sábado, 1 de julho de 2017

as últimas luzes de Carlitos

Em Luzes da ribalta (Timelight), o ator e diretor Charles Chaplin atinge o ponto alto da essência em sua rica cinematografia. O personagem Carlitos é o espelho e efígie do ser humano, com sua alegria, dores e esperança. O riso de Carlitos é a gargalhada da alma. A tristeza de Carlitos é a lágrima da alma. O abraço de Carlitos é o aconchego da alma.
O crítico francês Jean Mitry disse uma vez que com o mito Carlitos, o ator criou um estilo de mímica que se refere mais ao conteúdo do que ao comportamento.

Rodado em 1952, o filme sedimenta essa definição. É o mais puro, original e, sobretudo, o mais profundamente pessoal filme de Chaplin.
Ambientado em Londres no começo do século passado, às vésperas da I Guerra Mundial, a história conta a trajetória de um famoso palhaço, Calvero, uma espécie de Carlitos envelhecido, e em conflito com seu alcoolismo, com autoestima e outras encucações. Mesmo assim, salva uma bailarina amargurada, desiludida com sua arte, preste a cometer suicídio. Salva e lhe repõe a autoconfiança, fazendo-a voltar à dança. Uma relação amorosa começa a se delinear, a diferença de idade entre ambos assusta, e Calvero some, vivendo como um artista de rua. Ao voltar à ribalta, por insistência da bailarina, o palhaço sofre um infarto em cena, aos pés de sua protegida.
O filme é cheio de simbologia em todos os sentidos:
- O personagem Calvero é baseado no próprio pai de Chaplin, que faleceu vítima da bebida.
- A jovem bailarina é uma indisfarçável alusão à esposa e atriz Oona O’Neill, 36 anos mais nova, e uma menção declarada da preferência de Charles Chaplin por mulheres mais jovens. Oona e quatro de seus onze filhos estão no elenco, em papéis secundários.
- O cineasta não somente ambientou o enredo em sua terra natal como datou no mesmo ano quando começou sua carreira circense, 1914.
- Chamou para contracenar o seu arqui-inimigo da época do cinema mudo, Buster Keaton, como uma forma de “fazerem as pazes”, embora se diga que foi para subestimá-lo mesmo, fato que levantou suspeita pela afirmação do biógrafo de Keaton, que acusou Chaplin de ter cortado as melhores cenas entre os dois.
- Foi o último trabalho de Chaplin nos Estados Unidos, pois ao viajar para Londres para o lançamento, decide não retornar. Por suas posições políticas de esquerda, era visado pela direita do macarthismo, e diretamente perseguido pelo chefão do FBI, Edgar Hoover.
Depois de "Luzes..., ele dirigiu apenas dois filmes na Inglaterra, o irônico Um rei em Nova Iorque e o crepuscular A condessa de Hong Kong, onde faz apenas uma aparição, como mordomo, deixando o papel principal para Marlon Brando.
Charles Chaplin apagou as luzes da ribalta, definitivamente, enquanto dormia, na madrugada de Natal de 1977, aos 88 anos.

Nenhum comentário: