundo é um moinho, este país está um moinho, 'seu' Agenor, estão triturando nossos sonhos. Mas nosso coração sempre bate outra vez com esperança quando ouvimos suas canções.
A benção, mestre. Tiro minha cartola para você

83 tons de Zé

Há 83 anos o Zé está fora do tom da mesmice, na contramão da música pra pular brasileira.
Parabéns, eterno garoto do sertão de Irará.

quarta-feira, 9 de outubro de 2019

volver a los 27

Viver para contar, a autobiografia de Gabriel Garcia Marquez foi lançada em 2002, doze anos antes de sua morte. Publicou na sequência dois livros, Memória de minhas putas tristes, 2004, e Eu não vim fazer um discurso, 2010, este com claros traços biográficos ao reunir discursos escritos desde os 17 anos até completar 80.
Na autobiografia, o escritor colombiano relata o período de infância e juventude, até os 27 anos, em 1954. Neste recorte no tempo e na vida, e estruturado em oito capítulos, Garcia Marquez relata as cidades por onde viveu, de sua natal Aracataca, no litoral caribenho, à capital Bogotá; sua numerosa família de dez irmãos, a relação com seu avô materno, que contava histórias que o fascinava; seu trabalho como jornalista, que despertou a consciência política e os primeiros sinais de literatura na escrita; os livros e os autores que o influenciaram, de James Joyce a Pablo Neruda; as dificuldades financeiras e as conversas com os amigos, nas livrarias, as bebedeiras noite a dentro... e em todo esse painel de memória, a história da Colômbia, com suas guerras civis e mudanças de poder.
Como se fosse um primeiro volume, a biografia pode parecer frustrante por cobrir um curto período na vida de um dos maiores escritores da literatura mundial, autor de mais de 30 livros, Prêmio Nobel em 1982, contemplado com diversos títulos e condecorações. Mas os vinte e sete anos ali relatados e inventariados, dão o perfil, como um movimento seminal, do escritor e da obra que o consagrou.
A vida toda é um realismo fantástico.

o universo em seu canto

Taiguara foi o compositor mais censurado da música brasileira. 68 canções foram proibidas pelo regime militar nas décadas de 60 e 70.
Exilado na Inglaterra, gravou um disco nunca lançado no Brasil, Let the children hear the music, tornando-se o primeiro cantor proibido a produzir um trabalho no exterior à época braba de ditaduras na América Latina.
Em uma viagem à Fortaleza, encantou-se com uma sereia cearense numa praia ainda distante e compôs Maria do Futuro.
Taiguara partiu cedo, aos 50 anos. Ele nunca parava de ter esperanças, e por isso cantava. Hoje ele faria 74 anos de sonhos.

terça-feira, 8 de outubro de 2019

entrevista

“Nesta terça-feira (08/10), às 20h, eu converso no Programa autores e Ideias, da Rádio FM Assembleia, com o escritor e cineasta Nirton Venancio , autor do lançamento: Poesia provisória publicado pela editora Radiadora.
O livro de poemas conta com prefácio de Carlos Emílio Correia Lima e ilustração de Fausto Nilo.

Ficou curioso? Então, sintonize FM 96,7
Na internet, acesse.
Perdeu o programa? Escute aqui.
Confira também a nossa reprise na sexta-feira, dia 11, às 23h."
Lilian Martins, jornalista
.

Dia do Nordestino

foto © Tiago Santana
8 de outubro, Dia do Nordestino
A data, instituída pela lei nº 14.952, de 13 de julho de 2009, na cidade de São Paulo, foi escolhida em homenagem a dois nordestinos:
Antônio Gonçalves da Silva, mais conhecido como Patativa do Assaré, poeta popular, compositor e músico cearense, pelo centenário de nascimento naquele ano.
foto © Acervo MIS-RJ
Catulo da Paixão Cearense, poeta, músico e compositor maranhense, autor da célebre Luar do Sertão, pelo aniversário de nascimento nesse dia.

segunda-feira, 7 de outubro de 2019

I'm lonely in London...

