domingo, 30 de agosto de 2015

no sol de quase dezembro

“Resolvemos dar início – de fato – ao projeto em 2013, um pouco antes das manifestações de junho. E a peça estreia agora neste estranho 2015, ano no qual uma onda conservadora assola o país e a mídia, a ponto de vermos pessoas indo pras ruas de uma maneira leviana e estapafúrdia pedindo a volta da ditadura militar.”

O texto é do diretor de teatro Felipe Vidal, nas primeiras páginas do catálogo da peça musical Contra o vento (um musicaos), concebida por ele e Daniela Pereira de Carvalho. Durante dez anos, de 2003 a 2013, eles pensaram a ideia de revisitar o lendário Solar da Fossa, um casarão no bairro carioca de Botafogo, que de 1964 a 1971 abrigou boa parte de grandes da cultura brasileira. 

A música, o teatro, do cinema, a literatura, o Tropicalismo, a ressonância do movimento antropofágico de Oswald de Andrade, tudo que se configurava nos agitados anos 60 como resistência pensante contra o conservadorismo e a Ditadura Militar. Resistência pautada, sobretudo, pela alegria, pelo deboche, mas focado em mudanças. Eram jovens que amavam e seguiam outros jovens que amavam e seguiam Engels, Marx, Marcuse, Glauber, José Celso Martinez... Jovens que amavam a Bossa Nova, e também os Beatles e os Rolling Stones. 

A lista dos moradores do Solar, à época não tão ilustres, é extensa: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Paulinho da Viola, Tim Maia, Paulo Coelho, Torquato Neto, Betty Farias, Darlene Glória, Tânia Scher, Paulinho da Viola, Zé Keti, Abel Silva, Maria Glayds, Naná Vasconcelos, Claudio Marzo, Ruy Castro, e muitos, muitos inquietos e criativos artistas, que viviam no aconchego comunitário de estudantes, bancários, prostitutas, travestis... Os que lá não moravam, lá passavam horas e dias com a turma de pensamento pulsante.

Obras-primas do nosso cancioneiro foram compostas naquele templo de brio e pertinácia, como Sinal fechado, de Paulinho da Viola, que pousou ao lado de um dos portais do Solar para a capa do seu terceiro disco, de 1971. Caetano compôs a emblemática Alegria, Alegria no seu quarto de pensão. Os intermináveis oito anos que Leminski se dedicou ao seu alucinado livro de prosa experimental, Catatau, foi dada a largada dos rascunhos entre as paredes e corredores do casarão. Chico Buarque e Marieta Severo se conheceram em uma das festas malucas nos jardins da colonial hospedaria. E muitas outras histórias que foram impressas por não serem lendas.

Contra o vento (um musical), foi criado de forma primorosa a partir de entrevistas dos remanescentes, de reportagens, das referências que constam no livro Solar da Fossa, de Toninho Vaz, uma espécie de “biografia” do corpo e alma do casarão, lançada em 2011. 

A peça tem o mérito de “revisitar” o passado sem o ranço deprê da nostalgia. Tendo como fio condutor da narrativa um suposto diário incompleto de uma moradora, encontrado nos escombros da demolição, em 1972, o musical une de forma cuidadosa a memória, a reflexão, e usa o divertimento, a alegria da dança e da música, como corpo que se formata no palco para expor o cerne dos personagens com suas histórias, que é parte desse latifúndio na história do país. 

A concepção cênica de Felipe Vidal e Daniela Pereira se passa no Agora. Eles na verdade trazem o passado para o presente, e não uma simples “revisita” à casa da velha senhora no bairro de Botafogo, hoje um mostrengo de shopping, essa arquitetura robotizada em série mundo afora nas capitais. Há uma cena na peça que traduz de forma inventiva e poética a conjunção de dois personagens do passado no presente, a conjugação dos dois tempos e dois espaços em um mesmo momento dramático, como “deja vu” e como uma visão futura. O musical se passa no final dos anos 60 sem se deslocar do palco presente. Tem-se a visão de retrovisor, mas há o painel na frente mostrando o Agora. Esse é o grande barato do musical!

A “onda conservadora” a que se refere o diretor da peça no texto acima, e que “assola o país e a mídia”, é uma consideração pertinente no espetáculo. O espaço físico do Solar da Fossa está situado no espírito e percurso do país. E o espírito do Solar vem até este “estranho 2015” incidir sobre um nacionalismo equivocado, que joga na vala comum do desdém duas décadas de arbitrariedades, de prisões, de torturas, de mortes, de "suicídios", de corpos sumidos jogados ao mar, de pais que não tiveram seus filhos de volta, de filhos que não conhecem seus pais.

Dividida em três blocos narrativos, com 13 atores em afinadíssimas atuações, duração final de duas horas, o musiCaos Contra o vento montado pelo grupo carioca Complexo Duplo, encerrou temporada de um mês em Brasília, com apresentações do dia 6 a 30 de agosto, no CCBB. 

Sala lotada, ingressos esgotados. A repercussão da peça reverberou pela alegria e sua clarividência, pelo riso que não está apartado nem alienado da sensatez, pela música que exalta os tempos e seus personagens, pelo teatro que com sua arte do efêmero no agora do palco, celebra o eterno. Pela Arte que nos “desobriga” de simplificar a vida.

E por falar nisso, viva Cacilda Becker!

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