sábado, 24 de dezembro de 2016

e o que você fez?

Um jovem casal com o casamento em crise, um pai cheio de ressentimentos vivendo com uma mulher em perturbado estado alcoólico, garotos saídos da adolescência em permanente conflito e cobranças, carentes de afeto... E um homem de meia idade, sobrevivido de um passado complicado, empregado de um ferro-velho, tentando refazer sua vida. Ele chega a esse seu núcleo familiar em plena noite de Natal, e o que seria uma confraternização, mostra-se um desfilar de escamações. Troca de mágoas, queixas, dissabores em vez de troca de presentes. À mesa, um cardápio de pesares, compunções e desconsolos dá lugar à tradicional ceia de boas festas. Não há o ritual de amigos secretos, e sim, de inimigos íntimos.
Com esses personagens, situações e ambientações, desenvolve-se o roteiro de um filme denso, sombrio e verdadeiro: Feliz Natal, longa-metragem de estreia como diretor do ator Selton Mello, em 2008.
A construção narrativa é claramente influenciada por cineastas “contraventores” dos bons costumes de filmes que não fazem concessão à mesmice, não compactuam com o lugar-comum de um cinema dopante, como a argentina Lucrecia Martel e os norte-americanos Paul Thomas Anderson e John Cassavetes. Selton Mello segura firme na direção, demonstra o mesmo talento que tem à frente das câmeras, anuncia-se como um cineasta que não vai usar o seu nome, talento e reputação com filmecos de dramaturgia televisiva, o que se confirmou com o ótimo “O palhaço”, segundo longa, 2011.
“Feliz Natal”, com destaque para as atuações de Darlene Glória e Lúcio Mauro, ganhou apenas um prêmio em festivais, o de fotografia para Lula Carvalho, em Paulínia, e não teve grandes números em bilheteria. Apesar do reconhecimento de parte da chamada “crítica especializada”, é um filme lamentavelmente subestimado, errônea e apressadamente visto como uma exposição da condição humana sem saída, através da célula familiar, quando é exatamente a sinceridade do discurso que se propõe à reflexão, e que estejamos sempre atentos. Essa é a função sagrada da arte: espelharmo-nos para nos repararmos. A arte não condena, esmiúça nossas vísceras para que continuemos juntos, talhando e aprimorando nossa convivência neste mistério chamado vida.
Selton Mello ambienta seu filme justamente no contexto de uma noite onde a hipocrisia tem seu formato mais acabado, descrevendo uma conjuntura do cerne familiar como personificação de todas as relações humanas. Afinal, as grandes guerras começam entre quatro paredes, entre marido e mulher, entre irmãos, entre amigos. O amor também.

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