Caetano Veloso, 1971.
Terceiro álbum do baiano, gravado em Londres, e as músicas refletem bem o estado de espírito de um exilado naquela cidade cinza, longe de sua Bahia, de um Brasil dominado por uma ditadura militar, enfiando goela abaixo no povo um país tricampeão de futebol para abafar os gemidos no porão. Nada estava tão divino e maravilhoso.
As letras do disco são tristes, melancólicas, cheias de espanto e saudade. E de uma beleza poética e melódica singulares. London, London, a faixa mais conhecida, traduz bem o espírito de um artista saudoso. Caetano descreve, ou descreve-se, em um passeio pelas ruas da capital inglesa, "I'm wandering round and round, nowhere to go", vagando, dando voltas sem direção, sem ninguém pra dizer olá, "I know I know no one here to say hello", e a vontade de voltar pra sua terra faz com que imagine discos voadores que o levassem de volta, "while my eyes go looking for flying saucers in the sky".
A sua versão tão interiorizada de Asa branca, dos mestres Gonzagão e Humberto Teixeira, tem a mesma expressão dessa saudade de todos seus santos amaros, da risada de Irene, do abraço de Bethânia, do colo de Dona Canô.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

querido velho Chico

Francisco de Assis foi canonizado apenas dois anos depois da morte, em 1228, pelo Papa Gregório IX. Hoje a fé cristã celebra o instrumento de vossa paz.
Abaixo, flagrante do fotógrafo australiano Jim Frazier, 2015.
O pássaro azul pousa ao lado do pássaro da escultura e referencia o santo que falava com ele.
A magnifica obra é do escultor americano Frank C. Gaylord, 94 anos, e se encontra em Saints Peter and Paul Cemetery, Illinois, EUA.

come to me, honey

"Anything, baby, I can do for you / tell your mama, babe..."
Trecho da canção Tell mama, de Clarence Carter, que Janis Joplin cantou pela primeira ao vivo no Festival Express em Toronto, 1970, em reverência a sua "ídola" Etta James, que gravou no disco Tell Mama Chess, 1967.
A interpretação visceral de Janis foi incluída como bônus na reedição, em 2012, do disco póstumo Pearl, de 1971.
Na foto, a cantora e sua mãe Dorothy Lyn Joplin, 1943.
Hoje, 49 anos que ela não morreu.

o muro

"O fascismo não é impedir-nos de dizer, é obrigar-nos a dizer."
- Roland Barthes em Fragmentos de um Discurso Amoroso, 1977
Cena de Pink Floyd The Wall, de Alan Parker, 1982

quarta-feira, 2 de outubro de 2019

o mergulho do poeta


O escritor, compositor e professor Leo Mackellene disse certa vez que o poema, por sua estrutura vertical, é o mergulho na escrita. A descrição comparativa é perfeita como definição.
A poesia é a mais íntima manifestação literária. Um poema é sempre verdadeiro, até mesmo quando o poeta finge que é dor pessoana, o amor que deveras mente.
A prosa, por sua vez, na horizontalidade da escrita, abre os braços para o leste e o oeste, em direção ao sul e ao norte. O prosador reconstrói a realidade, inventa verdades, mesmo fingido amor a dor que deveras ressente.
Por isso, no que costumamos chamar de prosa-poética, nossos braços saltitam para todos lados, alturas e abismos.
O escritor cearense Valdi Ferreira Lima caminha e pulsa com maestria na latitude e longitude da escrita literária. Seu livro O guardador de raízes, lançado ano passado, comovente registro biográfico de seu pai, Pastor Lima, é um exemplar de domínio descritivo em que o tempo, lugar e sentimento dos personagens discorrem e dialogam afetivamente com o leitor, na extensão e fôlego horizontal de quase 500 páginas.
Em Poemas para se assobiar de longe, Valdi Ferreira Lima se insere na lista dos mais expressivos poetas da literatura brasileira contemporânea. A impressionante destreza com o uso da palavra revela a alma de quem escreve e de quem lê de forma direta e orgânica no talhe preciso de cada verso, onde foi colocado e onde nem sequer existe. O recurso narrativo com quase ausência natural de pontos e vírgulas é a mais profunda respiração que se tem em todo o livro. O eu-retorcido em mais de quarenta poemas espraiados funde o tempo existencial com o social, o amor com ardor, a dor com amor.
Seu mergulho na poesia e seu estender na largura da prosa é um presente de sua literatura na literatura.
Poemas para se assobiar de longe teve dois lançamentos recentes em Sobral, Ceará. Hoje será mais um, necessário e oportuno na resistência nestes tempos sombrios.
O lançamento será no Cicero'S Bar, com a participação musical de Marcelo Pinheiro e Ricardo Pinheiro da banda Renegados, o cantor e compositor Vicente Lopes, Leo Mackellene, da banda Trovador Eletrônico e Kelly Brasil.
Mais do que um evento, será um acontecimento.

