sábado, 31 de agosto de 2019

nova roupa colorida

No exato dia em que completaram dois anos e quatro meses que Belchior ficou encantado com uma nova invenção, 30 de agosto de 2019, no mesmo espaço em que ele se despediu dos fãs, Teatro Dragão do Mar, em Fortaleza, a cantora niteroiense Daíra apresenta o show, baseado no disco homônimo, de 2017, Amar e mudar as coisas – Daíra canta Belchior, com sala lotada, público entoando as canções, aplaudindo, emocionando-se.
Elis Regina é sem dúvida, a interprete marcante da música do cantor cearense, com a gravação de Como os nossos pais e Velha roupa colorida, em 1976, no disco Falso brilhante. Mas o que a jovem cantora Daíra faz é mais que uma releitura, é um significado impressionantemente visceral e surpreendente da obra de Belchior.

Com sua voz afinadíssima, ela mergulha no corpo das canções, e externa, dos gestos minimalistas ao remate teatral, a tradução anímica das letras. Acompanhada apenas de violão e guitarra do ótimo Augusto Feres, a cantora (en)canta com o mesmo domínio de um cântico à capela, com o mesmo desígnio sacro dos que bem conhecem os fundamentos da Schola Cantorum: é ela e a canção. É a voz e a música.
Nos gestos mais delicados das mãos enquanto ela canta, vê-se o desenho da construção das letras de Belchior. No olhar mais etéreo dela em direção à plateia, ouve-se a voz das letras discursivas de Belchior. No caminhar mais elegante de seu corpo pequeno, sente-se a grandiosidade coreográfica dos relatos de Belchior. Daíra faz uma espécie de musical em solo das composições de Belchior.
Nesse caleidoscópio midiático em que a música brasileira descaminha, é gratificante ver e ouvir uma cantora que canta. Uma cantora que vive a letra que canta. Uma cantora com posições firmes de resistência diante este tempo tosco em que o país vive. Sem afetação, Daíra picha uma faixa, estende e contagia a plateia: “Fora, Bolsonaro. Salvem a Amazônia”, na urgência sob o lema do título do show.
Daíra não era nascida quando Belchior apareceu no final dos anos 70 com o disco Alucinação. Daíra nascia quando Belchior dizia que seu coração era frágil como um beijo de novela. Daíra nasceu para a música brasileira quando Belchior desapareceu e seu lugar era onde a alma deseja. E como o tempo anda mexendo com a gente, Daíra segue cantando lembrando que há mais de dois anos que Belchior não morreu. E assim, a arte não distingue gerações: une talentos de todas as idades.
Cronista do espaço, do homem e do seu tempo, Belchior tem na interpretação de Daíra a efígie de seus recados, a voz do novo que sempre vem.

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

o novo sempre vem

as canções de Belchior na voz de Daíra

sei você vier me perguntar por onde andei...

"Nesses anos todos, Belchior fez de lar suas paragens transitórias, sem reclamar, tentando sempre se adaptar ao ambiente em que se encontrava, com simpatia e simplicidade, preservando sua identidade filosófica, parecendo aplicar para si, na vida do presente, o que sempre escreveu. Era a vivência mais do que um sentimento, era a sua verdade, como se ele mesmo fosse seu próprio experimento, fazendo da vida seu laboratório existencial, confirmando de certa forma suas convicções, embora não fosse mais um rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, como havia escrito há mais de quarenta anos, seu comportamento era seu receituário para a vida futura, que já estava vivendo, todos aqueles anos, até seu último momento."
- Trecho do livro Belchior - A história que a biografia não vai contar, de Jorge Cabral, 2017.
Advogado, fã do cantor, Cabral o acolheu durante três meses, de maio a julho de 2013, em seu sítio, em Guaíba, cidade a 60 km de Porto Alegre.
O livro relata, com precisão, espanto e sentimento, fatos que o autor e sua família conviveram com o rapaz latino-americano em seu exílio voluntário.
Hoje, dois anos e quatro meses que ele está encantado com uma nova invenção.

