domingo, 16 de julho de 2017

nunca mais outra vez

O último dia de sol, de Nirton Venancio.

Na madrugada de 1.º de abril de 1964, dia seguinte ao golpe militar no Brasil, um ativista político foge com a mulher e o filho pequeno. A ação, baseada em fatos, passa-se numa pequena cidade do interior nordestino.

Exibição na programação Brasília em Plano Aberto - Mostra de Curtas-metragens, tema Ditaduras, CCBB Brasília, 2 de agosto, 19h30.

Nunca imaginei que fosse exibir meu filme com o país novamente em uma ditadura. Não é a mesma configuração dos 20 anos sem sol que o Brasil viveu após o golpe de 64, mas é uma ditadura. Uma ditadura técnica, derivada de um outro golpe, asséptico, institucionalizado, mediático.
Quando decidi fazer esse curta-metragem, reconstituindo um episódio pessoal – a detenção de meu pai quando os militares tomaram o poder – fiz um recorte do que o país inteiro viveu, duas décadas de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de “suicídios”, de corpos em valas comuns, sumidos, jogados ao mar. Por mais de quarenta anos que pais não têm seus filhos de volta, que filhos não conhecem seus pais, que brasileiros perderam o passado em cárceres e ainda ecoam em seus ouvidos a ira de seus carrascos. A tortura como instrumento do Estado, e da lei, foi uma marca registrada de cinco governos militares.
E assim como meu pai me guardava em sua luta e esperança por democracia, vejo-me agora diante dos meus filhos lamentando o Brasil que eles estão vivendo. Mas meu lamento sertanejo é revestido de luta, tenacidade, esperança.
Quando o país voltou a ser iluminado pela redemocratização, pela Lei da Anistia, pelas Diretas Já, pela eleição por voto de um operário para presidente, e pela primeira mulher a assumir a chefia de Estado e de governo da República, lembrei-me da letra de Vitor Martins, cantada por Ivan Lins, “Aos nossos filhos”, e enviei ao Universo, para onde foi meu pai, os versos finais parafraseados, dizendo-lhe que finalmente “brotaram as flores, cresceram as matas, colhemos os frutos”.
Hoje recorro à mesma letra, e converso e adjuro aos meus filhos que me “perdoem por tantos perigos / perdoem a falta de abrigo / perdoem a falta de amigos... / perdoem a falta de folhas / perdoem a falta de ar / perdoem a falta de escolha. ” Os dias estão assim. Mas não permanecerão assim. O empenho e luta pela democracia representativa, e não de porta-vozes, continua. Imensos sacrifícios não ficarão em vão.
Na foto acima, de Deise Jefiiny, o ator Joca Andrade no papel de tenente Castelo, e equipe, Sebastian Matias, Nirton Venancio e Pedro Rodrigues.

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