terça-feira, 1 de outubro de 2019

maiores abandonados

1º de outubro foi escolhido como o Dia Internacional do Idoso, estabelecido pela ONU em 1990.
No Brasil, Lei de 2006 instituiu a data para as comemorações nacionais e valorização da pessoa idosa na sociedade.
Mas não é assim que acontece. Mais ainda agora, nesse desgoverno no Ano I da Era Tosca, página infeliz de nossa história.
Como bem refletia a psicóloga e escritora Ecléa Bosi em Memória e Sociedade; lembranças de velhos, 1998, "a sociedade capitalista desarma o velho mobilizando mecanismos pelos quais oprime a velhice, destrói os apoios da memória e substitui a lembrança pela história oficial celebrativa."

acalanto

"Quero muito agradecer ao queridíssimo Nirton Venancio por esse maravilhoso presente! Uma poesia leve, cálida e acalentadora. Um sopro de vida no cotidiano. Vejo você em cada palavra, Nirton. Seu livro é um registro bom da vida...🤗
Vale muito a pena ler!!! Eu super indico!!!"


- Manuela Andrade

segunda-feira, 30 de setembro de 2019

juventude


68th St, New York City, 1954, foto de Roy Schatt

Ah, você se lembra, James Dean
algumas coisas vão ser sempre assim
duram a vida toda
e a gente carrega nos ombros
por um caminho sem fim

Um gosto amargo
que fica daquele momento
que a gente não viveu
de tudo que a gente lembra que perdeu
e nunca mais vai achar
porque o filme tem hora pra acabar

Ah, James Dean
por que levo o amor
tão sério assim
se era pra ser leve e não ruim
ou mesmo um sonho vão
e não esse aperto no coração

Ah, James Dean,
algumas coisas vão ser sempre assim.

James Dean, de Mona Gadelha, musicado por Ricardo Augusto, gravado no sétimo disco da cantora e compositora cearense, Cidade blues rock nas ruas, 2013.
A canção é um dos mais belos tributos sobre a beleza, a dor e a eternidade da juventude do ator que, hoje, há 64 anos não morreu.

conheço o meu lugar

Em 1984, o cantor e compositor Belchior foi convidado para o programa Som Brasil, da Rede Globo, exibido na última sexta-feira de cada mês.
Criado e apresentado por Rolando Boldrin, com o objetivo de divulgar para o país a importância da música regional brasileira, naquele ano até 1989, o programa passou a ser apresentado por Lima Duarte. Boldrin se desentendeu com a direção da emissora, por questão de horário, e o Som Brasil passou a inserir números com artistas urbanos, sem alterar na mistura as características originais.
Belchior tinha lançado no começo da década três LPs, Objeto direto (1980), Paraíso (1982) e Cenas do próximo capítulo (1984). Mas foi uma canção inédita que ele cantou que marcou sua apresentação: Princesa do meu lugar. De uma singular beleza poética campesina no vasto repertório do compositor cearense, nunca foi gravada em disco por ele.
Segundo o cantor e compositor Jorge Mello, seu parceiro e sócio na gravadora Paraíso Discos, em conversa recente comigo, disse que “há uma gravação de estúdio de Belchior dessa canção. Mas nunca foi publicada. Na realidade, tenho várias gravações de estúdio do Belchior em que ele interpreta canções que nunca foram aproveitadas em seus próprios álbuns. Eram sobras ou excessos de produção. Quando produzi álbuns meus e de outros artistas, sempre gravava nos estúdios uma ou duas canções a mais para ter opções na montagem final do álbum. Esse acesso era aproveitado em álbuns posteriores ou em compactos simples do artista ou ainda em álbuns de coletâneas. E algumas dessas gravações nunca foram aproveitadas. Então são sobras de produção.”
Em 1980, a cantora pernambucana Guadalupe lançou o seu LP de estreia, Princesa do meu lugar, pela RCA. A faixa-titulo no lado A é, até onde pesquisei, o primeiro registro em disco da composição de Belchior.
Divina Comédia Humana, ótimo disco de produção independente da cantora cearense Lúcia Menezes, de 1991, apresenta doze faixas, oito composições de Belchior e quatro de Raimundo Fagner. Dessa lista de músicas já tocadas nas rádios, a cantora incluiu a desconhecida canção do conterrâneo.
A terceira e quarta gravações são mais recentes, de 2017, em dois belíssimos álbuns tributos ao cantor: Amelinha em De primeira grandeza – As canções de Belchior, e a jovem cantora niteroiense Daíra, em seu disco Amar e mudar as coisas. Em entrevista no final do ano passado a Rolando Boldrin, no agora programa Sr. Brasil, da TV Cultura, a cantora disse que descobriu a canção justamente no antigo Som Brasil.
Hoje, dois anos e cinco meses que Belchior ficou encantado com uma nova invenção, a lembrança em vídeo do que em vinil não ficou.
Aos violões, Jorge Mello e Sérgio Żurawski.