terça-feira, 27 de agosto de 2019

poesia na madrugada

"Devorei 'Poesia provisória' madrugada a dentro... certamente ao amanhecer estarei pleno de poesias permanentes em meu coração. Gratidão, querido amigo, pelo livro e por excesso de levezas insustentáveis em palavras eternas."🙏🏻
- Rogério Soares, cantor, compositor

segunda-feira, 26 de agosto de 2019

poesia para ouvir de perto

"Alguma constelação deve reger os impulsos, as intuições e até o salto no abismo, que caracterizam esses seres de viés que são os poetas.
Solitários na multidão, múltiplos em sua solidão, os escrevinhadores da beleza e das dores humanas observam os atos mais comezinhos da vida diária para lapidar o que temos de mais grandioso: a alma e seu tempo. Assim, na pulsação minimalista do olhar, os poetas atingem o que Leonardo Da Vinci dizia: 'a simplicidade é o ultimo grau da sofisticação'".

- trecho do prefácio que escrevi para o livro Poemas para se assobiar de longe, de Valdi Ferreira Lima, Editora Radiadora, que será lançado hoje, às 19h, em Sobral, Ceará.
Esse é primeiro do autor. Primeiro e tardio. Mas, primeiro de uma série de outros que precisam ser publicados com uma certa urgência nesses tempos sombrios.
Li os originais de três livros de Valdi, e impossível dizer que um é melhor do que outro. Todos são poesia na sua mais completa tradução. Todos são dignos do que temos de melhor na literatura brasileira contemporânea. Valdi se insere na lista de nossos poetas mais expressivos.
Grato, Valdi, por eu brincar e assobiar poesia na mesma calçada do seu coração.

domingo, 25 de agosto de 2019

domingo sem Fernanda

Morre a escritora Fernanda Young

gratidão

"Hoje eu tenho uma passagem na mídia. Mas quem me fez e o primeiro local de recepção dos meus textos foi no movimento social negro."
- Conceição Evaristo, escritora, poetisa, romancista e ensaísta, ontem durante sua fala na Mesa Insubmissas Memórias, XII Bienal do Livro do Ceará

lirismo

XII Bienal do Livro do Ceará
16 a 25 de agosto

"Meu irmão, acabei de ler tua 'Provisória poesia', permanente!
Feliz demais de conhecer teus versos, e poder ser marcado pelo teu lirismo seco.
Gratidão, Nirton"

- Mailson Furtado, poeta, Prêmio Jabuti 2018

admiração e afeto recíprocos

 XIII Bienal do Livro do Ceará
16 a 25 de agosto

"Não tenho dúvida (e não é de hoje) que esse é um dos maiores poetas brasileiros vivos. Nirton Venancio, sua poesia não é provisória."
- Aila Sampaio, poeta, contista, cronista, professora de Português e Literatura da Unifor

sábado, 24 de agosto de 2019

tango renegado

A temporada 2019 Os cearenses do jornal O Povo, que faz releituras de clássicos de compositores cearenses nas vozes de cantores da nova geração, celebra a obra de Evaldo Gouveia.
Um tango para Tereza, parceria com Jair Amorim, gravado inicialmente por Ângela Maria em 1975, faixa de abertura do LP Ângela, e entre vários outros cantores, Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Maysa, recebe uma versão com leve sotaque de rock da banda Renegados (Marcelo Pinheiro, voz e guitarra, Romualdo Bass, baixo, Ricardo Pinheiro, bateria, Celso Batera, percussão, e nessa gravação a participação de Danilo Gurgel no acordeon). Da cena musical cearense, o cantor Marcus Marcus gravou em 2009 no seu CD Déjà vu.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

lírica

“Língua tão lírica, tão exatamente rica, que não dá vontade de sequer se tentar explicar essa tão conseguida beleza, mas de simplesmente desenhá-la do mesmo modo em que ela foi escrita...”
- Carlos Emílio C. Lima, escritor, trecho do prefácio de Poesia provisória, Nirton Venancio
Editora Radiadora, 2019

