sexta-feira, 25 de novembro de 2005

as razões de Torero



"Dois tipos de razões me levam a escrever: as razões nobres e as plebéias. As plebéias são as tradicionais: fama, dinheiro e mulheres.
Pensava que, como um escritor, teria um pouco dessas três coisas, mas a fama de um escritor é irrisória perto da de um razoável centroavante. O dinheiro é ridículo, se comparado ao que ganha qualquer desafinado cantor de pagode. E, quanto ao gemido das mulheres, qualquer ator que tenha feito uma aparição na Globo é mais solicitado do que eu. Na verdade, até hoje só uma leitora sorriu-me de um modo mais insinuante: uma senhora chamada Noemi. Muito simpática, mas octogenária.
Há, porém, os motivos nobres. Como tive muitos professores humanistas, prendeu-se em mim essa idéia hoje tida como ridícula de que 'devemos lutar por um mundo melhor', hoje trocada por 'devemos maximizar os lucros'.
Acho que escrevendo, posso, de alguma forma, influenciar as pessoas. Posso fazê-las rir dos maus costumes e dos maus personagens, posso fazê-las perceber um vício e exaltar uma atitude, posso falar bem da honestidade e mal de Maluf e Pitta, posso falar bem da coerência e mal da compra de votos pela reeleição, posso falar bem da coragem e mal da aliança com o PFL.
Mas, na verdade, acho que nesse quesito eu também apenas vou conseguir virar a cabeça de Dona Noemi.
Enfim, apesar do fracasso de minhas motivações nobres e plebéias, não posso me queixar da sorte. O trabalho não me deixa suado como um cantor de pagode, não levo pontapés como um centroavante e, ainda por cima, ando pelas ruas despreocupado, sem temer que fãs puxem meus cabelos ou tentem rasgar minhas roupas.
Se bem que, no lançamento do meu último livro, Dona Noemi tenha me dado um beliscão na bunda."


José Roberto Torero Fernandes Júnior nasceu em Santos, em 1963, formou-se em Letras e Jornalismo pela Universidade de São Paulo-USP. Iniciou, sem terminar, cursos de pós-graduação em Cinema e Roteiro. Sua carreira de cronista começou no “Jornal da Tarde”, de São Paulo, e posteriormente passou a escrever textos sobre futebol para a revista “Placar” e o jornal “Folha de S. Paulo”, com a qual colabora desde 1998. É autor do best-seller “O Chalaça”, Prêmio Jabuti em 1995, e de “Terra Papagalli”, entre outros.
Como cineasta, dirigiu e escreveu curtas-metragens, dentre os quais se destaca o premiado “Amor!”, e trabalhou como roteirista nos longas “A Felicidade É” e “Pequeno Dicionário Amoroso”. Estreiou na direção de longa ano passado em "Como fazer um filme de amor".

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