domingo, 29 de setembro de 2019

suave parceria

Suave na nave, de Parahyba de Medeiros e Nirton Venancio.
Com Parahyba e Cia.Bate Palmas! Imagens Bete Augusta 

sei escrever o teu nome na ponta fina do lápis *

Nós que o amamos tanto, é que tiramos chapéu pra você, caro amigo Rodger Rogério.
* verso de Ponta do Lápis, de Clodo Ferreira e Rodger, gravada em compacto simples por Ney Matogrosso e Fagner, 1975, Continental.

reincidente



Ele diz no poema Caso de jornal que "a poesia morreu / deu nos jornais em 1918 / críticos e legistas atestaram o óbito / / de lá para cá muitos poetas / ainda de luto / publicam seus livros"
Renato Pessoa é um dos grandes poetas de uma nova geração da literatura cearense, das letras brasileiras. Reflexivamente provocadora, liricamente incômoda, sua poesia é caso de jornal, diariamente resistente.
De "luto" e na luta, Renato comete o delito de continuar publicando seus livros.
O homem do último dia do mundo é seu quinto livro, 2017, editado por Silas Falcão, da Luazul Edições.

.

sábado, 28 de setembro de 2019

armadura (trecho)

Meu corpo é a única coisa que tenho
para carregar o pretexto da alma.
É magro, feio e escandaloso
o corpo
mas é única coisa que tenho

para caminhar pelo tempo e pelos sertões.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

imagem e texto

Conceitos e estratégias sobre cinema e literatura, análise das semelhanças e diferenças entre o texto e a imagem, a construção do roteiro na adaptação para a linguagem audiovisual.

segunda-feira, 23 de setembro de 2019

somos todos Fernanda

"A Associação dos Produtores de Teatro (APTR) repudia veementemente as declarações do diretor de Artes Cênicas da Funarte, Sr. Roberto Alvim, em suas redes sociais, onde classifica o não diálogo com a classe artística como uma 'guerra irrevogável'.
Com a mesma intensidade, repudiamos a classificação da fala de dona Fernanda Montenegro como infantil, mentirosa e canalha. É absolutamente inadmissível que uma atriz com a sua trajetória seja atacada em seu livre exercício de expressão.
Desde que o mundo é mundo, as identidades de todos os povos são construídas através de símbolos, plenos de significados, originando histórias transmitidas de geração em geração. Por este motivo, quando o objetivo é destruir algo, o alvo é sempre o sagrado, o simbólico ou aquilo de maior valor afetivo.
Como cidadão, o Sr. Roberto Alvim pode expressar opinião, independentemente do campo social, cultural e ideológico. Já como gestor público de relevância nacional – ou seja, representando o país como um todo – o mesmo deveria atentar-se à natureza do seu cargo, pautando-se pelo respeito à classe que representa e aos profissionais consagrados por sua atuação.
Cuidar da cultura como um importante setor para a economia e a formação de um país trata-se de um exercício diário, ético e respeitoso. O mesmo se aplica ao cuidado que deveria ser adotado ao se referir a uma atriz como Fernanda Montenegro, um símbolo da identidade nacional, com reconhecimento em todo o mundo.
Persistiremos na busca pelo diálogo, pela liberdade de expressão, pelo afeto ao fazer artístico e cultural de nosso país. Tudo isso de forma civilizada e com total respeito à diversidade."

