sábado, 25 de fevereiro de 2017

ontem como hoje

"Colbert - Para arranjar dinheiro, há um momento em que enganar o contribuinte já não é possível. Eu gostaria, Senhor Superintendente, que me explicasse como é possível continuar a gastar quando já se está endividado até o pescoço.
Mazarino - Um simples mortal, claro, quando está coberto de dívidas e não consegue honrá-las, vai parar na prisão. Mas o Estado é diferente! Não se pode mandar o Estado para a prisão. Então, ele continua a endividar-se. Todos os Estados o fazem!
Colbert - Ah, sim? Mas como faremos isso, se já criamos todos os impostos imagináveis?
Mazarino - Criando outros.
Colbert - Mas já não podemos lançar mais impostos sobre os pobres.
Mazarino - Sim, é impossível.
Colbert - E sobre os ricos?
Mazarino - E os ricos também não. Eles parariam de gastar. E um rico que gasta, faz viver centenas de pobres.
Colbert - Então, como faremos?
Mazarino - Colbert! Tu pensas como um queijo, um penico de doente! Há uma quantidade enorme de pessoas entre os ricos e os pobres: as que trabalham sonhando enriquecer e temendo empobrecer. É sobre essas que devemos lançar mais impostos, cada vez mais, sempre mais! Quanto mais lhes tirarmos, mais elas trabalharão para compensar o que lhes tiramos. Formam um reservatório inesgotável... É a classe média!"
Diálogo da peça Le diable rouge, escrita em 2008 pelo francês Antoine Rault, um dos mais importantes dramaturgos do teatro contemporâneo.
Ambientada no reinado de Luís XIV, em meados do século XVIII, a peça é de uma atualidade impressionante. Incômoda, oportuna, reflexiva.
Qualquer semelhança com estes tempos temerosos, aqui e alhures, não é mera coincidência. A vida não imita a arte: a arte reflete a vida.
Acima, The Money Changers/Los cambistas, 1548, óleo sobre tela do holandês Marinus van Reymerswaele, exposto no Bilbao Fine Arts Museum, Espanha.

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