quinta-feira, 10 de novembro de 2005

o analista da Boca do Lixo

foto site Cinequanon

“É importante ressaltar que, ao contrário do que se diz por aí, o grupo da pornochanchada não foi apoiado pelo Regime Militar. A gente foi muito sacaneado, na verdade, e nunca ganhamos um centavo do dinheiro público. A gente incomodava por ter tido a habilidade de reconquistar o público popular para o cinema brasileiro, pois a gente fazia filme para o cara que pegava o metrô pra ir trabalhar e não para o estudante da USP. Qual era a nossa fórmula, então? Colocar umas mulheres peladas pra atrair esses caras. Eram filmes que tinham a nossa cara, a realidade do homem comum, e esses filmes agradavam. A gente também se beneficiava da Lei da Obrigatoriedade: se o filme dobrava a primeira e a segunda semana com público bom, ele só saía de cartaz com a anuência do produtor. Isso, para as multinacionais, era um transtorno. Imagina um filme com mídia mundial, que ganhou Oscar e tal, ter que esperar o filme do Cláudio Cunha, do David Cardoso ou do Tony Vieira sair depois da sétima, oitava semana. Eles não se conformavam com isso. Então, foi iniciada uma guerra contra os filmes brasileiros e as multinacionais tinham dois aliados poderosos: a censura, encarregada de acabar com a indústria que a gente criou, e a banda podre da mídia, encarregada de nos desmoralizar diante do público. Então, pra essa mídia, todo o filme que nós fazíamos era “pornô-alguma coisa”. “Amada amante” era pornodrama, “Sábado alucinante” era pornodiscoteca, “Vítimas do prazer” era pornoterror, “O Dia em que o santo pecou” era pornoluxo, e assim por diante. Aí, quando houve de fato a virada para o sexo explícito no começo dos anos 80, imposta pela indústria americana, eu resolvi “pornocudeles” e fiz “Oh, Rebuceteio!”, meu único filme de sexo explícito.”
Este é um trecho da hilariante entrevista com o cineasta Cláudio Cunha no site www.cinequanon.art.br
59 anos, ex-ator de novelas na década de 60, foi o mais atuante produtor e diretor de cinema nos terríveis anos 70, quando a chamada Boca do Lixo, em São Paulo, levava multidões às salas de cinema de todo país, muitas vezes fazendo bilheterias maiores do que muitos títulos americanos com atores famosos. Seus filmes eram de qualidades discutíveis, mas é interessante saber um pouco mais como funcionava a produção de cinema no Brasil naquele período. Nessa entrevista ele fala tudo e cita todos. Relata casos de bastidores que o público e até mesmo a grande mídia desconheciam.
Afastado do cinema há vinte anos, mas anunciando voltar com um projeto sobre o "maníaco do parque", Cláudio está em cartaz com o espetáculo teatral “O analista de Bagé” desde 1983! Por esse feito é citado no livro dos recordes Guinness.

Um comentário:

Cris disse...

Ni, muito boa a matéria sobre a Boca do Lixo, adorei. Gosto muito de visitar o seu blog. Beijinhos, Cris.