ontem como hoje

Repostando, atualizando o aplicativo:
Colbert - Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço.
Mazarino - Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas e não consegue honrá-las, vai parar na prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem!
Colbert - Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?
Mazarino - Criando outros.
Colbert - Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino - Sim, é impossível.
Colbert - E sobre os ricos?
Mazarino - E os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta, faz viver centenas de pobres.
Colbert - Então, como faremos?
Mazarino - Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável... É a classe média!
Diálogo da peça Le diable rouge, escrita em 2008 pelo francês Antoine Rault, um dos mais importantes dramaturgos do teatro contemporâneo.
Ambientada no reinado de Luís XIV, em meados do século XVIII, a peça é de uma atualidade impressionante. Incômoda, oportuna, reflexiva.
Qualquer semelhança com estes tempos sombrios, no Ano I da Era Tosca, página infeliz de nossa história, não é mera coincidência.
Acima, The Money Changers/Los cambistas, 1548, óleo sobre tela do holandês Marinus van Reymerswaele, exposto no Bilbao Fine Arts Museum, Espanha.

domingo, 22 de setembro de 2019

eu fico com a pureza das crianças...

para a menina Ágatha Vitória Sales Félix, 8 anos
Gonzaguinha faria hoje 74 anos.
Um dos mais fortes contestadores do regime militar, o cantor tem em sua obra o exemplo de resistência e poética nas canções.
Nestes tempos temerosos, sombrios, fascistas, com certeza ele bradaria "a gente quer viver numa nação / a gente quer é ser um cidadão".

sábado, 21 de setembro de 2019

MonaMusa

Mona Gadelha, cantora, compositora, jornalista. A história do rock, do blues e das canções cearenses não passa por ela: está nela. Nos anos 70, 80, as emoções perigosas de quem fazia música na contramão dos bons costumes do lugar, tinham em Mona a postura, o comportamento feminino de quem pinta com talento, coragem e beleza, a cor do sonho que a música nos traz.
E muito merecidamente, como referência e reverência, Mona foi convidada por um grupo de mulheres gente jovem reunida para inaugurar, hoje, o palco que leva seu nome na Casa Pagu Fest, um novo espaço da cena musical cearense, do divertimento das noites, no sintomático e pulsante bairro Benfica, em Fortaleza.
Esse encontro orgânico no mesmo chão da alegria de Mona Gadelha e Pagu é uma dessas tramas que o universo propicia: musas modernistas na música, na escrita, nas posições políticas e feministas, na reinvenção dos costumes, na costumização da ousadia, na diversidade de pensamento e gênero, nesse gesto antropofágico de resistência na via contrária da caretice institucionalizada.
Cantamos e dançamos com vocês, Mona e Pagu.
Ninguém larga o sonho de ninguém!

