segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Glauber morto

foto Luiz Garrido

O morto
não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto
não está barbeado
não está penteado
não tem na lapela
uma flor
não calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.

Quando Glauber Rocha morreu, em 1981, Ferreira Gullar escreveu este poema e publicou em uma página inteira do Pasquim, e posteriormente no livro "Barulhos", de 1987.

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