quinta-feira, 27 de agosto de 2015

assim descaminha a humanidade

"Boa parte das revoltas, guerras, batalhas, revoluções que ocorreram no mundo desde a abertura do primeiro poço de petróleo na Pensilvânia, em 1959, tiveram como causa a luta por esse óleo precioso, que fez a diferença do sucesso ou insucesso das nações."
  - Theófilo Silva em seu livro Shakespeare indignado, 2012

Há 156 anos, numa tarde de 27 de agosto, o empresário norte-americano Edwin Laurentine Drake, conhecido como "Coronel Drake", fez jorrar o líquido negro das entranhas de 23 metros de profundidade. Ele construiu a primeira torre de petróleo do mundo, na região centro-atlântico da Pensilvânia, hoje um dos estados mais industrializados e urbanizados dos EUA.

Naqueles meados do século 19, o posteriormente chamado "ouro negro" era apenas um mero, mas bem-vindo, combustível para acender lamparinas. Não demorou muito, quase nada no tempo, para o precioso líquido ser destilado com mais precisão e produzir carburantes como querosene e etc e tal. O resto é história. Bem sabemos. E bebemos diariamente o petróleo nosso de cada dia em que morremos. Até isopor é derivado de petróleo.

A foto acima é de Giant, de George Stevens, rodado em 1955, no Brasil adequadamente intitulado Assim caminha a humanidade

Baseado num romance pouco reconhecido de Edna Ferbes, o filme é ambientado no Texas, no começo dos anos 20, e narra a história de várias gerações de uma mesma família, tendo como pano de fundo as mudanças de um país com a descoberta e consolidação do tal “ouro negro”.

Costurado com a conflituosa relação amorosa entre três personagens, vividos por Elizabeth Taylor, Rock Hudson e James Dean, a narrativa consegue de forma magnífica mostrar a "involução" do ser humano em analogia com o que seria "evolução" e progresso com o advento do petróleo. Exatamente como discorreu e refletiu Theófilo Silva no trecho acima.

O filme foi, por outro lado, divulgado como um legado contra a intolerância racial, por pontuar essa contenda entre alguns personagens. Mas sempre considerei que esse grande filme americano – quando Hollywood fazia Cinema mesmo -, muito além disso. 

Giant não trata somente das divergências raciais: avança na dissecação desse rebanho humano que segue nas relações amorosas, familiares, nas disputas econômicas, sem medir esforços e dispostos a desconhecer valores de grandeza do combustível que jorra do coração das pessoas.

Algo como cada um por si e Deus (ou o Diabo) contra todos – parafraseando a frase de Mário de Andrade, usada em Macunaíma, e aproveitada como título original no filme de Werner Herzog, O enigma de Kaspar Hauser (Jeder für sich und Gott), 1974.

Assim caminha a humanidade, foi o último filme de James Dean. É a sua melhor atuação, entre os três principais em que trabalhou, Juventude transviada (Rebel without cause), de Nicholas Ray, e Vidas amargas (East of Eden), de Elia Kazan. 

O belo, carismático e mítico ator faleceu aos 24 anos, quando Giant ainda estava sendo montado. James Dean não viu até que ponto a humanidade descaminhou.

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