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

na ciranda dos encontros

As noites e algumas tardes do fim de semana, alguns bares de Fortaleza são embalados pelo som analógico, mas orgânico, de LPs, sob a regência simpática e interativa de Alan Morais. São canções brasileiras e em todas as línguas em que a música se identifica pela qualidade, por uma época em nossa memória afetiva.
As abaeterças do Abaete Bt, Bolacha Mágica Music Bar, Embaixada da Cachaça, Cantinho do Frango, Serpentina Bar e Cultura, são alguns desses locais onde Alan Morais chega com sua pickup mesa de som e caixas de vinis para as apresentações, criando um ambiente de alegria – um sentimento de resistência neste e em todos os tempos sombrios.
Mais do que saudosismo, ou uma apressada rotulação do modismo “vintage”, Alan põe para tocar seus bolachões como reconhecimento de uma boa música que se torna atemporal por suas características. O mesmo faz nas noites fortalezenses o DJ Március Fish, em atuações empolgantes na Culinária da Van, além de outras frentes na capital, onde diversão e encontros associam-se a uma cultura de consistência em todas as gerações.
Alan Morais, além de um grande conhecedor de música, é o criador do Bloco Sanatório Geral, uma experiência bem-sucedida, no bairro Benfica, dos pré-carnavais, mostrando à cidade uma festa genuinamente momina, ao contrário de uma folia vazia e mercantilista dos “carnavais” uniformizados de abadás e música de qualidade extremamente equivocada, uma folia fora de época, lógica e afeto.
Lançado em 2007, o Sanatório Geral marcou não somente os ladrilhos históricos do bairro Gentilândia, também espalhou-se como um evento consistente no calendário festivo de Fortaleza, chegando a lançar dois discos, em 2007 e 2014, mais que proposital, naturalmente em formato de long-play, e o último também em CD, ambos com composições, vocais, direção musical e arranjos de Alan Morais.
O Sanatório Geral, como um bloco que abria o período de carnaval, manteve-se por recursos próprios, sem o apoio, reconhecimento e sensibilidade dos poderes gestores municipal e estadual. Sem condições de continuidade, o bloco não recolheu sua alegria, mas manteve o seu silêncio expressivo como um alerta, uma notificação aos que podem patrocinar e assegurar uma expressão cultural popular e não o fazem.
Somando-se às noites com seus vinis, Alan Morais é um excelente compositor, parceiro de vários autores da música e literatura, como Alexandre Lima Sousa, Silvio Gurjão, Ricardo Kelmer, Pantico Rocha, Eugênio Leandro, Moacir Bedê... É um sanatório que continua na geral com seus admiráveis loucos pela arte.
Em novembro próximo Alan Morais lança o EP Ciranda dos Encontros, um título adequado que grifa essa parceria em cinco faixas, uma travessia que, pela qualidade de suas composições, marca lugar na cena musical cearense.
Som nas caixas, DJ!

terça-feira, 17 de setembro de 2019

a cumplicidade dos filmes

"Os filmes não existem só ali, na tela, no instante de sua projeção. Eles se mesclam às nossas vidas, influem na nossa maneira de ver o mundo, consolidam afetos, estreitam laços, tecem cumplicidades."
Jean-Claude Carrière, o mestre roteirista da escrita contemporânea, em seu ótimo livro A linguagem secreta do cinema, 1994, aos 88 anos hoje de cumplicidade com a vida.

segunda-feira, 16 de setembro de 2019

com sangue nas veias

“Na Porto Alegre dos anos 30, um rapaz era noivo da mulata Inah e, apesar de apaixonado por ela, hesitava em trocar a boemia pelo casamento. Inah esperou três anos. Quando se convenceu que o rapaz não tomaria uma atitude, foi à luta. Dias depois, ele a viu na rua da Praia, pendurada no braço de um homem – com quem se casaria. O rapaz desesperou-se, teve ganas de matar ou morrer. Mas acalmou-se e fez do sofrimento um samba-canção.”
- Ruy Castro em A noite do meu bem, publicado em 2015
O rapaz de menos de vinte anos era Lupicínio Rodrigues, e Nervos de aço o samba-canção que narrava a sua primeira grande desilusão, o seu desejo de morte ou de dor.
Gravado somente em 1947, na voz de Francisco Alves, se tornou um clássico no repertório não somente do autor, como na história do cancioneiro brasileiro.
O compositor construiu sua obra com mais de 150 canções, sempre relatando paixões, abandonos, casos e desapontamentos seus na maioria, e também dos amigos da boemia, como um cronista musical dos desencantos amorosos.
Lupicínio criou o termo “dor-de-cotovelo”, como o tipo de música que define os amantes bebendo suas dores com os braços apoiados em um balcão de bar.
Há outras ótimas interpretações da emblemática Nervos de aço, como a de Jamelão, gravada no disco Jamelão interpreta Lupicínio Rodrigues, em 1972.
A canção ficou mais conhecida para as novas gerações com a versão de Paulinho da Viola, com a faixa-título do LP lançado em 1973.
Hoje é aniversário de nascimento de Lupicínio, 105 anos. Acima o mestre pelo traço de outro mestre: o cartunista e jornalista paraense J.Bosco.