À venda no estande QuadraBienal - Editoras Independentes e Autopublicação, da Livraria Lamarca
XIII Bienal do Livro do Ceará
16 a 25 de agosto

quinta-feira, 22 de agosto de 2019

o assobio de Thielemans

foto Henryk Marian Malesa
O grande gaitista belga de jazz Toots Thielemans tinha uma forte proximidade com música brasileira, mais precisamente a Bossa Nova, gravando com Astrud Giberto, Oscar Castro Neves...
Aquarela do Brasil, seu disco com Elis Regina, de 1969, foi o começo de sua paixão, e de tanto ouvir e acompanhar cantores e compositores em shows, lançou nos anos 90 os discos temáticos The Brazil Project, em dois volumes, com canções de Tom Jobim, Dori Caymmi, Ivan Lins, Caetano Veloso, Sivuca, Gilberto Gil, Milton Nascimento, Luis Bonfá, Djavan...
Compôs trilhas para o cinema que hoje estão na nossa memória afetiva: Perdidos na noite (Midnight cowboy), de John Schlesinger, 1969, com Henri Mancini em Bonequinha de Luxo (Breakfast at Tiffany's), de Blake Edwards, 1961, Jean de Florette, de Claude Berri, 1986... Misturava suas doces melodias com harmônica, guitarra e, uma de suas habilidades marcantes, assovio – de onde tirou o prenome Toots.
O talento de Thielemans seguia gerações e gêneros, gravando e em alguns participando da banda, de Charles Parker, Benny Goodman, Miles Davis, Ella Fitzgerald, Frank Sinatra, Ray Charles, Oscar Peterson, Johnny Mathis, Quincy Jones, Bill Evans a Paul Simon, Billy Joel, Nick Cave..
.
O músico faleceu há três anos, na manhã de 22 de agosto, enquanto dormia, aos 94 anos, depois de um mês hospitalizado por causa de uma queda em casa.

A música continua. Basta ouvir, por exemplo, assobiar Bluesette, seu clássico de 1962.

cinema em transe

“Não há ninguém se pareça com ele, nem de perto, no cinema de hoje - a força de sua obra, sua paixão intensa me fazem falta. Meu primeiro encontro com a obra de Glauber Rocha foi seu marcante ‘Terra em transe’ (1967), que ajudei a restaurar vinte e cinco anos após sua estreia. O filme leva o espectador ao esgotamento, tão intenso e implacável é a sua confusão de sons e imagens. Até hoje nunca vi nada igual! Muito rápido me certifiquei de descobrir seus outros filmes, dos quais ‘O dragão da maldade contra o santo guerreiro’ (1969) é o meu preferido. O engajamento pessoal de Rocha é tão grande que o estilo de seus filmes é inseparável de seu conteúdo político. Rocha não se contentava em pegar uma história e desenvolvê-la: ele criava verdadeiramente uma tapeçaria frenética de dor, cólera e sofrimento humanos que ele havia observado ao seu redor, em seu ofício tecido por sua grande inteligência.”
- Martin Scorsese em Cahiers du Cinéma, nº 500, março de 1996
Glauber e Scorsese encontraram-se três vezes em Nova York, Los Angeles e no Festival de Veneza, em 1980. Nesse mesmo ano a artista plástica Paula Gaitán, à época sua esposa, fotografou em Portugal Glauber ao lado do cartaz do filme que o cineasta americano estava lançando, O touro indomável. A admiração era mútua. Em 1991 Scorsese posa para o fotógrafo Michael Chaiken segurando o cartaz de Deus e o diabo na terra do sol, um dos filmes restaurados juntamente com Terra em transe e O Dragão da Maldade, que receberam cópias novas em 35mm.
Hoje, 38 anos sem o touro indomável do cinema brasileiro.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

poesia na Bienal

XIII Bienal do Livro do Ceará
16 a 25 de agosto

Poesia provisória, Nirton Venancio 
Editora Radiadora, 2019

Após o lançamento no Espaço Natercia Campos, o livro encontra-se no estande QuadraBienal - Espaço para Editoras Independentes e Autopublicação, da Livraria Lamarca

