sábado, 16 de abril de 2016

as últimas luzes de Carlitos

O ator e diretor Charles Chaplin, que hoje faria 127 anos de idade, tem em sua vasta filmografia, obras que se tornaram clássicas. O circo, Em busca do ouro, O garoto, Luzes da cidade, Tempos modernos, O grande ditador, só para citar alguns, são títulos que se incorporam na própria história do cinema.
Mas é com Luzes da ribalta (Timelight) que Chaplin atinge o ponto alto da essência em sua rica cinematografia. O personagem Carlitos é o espelho e efígie do ser humano, com sua alegria, dores e esperança. O riso de Carlitos é a gargalhada da alma. A tristeza de Carlitos é a lágrima da alma. O abraço de Carlitos é o aconchego da alma.
Não à toa, o crítico francês Jean Mitry disse uma vez que com o mito Carlitos, o ator criou um estilo de mímica que se refere mais ao conteúdo do que ao comportamento.
Rodado em 1952, Luzes... sedimenta essa definição. É o mais puro, original e, sobretudo, o mais profundamente pessoal filme de Charles Chaplin.
Ambientado em Londres no começo do século passado, às vésperas da I Guerra Mundial, a história conta a trajetória de um famoso palhaço, Calvero, uma espécie de Carlitos envelhecido, e em conflito com seu alcoolismo, com autoestima e outras encucações. Mesmo assim, salva uma bailarina amargurada, desiludida com sua arte, preste a cometer suicídio. Salva e lhe repõe a autoconfiança, fazendo-a voltar à dança. Uma relação amorosa começa a se delinear, a diferença de idade entre ambos assusta, e Calvero some, vivendo como um artista de rua. Ao voltar à ribalta, por insistência da bailarina, o palhaço sofre um infarto em cena, aos pés de sua protegida.
O filme é cheio de simbologia em todos os sentidos:
- O personagem Calvero é baseado no próprio pai de Chaplin, que faleceu vítima da bebida.
- A jovem bailarina é uma indisfarçável alusão à esposa e atriz Oona O’Neill, 36 anos mais nova, e uma menção declarada da preferência de Charles Chaplin por mulheres mais jovens. Oona e quatro de seus onze filhos estão no elenco, em papéis secundários.
- O cineasta não somente ambientou o enredo em sua terra natal como datou no mesmo ano, 1914, quando começou sua carreira circense na Inglaterra.
- Chamou para contracenar o seu arqui-inimigo da época do cinema mudo, Buster Keaton, como uma forma de “fazerem as pazes”, embora se diga que foi para subestimá-lo mesmo, fato que levantou suspeita pela afirmação do biógrafo de Keaton, que acusou Chaplin de ter cortado as melhores cenas entre os dois.
- Foi o último trabalho de Chaplin nos Estados Unidos, pois ao viajar para Londres para o lançamento, decide não retornar. Por suas posições políticas de esquerda, era visado pela direita do macarthismo, e diretamente perseguido pelo chefão do FBI, Edgar Hoover.
Depois de Luzes, Charles Chaplin dirige apenas dois filmes na Inglaterra, o irônico Um rei em Nova Iorque e o crepuscular A condessa de Hong Kong, onde faz apenas uma aparição, como mordomo, deixando o papel principal para Marlon Brando.
Chaplin apagou as luzes da ribalta, definitivamente, enquanto dormia, na noite de Natal de 1977.

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