sábado, 14 de setembro de 2019

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

arqueologia dos afetos

Numa tarde de um dia qualquer, mas especial, do comecinho dos anos 80, em Fortaleza, o meu amigo compositor Ricardo Augusto entra na sala de audiovisual da Centro de Referência Cultural, da Secretaria de Cultura, onde eu trabalhava, com um violão e o cantor Lucio Ricardo. O órgão estadual ficava nos andares da Biblioteca Pública Menezes Pimentel, hoje integrada arquitetonicamente ao Centro Dragão do Mar de Arte e Cultura.

De um janelão, eu via os históricos galpões da antiga área portuária, o centenário prédio da Alfândega (hoje Caixa Cultural)... Meus olhos de planador sobrevoavam os telhados, chegavam à praia de Iracema e se perdiam no mar... Assim, os primeiros versos do meu poema Ventania foram paridos nessa brisa vespertina.

Passei meses com os rascunhos no bolso, sempre mexendo quando alguma palavra precisava ser tirada, alguma pontuação precisava melhorar o ritmo da leitura. Convivendo com o poema antes de escrevê-lo, como ensinava Drummond. Finalizado, foi publicado no meu primeiro livro, Roteiro dos pássaros. E nele Ricardo Augusto leu, e musicou, num dos mais belos e gratificantes encontros de verso e melodia. Cantou para mim com sua voz de Beto Guedes em Albey Road e me desmanchei em alegria. Não sou letrista, e o poema se fez canção.

Pois naquela tarde Ricardo adentra a sala com Lucio Ricardo para gravar a composição. Ele, o bandleader de voz única da lendária banda de blues e rock Perfume Azul, que eu “perseguia” na adolescência nos shows na década de 70. E de forma empolgante e artesanal, gravamos num dinossáurico AKAI, em fita de rolo BASF, ¼ de polegada, um canal, Lucio cantando Ventania e Ricardo ao violão.

Em 2013, a cantora Mona Gadelha grava a música em seu disco Cidade blues rock nas ruas, num arranjo coletivo belíssimo de estúdio, com a produção de Alexandre Fontanetti. Ela, a minha musa do blues e da cor dos meus sonhos, que eu “perseguia” nos shows do IBEU e da arena da CREDIMUS.

Como se não bastasse a versão blues-standard-banquinho-e-violão de Lúcio Ricardo, Mona me presenteia com sua interpretação visceralmente mergulhada na letra e melodia, sua voz desenhando meu canto feminino sobre o mar.

O poema é uma tentativa de reflexão existencial, tão comum, e necessária, na inquietação e perplexidade que inspiram os poetas em seus primeiros rabiscos. Ricardo Augusto vestiu com melodia uma letra sem rima, que se destinava ali mesmo na limitação de um poema num livro. Lucio Ricardo e Mona Gadelha despiram a alma do poema com suas interpretações únicas.

E assim se marcam os encontros que o universo trama, cristalizam os afetos que “estendem os braços / como se fossem mágicos”, como digo em um verso.

No ano de lançamento do disco de Mona Gadelha, o cineasta Valdo Siqueira concebeu e dirigiu o clipe de Ventania (já postado aqui, https://youtu.be/dl0AzBBaxIk). E mais uma vez, como se não bastassem Ricardo, Lúcio e Mona, o cinema, que é igualmente minha praia lírica, dá mais um corpo a um poema-que-se-tornou-música-imagem. Valdo, como um Dziga Vertov na praia de Sabiaguaba, expressa com sua câmera a sinestesia dos versos que “atravessam o mar / como se fossem pássaros”.

O músico Kildare Rios posta nesta manhã de sexta-feira, em seu canal no Youtube, o clipe da gravação do neolítico áudio de Lúcio Ricardo, criando e mixando afetuosamente em estúdio os arranjos, colando digitalmente imagens que ele vê na letra. E assim, mais uma vez, como se não bastassem Ricardo, Lúcio, Mona e Valdo, Kildare dá um corpo carinhosamente singelo de um poema que nunca pensou em ser canção.