sábado, 17 de agosto de 2019

Manifesto

MANIFESTO PÚBLICO EM DEFESA DAS ARTES, LIBERDADE E DEMOCRACIA

As organizações envolvidas no processo de produção do 3º Sertão & Diversidade - Festival Internacional de Curtas, reunidas na cidade de Quixadá, Ceará, dos dias 14 a 17 de agosto de 2019, vem através deste manifesto, convocar toda a sociedade brasileira a abrir os olhos para horizonte da produção cultural e audiovisual pela instauração de censura por parte do Sr. Presidente da República em declarada perseguição às populações ditas minoritárias, LGBTQ - Lésbicas, gays, sexuais, travestis, transexuais, e queers, população negra e mulheres.
O último episódio aconteceu na noite de 15/8/2019, durante sua 'live' semanal, quando o presidente anunciou o veto a quatro projetos audiovisuais com temática LGBTQ. Os quatro projetos eram finalistas do edital PRODAV 08 das TVs Públicas, lançado para séries de TV que concorriam na categoria Diversidade de Gênero, destinado especificamente para série de TV que abordassem a temática, e o quarto estava na categoria Sexualidade.
Além de anunciar a prática da censura, o que é inconcebível num estado democrático em que vivemos, o presidente escarneceu da temática das obras, bem como se valeu de expressões depreciativas ao anunciar seu veto a elas como "abortar a missão" e "mais um que foi para o saco".
O posicionamento do Presidente da República, em suas redes sociais, demonstra o interesse do seu governo em retirar a autonomia dos produtores e financiadores da cultura, tornando nítida a censura presidencial no âmbito da produção de arte como ferramenta de conhecimento e transformação social. Mais um vez, o Poder Executivo Nacional, baseado em motivação preconceituosa e ancorado no discurso de ódio de seu representante maior, ataca os princípios constitucionais expressos no Artigo 5º da Constituição Federal de 1988 e os preceitos fundamentais da administração pública.
Na contramão da construção dos processos de cidadania para brasileiros e brasileiras dos últimos anos, com suas estratégias de incentivo à produção cultural, de cidadania para LGBTQ e combate ao racismo, tal perseguição mostra a necessidade urgente de que tais atos de violação de direitos sejam demarcados juridicamente como atos de censura, racismo e LGBTfobia, que são inclusive praticados muitas vezes pelo Presidente da República, através de pronunciamentos em canais de comunicação não oficiais do governo, promovendo um verdadeiro "desmantelamento" na autonomia das organizações.
Reiteramos que a sociedade brasileira necessita se posicionar em favor da liberdade e da democracia e compreender que uma sociedade igualitária e solidária se constrói fundamentada no respeito às diferenças e à pluralidade de seu povo com suas particularidades, expressões culturais, religiosas, de gênero e de pensamento.

não nos afastemos

foto Rogério Reis, 1982
“Estou preso à vida e olho meus companheiros. 
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças. 
Entre eles, considero a enorme realidade. 
O presente é tão grande, não nos afastemos. 
Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas.”

Oportuno trecho do poema Mãos dadas, de Carlos Drummond de Andrade, publicado no livro O sentimento do mundo, 1940.
32 anos hoje sem o poeta. 32 anos que sua poesia nunca se afastou. A vida inteira de mãos dadas.
foto Rogério Reis, 1982

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

campo minado

"Um poeta sentado é sempre um poeta em pé de guerra."
Haroldo de Campos fotografado Eder Chiodetto, 1999, em sua "bibliocasa", como ele chamava local onde morava, no bairro Perdizes, São Paulo.
16 anos hoje sem o poeta.

encruzilhada do blues

Assim como Jimi Hendrix, Janis Joplin, Pete Ham, Jim Morrison, Brian Jones, Nat Jaffe, Gary Thain, André Pretorius, Alan "Blind Owl" Wilson, Kurt Cobain, Jacob Miller, Amy Winehouse, o bluesman Robert Jonhson se foi aos 27, há 80 anos, de uma dose de whisky envenenado por um marido ciumento.

quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Era de Aquário

"Uma Exposição Aquariana: 3 Dias de Paz & Música", assim foi anunciado o maior evento da música popular, o Woodstock, que começou em 15 de agosto de 1969, na cidade de Bethel, estado de Nova York.
Uma multidão de mais 400 mil com o dedo em V, cabelo ao vento, gente jovem reunida, e o cartaz de mais de trinta músicos... Jimi Hendrix, Janis Joplin, Richie Havens, Arlo Guthrie, Joan Baez, Santana, Creedence Clearwater Revival, The Who, Jefferson Airplane, Joe Cocker, Johnny Winter, Crosby, Stills, Nash & Young, entre outros
.
Muitos recusaram os convites, pelos mais variados motivos. Dos Beatles, dizem que John Lennon exigiu que tocasse com ele a Plastic Ono Band; Led Zeppelin achou que seria apenas mais uma banda se apresentando; o inocente empresário do Jethro Tull argumentou que teria muita droga e sexo; The Doors não foi porque falaram que Jim Morrison estava inseguro diante tanta gente; o filho de Bob Dylan adoeceu poucos dias antes...

