terça-feira, 5 de julho de 2016

entre o inferno e o paraíso

No final dos anos 60, por toda a década de 70 e boa parte dos anos 80 e pouco nos 90, o cinema industrial americano de Hollywood teve uma cartela de cineastas talentosos que souberam muito bem produzir filmes mesclando perfil autoral com fórmula comercial, revertendo-se em reconhecimento da crítica e do público com bilheteria rendosa.

Peter Bogdanovich, Francis Coppola, Robert Altman, Martin Scorsese, Bob Rafelson, Hal Ashby, Bob Fosse, John Cassavetes, Sidney Lumet, Sydney Pollack, Jerry Schatzberg, são alguns desses cineastas, incluindo necessária e merecidamente Michael Cimino, falecido no último dia 2, aos 77 anos.

Cimino se destaca como um diretor marcado nessa lista por contrapontos em sua substanciosa filmografia de apenas sete filmes: o estrondoso sucesso de O franco atirador (The deer hunter), 1978, e o bombástico fracasso de O portal do paraíso (Heaven's gate), 1980.

O primeiro, um dos mais rigorosos relatos sobre a Guerra do Vietnã, (comparável em crueza e verdade a Apocalipse now); o segundo, uma espécie de anti-western sobre os barões do gado e imigrantes europeus no final do século 19, em Wyoming.

Enquanto Cimino recebeu cinco Oscars e reputação no paraíso entre os produtores por Atirador, O portal o colocou no inferno por suas extravagâncias no set de filmagem, levando um ano para concluí-lo, extrapolando o orçamento de 12milhões de dólares para 44. A United Artists faliu e Cimino só conseguiu recuperar um pouco a credibilidade em 1980, com O ano do dragão, sobre a máfia chinesa em Chinatown.

Cimino precisa ser revisto em sua genuinidade, principalmente analisando os seus filmes pós-desastre com Paraíso. Com tenacidade, o cineasta demonstra em seus derradeiros trabalhos, como no alusivo drama Na trilha do sol (The Sunchaser), 1996, o rascunho inquietante de uma América inclemente e ambígua em sua arrogância e prepotência.

Pode parecer contraditório para um cineasta pertencente a um cinema mercantilista e ideologicamente dominador. Mas Cimino pagou um preço por mexer na ferida, por provocar discussões sobre genocídios e racismo na zona de conforto.

Hollywood é implacável. Abatido, longe dos sets, Michael Cimino adoeceu e definhou por vinte anos e se foi silenciosamente. Entrou para a história do cinema. Virou cult.

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