A ventania ficou calmaria nos corações entrelaçados.

Gratidão a vocês.

quando eu me chamar saudade

foto © Vania Toledo
"Eu só vou fazer sucesso depois de morto", disse o 'nego dito' Itamar Assumpção ao baixista e amigo Paulo Lepetit nos anos 70.
Um dos maiores compositores brasileiros e um dos mais representativos nomes da cena alternativa da música paulistana, Itamar se foi em 2003, aos 53 anos.
Parceiro em várias composições com Alice Ruiz, Carlos Careqa, Luiz Tatit, Ademir Assunção, Ná Ozzetti, Bocato, Paulo Leminski, Vange Milliet, Arrigo Barnabe, Vânia Bastos, Tata Fernandes, e tantos outros, deixou uma ótima discografia com nove álbuns e três lançamentos póstumos, um deles gravado pouco antes de sua morte, com Naná Vasconcelos, que tem o sintomático título "Isso vai dar repercussão".
Hoje 70 anos de seu nascimento.
foto © Vania Toledo

quinta-feira, 12 de setembro de 2019

lugar bonito

foto Bob Wolfeson
"Na minha memória - tão congestionada - e no meu coração - tão cheio de marcas e poços - você ocupa um dos lugares mais bonitos."
Trecho de uma carta que Caio Fernando Abreu escreveu a um amigo, em 12 de janeiro de 1982, e está no livro O que importa em Oracy, organizado por Fátima Friedriczewski, Froilan Oliveira e Júlio Prates, 2003.
De tantos fragmentos que se destacam em sua vasta literatura, esse toca pela concisão poética e pela lucidez e racionalidade ao mesmo tempo.
O autor gaúcho, que escreveu livros de contos, novelas, romances, peças de teatro, traduções (é dele a versão do clássico A Arte da Guerra, de Sun Tzu), tinha exatamente esse laconismo e exatidão na escrita, sem necessariamente ser minimalista. Usava as palavras no espaço certo, sem precisar se estender em sinônimos para total compreensão.
Viveu em período brabo de ditadura militar, foi um dos primeiros a escrever abertamente sobre sexo numa visão dramática, e assumiu sem rodeios sua homossexualidade. Hoje, quando faria 71 anos, com certeza estaria com o coração marcado, congestionado de indignação pela nuvem de obscurantismo em pleno século 21.
O escritor se foi com apenas 47 anos, e ocupa um lugar bonito em nossa lembrança, na literatura brasileira. Onde estiver.

quarta-feira, 11 de setembro de 2019

outro 11 de setembro

Hoje, 46 anos do assassinato de Salvador Allende, no Palácio de La Moneda cercado e bombardeado pelas tropas do fascista Augusto Pinochet, com apoio total do governo norte-americano, sob os aplausos de Nixon.
A data é um marco no terrorismo de Estado.

depende


terça-feira, 10 de setembro de 2019

pessoal e intransferível

“Esta manhã, ao dispor numa de minhas estantes, neste gabinete, uma fileira de velhos livros devolvidos pelo encadernador, lembrei-me de uma frase de Álvaro Moreyra, num de nossos últimos encontros na Academia:
- Pior do que ter saudade é não ter do que ter saudade.
E é verdade. A saudade é também um patrimônio que se acumula na memória para as horas de solidão. Não pesa. Não ocupa espaço. E é de uso privativo. As melhores saudades são aquelas a que está associada a pessoa amada. Pedem silêncio. Silêncio de nós mesmos. E silêncio à nossa volta.”
- Josué Montello em Diário da tarde, 1998, segundo volume da trilogia Diário completo. No livro, que abrange o período de 1957 a 1967, o escritor maranhense discorre com uma escrita prazerosa acontecimentos que viveu, além de, entre pensamentos e reflexões, narrar breves peculiaridades de amigos e escritores.

sábado, 7 de setembro de 2019

7 de setembro


a que ponto chegamos

"A que ponto chegamos, um beijo causar mais furor e indignação de que um negro ser chicoteado, cristão fazer apologia a armas e idolatrar torturadores, perdas de direitos trabalhistas."
- Ògan Luiz Alves, fotógrafo, Brasília-DF