Woodstock ficou marcado como um retrato comportamental, exemplificou a era hippie e a contracultura do final dos anos 1960 e começo de 70. E isso não é pouco.

segunda-feira, 12 de agosto de 2019

poesia na Bienal


crase

Ameaçam-me 
atear fogo
às vestes e às paixões

se não calo o canto
se não sigo as setas
se não cesso os beijos

isso quando mais ardem
fora e dentro de mim
as vestes e as paixões.

Jogo meu corpo 
em praça pública,
jogo minha alma
em graça pública.

Por isso,
dobro o canto,
e bêbado de beijos,
não me dobro às setas.

reconstruir as nuvens

"Caro Nirton,
Tenho em mão o seu "Poesia provisória', um verdadeiro Rubaiyat de lirismo encantador.
Nele encontrei preciosas imagens de profundo significado sentimental: Esse trabalho de 'resgatar o luar'. 'O pássaro solto no coração'. Essas imaginações de 'ponte entre a saudade e a esperança', esse 'amor que insiste num porto de mar' para a navegação do sentimento. 'As tardes que se diluem em mormaço e solidão'. O momento de flutuação serena que 'conduz ao sempre'. O dom de 'escrever poemas para atravessar os dias', 'reconstruindo as nuvens' da ausência e 'o gosto eterno de cada instante'.
Que agradável ocasião de reviver as expressões mais belas da sua alma de grande artista da palavra!"
- Marcio Catunda, poeta
Meu caro Marcio, seu precioso comentário com a menção ao 'Rubaiyat' de Omar Khayyam, é muito gratificante🙏

sábado, 10 de agosto de 2019

bússola

O que pressinto
me guia.
O que aparece
desconfio.

O que desejo
me norteia.
O que sugere
me previno.

O que choro
me revela.
O que sorrir
me resguardo.

O que escrevo
me entrega.
O que apago
me devolve.

quinta-feira, 8 de agosto de 2019

nature boy

“There was a boy / a very strange enchanted boy… / a little shy and sad of eye…”
Versos da canção Nature boy, composta em 1948 por Eden Ahbez, músico que nos anos 60 influenciou o movimento hippie com suas canções, angústias, rebeldia e esperança.
Já nos anos 40, Ahbez viajava de bicicleta pelas estradas da Califórnia... barbas longas, cabelos nos ombros, sandálias, dormia ao ar livre com a família, vegetariano, alimentava-se de legumes, frutas e nozes... vivia numa boa com três dólares por semana.
Admirador de Nat King Cole, uma noite Eden Ahbez foi ao Lincoln Theatre onde o cantor de voz aveludada se apresentava e tentou lhe entregar uma canção feita inspirada no amigo William Pester, o cara que na verdade já trazia os traços da filosofia paz & amor, um alemão naturalizado americano, conhecido como “eremita de Palm Spring”. Seu pensamento libertário hoje pode ser definido como uma ligação dos reformadores germânicos do século 19 com a garotada hippie contestadora dos anos 60.
Eden Ahbez compôs Nature boy e desejava Nat King Cole para interpretá-la, que naquela noite o ignorou. O autor deixou a canção com o manobrista do teatro, que repassou depois ao destinatário, e ao ouvi-la, de imediato decidiu gravá-la no próximo disco.
A música é um divisor na carreira de Nat King Cole, tornando-se praticamente uma marca registrada em seu vasto repertório. Dezenas de versões foram gravadas nessas décadas, de Frank Sinatra e Sarah Vaughan, passando por Miles Davis, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Cher, Massive Attack, David Bowie, até chegar em seu ótimo e surpreendente disco, Cheek to cheek, 2014, em dueto com Tony Bennet. Em 1979 Ney Matogrosso gravou a versão feita por Caetano Veloso, Encantado, no disco Seu tipo.
Mesmo com o bom retorno financeiro do sucesso de Nature boy e consequentemente outras composições nas vozes de famosos, Eden Ahbez manteve-se um rapaz da natureza, em sua simplicidade e filosofia oriental, tocando com sua banda instrumental. Gravou um único disco, Eden's Island, em 1960, uma espécie de música exótica com poesia beatnik, algo como hoje se rotula "world music". Fiel ao seu estilo o dedo em V e cabelo ao vento, Ahbez promoveu o álbum através de um passeio a pé de costa a costa fazendo aparições pessoais.
O músico teve momentos marcantes de tristeza: as mortes da esposa em 1963, por leucemia, e de seu filho, afogado aos 22 anos, em 71. Ele mesmo teve um fim trágico aos 86, em 1995, ironicamente de acidente de carro, assim como James Dean, admirador confesso de Nature boy, que considerava a canção uma perfeita tradução da sua vida. Dean, Ahbez, Pester, são desses seres que viveram no tempo e à frente dos tempos.
Místico, o músico dizia que seu nome e sobrenome traziam uma bênção, um destino: Eden é Paraíso, Ahbez inicia com A (alfa), termina com Z (ômega) > o começo e o fim.

