segunda-feira, 3 de julho de 2017

eu não estou interessado em nenhuma 'tiuria'...

“Eu acho que a gente precisa abrir novamente a discussão sobre música brasileira, sabe? Eu acho que é preciso voltar novamente a polemizar sobre música brasileira. Muita coisa tá acontecendo na música popular brasileira. Quer dizer, está acontecendo e as pessoas não ‘tão vendo, não ‘tão falando, não ‘tão dizendo, não ‘tão querendo. Mas tá acontecendo muita coisa. E é preciso que os meios de comunicação, os críticos, as pessoas, tomem um conhecimento mais preciso disso. E os compositores novos estão todos abertos à polêmica. Estão todos abertos à discussão. Estão interessados nesse papo de música popular brasileira.
Quer dizer... fala-se que depois... depois... de Caetano, de Chico, de todos que estão aí, não apareceu mais ninguém. É muito interessante observar com mais cuidado, porque tá aparecendo muita gente. Marcus Vinicius, Walter Franco, Carlinhos Vergueiro, o Pessoal do Ceará... muita gente, muita gente. Fagner... o Luiz Melodia, o Raul Seixas... todos. Todos os novos são muito bons. Eu tô muito interessado no trabalho desse pessoal. Não tô interessado no passado. O resto pra mim é passado. E eu não tô interessado no passado. O resto é material de discussão. O resto é tradição. Então, eu tô interessado em uma linguagem nova... dentro da música popular brasileira. Novas palavras, novos signos, novos símbolos.
Quer dizer, a música popular brasileira precisa se ‘desprovincianizar’, e precisa perder o medo dos ídolos. Nós não ‘tamos interessados em idolatrias, em mitologias. Todos os mitos são iguais a... aos sabonetes, iguais aos pacotes de açúcar... iguais aos pacotes de macarrão e às frutas dos supermercados. Pra que esconder esse papo? Pra que ficar cultuando, pessoal? É mais interessante uma perspectiva de trabalho, uma perspectiva de uma abertura mais nova. O Brasil é grande. E o trem tá dividindo o Brasil como um meridiano. Tudo é norte, tudo é sul! Tudo é leste, tudo é oeste! Tudo é sol e tudo é lua! Todo tempo é tempo. Todo tempo é contratempo.”
- Belchior, aos 28 anos, transcrito do programa MPB Especial, TV Cultura, São Paulo, 2 de outubro de 1974, direção Fernando Faro.

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