segunda-feira, 11 de julho de 2016

a última esperança

O teórico do socialismo científico Friedrich Engels dizia que o homem só deixou de ser um animal meramente intuitivo, desenvolver-se, modificar-se e chegar a uma conjuntura moderna em benefício próprio, através do trabalho. Seu parceiro de materialismo dialético, Karl Marx, estendendo-se em viés sociológico, compreendia o homem por meio do entendimento do trabalho e sua relação com o capital.

Há uma hipótese pelos estudos linguísticos que a palavra “trabalho” veio do latim “tripalium”, instrumento feito de três paus aguçados, que na antiguidade os trabalhadores usavam para bater as espigas de milho, rasgá-las e esfiapá-las. A mesma origem etimológica nomina uma ferramenta triangular fincada no chão onde os romanos martirizavam os escravos. Juntando as espigas com os romanos imperialistas (ou capitalistas, para citar o parágrafo anterior), o homem é um escravo do trabalho, supliciado diariamente, e não um ser em atividade deleitável, como queria o filósofo contemporâneo português Agostinho da Silva, com sua doutrina calvinista.

O curta-metragem O homem que virou armário, do carioca-cearense Marcelo Ikeda, 2015, desperta, no mínimo, essas reflexões, considerações pertinentes em seus 22 minutos de projeção, que magnetizam o espectador como estivesse diante do espelho do seu cotidiano, descontemplando a rotina que não tem seu encanto, desdizendo aqui o título do filme de Yasujiro Ozu.

Com roteiro próprio, Ikeda dirige seu filme de forma minimalista, adequando-se a uma lógica de grafismo e funcionalidade do tema: personagens que trabalham mecanicamente carimbando e arquivando papeis, mudos entre os tic-tacs do relógio na parede, gavetas que se abrem e fecham, portas também, funcionários que chegam, saem, não se cumprimentam, que não existem entre si. Seres humanos que mais do que se confundem, se transmutem em biosmose para objetos. Todos passam a orbitar na mesma dimensão tátil e inanimada de folhas, carimbos, mesas, cadeiras, armários...

Ikeda cita em sua narrativa de coreografia cartesiana o universo claustrofóbico de Kafka, remetendo à angústia existencial distópica de O processo. Na mesma linha de alusão, Tempos modernos, de Charles Chaplin, em cada cena decupada, em uma referência diametralmente oposta, não as máquinas tomando o lugar dos homens, mas estes se transfigurando em objetos, pela recorrência da desesperança, pela repetição na repartição.

Atemporal, com alguns desenhos intencionais vintage, digamos, da direção de arte de Lana Benigno, uma acertada fotografia de Petrus Cariry, oxidada pelas horas que passam, uma edição rítmica de Tiago Therrien, o filme magnificamente pulsa em silêncios, em enquadramentos sem trilha sonora, em um ou dois movimentos de câmera. E assim como os personagens saem ao final do expediente, a câmera vai às ruas para respirar. Lá fora, o ambiente é o mesmo, ampliado em horários crepusculares, de pessoas que sequem para lá, que cruzam com outras que passam para cá, que continuam sozinhas na metrópole de um Fritz Lang futurista como antigamente. O diretor observa fixamente a todos os personagens, que pouco se notam, como não se veem os armários e suas gavetas.

Mas através do olhar de Ikeda, olhamo-nos. Essa é a intenção maior do cinema, adentrarmos ao cosmo de uma realidade reconstruída em pedaços para nos encontrarmos por inteiro. Ou mesmo fragmentados em nossas dúvidas, mistérios e dilemas.

Como uma janela que se abre no cenário, o cineasta concluiu seu filme e entrega a última esperança. Resiliência. A arte inala, aspira, inspira um fiapo de alma ainda que seja. Nos minutos finais, a personagem de Andreia Pires diante o homem que virou armário, Rômulo Braga, revela o seu sentimento guardado com a expressão mais revolucionária entre os seres humanos: “Eu te amo”. É única fala do filme. E dos melhores happy ends” que já vi na história do cinema. Parabéns, Ikeda!

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