pedestrian crossing

"eu sou da América do Sul, eu sei, vocês não vão saber..." *
Hoje, 50 anos da famosa capa do LP Abbey Road, dos Beatles, com a foto de Iain Stewart Macmillan.
* versos da canção Para Lennon e McCartney, de Fernando Brant, Marcio Borges e Lô Borges, gravada por Milton Nascimento no disco Milton, 1970.
De Liverpool ao Clube da Esquina, a música sintoniza e atravessa todas as faixas do coração.

terça-feira, 6 de agosto de 2019

os olhos de Toni

foto Timothy Greenfield-Sanders, 2013
No foto Timothy Greenfield-Sanders, 2013final dos anos 60, um grupo de poetas, contistas, cronistas, reunia-se na Universidade Howard, em Washington, para discutir literatura. Uma das integrantes, professora de Língua Inglesa, apresentou um conto sobre uma garota negra que sonha em ter os olhos azuis. O instigante tema reverberou em longos dias de conversas e serviu de base para o primeiro romance da autora, Toni Morrison, em 1970, então com 50 anos de idade e uma longa carreira acadêmica.
Os olhos mais azuis é uma obra de estreia de uma escritora que praticamente marcou, deu voz e vez à literatura negra norte-americana e ao ativismo político social. A escritora e educadora Toni Cade Bambara, falecida em 1995, possivelmente seja a primeira associação que se faça a sua xará. Bambara desenvolveu sua literatura em pontuais questões de consciência racial e feminismo.
A atuação da professora, filosofa e ativista Angela Davis é outro exemplo da importância da literatura e pensamento de Toni Morrison sobre o que os críticos apontaram como "feminismo pós-moderno", ao se referir à maneira como a escritora altera as dicotomias euro-americanas e reescreve a história contada pelos livros.
A citada primeira obra de Toni Morrison narra a trajetória de uma garota que queria ter os olhos de Shirley Temple, a atriz mirim hollywoodiana dos anos 30 que quando adulta tornou-se embaixadora em Gana e Checoslováquia. Pecola Breedlove, a personagem do livro, é uma menina negra e pobre. Sofre preconceito até mesmo de colegas na escola que têm a pele menos escura. A mãe trabalha para uma família branca. Nos aniversários ganha bonecas brancas com os olhos de Temple, canecas com o rosto de Temple, revistas com estampa de Temple. A cor negra é invisibilidade e deboche ao mesmo tempo e realidade. Aos doze anos de idade engravida, é banida da escola e afunda na loucura.
Os onze romances seguintes de Toni Morrison, além de peças teatrais, livros infantis, artigos, ensaios, toda sua obra, no fundo, no que tem mais anímico em sua criação literária, traz uma espécie de biografia de uma raça, um delirante e consciente desejo de luta, redenção e justa ascensão social.
Não à toa, Morrison foi a primeira escritora negra a receber o Nobel de Literatura, em 1993, como reconhecimento por "dar vida a aspectos essenciais da realidade americana”, como fundamentou a organização do Prêmio pela escolha.
Toni faleceu hoje aos 88 anos. Uma vida bem vivida em sua luta permanente, de olhos bem abertos.

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

bagagem

Dentro de mim
cabe uma cidade
outra cidade
e mais uma cidade...

dentro de mim 
cabe o universo 
e mais o vilarejo onde nasci.