terça-feira, 1 de setembro de 2015

Artaud e seu duplo


  foto Marcelo Dischinger
“Não quero que ninguém ignore meus gritos de dor e quero que eles sejam ouvidos”, dizia o poeta, ator, escritor, dramaturgo francês Antonin Artaud, esse visionário das contradições humanas que viveu do final do século 19 a meados dos anos 40 do século passado.

Artaud viveu a sua loucura por 51 anos, com sua extensa obra pulsante entre o modernismo, o surrealismo e os manicômios. O mundo é um hospício. A vida é cruel. Tais definições não são aleatórias, e se fundamentam quando se adentra a obra do grande dramaturgo. Artaud entregou-se com seu duplo corpo-e-alma a questionar a estupidez do homem, o homem como lobo do homem, o homem como esperança e desespero em si.

Em todas as vertentes, linhas, rumos, trilhas e tendências que Antonin Artaud projetou seu pensamento, através da literatura, teatro, cinema, pintura, convergem para uma investigação cênica, dissecadas em cartas doloridas, ensaios questionadores, manifestos polêmicos, conferências intensas, roteiros inovadores para filmes, peças vanguardistas, desenhos e pinturas que extraiam do rupestre coração dos homens o que mais lhe sangrava.

Isso exposto aos nossos olhos, que precisam estar sempre atentos e fortes, é justamente no universo de uma montagem de um texto de Artaud, que se conversa com Artaud. É preciso a visitação anímica a ala desse “hospício”, e entender porque ele não quer que seus gritos sejam ignorados, que sejam ouvidos, porque os urros condoem-se por nós. Artaud nos representa como misteriosa espécie humana que somos. 

A encenação de um dos seus mais pungentes textos, Para acabar com o julgamento de Deus, com direção e atuação de Adeilton Lima, é um exemplar digno e à altura do pensamento e inquietação do autor francês. Apresentada no último dia 27, no Teatro Goldoni, dentro da programação do Festival Cena Contemporânea 2015, em Brasília, o monólogo parte de escritos elaborados para uma emissão radiofônica proibida de ser veiculada à época. Não à toa, o dramaturgo engenhou esse seu grito nos escombros da Segunda Guerra. Não à toa, o poeta se desfez do corpo e foi embora dois anos depois. Não à toa, Adeilton Lima invoca, incorpora e não larga Antonin Artaud em 60 minutos de palco.

A montagem desse legado sobre a condição humana tem na concepção cênica de Adeilton um desenho ritualístico que clama o íntimo, o âmago das culturas primitivas. Artaud fazia em sua obra esse mergulho, medula a dentro da subsistência humana. O ator em interpretação, em cada gesto,
coreografa a inquietação do dramaturgo, com referência e reverência.


A poesia vulcânica de Artaud está tanto no gestual minimalista quanto no grito remoto e repentino que Adeilton ecoa em palco. Os elementos água, fogo e ar coadunam essa, digamos, sessão “mediúnica” do ator com o autor, do brado com a audição, do ontem com o sempre. Uma interpretação visceral como a de Adeilton para um texto arraigado como o de Artaud é o teatro e seu duplo. E isso não é pouco.

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