quarta-feira, 26 de agosto de 2015

o diabo investe prata

O projeto idealizado pelos cineastas brasilienses Marcio Curi e Renato Barbieri, Teste de Audiência, é uma das melhores programações para aqueles que acompanham as atividades culturais da cidade.

Com exibições na Caixa Cultural Brasília e Caixa Belas Artes São Paulo, o programa já testou mais de 70 filmes brasileiros de longa metragem, um número bastante considerável de qualificação e aprimoramento do diálogo entre os filmes e seu público.

Esse saudável e estimulante tipo de aferição, com a apresentação dos filmes ainda em aberto, em fase de finalização, tanto oferece aos cineastas questionar pontos importantes em seus trabalhos, visando falhas e acertos, eficácia na divulgação e na estratégia de lançamento, quanto uma formação de plateia que reflete a partir dessa primeira visão privilegiada.

A metodologia torna-se uma parceria entre público e diretores. Muitos filmes quando foram lançados tinham as impressões dessas experiências, de forma positiva, desde cortes de cenas à escolha de modelos de cartazes, depois da votação da plateia em questionários após as sessões.


Ontem, 25, foi apresentado o novo filme do cineasta paulista Toni Venturi, Comédia Divina, com Murilo Rosa fazendo um capeta garboso, sedutor, ardiloso, como compete a essa entidade do imaginário (ou do real) popular.

Adaptado livremente do curtíssimo conto de Machado de Assis, A igreja do diabo, o filme traça uma bem humorada crítica à eterna discussão entre o bem e o mal, entre céu e inferno, entre o que aceitamos como Deus e negamos como Diabo. Ou vice-versa. Ou de uma forma mais machadiana mesmo, o que é fé enquanto pensamos que é religião. Ou contrário.

Ameaçado pelos humanos muito chegados à bondade e outras virtudes, o Diabo resolve subir à Terra com sua equipe e fundar sua própria Igreja para derrubar a "concorrência" Divina, e assim aumentar sua legião de infiéis. Qualquer semelhança não é mera coincidência. 


Venturi ambienta seu filme nos tempos atuais, insere elementos contemporâneos na narrativa, cenários high tech, trilha sonora pauleira, gírias. Mesmo correndo o risco de se distanciar do texto original, consegue manter a essência que o grande escritor brasileiro questiona: a contradição humana. O “ou” do parágrafo anterior.

Autor de vários filmes importantes, como o documentário sobre Luiz Carlos Prestes, O velho, o estranho caso de amor de Latitude zero, e Cabra cega, um contundente recorte sobre jovens militantes na Ditadura Militar, Toni Venturi realiza com coragem o seu filme mais direcionado às grandes plateias, confessadamente desprovido do que se rotulou “cinema de arte”, o que não significa perder “qualidade”. Não, o cineasta não “vendeu sua alma ao diabo”. Ousou desafiá-lo, digamos. Ou não.

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