terça-feira, 19 de abril de 2016

a serpente

Brutus enfrenta o fantasma de César, gravura de Edward Scriven, 1802

“...e, portanto, pensar nele como um ovo de serpente,
que incubado, deverá, em sua espécie crescer perigoso; 
e matá-lo na casca.”


Fala de Brutus, na peça Julio Cesar, de Shakespeare, escrita em meados do século 16.
A trama gira em torno da conspiração contra o personagem título, que aparece somente em três cenas. Com perfil de psicodrama, patriotismo, amizade e traição, a peça é, como diria meu amigo especialista em Shakespeare, Theófilo Silva, uma atualíssima reflexão sobre sucessão de liderança e poder, despertando preocupante hipótese de guerra civil .
O cinema fez duas adaptações, uma em 1953, por Joseph L. Mankiewicz, com Marlon Brando no papel de Marco Antonio, na verdade, personagem no qual se desenrola toda a peça ao dissecar seu conflito íntimo com a honra; outra versão foi a dirigida por Stuart Burge, com Charlton Heston, produção britânica de 1970, de menor relevância dramatúrgica em termos de transposição para a tela.
O interessante na fala de Brutus é que o cineasta Ingmar Bergman escolheu o termo “ovo de serpente” para o título de seu único filme de coprodução Alemanha e Estados Unidos, rodado em 1977, fora de seu país, pois o diretor estaria exilado em território alemão por problemas com o fisco sueco.
Ambientado logo após a I Guerra Mundial, o filme é terrivelmente premonitório em seu enredo, ao contar a trajetória de um judeu norte-americano em uma Berlim dos anos 20, arrasada em pobreza e violência, com o caos econômico e político, e um horizonte apavorante nos escombros do que viria na próxima guerra.
O título é apropriadíssimo, Das schlangenei”/The serpent’s egg, pois trata em toda a narrativa dos contornos do nascente movimento fascista e surgimento do nazismo.
De Skakespeare a Bergman, o ovo incubado rompeu a casca e continua apavorando a humanidade. Inclusive no lado debaixo do equador.

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